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Boca do inferno 24

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Jornal do Centro Acadêmico de Letras da UFPR, edição 24, março de 2010.

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Boca do inferno 24

  1. 1. INFORMATIVO DO CENTRO ACADÊMICO DE LETRAS . UFPR02 03.6 07.9 10.15 18.23Editorial Matérias Crônicas Artigos Acadêmicos Produção Literáriaeleições: obrigação ou direito com todas as letras // pro- quadro negro para urubu // fatos históricos na constru- coração inflamável // ciran-// foi-se a terceira margem, vem grama sat 2010 // o caso da armadura // literatura como ção da nacionalidade são- da no abismo // trilhando oo machado avaliação refúgio tomense na obra teatro do caminho, caminhando a tri- imaginário angolar de s. tomé lha // labirintos vivos // insé- e príncipe de fernando de ma- culos // limbo // in the green cedo. in(ter)cambio: fallos en // (sem título) el programa de augm
  2. 2. eleiçõesobrigação ou direito?josé olivir de freitas juniorEste ano enfrentamos longo e cansativo processo eleitoral. da Universidade, direta ou indiretamente. Qual o problema?Enfrentamos? A democracia, uma herança que veio dos gre- Ah, o problema! Os nossos caros colegas, que já consideramgos, estabelece uma série de regras e mecanismos que regu- um martírio ter que sair do aconchego do lar um único do-lam os direitos e deveres dos cidadãos de uma nação. Claro mingo a cada dois anos para eleger seus representantes (por-que o conceito mudou de A.C. pra cá. Todavia, a essência é a que se consideram obrigados a isso), acreditam que, por nãomesma. Daquela democracia que só levava em conta a opinião ser obrigatório, não é preciso “perder tempo” com bobagensde quem não era escravo, um poderoso instrumento sobrevi- eleitorais (caso aplicado a qualquer pleito, na faculdade, noveu: o voto. O voto no Brasil, que já foi bastante restrito, hoje colégio, na sala de aula ou onde for). O que é democracia paraé amplo e “universal”, apesar de ainda não ser direito de todos estas pessoas? Será que perdemos a noção dos nossos direi-os viventes no país (leia-se analfabetos). Mulheres, idosos, tos? Talvez, com essa realidade medonha de sujeiras que ve-adolescentes, todas as classes sociais. O voto não vê cor, sexo mos nas casas governamentais, tenhamos perdido a confian-nem poder aquisitivo. Uma beleza, não? Não. O caso é que os ça nas instituições públicas. É isso? Se é, por que não tiramosbrasileiros não sabem do poder do voto. Desconhecem que aqueles que sujam a casa e colocamos alguém melhor? Ah,podem revolucionar, podem fazer e desfazer qualquer movi- é difícil..., diz alguém. Alguém que, mesmo podendo mudar,mento com o botãozinho apertado na urna eletrônica. Mui- prefere ficar inerte. Não podemos nos sujeitar ao que acon-tas pessoas reclamam da “obrigação” de votar. O caso é que, tece à nossa volta, não devemos deixar que as coisas andemse não fosse assim, quem é que garantiria a democracia? Bem, conforme a brisa bate na nossa face. É mais que necessárioeste é outro assunto. Tratemos do objeto desta reflexão: o não que todos, todos mesmo, levantem suas cabeças e percebamvoto. Nas eleições, quando o eleitor dá sua opinião em deter- que podem mudar tudo o que quiserem. E isso pode ser feitominado assunto (seja escolhendo candidato alinhado aos com apenas um gesto: votar. Esperamos que este texto sirvaseus pensamentos, seja escolhendo uma maneira ou outra de de incentivo aos senhores colegas de Letras e que faça algumdecidir o futuro da nação) exerce poder sobre a sua vida e a efeito para que, quando alguém perguntar se vocês sabemalheia. Parece pouco? Certamente não. Aqui na UFPR, para quem é o reitor, ou o chefe do departamento, ou o presiden- PoR joSé oLiviR dE FREiTAS jUnioRnão deixar de ser, o voto é a principal maneira de conhecer te do CAL, vocês saibam responder e possam dizer: eu votei,a opinião da comunidade. O que isso significa? Significa que contra ou a favor, mas votei.é através de pleitos que nós participamos da administração e finalmente finalizamos o processo eleitoral de 2010. depois de uma malsucedida votação,nota realizada em 05/10, o cal realizou novo pleito para a escolha dos novos diretores. no últimoFoi-Se a terCeira MargeM, VeM o MaCHado dia 22, em “segundo turno”, a chapa “terceira margem do rio” foi eleita com 88% de aprovação“As coisas mudam no devagar depressa dos tempos”, já dizia “Foi-se o Machado”. E, antes da pletora de críticas, nada me- (95 votos a favor, 10 contra e 03 nulos). como é nosso dever, faremos um breve relato daGuimarães Rosa. A diretoria do Centro Acadêmico de Letras, lhor que citar Machado de Assis: “A vida é cheia de obrigações gestão “sintaxe@vontade”, que deixa o cal com a atuação em superávit no âmbito das realiza-gestão 2010-2011, decidiu por maioria de votos cambiar o que a gente cumpre por mais vontade que tenha de as infringir ções, haja vista que se cumpriram a maioria das “promessas de campanha”. para quem não se“nome” da gestão. A partir de agora, com um novo conceito, deslavadamente”. Está dada a notícia. recorda, a gestão que dirigiu o cal entre outubro de 2010 e outubro de 2010 tinha algumaspassou a “Terceira Margem do Rio” chamar-se “Foi-se o Ma- metas (prometidas durante a campanha). apesar dos percalços do caminho (desistência dechado”. Em breve, com novo visual e novos conceitos, ainda mais da metade dos membros, por exemplo), a gestão conseguiu levar adiante nove projetosque não tenhamos abandonado nenhum dos que divulgamos significativos...no período eleitoral, colocaremos à disposição da comunida-de o objetivo da mudança e apresentaremos a nova gestãocal ufpr . boca do inferno . 2 cal ufpr . boca do inferno . 3
