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Jornal Boca do Inferno #26

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Jornal Boca do Inferno #26

  1. 1. FINALMENTES ISSN 2178-308XSOBRE A VÍRGULA Vírgula pode ser uma pausa... ou não. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA “Não, espere.” “Não espere..” Ela pode sumir com seu dinheiro. “23,4.” “2,34.” Pode criar heróis. “Isso só, ele resolve.” “Isso só ele resolve.” Ela pode ser a solução. “Vamos perder, nada foi resolvido.” “Vamos perder nada, foi resolvido.” A vírgula muda uma opinião. “Não queremos saber. “Não, queremos saber.” A vírgula pode condenar ou salvar. “Não tenha clemência!” Não, tenha clemência!” Uma vírgula muda tudo. ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da suainformação. Detalhes Adicionais: Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria de quatro à sua procura. Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER. Se você for homem, colocoua vírgula depois de TEM!E Jornal Boca do Inferno COLABORADORES Carlo Giacomitti IMAGENS A prisão de Cristo (Caravaggio, 1602) Publicação do Centro Acadêmico deX Letras da UFPR Edição 26 - julho a setembro/2011 Cecília Broilo Cristiano Mello de Oliveira Daiane de Fernandez Narciso (Caravaggio, 1594-1596) Ivonaldo Alexandre/Gazeta do PovoP EDITOR Daniel Martineschen Eva Cristina Rodrigues Avelar Dalmolin celin.ufpr.br livrodoescritor.blogspot.com Francisco de Matteu “Sem título” (manuscritos de Lima Barreto)E José Olivir de Freitas Junior Jéssica D. Clemente Natasha Durski armonte.wordpress.com chkreb.wordpress.comD CONSELHO EDITORIAL Elisa Tisserant de Castro Rodrigo Francisco Barbosa Sara Duim Dias Sérgio Ferreira mrm2124.com Luana do ValleI Luciane Alves Ferreira Mendes Maria Isabel Silveira Bordini Vinicius Ferreira Barth Ygor Raduy s118842024.onlinehome.us noumena4.wordpress.comE Willian Pinheiro DIAGRAMAÇÃO Fernando Zago lordshadowbane.deviantart.com fromoldbooks.org outras imagens da internet, sem indicaçãoN REDAÇÃO Aguinaldo Roberto Moreira IMPRESSÃO Editora e Gráfica Paraná Press de autoriaT José Olivir de Freitas Junior Taira Sakr TIRAGEM Os textos assinados não refletem necessariamente a opinião deste joral. Thayse Letícia Ferreira 2000 exemplaresE ISSN 2178-308X24 . BOCA DO INFERNO . CAL UFPR
  2. 2. TEXTÍCULOSEDITORIAL “Não sejam como as multidões cambaleantes quedespencam dos píncaros azulados”. É com as pala- mentos do tipo “é um ritual de mudança de status, igual ao de completar a maioridade ou ao de casar”, mento. O que não consigo digerir é que quando finalmente terminamos o curso, antes da festa toda AMORES PERROSvras da ilustre vice-diretora do nosso Setor de Ciên-cias Humanas, Letras e Artes que inicio a difíciltarefa de redigir um editorial. O editorial, por exce- ou ainda “temos que ter uma cerimônia, porque senão todo o tempo despendido na graduação pare- ce não ter tido um fim”. Particularmente, nenhum que vem em seguida somos obrigados a passar por uma maçante exibição da brilhante oratória dos nossos dirigentes (queira ver a citação que coloquei ACEITAÇÃO MATTEUlência, traz a opinião do editor sobre assuntos das deles me convence. Claro, é muito emocionante na primeira linha deste texto), que serve tão somen- HELDER SANTANAmais variadas ordens. Ou não. O meu editorial, receber um canudo com o comprovante de que pas- te para nos causar imenso enfado até que possamos [divaneo.blogspot.com] tenho certeza de que me amaparticularmente, sempre tem relação com uma coi- samos uma etapa importante, mas não é só por isso comemorar, com todas as conotações e denotações aliás disso nunca duvideisa em duas: ou é sobre o que você vai encontrar nas que fazemos um curso superior. Já pensou se todos que cabem na palavra, nossa vitória pessoal que é a tu tens é medo do amor que sente estava onde sempre esteve, ensimesmo. ansiava deslocar-se de si. porque ele é mais forte que tipáginas seguintes, ou é sobre algum assunto que não que entrassem na universidade esperando pelo dia completude da formação.foi incluído na pauta, mas que merece alguma aten- da formatura? Que formação teria você se pensasse Acho que é necessário reforçar que não sou con- resolveu descascar, extinguir-se em camadas.ção da nossa (de todos) parte. assim? Sejamos realistas: tem muita gente por aí que tra o festejo, a comemoração e tudo mais. O que deixou-se de molho por dias, até a pele enfim soltar. sabes bem também Pois bem, metaeditoriais à parte, quero falar hoje pensa exatamente isso. Mas tem gente que não. quero dizer com esse editorial-manifesto é que, vísceras puseram-se a mostra, ficou pleno pelado, exposto, posto em si. que me trata malsobre as formaturas. A frase com que iniciei a con- Gente que optou por uma área do conhecimento, independente de como damos fecho ao período por vislumbrou a pele esparramada ao redor, casca oca, disfarce disforme. e sequer mereceversa desta edição foi proferida na cerimônia de que escolheu por – supostamente – gostar, que vai que passamos, não precisamos de sessões parnasi- minha companhiacolação de grau dos nossos queridos colegas de estudar com afinco porque é o que quer fazer. Este anas de exibicionismo ou decoreba de discursos. a tudo brutalmente sentindo sem o refinamento da epiderme. tal amor que sentecurso, que nos deixaram para a vida profissional. é o tipo de profissional que se espera que saia do Precisamos sim do reconhecimento da luta que tive- entranhas estranhavam o toque áspero do ar que esbarrava.Não que isso seja ruim, claro, mas sempre dá aque- nosso curso. Se esperássemos outra coisa, mudáva- mos (e vencemos, é claro, senão não faríamos for- aproximara-se de si ao revés. também habitava seu avesso. mas já te disse uma vezla saudade daqueles que nos acompanharam por mos de curso (e instituição também). É, acho que matura), que