73                   Capítulo VI                      A boa novaJornalismo foi ponte para Fazenda Nova                    ...
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76     rechal Cordeiro de Farias foi eleito para o governo do Estado, com apoio     do líder político de Macaparana José F...
77Reporter do JC, José do Patrocínio cedeu Jeep para o amigo carregar pedras emera frágil, por carecer de decisão local.  ...
78     outro, um bando de picaretas, quase sempre os menos talentosos”, relem-     bra o jornalista. Essa era uma idéia tã...
79O colega Alexandrino Rocha fez as primeiras reportagens para a revista Manche-além de um contratempo. Altamiro ignorou a...
80     maiores dificuldades. Em seu favor, contava o fato de ser uma pessoa culta,     depois dos anos e anos de leitura e...
81espaço 1! No meio, jogou uma reclamação em forma de poesia.        “Quanto mal me fizeste em me reviver para o amor. Qua...
82     quela conhecida como Asas da Liberdade, Plínio era bem informado e não     havia como passar batido. Embora não gos...
83Convidado por Plínio, Victor Moreira desenhou ilustrações para o Jornal do Com-
84     esgotado da rotina estafante de jornal. Para reduzir a carga de trabalho,     pediu demissão do Diário da Noite e d...
85tista como ele e que trabalhava em um consultório montado nos fundosda Igreja da Penha, no bairro de São José. Clênio at...
86             Se não estivesse numa redação de jornal, talvez nunca o ator e dire-     tor Luis Mendonça, irmão de Diva e...
87com roupas, embora mais tarde tivesse entre os seus luxos uma coleçãode chapéus, das marcas Lucky Hals, Prada e Ramenzon...
88     senador F. Pessoa de Queiroz era de um partido de oposição, em 1962. Tal-     vez não fosse preciso, pois Dr. Pesso...
89dos judeus e com o óleo dos árabes. Assim, é a única maneira de não ficarcom o comunismo e ficar com o capitalismo, que ...
90            Quando fala sobre os destinos da Itália, a orientação política de Plínio     parece ainda mais clara. “Na It...
91não é apenas promessa e mais coisa só de governadores e prefeitos e co-merciantes e fazendeiros que estão devendo tudo a...
92     desmontando o discurso religioso ainda vigente em várias comunidades po-     bres do Nordeste.             Já fora ...
93    Em 1956, Plínio aindaatuava na imprensa local,  no mesmo ano em que           se apaixonaria              pelas serr...
94     era um cafajeste, afrangalhado, cabeludo, dessa geração maluca e barulhen-     ta, como dizem. Agora, eles querem q...
95             Capítulo VII     No fórum de PilatosNão julgueis e não sereis julgados                     A PAIXÃO DE PLÍNIO
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97                               Não julgueis e não sereis julgados       No Carnaval de 1956, Plínio Pacheco, então com 3...
98     menos. Por mais que tentassem erguer a madeira e prosseguir, não conse-     guiam nem levantá-la até a altura dos j...
99nada na vida de Plínio, como uma estrela a milhões de anos luz que sóagora era descoberta.       Quando o irmão chegou à...
100      e Flor, que num sábado de Zé Pereira, muitos anos depois do primeiro en-      contro do casal, acordou e encontro...
101Segundo o amigo Victor Moreira Diva nasceu para o carnaval. Fazenda Nova fervia nessa                                  ...
102      ba, convidados do seu irmão Luiz Mendonça, que também fazia teatro      no Recife e mais tarde se consagraria com...
103Digest (publicada no Brasil com o nome de Seleções) quando visitou ailha com uma amiga. Era cubana, criada pela mãe esp...
104                                  vida de Diva transformou-se num                                  inferno sobre a Terr...
105             Certidão do primeiro     casamento de Plínio oficializao desquite de sua primeira mulher,                 ...
106      1915. Ela tinha então 14 e ele 17 anos. Casaram-se em Quipapá, onde Epa-      minondas havia nascido e lá ficaram...
107  Plínio e sua proleno tempo do Circo da Rapoza Malha- da (Nena , Robin-    son, Paschoal e   Xuruca); ao lado     Virg...
108      Diva.              Se Plínio se sentia em casa, Diva descobriu profundas diferenças      com os conterrâneos do m...
109los, acenando a bandeira branca, um dos parentes que lhe jogaram pe-dras, como uma Maria Madalena, chegou a pedir ingre...
110      e saia curta já não era mais motivo para uma mulher ser chamada de ga-      linha. Como o Jacó da Bíblia, Plínio ...
111  Capítulo VIIITempo de plantar  A construção da obra          A PAIXÃO DE PLÍNIO
112
113                                                A construção da obra       Os primeiros sinais da loucura de Plínio for...
114      os faz, e a mim também, felizes”. Além do marco de pedra, Plínio almejava      moldar vidas. “Depois dessa experi...
115São Pedro Mártir, de Olinda, sob a regência do maestro Otoniel Mendes.“Trabalhamos que só bicho”, diz Diva, lembrando a...
116      empresário e controlador do Jornal do Commercio à época.             O senador Barros Carvalho tinha várias afini...
117Sem ajuda de muitos, redemoinho de loucura é posto em curso em Nova Jerusa-nome de um dos grandes imperadores romanos a...
118      Livro raro: autodidata, Plínio busca em Santa Maria orientação para construir muralhas
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  1. 1. 73 Capítulo VI A boa novaJornalismo foi ponte para Fazenda Nova A PAIXÃO DE PLÍNIO
  2. 2. 74
  3. 3. 75 Jornalismo foi ponte para Fazenda Nova Antes mesmo de conhecer Diva Pacheco, anos mais tarde, os des-tinos de Plínio e Fazenda Nova já haviam se cruzado. Depois que Plíniovoltou de Fernando de Noronha, em 1953, ele ficou lotado na Base Aéreado Recife e foi trabalhar no Aeroporto, no Ibura. Era um burocrata. Tinhaum birô e vivia escrevendo. Quando chegavam autoridades ou militares,dava plantão. Em busca de notícias dos passageiros ilustres, os jornalis-tas tinham livre acesso ao aeroporto. Plínio, como vivia por lá, fazia-lhescamaradagem. Foi nessa época que conheceu José do Patrocínio, entãoum jovem repórter do Jornal do Commercio. Com dupla função, além derepórter, Zé do Pato, como era e é conhecido nas redações até hoje, eratambém distribuidor do jornal O Globo. O repórter fazia isso para comple-tar a renda com a venda nas bancas do centro, pois a condição de bisnetodo capitão Joaquim Cordeiro Falcão, herói da guerra do Paraguai, nascidojustamente em Brejo da Madre de Deus como Zé do Pato, não lhe garantiao pão na mesa. Patrocínio invariavelmente dava carona ao amigo no mesmo Jipeusado para a distribuição de jornais e não era raro o colega se servir dele.Acabaram ficando grandes amigos. Fazenda Nova já o havia escolhido eele mal sabia. Mais tarde, esse pequeno veículo seria usado como primeiromeio de transporte das pedras usadas nas muralhas de Nova Jerusalém. A rigor, as histórias do Jornal do Commercio e da Paixão de Cristoestão intrinsecamente ligadas desde os primeiros anos. Antes que Plínioadotasse o espetáculo, o radialista Ozires Caldas, correspondente do JC eteatrólogo nas horas vagas, já havia colaborado e escrito com Luís Mendon-ça, primeiro intérprete de Jesus e diretor do espetáculo de rua, na primeiraversão da peça, então chamada de O Drama do Calvário, em 1951. Em 1954, quando Plínio estava começando no jornalismo, o ma-
  4. 4. 76 rechal Cordeiro de Farias foi eleito para o governo do Estado, com apoio do líder político de Macaparana José Francisco de Moura Cavalcanti. A 2ª Guerra Mundial já havia acabado, mas o jornalista Mauro Mota, pontifi- cando nas páginas do Diário de Pernambuco, ainda mostrava sua preocu- pação com o futuro das pobres jovens engravidadas pelos soldados norte- -americanos. “Meninas, tristes meninas, vossos dramas recordai, quando eles no armistício vos disseram good bye, ouvirei a vida toda a ressonância do choro dos vossos filhos sem pai”, escreveu. Na poesia, Carlos Pena Filho já descrevia em versos o perfil de sua cidade, em A Vertigem Lúcida. “Reci- fe, cruel cidade, águia sangrenta, leão. Ingrata para os da terra, boa para os que não são. Amiga dos que a maltratam, inimiga dos que não”, reclamava em versos. O poeta mais tarde se tornaria um assíduo freqüentador de Fazenda Nova em período de férias. Ali conheceria Plínio, de quem se tornou gran- de amigo. Apaixonado pelas terras áridas como Plínio, Pena Filho chegou a dedicar algumas linhas à “terra prometida” que o gaúcho construiria no local: “É como se fossem ruínas, mas não de muros ou casas. São ruínas de terra antiga que o tempo estraga. Vistas de longe, essas pedras de irregulares tamanhos São lembranças renascidas de abandonados rebanhos” Em meados dos anos 50, ainda não havia televisão no Estado. Os pernambucanos só veriam pela primeira vez as imagens em um aparelho de TV em 1960, graças ao arrojo do empresário F. Pessoa de Queiroz, que foi buscar na Inglaterra os primeiros equipamentos de transmissão para a TV Canal 2. Todos os programas eram produzidos lá e gerados na estação, pois não chegara ainda a época das transmissões via satélite. Sem sombra de dúvida, o Sistema Jornal do Commercio era mais bem estruturado que qualquer outro grupo de comunicação fora do eixo Rio-São Paulo. O império de Pessoa de Queiroz, nos anos 60, era tão sólido quanto o fora na década anterior. O matutino carro-chefe da empresa, o Jornal do Commercio, detinha uma liderança absoluta. A Rádio Jornal do Commercio, que propagava o famoso slogan “Pernambuco falando para o mundo”, fora criada em 1948, com equipamentos de ondas média e curtas importado de Londres. Era uma emissora modelo de investimento e uma ousadia para a região desde o final da década de 40. Emissoras menores, em Caruaru, Garanhuns, Pesqueira e Limoeiro, os quatro municípios eco- nômica e politicamente mais importantes, compunham a cadeia, cujo im- pério seria completado com o emprendimento majestoso da TV Jornal do Commercio, o Canal 2. A concorrência vinda dos Diários Associados e suas emissoras, apesar de serem comandadas pelo mito Assis Chateaubriand,
  5. 5. 77Reporter do JC, José do Patrocínio cedeu Jeep para o amigo carregar pedras emera frágil, por carecer de decisão local. Na imprensa escrita daquele período, a formação era apenas hu-manística. Os jornais recrutavam leigos e os formavam na redação. Oexercício da profissão tendo como requisito básico o diploma universitá-rio não existia ainda e a alma dos jornais, a redação, sofria o desgaste dosbaixos salários. No Recife daquela época, os jornalistas eram condenadosa fazer da profissão um bico. Havia apenas três fontes de pagamento: oDiário de Pernambuco, o Jornal do Commercio e o Diário da Noite, jornalvespertino que começara a circular em 13 de maio de 1946, quando Plínioainda estava se formando na Força Aérea Brasileira (FAB). O Dr. Pessoa deQueiroz era o dono exclusivo dessas duas últimas fontes e não eram pou-cos os que trabalhavam no JC e também no vespertino Diário da Noite,ganhando uma mera gratificação. Nessa condição privilegiada, Dr. Pessoaexercitava com toda desenvoltura sua filosofia, segundo a qual trabalharem suas empresas era uma honra e o prestígio da organização abririaoutras portas, mas não o cofre do jornal. Apesar disso, Pessoa de Queiroztinha uma boa e inabalável imagem e chegou a se eleger senador por Per-nambuco, por ser um empreendedor local, amar sinceramente o Estado, einvestir aqui de forma grandiosa. O jornalista Fernando Menezes, hoje um veterano repórter queviveu aquela época, conta que a frágil concorrência estimulava esse equí-voco do Dr. Pessoa. “Com isso, a boa escola da Rua do Imperador acabavaformando duas classes distintas. De um lado, excelentes profissionais. Do