  3. 3. Enfim, uma gestão que trabalhou bastante pelo curso e pe- los alunos, apesar de o trabalho não ser tão visível. Agora, há pela frente muito mais trabalho. A diretoria eleita terá muito a negociar, discutir e planejar. As metas da “Terceira Margem do Rio”, entre outras, são estas (conforme o programa da cha- pa, divulgado durante o período eleitoral): 01. Organização do patrimônio do CAL, que ganhou quatro computa- dores do Laboratório de Informática do curso de Psicologia, gra- ças à valiosa colaboração da colega Alessandra Diana Zilli (CAL 01. gestão 2008), um armário e um aparelho de telefone. Atualização do Estatuto do CAL para adéqua-lo ao Noovo Código Civil 02. Impressão de três edições deste nosso jornal (uma delas – esta – 02. em colaboração com a nova chapa, atuante desde o primeiro dia) Criação do mural de Classificados do CAL (ao lado dos elevadores do 10° andar 03. Atualização da lista de e-mails, com repasse de informações 03. (como eventos, cursos e atividades do CAL) à maioria dos alunos Inclusão do site do CAL no domínio virtual da UFPR (trocando ufpr prograMa Sat 2010 em miúdos, criar um site “www.cal.ufpr.br” 04. Assistência aos alunos dos cursos de Japonês e Polonês (com a re- 04. presentação junto ao DELIN e ao DELEM para a integração destes Dar continuidade às edições do Boca (isso significa “periodizá-lo”) com as demais habilitações do curso) carlo giacomitti 05. 05. Organizar as cópias do nosso Arquivo de Xerox Representação junto à Universidade na discussão da mudança de desde meados de 2010, está em andamento o sat - sistema de acompanhamento e tutoria do fluxo campus para o prédio da “Ponte Preta” (tivemos notícia oficial – acadêmico. o sat foi criado para acompanhar a vida acadêmica discente durante a graduação. o 06. da diretora do SCHLA – que permaneceremos no Complexo da Remodelar a sede do CAL (com móveis mais modernos e planeja- programa é gerido pela prograd - pró-reitoria de graduação e ensino profissionalizante e con- Reitoria) ta com o apoio operacional das coordenações de cursos. com a aplicação de um questionário, dos para dar mais espaço para a galera “se achegar”) o sat tem como objetivo identificar as dificuldades quedo aluno durante a formação e então 06. propor à reitoria soluções para os problemas encontrados. esse questionário, aplicado a todos 07. Eventos (Semana de Letras e Semana de Avaliação do Curso, além do Plebiscito, que movimentou pelo menos uma parte da galera, Organizar e liberar para empréstimo os livros da nossa Biblioteca os alunos, será repetido periodicamente (anual ou semestralmente, dependendo do curso). esta além da divulgação de eventos de outros locais) continuidade garante o sucesso do programa, pois as dificuldades podem aparecer com o passar 08. do tempo, isto é, há um efetivo acompanhamento do estudante durante toda a graduação. Criar e fazer funcionar a Empresa Junior de Letras 07. Integração entre os alunos dos períodos matutino e noturno (com como é quem faz a festa “Olhos de Ressaca”, que foi um sucesso de público, além do 09. O questionário é composto com perguntas que registram a O questionário é aplicado pelos bolsistas do Sistema, vincu- Churras no Barigui) Negociar com o SCHLA um novo espaço, mais amplo, para o CAL satisfação ou não do aluno em relação ao seu curso, como, por lados à PROGRAD (Carlo, de Letras e Jucéli, de Medicina). exemplo, se o curso foi a primeira opção do aluno, ou como Após o recolhimento das folhas de respostas, eles transmiti- 08. 10. Prestação de contas regular (Contas das festas foram publicadas Implementar a Avaliação Semestral de Docentes e Disciplinas ele (aluno) é afetado por alguma situação específica do curso rão os dados para a PROGRAD e entregarão os questionários no Blog e a Geral será em breve) ou da universidade, entre outras. O questionário é também respondidos à Coordenação, exceto aqueles com manifesta- um veículo para a manifestação do aluno (com reclamações, ções, que serão entregues diretamente à PROGRAD. É im- 09. Até aqui já é um trabalho e tanto! Esperamos que a nova ges- sugestões, etc.). Importante citar que, como meio de validar portante que todos participem e se manifestem. O SAT vem Divulgação e suporte a congressos e encontros da área de Letras tão possa contar com o apoio da comunidade discente, assim os questionários, são solicitados os dados acadêmicos - nome, como uma oportunidade para os alunos serem ouvidos por (apoio a catorze estudantes com passagem de ida e volta para como dos professores e servidores do curso, para que possa- GRR, e-mail, telefone. Estes dados serão acessados somente aqueles que regem nossa vida acadêmica. congressos em outros municípios e estados, além de orientação a alunos que apresentaram trabalho com apoio da PRAE) mos melhorar a cada dia, num esforço contínuo e colabora- pela Coordenação do Curso e pela PROGRAD, ainda que ape- tivo, que tenha por fim o melhor para Todas as Letras. Boa nas a título de informação. A instituição assegura aos alunos sorte a todos nós! o sigilo, tanto dos dados como das informações pessoais.cal ufpr . boca do inferno . 4 cal ufpr . boca do inferno . 5
  4. 4. ufpr crônicao CaSo da aValiação quadro negro para urubuclaudio luciano ornellas aguinaldo roberto moreiraNos últimos tempos tem se dado especial atenção à avaliação dantes, poderíamos avaliar ou ao menos emitir opinião a res- Em uma família normal de classe média, numa bela ninhada bum. Albino não queria passar em brancas nuvens, onde se-institucional nas diversas esferas governamentais. Na Univer- peito dos docentes se, na primeira tentativa, recebemos como de três filhotes, nasceu um urubu branco; todos os urubus quer seria visto, desistiu de seus devaneios, seguiu a carreirasidade acontece a mesma coisa. Aqui na UFPR, além do SAT prêmio um processo, no âmbito judicial comum, inclusive, ou nascem com uma penugem branca e são muito fedorentos, do papai, era mais prático e economicamente mais garantido.(matéria da página anterior), em 2009 foi realizada a primeira coisa pior, como perseguição e assédio moral? Perguntamos obviamente, mas depois da troca de penas tornam-se as si- Também aí sempre sofria discriminações; quando chegava aoetapa da Avaliação Institucional de Cursos, que englobou vin- também se, depois que o CAL puser em prática o Sistema de nistras aves negras e de mal agouro que conhecemos. Fre- trabalho e ia, digamos... botar as mãos na massa, seus colegaste e seis cursos de graduação, entre eles o nosso. Os resulta- Avaliação de Docentes e Disciplinas, ou talvez depois da publi- qüentes comensais de lautos banquetes, promovidos sempre gritavam em coro: - Chegou tarde, Doutor! O paciente morreu...dos, disponíveis na página de Letras (http://www.letras.ufpr. cação desta matéria, teremos alguma agradável surpresa, do por algum ser que já era. Um deles insistia em permanecer Ao final do expediente o nosso herói parecia à bandeira dabr), foram utilizados para medir a satisfação da comunidade mesmo tipo da que receberam aqueles alunos do parágrafo an- alvo... O pimpolho recebeu o nome de Albino, nome de um Polônia.acadêmica em relação a itens como infraestrutura, segurança terior? Um caso a se pensar, senhores. O coordenador sempre tio-avô que fora padre, teve uma infância tranqüila embora Depois de diversas crises, depressões profundas, altos e bai-e apoio acadêmico. insiste que temos que avaliar nossos professores da mesma um pouco atribulada pelo preconceito e gozações de seus co- xos, ascensões e