Successfully reported this slideshow.
We use your LinkedIn profile and activity data to personalize ads and to show you more relevant ads. You can change your ad preferences anytime.

Os Maias - Ação, personagens e tempo

11,070 views

Published on

Os Maias - noções acerca da ação, personagens e tempo.

Published in: Education
  • Be the first to comment

Os Maias - Ação, personagens e tempo

  1. 1. Eça de Queirós - Os Maias Caricatura de Abel Manta
  2. 2. “Os Maias” de Eça de Queirós para quem não gosta de ler ou não tem tempo Era uma vez um gajo chamado Carlos, que vivia numa casa tão grande que levava p’raí umas vinte páginas a dizer como é que era. Quem gosta de imobiliário, tem aqui um peCsco, porque aquilo tem assoalhadas grandes e boas e, pronto, mas p’ra mim não serve, que eu imóveis só com a fotografia, que às vezes um gajo é arCsta a escrever e depois uma pessoa vai a ver a casa e não tem nada a ver com o que imaginou. Portanto, o gajo chama-se Carlos e o pai matou-se quando ele era pequeno, porque a mulher fugiu com um italiano e levou a filha que eles também Cnham e… e ele matou-se, não faz senCdo, porque o que não falta p’raí são gajas. Ora o puto fica com o avô e tal, vai crescendo e torna-se um gajo fino, bem vesCdo e que vai a boas festas. Às tantas vê uma gaja e pensa: “Ui, que gaja tão boa!” e p’raí na página 400 começam a ir para a cama os dois e andam aí umas boas 200 páginas, pim, pim, troca e vira e agora nesta casa e agora naquela e pumba e… só que às tantas vem um gajo e diz: “-Eh pá, olha que a moça é tua irmã!” e o Carlos fica “eh pá, isso não pode ser, que nojo!” de maneiras que dá-lhe só mais duas ou três trolitadas e vai dar uma volta ao mundo, para espairecer, e acaba tudo em bem porque, ao menos, não Cveram filhos. Porque se Cvessem eram, de certeza, meio tantans, babavam-se, como o meu primo Zé Luís, que os pais também eram parentes. ENSINAMENTOS DA OBRA 1 – Tu nunca sabes o que é que os teus pais andaram a fazer, porque eles, em princípio, nasceram primeiro do que tu, de maneiras que, quando conheces uma gaja o melhor é dizer: “Oh menina, o seu passaporte se faz favor, nunca fiando, que eu gosto de fazer tudo cerCnho!” 2 – Outra coisa que o Eça de Queirós ensina é que às vezes mais vale um gajo ser cão, porque eu Cve um cão, que era o Patusco e o gajo não respeitava nada, nem ninguém, era irmãs, era a mãe, era tudo a eito e não era nada com ele. Ricardo Araújo Pereira h_ps://www.youtube.com/watch?v=kgXN1pwTnF0
  3. 3. Linguagem, estilo e estrutura •  Modo em que a ação é apresentada pelo narrador •  Apresenta como elementos consCtuCvos ü  ação (principal e secundária) ü  personagem (principal, secundária, figurante) ü  narrador (heterodiegéCco) ü  espaço (ksico, psicológico e social) ü  tempo (narraCvo e histórico) Género literário Modo literário Modo narraCvo Romance Os Maias (1888) •  Género literário moderno, com larga projeção cultural, culCvado sobretudo a parCr do século XVIII •  Apresenta como marcas ü  a pluralidade de ações ü  a complexidade do tempo, do espaço e dos protagonistas ü  a extensão longa •  Conto - narraCva breve com forte concentração temporal e espacial. O conto localiza as personagens num flash momentâneo. •  Romance - apresenta uma pluralidade de ações que se cruzam, num tempo alargado e num espaço descrito pormenorizadamente. O romance possibilita o acompanhamento do percurso biográfico das personagens.
