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Rainha Exilada, A - Vol.2 - Série Os Sete Reinos - 9788581052403

Published in: Entertainment & Humor
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  1. 1. 9 C A P Í T U L O U M A Muralha Ocidental O tenente Mac Gillen, da Guarda da Rainha de Fells, encolheu-se sob o vento que uivava dos descampados ao norte e a oeste. Amarrando as rédeas na frente da sela, ele deixou seu cavalo, Marauder, percorrer por conta própria a meia milha final da descida até a casa da guarnição de Portal Ocidental. Gillen merecia mais que aquele trabalho miserável naquele canto miserá- vel do reino de Fells. Patrulhar a fronteira era um serviço para o exército: mer- cenários estrangeiros, os chamados “cães de guerra”, ou a guarda nacional das Terras Altas. Não para um integrante da elite da Guarda da Rainha. Estava longe da cidade havia apenas um mês, mas sentia falta da vizi- nhança agitada de Ponte Austral, onde havia muita distração nas rondas notur- nas: tabernas, salões de jogo e prostitutas. Na capital, ele tinha bons contatos — gente endinheirada —, o que significava muitas chances de fazer trabalho privado extra. Então tudo dera errado. Tinha havido um motim de prisioneiros na Casa da Guarda de Ponte Austral, e uma rata de rua dosTrapilhos, chamada Rebecca, enfiara uma tocha ardente no rosto dele, cegando um dos olhos e deixando a pele vermelha, brilhante e enrugada com uma cicatriz. No fim do verão, ele levara Magot, Sloat e alguns outros para recuperar um amuleto roubado em Feira dos Trapilhos. Ele fizera o trabalho às escondi-
  2. 2. 10 das, sob as ordens de lorde Bayar, Grão Mago e conselheiro da rainha. Eles reviraram o estábulo arruinado de cima a baixo e até cavaram o terreno, mas não encontraram o faz-feitiço nem Alister Algema, o ladrão de rua que o havia roubado. Quando eles interrogaram a gentalha que morava ali, a mulher e a pirra- lha disseram que nunca tinham ouvido falar em Alister Algema e que não sa- biam nada sobre amuletos. No fim, Gillen incendiara o lugar com as duas lá dentro. Um aviso a todos os ladrões e mentirosos. Percebendo a distração de Gillen, Marauder prendeu o freio entre os dentes e partiu em um galope desajeitado. Gillen recuperou as rédeas e reto- mou o controle depois de alguns sacolejos que chamaram a atenção dos outros guardas. O tenente olhou de cara feia para os homens e fez desaparecer o sor- riso do rosto dele. Era só o que faltava — levar um tombo e quebrar o pescoço em uma corrida morro abaixo para lugar nenhum. Alguns chamariam a transferência de Gillen para a Muralha Ocidental de promoção. Ele recebera um distintivo de tenente, o comando de um torreão imenso e sombrio e uma centena de outros exilados — todos membros do exército regular —, além de seu próprio esquadrão de casacos azuis. Era um comando maior que seu posto anterior na Casa da Guarda de Ponte Austral. Como se ele fosse comemorar por comandar um monte de esterco. O torreão do Portal Ocidental guardava a Muralha Ocidental e a vila funesta e arruinada de Portal Ocidental. A muralha separava as montanhas de Fells dos Pântanos Gélidos. Uma terra de lodaçais e brejos, os Pântanos eram densos demais para nadar e ralos demais para arar, intransponíveis a não ser a pé até as fortes geadas após o solstício. No fim das contas, o controle do torreão gerava pouca oportunidade para um homem de ação como Mac Gillen. Ele reconhecia seu novo posto pelo que era: uma punição por não entregar a lorde Bayar o que ele queria. O tenente tivera sorte em sobreviver à decepção do Grão Mago. Gillen e seu grupo se espalharam pelas ruas de pedra da vila e desmonta- ram no terreno do estábulo do torreão. Quando Gillen conduziu Marauder à estrebaria, o oficial de serviço, Robbie Sloat, levou a mão à testa como saudação. — Temos três visitantes de Fellsmarch que querem vê-lo, senhor — disse Sloat. — Eles estão esperando por você no torreão. A esperança surgiu em Gillen. Isso poderia significar novas ordens da capital, finalmente. E talvez um fim ao seu injusto exílio.