é o que acontece logo após a fastidiosa adentrava-se ao esvaziar-se? porém direi novamenteum longo tempo e que, “de repente, não mais que mudei de assunto. cerimônia. Talvez seja por isso que, a cada ano, mais tente se perderde repente”, somem da vista. Sorte, muita sorte a Voltando ao foco, o que vi e tenho visto, na minha e mais formandos optam pela formatura sem sole- de mim completamenteeles, que vão encarar agora o que nós, que ficamos, não tão longa experiência com formaturas alheias nidade, conhecida carinhosamente por “extrema- resolveu arriscar. reduziu o intestino pela metade, arrancou um lado do que vou te lembrarainda não conhecemos (calma, leitor, estou falan- (afinal, só sou editor porque ainda não sou forma- unção” de fim de curso. Ah, antes que eu me esque- pulmão, extraiu baço, rim, córnea, uma ou outra articulação. não menos que eternamentedo de formatura, não de morte). do...), é que aquele rito de passagem, conclusão da ça, para fechar com chave de ouro, nada melhor percebeu-se cérebro e coração. e ainda braço, tronco e mão, para o caso quem tu és Voltando à conversa, o que quero expressar aqui etapa, ou seja lá o eufemismo que dão por aí para o que citação de formatura: “por que nesta noite, o de querer desligar a pulsação.é o que muitos dos que se formaram perguntam: evento, me parece nada mais que o cumprimento momento é o presente”. e o que tu sentepara que diáfanos serve a tal da colação de grau? protocolar de uma cerimônia vazia, que não mostra quando mais se encurtava, mais se concentrava, como se a alma tivesse tu foste euBem, é uma pergunta embaraçosa. As autoridades a real dimensão do que fizemos durante quatro ou Tem dúvidas, sugestões, quer contribuir com textos ou que se encolher para caber no que restava. eu çfui te sempre(não me refiro à polícia nem a especialistas em cinco anos. Quero chamar à atenção que me refiro apenas falar conosco? Envie e-mail paraformaturas, é óbvio) que participam desse tipo de aqui, não ao ato de conquistar algo que lutamos a jornalbocadoinferno@gmail.com e abra a Boca! o leite que bebes do seio Estamos à disposição! pôs-se a cutucar cérebro. cada beliscão, uma explosão. algum membro se está roto e azedo ultimamenteevento sempre defendem a cerimônia com argu- duras penas para conseguir, não é esse meu pensa- que não mais existia se contorcia, o dedão do pé ausente tremia, cheiro outrora foi doce e quente de infância ressurgia, nublava, chovia, coçava, ardia. a mente resgatava alimento do seu crescimento tudo que não mais havia. vital para tua vida presenteNESTA EDIÇÃO nem tua mãe nem tudo que já te deu sustentoEDITORIAL .............................................................................................. 2 DESPEDIDA hesitou. te atreves a odiar completamente Balanço da gestão .................................................................................. 15 pararia coração, encerraria veias ventilação. à ela e à mim não seja indiferenteENSAIO mente sufocaria e alma desnutriria. ou ao sêmen, sangue e vinhoDo tradutor literário................................................................................ 3 TRADUÇÃO que bebeste anteriormente Johann Wolfgang Von Goethe: uma palavra aos jovens poetas ....... 16 ausente de visão, nó cego deu na artéria.MATÉRIAS When we two parted ............................................................................. 17 energia restante bombeou bambeando, sinapse entrou em ápice. toda noite antes de dormirSem metáforas estruturais, aqui, discussão é guerra .......................... 4 ou depois de com outro trepar o último estímulo nervoso relaxou. você vai se sentir sozinhaO que é uma Empresa Júnior? ............................................................... 5 sub-realidade e pensar que podia sonharCelin, o zero e o infinito, lamento sobre um não-fazer acadêmico.... 6 Não é sobre amor .................................................................................. 18 luz, sombra, escuridão. com sorteAtividades formativas: o que, como e quando cumprir ...................... 6 e, agora, ainda havia? comigo ao se deitar TEXTÍCULOSRESENHA Aconchegante imensidão ...................................................................... 19 ausente de tudo, nada. nadava ainda em si. no seu sonho irreal eu te amo"Ribamar", de José Castello .................................................................... 7 Inércia ..................................................................................................... 20 e nunca te abandono plenamente, sem mente. não importa a dor que me causa Réquiem .................................................................................................. 21 como nunca e sempre. ser viralata sem donoARTIGOS Vinho ....................................................................................................... 22Os manuscritos e as fontes primárias de Lima Barreto .................. 8-9 Ah como tece!......................................................................................... 22 chorou sem olhos, estremeceu sem cérebro, pulsando presença ausente de bomba-coração. mas você vai ouvir pra acordar Principado escarlate .............................................................................. 22 escute bem para se lembrarLECTURAS HISPANOAMERICANAS Aceitação ................................................................................................ 23 “por mais que você encha essa sua bucetinhaFilosofía del lenguaje y lingüística ................................................. 10-11 Amores perros ........................................................................................ 23 tendeu a negar, mas entendeu. seu coração sem mim vai vazio continuar” abraçou-se sem braços e lhe disse mudo, me perdoe se doer a verdade que enuncioENTRE E VISTA FINALMENTES ..................................................................................... 24 enfim, não abro tuas pernas para meramente te foderEva Dalmolin .....................................................................................12-14 EXPEDIENTE ........................................................................................ 24 sim abro teus olhos para que possas me entender2 . BOCA DO INFERNO . CAL UFPR CAL UFPR . BOCA DO INFERNO . 23