  6. 6. 78 outro, um bando de picaretas, quase sempre os menos talentosos”, relem- bra o jornalista. Essa era uma idéia tão corrente na época que o político Paulo Guerra, governador do Estado entre 1964 e 1967 costumava dizer que esse negócio de jornalismo não levava ninguém para a frente. Guerra, segundo seu Perfil Parlamentar, escrito pela jornalista Christianne Alcânta- ra e publicado pela Assembléia Legislativa do Estado, além de advogado e criador de gado, também trabalhou como jornalista. A despeito dos baixos salários, os dois jornais da Rua do Imperador eram uma escola de craques. Naquele tempo, os repórteres usavam pale- tós, os relógios eram de corda e máquinas de escrever eram um privilégio para poucos. A redação era como se fosse uma segunda casa. Levavam-se escovas de dentes, pasta e sabonete. O jornalista Antônio Neto era conhecido como prefeito porque ad- ministrava a redação com mão de ferro. Colocava os paletós nos cabides, dava corda nos relógios e repreendia quando havia muito papel no chão, além de reprimir as brincadeiras da turma mais jovem. A crítica ácida e impiedosa era feita no ato e na presença de todos. Coimbra, um dos chefes de reportagem, era especialmente implacável. Fernando Menezes lembra até hoje o carão que levou por ter escrito um texto onde se lia “fulano de tal, solteiro, 15 anos...” Sem olhar para o inexperiente repórter, Coimbra determinou, de cara fechada, que fosse chamar o fotógrafo, para então dar-lhe uma ordem, ríspida: - Vá com este imbecil na Vila Ipiranga, para fotografar um solteirão empedernido que, aos 15 anos, ainda não se casou! - E o senhor nunca viu uma pessoa casada aos 15 anos, ainda tentou se defender o pobre foca. - Este é outro fenômeno que fotografaremos amanhã, respondeu, de forma definitiva, o chefão. As notícias policiais eram escritas pelo farejador Pinheiro, que sem- pre sentava ao lado do prefeito, sem o cargo de vice. Pinheiro andava sem- pre de branco e escrevia com canetas, sem muito ritmo. Suas laudas mais pareciam poesia concreta. Leocádio de Moraes era o responsável pela tra- dução dos telegramas. A página religiosa era escrita por Solón de Moura, que andava sempre de preto. Cronista social, na acepção de hoje em dia, não existia. Altamiro Cunha se intitulava repórter social e de fato mesmo era um dos últimos boêmios. Um episódio com o governador Cid Sampaio, no início de 1958, consagrou-o para o resto da vida. Um homem refinado, Altamiro comple- tava seus rendimentos com um emprego público numa repartição esta- dual, mas pouco aparecia lá. Quando Cid assumiu, a onda de moralização típica do udenismo atingiu Altamiro em cheio. Sem comparecer ao empre- go público, recebeu uma intimação para começar a assinar o ponto, dia- riamente, às sete da manhã! Na vida de um boêmio, aquilo era um ultraje,
  7. 7. 79O colega Alexandrino Rocha fez as primeiras reportagens para a revista Manche-além de um contratempo. Altamiro ignorou a intimação, mas não perdeua oportunidade de ridicularizar o governador por meio da coluna política,escrita na época pelo jornalista Edson Regis. “Não sou cuscuzeiro. Às seteda manhã vive uma população que não conheço. A esta hora ainda estousonhando com as mulheres de Paris. O que sou mesmo é um parisienseperdido nas noites do Recife”, respondeu, com uma galhofa que lhe valeua demissão, mas a conquista de um emprego na Assembléia Legislativa,naquela época nas mãos da oposição. Altamiro Cunha deixou o JC em1966, quando a crise da publicação se agravou, em solidariedade ao dire-tor de redação Esmaragdo Marroquim. Antes de sair do jornal de Dr. Pessoa, Esmaragdo ia colocando jo-vens aos poucos, em um processo de renovação. Plínio entrou no jorna-lismo escrito local, justamente a convite de Esmaragdo Marroquim, sem
  8. 8. 80 maiores dificuldades. Em seu favor, contava o fato de ser uma pessoa culta, depois dos anos e anos de leitura em Fernando de Noronha e mesmo an- tes. Depois, porque antes dos militares não havia qualquer exigência para o desempenho da profissão. O diploma de jornalismo só começaria a ser exigido por um decreto-lei de 1969. “Eu tinha que fazer alguma coisa na vida, como todo mundo faz. Então, eu fazia jornal e trabalhava na Aeronáu- tica naquela época”, explicaria o próprio Plínio mais tarde. Plínio entrou no Diário da Noite como diagramador, função que, na época, chamava-se de paginador (profissionais que faziam o desenho das páginas). O Diário da Noite era vespertino, uma folha ágil, colorida e muito sensacionalista, ou o moleque da empresa, como classifica o vete- rano Fernando Menezes. Indicado por Esmaragdo Marroquim, a função de Plínio era ir até o espelho da oficina checar para nada sair errado. Conta-se que, nessa função, certa feita Plínio quase ia se dando mal. Ao verificar as páginas que iam para as oficinas, na coluna social, ele viu as fotos de cinco mulheres que achava melhor vetar a aparição. Plínio procurou Marroquim e disse que não era possível publicar pois as mulheres eram muito feias. “Você vai publicar sim, porque a mulher aí do meio é a minha”, orientou o chefe. Além de paginador, Plínio extra-oficialmente passava a vista nas matérias de alguns colegas de redação. “Eu mesmo pedia para ele revisar. Não queria que escapasse nada”, revela o amigo Zé do Pato. O suboficial da Aeronáutica e jornalista também mantinha uma coluna de foguetes, não assinada, como eram chamadas as notas curtas, sobre variedades. “Era boa e saía diariamente. Ele tinha as fontes dele pelo telefone”, conta Zé do Pato. Com sua figura magra, Plínio chegava já tarde na redação e era sempre muito reservado. “Era mesmo um tipo esquisito. Além de pouca conversa, era muito competente. Sempre perfeccionista, queria tudo certi- nho”, lembra Patrocínio. Depois do trabalho, madrugada adentro, não eram raros os jornalistas que iam dançar e aproveitar a vida boêmia. Plínio, inva- riavelmente, não ia, segundo conta o amigo Zé do Pato, que gastava sola de sapato tanto na noite como de dia, atrás de notícia. “O negócio dele, na redação, era cuidar do jornal, vivia a intelectualidade”, explica Zé do Pato, sobre o amigo que era um apaixonado pelos romances de Aldous Huxley. O próprio Plínio relataria mais tarde essa curiosidade permanente e a eterna busca pelo aprendizado. “Abro livros, vejo coisas, falo com as pes- soas, com a mesma curiosidade e interesse de uma criança que começa a descobrir o mundo. Não meço a minha vida por horas, dias, meses e anos, mas sim pelo que aprendo, pelo que vejo e pelo que vivo, e nisso tudo até mesmo os desencantos, os desgostos, as dores, têm sua razão de ser”, reve- lava. Plínio chegou ao requinte de usar toda a sua erudição para tentar ca- tivar uma atriz, escrevendo-lhe uma carta de 34 páginas, datilografadas em
  9. 9. 81espaço 1! No meio, jogou uma reclamação em forma de poesia. “Quanto mal me fizeste em me reviver para o amor. Quanto bemme fizeste enquanto estive vivo em ti. Quanto mal me fizeste em apagarem ti teu amor por mim. Quanto bem me fizeste ao matares para sempreo teu e todos os amores dentro de mim”, declamava o intelectual, leitor deOrwell e Kafka. Mais tarde, com a proximidade da feira de Caruaru, Plínio adiciona-ria às suas leituras a saborosa literatura de cordel. “Quando falta assuntocom os moradores locais, leio alguns folhetos de feira, que estou com-prando e colecionando”, revelou, em 1967, já morando em Fazenda Nova.Muitos desses cordéis estão até hoje guardados, entre livros de literatura,política, religião, construção civil e vários outros temas, num dos cômodosdo antigo grupo escolar de Nova Jerusalém. Hoje se sabe que ele era um consumidor compulsivo de infor-mação. Interessava-se pelos discos mais tocados nas paradas e os maisvendidos. Embora não fosse fanático por futebol, queria saber quaiseram os jogos da rodada e estar a par dos resultados. Interessava-se pelomontante da dívida externa, pela cotação do dólar, por quem seria mi-nistro ou quantos senadores ou deputados a Arena e o MDB fizeram. Atécuriosidades sobre as casas de show Hipopótamos, Lamss e Regine’s ou anova moda da calça comprida e bainha dobrada. “A gente tem que estarinformado de tudo isso, pois tudo isto é importante”, dizia, ele mesmo,apresentando a relação de assuntos citados. O costume da leitura invariavelmente deveria ocorrer antes do caféda manhã ou se possível até as 10h. “Quem lê após esse horário é brasilei-ro burro, reacionário e todos aqueles que não sabem das coisas importan-tes que estão acontecendo nos mais variados setores da vida nacional e agente já tem idade suficiente para conscientizar-se de como é importanteestar atualizado”, dizia. Para saber das coisas, na imprensa nacional, Plíniolia e ainda era fã das colunas de Carlos Castelo Branco, Zózimo e Tavaresde Miranda, considerado por ele o maior colunista nacional. Muito em razão de hábitos como esse, o amigo Zé do Pato contaque Plínio redigia divinamente e deveria escrever romances, misturandoa “gaucheza”com a “pernambuqueza”, mas aos incentivos o colega Plíniorespondia apenas com sorrisos, como se, por hora, preferisse apenas de-senvolver a sensibilidade incomum para a notícia. Como dizia o críticoamericano Harold Bloom, quanto mais as pessoas amam e compreendema literatura, menor é sua tendência à soberba. “Esmaragdo Marroquimenxergava longe que Plínio era uma verdadeira vocação jornalística donosso Estado”, elogia o amigo Zé do Pato. “Vi a maneira sublime de elepraticar a nobre missão, com método e inteligência, sem os cânones dasuniversidades, mas com a perfeição diametral do vôo livre dos pássaros”. Certamente, com muitas fontes na área militar, especialmente na-