  3. 3. 11 — Eles deram o nome? — Gillen jogou as luvas e a capa encharcada para Sloat e passou os dedos pelo cabelo para arrumá-lo. — Eles disseram que só falariam com o senhor — respondeu Sloat. Ele hesitou. — São bebês de sangue azul. Não mais que garotos. O lampejo de esperança se extinguiu. Provavelmente eram filhos arro- gantes da nobreza a caminho das academias de Vau de Oden. Justamente o que ele não precisava. — Eles pediram alojamento na ala dos oficiais — emendou Sloat, con- firmando os temores de Gillen. — Alguns nobres parecem pensar que a gente está cuidando de um alber- gue para pirralhos de sangue azul — resmungou Gillen. — Onde eles estão? Sloat deu de ombros. — Estão no salão dos oficiais, senhor. Sacudindo-se para se livrar da chuva, Gillen caminhou até o torreão. Antes de cruzar o pátio interno, ele ouviu música: uma basilka e uma flauta. Gillen empurrou as portas do salão dos oficiais com os ombros e deparou com os três garotos, que mal deviam ter completado a maioridade, juntos ao redor do fogo. O barril de cerveja no aparador fora aberto e havia canecas va- zias diante deles. Os garotos tinham a expressão preguiçosa e satisfeita de quem havia se banqueteado. Os restos do que fora uma refeição suntuosa estavam espalhados pela mesa, incluindo o cadáver remexido de um presunto imenso que Gillen estava guardando para si mesmo. Em um canto estavam os músicos, uma garota bonita com a flauta e um homem — o pai, provavelmente — com a basilka. Gillen se lembrou de já tê- -los visto na vila, tocando por cobres nas esquinas. Quando Gillen entrou, a música parou, e os músicos ficaram imóveis, pálidos e de olhos arregalados, feito animais capturados antes de morrer. O pai puxou a filha, que tremia, para debaixo do braço dele, afagou a cabeça loura e falou umas poucas palavras para ela. Ignorando a entrada de Gillen, os garotos ao redor do fogo bateram pal- mas preguiçosamente. — Não é ótimo, mas é melhor que nada — falou um deles com um sor- risinho. — Igual às acomodações. — Eu sou Gillen — anunciou ele em voz alta, já convencido de que nada de bom viria daquele encontro. O mais alto dos três rapazes ficou de pé graciosamente e jogou para trás a cabeleira negra. Ao ver o rosto de Gillen, cheio de cicatrizes, o garoto se en- colheu e seu rosto nobre se contorceu com nojo.
  4. 4. 12 Gillen trincou os dentes. — O cabo Sloat falou que vocês queriam me ver — disse ele. — Sim, tenente Gillen. Eu sou Micah Bayar, e esses são meus primos, Arkeda e Miphis Mander. — Ele fez um gesto na direção dos outros dois, que eram ruivos: um magro e o outro corpulento. — Estamos viajando para a aca- demia em Vau de Oden, mas, como íamos passar por aqui, me pediram que trouxesse uma mensagem de Fellsmarch para você. — Ele desviou os olhos na direção da sala de serviço vazia. — Talvez a gente possa conversar ali dentro. O coração de Gillen acelerou. O homem olhou para as estolas nos om- bros do garoto, bordadas com falcões. A insígnia da família Bayar. Sim. Reparando melhor, via a semelhança — algo no formato dos olhos do garoto e na pronunciada estrutura óssea do rosto. O cabelo preto do jovem Bayar estava rajado com o vermelho dos magos. Os outros dois também usavam estolas, embora com uma insígnia dife- rente. Gatos das Torres. Eles eram três aprendizes de mago, então, e um deles era o filho do Grão Mago. Gillen limpou a garganta, nervoso e ansioso. — Certamente, certamente, Vossa Senhoria. Espero que a comida e a bebida tenham sido do seu agrado. — Estavam... satisfatórias, tenente — retrucou o jovem Bayar. — Mas agora temo que tenham caído mal. — Ele afagou a barriga com dois dedos e os outros dois garotos riram. Gillen pensou que era hora de mudar o assunto. — Você se parece com seu pai, sabe. Dá para ver em um instante que você é filho dele. O jovem Bayar franziu a testa, lançou um olhar aos músicos, depois de volta a Gillen. Ele abriu a boca para falar, mas Gillen se adiantou, querendo terminar o que tinha a dizer: — Sabe, não foi minha culpa aquela história do amuleto. O tal Alister Algema é um selvagem e sabe se virar nas ruas. Mas vocês escolheram o homem certo para o serviço. Se alguém pode encontrá-lo, sou eu, e vou trazer o faz- -feitiço de volta também. Preciso apenas voltar para a cidade. O garoto ficou totalmente imóvel e fitou Gillen com os olhos semicerra- dos, os lábios comprimidos em desaprovação. Depois, balançando a cabeça, ele se virou para os primos: — Miphis. Arkeda. Fiquem aqui. Tomem mais um pouco de cerveja se aguentarem. — Ele agitou a mão na direção dos músicos. — Mantenham esses dois por perto e não os deixem sair.