  3. 3. TEXTÍCULOS ENSAIO 1VINHO AH COMO TECE! DO TRADUTOR LITERÁRIOJÉSSICA D. CLEMENTE RODRIGO FRANCISCO BARBOSA [semcentro@gmail.com] DANIEL MARTINESCHEN [martineschen@gmail.com]O gosto não é mais o mesmo, E essa boca que nem mesmo fala?A visão da velha Já há muito se debate acerca do que diferencia o meiramente, entender as ressignificações que esseRezando baixo num canto, Respira inerte carregando a baba; texto literário dos demais textos, definidos de ma- texto produz, logo é uma leitura. Em segundo lugar,Entoando seus mantras, Poe’m lábio seco despedida e choro neira circular como “não-literários”. Depois de milê- é reproduzir essas ressignificações em uma língua/Não lhe traz um sentimento Que tampouco aqui, cabem dois sonhos tolos. nios de discussão, passando por perspectivas teóri- cultura diferente da do original. Para isso, dicioná-Preciso.Você sabe que acabou. cas das mais diversas, mais ou menos objetivizantes, rio só não basta, é necessário artesanato. Traduzir E se t’ investe a cólera funesta mais ou menos subjetivizantes, mais ou menos um texto literário é, portanto, trabalho artístico tão Que põe gast’o corpo de sanguínea face,As longas conversas duram cada vez (des)estruturantes, ainda não há consenso do que criativo quanto o do original. Terceiramente, tradu-Menos. Apressa pois, remédio d’ânimo corado seja um texto literário – eppur si muove: mesmo assim zir um texto literário é mais do que reproduzir oE são cada vez Que na boca o amor torna-se já minguado. conseguimos diferenciar um romance de uma bula “sentido original” em outra língua; é produzir esseMenosAgradáveis... de remédio, um conto de um relatório técnico, um “sentido” de uma forma tão idiossincrática e criativa Ah, sem demora quando a boca é fala,Positivas... poema de um texto quebrado em linhas de 10 síla- em uma língua quanto foi feito na língua original. E de cabo a boca já desembestadaConstrutivas... bas, uma tese de doutorado de um romance picares- Nesse sentido, reforça-se o caráter artístico e cria-Instrutivas. Tram’entre dois guardar espaço, co (por mais semelhos que às vezes sejam). Quando tivo da tradução literária. E, finalmente, traduzirVocê sabe que acabou. A galope eu sei que a dor não passa. fazemos – e fazemos! – essa distinção, parece aquela literatura é aproximar culturas, criando espaços deSobe-lhe a boca o gosto da bile situação em que brasileiros tentam definir a palavra interação e de intercâmbio cultural e financeiro. Ah, sem demora quando a boca é fala,Só de ouvir falar. saudade para um estrangeiro. Todo brasileiro sabe o Essa última palavra, financeiro, paira muitas vezes Que nos põe a frente tudo já que cala,Causa-lhe dor de cabeça e que ela significa, sabe o que sente, mas mesmo assim como um fantasma dúbio sobre o tradutor literário.Ulcerações no trato gástrico Qual pernud’aranha circuland’o passo não consegue explicar de maneira “objetiva” o que Enquanto se mete nessa “roubada” de recriação artís-Se tiver de visualizar a cena. Estes lábios vis vão teceland’o nada. seja saudade – eppur si muove: continuamos sentindo tica, por amor à arte e à tradução, o tradutor literárioVocê sabe que acabou. saudade, sabendo quando ela aparece e a diferenci- está submetido a uma lógica prática: deve traduzirVocê entende. ando de raiva, enjoo, êxtase religioso ou coceira. onário tem uma definição que talvez não compreenda bem o que é bom, o que vende, e deve traduzir rápidoAceita, deve aceitar que acabou.Pois, de fato, acabou, meu velho. PRINCIPADO Deve haver, portanto, alguma característica que estes e nem os mais de seis bilhões de outros signifi- seja, mesmo que inexprimível, característica (perdoe o cados particulares que se possa criar. e no prazo. Muitas vezes nem escolhe o que vai tradu- zir, entrando em um projeto editorial e tendo deE até que acabou rápidoNão foi?Quase nem sentiu o fim; ESCARLATE pleonasmo) do texto literário. Talvez o ponto de O texto literário é um produto de criação, de ressig- partida mais seguro seja o de que todo texto literário nificação do mundo e das palavras. É uma obra de podar escolhas e impulsos que não se coadunem com esse projeto. Isso tudo condiciona e pode limitar oQuase nem foi possível determiná-lo. FERNANDO ZAGO é a expressão do espírito criativo de um(a) autor(a), arte, que lida com objetos, imagens, ideias de ma- trabalho do artista-tradutor, no entanto não o des-Mas agora consumado da visão de mundo peculiar de uma pessoa, que resol- neira criativa e inovadora – no sentido de atribuir às motiva: este, diferente do tradutor técnico, escolhe aVocê sabe que acabou. veu transformá-la em palavras (a pessoa a visão, não palavras significados que não sejam os do dicioná- embaixada em que vai trabalhar por amor a ela, por Sereno e mal amadoEntão, você sabe que acabou. Fixado nas tarântulas o contrário (?)). Cada ser humano procura, encontra rio ou que se sirvam a um propósito (re)criador. um sentimento de Fernweh de tudo que foi escrito emDeixe de ser inconveniente, Tantas em seu mundo e/ou cria significados nas coisas da vida, que não Esse procedimento é sentido pelo que os formalis- outra língua e ainda não foi reescrito na sua.Seu incompetente, sua mula Arruinado pelo pecado necessariamente são os tas russos chamaram de Nesse sentido, o tradutor literário tem lugar ga-Bestial! mesmos para os outros. um texto literário chama a atenção