  10. 10. 82 quela conhecida como Asas da Liberdade, Plínio era bem informado e não havia como passar batido. Embora não gostasse de expor toda a sua im- portância profissional, não raro dava uma ajuda valiosa. Um bom exemplo foi a cobertura do seqüestro do navio português Santa Maria por um gru- po de combatentes do regime português de Franco Salazar. O navio veio parar no Porto do Recife. “Plínio me deu o furo de mão beijada”, lembra Zé do Pato que, nessa época, além de correspondente de O Globo, também escrevia para a Time Life. “O Globo me deu o reforço de José Leal, mas ele levou uma surra danada de Plínio. Eu fiquei a bordo do navio e ele me dava cobertura na redação, com tudo muito bem apurado. Não tinha ambição de dinheiro, fazia com uma boa vontade danada. Além disso, ainda tinha a vantagem de não precisar fazer a limpeza dos telegramas”, relembra o velho escriba. Plínio teve, de fato, uma grande participação para que Patrocínio se tornasse um dos astros das grandes reportagens no seu tempo. O próprio Zé do Pato conta o episódio em que foi chamado para ser testemunha de um casamento célebre de uma das filhas do dono da Pitú, seu Elmo, com Antônio Pinheiro, um filho do jornalista Alves Pinheiro, então chefe de re- dação de O Globo no Rio de Janeiro. Alves Pinheiro cometeu o desatino de colocar o agnóstico Zé do Pato como testemunha, obrigando-o, além de comprar roupa e sapato novos, a aprender a andar na igreja. “Passei vários dias treinando”, conta. Por iniciativa própria, Zé do Pato fez então duas reportagens de página inteira para o JC, transformando-se em cronista social. “Essa reportagem passou pelas mãos de Plínio. Ele retocou aqui e ali e publicou com grande destaque. Ganhei um prestígio enorme no Globo”, rememora o jornalista, que guarda ainda hoje um telegrama de agradeci- mento do próprio Roberto Marinho, por conta do factóide. Mesmo na cozinha do jornal, com pouco tempo Plínio já gozava de tão bom conceito que dava cursos para os iniciantes. Naqueles idos de 1950, quando o Serviço Social do Comércio (Sesc) decidiu montar um pioneiro curso de jornalismo, pelas mãos do diretor Ruy do Rêgo Barros e do historiador Flávio Guerra, Plínio foi uma das primeiras pessoas chama- das. Mas recusou, alegando que, fora o jornal, a parte militar lhe tomava um bocado de tempo. Indicou então o amigo Zé do Pato e acompanhou a distância, tendo feito palestras para os alunos, ao lado do colunista político Édson Regis e Paulo Guerra, que era jornalista e mais tarde assumiria o go- verno do Estado, após o Golpe de 64. Em agosto de 1958, Plínio alugou uma casa na Rua do Progresso e fixou residência. Antes de fugir com Diva, em 1957, ele dividia um aparta- mento com seis rapazes. “Naquela época, Plínio tinha quatro empregos. Trabalhava na aeronáutica, no JC, na Revista do Nordeste e no Diário da Noite”. Em julho de 1959, foi morar em Afogados e estava completamente
  11. 11. 83Convidado por Plínio, Victor Moreira desenhou ilustrações para o Jornal do Com-
  12. 12. 84 esgotado da rotina estafante de jornal. Para reduzir a carga de trabalho, pediu demissão do Diário da Noite e da Revista do Nordeste, concentrando suas forças, a partir de setembro de 1959, apenas no suplemento cultural do Jornal do Commercio, lançado com o amigo Victor Moreira e o pintor Zé Cláudio, que então trabalhava como retocador de fotografias. Diva reclamava que todos os domingos Plínio se enfurnava às 8h da manhã e só saía por volta das 11h da noite, numa roda viva sem fim. “Nem o jornal nem a Aeronáutica, nessa altura da minha vida, me preenchiam mais. Eu não queria mais jornalismo porque às 9h da manhã o jornal está morto, não diz mais nada. Eu era especialista em comunicações, mas que- ria outra coisa. A Paixão então veio ao encontro do que eu queria e o que eu esperava encontrar”, explicou, anos mais tarde, em um depoimento à TV Globo. A rede de relacionamentos que Plínio formou, a partir dos jornais, foi outra grande conquista daquele período. Já morando em Fazenda Nova, em 1966, ele promoveu o I Congresso de Jornalistas do Interior, com a colaboração de uma rodoviária que levou o pessoal até lá. Um banco man- dou imprimir flâmulas para colocar no paletó dos convidados, uma livraria imprimiu os diplomas e a Coca-Cola mandou refrigerantes, enquanto Diva preparou o almoço, servido no Botijinha. “O conjunto deu ótimo resultado junto ao público. Na sexta-feira santa, cerca de 200 automóveis do Recife vieram bater aqui”, comemorava Plínio, que abria seu parque de emoções à visitação antes mesmo de concluí-lo. Essa rede foi de grande valia naquele momento e para o resto da vida. Uma dessas pessoas de Fazenda Nova que veio ao encontro de Plínio, pelas mãos do destino, foi o jovem figurinista e ator Victor Moreira. Os dois se conheceram por acaso em 1954 e tornaram-se amigos para o resto da vida. Plínio estava acabando de chegar de Fernando de Noronha e foi man- dar fazer roupas na alfaiataria Duas Américas, no centro do Recife, quando conheceu Victor. A loja, por outra coincidência do destino, pertencia ao sogro do comerciante Germano Haiut, que também veio a atuar na Paixão de Cristo. Victor estava fazendo a roupa de formatura em Odontologia, especialização que acabou abandonando para se dedicar à moda, sua ver- dadeira paixão. “Eu percebi o valor de Plínio logo no primeiro contato. Ele era uma pessoa muito envolvente. Nós conversamos muito e ficamos ami- gos”, relembra Moreira, que já desenhava moda para o Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP). Como um jornal sempre precisava de ilustradores, não tardou para que Plínio convidasse o amigo para trabalhar no Jornal do Commercio, no suplemento dominical. Com o entrosamento, levou Moreira para trabalhar com ele também na Revista do Nordeste. A amizade abriu uma porta para que Plínio travasse contato com ou- tros jovens atores. Um desses amigos de Victor era Clênio Wanderley, den-
  13. 13. 85tista como ele e que trabalhava em um consultório montado nos fundosda Igreja da Penha, no bairro de São José. Clênio atuava no mesmo grupoteatral, a exemplo de outro amigo de Victor chamado Luiz Mendonça, fi-lho de Epaminondas Mendonça, um coletor de impostos que, na SemanaSanta, assumia o papel de Jesus no Drama do Calvário, em Fazenda Nova.O figurinista conheceu Luiz Mendonça um ano antes de fazer amizadecom Plínio, quando foi assistir ao espetáculo em Brejo da Madre de Deus.Os dois também trabalhavam na mesma sessão na Secretaria da Fazendae após o expediente se dedicavam em horário integral ao teatro. O jornalista Alexandrino Rocha, que deu os seus primeiros passosna carreira jornalística justamente na redação do Jornal do Commercioe fez depois as primeiras matérias sobre o espetáculo de rua, para o JC, aRevista Manchete e também o jornal Correio do Povo, para os quais es-crevia à época, conta que foi ainda nas pranchetas de trabalho do JC quePlínio Pacheco começou a colocar no papel o sonho de construir o maiorteatro ao ar livre do mundo. “A gente passava por ele, numa mesa queficava próxima ao banheiro, e lá estavam os primeiros traços daquilo que,mais tarde, seriam as muralhas de pedra de Nova Jerusalém”, afirmou, emdepoimento ao próprio JC, em 24 de março de 1991. O tempo que Plínio passou nas redações também foi importanteporque ele ganhou um raro senso de oportunidade, que mais tarde lheseria bastante útil para usar a mídia a seu favor. Muitas vezes não davacerto porque os fatos não dependiam apenas dele. O produtor culturalsabia que isso poderia fazer grande diferença, como revela em uma cartade 1966, relatando a inauguração do grupo escolar bancado pelo gover-nador Paulo Guerra. “Inauguramos a escola sem poder tirar o rendimentopublicitário que eu planejara. O governador mandou dizer, numa sexta--feira, que na segunda-feira viria inaugurar. Quando recebi o recado, qua-se fiquei biruta. Não havia como preparar tudo em menos de 72 horas,embora tenha dado tudo certo”, contou. No tempo das redações, por exemplo, Plínio travou amizade com ojornalista Paulo Fernando Craveiro. Ficaram tão amigos que a mulher dojornalista, Léa, em 1972 comemorou seu aniversário na casa de praia queDiva alugou para passar umas férias em Rio Doce. Um episódio pitorescoentre o jornalista e o pessoal de Fazenda Nova quase acaba a amizade,numa visita que Craveiro fez, em 1956, ao espetáculo de rua. Fazendoparte de um grupo de visitantes, como Plínio, Craveiro passou várias horaspreso em um banheiro, que alguém havia trancado a porta por maldade.“Craveiro passou 11 anos sem visitar Fazenda Nova, com raiva. Hoje, NovaJerusalém tem mais banheiros do que quartos em homenagem a PauloFernando Craveiro”, diverte-se Diva Pacheco, conforme relata em seu livrode memórias, no qual o jornalista escreveu o prefácio, sem demonstrarnenhum rancor.
  14. 14. 86 Se não estivesse numa redação de jornal, talvez nunca o ator e dire- tor Luis Mendonça, irmão de Diva e intérprete do primeiro Cristo quando o espetáculo era nas ruas, tivesse lhe convidado para conhecer o drama, numa das vezes em que foi à redação pedir a publicação de notas sobre o evento, na metade da década de 50. Vários contatos dessa época seriam muito importantes mais tarde, quando o gaúcho de Santa Maria tomou a decisão de suspender tempora- riamente o espetáculo e dar início a uma verdadeira via-crúcis, com muitas viagens aos gabinetes ministeriais em Brasília, em busca de recursos para as obras de Nova Jerusalém. Uma dessas pessoas foi o próprio dono do jornal em que trabalhou e que em 1962 foi eleito senador por 14 partidos, praticamente a unanimidade das forças políticas do Estado naquela época. Era chegada a hora de colocar um dos homens mais importantes de Per- nambuco para trabalhar a seu favor. A decisão de abandonar o Jornal do Commercio, em outubro de 1962, mostrou-se uma das mais acertadas da sua vida. A partir de 1966, o sistema JC começou a naufragar em uma grande e longa crise. De 1966 a 1974, o JC foi gerido pelo filho do senador, Paulo Pessoa de Queiroz, antes de sofrer intervenção extra-judicial. A derrocada do grupo começou com a queda do governo Costa e Silva, quando uma junta militar assumiu o poder central. Costa e Silva foi quem dera aval para a TV da Bahia, que Paulo Pessoa de Queiroz iria montar em sociedade com o banqueiro Clemente Mariano. A queda do padrinho político acentuou a crise financeira. A publicação só viria a se recuperar em 1987, com a sua compra e a profissionalização promovida pelo empresário João Carlos Paes Mendonça. No início daquele ano, o JC viveu uma greve histórica, que parou as ofici- nas por mais de três meses, antes da venda para o empresário, então dono da rede de supermercados Bompreço. No começo de 1962, a rigor Plínio sabia há muito tempo que o jorna- lismo era só um meio de sobrevivência. Era como se fossem duas pessoas em um corpo só. No caso, o jornalista sustentava o produtor cultural, que estava sempre lá, de tocaia. Então, chegou a hora em que o jornalista se aposentou e o produtor cultural teve que sustentar a casa. Correndo do patrulhamento Os amigos de redação que conviveram com Plínio contam que ele era um tipo esquisito, de pouca conversa e que nunca ia fardado para o trabalho, apesar de ser suboficial da Aeronáutica. Fazia isso apesar do orça- mento magro. Era quase certo que ele ainda não tinha dinheiro para gastar