quedas, é difícil se suicidar assim quando se leguinhas. Se algum piazinho enchia as fraldas, o branquinho tem asas, ele resolveu se assumir, coisa temerária na sua pro- azedo era sempre o Bino. Dissabores estes compensados, é vinciana terra natal. Sumiu! Migrou! Foi atrás de uma ofer-o processo de avaliação é muito importante para a proposição claro, pelo amor materno: - Meu Nuvenzinha de coco, você é o ta de emprego que ninguém queria aceitar, lá em um local urubu branco mais lindo do jardim de infância! - Sou sempre o distante que fora a antiga Babilônia, na Mesopotâmia, lá ade diretrizes para mudanças e para a revisão de procedimentos e único, mamãe! O pai era autoritário e repressor, sempre res- terra chora lágrimas negras. É nova área de caça da Granderecursos de maneira a melhorar a estrutura e o funcionamento sabiado com a idéia de ovo trocado na maternidade. Todavia, Águia do Norte. Dizem que Albino não trabalha na função o maior drama de Albino foi na puberdade, fase traumática pretendida, continua no ofício de sua espécie, e, apesar de serde cada curso. todavia, há alguns impedimentos de ordem nem para qualquer adolescente, com as decorrentes crises de afir- alvo, tem uma vantagem: na guerra ninguém atira na Pomba mação da auto-imagem; principalmente porque os garotos de Branca da Paz, ou... em qualquer outra ave branca. É possívelsempre profissional e técnica quando se trata de avaliar. sua idade apelidaram-no de pombinha. A rejeição causou em fazer humor negro com urubu branco, no entanto, urubus Albi, era assim que mamãe lhe chamava, uma forte tendên- existem de todas as cores, tamanhos, envergaduras, sexos,Recentemente soubemos que há em andamento processos de maneira que eles nos avaliam, como uma espécie de reciproci cia à introspecção. Algo paranóica. A fuga da dura realidade idades e credos. Sempre muito preocupados com suas ima-professores contra estudantes, todos de Letras, que têm como dade. Não podemos esquecer que a avaliação de que trata este levou-o a ser um eterno sonhador, andava sempre sonhando, gens, carreiras, prestígio e poder junto a seus bandos. Algunsobjeto de “acusação” supostas “injúrias” que os alunos supos- texto não é um concurso de popularidade nem uma batalha de era sonâmbulo! Fantasiava um futuro diferente para si, não o se alimentam de cérebros jovens.tamente cometeram contra aqueles professores (os “supos- egos. Não estamos aqui preocupados com a reputação de ne- negócio funerário da família, marcado pelo negro rigor. Guar-tos” repetidos são propositais). Estes alunos, consideramos, nhuma sumidade das Letras e/ou da Educação, mas sim com a necido de batatas ele seria um prato cheio para a Clarice Lis- Dedicado a Ferenc Hoffmannfizeram nada mais que “avaliar” a atuação dos seus mestres, qualidade do ensino dos que, como formigas, trabalharão para pector. Albino era muito meticuloso em tudo o que fazia, suaainda que não tenha sido uma avaliação das mais favoráveis. o sucesso na formação de pessoas e, consequentemente, do aterrissagem era coreográfica, tinha talento para acrobaciasDepois de saber disso, questionamos: como é que nós, estu- progresso deste país. aéreas e pendor para o ballet clássico. Superou dolorosamen- te a fase crítica da adolescência, o patinho feio transformou- se em um cisne, mas, não se anime, esta é uma outra estória. Embora possuísse um forte sex appeal, ele parecia não ter interesse pelas urubuas, até mesmo quando eram uruboas. O complexo de inferioridade nele se revestiu de uma couraça de presunção: garboso e solene, agora Albi era um misto de acesse www.letras.ufpr e confira os resultados da avaliação oficial de marinha de guerra e pai de santo baiano. Sempre branco da cabeça aos pés. Vivemos tempos difíceis, tem uru- bu brigando por emprego de galinha de macumba e, quando se presta a este triste papel acaba se acabando na cachaça do despacho. Não existe nada mais melancólico que urubu be-cal ufpr . boca do inferno . 6 cal ufpr . boca do inferno . 7
  5. 5. crônica crônicaarMadura literatura CoMo reFúgiovictor conrado s. eschholz teurra vailatti e talita garciaEstava eu a caminhar apressadamente pela rua, voltando do dizia, despejei sobre ele as palavras de quem tem razão. O ho- a inCríVel experiênCia de VaneSSinHa atraVéS de rérgio e andré Sant’annacartório com documentos na mão e um bocado de problemas mem, protegido por sua armadura de quatro rodas, disse aona cabeça. Descendo uma das ruas que fazem parte de um término do meu esbravejo: “Não, meu amigo, você não está Vanessinha era uma carioquinha tão apimentada, que consul- a fazer parte de sua rotina. E, como diria Sérgio SantAnna,trajeto que há muito conheço, surpreendo-me com um carro certo coisa nenhuma. O que acontece é que vocês são mui- tava as zonas de maior índice de crimes sexuais no periódico é tudo questão de decisão! E depois, tem os que dizem, quesaindo da garagem do prédio e avançando em minha direção. to abusados”. Vocês? Vocês quem? Nós, os pedestres? Não, de sua cidade, e no vai e vem, quando acalmava a correria, ela literatura fica aí só marcando bobeira nas universidades e nãoEu estava na calçada, lugar onde pedestres mandam e moto- creio que estivesse se referindo aos jovens. Concluí então que passeava por lá, fazendo figas para ser contemplada. Foi aí que transforma a vida do povão.ristas pedem licença. Fiquei surpreso e irritado com o carro aquele senhor possuía alguma desavença com um filho, o que nessas lidas e idas, nada lhe pareceu mais sensato que o tro-prateado que por pouco não me encostava. Parei ao seu lado talvez o tenha feito pensar que todo jovem é errado e incon- peço no caderno C de um jornalzinho daqueles, que dizia as-e tentei enxergar o motorista por trás do vidro escuro. O con- seqüente e não sabe como se comportar em uma calçada. Um sim: “O Paraíso é bem bacana”. Não sabendo se o sujeito, quedutor do veículo, então, baixou o vidro da porta do passageiro, bando de abusados. Sendo assim, respirei fundo, despedi-me escreveu a sinopse daquele livro, era ignorante ou mal inten-ao lado da qual eu me encontrava, e esboçou um sermão sobre do homem com um aceno em tom de zombaria (para fazer jus cionado, ela já foi correndo querer saber qual era daquele su-como ele estava certo e sobre como eu deveria ter esperado ao rótulo de “abusado) e continuei o meu caminho, o meu dia, jeitinho da pós-modernidade, o tal André SantAnna. E acabousua majestade passar com sua carruagem. Aquilo me deixou a minha vida. caindo na conversa de dois caras, um carioca fluminense, e oputo. Então, sem esperar o homem grisalho terminar o que tal sujeitinho-pós-moderno, filho