estranhamento: um texto rantido na embaixada sem sede da interação weltli-Peça logo outro desses! Um pôr-do-sol pode ser a para si porque diz mais do que está literário chama a aten- terária, mesmo que sua arte pareça “menor” ao mer- Escorre em sua faceNão deixe minha taça vaziaMuito tempo: ela esfria. Seria um orvalho, uma lágrima? coisa mais sensacional e falando. E é neste ponto se diferencia ção para si porque diz cado, tanto da parte de quem vende quanto de quemEu gosto de vinho quente! Ou seria uma dádiva profunda para alguém que de outros textos mais do que está falan- compra. Mas talvez esteja em melhor lugar que o Pelo que lhe é imposto? enxergue as cores pastel do. E é precisamente nes- técnico: pode até ganhar menos, mas seu nome e suaNão se faça de avarento do céu nesse momento e sinta a desaceleração da te ponto que o texto literário se diferencia de ou- dicção aparecem na obra de arte reescrita. O tradu-Não combina com esse saber natureza e “entre no clima”; da mesma forma, pode tros textos, pois seus significados estão para além tor técnico, parece, está condenado mais drástica e Seus entes já não lhe convémVocê e eu sabemos que não foi só issoQue acabou. Suas lembranças já não lhe convém ser um evento tão banal quanto uma topada num do que o dicionário e a sintaxe determinam. Em definitivamente à posição de sombra, de agente não-Acabaram-se também os tira-gostos. Finito prazer, prevista tragédia paralelepípedo para quem se entende vivendo sobre textos jornalísticos, científicos, de âmbito empre- agente, do motorista de ônibus que não está ali, pois Infeliz desfecho, perpétua culpa uma bola de terra girante em torno de uma bola de sarial, previsão do tempo, trabalhos escolares (há “só transporta daqui pr’ali”. Oxalá o tradutor deixe,Garçom, mais um, fogo girante. Esses seres humanos atribuem signifi- claramente zonas fuzzy), etc., não se trata de criar um dia, de ser vulto e sua atividade deixe de serE uma tábua de petiscos, por favor, Em seu mundo não existe mais ninguém cados diferentes ao evento “pôr-do-sol”, que no dici- novos mundos, novos significados, mas falar do meramente “instrumental”!Porque essa garrafaAh, essa ele sabe Permanece viva apenas sua tristeza 1 que já existe. A literatura cria, a não-literatura 3 Ensaio apresentado à disciplina Crítica e Prática de Tradução 3, ministrada pelo “Saudade” em alemão, mas a saudade do que está longe, do que ainda não se viu.Você sabe também, E a falsa beleza de quem o matou Professor Caetano W. Galindo no 1º semestre de 2011. explica, analisa, define, está sob controle. 4 Nos sentidos goethiano e herderiano do termo: tanto o que é canônico (“bom”) quanto o queAcabou. Com o atraente perfume de seu amargo veneno 2 http://www.phdcomics.com Nesse sentido, traduzir um texto literário é, pri- é supranacional, expressão literária do espírito humano.22 . BOCA DO INFERNO . CAL UFPR CAL UFPR . BOCA DO INFERNO . 3
  4. 4. MATÉRIAS TEXTÍCULOSSEM METÁFORAS ESTRUTURAIS, AQUI, DISCUSSÃO É GUERRA RÉQUIEMTHAYSE LETÍCIA FERREIRA YGOR RADUY Para a teoria semântica referencial, uma expressão signi- nacionais e tal fato não seria ruim apenas para os servidores, aparecem em manifestações trajando camisetas vermelhofica algo diferente dela própria. Levando o statement acima mas também para a própria UFPR e toda a comunidade marxistas ou então empunhando bandeiras de partidos co- Mas como persistir na poesia Pois embora tal discurso seja belo Porém, não sejas ingênuo;em consideração, podemos dizer que agimos de acordo com (acadêmica e externa), se pensarmos que isso traria prejuízo munistas trotskyanos, perdeu-se boa parte da credibilidade se já não há quem ouça o canto? e embora concordes com o que dizem, poupa-te a ti mesmo de ser toloo modo como percebemos as coisas, pois o ato da enunciação ao atendimento ao público e levaria a um sucateamento do movimento estudantil enquanto tal. Tendo em vista queestá além da fala, já que possuímos muito mais do que ainda maior do serviços hospitalares. o movimento não se caracteriza pela visão ideológica de UMA tu sabes , como eles mesmo o sabem, e reconhece o óbvio e explícito:conhecimento linguístico inato. Outra coisa é que há tam- A partir desse momento instauraram-se assembleias per- classe, às vezes pareceu muito mais uma intriga partidária do E se nem mesmo sabes o que cantar que nada daquilo faz sentido algum, o mundo em que vives já não quer teu canto,bém uma situação externa que convenciona a ideia prévia do manentes, para deliberações acerca da greve e do diálogo com que uma luta verdadeira para melhorar a nossa educação e se o canto te sai torto e amargo? a não ser dentro daquele estrito círculo.) o mundo já nem sabe do que te ocupas,que vamos enunciar. Temos contexto no mundo e é justa- a Reitoria e com o governo federal. Os servidores mantiveram universitária pelos universitários.mente por possuirmos contexto que estruturamos nossa fala o mundo tem em vista outros interesses, o comando de greve firme, fazendo reuniões, passeatas e A princípio, a paralisação estudantil não foi “reconhecida”.através de metáforas, porque nosso sistema cognitivo é de principalmente pressionando a Reitoria para que as pautas Parecia aos alunos, de um modo geral, uma grande besteira, E se nem te lembras mais o que é “poesia”, O peso das coisas, as lufadas da manhã, dos mais úteis, mais rentáveis.natureza metafórica. Dessa maneira o discurso é construído locais fossem resolvidas. O diálogo foi realmente complica- afinal, sem professores e sem técnico-administrativos não se o próprio mundo já não quer saber, as dores do corpo e as saliências do corpo:a partir de relações estabelecidas por metáforas cognitivas do, tanto que a classe dos servidores foi a última a declarar o haveria aula de maneira alguma. Mas, por outro lado, a se as coisas do mundo