  15. 15. 87com roupas, embora mais tarde tivesse entre os seus luxos uma coleçãode chapéus, das marcas Lucky Hals, Prada e Ramenzoni. A mais provávelrazão para evitar a farda, entretanto, era o receio de tornar-se vítima dopatrulhamento ideológico que reinava naquele momento político, entreesquerda e direita. Não raro os militares em geral eram identificados comas forças conservadoras. Mesmo antes do Golpe de 64, as redações já reproduziam o climade beligerância entre esquerda e direita. O veterano jornalista José doPatrocínio, numa coluna assinada em 12 de fevereiro de 1982, revela esseclima pré-64. No artigo intitulado “As Tais Patrulhinhas Ideológicas”, Zé doPato cita as perseguições que um jovem repórter sofria de um chefe seu,alinhado à esquerda. Segundo o relato de José do Patrocínio, depois departicipar de um curso de jornalismo no Sesc e ter sido indicado por elepara o Diário da Noite, o rapaz começou a ser sabotado, por ser ligado aZé do Pato, identificado como conservador. “Um desses alunos do cursinho do Sesc se destacou pela inteli-gência, sagacidade, bom faro para reportagem, boa redação, enfim, umavocação incomum para o jornalismo. E ele veio bater com os costadosaqui na redação do Diário da Noite, onde pontificava um subsecretário(não vou citar nomes) de tendência esquerdista, querendo subir e fazer-sepor si mesmo, fiel a seus companheiros de maior hierarquia no partido.Certo dia, este meu aluno puxa-me pela gola e diz que vai desistir, poiso chefe diz que tudo que faz não presta... mas está redondamente enga-nado e vou dizer porque ele tenta convencer você disto. Ele é da ala daesquerda, sabe de onde você saiu, nossas conseqüentes ligações afetivase por isso quer destruí-lo e com isso quer me atingir”, confidenciou, paradepois dar um conselho ao amigo. “Faça o seguinte: intrigue-se comigoou faça-se de indiferente. Torça-me o pescoço. Quando escutar a esquer-dalhada esculhambar-me, pode ajudar ou, se quiser, fique calado. Não medefenda de jeito nenhum”. Deu certo, segundo Zé do Pato. “Esse ex-alunochegou a secretário do jornal onde o esquerdinho lhe havia dito que elenão dava para nada. Chegou a líder sindical, fez estágio nos Estados Uni-dos, foi diretor-editor de revistas, empresário próspero a caminho de me-lhores águas e voltou a ser meu amigo. Hoje, orgulha-se de ter saído docursinho de jornalismo do Sesc, mesmo depois de colocar num dos dedosum anelão de bacharel em direito”, escreveu José do Patrocínio, em 1982.Entrevistado para a produção do perfil de Plínio, Zé do Pato revelou queo rapaz perseguido era o jornalista Olbiano Silveira, hoje dono da gráficaComunigraf, enquanto o “esquerdinho” era o jornalista Manoel Barbosa,falecido em 1999. Quando estourou o golpe, Plínio não estava mais atuando nosjornais, mas a empresa Jornal do Commercio apoiou abertamente a dita-dura, sem o menor constrangimento e sem ao menos mencionar que o
  16. 16. 88 senador F. Pessoa de Queiroz era de um partido de oposição, em 1962. Tal- vez não fosse preciso, pois Dr. Pessoa era tido e havido por todos como um conservador empedernido. Certamente Plínio nunca seria preso, como Milton Coelho da Graça – o chefe da Última Hora no Recife, conhecido pelo costume de entrar na redação dando vivas ao comunismo – mas quem conviveu com o jornalista gaúcho diz que Plínio chegou a ter alguma tendência de esquerda. “Plínio era um daqueles militares que a gente chamava de melancia. Verde por fora e vermelho por dentro. Ele falava com as pessoas mais próximas sobre idéias marxistas, mas não se podia falar abertamente, ainda mais sendo militar. Era sim um pouco pendido para a esquerda, mas era comedido”, contou Zé do Pato. Os receios de Plínio não eram infundados. Em 1964, o jornal Última Hora, por exemplo, foi fechado pelos militares, com apenas dois anos de vida. Milton Coelho da Graça foi preso e espancado. Homem de muita leitura, Plínio demonstrava ter-se aborrecido com uma das profecias do marxismo, que previa o socialismo como o estágio mais perfeito de organização da economia e da sociedade. “A pureza do comunismo, no seu ideal de igualar a todos os homens em todas as suas formas de vida, foi transformada em um regime de opressão, principal- mente do pensamento”, escreveu, em 1966. Desde 1956, no famoso XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), o então secre- tário-geral da entidade, Nikita Kruschev, já havia denunciado os crimes de Stalin. Isso abalou os comunistas e os partidos comunistas ocidentais. Na- quele mesmo ano, ocorreu a invasão da Hungria e, em 1968, a invasão da Tchecoslováquia, bem como eventos importantes, como a construção do muro de Berlim, a constituição da Cortina de Ferro e do Pacto de Varsóvia. “Todos esses acontecimentos estiveram relacionados com o crescente revi- sionismo de muitos comunistas e partidos comunistas ocidentais”, explica o historiador Túlio Velho Barreiro, da Fundação Joaquim Nabuco. “É bom lembrar ainda que os partidários de Leon Trotsky – que se contrapunha à III Internacional Socialista, criada e conduzida por Stalin e seus sucessores – desde a morte de Lênin já combatiam a burocratização do PCUS e da III Internacional Socialista e a tirania do Estado soviético”, acrescenta. Se algum dia foi socialista, Plínio esqueceria dentro de mais alguns anos. Em 1979, com base nas cartas que deixou, pode-se dizer que ele fez uma clara opção pela economia de mercado, declarando-se capitalista e contra o comunismo. A definição consta de uma correspondência em que Plínio fala sobre a política internacional com o amigo Victor Moreira, mo- rando nessa época em São Paulo. Nessa carta, aliás, Plínio antecipa aspec- tos da geopolítica mundial com precisão. “No fim, o importante é o Oriente Médio – o americano entrando lá, como fazia e muito bem na América La- tina, tomando tudo, ficando dono, ficando com o petróleo e depois entran- do em Israel também, tomando tudo, ficando dono, ficando com o ouro
  17. 17. 89dos judeus e com o óleo dos árabes. Assim, é a única maneira de não ficarcom o comunismo e ficar com o capitalismo, que é católico”, escreveu. Com sua capacidade de antecipação dos fatos, analisando informa-ções e estratégia militar, Plínio vislumbrou um conflito que se materializouno início do Século XXI e vem se eternizando desde então. Naquele ano, oIrã já havia se transformado em um barril de pólvora. O Ayatolá Khomeinihavia assumido o poder e iniciado a república islâmica. Uma de suas pri-meiras iniciativas foi ordenar a execução de todos os auxiliares do Xá RezaPahlevi. Em 1980, começou a guerra com o Iraque, que só viria a ter fim em1988. Em 1990, explodiu a Guerra do Golfo, entre o Iraque e o Kuwait, justa-mente por causa do petróleo. Os Estados Unidos, altamente dependentesdo petróleo, assumiram a guerra ao lado do Kuwait. A coleção de cartas trocadas com o amigo é a prova mais consistentede que, após a pausa oficial do jornalismo, Plínio manteve-se disciplinado,escrevendo sempre, para manter o braço aquecido. Na verdade, era ummissivista compulsivo, naqueles tempos em que o e-mail ainda não tinhasido inventado. Gabriel Garcia Marques já escreveu, explicando a questãode forma definitiva, que o vício de escrever é abrasivo e insaciável. Na política internacional, conforme a leitura de suas cartas, Plíniointeressava-se pelo mundo, sempre denotando uma posição conservado-ra. No caso da França de sua época, ele demonstrava preocupação com odestino do país, depois que Charles de Gaulle morresse. “Como eles vãose arranjar? Aquilo vai é acabar nas mãos do Mitterrand”, escreve Plínio,demonstrando sua predileção pelo líder conservador francês, em contrapo-sição ao socialista François Mitterrand. Além do JC, Plínio trabalhou em outras publi- cações. Naquela época era comum a dupla jornada. No Diário de Notícias o amigo José do Patrocínio assinou sua carteira fun-
  18. 18. 90 Quando fala sobre os destinos da Itália, a orientação política de Plínio parece ainda mais clara. “Na Itália, a melhor saída acho que era botar o papa no lugar do Aldo Moro e o Aldo Moro no lugar do papa, mas acho que não dá, pois parece que mataram o Aldo Moro”, brinca, referindo-se ao primeiro ministro da Itália, morto em maio de 1978 pelas Brigadas Vermelhas, grupo radical de esquerda, depois que o líder da Democracia Cristã fez uma coali- zão com os comunistas para governar. Moro passou 55 dias refém, antes de ser executado, sob o pontificado de Paulo VI. Nesta mesma carta, escrita em 1979, o produtor cultural demonstrava ainda interesse em mais dois países comunistas, China e Rússia, sempre des- tacando problemas de desmandos das lideranças comunistas. “Já fuzilaram ou enforcaram ou estrangularam a gang de Pequim? E o (Leonid) Brejnev, faz quanto tempo que morreu? Já enterraram? Já botaram na cadeia o substituto dele?”, reclama, em tom de questionamento e numa premoni- ção alarmante. O líder soviético só viria a morrer em 1982, substituído pelo presidente da KGB, Yuri Andropov. Somente em 1985 Michail Gorbachev seria guindado ao posto de secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, instituindo uma política de abertura política (Glasnost) e reestrutu- ração econômica (Perestroika), para renovar o socialismo. Não durou muito tempo, 1989 ficou conhecido como um ano de profundas transformações na política mundial, sendo a principal delas justamente o fim dos regimes da Cortina de Ferro. Três décadas depois de erguido, caiu o muro de Berlim, a maior herança da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, que se extinguiu naquele ano. Em 1991, acaba-se oficialmente a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que se tornam independentes. Além disso, naquele ano Gorbachev renuncia à presidencia e recebe o Prêmio Nobel da Paz. Curiosamente, quando fala de Cuba, a sempre polêmica ilha do Cari- be, Plínio comete um erro histórico, não se sabe se de forma intencional para fugir da censura vigente na época. “Quem fez certo foi Cuba, que fuzilou Fidel e botou o Guevara no Governo”, comenta. Na única referência negativa aos americanos, Plínio se pergunta se (Richard) Nixon (reeleito presidente dos Estados Unidos em 1972) iria entregar as fitas do caso Watergate. Contraditoriamente, o mesmo Plínio que criticava comunistas tinha palavras duras para os conservadores que governavam o Brasil ao longo dos séculos. As críticas à indústria da seca são um exemplo, de acordo com um longo relato extraído de uma carta escrita ao amigo Victor Moreira em 1979. “O que tem hoje, partindo do sul de Minas, vindo da Bahia até o Ceará, de promessa de Bom Jesus da Lapa, Senhor do Bonfim, São Severi- no dos Ramos, São Francisco do Canindé, Padre Cícero, Frei Damião, além de macumba, xangô, vela acessa, para vir logo e bem demorada e bem grande uma grande seca ou uma grande enchente, e bom mesmo seria as duas juntas, é de você dizer que é mentira minha”, espanta-se Plínio. “E