do primeiro. Fervoroso que era, o carioca, começou entabulando a conversa da seguinte maneira, “Particularmente, eu leio sempre antes de dormir, lógico, que quando tem jogo do fluminense e a coisa vai até meia noite, a gente deixa pro outro dia”. Para a surpresa do público leitor, para Vanessinha, tal declaração não lhe pareceu nem pedante, nem rasa, nem besta. Ela queria saber, porém, qual era o gabarito do tal fluminense, pra dar dica literária, quando ela mesma, que se julgava tão letrada, era vascaína. E assim, no andamento da prosopopéia, descobriu um mundo novo, porque nada faz sentido se não compartilhado – lan- çando aqui citação de Paulo Coelho, ou se bem quiseres aca- dêmico, ta aí aquele velho negócio do exercício da alteridade. Fomentando sua empolgação, Vanessinha descobriu o prazer que a leitura traz consigo; deixou de lado seu Orkut, seu Twit- ter, seu Facebook e seu Fotolog, e jurou pra ela mesma que a partir daquele dia iria começar a economizar a primeira parce- la do seu E-reader. E gozando da mais pura tentação, se ateve a tal frase do tricolor, “Lógico que se eu visse Clarice Lispector lendo para um público qualquer, eu ficaria sensivelmente in- teressado em ouvir”. E para os leitores, se isso não for ficar enfadonho, Vanessinha largou toda aquela história de consul- tar periódico, e foi procurar a tal da Clarice”... Depois daquele dia, leitura para ela não se tornou mais hábito, como era com o periódico. Virou vício. Embora ela ainda não abrisse mão do seu Blog e não perdesse um jogo do Vasco, a leitura passoucal ufpr . boca do inferno . 8 cal ufpr . boca do inferno . 9
  6. 6. FatoS HiStóriCoS na ConStrução da naCionalidade São-toMeenSe na obra a construir kilombos, pequenas povoações na floresta densa, tamente arvorando um estandarte frente aos portugueses15, de administrações próprias e autônomas de fazendas coloni- Amador proclamou-se rei de São Tomé e Príncipe e marcouteatro iMaginário angolar de S. toMé e prínCipe de Fernando de MaCedo zadoras. Uma terceira hipótese: os angolares seriam descen- os inícios do reino angolar. Ao longo desta revolta, os com- dentes de tribos africanas que chegaram à ilha muito antes batentes e já ex-escravos angolares queimavam as igrejas, ana kaniški1 que os portugueses e iniciaram o povoamento do interior da destruíam as fazendas ou convertiam-nas para que os negros ilha. É necessário acentuar que, apesar de nenhuma das teo- pudessem viver nelas. Rei Amador libertou efctivamente mais rias revelar a data da chegada dos angolares à ilha são-tomen- de metade do território são-tomense e ocupou a administra-INTRODUÇÃO rio, foi publicado em 1956.5 Depois de 25 de Abril de 1974, se, o historiador português Joaquim Veríssimo Serão (1980) ção colonial localizada na capital. A luta pela liberdade acabou No contexto do seminário Literaturas Africanas de Expres- Fernando de Macedo e Henrique Barros fundaram o Instituto acha que os escravos chegaram por volta de 154011. no ano seguinte. Alguns membros da sua família16 e do exér-são Portuguesa, este trabalho irá se preocupar com o trilogia António Sérgio. O dramaturgo foi eleito presidente. Seja como for, de acordo coma a história contemporânea, cito atraiçoaram-no. Rei Amador foi capturado e enforcadoTeatro do Imaginário Angolar de S. Tomé e Príncipe de Fer- Em 1975, Fernando de Macedo participou de uma missão no Amador era o rei do povo angolano. Recentemente, o historia- pelas autoridades coloniais portugueses no dia 4 de Janeironando de Macedo, que inclui três peças: Rei do Óbó, Capitan- Timor e em vários países de língua oficial portuguesa, dentre dor Gerhard Seibert (2005), no seu trabalho científico, provou de 1596.go e Cloçon Son. Convém também destacar que não existe os quais as Ilhas de São Tomé e Príncipe. Depois veio a ser “di- que o rei Amador de fato não era o rei dos angolares, mas o Ao longo da história, o reino angolar foi governado pela su-quase nenhuma documentação, nem estudos científicos que rigente” da CoopÁfrica, uma associação que contribui para a iniciador da revolta dos escravos em 1595. Seibert conclui que cessão dos reis. Isto comprova uma fotografia tirada em 1895elaboram a obra literária deste dramaturgo contemporâneo. estruturação da sociedade civil, especialmente em regiões afri- os únicos documentos existentes testemunham que a revolta pelo Sr. Almada Negreiro17. Ela representa o Rei Simão Andre- A hipótese deste trabalho é que, usando os fatos históricos canas menos desenvolvidas”6. Nos anos 1980, foi afastado da dos escravos foi chefiada pelo negro fugido, Amador, que se za, o último conhecido rei angolar, que Fernando de Macedopara determinar a nacionalidade angolar que foi defendida ao presidência de Instituto e, embora tivesse lecionado na Facul- proclamou rei12. Algumas fontes dizem respeito aos seus do- (2000), na sua obra, descreve como “rei dos Angolares falecidolongo de quase cinco séculos, Fernando de Macedo, nas nar- dade de Economia de Lisboa, dedicou-se ao cooperativismo. nos fazendeiros: o seu dono poderia ter sido Don Fernando. no primeiro quartel do século vinte… quando da ocupação derativas dessas três peças, estabelece a nacionalidade das Ilhas Assinando como Fernando Ferreira da Costa, o escritor criou Mas nenhum dos autores dessas fontes relaciona o rei Ama- Santa Cruz (Anguéné) pelos Portugueses, em 1879, passou ade São Tomé e Príncipe que ganharam independência após a uma ampla obra científica; contudo, é mais conhecido pela sua dor com o povo angolar. ser denominado “Capitão” por imposição dos ocupantes.”18Revolução dos Cravos. produção literária, que foi escrita a partir do fim da década de O escritor que pela primeira vez relacionou o povo angolar O objetivo deste trabalho é, depois de uma breve exposição 1990 e publicada sob o nome de Fernando de Macedo. A obra com o rei Amador foi o geógrafo e poeta são-tomense José TEATRO DO IMAGINÁRIO ANGOLARda vida e da obra de Fernando de Macedo, analisar como é que envolve duas coletâneas de poesia, Anguéné, Gesta Africana do Francisco Tenreiro que na obra A Ilha de São Tomé” (1961) Antes da análise da história do povo angolar, dos seus reisos fatos históricos foram elaborados na trilogia teatral e veri- Povo Angolar de S. Tomé e Príncipe (1989) e Mar e Magoa (1994); escreveu: “De 1595 e 1596 esta [a ilha de São Tomé] chega heróicos e da maneira como Fernando de Macedo usa essa his-ficar de que maneira o autor constrói e revela a nacionalidade um ensaio, O Povo Angolar de S. Tomé e Príncipe (1996)7; e, no mesmo de cair nas mãos dos angolares, chefiados pela figura, tória para construir a