se recusam? serão ainda objeto da poesia?anteriores a cada um de nós. Podemos observar determinadas fim da greve. Com a paralisação dos servidores, laboratórios paralisação era legítima, os alunos tinham pautas próprias eestruturas do discurso, onde uma situação é construída não funcionavam, as bibliotecas permaneceram fechadas e aderiram à greve enquanto apoio político às outras causas. E estás condenado ao desprezoparcialmente através de outra; como exemplo clássico, temos os alunos não puderam fazer suas matrículas no portal do Após duas assembleias estudantis e uma unificada (estudan- Não te cansas nunca de cantar sem ser ouvido? E se não houver mais objeto no mundo e o teu canto não será ouvidoa seguinte frase: “Discussão é guerra” (LAKOFF & JOHN- aluno, já que os responsáveis pelo portal são servidores tes, professores e funcionários), no dia 26 de agosto os Não te ressentes nunca da aridez do entorno? e à poesia nada mais reste senão cantar sobre si mesma, e tudo o que fizeres - todo teu labor,SON, 2002), onde o ato de discutir é metaforicamente estru- técnicos da UFPR. A partir disso, o movimento paredista estudantes ocuparam o prédio da Reitoria, em uma manifes-turado como uma guerra; o debate verbal possui a mesma começou a ter “voz”, afinal, a situação ia além do “não ter aula” tação para conseguir resolução para as reivindicações solici- Até quando serás imune à indiferença? e se não houver mais objeto possível senão o próprio canto? todo o teu sangue, toda a alegria doorganização do confronto físico: há um conflito, adversári- e “pesquisas estagnadas”, principalmente para aqueles estu- tadas. O Magnífico, Professor Zaki Akel Sobrinho, apresen- teu canto e toda dor que ali condensas,os, um objetivo, há vencedores e perdedores etc. Uma greve dantes que dependem diretamente de alguns serviços da tou um documento com respostas a dezesseis pautas, consi- Onde teu orgulho, tua ira, teu desprezo? E se a dor, a época sombria, os desmandos, e o sumo das coisas que ali injetas,também possui essa relação metafórica de “discussão é guer- universidade, como o Restaurante Universitário (RU). deradas emergenciais pelos estudantes, entre elas o aumentora”, por isso é parcialmente compreendida em forma de Enquanto os servidores não voltaram ao trabalho, o Con- de 50% no número de bolsas, com reajuste anual em relação Onde a tua impaciência? o repuxo do tempo, o ir-e-vir das coisas, e o giro de tudo que ali cristalizasguerra. A partir do dia 15 de junho de 2011 a situação em nossa selho de Ensino Pesquisa e Extensão (CEPE) adiou a volta às à inflação, o aumento de 20% no valor de todas as bolsas, o Serás tu um espantalho ou tens sangue? e se nada disso puder volver-se em poesia? – será tudo em vão.universidade não foi conduzida de maneira metafórica. A aumento da quantidade de exemplares e títulos de livros nasdiscussão foi guerra, uma guerra evidentemente pacífica e bibliotecas (trinta por estudante, por curso) e a abertura dasbem estruturada em alguns momentos, mas que não perdeu E talvez já não exista razão para cantar. Ou pior: se o mundo se recusar, afastando E se te jogares de um alto edifício bibliotecas das 06h30 às 23h30. Com essa resposta “positi-a legitimidade enquanto luta, combate. va”, os estudantes se reuniram em mais uma assembleia geral E talvez já não haja o que cantar. com um gesto rude o verso, se o verso for não sentirão falta de ti nem do canto. Podemos observar um longo histórico de luta em nosso no dia 30 de agosto e votaram pelo fim da greve estudantil. E talvez já nem haja mais aquilo que se chama “canto”. rompido, violentado ou pior – ignorado, suspenso? Ou se te retirares para longepaís contra o governo federal, no que se refere à educação e, Os professores aderiram à greve no dia 16 de agosto e, assim ninguém perceberá a tua ausência.no entanto, o problema não é resolvido. Há uma péssima como as outras duas classes da universidade, instauraramqualidade em todas as etapas do ensino em decorrência das assembleia fixa, apresentando reivindicações próprias de (E certamente virão a ti outros poetas, Canta o silêncio.péssimas condições oferecidas pelo governo. A estrutura é caráter emergencial. As propostas eram a implantação de se ainda houver algum que conheças, Canta a sombra. Pois o teu canto preciosoprecária, falta material, os professores e funcionários rece- progressão automática na carreira, o estabelecimento de alguns virão cegos, outros em frangalhos, Canta o nada, se for preciso. será desmantelado pelo vento, pelo tempo.bem valores quase simbólicos pelo seu trabalho e, além de limite máximo de alunos por sala de aula e a diminuição dotudo isso, ainda há a depreciação do ensino pelos próprios limite máximo de horas-aula. A partir das pautas de cada virão como fantasmas, com mortalhas,participantes do processo educacional. classe universitária, fez-se uma pauta unificada e emergen- e tentarão te persuadir, te alegrar, Pois para ti, infame, já não é possível parar de cantar. E o teu corpo será corroído. Para que a educação em nosso país melhore, é necessária cial, a qual obteve resposta de nosso Super Reitor. No dia 24 combaterão com eloquência o teu fastio, Achas que pode decidir sobre as coisas da poesia?uma mobilização de todas as instâncias. Tal mobilização se de agosto, o Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão (CEPE)efetivou em várias universidades do país, incluindo (espe- aprovou a retomada do calendário acadêmico. Em seguida, dizendo que tens que prosseguir, É antes, a poesia que decide sobre ti: tu és apenas um E assim como acontece a tudo e todos,cialmente) a nossa Universidade Federal do Paraná. Um aulas de semana a semana. Isso soava como uma promessa de professores e estudantes retiraram-se do movimento grevis- que é preciso que sejas forte, servo. serás sugado pelo funil do esquecimento,movimento desses é necessário para que o governo compre- começar a fazer exercícios físicos, algo do gênero “semana ta com suas pautas emergenciais “prometidas”. que a poesia deve resistir, tu e o teu canto, ambos já em pedaços.enda que os indivíduos que não possuem tanto “poder” que vem eu começo” Como resumo de nossa greve, podemos dizer que a luta foi que a poesia é o que dá sentido, Então, continuarás cantando.