  19. 19. 91não é apenas promessa e mais coisa só de governadores e prefeitos e co-merciantes e fazendeiros que estão devendo tudo aos bancos, não. É todomundo, o povinho, o povo médio, o povo alto. Porque, no fim, no particu-lar, todos perdem pouco e, no geral, todos ganham mais do que perdem”,critica. Até hoje, o flagelo da seca açoita e continua castigando o Sertão.Pelos dados da extinta Sudene, a primeira estiagem teria sido registradaem 1564, tendo ocorrido períodos de secas mais severas em 1915, 1952 e1958. Embora não tenha feito publicamente, Plínio também deixou regis-trada sua crítica contra o mau uso da terra e os seus efeitos ambientais,como erosão e desmatamento, apontando-os como principais causas dofenômeno da estiagem no Nordeste. Os poetas costumam dizer que oclima no Agreste é tão impiedoso que as sombras são leves, como se asalmas do outro mundo tivessem medo do próprio Sol. Para Plínio, a culpapelos agressivos e danosos costumes de produção locais de Fazenda Novaera de gerações, vinda do avô dos avós deles. Com sua grande erudição, em 1979 Plínio se compara, nessa ques-tão do uso da terra, à figura de Mr. Propter, personagem principal do livroTambém o Cisne Morre, de Aldous Huxley. Na obra, como explicado, umprofessor universitário vai morar num pedaço de terra herdado do pai. Prop-ter constrói uma casa para morar e várias casinhas para alojar famílias quesubiam para a Califórnia no período da colheita da laranja. Em geral, essaspessoas eram ex-agricultores que tinham perdido suas terras. Exaustas, es-sas terras requeriam adubos químicos que eram fornecidos pelos bancose acabavam não sendo pagos devido às más colheitas. Como resultado, osbancos tomavam as terras e os agricultores passavam à condição de traba-lhadores alugados. De uma maneira geral, para o produtor cultural, esse tipo de genteera igual ao pessoal de Fazenda Nova, em termos de responsabilidade coma terra. “Eles só fazem tirar tudo da terra, nada lhe retornando. Metem afoice para cima, derrubam árvore e vegetação, tocam fogo, com as infamesqueimadas. Então plantam e tudo muito bom no primeiro ano, mas o fogoqueimou as raízes que sustentavam a pequena camada de húmus e tam-bém matou os bichinhos que faziam buracos, canais e labirintos na terra, poronde entra o ar e se infiltra a água. Quando chegam as trovoadas, lá se vaitudo na erosão e a terra vira um carrasco. Com isso, também a climatologiafoi modificada. A culpa já vem do avô do avô deles e todos são culpados,mas como todo mundo se julga bom, ninguém aceita que a esterilidade daterra é culpa própria e de todos os seus antepassados. Então o culpado éDeus, que manda chuva demais ou de menos. E se Deus está fazendo issonão é porque Deus é mau, pois Deus é bom. Está fazendo isso para que ohomem pague pelos pecados que cometeu ou está cometendo”, analisa,
  20. 20. 92 desmontando o discurso religioso ainda vigente em várias comunidades po- bres do Nordeste. Já fora das redações, os dramas de sua aldeia (a capital, Recife), tam- bém eram objeto de suas preocupações e, não raro, um prato cheio para a crítica aos costumes locais, mesmo na distante Fazenda Nova. Em junho de 1966, por exemplo, uma forte cheia invadiu o Recife e Plínio acompanhou tudo pelas imagens da TV. A força das águas acabou em catástrofe, mas não para o espanto do produtor cultural. “Naquela zona, só se permite a entrada com barcos a motor. Em todo canto, há vítimas. O Dr. Fábio Corrêa ficou encurralado, com água no primeiro andar de sua casa. Sílvio Pes- soa, deputado, rapaz pobre (hoje procurador-geral do Estado), perdeu tudo, com três metros de água dando no teto da casa dele”, conta ao amigo Victor Moreira. Plínio relata que as águas chegaram à Estrada dos Remédios e aca- baram com a Rozenblit (fábrica de discos) e também invadiram o Clube In- ternacional. “Era boiada e fardos de algodão, móveis, televisão, tambores de gás, tudo de roldão na correnteza. A água não vinha enchendo pelos rios, ela estourava pelas bocas dos esgotos, da Boa Vista à Varzea, incluindo o Derby, Madalena... Era um mar só, com dois terços da cidade dentro d’água”, conta. Apesar do cenário de desgraça, Plínio caçoou. “Agora imagine, no meio, por cima d’água, querendo se salvar com as pessoas, aqueles milhões de ratos que devia ter uma cidade suja e imunda como o Recife. E as cobras? Ainda tem gente abrindo gaveta e encontrando cobra. As mulheres eram a imagem do pavor, mastigando um rosário com cada conta do tamanho de um coco de babaçu”. Não se tratava de sadismo. Plínio achava que os transtornos poderiam servir para alguma coisa. “A cheia veio despertar a consciência de que en- chente não é privilégio de pobre, pois enchente no Recife não atinge apenas quem construiu à beira-rio, mas também à beira-mar”, numa referência à elite de Boa Viagem. O alvo de suas críticas era a especulação imobiliária, já forte no Recife desde então. “As cheias são um problema de imprevidência geral. Estão aterrando tudo, não canalizando”, reclamava, em dúvida se os proble- mas despertariam mesmo as consciências. “A verdade é que daqui a um mês está tudo na mesma. Todo mundo esqueceu. E tome aterro de novo, para ter mais terreno, para poder vender e ganhar mais dinheiro e comprar um novo automóvel e tome mulher boa e uísque”. Nessa questão, Plínio era impiedoso com o comportamento imprevidente. “Eles pensam assim: e a próxima cheia? Ora, essa vai ser lá no Beberibe, de 30 em 30 anos. Daqui para lá eu já morri e quem estiver vivo que se fuzile”, ironiza. Em plena censura militar, Plínio não perdoa nem mesmo a mobilização para socorrer os mais necessitados, em que ele vê hipocrisia social. “Depois da tragédia das águas, queriam tomar providências. Agora estão todos com Dom Hélder, para cá e para lá. Hoje mesmo tem gente indo para São Paulo, atrás de Roberto Carlos. Eles souberam que ele é muito bonzinho. Até então,
  21. 21. 93 Em 1956, Plínio aindaatuava na imprensa local, no mesmo ano em que se apaixonaria pelas serras de Fazenda Nova
  22. 22. 94 era um cafajeste, afrangalhado, cabeludo, dessa geração maluca e barulhen- ta, como dizem. Agora, eles querem que ele ajude os pobres, arrume roupa, faça um festival de beneficência. Foram pedir para ele cantar aqui (em Nova Jerusalém) por amor ao próximo. No andamento das coisas, não vou me admirar se pedirem às putas para dar a renda de uma noite em benefício das vítimas. Tudo porque a lama chegou também à casa deles”, critica. O cantor Roberto Carlos, afrangalhado ou não, não chegou a se apresentar em qual- quer show em Fazenda Nova. No ano de 1972, chegou a assistir ao espetácu- lo, disfarçado para evitar o assédio dos fãs. Naquele tempo, Plínio podia ser muito inteligente, muito bem in- formado, discorrer sobre vários assuntos com desenvoltura, mas só Deus é onisciente. O destino, conspirando sempre, seja contra ou a favor, também costuma preparar armadilhas até para os menos incautos.
  23. 23. 95 Capítulo VII No fórum de PilatosNão julgueis e não sereis julgados A PAIXÃO DE PLÍNIO
  24. 24. 96
  25. 25. 97 Não julgueis e não sereis julgados No Carnaval de 1956, Plínio Pacheco, então com 30 anos, semsaber que o destino conspirava a seu favor, deu-se umas férias do des-gastante dia-a-dia do jornal e atendeu a um convite para ir descansarem Brejo da Madre de Deus. Sua intenção era trocar o Recife e sua agita-ção nos dias de Carnaval – festa da qual nunca gostou – para recarregaras energias na famosa instância hidromineral de Fazenda Nova, distrito doBrejo da Madre de Deus, distante 180 quilômetros da capital. Plínio já ouvira falar das águas consideradas milagrosas. O que elenão sabia era que aquele pequeno lugarejo interiorano também tiravafolga do puritanismo reinante e se entregava de corpo e alma à folia deMomo. Nos demais 362 dias do ano, o lugar era marcado pelo conservado-rismo religioso mais arraigado. Um episódio admirável, ocorrido em 1865,serve à perfeição para dar uma idéia dos rígidos limites impostos pelamoral católica local. Os mais antigos moradores contam que os frades ne-cessitavam de uma linha (tora de madeira) grande o suficiente para servirde cumeeira para a Igreja de Nossa Senhora do Bom Conselho do Brejo daMadre de Deus, então em construção. A madeira só poderia vir das matasde Bitury (próxima do Brejo da Madre de Deus, no limite do município deBelo Jardim), de onde foi encomendada. O percurso da linha de Bitury atéa cidade somava alguns quilômetros e tinha que ser trazida nos ombros,devido às dificuldades de transporte da época. Inúmeros moradores ealguns escravos cumpriam a tarefa, recebendo no trajeto a ajuda de novaspessoas desejosas também de colaborar com a construção da igreja. Aconteceu, porém, que ao chegarem nas imediações da cidade,num lugar chamado até hoje de Pedra Grande, depois de uma pequenapausa para descanso da árdua tarefa, a linha empacou, sem mais nem
  26. 26. 98 menos. Por mais que tentassem erguer a madeira e prosseguir, não conse- guiam nem levantá-la até a altura dos joelhos. O número de braços havia sido multiplicado, mas a força desprendida mesmo assim não era suficien- te para suspendê-la. Todos ficaram boquiabertos e pasmados. Podia ser exaustão, face à fadiga durante o longo percurso. Mas outras pessoas que não haviam carregado a linha também nenhum efeito conseguiam, quan- do alguém teve a idéia de mandar chamar o frei Caetano. O missionário correu para lá a fim de se inteirar do problema. Depois de ter feito várias indagações, o religioso verificou que tudo não passava de interferência satânica! - Isto é arte do demônio, gritou em voz alta, tratando logo em segui- da de fazer preces fervorosas, como que tentando exorcizar o mal. - Aqui tem um amancebado segurando a linha, concluiu, virando-se para os homens que tentavam conduzir a madeira a qualquer custo. Logo um pobre homem foi apontado pelos demais como amasia- do. Segundo a história é contada, a partir de então a condução da linha ocorreu facilmente, com o seu transporte até a cidade, mesmo depois de o mesmo padre ter colocado sobre a madeira uma criança bastante robusta. Verdade ou ficção, com essa fábula, transmitida de geração em geração em vários sermões, ficara decretado que viver maritalmente com uma mulher sem ser casado no religioso era um pecado grave. A igreja foi inaugurada em 1868, o lugarejo virou distrito, depois cidade, mas os costumes locais não mudaram muito naquele distante ano de 1956 em que Plínio desembarcou pela primeira vez em Brejo da Ma- dre de Deus. Mais tarde, outro padre, o frei Sebastião das Virgens, marcou época, em suas pregações evangélicas, contra as mulheres que usavam vestidos com a maldita saia-balão. Assim, os excessos do Carnaval não eram suficientes, por maior que pudesse ser a transgressão, para mudar a moral vigente, embora os costumes já fossem bem mais liberais, ao ponto de não faltar até mesmo um bloco de meretrizes, composto por prostitutas brejenses e amigos destas. As mulheres perdidas, como eram chamadas, saíam trajadas a rigor, com fantasias provocadoras para a época. Os seus vestidos eram um pouco acima dos joelhos. Não exatamente pela altura das saias, o Carnaval de 1956 seria ines- quecível para o visitante ilustre, então secretário de redação do Correio do Povo. E descanso foi o que Plínio menos teve naqueles dias. A festa profana também era esperada com ansiedade pelas meninas de família. Diva, a filha caçula do coronel Epaminondas, era uma delas. Ela achava aquela a melhor festa do ano. Naquele ano, em que se fantasiou de cigana rica, costurando o próprio vestido, ela havia pedido ao irmão Luiz Mendonça, chamado carinhosamente por ela de Lourinho, que chamas- se uns rapazes do Recife, pois assim a festa ficaria mais animada. Assim, houve uma preparação anterior ao encontro dos dois. Diva não brotou do