nacionalidade são-tomense, temos desão-tomense. fim, a trilogia Teatro de Imaginário Angolar de S. Tomé e Prín- já lendária, de Amador”13. Todos os historiadores e escritores apresentar uma sinopse de Teatro do Imaginário Angolar. Dado cipe, incluindo as peças Rei do Óbó (1997), Capitango (1998) aceitaram esta versão da história. E a mesma está presente no que o tema deste trabalho é o papel da história nacional naVIDA E OBRA DE FERNANDO DE MACEDO e Cloçon Son (1997). O fato de o escritor ser mais conhecido pequeno texto Esboço Histórico das Ilhas de S. Tomé e Príncipe, construção da nacionalidade, a obra que mais nos interessa é a Professor, etnógrafo, poeta, dramaturgo e ativista político, por sua obra literária, atribui-se às encenações de Capitango e escrito pelo historiador Carlos Neves, publicado em 1975, em primeira peça – Rei do Óbô. Contudo, será proveitosa tambémde ascendência são-tomense-angolar, Fernando Macedo Fer- Cloçon Son (a segunda estreou na Ilha de São Tomé em 1997, e que ele escreveu o seguinte: “A 9 de Julho de 1595 o célebre a analise das outras duas peças que, tal como a primeira, reve-reira da Costa nasceu em 1928 em Lisboa. a primeira na Expo 98, em Lisboa). Amador, à frente dos Angolares, levanta o estandarte da re- lam algumas partes da história em questão. Como sequaz de política anti-salazarista, durante a sua for- Pela contribuição ao “fortalecimento da sociedade civil lusó- volta, mas é preso e morto em 1596”14.mação universitária e depois de se ter licenciado em estudos fona”8, Fernando de Macedo, em 1997, foi condecorado com a A lenda do ex-escrevo e rei Amador, que conhecemos hoje, REI DO ÓBÔde Ciências-Histórico-Filosóficas, o dramaturgo empenhou- Ordem do Infante D. Henrique. Morreu em Lisboa em 2006. foi divulgada depois da independência das Ilhas de São Tomé A narrativa da Rei do Óbô é apresentada ao leitor através dese politicamente na luta pela independência das colónias por- e Príncipe. Desde o início da exploração da cana-de-açúcar na dois narradores – Luísa Bôbô, “Mulher da Virtude” conhecidatuguesas. Foi também recusado pela instituição militar “não A LENDA DO POVO ANGOLAR E DO SEUS REIS Ilha de São Tomé em 1501, o tráfico negreiro era imensamen- pelo seu conhecimento deste mundo e do mundo do Além, eapenas pela objeção de consciência, mas porque o associati- Por causa de escassos documentos, arquivos e fontes etnó- te praticado pelos colonizadores portugueses e acabou em nu- Mantana, o homem mais velho de Anguéné e o melhor conhe-vismo era proibido pelo regime salazarista”2 e “por não ter ca- grafos e históricos, existem várias hipóteses da história e da merosas agressões contra os negros. A única maneira para que cedor da história e tradição angolares. Eles são testemunhosracterísticas de raça branca”3. Esteve preso durante dois anos. origem do povo angolar (habitantes da zona sul da Ilha de São os escravos evitassem as opressões era revoltar-se ou escapar da revolta histórica dos angolares em 1595. As suas convicções anti-salazaristas levavam-no pela segun- Tomé) e do seu rei Amador. Segundo uma das hipóteses, os para o interior, ou seja, para as florestas. Luísa Bôbô e Mantana, acompanhados pela sua mulher Hi-da vez à prisão, à suspensão dos direitos cívicos e à proibição angolares teriam sido escravos de proveniência angolana9. So- Amador, escravo de um capitão-de-mato, fugiu para o in- rondina, deveriam participar, em Djambi, de uma cerimoniade se deslocar a São Tomé. Formou parte do movimento cris- breviveram ao naufrágio de um “barco de escravo”10, ocorrido terior da ilha, onde numerosos escravos angolares já viviam secreta de comunicação com as almas e forças sobrenaturais.tão Metanóia, um grupo de precursores da vida em comuni- na região de Sete Pedras, localizada a sudoeste da Ilha de São nos kilombos. No dia 9 de Julho de 1595, acompanhado pelos Por isso foram para interior onde, depois que a medrosa Hi-dade, que se estabeleceu em Trás-os-Montes para alfabetizar Tomé. De acordo com outra hipótese, os angolares teriam sido outros angolares e escravos com os quais estipulou a aliança, rondina os desamparou, avistaram a silhueta da mãe de Ama-a população local4. As ideias políticas do escritor estão presen- escravos fugidos dos seus donos na época depois do descobri- Amador avançou de dentro dos kilombos para fazendas co- dor. Ela exigiu de Luísa Bôbô e de Mantana que, esfregando astes no seu primeiro livro, O movimento cooperativo britânico, mento das ilhas do arquipélago pelos colonizadores portugue- lonizadoras com a intenção de libertar o povo servil. Supos- mãos com as folhas da planta mangungu, comprovassem suasque, prefaciado por António Sérgio, seu professor universitá- ses, em 1470. Tendo escapado aos colonizadores, começaramcal ufpr . boca do inferno . 10 cal ufpr . boca do inferno . 11
  7. 7. boas intenções. Ambos testemunharam a coroação do novo te “Bobo” a tradição angolar. Tendo ouvido que pau-kími – uma vários médicos. Damião, “doutor encartado” que além dos colonos angolares terem chegado à ilha. Quer dizer, o Reinorei – Amador, um jovem inquieto que, depois de estar infor- árvore cujas partes secas, depois que tinham sido relocadas no conhecimentos da medicina tradicional, tratava as doenças angolar tem sido governado por uma sucessão de reis. Isto foimado pela sua mãe da morte do seu pai, se tornou rei de seu campo do rei Simão Andreza, recuperaram e cresceram abun- rezando aos Santos Damião e Cosme, ordenou a Palayê tratar o seu direito por eles serem filhos da família. Sustentamospovo. Sua mãe aconselhou-o a ir à montanha Budo-Bachana e dantemente em ramos e folhas – foi cortado pelos portugue- Madalena com planta cloçon son e com orações que iam pro- esta hipótese com a frase dita pela mãe de Amador: “Toma!a sua mulher Amada pediu-lhe que libertasse os cativos e es- ses, “Bobos” e “Anjos de Cantar” lamentavam esse infortúnio. tegê-la das maldições possíveis. A “Santificada”, uma mulher (Desdobra o pano vermelho que encobria o bastão). Agora é teu,cravos. Enquanto o rei Amador avançava e libertava a metade Inicialmente os “Bobos” resistiram a duas tentações: Pé-de- que adivinhava as doenças dos enfermos disse a Madalena que pois as febres já tiraram a vida àquele que o segurava por amorda ilha, no terceiro ato da peça, ao leitor é revelada a conduta pau, a personagem de “Danço Congo” e representante da parte ela não ia morrer porque ia dar à luz um filho – o seguinte rei e ao nosso povo.”20dos colonizadores portugueses. O Capataz, representante dos de angolares que consideram si mesmos superiores em relação líder dos