A possibilidade de uma ciência do comportamento humano

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Discussão dos capítulos 1 a 3 do livro "Ciência e Comportamento Humano" (B. F. Skinner) para a disciplina Fundamentos Teóricos em Psicologia II - Comportamentalismo. Curso de Graduação em Psicologia, Unifesspa, 2016

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A possibilidade de uma ciência do comportamento humano

  1. 1. Ψ Fundamentos Teóricos em Psicologia II – Comportamentalismo Aula 2 A possibilidade de uma ciência do comportamento humano Prof. Dr. Caio Maximino
  2. 2. Ψ Objetivos da aula ● Discutir aspectos ético-políticos da AEC propostos por Skinner ● Limitar as características de uma explicação científica segundo Skinner ● Descrever algumas das limitações das explicações internalistas do comportamento ● Analisar as explicações causais da “folk psychology”
  3. 3. Ψ Dimensão ética e política da ciência do comportamento Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas ● Qual a função da ciência? ● O desenvolvimento técnico não foi acompanhado de um desenvolvimento social – A posição anti-científica é uma reação natural ● “Em qualquer época é sempre a mais conspícua de suas características responsabilizada pelas dificuldades; no século XX é a ciência que desempenha o papel de bode expiatório.” (CCH, p. 4)
  4. 4. Ψ A ciência como “corretivo” ● “Talvez não seja a ciência que está errada, mas sua aplicação. Os métodos da ciência têm tido um sucesso enorme onde quer que tenham sido experimentados. Apliquemo-los, então, aos assuntos humanos. Não precisamos nos retirar dos setores onde a ciência já avançou. É necessário apenas levar nossa compreensão da natureza humana até o mesmo grau.” Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas
  5. 5. Ψ Que ciência é essa? ● Modelo das ciências naturais: controle e previsão ● Deve partir do pressuposto de que o comportamento humano é ordenado e previsível: – “Devemos esperar descobrir que o que o homem faz é o resultado de condições que podem ser especificadas e que, uma vez determinadas, poderemos antecipar e até certo ponto determinar as ações.” ● Para que o comportamento seja passível de análise nesse contexto, os conceitos de liberdade e dignidade devem ser abandonados Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas
  6. 6. Ψ Características importantes da ciência ● Primazia da observação sobre a teoria: “A ciência é antes de tudo um conjunto de atitudes. É uma disposição de tratar com os fatos, de preferência, e não com o que se possa ter dito sobre eles.” ● Isenção do observador – critério mínimo de objetividade: “disposição de aceitar os fatos mesmo quando eles são opostos aos desejos”; “Os experimentos nem sempre dão o resultado que se espera, mas devem permanecer os fatos e perecer as expectativas” ● Busca das relações ordenadas entre eventos ● Do particular para o geral → modelo dedutivo-nomológico ● A função das leis e dos sistemas científicos é aumentar nossa capacidade de “manejar um assunto do modo mais eficiente” (CCH, p. 15) Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas
  7. 7. Ψ Comportamento como objeto de estudo ● Complexidade do objeto como obstáculo para o desenvolvimento da ciência do comportamento – Processual – Fluidez ● Essas características do comportamento o tornam especialmente refratário à análise pelos métodos das ciências naturais – “Muita gente interessada no comportamento humano não sente a necessidade dos padrões e critérios de prova característicos de uma ciência exata; as uniformidades no comportamento seriam 'óbvias' mesmo sem eles.” (CCH, p. 17) ● “Quando a ciência do comportamento atinge o ponto de lidar com relações ordenadas, encontra a resistência daqueles que deram sua lealdade às concepções pré-científicas ou extracientíficas” Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas
  8. 8. Ψ Algumas objeções à ciência natural do comportamento ● As ciências naturais já não seguem o modelo determinista (p. ex., Princípio de Indeterminação na Física; leituras pós-modernas) – A aparência de indeterminação do comportamento só significa que não conhecemos o suficiente sobre ele ● O entendimento do comportamento depende de um comportamento que é limitado (“o cérebro investigando a si mesmo”) – Mesmo que isso seja verdade, o objetivo da ciência não é saber tudo, mas compreender todas as espécies de fatos ● A aproximação científica ignora o aspecto único de cada indivíduo particular (“reducionismo”) – Objeção comum a ciências novas ● O uso de médias não é útil para prever o comportamento individual – Afirmação deve ser testada, e não se basear em uma colocação apriorística Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas
  9. 9. Ψ Causas e efeitos ● “Uma 'causa' vem a ser uma 'mudança em uma variável independente' e um 'efeito', uma 'mudança em uma variável dependente'. A antiga 'relação de causa e efeito' transforma-se em uma 'relação funcional'. Os novos termos não sugerem como uma causa produz o seu efeito, meramente afirmam que eventos diferentes tendem a ocorrer ao mesmo tempo, em uma certa ordem.” (CCH, p. 24) Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas
  10. 10. Ψ “Folk psychology” (“Psicologia do senso comum”) ● Modelos de senso comum para explicar e prever o comportamento e os estados mentais das pessoas ● Usa termos intencionais de de uso cotidiano – crenças, desejos, intenções, expectativas, preferências, esperanças, medos, &c ● Juntando-se a diversos outros teóricos, Skinner assume que essas explicações estão erradas – Redução inter-teórica e eliminativismo → Uma ciência madura deverá explicar o comportamento sem referir-se aos estados e processos intencionais invocados pela “folk psychology” Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas
  11. 11. Ψ Algumas explicações comuns do comportamento ● Explicações místicas, Fisionomia, &c, sobrevivem ao uso cotidiano porque “as previsões que são feitas com base nele, (...) são vagas, e os acertos casuais podem ser perturbadores” (CCH, p. 26) – Mesmo se essas explicações são observadas consistentemente (o que comumente não o são), é preciso considerar explicações alternativas ● “Hereditariedade”, como usada pelo leigo, é uma explicação sem fundamento empírico; mesmo se houver, a utilidade dessas observações (controle do comportamento, previsão) é baixa. ● Causas internas – “Folk psychology”, “mentalismo” Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas
  12. 12. Ψ Causas internas: A crítica ao mentalismo ● Em CCH, Skinner não nega a utilidade das causas internas como geradoras de hipótese, mas enumera dificuldades da análise posterior: “Não há nada errado em uma explicação interior, como tal, mas os eventos que se localizam no interior de um sistema tendem a ser difíceis de observar.” (p. 28) – Na medida em que não são causas do comportamento, embora remetendo indiretamente a elas (as contingências), os termos intencionais não têm um papel explicativo a desempenhar na ciência do comportamento. – Entretanto, ao assim fazerem, eles podem cumprir um papel heurístico para a descoberta das variáveis controladoras, facilitando, então, a explicação, predição e controle de relações comportamentais. – Atribuir a causa do comportamento a processos intencionais é incorrer em erro categorial, o que pode deturpar a busca pelas variáveis controladoras Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas
  13. 13. Ψ Problemas epistemológicos da mente ● “A psicologia introspectiva já não pretende fornecer informações diretas sobre eventos que sejam os antecedentes causais, e não meros acompanhantes do comportamento. Definiu seus eventos 'subjetivos' de tal forma, que ficam excluídos de qualquer possibilidade de utilização em uma análise causal” (CCH, pp. 31-32) ● Eventos mentais são necessariamente inferidos, e portanto a explicação não se baseia em observações independentes ● “Se o estado é puramente inferido - se não há dimensões ele relacionadas, as quais poderiam tornar possível uma observação direta - não pode ser usado como explicação.” (CCH, p. 35) Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas
  14. 14. Ψ Problemas epistemológicos da mente ● “Mais incrementada, a posição de Skinner torna-se esta: não utilize expressões intencionais na psicologia” (Dennett, 1999) ● Objeções: – Diferente da minha explicação sobre as Outras Mentes, não explico a minha própria mente recorrendo ao comportamento – Não “se segue do fato de que a psicologia não pode fazer nenhum apelo final aos elementos intencionais, que não possa haver lugar para as expressões intencionais em psicologia” (Dennett, 1999) → p. ex., conceito de gene em Mendel Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas
  15. 15. Ψ A causa está no ambiente? ● As variáveis externas (ambiente imediato e história ambiental) são acessíveis à análise científica ● São materiais, e portanto as técnicas usuais da ciência podem ser usadas para explicar o comportamento ● Variáveis internas não podem servir como variáveis independentes, e portanto não posso manipulá-las Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas
  16. 16. Ψ “Streetlight effect” Bêbado: “estou procurando uma moeda que perdi” Policial: “você a perdeu aí?” Bêbado: “Não, eu a perdi duas quadras pra lá” Policial: “Então porque você a está procurando aqui?” Bêbado “Porque a luz aqui é melhor” Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas
  17. 17. Ψ Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas Dimensões analisáveis do comportamento ● “Tanto para uma previsão acurada como para o controle, devemos investigar quantitativamente os efeitos de cada variável com os métodos e as técnicas de uma ciência de laboratório.” – Manipulação de variáveis independentes (ambientais) e mensuração de variáveis dependentes (comportamento) ● “Em cada caso temos um encadeamento casual composto de três elos: (1) uma operação efetuada de fora sobre o organismo - por exemplo, privação de água; (2) uma condição interna - por exemplo, sede fisiológica ou psíquica; (3) um certo comportamento - por exemplo, beber (…). Entretanto, é quase sempre impossível obter informações diretas sobre o segundo elo” (CCH, p. 36) ● Skinner assume a Regra da Parcimônia de Lloyd Morgan: não assumir a existência de quaisquer variáveis a mais do que as necessárias para explicar o comportamento ● O mentalismo fornece explicações desnecessárias ou supérfluas para a previsão e controle do comportamento
  18. 18. Ψ Análise funcional ● A utilização de termos intencionais é lícita somente quando fazem referências a eventos observáveis ● Se podemos dispensar o segundo elo, podemos afirmar que o comportamento é uma função das variáveis externas – no final das contas, a ciência do comportamento irá inevitavelmente demonstrar que esses termos intencionais são falsos ● A análise funcional é uma análise causal, e deve ser feita dentro dos limites da ciência natural: “Não é lícito presumir que o comportamento tenha propriedades particulares que requeiram métodos únicos ou uma espécie particular de conhecimento” (CCH, p. 38) – Entretanto, porque apelar a uma epistemologia própria (behaviorismo radical)? ● As variáveis independentes devem ser descritas em termos físicos Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas
  19. 19. Ψ Fontes de informação sobre o comportamento ● Observações causais ● Observação controlada de campo ● Observação clínica ● Estudos do comportamento de animais humanos e não-humanos em laboratório → Manipulação deliberada de variáveis Dimensão ética Características da ciência Ciência do compor- tamento “Folk psychology” Causas internas

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