(juridicamente falando) são aqueles que mais possuem Assim, nossa promessa de volta às aulas era mantida. A boa, nossa discussão foi guerra. Com as três categorias depoder quando unidos. Assim, quando professores, funcio- situação foi tão postergada que a comunidade acadêmica não nossa universidade unidas conseguimos reivindicar o que que desistir da poesia é desistir da vida. Não porque queiras ou porque tenhas assim decidido.nários e alunos se unem por uma causa comum, os objetivos esperava mais respostas das reuniões do CEPE, pois sabía- nos falta para uma educação de melhor qualidade. Com as Algo que não conheces decidiu por ti. E só quando houver cessado o teu cantopodem ser alcançados, mas isso só ocorre quando há o mos que semana que vem haveria uma nova promessa para várias manifestações, mostramos a todos que o movimento E te verás entediado em meio deles. e embora já nada sintas,combate (indireto, em nosso caso). mais uma semana. Por fim, o calendário acadêmico foi adiado. estudantil ainda está presente (apesar das bandeiras polí- Em 2011, o movimento grevista da Universidade Federal Compreendendo a legitimidade da greve dos servidores, os ticas) e que, quando categorias se unem, as necessidades E talvez diga a eles algumas palavras amargas, e embora já nem mesmo existasdo Paraná teve início com a paralisação dos servidores alunos aderiram à greve. Suas reivindicações incluíam mora- podem ser sanadas. Infelizmente, apesar de todo o movi- ou ofereça a eles o teu melhor sarcasmo. – só, ali, então, conhecerás a paz.técnico administrativos, os quais reivindicavam melhores dia nos campi Litoral e Palotina, revisão do caráter explora- mento grevista, ainda somos obrigados a mostrar as “gló-condições de trabalho – o que também acarretaria em uma tório das bolsas permanência, contratação de professores, rias” alcançadas não como já realizadas, mas como emuniversidade pública e de qualidade a todos. Tendo em vista ampliação do horário de funcionamento do RU (até mesmo andamento. Em nossa guerra (greve) lutamos contra oque o movimento grevista abarcou mais universidades para oferta de café da manhã), além da campanha nacional corte de 3,1 bilhões no orçamento da educação, divulgadopúblicas, havia duas pautas: uma local, que continha os sobre os 10% do PIB para a educação. Dessa maneira, a greve pela Super Presidenta em 2011, além dos dois cortes efeti-pedidos mais específicos. A outra, nacional, continha os foi tomando força. O Diretório Central dos Estudantes vados em 2010, os quais já somavam a absurda quantia depedidos eternos da educação. As reivindicações a nível (DCE) promoveu assembleias frequentes e mobilizou gran- 2,34 bilhões. Assim, com todas as glórias alcançadas comnacional possuíam como principais pontos o aumento do de número de estudantes, além de ter realizado “programas nossa discussão, não nos sobra nem o pão e nem o circo, maspiso salarial da categoria, a isonomia de salários e benefíci- culturais” durante o período de greve. O movimento estu- não devemos nos preocupar, pois, segundo o documentoos, a contratação de mais servidores e uma pauta bastante dantil que se apresentou nos mostrou o verdadeiro “espíri- enviado como resposta às pautas pelo Super Reitor, a Reito-polêmica em nosso país: a exigência da não criação da to” do movimento estudantil, revigorado por uma pauta ria resolverá todos os problemas do mundo, “assim que aempresa brasileira de serviços hospitalares (EBSERH), a forte e importante. Entretanto, tivemos a infelicidade de greve findar”. Infelizmente, o término já se deu e nenhumqual tiraria toda a autonomia dos hospitais-escola federais, perceber que, além disso, havia uma grande influência superpoder se manifestou na Reitoria. Então, aguardare-entre eles o nosso Hospital de Clínicas. A criação da EB- política (no sentido “politiqueiro”, e não “politizado”) den- mos até que o próximo motim se faça necessário ou entãoSERH nada mais é do que a privatização dos hospitais tro do movimento. A partir do momento em que alunos até que a metáfora estrutural não possua mais uso.4 . BOCA DO INFERNO . CAL UFPR CAL UFPR . BOCA DO INFERNO . 21
  5. 5. TEXTÍCULOS MATÉRIASINÉRCIA O QUE É UMA EMPRESA JÚNIOR?NATASHA DURSKI TAIRA SAKR Entro no ônibus. Entre os vários rostos inexpressivos e Todo mundo já deve ter ouvido falar, mas entre as EJ, orientando-as para que haja um estagiários e contratados, que deverão obrigato-fatigados, finalmente meu olhar encontra um assento va- ninguém sabe ao certo. Afinal, o que é uma padrão estrutural mínimo comum a todas elas. riamente ser alunos do curso, poderão receber empresa júnior? um salário, mas que será simbólico, visto que suazio. Caminho com dificuldade até o meu destino, colidindo Uma empresa júnior (EJ) é uma associação civil A NOSSA EMPRESA JÚNIOR! atuação será contada como atividade voluntáriavárias vezes com bolsas e braços. Ao me sentar, encaro diante sem fins lucrativos e com fins educacionais, for- A diretoria do CAL, incentivada pelo espírito e formativa, que pode ser contabilizada nas 200de mim uma cena que até poderia ser trivial, não fosse ela mada exclusivamente por alunos de um curso empreendedor de alunos de tantos outros cursos horas previstas em currículo, que precisamos superior ou técnico. Assim sendo, a gestão de e instituições, pensou: por que não termos em cumprir. Outro aspecto importante é o