angolares, e que ficaria grávida de um homem que re- Frases como estas levam a imaginar que o Reino angolar foiportugueses, recusou-se a tentar salvar a vida do Corsário, aos outros que obrigava “Bobos” a reconhecer que os coloniza- conheceria pelo tremor do seu coração quando o encontrasse. formado muito antes da revolta em 1595 porque, segundorepresentante dos piratas brancos. Depois de ter chegado ao dores portugueses tinham influenciado de maneira positiva o Um stilijon local que tratava adoentados através da análise da a narrativa, Amador era apenas o novo rei na sucessão dosengenho para libertar os escravos, Amador poupou a vida de povo angolar; e Lúcifer, representante das tentações “demóni- urina, concluiu, depois de ter analisado a de Madalena, que ela reis angolares – fato que não corresponde completamente àsCorsário, mas recusou a ideia de que ambos estão unidos na cas” e oposto à união do povo angolar que começou a glorificar era possuída por uma alma inquieta de um seu antepassado. fontes sobre a origem de Amador, que o revelam só como umluta pela independência dos portugueses. os europeus, dizendo que seria melhor se os angolares cola- Ele aconselhou Simão a fazer uma cerimonia em que todas as ex-escravo que escapou da fazenda. Este último fato foi cons- As posições da igreja sobre a escravatura são apresentadas borassem com os portugueses para atingirem a prosperidade pessoas da aldeia rezariam pelas almas dos antepassados. tatado pela documentação histórica existente (Seibert, 2005).pela personagem do frei Afonso. Frente à entrada de uma do seu povo. “Feiticeiro”, um homem com conhecimentos e Durante esta cerimónia, inspirados pela história da avó da Uma outra personagem feminina ocupa um lugar de destaquepequena igreja frei Afonso, inicialmente desaprovando e cri- poderes especiais, apareceu no fim da conversa e afastou Lúci- Madalena, as moças da aldeia encenaram um espectáculo de no teatro de Fernando de Macedo – a mulher de Amador –ticando as ações de “Alforriada”, mulher liberada da sua es- fer e Pé-de-pau do palco. marionete: a história de uma mulher idosa que perdeu a sua Amada, que suplica ao seu marido liberdade para o seu povo:cravidão depois de ter dado à luz a criança concebida com seu Neste momento, acompanhada pelo executor “Algoz”, Rai- única filha e que foi consolada por uma galinha, que, por sua “Liberta primeiro cativos e os escravos! Eles te ajudarão nafazendeiro Sr. Basílio, finalmente concordou em esconder o nha entrou no palco e expulsou “Feiticeiro”, seu assistente vez, perdeu onze pintos. Depois do espectáculo, a avó evocou luta juntando-se aos nossos.”21 Portanto, pela atuação das per-escravo fugido N’Gola. Ao mesmo tempo quando N’Gola es- “Zugo-Zugo” e Lúcifer. Ela opôs-se às tentativas do “Feiti- as aparições de “mutilados”, de todas as pessoas que foram sonagens da mãe e da mulher de Amador, o leitor acaba portava a esconder-se sob o pórtico da igreja, Sr. Basílio interro- ceiro” em aproximar o povo angolar à sua tradição e Lúcifer capturadas, mortas e torturadas na batalha, assim como Ama- se familiarizar com Amador como um jovem governante, quegava e informava o frei Afonso sobre as últimas novidades: para aproximá-lo dos portugueses. Em vez disso queria que os dor e Simão Andreza. No ato final, Madalena conheceu um chegou a ser rei depois da morte do seu pai e como alguém queos guerrilheiros libertavam os engenhos, queimavam as admi- angolares rejeitassem a sua tradição e se submetessem às su- engenheiro florestal, futuro pai de seu filho. vai se tornar o libertador de seu povo. Por agora, vamos deixarnistrações colonizadores e os ex-escravos juntaram-se ao povo periores forças exteriores que ela representa. Cinco membros de lado uma outra interpretação da personagem de Amada aangolar. Os capatazes portugueses fugiram rumo à Povoação de “Guias dos Lados” e “Anjos de Cantar” foram expulsos do CONSTRUÇÃO DA NACIONALIDADE que voltaremos mais adiante.para se preparar para lutar. palco pela Rainha. Neste momento, “Feiticeiro” voltou para Amada gritou a sua súplica ao marido e o rei Amador pas- Avançando em sua viagem, Luísa Bôbô e Mantana toparam anunciar a chegada do último de “Bobos”, o pai de um deles Mesmo usando na sua obra muitos elementos do misti- sou a liberar o seu próprio povo e os escravizados. Por quê? Acom dois guerrilheiros que estavam a procurar por João de – velho Juiz. cismo, teatro de fantoches e da dança angolar, Fernando de resposta à esta pergunta é revelada no diálogo entre CapatazPina, um fazendeiro português e proprietário de uma égua Conversando com a Rainha, velho Juiz queixou-se da des- Macedo narra pormenorizadamente a história heróica sobre do engenho e Corsário – é indicativo da conduta dos coloniza-branca que estava a esconder-se dos angolares. Ele disse à Lu- truição de pau-kími, do cemitério e da sepultura do rei Andre- dois reis principais, porque, como Gilbert e Thompkins (1996) dores portugueses para com os indígenas escravizados e pira-ísa Bobo que os colonizadores tinham atacado os nativos e ti- za, cujos ossos foram arremessados a uma fossa. Por ele ter afirmam, “o líder de uma revolta contra as forças coloniais ou tas brancos, ou seja, ladrões. Mesmo que este relacionamentonham matado Conde Silvestre, o capitão favorito de Amador. defendido a história e tradição angolar, Rainha proclamou-o alguém geralmente historiado como malicioso, é frequente- possa ser tratado como um outro aspecto na obra de FernandoDuarte Amarroco, o general do exército angolar, aproximou- traidor. Na confusão que se seguiu, o carrasco matou velho mente reconstruído no teatro pós-colonial para desempenhar de Macedo, no contexto de nossa hipótese é importante por-se de Luísa Bôbô para lhe dizer que os portugueses tinham Juiz. Depois desta agitação os restantes do “Guias dos Lados” um grande papel proeminente na luta pela liberdade do poder que, na sua essência, é a razão da revolta do povo angolar.bombardeado os guerrilheiros. Pouco depois, um grupo de e “Anjos de Cantar”, começaram a cantar, o cadáver de Juiz de- imperial.19” Agora analisaremos o modo como isto foi conse- Através da personagem do frei Afonso, o leitor vem a sabernativos liderado pela mãe de Amador e Amada, agora grávi- sapareceu e “Capitango” e seus assistentes entraram no palco. guido na obra do autor. das atitudes da Igreja Católica sobre o povo colonizado, suada, aproximava-se dos “narradores”. As mulheres mostraram Após a dança, o único homem que ficou no palco foi Lúcifer. Inserindo a personagem materna na narrativa da primeira religião e tradição, bem como a sua relação