  5. 5. 13 O jovem Bayar balançou o dedo para Gillen. — Você. Venha comigo. — Sem olhar para trás, para ver se Gillen o acompanhava, caminhou até a sala de serviço. Confuso, Gillen o seguiu. O jovem Bayar estava olhando pela janela que dava para os estábulos e apoiou a mão no peitoril de pedra. Ele aguar- dou que a porta se fechasse atrás dele antes de se virar para Gillen. — Seu... cretino — falou o garoto, com o rosto pálido, olhos duros e reluzentes como carvão de Delfos. — Não posso acreditar que meu pai con- trataria alguém tão estúpido. Ninguém deve saber que você está a serviço do meu pai, entendeu? Se isso chegasse aos ouvidos do comandante Byrne, as consequências poderiam ser graves. Meu pai poderia ser acusado de traição. A boca de Gillen ficou seca. — Sim. É claro — gaguejou. — Eu... hum... pensei que os outros apren- dizes de mago estivessem com você e... — Você não é pago para pensar, tenente Gillen — disse Bayar. Ele andou até Gillen, com as costas muito eretas, as estolas balançando com a brisa que entrava pela janela. Conforme Bayar avançava, Gillen recuou até encostar na escrivaninha. — Quando eu digo ninguém, é ninguém mesmo — falou Bayar, e tocou no pingente de aparência maligna em seu pescoço. Era um falcão enta- lhado em uma gema vermelha e brilhante; um faz-feitiço, como aquele que Gillen tinha falhado em encontrar em Feira dos Trapilhos. — A quem mais você contou sobre isso? — A ninguém, juro pelo sangue do demônio que não contei a mais nin- guém — murmurou Gillen, e o medo era como uma faca em suas entranhas. Ele estava parado, os pés ligeiramente afastados, pronto para se desviar se o aprendiz de mago lançasse chamas nele. — Eu só queria ter certeza de que Vossa Senhoria sabia que eu fiz o melhor que pude para encontrar aquela joia, mas que ela não estava em lugar nenhum. Um lampejo de desprezo passou pelo rosto do garoto, como se aquele fosse um assunto no qual não queria tocar. — Você sabia que, enquanto fazia buscas em Feira dos Trapilhos, atrás do amuleto, Alister atacou meu pai e quase o matou? Sangue e ossos, pensou Gillen, estremecendo. Como antigo dono da rua da gangue dos Trapilhos, Alister era conhecido por ser temerário, violento e implacável. Pelo visto o garoto também era um suicida. — Lor... lorde Bayar está bem? — Será que Alister está morto?