  27. 27. 99nada na vida de Plínio, como uma estrela a milhões de anos luz que sóagora era descoberta. Quando o irmão chegou à cidade com o grupo de rapazes, Plínio nomeio deles, em pleno domingo de Carnaval, no dia 13 de fevereiro daque-le ano, Diva já estava com sua troça na rua. “Fomos apresentados, mas elejá me conhecia de nome. Na viagem, falaram muito de mim. Eles vinhamapostando quem ia namorar comigo”, conta Diva, em suas memórias.Como o hotel da família estava lotado, Diva teve que emprestar sua camapara o hóspede. “Ele era de cerimônia”, lembra. “Fiquei danada, mas era oúnico jeito. Depois que serviram o jantar, vesti minha fantasia de cigana eentrei na sala. Plínio ficou todo animadinho para dançar Carnaval. Eu, quede besta só tenho a cara, notei logo”, conta. Realmente não havia mesmo como ignorar a moça, de uma belezaselvagem sem igual. Com dezesseis para 17 anos, poucos anos a mais doque uma garrafa de bom uísque, a jovem menina fazia jus ao nome querecebera no batismo. Os seus olhos azuis hipnotizaram muitos rapazes emarmanjos. A descrição de Diva feita pelo jornalista e amigo da famíliaPaulo Fernando Craveiro, no prefácio do livro de memórias dela, de 1971,não pareceria exagero aos olhos de um homem apaixonado, como Plí-nio naqueles dias. “Diva tem uma vantagem sobre muita gente. Ela tempedaços de céu nos olhos. Talvez o cosmonauta soviético Gagarin tenhaexclamado que a terra é azul, lá das imensidões siderais, por estar fixandoos olhos de Diva naquele exato momento”, escreveu. “Naquele tempo, eupesava 68 quilos e era um material bom e enxuto”, diverte-se a atriz, aca-tando os elogios. Encantado com a beleza desabrochando em flor, Plínio quedou-senos excessos que sempre evitou. “Fomos ao clube e dançamos até as 4he Plínio lá. Na segunda-feira, logo às 10h, a troça foi até Brejo da Madrede Deus, ao som de Vassourinhas, com todo mundo de preto e Plínio lá,de preto também. Ele acompanhava firme, de vez em quando pergun-tando se eu não estava cansada”, lembra Diva. “Como bebíamos até águade sino, não havia como ficar cansado”, relembra. Diva fazia o estandartedas troças e convidava várias pessoas. Os sanfoneiros vinham de FazendaVelha, pagos com uma vaquinha (nome popular de uma forma de arre-cadar dinheiro com a comunidade). Naquele clima de festa, a maior fontede inspiração da jovem atriz era uma mulher chamada Maria Catingueira,com quem Diva aprendeu o gosto pelo Carnaval, a arte do artesanato e asprimeiras lições de improvisação de figurinos para o Carnaval. “Diva era uma alegoria pronta. Ela foi produzida para o Carnaval”,conta o amigo Victor Moreira. Apesar de seu temperamento circunspecto, Plínio, a partir daqueleano e por causa da amada, acabava entrando no clima carnavalesco. Afilha mais velha dos Pacheco, Nena, conta no documentário Plínio, Terra
  28. 28. 100 e Flor, que num sábado de Zé Pereira, muitos anos depois do primeiro en- contro do casal, acordou e encontrou o pai vestido de galo. Acompanharia a mãe, fantasiada de galinha, no desfile do Galo da Madrugada. “Eu achei ridículo. Mas foi a maior prova de amor, de sensibilidade dele”, lembra a filha. Na quarta-feira de cinzas do primeiro Carnaval de Diva e Plínio, os rapazes foram embora para o Recife, mas a imagem daquele pedaço do céu de Brejo da Madre de Deus não saiu da memória do rapaz. No sábado seguinte, Diva recebeu, pelo ônibus, um pacote e uma carta dele. Um vidro de perfume para ela, um punhal de prata para o pai, uma concha de prata para a mãe, além de jornais e revistas, compunham o primeiro presente com que Plínio tentava cortejar, expondo suas pretensões. “No meio de tudo, havia uma pomada para passar nos pés. Ele era muito caprichoso”, lembra Diva. Os mimos mais tarde também se estenderiam ao clã dos Mendonça. Plínio, com segundas e terceiras intenções ou não, começou a ajudar no espetáculo naquele mesmo ano. Fretou um vagão com a Rede Ferroviá- ria e levou uns 20 jornalistas e dois ônibus de turistas. “Os hotéis ficaram lotados”, cita Diva. Naquele mesmo espetáculo de 1956, em que Plínio e Diva se conheceram e se apaixonaram, um jovem chamado José Pimentel ingressou no drama, fazendo um dos soldados romanos, menos pela expe- riência teatral e mais pela exuberância física obtida em aulas de fisiculturis- mo. A primeira das 750 cartas que Diva diz ter recebido de Plínio dali em diante foi escrita cinco dias depois de os dois terem se conhecido. “Tenho saudades de você, Diva, mais do que devia. E temo que isto seja um mal. Saudades dos breves momentos que passamos juntos. Dançando, con- versando e mesmo em silêncio. Os quais, talvez, tenham sido os melhores. Sinto vontade de estar com você, na janela do clube, como naquela última noite, e então fazer o que naquele momento senti vontade de fazer e não fiz...”, escreveu. “Gostaria de estar, outra vez, sentado ao seu lado, defronte daquela casa, perto do clube. Vontade de ouvir sua voz. Saudade, enfim, de todos os instantes”. Naquele mesmo mês de fevereiro, Diva mandou um telegrama, avisando que daria a resposta ao pedido de namoro no Recife, para onde viajou com a irmã mais velha, Geni, que ia alugar uma casa no bairro de Rio Doce, em Olinda. Oito dias depois os dois se encontraram na rodoviária da capital. Plínio recebeu as duas todo de branco, com um terno de linho. “Pa- recia uma vela branca”, lembra Diva, que acabou aceitando o namoro, não sem antes impor cinco condições. A primeira delas era ele não ser ciumento. Não era uma exigência descabida, considerando que Diva sonhava desde cedo em seguir a car- reira de atriz e as mulheres, naquela época, não contavam com muita
  29. 29. 101Segundo o amigo Victor Moreira Diva nasceu para o carnaval. Fazenda Nova fervia nessa liberdade, muito menos quando tinham a coragem de subir num palco. Na época, atrizes não eram bem vistas pela sociedade provinciana, mesmo no Recife, e as moças eram condenadas principalmente pelas beatas e as mulheres mais religiosas do lugar. Com os rígidos costumes da época, os realizadores enfren- tavam os maiores desafios para conseguir moças para trabalhar com eles. Depois de estrear, em julho de 1955, como uma bruxa em uma adaptação de chapeuzinho vermelho, com os irmãos, definitivamente Diva não pensava em parar mais. Desde os primórdios do espetáculo da Paixão de Cristo, a garota estava acostumada a lidar com o pesso- al de teatro, que apoiou as pri- meiras encenações. Gente como Waldemar de Oliveira, Alfredo de Oliveira e a jornalista Nair Bor-
  30. 30. 102 ba, convidados do seu irmão Luiz Mendonça, que também fazia teatro no Recife e mais tarde se consagraria como importante diretor na Rede Globo. Além disso, aos 15 anos, em 1954, seu pai já a tinha retirado do colégio, alegando que estudar era luxo, obrigando-a a trabalhar no ho- tel e na loja de tecidos da família. Tudo que Diva queria era respirar um pouco de liberdade. “Meu colégio foi uma cozinha de hotel e um balcão de loja. Até hoje detesto essas duas coisas”, contou, em 1971. Assim, Diva não queria um novo coronel tolhendo seus passos. A segunda condição para aceitar o namoro era Plínio gostar de dançar, principalmente Carnaval e São João. Isso era tão caro a Diva que ela mesmo já colocou, em seu testamento, já público, o pedido para que no seu enterro ninguém chore. “Toquem, por favor, Vassourinhas. É a única coisa que me anima”. A terceira condição era que o candidato gostasse de dança, teatro e música. Embora tivesse aceitado a regra, já no Carnaval do ano seguin- te, o amor continuava, mas a animação de Plínio não era mais a mesma. “Chegou novamente o Carnaval. Dessa vez não foi tão bom como o de 1956. Tudo correu bem, mas Plínio não era mais o rapaz que conheci. Ele dizia que gostava, mas estava cansado”, contou Diva. Mais tarde, Plínio che- garia mesmo a implicar com sua paixão pelo Carnaval, ficando zangado a ponto de retirá-la de circulação sempre que possível. Com seu sarcasmo habitual, Diva chegou a fundar, em 1971, a troça Vou, mas não volto, numa referência aos reboques que Plínio promovia, no meio do caminho da folia, muito possivelmente por causa das estripulias etílicas da companheira, sempre calibrada, nessas festas, por bate-bate de maracujá e outras mis- turas. “Nós entrávamos em todas as casas. Em cada uma, bebíamos um pouquinho. Na casa onde entro, bebo até merda, seja de pobre ou de rico. A nossa troça só tinha bêbado e eu era a primeira. Quem não bebe neste mundo, no outro será bebido”, contou, em depoimento de 1971. Diva, em sua quarta exigência, gostaria de ter liberdade para se ves- tir e um companheiro que seguisse a moda. “Quando o vestido subir, eu subo também. Quando o vestido descer, eu desço com ele”, pediu, expli- cando que o pai e a mãe não gostavam de nada do que ela gostava e ela só se casaria com um homem que gostasse de tudo que ela gostava. A derradeira orientação era que o namorado detestasse futebol, o que Plínio seguia sem nenhum esforço. Aliás, até mesmo com prazer. Plínio aceitou as condições sem questionamentos, mas lhe fez uma revelação estonteante para os padrões da época. Já era casado no civil e desquitado. “Não caí porque estava sentada”, lembra Diva. “No entanto, acabei aceitando porque ele tinha o direito de ser feliz”. Plínio conhecera sua primeira mulher – a quem ele não se refere nas suas cartas – ainda quando comandava o destacamento da FAB em Fernando de Noronha. Olga Cid Pacheco trabalhava para a revista Reader’s
  31. 31. 103Digest (publicada no Brasil com o nome de Seleções) quando visitou ailha com uma amiga. Era cubana, criada pela mãe espanhola, EsperanzaCid Fernandes, e pelo padrasto, Luís Cid, natural de St. Thomas, nas IlhasVirgens (hoje uma possessão americana, mas na época do seu nascimentoera território Dinamarquês). Os pais deixaram Cuba quando Olga, filhaúnica, tinha apenas 10 anos. Plínio e Olga, seis anos mais velha que ele,chegaram a morar em Noronha, mas quando ela engravidou, quis ter acriança no Recife. “Não lembro dos detalhes desse período, porque eutinha apenas dois anos de idade, quando os dois se separaram”, contaVirgínia Bonilla Pacheco, a Ginny, filha do casal, nascida em 1954, que estáradicada nos Estados Unidos desde os 8 anos de idade. Ginny lembra que,ao deixar o Brasil, acompanhada da mãe, em direção a Nova Jersey, foi aoJornal do Commercio despedir-se do pai. Depois daquele momento, pas-sou 35 anos sem ter nenhum contato com ele. Os laços foram retomadosem 1997, mesmo ano em que Plínio teve um AVC. Ela esteve na Paixão deCristo de 1998 e visitou o pai um mês antes da sua morte, em 2002. Entreos livros de Plínio, um era guardado com carinho. Backyard birds (Pássarosde jardim), da Barnes & Noble Books, veio com uma dedicatória bilíngüeassinada em 1999: “Para papai, com amor. Sua filha, Virgína.” Nos idos de 1956, a exemplo de Plínio (já separado de fato mas ain-da não desquitado de Olga), a própria Diva buscava o direito de ser feliz.Plínio representava o passaporte para essa felicidade. O ambiente em casanão era dos melhores para a jovem. Não era raro receber reclamações porter ido a festas. Na sua casa, havia rádio, mas só era ligado para ouvir oresultado do bicho ou os noticiários. Para ouvir novelas, Diva e sua irmãstinham que ir à casa de uma comadre. Quando chegavam, levavam carão.“Só não me chamavam de santa”. Diva reclamava que o pai não conversa-va muito com ela e dava mais atenção às irmãs mais velhas, despertando--lhe inveja das outras. Costumavam mangar dela, chamando-a de rainhade Sabá, só porque ela prezava o hábito de tomar muitos banhos e viverasseada. A mãe não era vista por ela como uma amiga, por proibir na-moros e outras distrações. “Lá em casa, mamãe e papai só ficavam felizesquando ia um padre. Aí eles ficavam doidos”, relembra. Previamente acertados, os dois combinaram contar tudo à famíliadepois da Semana Santa. “Plínio era casado e para Seu Epaminondas edona Sebastiana isso era um bicho de sete cabeças sem limite, já que eleera o chefe político e ela a chefe religiosa do lugar”, explica Victor Moreira.Mesmo assim, o pai e a mãe aceitaram ou fizeram que aceitaram. O ar-cebispo de Olinda e Recife, nesta época, dom Antônio de Moraes Júnior,velho conhecido da família Mendonça, foi consultado e prometeu fazer ocasamento, sem saber do impedimento que havia. O casal acabou noivan-do em novembro de 1956, quando Diva completou 17 anos. Nem todos na família, entretanto, aceitaram o relacionamento. A