com os coloniza-o cadáver do rei Amador à Luísa Bôbô e Mantana. Enquanto peça – a mãe do Amador – através de conhecimentos dessa dores. O frei Afonso torna-se uma personagem importante naAmada e Luísa Bôbô rezando evocavam os líderes mortos do CLOÇON SON personagem sobre as propriedades de terra e de plantas, seu narrativa porque através da sua conversa com Sr. Basílio e En-exército angolar, Amada agasalhou-se com a capa vermelha do Palayê, uma vendedora de peixe no mercado citadino, e seu misticismo, o respeito que ela recebe de Luísa Bôbô e Man- carregado o leitor toma conhecimento das ações heróicas dosseu marido morto. O povo presente, juntamente com as crian- marido Simão, um pescador, estão a enfrentar a provável per- tana e especialmente através da percepção dela como uma angolares que constroem um forte sentido da continuidade naças que vinham correndo, começou a cantar louvores. da da sua última filha Madalena, uma menina acometida por metáfora da mãe em geral, como uma terra que alimenta os luta pela sua independência. uma doença desconhecida. Por terem medo de que a história seus habitantes e como uma rainha que deu à luz a criança Como foi elaborado em nosso trabalho, uma das hipótesesCAPITANGO se repetisse – os seus seis filhos morreram “em terra com as que virá a ser um rei após a morte do seu pai –, Fernando de sobre a origem dos angolares é a de que eles são ascendentes Três “Bobos”, representantes do povo angolar, debatiam en- febres”, e na esperança e no desejo de determinar a doença de Macedo insinuar a continuidade do Reino angolar desde a sua dos angolanos, e a isso se opõe Eugénio Luís da Costa Almeidatre si o valor das tradições angolares para ensinar um ignoran- Madalena e encontrar o meio da curá-la, os pais consultam fundação por volta de 1540 , ou seja, depois de os primeiros (1991) no seu trabalho. Costa Almeida afirma que não deve-cal ufpr . boca do inferno . 12 cal ufpr . boca do inferno . 13
  8. 8. ríamos misturar os angolares com os angolanos que “se inti- 20, temos uma problematização complementar. Apoiando-se foi defendida no século 20. Em outras palavras, essa naciona- REFERÊNCIAStulavam Ngola e não N’Gola” 22. Seja como for, é interessante nos temas e nos valores da dança tradicional angolar – Danço lidade, fortalecida pelos fatos históricos, valida e justifica cadaque uma personagem escravizada na narrativa leva o nome Congo, Fernando de Macedo, através das personagens de Ca- resistência anti-colonial e esforço do povo de São Tomé contra Enders, Armelle. História da África Lusófona, Editorial Inquérito, Sintra, 1997 Ferreira, Manuel. [1977] Literaturas africanas de expressão portugue-N’Gola. Portanto, Fernando de Macedo fez referência ao “pro- pitango problematiza a relação entre a vida moderna, repre- os portugueses. sa: I, Instituto de cultura portuguesa: Ministério da Educação e Cultura, 1986blema” da origem dos angolares. Como? A resposta do frei sentada pelos colonizadores e uma vida tradicional, represen- Gilbert, Helen; Tompkins, Joanne.Afonso indica que ele não se importa se o angolares chegaram tada pelos angolares. Nesse aspecto, o velho Juiz, referindo-se Post-colonial Drama; Theory, Practice, Politics, Routledge, London and Newà ilha após o naufrágio ou vieram de Angola. Mas, deveríamos à personagem do rei Andreza, lembra aos presentes a velha York, 1996 Macedo, Fernando de. Teatro do Imaginário Angolar de S. Tomé 1 Aluna de graduação do curso de Língua e Literatura Portuguesa, Faculdade e Príncipe, Cena Lusófona: Associação Portuguesa para o Intercâmbio Tea-tomar em conta que o autor faz uma outra referência, cuja história, cultura e tradição angolar que os angolares deveriam de Filosofia e Ciências Humanas,Universidade de Zagreb. tral, Coimbra, 2000 Marques, A. H. de Oliveira; Baudrillart, Marte – Hélène.premissa se justifica na resposta do escravo fugido N’Gola que honrar. Portanto, ele utiliza a árvore real, cortada pelos por- 2 Publico.PT. “Morreu Fernando Ferreira da Costa”, URL: http://ultimaho- Histoire du Portugal er de son empire colonial, Karthala, Paris, 1998. Mata,no final da sua conversa com Luísa Bôbô e Mantana declara: tugueses, como uma metáfora para o possível perigo em rela- ra.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1246416&idCanal=36, (11 de Agosto de Inocência. “São Tomé e Príncipe (Parte V)” em: Laranjeira, Pires. Literaturas“Dona, as crianças são sagradas. Nós arriscamos a vida por ção aos colonizadores. Um dos Bobos diz: “ […]cortaram o que 2009) Africanas de Expressão Portuguesa, Universidade Aberta, Lisboa, 1995, pg.: 3 Macedo, Fernando de. Teatro do Imaginário Angolar de S. Tomé e Príncipe,elas, e muitos morrem na luta. Apesar da tristeza, é bom que não lhes fazia falta arrancando raízes da nossa memória…”25 331-349 Mitras, Luís R. “Theatre in Portuguese-speaking African Countries” Cena Lusófona: Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral, Coimbra,os meninos vejam para que não esqueçam amanhã o preço da Bobo continua: “Até ao Rei Andreza, decorrem quasi quatro em: Banham, Martin (ed.). A History of Theatre in Africa, Cambridge Uni- 2000, pg.: 141 versity Press, Cambridge, 2004, pg.: 380-404 Seibert, Gerhard. “São Tomé eliberdade.” 23 Segundo isso, N’Gola alude ao futuro possível séculos de “guerra do mato”. Não foi só o Amador que entrou 4 Op. cit. 1 Príncipe” em: Chabal, Patrick. A History of Post-colonial Lusophone África,dos angolares e para que a luta pela nacionalidade não seja na capital, antes e depois dele idêntico feito foi conseguido 5 Biblioteca Nacional de Portugal, URL: http://www.bnportugal.pt/, (11 de Indiana University Press, Bloomington & Indianápolis, 2002 Serão, Joa- Agosto de 2009)esquecida. Voltemos agora à personagem da mulher de Ama- por outros Reis. Temos uma bela e longa história escrita com quim Veríssimo. História de Portugal: Volume IV: governo dos reis espanhóis 6 Op. cit. 2dor, Amada, que, no ato final da peça revela-se muito impor- o sangue do nosso povo!”26 Não acha que aqui o velho Juiz 7 Op. cit. 3, pg.: 141 (1580-1640), Editorial Verbo, Lisboa, 1980tante: ela está grávida com a criança que será a futuro rei dos está a referir-se à nacionalidade angolar, a mesma defendida 8 Op. cit. 3, pg.: 142 Almeida, Eugénio Luís da Costa. “São Tomé e Príncipe: Notas para um estudo 9 Grada Kilomba. „Rei Amador“ URL: http://www.gradakilomba.com/Essays. sócio-político. Universidade Lusíada, Lisboa, 1991”, URL: . http://elcalmeida.angolares e, portanto, ela cobre-se com a capa vermelha para por ambos os reis? Desta forma, mais uma vez, o autor alude htm, (16 de Agosto de 