  6. 6. 14 O jovem Bayar respondeu à pergunta feita e à que não foi feita: — Meu pai se recuperou. Infelizmente, Alister escapou. Meu pai consi- dera a incompetência algo difícil de perdoar. Em qualquer um. — A ponta de amargura na voz do garoto pegou Gillen desprevenido. — Hum... certo — falou Gillen. Ele emendou, se vendo obrigado a se defender: — É um desperdício me manter aqui, milorde. Me mande de volta para a cidade, e eu vou encontrar o garoto, eu juro. Conheço as ruas e as gan- gues que tomam conta delas. Mais cedo ou mais tarde, Alister vai aparecer em Feira dos Trapilhos, mesmo que a mãe e a irmã tenham dito que ele não ia lá havia semanas. Os olhos do jovem Bayar se estreitaram e ele se inclinou para a frente, com os punhos cerrados. — A mãe e a irmã? Alister tem mãe e irmã? Ainda estão em Fellsmarch? Gillen sorriu. — Elas foram queimadas, eu acredito. Incendiamos o lugar com elas dentro. — Você matou as duas? — O jovem Bayar olhou para ele. — Elas estão mortas? Gillen lambeu os lábios, sem saber ao certo onde havia errado. — Bem, eu imaginei que isso mostraria a todo mundo que é melhor falar a verdade quando Mac Gillen faz uma pergunta. — Você é um idiota! — Bayar balançou a cabeça devagar, com os olhos fixos no rosto de Gillen. — Nós poderíamos ter usado a mãe e a irmã de Alister a fim de atraí-lo para fora do esconderijo. Poderíamos ter algo para oferecer em troca do amuleto. — Ele fechou o punho no ar. — Nós poderíamos pegá-lo. Ossos, pensou Gillen. Ele nunca conseguia dizer a coisa certa para um mago. — Você acha que sim, mas, acredite, um dono da rua como Alister tem o coração frio como o rio Dyrnne. Você acha que ele se importa com o que acontece à mãe e à irmã? Não. Ele não se importa com ninguém, além de si mesmo. O jovem Bayar dispensou aquilo com um gesto da mão. — Agora nunca saberemos, não é? De qualquer modo, meu pai não precisa mais dos seus serviços na caça a Alister. Ele enviou outras pessoas para essa tarefa. Eles conseguiram tirar as gangues de rua da cidade, mas não tive- ram sorte em encontrar Alister. Temos razões para acreditar que ele saiu de Fellsmarch.
  7. 7. 15 O garoto esfregou a testa com a palma da mão, como se estivesse com dor de cabeça. — De qualquer forma, se um dia cruzarem com Alister, por acidente ou de outra forma, meu pai quer que o tragam vivo e ileso, com o amuleto. Se você pudesse providenciar isso, seria, é claro, muito bem recompensado. — O jovem Bayar tentou soar indiferente, mas a rigidez ao redor de seus olhos o contradizia. O garoto odeia Alister, pensou Gillen. Era pelo fato de Alister ter tentan- do matar o pai dele? De qualquer forma, Gillen podia ver que não havia razão para insistir em seu retorno a Fellsmarch. — Muito bem, então — disse, fazendo um esforço para disfarçar a de- cepção. — Então. O que o traz ao Portal Ocidental? Você disse que tinha uma mensagem para mim. — Uma questão delicada, tenente. E vai exigir discrição. — O garoto deixou claro que duvidava da discrição de Gillen. O que quer que isso fosse. — Mas é claro, milorde, pode contar comigo — falou Gillen com ansiedade. — Você ouviu falar que a princesa Raisa está desaparecida? — perguntou Bayar abruptamente. Gillen tentou manter a expressão neutra. Competente. Cheio de discrição. — Desaparecida? Não, milorde, não sabia disso. Recebemos poucas no- tícias aqui. Eles têm alguma ideia... — Acreditamos que há uma chance de ela ter saído do país. Ô-ou, pensou Gillen. Então ela fugira. Será que tinha sido uma briga entre mãe e filha? Um romance proibido? Um plebeu, quem sabe? As princesas Lobo Gris eram conhecidas por serem teimosas e aventureiras. Ele tinha visto a princesa Raisa de perto uma vez. Ela era pequena, mas tinha um corpo bonito, uma cintura que um homem poderia envolver com as mãos. Ela o olhara de relance com aqueles olhos verdes de feiticeira, depois murmurara alguma coisa para a mulher ao lado dela. Isso tinha sido antes. Agora, as mulheres viravam o rosto quando ele se oferecia para lhes pagar uma bebida. Antes, a princesa poderia ter se deixado levar por alguém como ele — um militar, homem do mundo. Ele até pensara em como seria... A voz de Bayar o interrompeu: — Você está escutando, tenente? Gillen forçou a mente a voltar para o assunto em questão.