caráterintrinsecamente assustadora. Duas estátuas de carne se uma EJ é feita pelos próprios alunos. O primeiro uma EJ de Letras? Na última Assembleia Geral social da EJ de Letras, que terá como públicoencontram nos assentos a minha frente. As mulheres, de objetivo da EJ é promover a iniciação dos alunos dos Estudantes de Letras, realizada em dezeno- principal (no caso das aulas de línguas e texto)olhos fechados, parecem promover um encontro com um de um curso à experiên- ve de setembro, o CAL pessoas carentes (mas carentes mesmo!), quemundo extra-real, imersas num sono profundo que, cia profissional. Em ou- a EJ de Letras, que terá como deu o pontapé inicial para não podem pagar um curso de línguas em uma tras palavras, a EJ deve público principal pessoas a criação da nossa Em- escola particular. Esse tipo de trabalho enfatizaapesar do sopro de vida, as aproxima muito mais do fomentar o crescimento presa Júnior. Naquela o fim não lucrativo, citado logo acima. Vale carentes, que não podemsilêncio da morte. Sinto-me diante de dois cadáveres pessoal e profissional do pagar Uma escola particular assembleia foi escolhida lembrar que é esse tipo de iniciativa que faz aque esperam a inércia da vida para assumirem seus aluno-membro, através a comissão que elabora- diferença para uma grande parcela da população da inserção deste aluno no mercado de trabalho. rá o estatuto da futura EJ, que irá ofertar servi- do nosso país, onde quem tem menos recursospostos na história do ser. Esta inserção se dá por meio da prestação de ços de consultoria nas áreas do nosso curso, também tem menos oportunidades para melho- Os rostos imóveis não cedem ao balanço do serviços à comunidade interna e externa ao cur- como revisão, tradução, produção de material rar a própria vida e a vida da família.ônibus e nem às eventuais bolsadas. A espera so e à instituição. Além disso, os serviços da EJ didático de Literatura, Línguas e Linguística. Então, por que não ter uma empresa júnior de são, por excelência, de baixo custo, o que só é Poderá ofertar também o ensino de línguas (es- Letras? Seria mais uma oportunidade de colocar-cansada vence. No entanto, de repente, uma delas possível porque a EJ se enquadra no chamado trangeiras, clássicas e português) para os própri- mos em prática nosso conhecimento, com asabre lentamente as pálpebras e vislumbra a terceiro setor da economia. O terceiro setor é os estudantes de Letras e, se for o caso, para a vantagens de fazer um trabalho social de granderealidade da qual factualmente não per- aquele que congrega, entre outras, as ONGs comunidade externa. Tudo isso a preços módi- valor e dar mais visibilidade ao mais que reco-tence. O falso cadáver traz em si, final- (organizações não-governamentais), que fazem cos, que servirão para manter a empresa. Os nhecido curso de Letras da UFPR! o papel de disponibilizar à sociedade o que omente, um suspiro de existência. Em al- primeiro setor (governo) não disponibiliza, fa-guns minutos, o ato passivo de observar o zendo isso sem ter por objetivo o lucro (se As EJs da UFPRmundo ao redor se estende à passageira tivesse esse fim, seria do segundo setor, o setor privado). Exatamente por não ter fins lucrati- CENTRAL AGRÁRIA Empresa Júnior do Setor de Ciências Agráriasao seu lado. Ainda absorta em seu estado CIVIL JR Empresa Júnior de Engenharia Civil da UFPR vos, a EJ tem a vantagem de ter reduzidos custosdissimulado de morte, pestaneja, em operacionais e de tributação. COEM Consultoria de Engenharia Mecânica da UFPRbusca do conforto em que repousava sua COPLAF Empresa Júnior de Consultoria e Planejamento Florestal da UFPRvida segundos atrás. Não consegue reab- EMPRESAS JUNIORES NO BRASIL ECOS Empresa Júnior de Biologia da UFPR As EJ surgiram aqui no Brasil no final da EJ AMBIENTAL Empresa Júnior de Engenharia Ambientalsorver seu estado, e se convence em olhar década de 1980, mais precisamente em 1988, EJEQ Empresa Júnior de Engenharia Química da UFPRtediosamente a paisagem lá fora. com a criação da Empresa Junior da Fundação EMJEL Empresa Júnior de Assessoria em Eletro-Eletrônica da UFPR Entretanto, essa vida não lhes apraz. Getúlio Vargas. Em 1989, vieram a JR-ADM da EMMATI Empresa Júnior de Matemática Industrial UFBA, a Poli JR da Escola Politécnica da USP eEm instantes, os pares de olhos fe- FÁBRICA DE COMUNICAÇÃO Empresa Júnior de Comunicação Social assim por diante. Na UFPR, temos vários exem-cham novamente, retornando ao INFO JR Empresa Júnior de Informática da UFPR plos de empresas juniores (ver box). Algumas EJsilêncio fúnebre a que se conde- participam das Federações de Empresas Juniores JR CONSULTORIA Empresa Júnior do Setor de Ciências Sociais Aplicadas da UFPR (no Paraná temos a Federação Paranaense), assim JÚNIOR DESIGN Empresa Júnior de Design da UFPRnam, vazio de sentidos, mo- como da Confederação Brasileira de Empresas MADTEC Empresa Júnior de Engenharia Industrial Madeireiravimentos, e, sobre- MARIS Empresa Júnior de Ciências do Mar Juniores, a Brasil Júnior (BJ), que funciona comotudo, vazios de ser. órgão regulador do Movimento Empresa Júnior, TRILHAS Empresa Júnior de Turismo da UFPR atuando para garantir uma cultura de qualidade20 . BOCA DO INFERNO . CAL UFPR CAL UFPR . BOCA DO INFERNO . 5