2009) home.sapo.pt/Naopublicados/STPrincipe.htm, (21 de Agosto de 2008)se proclamar regente do trono real. Assim, a continuidade do à continuidade da nacionalidade angolar. Antunes, Maria do Rosário Nogueira. “Memórias Angolares ou Ângulos São- 10 S. Tomé e Príncipe – Os Angolares. „O Reino dos Angolares“, URL: http://povo angolar (nação, tradição e cultura) será preservada. angolares.no.sapo.pt/, (15 Agosto de 2009) tomenses em Teatro Imaginário Angolar de Fernando de Macedo, 2002”, Através das personagens do fazendeiro português João de CONCLUSÃO 11 Serão, Joaquim Veríssimo. História de Portugal: Volume IV: governo dos URL: http://www.uea-angola.org/artigo.cfm?ID=564, (11 de Agosto de 2009)Pina e líder bélico Duarte Amarroco, o leitor acaba por ser in- reis espanhóis (1580-1640), Editorial Verbo, Lisboa, 1980, 234 Ceita, Maria Nazare Dias de. „Expressions Culturelles à São Tomé“, 2007, 12 Seibert, Gerhard. „A verdadeira origem do célebre Rei Amador, líder da URL: http://www.africultures.com/php/index.php?nav=article&no=1285,formado que no campo de batalha cada lado confrontado está A cada narrativa ficcional podemos atribuir a definição que a revolta dos escravos em 1595“, Instituto de Investigação Científica Tropical (11 de Agosto de 2009)a ponto de ganhar ou perder. Também, o leitor aprende que ficção é, diferentemente dos fatos históricos, inventada, mu- (IICT), Lisboa“, 2005, URL: http://culturastp.blogspot.com/2005/05/verda- Pereira, Renato Pignatari. “A construção do nacionalismo em São Tomé eAmador está morto. Os fatos históricos da sua morte – Ama- tável, e subjetiva, mas na questão da narrativa da trilogia es- deira-origem-do-clebre-rei-amador.html, (20 de Agosto de 2009) Príncipe”, URL: http://www.klepsidra.net/klepsidra13/saotome.htm, (16 dedor foi traído pelos seus soldados mais próximos e membros crita por Fernando de Macedo, somos confrontados com uma 13 Op. cit. 11 Agosto de 2009) 14 Op. cit. 11 Seibert, Gerhard. „A Lenda do Rei Amador; São Tomé e Príncipe“, URL:da família – não estão presentes no drama. Fernando de Ma- certa confusão. Manipulando, acrescentando ou omitindo fa- 15 Op. cit. 8 http://www.esecamora.pt/joomla151/images/stories/projectos/geminacao/cedo omite-os e implementa o misticismo. Na peça, a “pro- tos históricos da vida e do heroísmo dos dois maiores reis an- 16 São Tomé e Príncipe. „O preço da liberdade; A história do Rei Amador, ícone files/celmira_lenda_do_rei_amador_s_tome_principe.pdf, (15 de Agosto decissão” dos angolares acabou no sopé de Budo-Bachana, uma golares, os guardiões do coletivo e forças unificadoras do povo da luta de emancipação de São Tomé e Príncipe”, URL: http://opatifundio. 2009)montanha que, segundo a superstição popular, possui pode- angolar, Fernando de Macedo pertence à sucessão de tantos com/descobriapolvora/?cat=30, (11 de Agosto de 2009) Seibert, Gerhard. „A verdadeira origem do célebre Rei Amador, líder da revol- 17 Op. cit. 9res místicos. outros escritores que antes dele têm representado o escravo ta dos escravos em 1595“, Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), 18 Op. cit. 3, pg.: 139 Apesar das diferenças entre as peças Rei do Óbô e Cloçon Son libertado Amador como o líder dos angolares, fato o qual con- Lisboa“, 2005, URL:http://culturastp.blogspot.com/2005/05/verdadeira- 19 „The leader of a rebellion against colonial forces or someone generally his- origem-do-clebre-rei-amador.html, (20 de Agosto de 2009)(cujo enredo é colocado num período temporal posterior), trariam os documentos históricos existentes. toricised as villainous is often reconstructed in post-colonial theatre to play Biblioteca Nacional de Portugal, URL: http://www.bnportugal.pt/, (11 deelas possuem um “denominador comum” na personagem de Além disso, através das personagens da mãe de Amador, sua a highly prominent role in the struggle for freedom from imperial rule. focus Agosto de 2009) on a local legendary figure, loosen imperialism’s stranglehold on historical re-rei Simão Andreza. Com o objetivo de provar uma certa con- mulher Amada (as personagens da narrativa não existentes Grada Kilomba. „Rei Amador“ URL: http://www.gradakilomba.com/Essays. presentation.” Veja: Gilbert, Helen; Tompkins, Joanne. Post-colonial Drama;tinuidade da nacionalidade e da cultura angolar, Fernando nas fontes históricas) e da personagem historicamente docu- Theory, Practice, Politics, Routledge, London and New York, 1996, pg.: 116 htm, (16 de Agosto de 2009) Língua dos Angolares. “Língua N‟Gola – Ade Macedo implementa a personagem do último rei angolar mentada de rei Andreza, o autor constrói a narrativa de um 20 Op. cit. 3, pg.: 28 Língua dos Angolares”, URL: http://angolares.no.sapo.pt/Falar%20Angolar. 21 Op. cit. 3, pg.: 28 htm, (16 de Agosto de 2009)conhecido que, como o seu antecedente rei Amador, lutou povo oprimido que, ao longo da história, defendeu sua pró- 22 Almeida, Eugénio Luís da Costa. “São Tomé e Príncipe: Notas para um estu- Publico.PT. “Morreu Fernando Ferreira da Costa”, . URL:.http://ultimahora.contra os portugueses, embora mais tarde, em 1878. Na peça pria cultura, sociedade e tradição – em outras palavras, a sua publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1246416&idCanal=36, (11 de . Agosto de do sócio-político. Universidade Lusíada, Lisboa, 1991”, URL: http://elcalmei-Cloçon Son, o rei Simão Andreza lembra ao seu povo o perigo própria nacionalidade. Os dois reis - Amador e Simão Andreza da.home.sapo.pt/Naopublicados/STPrincipe.htm, (21 de Agosto de 2008) 2009) S. Tomé e Príncipe – Os Angolares. „O Reino dos Angolares“, URL:do esquecimento da própria história pela qual os reis e o povo – tornaram-se símbolos da revolução anti-imperialista. 23 Op. cit. 3, pg.: 51 http://angolares.no.sapo.pt/, (16 Agosto de 2009) São Tomé e Príncipe. „Olutavam, caso contrario tudo será em vão: “Filha, pior do que Em conclusão, como o Reino angolar era localizado na ilha de 24 Op. cit. 3, pg.: 131 preço da liberdade; A história do Rei Amador, ícone da luta de emancipação 25 Op. cit. 3, pg.: 89 de São Tomé e Príncipe“, URL:a guerra é o esquecimento! E pior do que o inimigo, é o nosso São Tomé, o objetivo de Fernando de Macedo é mostrar que 26 Op. cit. 3, pg.: 90 http://opatifundio.com/descobriapolvora/?cat=30, (11 de Agosto de 2009)irmão quando o imita!”24 os angolares são parte da história, cultura, tradição do povo Na peça Capitango, cuja narrativa é colocada no início século são-tomense e, portanto, da nacionalidade são-tomense quecal ufpr . boca do inferno . 14 cal ufpr . boca do inferno . 15

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