  8. 8. 16 — Sim, milorde. Claro. Hum. Qual foi a última parte? — Eu falei que ela também pode ter se refugiado com os parentes ruivos do pai, no Campo Demonai ou no Campo Pinhos Marisa. — Bayar deu de ombros. — Eles dizem que ela não está com eles, que deve ter ido para o sul, saído do reino. Mas a fronteira ao sul está bem protegida. Portanto, ela poderia tentar sair pelo Portal Ocidental. — Mas... para onde ela iria? Tem guerra por toda parte. — Ela pode não estar raciocinando claramente — disse Bayar, sua face pálida corando. — Por isso é importante que a gente a encontre. A princesa- -herdeira poderia se colocar em perigo. Ela poderia ir para algum lugar onde a gente não possa alcançá-la. Isso seria... desastroso. — O garoto fechou os olhos, remexendo nas mangas. Quando os abriu e viu Gillen fitando-o, deu meia- -volta e olhou de novo pela janela. Hum, pensou Gillen. Ou o garoto é um bom ator ou está realmente preocupado. — Então precisamos ficar de sentinela aqui no Portal Ocidental — disse Gillen. — É isso que você está dizendo? Bayar acenou sem se virar. — Nós tentamos abafar o assunto, mas a notícia de que ela fugiu se es- palhou. Se os inimigos da rainha a encontrarem antes de nós, bem... você compreende. — Certamente — falou Gillen. — Ah, acham que ela está... viajando com alguém? — Aí estava. Essa era uma maneira inteligente de colocar a coisa, para descobrir se ela fugira com algum rapaz. — Nós não sabemos. Pode estar sozinha ou talvez esteja viajando com os ruivos. — O que exatamente lorde Bayar gostaria que eu fizesse? — perguntou Gillen, empertigando-se um pouco. Agora o garoto se virou para encará-lo. — Duas coisas. Queremos que você organize uma patrulha para a prin- cesa Raisa na fronteira e a intercepte se ela tentar cruzar o Portal Ocidental. E precisamos de um grupo de guardas de confiança para cavalgar até o Campo Demonai e verificar se ela não está mesmo lá. — Demonai! — falou Gillen, menos animado. — Mas... você não... você não acha que vamos enfrentar os guerreiros Demonai, não é? — Claro que não — disse Bayar, como se Gillen fosse um idiota. — A rainha notificou os Demonai de que a guarda visitará os campos das terras altas para conversar com os selvagens. Eles não podem recusar. Claro, eles vão saber
  9. 9. 17 que vocês estão chegando, então você vai ter que cavar mais fundo para desco- brir onde está ou esteve a princesa. — Você tem certeza de que eles estão nos esperando? — perguntou Gil- len. Os Andarilhos das Águas eram uma coisa. Eles sequer usavam armas de metal. Mas os Demonai... ele não tinha a menor vontade de enfrentá-los. — Não quero acabar cheio de flechas dos ruivos. Os Demonai têm venenos que apodrecem o... — Não se preocupe, tenente Gillen. — O tom de Bayar era ríspido. — Você ficará perfeitamente seguro... a menos, é claro, que seja pego xeretando por aí. Ele enviaria Magot e Sloat, decidiu. Eles estavam mais bem-preparados para essa tarefa. Era melhor que ele ficasse ali, e atento à princesa. Isso precisa- ria ser tratado com cuidado e cabeça fria. Além de discrição. — Imagino que você precise de, pelo menos, um batalhão de soldados para fazer uma busca completa. — Um batalhão! Eu tenho apenas uma centena de soldados, além de al- guns guardas — falou Gillen. — Eu não confio nos mercenários nem nos sol- dados das Terras Altas. Vai ter que ser um esquadrão, isso é tudo que posso dispensar. Bayar deu de ombros; não cabia a ele resolver os problemas de Gillen. — Um esquadrão, então. Eu iria pessoalmente, mas, como sou um mago, é claro que estou proibido de me aventurar nas Montanhas Espirituais. — Bayar novamente acariciou a joia chamativa que pendia de seu pescoço. — E meu envolvimento não poderia deixar de levantar perguntas difíceis. Sem dúvida levantaria perguntas, pensou Gillen. E por que um aprendiz de mago se intrometeria em questões militares? Proteger as rainhas Lobo Gris era tarefa da Guarda da Rainha e do exército. — Nós gostaríamos de prosseguir sem atraso — disse Bayar. — Prepare seu esquadrão para partir amanhã. — Gillen abriu a boca para explicar porque não poderia fazer isso, mas o jovem Bayar ergueu a mão. — Bom. Meus com- panheiros e eu permaneceremos aqui até você retornar. — Vocês vão ficar aqui? — gaguejou Gillen. Ele não precisava disso. — Olhe, se a rainha quer que a gente vá até as Montanas Espirituais atrás da princesa, deveria mandar reforços. Não posso deixar a Muralha Ocidental sem proteção enquanto nós... — Se você encontrar a princesa, você a entregará para nós — emendou Bayar, ignorando o protesto de Gillen. — Meus primos e eu a acompanhare- mos de volta até a rainha.