  32. 32. 104 vida de Diva transformou-se num inferno sobre a Terra. A pressão de parte dos integrantes da família chegou às raias do absurdo. Até o padre de Brejo da Madre de Deus na época, o cônego Duarte, foi le- vado à casa da ex-mulher de Plínio no Recife. Em maio de 1956, Plínio chegou a se transferir para Alagoas, na tentativa de melhorar a situação. Influenciado por essa campanha de alguns familiares, o coronel Epami- nondas chegou a ameaçar Plínio de morte, segundo conta Diva. Apenas os irmãos Luiz Mendonça e Geni davam-lhe apoio. Em agosto de 1957, sem agüentar mais a pressão, Diva e Plínio fugiram para o Rio Grande do Sul, mais precisamente para Santa Maria, cidade onde morava a mãe de Plínio, dona Hilda. Com a descul- Plínio e Olga Cid, pa de que faria um tratamento den- sua primeira mulher, tário em Caruaru, a moça ganhou em Fernando de Noronha, onde se conheceram a estrada, para desespero dos pais. “Quando eu fugi, meu pai abraçou um retrato meu e chorou. Ele con- tou ao meu irmão Lourinho que queria me ver vestida de noiva, mas eu estava desesperada e só tinha uma saída”, explicou Diva. “Naquela época, até alguns familiares me bateram as portas, mas não desejei mal a ninguém, pois não estava fa- zendo vergonha”. Plínio ainda teve o cuidado de avisar com uma carta, postada em Alagoas, que já estava escrita. Apesar de recriminado, a rigor o procedimento não era inédito na família. A própria mãe e o pai casa- ram fugidos da cidade de Panelas, onde ela morava com a família, em
  33. 33. 105 Certidão do primeiro casamento de Plínio oficializao desquite de sua primeira mulher, Olga, em 1958, um ano após conhecer Diva
  34. 34. 106 1915. Ela tinha então 14 e ele 17 anos. Casaram-se em Quipapá, onde Epa- minondas havia nascido e lá ficaram residindo. Mudaram-se para Panelas, onde o patriarca chegou a ser prefeito e, de lá, seguiram para Brejo da Madre de Deus. A exemplo de Plínio e Diva, os seus pais acertaram a fuga por meio de cartas que trocavam. Diva conta que quando sua mãe estava fugindo, deixou cair essas cartas na escada, recolhidas por sua avô, Caroli- na Lucena, com uma praga: “Sebastiana, a dor que eu estou passando ago- ra, tu vai passar duas vezes. A tua primeira filha vai casar fugida e a última também”, teria dito. Destino ou não, Santa Maria era a nova Quipapá. Certamente, a situação foi dificultada pelo fato de o pai de Diva ser um coronel político e a fuga poder ser apontada pelos adversários como um demérito. Mas, ali mesmo em Brejo da Madre de Deus, o primeiro pre- feito constitucional da cidade, o coronel da guarda nacional Francisco Al- ves Cavalcanti Camboim, mais conhecido como Barão de Buíque, casou-se com uma menina de 13 anos. Ele contava então 32 anos de vida. O detalhe curioso é que o pedido de casamento foi feito à futura sogra quando ele tinha 20 anos e futura noiva ainda estava na barriga da mãe. Pelas leis de hoje, seria um pedófilo, enquadrado em crime de estupro pelo Código Pe- nal Brasileiro. Além do casal Epaminondas, havia outro precedente na própria fa- mília, que completava a praga lançada pela avó Carolina. A irmã de Diva, Maria do Carmo, a Nanã, filha mais velha do casal Mendonça, não apareceu na festa de 25 anos de matrimônio dos pais. Simplesmente havia fugido com o noivo. Nessa época, Diva tinha apenas dez meses de vida e aparece no colo da mãe, na foto da festa das Bodas de Prata. Pelo costume da épo- ca, não se podia perder a pose, literalmente. “A hipocrisia era tanta neste lugar que, antigamente, era tudo moça. Só tinha rapariga de Jataúba (po- voado próximo), no mercado da Passarinha, na vizinhança com a Paraíba”, conta Diva. Dias depois da chegada em Santa Maria, o pai de Diva mandou uma carta dizendo que os dois deviam voltar para casar, mas já era tarde. “Fui donzela até o Rio Grande do Sul. Lá vesti um pijama de Plínio. Esta foi a ca- misola da minha noite de núpcias”, diz. Na resposta ao pai, Diva disse que o pior casamento do mundo era melhor do que a casa paterna. Em Santa Maria, gozando de licença-prêmio da Aeronáutica, Plínio arrumou um emprego em jornal para se sustentar, com a ajuda do amigo de infância Robinson Flores, diretor de uma publicação local. A gratidão ao amigo pelo apoio na hora difícil veio sob a forma de homenagem mais tarde. Quando nasceu seu primeiro filho homem, em 21 de novembro de 1963, ele deu o nome do amigo ao menino. Foi na casa dele que Plínio e Diva passaram o Natal de 1957. O Ano Novo foi comemorado na casa do sogro de Robinson. “Na passagem de ano, chorei feito uma vaca desma- mada. Graças a Deus, Plínio resolveu voltar e ficar definitivamente”, lembra
  35. 35. 107 Plínio e sua proleno tempo do Circo da Rapoza Malha- da (Nena , Robin- son, Paschoal e Xuruca); ao lado Virgínia Bonilla Pacheco,a filha do primeiro
  36. 36. 108 Diva. Se Plínio se sentia em casa, Diva descobriu profundas diferenças com os conterrâneos do marido. Ela não se adaptou muito bem ao Rio Grande do Sul. “Eu não gostava muito do estilo da terra. Quando é inverno, o frio mata. Quando é calor, o calor mata. O Carnaval, ninguém fala dele. No São João, ninguém consegue sair de casa por causa do frio. Além disso, a maioria das pessoas é muito mesquinha. Uma vez, uma tia de Plínio me perguntou se eu estava gostando do Brasil. Eles achavam que o Nordeste é o cu do Judas. É melhor morrer de fome aqui, com a cachaça na cabeça, do que com a fartura deles”, escreveu, em 1971. “Gosto mesmo é de Pernam- buco, a terra do caju e da Pitú. Dizem que é terra da miséria, mas aqui todo nego sorri, o pobre e o rico”, compara. O casal voltou de Santa Maria no início de 1958 e ganhou uma fes- ta de recepção, na qual o patriarca rompeu de vez com a Igreja para se posicionar ao lado da filha. No discurso que fez ao amigos, reunidos para comemorar a chegada de Diva e Plínio, Epaminondas disse que a sua de- cepção foi grande quando pela primeira vez precisou da Igreja Católica. “Eu que sempre tive minhas portas abertas, sempre ajudei aos padres e aos bispos, a única vez que precisei da igreja eles bateram a porta na minha cara”, ralhou o velho, na presença do pároco local, o mesmo cônego Duarte que fora ao Recife amolar a ex-mulher de Plínio para tentar desestabilizar a união com Diva. Na volta, a atriz já estava grávida de sua primeira filha. De volta à terra do frevo, só não fez o passo no Carnaval porque o seu estado não permitia, mas a gravidez não a impediu de atuar. Fez o papel de donzela de Jerusalém! “Aqui é o único lugar do mundo que é possível fazer o papel de donzela sem ser mais”. O ator José Pimentel vira o Demônio, herdando o papel que era de Diva até então. A primeira filha do casal, Fátima Geni, apelidada de Nena, nasceu em junho daquele ano, homenageando Nossa Senhora e a irmã Geni, nascida em 1926, a terceira filha do casal Epaminondas. Novamente no convívio com os familiares, o casal voltou a sofrer com comentários desairosos, criados, segundo seu relato, pela irmã Margari- da e o cunhado Brasileiro. Diva lembra que diziam que ela tinha fugido grávida, mas ela havia passado quase três meses sem ver Plínio antes da fuga. Na maternidade, depois de distribuir 150 convites, de Caruaru ao Recife, a atriz não perdeu a oportunidade de fustigar os seus detratores. “Que acharam da menina de 12 meses?”, ironizava, mostrando que os belos olhos azuis também podiam ser bravos e selvagens, ao mesmo tempo, talvez tão belos justamente por serem bravos e selvagens ao mesmo tempo. Com sede de vingança dos seus detratores, Diva não desperdiçou realmente nenhuma oportunidade que lhe surgia. Num dos espetácu-
  37. 37. 109los, acenando a bandeira branca, um dos parentes que lhe jogaram pe-dras, como uma Maria Madalena, chegou a pedir ingressos para a peça,generosidade prontamente negada com um argumento igualmenteduro. “Nos únicos dias do ano em que tenho a maravilhosa oportunida-de de ser puta (na cena de Herodes), embora só por meia hora, assistequem tiver vinte cruzeiros no bolso, pois ali consigo satisfazer algumaspessoas”, devolvia. Dois anos depois de voltar a Pernambuco, em maio de 1960, nas-ceu a segunda filha do casal. Naquela época, Plínio e Diva moravam noRecife, em uma casa comprada no final de setembro daquele ano comum empréstimo da Caixa Econômica Federal, no bairro da Imbiribeira.A menina Geórgia Maria nasceu em casa mesmo, de sete meses e comum desvio no coração. Como era bem mirrada, era chamada pelos fa-miliares de michuruca e depois apenas Xuruca, adotado como nomeartístico quando decidiu seguir a carreira de estilista. O primeiro filhohomem e terceiro do casal, Robinson Kennedy, nasceu em 1963. O caçu-la, Paschoal Eugênio, nasceu em 1965. Em junho de 1977 o Governo Geisel, em plena Ditadura, mesmocontra a orientação da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)promoveu a aprovação da emenda constitucional nº 9, que permitiu a re-alização do divórcio no Brasil. Em seguida, a Lei nº 6.515/77 o regulamen-tou. Com isso, o casal pôde reunir as condições legais para calar a bocados detratores, mas àquela altura isso definitivamente não lhes fazia maisfalta. “Casamento no civil nunca me fez falta. Isto faz falta aos retardadose aos complexados. Vejo tanta gente boa, casada na igreja, no civil, e àsvezes até na polícia, e que vive numa merda completa. O melhor exemplosão quase todos da minha família. Quem quiser que me aceite assim, óti-mo. Quem não quiser, ótimo. Para mim, isto é uma prova de que não pres-tavam como amigos, pois os amigos são para todas as horas”, declarou,em depoimento escrito seis anos antes da nova lei. A oficialização do casamento de direito só se deu em 26 de julhode 1982, exatos 25 anos depois da união de fato do casal. O matrimôniofoi realizado na matriz do Jucá, ligada à Diocese de Pesqueira, conformeatesta o livro nº 01, folha 39, nº 07. O enlace teve como testemunhas An-tônio Valdir de Oliveira e Paulo Fernando Góis Souza, de acordo com có-pia assinada pelo padre Eliseu Francisco dos Santos, em 17 de agosto de1973. Quando casaram, conforme a certidão, Plínio era solteiro e contava55 anos de idade. Segundo o mesmo documento, Maria Diva Lucena deMendonça era solteira e tinha 42 anos de idade na época. A data oficial do casamento dos dois encontra-se até hoje gravadanuma Bíblia comemorativa à visita do papa João Paulo II ao Brasil, em1980. Como andavam sempre à frente de seu tempo, já ia longe a épocaem que a uma mulher não podia entrar sozinha no carro do namorado
  38. 38. 110 e saia curta já não era mais motivo para uma mulher ser chamada de ga- linha. Como o Jacó da Bíblia, Plínio também já havia servido muito mais do que sete anos ao Labão do Agreste para obter a sua amada Raquel. Era chegada a hora de Plínio fecundar as sementes que haviam sido lançadas pela saga dos Mendonça nas ruas acanhadas de Fazenda Nova.