  4. 4. Intriga principal •  Carlos / Maria Eduarda Intriga secundária •  Pedro / Maria Monforte Subttulo Título Os Maias Episódios da Vida Român1ca Visão global da obra e estruturação Níveis (ou planos) da ação Crónica de costumes •  A educação portuguesa do século XIX •  Jantar do Hotel Central •  Jantar dos Gouvarinho •  Episódio dos jornais •  Corridas de Cavalos •  Sarau da Trindade •  Passeio final Ação trágica •  TemáCca do incesto •  DesCno •  Presságios •  Peripécia, reconhecimento, catástrofe Linguagem, estilo e estrutura História de uma família da alta burguesia lisboeta do século XIX, contada através de três gerações: Afonso da Maia, Pedro da Maia e Carlos da Maia. – ação fechada Crónica de costumes: visão críCca mais alargada da sociedade portuguesa do Portugal da Regeneração feita através de personagens-Cpo. – ação aberta
  5. 5. Intriga Pedro / M. Monforte Intriga do incesto Crónica de costumes Epílogo Cap. I Cap. IV Cap. XVIII Carlos vê M. Eduarda ParCda de M. Eduarda Visão global da obra e estruturação REIS, Carlos (2002). Introdução à Leitura d’Os Maias (7.ª ed.). Coimbra: Almedina.
  6. 6. Afonso da Maia Pedro da Maia A geração das lutas entre absoluCstas e liberais A geração do Portugal da Regeneração A geração ultrarromânCca, sobrevivente na figura de Tomás de Alencar Carlos da Maia História da família Maia, ao longo de três gerações bem demarcadas: Título - Os Maias
  7. 7. Ação principal Ações secundárias Amores de Carlos e Maria Eduarda (intriga principal) Amores de Pedro e Maria Monforte (intriga secundária) Romance de Ega com Raquel Cohen Romance de Carlos com a Condessa de Gouvarinho Vingança de Dâmaso (Episódio dos jornais) Serão em Santa Olávia (Educação de Carlos e de Eusebiozinho) O romance: pluralidade de ações Linguagem, estilo e estrutura
  8. 8. Acção principal e secundária: a similitude dos encontros
  9. 9. Local do encontro Impressão causada pela mulher Traços físicos da mulher Encontro de Pedro e Maria Monforte Carlos e Maria Eduarda A rua, frente ao Marrare “chapéu preto” “perfil grave de estátua” “carnação de mármore” “senhora loura” “cabelos loiros” “(…) pareceu a Pedro nesse instante alguma coisa de imortal e superior à Terra.” “... magnífica criatura, arrastando com um passo de deusa a sua cauda...” Peristilo do Hotel Central “meio véu muito apertado e muito escuro” “maravilhosamente bem-feita” “carnação ebúrnea” “senhora alta, loira” “cabelos de oiro” “(…) passou diante deles, com um passo soberano de deusa (…)” Acção principal e secundária: a similitude dos encontros - citações
  10. 10. Afonso da Maia Carlos da Maia •  Na juventude, adere aos ideais do Liberalismo •  Exílio: instala-se em Inglaterra e aí vive no meio do conforto •  Fica muito abalado com a morte do filho Pedro; vive para o neto Carlos •  Na velhice, assume uma perspeCva críCca em relação ao país Maria Eduarda Símbolo do velho Portugal (em contraste com o Portugal novo) •  Na infância, educação baseada em valores ksicos e intelectuais •  Na vida adulta, cosmopoliCsmo, sensualidade, luxo, diletanCsmo, dandismo Falhou na vida, provavelmente devido ao meio social (sociedade ociosa, fúCl, boémia) •  Na infância e adolescência, educação pela mãe •  Na vida adulta: relação com Mac Green e Castro Gomes •  Felicidade transitória com Carlos •  Desilusão final / parCda para Paris O romance: complexidade dos protagonistas Linguagem, estilo e estrutura