  10. 10. 18 Gillen estudou o garoto com ar desconfiado. Será que era uma armação? Por que entregaria a princesa àqueles aprendizes de feiticeiro? Por que não a levaria de volta a Fellsmarch e receberia a glória (e a recompensa financeira) pessoalmente? Algumas vezes, quando ele cumpria tarefas para o Grão Mago, não tinha certeza de para quem estava trabalhando — se para o mago ou para a rainha. Mas aquilo era importante. Ele queria ganhar mais com aquela aventura do que a gratidão eterna dos Bayar. Como se lesse os pensamentos de Gillen, o garoto falou: — Se você encontrar a princesa e a entregar a nós, lhe daremos uma re- compensa de 5 mil coroas e providenciaremos seu retorno a um posto em Fellsmarch. Gillen teve que se esforçar para evitar que o queixo caísse. Cinco mil meninas? Isso era uma fortuna. Mais do que ele imaginara que os Bayar paga- riam pelo crédito de devolver a princesa à corte. Alguma coisa estava aconte- cendo. Algo de que ele não precisava saber, caso um dia fosse questionado. Isso tornava muito mais atraente expor Sloat e Magot ao risco das Mon- tanhas Espirituais. E era mais uma razão para Gillen manter a atenção na fronteira. — Eu ficaria orgulhoso de fazer o possível para ajudar a devolver a prin- cesa à rainha, sua mãe — falou Gillen. — Pode contar comigo. — Sem dúvida — falou Bayar secamente. — Use pessoas que saibam manter a boca fechada e não diga a elas mais que o necessário para fazer o tra- balho. Não há necessidade de nenhuma delas saber sobre nosso acordo parti- cular. — Enfiando a mão na algibeira na cintura, ele retirou um retrato peque- no, emoldurado, e entregou a Gillen. Era a princesa Raisa, apenas a cabeça e os ombros, usando um vestido decotado que exibia bastante de sua pele cor de mel. Os cabelos escuros caíam ao redor do rosto, e ela usava uma pequena coroa, que reluzia com joias. A cabeça estava inclinada, e ela exibia um meio sorriso, os lábios en- treabertos, como se estivesse prestes a dizer algo que ele quisesse ouvir. Ela até escrevera algo no retrato. Para Micah, com todo o meu amor, R. Mas havia algo nela, algo familiar, que ele... A mão de Bayar segurou o braço de Gillen, apertando-o através da lã da túnica de oficial, e ele quase derrubou a pintura. — Não babe no retrato, tenente Gillen — falou Bayar, como se tivesse com um gosto ruim na boca. — Por favor, certifique-se de que seus homens saibam como é a princesa. Lembre que é provável que ela esteja disfarçada.
  11. 11. 19 — Vou me certificar, milorde — disse Gillen. Ele recuou, fez uma mesu- ra e se afastou antes que o jovem Bayar pudesse mudar de ideia. Ou segurar o braço dele novamente. — Que você e seus amigos se sintam em casa — falou ele. Cinco mil meninas comprariam muita hospitalidade de Mac Gillen. — Vou dizer ao cozinheiro para preparar o que vocês quiserem. — O que é que você vai fazer com os músicos? — perguntou Bayar abruptamente. Gillen piscou. — O que tem eles? — perguntou. — Vocês querem que eles fiquem aqui? Poderiam ajudar a passar o tempo, e a garota é bonita. O jovem Bayar balançou a cabeça. — Eles ouviram demais. Como eu disse, ninguém pode ligar você ao meu pai, nem saber que você trabalha para ele. — Quando Gillen franziu a testa, ainda confuso, o garoto acrescentou: — A culpa é sua, tenente. Não minha. Vou lidar com meus primos, mas você vai cuidar dos músicos. — Então — falou Gillen —, você está dizendo que eu devo mandá-los embora? — Não — respondeu Bayar, alisando suas estolas de mago, sem olhar nos olhos de Gillen. — Estou dizendo que você deve matá-los.

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