  39. 39. 111 Capítulo VIIITempo de plantar A construção da obra A PAIXÃO DE PLÍNIO
  40. 40. 112
  41. 41. 113 A construção da obra Os primeiros sinais da loucura de Plínio foram detectados emoutubro de 1962. Ele não falava com ninguém e mal respondia ao quelhe perguntavam. Também não comia. Quase não dormia. Abandonouo Jornal do Commercio e também queria deixar a Força Aérea Brasileira(FAB). Vendeu a casa que tinha na Imbiribeira e só pensava em Nova Je-rusalém. Todo final de semana Plínio viajava para Fazenda Nova, à pro-cura do terreno ideal para a construção do seu sonho de pedra. “Fiqueiapavorada”, explicou Diva Pacheco, não sem motivo. O redemoinho deloucura criadora estava posto em marcha, de forma irreversível. Plínio ia para a Faculdade de Arquitetura do Recife e passavahoras lendo. Procurou o pessoal de lá para desenhar o projeto da obra,mas ninguém de renome aceitou a empreitada. Além do amigo VictorMoreira, apenas alguns estudantes acreditaram naquilo que aos demaisparecia um delírio. Como Plínio tinha uma visão mil anos à frente, davade ombros e seguia adiante, até ver materializado na pedra o seu sonho.Estava chegando ao fim a fase da inspiração. Após 11 anos consecutivos,desde 1951, iniciava-se a fase da transpiração, que se estenderia até 1968,com a retomada dos espetáculos da Paixão, dessa vez em um novo cená-rio. A loucura era contagiante e o próprio Plínio tinha consciência desua alucinação. “O trabalho nas pedreiras era uma loucura. Não sei comoconsegui enfiar dentro da alma deles tanta disposição. Como se tivessema força de uns demônios, o trabalho, negócio para um mês, saía em 10dias. Você sente a raiva do homem contra a rocha de granito. Ele querfazer tudo num dia, e rocha é rocha...”, narra, em uma descrição dos traba-lhos em fevereiro de 1967. “Os martelos tiram faísca dos ponteiros, o solqueima, o suor lava... no fim, apesar de os estar matando, como a mim,
  42. 42. 114 os faz, e a mim também, felizes”. Além do marco de pedra, Plínio almejava moldar vidas. “Depois dessa experiência, nenhum deles voltará a ser ape- nas um homem da enxada, da foice e do machado. Eles evoluíram dentro de si, não passaram pela vida deixando a marca de suas sandálias nas veredas da terra árida. Eles deixaram em pedra a marca que o tempo não apaga”. A primeira visão daquele cenário nunca lhe saiu da memória. As ro- chas impressionaram o jornalista Plínio Pacheco desde a sua primeira visi- ta, a convite do então diretor do espetáculo, intérprete de Jesus e seu futu- ro cunhado, Luiz Mendonça. “O que mais me impressionou foi o conjunto de vales naturais. Um grande vale de rochas, com 100 quilômetros, muito parecido com a Judéia, naquele pedaço de Sertão encravado no Agreste”, contou, anos mais tarde, em depoimento à TV Globo. Noutro depoimento, numa carta escrita ao amigo Victor Moreira, Plínio diz com todas as letras que, na verdade, mais que uma simples paisagem, Fazenda Nova repre- sentava uma vida nova para ele. “Somente agora, aos 40 anos, é que te- nho certeza de estar no caminho certo”. Naqueles idos de 1960, com a força que moral cristã impunha à época no Recife e no país, a pequena cidade de Brejo da Madre de Deus era a moldura apropriada para adornar as muralhas simétricas da ence- nação bíblica. O período de Quaresma era muito diferente dos dias atu- ais. A Sexta-feira da Paixão era um tempo de contrita e silenciosa reclu- são. Em todos os lugares pairava uma atmosfera de respeito ao gesto de imolação ao filho de Deus, em nome do bem e do ideal cristão. Nas me- sas, todas as carnes entravam em absoluto recesso. Comia-se peixe e o feijão ganhava o tempero de coco. Nas rádios, a programação limitava-se a músicas clássicas e sacras. No cinema, exibia-se a Paixão de Cristo, em preto e branco, e sem aparecer o rosto do ator que encarnava de Jesus. O máximo de concessão que se permitia era a projeção de filmes como O Manto Sagrado, com Richard Burton, ou Quo Vadis, com Robert Taylor e Deborah Kerr. O profano somente retornava à cena depois do milagre da Ressurreição. O casal Pacheco herdara o espetáculo em março de 1961, quando o pessoal do Grande Hotel procurou seu Epaminondas, pai de Diva, para realizar a peça e ele não aceitou. Na sua negativa, o patriarca dos Men- donça disse que não tinha condições, que estava velho e sem disposição. Mas, se Plínio e Diva quisessem, ele entregava o espetáculo “de mão beijada”. “Fomos procurados pelo pessoal do hotel e aceitamos”, contou Diva, mais tarde. Naquele ano, Plínio imprimiu as primeiras modificações no espe- táculo, com a troca do guarda-roupa, a substituição de quase todos os atores e até um texto novo, escrito por José Pimentel, sob a direção de Clênio Wanderley. A cereja do bolo era a participação especial do Coral
  43. 43. 115São Pedro Mártir, de Olinda, sob a regência do maestro Otoniel Mendes.“Trabalhamos que só bicho”, diz Diva, lembrando as dificuldades daque-la época. Até luz faltava, situação resolvida de forma improvisada comum motor arranjado por Plínio na Aeronáutica. Mesmo assim, Plínio nãose dava por satisfeito. Quando terminou a temporada, como as despesas superaram asreceitas, Plínio ficou aperreado e prometeu que só voltaria a encenar oespetáculo quando construísse uma cidade igual a Jerusalém. “As des-pesas aumentaram e o dinheiro do Grande Hotel não deu. Plínio aindapediu um empréstimo em um banco, para pagar as contas”, conta Diva.Construir uma cidade-teatro vinha em princípio da necessidade decobrar ingressos, para cobrir as despesas, uma vez que era impossívelcobrar uma taxa em um espetáculo que se desenrolava até então numavila. “Vislumbrei aqui a possibilidade de um espetáculo grandioso. Na-quela época, era pequeno. Eu sabia que, sem patrocínio, não tinha comocontinuar. Resolvemos então parar para construir as muralhas”, contariaPlínio, anos depois. Àquela altura, Diva nem imaginava, mas o começoda história de Nova Jerusalém logo decretaria o fim do seu sossego.“Meus amigos, com Nova Jerusalém sem dinheiro, tenham certeza que oinferno é melhor. Plínio só faltava morder o povo”. Mas Plínio não deixava isso transparecer. Ao contrário, com muitojeito, munido com a infalível companhia de um projetor de slides AutoCabin, ele percorreu o país, realizando dezenas de reuniões, para apre-sentar o projeto de construção de Nova Jerusalém, em busca de apoio epatrocínio. Era uma luta sem descanso. O colunista social Alex, do Jornaldo Commercio, do Recife, cita essas andanças, até em vôos, com pessoalda direita ou da esquerda. “O jornalista Plínio Pacheco acaba de retornarde Brasília, onde fora tratar de assuntos relacionados com a construçãode Nova Jerusalém, em Fazenda Nova. Durante o vôo para Brasília, o se-nador Barros de Carvalho, após tomar conhecimento detalhado do planoque dará a Pernambuco o maior teatro ao ar livre do mundo e um grandecentro de turismo, prometeu 2 milhões de cruzeiros de sua verba de sub-venção e auxílio para a construção da Nova Jerusalém”, diz a nota social,publicada em 7 de fevereiro de 1963. Assim, começou sua peregrinação em busca de recursos junto aosgovernos de esquerda, valendo-se das amizades que fez no jornalismolocal. Até nos céus, a dez mil metros de altura, Plínio aproveitava a oportu-nidade para angariar fundos. Naquele início de 1963, aproveitou as duashoras de viagem até Brasília em companhia do senador pernambucanoAntônio Barros Carvalho para pedir ajuda para seu projeto. O senadorviajara ao Recife especialmente para assistir à posse do então governadorMiguel Arraes no governo do Estado e estava retornando à capital federalnuma comitiva que iria assistir à posse do senador F. Pessoa de Queiroz,
  44. 44. 116 empresário e controlador do Jornal do Commercio à época. O senador Barros Carvalho tinha várias afinidades com Plínio e era um dos mais importantes homens públicos de Pernambuco e do país àquela época. Depois de nomeado superintendente da fiscalização dos impostos federais, já tinha sido assessor técnico do ministério da Fazenda, ao mesmo tempo em que desenvolveu também importante atividade jornalística no Recife, como redator do Diário de Pernambuco e do Jornal Pequeno. Como jornalista, colaborou ainda como O Estado de Minas e o Diário de São Paulo, da cadeia dos Diários Associados. O primeiro mandato, para a Câmara Federal, foi obtido em 1950, pela UDN de Eduardo Gomes. Em 1953, já pelo PTB, reelegeu-se e che- gou a ocupar o cargo de primeiro-secretário da Câmara. No Governo JK, em 1960, Barros Carvalho ocupou o cargo de ministro da Agricultura, até sair do governo, com a posse de Jânio Quadros, em 1961. Com a crise que se instalou no Brasil após a renúncia de Jânio, Barros Carvalho teve uma atuação destacada ao defender a antecipação do plebiscito que iria ocorreria em 1965, para manutenção do parlamentarismo ou volta ao presidencialismo. Realizado já em 1962, o plebiscito determinou a volta do presidencialismo, beneficiando o vice-presidente João Goulart, ao lado de quem Barros Carvalho se encontrava, integrado a uma comitiva presidencial que visitava a China, quando Jânio anunciou a renúncia. Em sinal de gratidão, Goulart apoiou o amigo petebista para a re- eleição ao Senado, naquele mesmo ano de 1963, tendo ocupado a lide- rança do PTB no Senado de 1962 a 1965. Nos anos de 1963 e 1964, Barros Carvalho ocupou ainda os cargos de primeiro e segundo secretário do Senado. A morte de Barros Carvalho, falecido no Recife, em setembro de 1966, deve ter deixado Plínio bastante abalado, pois as cartas que es- creveu, em outubro daquele ano, revelam muito pessimismo quanto ao futuro. O senador revelou-se desde cedo um homem sensível às artes. Natural de Palmares, onde nasceu em 1917, Barros Carvalho fundou, em sua cidade natal, quando tinha 17 anos, uma sociedade literária com o conterrâneo e poeta Ascenso Ferreira. No Recife, o sobrenome Barros Carvalho até hoje é muito lembrado, pela sua ligação com o futebol. O irmão de Antônio, Eládio, que dirigiu o Clube Náutico Capibaribe por 15 anos, construiu e deu nome ao estádio dos Aflitos. A epopéia de Nova Jerusalém começou com a busca do terreno, ainda no final de 1962. O espaço ideal escolhido foi uma área que per- tencia à família de João Dão, de Fazenda Nova. Ele pediu 200 contos na época pela terra. Achado o terreno, faltava o dinheiro para comprá-lo. Um sonho ousado requer um gerente carismático e forte. Plínio tinha carisma, estava preparado e sobretudo era um homem de sorte. Por uma dessas ironias do destino, coube a um homem com o
  45. 45. 117Sem ajuda de muitos, redemoinho de loucura é posto em curso em Nova Jerusa-nome de um dos grandes imperadores romanos ajudar na fundação deNova Jerusalém. O então diretor do espetáculo, Clênio Wanderley, e ohomem de teatro Alfredo de Oliveira falaram com o amigo Paschoal Car-los Magno e conseguiram o dinheiro para a compra do terreno, obtidopor intermédio do Conselho Nacional de Cultura. Escritor, diplomata eacima de tudo um homem de teatro brasileiro, Carlos Magno era a pes-soa certa no lugar certo, para os planos da Sociedade Teatral de FazendaNova, que àquela altura se chamava Fundação de Arte de Nova Jerusa-lém. Ao longo da sua vida, Paschoal contribuiu para o surgimento doTeatro Experimental de Ópera, do Conjunto Coreográfico Brasileiro, doCoral Bach, do Teatro Experimental do Negro, do Teatro Duse, do Gru-po Oficina e da Aldeia de Arcozelo, além de ter fundado, 1938, o Teatrodo Estudante do Brasil, uma revolução artística e social na época. Cominfluência sobre o Conselho Nacional de Cultura, como secretário doMinistério da Educação e Cultura, Carlos Magno não pensou duas vezesem ajudar os amigos nordestinos. Plínio e Paschoal se conheceram na Aldeia de Arcozelo, experi-ência criada por Paschoal no Rio de Janeiro para abrigar todas as artes.Dispõe de 57 mil metros quadrados, sendo 10 mil metros quadrados deárea construída, refeitório, apartamentos, albergues, teatros, salas de ex-posição e de música, biblioteca, capela e outros espaços para atividades
  46. 46. 118 Livro raro: autodidata, Plínio busca em Santa Maria orientação para construir muralhas

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