  6. 6. MATÉRIAS TEXTÍCULOSCELIN, O ZERO E O INFINITO, LAMENTO ACONCHEGANTE IMENSIDÃOSOBRE UM NÃO-FAZER ACADÊMICO SARA DUIM [minhaconstanteinconstancia.blogspot.com] Ela observava o mar, sentada num banco, sozi-AGUINALDO MOREIRA nha. Tinha a pele bronzeada pelo sol, longos Tramita junto à Procuradoria da República (au- uma, repetimos, Universidade Pública que forma cabelos cacheados e loiros, um olhar suave,tos no. 1883-2011-10) uma denúncia de improbi- professores. Existe ética acadêmica nisto? azul como o céu. Seu corpo era esbelto, suasdade administrativa contra o Celin/UFPR, é um ato Para os estudantes de Letras, que representa-extremo diante da política arbitrária adotada pela mos a maioria dos interessados no Celin, é lamen- mãos, finas e compridas. Era encantadora.instituição, que tem preterido estagiários do Curso tável não conseguirmos participar dele, ou ver- Quando a solidão apertava seu peito, costumavade Letras em prol de pessoas que são estranhas ao mos colegas aos prantos porque não realizaram o olhar o mar e vagar pela imensidão azul-esverdea-meio universitário, que sequer têm formação em tão almejado sonho de estagiar na escola-escola.Letras e ali atuam como professores em línguas das É claro que um estudante ou recém-formado não da, passeando, apenas com os olhos, por toda a praia.nossas licenciaturas. Lembremos que a escola foi tem a competência de um professor profissional Nesses momentos, sua beleza tornava-se ainda maiscriada com fins formativos e é uma incoerência de língua, que embora não graduado tem, por evidente. O sol deixava seus cabelos dourados, e seus olhos brilhavam,termos uma instituição como o Celin, aberta à mul- exemplo, dez anos de experiência e ainda vivênciaticulturalidade e refratária à comunidade discente no exterior; mas, cremos que, para uma empresa agora com um ar melancólico que a fazia ainda mais doce.de uma Universidade Pública. Aliás, público é o sem ética social é bem mais fácil e produtivo con- A falta que ele fazia a tornava menos alegre, dando-lhe um sorrisodinheiro que entra nos cofres da nossa universida- tratar pessoas assim. Entretanto, de que compe- tímido e um olhar triste. Já haviam se passado anos, mas sua vida nãode através de Guias de Recolhimento da União, tência falamos? Daquela que nos é transmitida napagas por 3500 alunos dos mais variados cursos do academia? Que é tão valorizada quanto despreza- seria mais a mesma. Já tentara mudar de cidade, conhecer novascentro de línguas, um curso de 60 horas custa R$ da. Qual será o fim do Celin? pessoas, novos amores, mas nada fora capaz de apagar a marca435,00; é uma conta de milhões. Como é emprega- Nós, discentes e docentes graduados, estamos deixada por aquele amor. A maneira repentina com que seus planosdo este dinheiro? Será uma improbidade o desvir- impotentes diante dos obscuros plenos poderestuamento do uso do bem coletivo, quando utiliza- de um “caso de sucesso”. É como se, neste cami- e sonhos foram destruídos deixou uma cicatriz em seu peito, que faziado para pagar pessoas sem a mínima titulação aca- nho, somente pudéssemos olhar as estrelas refle- questão de esconder. Mostrá-la seria como provocar a curiosidade alheia.dêmica específica? Estamos falando no âmbito de tidas em poças d’água. Explicá-la seria ainda mais doloroso, por trazer à memória aquele dia que tanto desejava esquecer. VALOR POR ATIVIDADE ATIVIDADES FORMATIVAS:O QUE, Atividade na área de Letras (Estudos Linguísticos, peso Cansada de tanto tempo perdido e tantas tentativas frustradas, levanta-se e Estudos Literários e Estudos da Tradução) caminha em direção ao mar. Seus passos são lentos, como os de quem não deseja 1,0 COMO E QUANDO CUMPRIR oferecidas por instituições de ensino superior: Atividades em áreas afins à área de Letras peso chegar a lugar algum, mas com a decisão de quem escolhe um caminho. A praia A maioria de nós já deve estar ciente que, além da carga horária que cumprimos em sala de aula oferecidas por instituições de ensino superior: 0,75 parece tão longa, o mar parece tão distante. Até que então ela sente a água tocar ou em estágio supervisionado, temos no nosso currículo, aliás, nos currículos 2007 e 2009, uma Atividades na área de Letras (Estudos peso seus pés, acariciá-los como quem os deseja, como quem os quer para si. O calor do Linguísticos, Estudos Literários e Estudos da quantidade de horas a que chamamos de “atividades formativas”. Bem, se ainda não sabiam, 0,5 Tradução) oferecidas por outras instituições: mar toma conta de suas pernas, um calafrio se espalha por todo seu corpo. Seus leiam até o fim. Na UFPR, as atividades formativas são reguladas pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão TIPOS DE ATIVIDADE seios, seus ombros, seu pescoço vão sendo submersos pela amplitude azul. Seus – CEPE, particularmente através da resolução XX/XX. Em síntese, são “atividades extra-curricu- Participação em eventos acadêmicos: 100 horas cabelos são recebidos pela água cálida, enquanto ela continua andando. Seu Monitoria de disciplinas: lares que forem consideradas pelo colegiado do curso, após análise criteriosa da documentação corpo é acolhido por aquela aconchegante imensidão, que a envolve com a paz 1 semestre, 30 horas / 2 semestres, 45 horas comprobatória, como complementares à formação do aluno”. Como saber que atividades são Bolsa (Iniciação Científica, Extensão, Licenciar): que tanto desejou. formativas? Fácil. Em 2008 o Colegiado do Curso de Letras aprovou uma Instrução Normativa (IN 01 ano, 60 horas / 02 anos, 90 horas Estágio não obrigatório supervisionado: 60 horas 01/08), que diz o que é considerado atividade formativa para nós, assim como qual o “peso” de cada Estágio não obrigatório não supervisionado: 30 horas atividade, isto é, o que vale mais e o que vale menos (vide quadro 1). É importante lembrar que as Cursos de extensão: 100 horas atividades, que devem somar duzentas horas, podem ser feitas no decorrer da graduação e, para Prêmios na área de Letras: 02 horas Publicação de trabalhos: até 20 horas por trabalho efeito de contagem, deve-se apresentar os documentos comprobatórios (certificados, declarações Representação discente: e coisas do gênero) à Coordenação no penúltimo semestre antes da formatura (vide quadro 2). 30 horas (com comprovação de freqüência)6 . BOCA DO INFERNO . CAL UFPR CAL UFPR . BOCA DO INFERNO . 19

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