  11. 11. Diversificação da intriga amorosa Pedro da Maia Ega Carlos da Maia •  Procura de botequins e lupanares – romanCsmo torpe •  Relação com Maria Monforte – amor-paixão, amor fatal •  Enquanto estudante, em Coimbra: relações com Hermengarda (mulher casada) e com a prosCtuta espanhola → romanCsmo sensual e torpe; adultério •  Relação com a Condessa de Gouvarinho → adultério •  Relação amorosa com Maria Eduarda → amor- paixão, amor fatal •  Relação com Raquel Cohen → adultério, amor- paixão Representações do sentimento e da paixão
  12. 12. Pedro da Maia u  Encontro ocasional com Maria Monforte. u  Paixão imediata e avassaladora. u  Oposição de Afonso (passado de Maria Monforte). u  Fuga de Maria Monforte. u  Suicídio de Pedro. Carlos da Maia u  Encontro ocasional com Maria Eduarda. u  Desejo e obsessão. u  Oposição de Afonso (situação familiar de Maria Eduarda). u  Descoberta do incesto. u  Morte de Afonso. João da Ega u  Conhece Raquel Cohen, mulher casada, num acontecimento social. u  Paixão escondida à sociedade. u  Relação descoberta pelo marido de Raquel e escândalo social. u  ReCro de Ega em Celorico e ida dos Cohen para o estrangeiro. u  Regresso de Ega a Lisboa faz reacender a sua humilhação. Diversificação da intriga amorosa Representações do sentimento e da paixão
  13. 13. Características trágicas dos protagonistas Afonso da Maia •  Carácter nobre, em termos sociais e morais (grandeza de alma). •  Marcado pelo DesCno – morre na sequência do incesto dos netos (“vencido enfim por aquele implacável des>no que, depois de o ter ferido na idade da força com a desgraça do filho – o esmagava ao fim da velhice com a desgraça do neto”, Cap. XVII). Carlos da Maia •  Carácter excecional e superior, em termos de educação e beleza (“fisionomia de belo cavaleiro da Renascença”). •  Marcado pelo DesCno (cf. razão da escolha do nome próprio, pela mãe – “des>no de amores e façanhas”, Cap. II). •  Aproximação predesCnada a Maria Eduarda (“Ambos insensivelmente, irresis>velmente, fatalmente, marchando um para o outro”, Cap. VI). •  ACtude de herói trágico: comete uma transgressão (hybris), ao praCcar incesto conscientemente. Maria Eduarda •  Carácter excecional e superior, em termos de beleza (“deusa”), de requinte (“>nha naquele cais triste de cidade an>quada, um destaque estrangeiro, como o requinte claro de civilizações superiores”) e de delicadeza de senCmentos. •  ReceCva a presságios. •  Aproximação predesCnada de Carlos.
  14. 14. Características trágicas dos protagonistas Fábula trágica u  A oposição de Afonso da Maia. u  O retrato de Maria Eduarda, apresentada como uma deusa envolta em mistério. u  O retrato de Carlos da Maia, apresentado como um ser superior. u  A morte de Afonso (víCma do desCno) e a separação dos dois amantes (heróis da tragédia). TemáCca do incesto u  Afastados na infância na sequência da fuga da mãe, Maria Monforte, Carlos da Maia e Maria Eduarda apaixonam-se e cometem o incesto inconscientemente. Presságios e desCno u  A escolha do nome de Carlos. u  A semelhança dos nomes: Carlos Eduardo e Maria Eduarda. u  Fatalismo das paredes do Ramalhete. u  A crença de Ega num desCno que comandará a vida amorosa de Carlos. u  As semelhanças entre Afonso e Maria Eduarda e entre Carlos e Maria Monforte. u  A referência de Afonso ao implacável desCno que se abate sobre a família. u  (…)
  15. 15. •  Cap. I - “...eram sempre fatais aos Maias as paredes do Ramalhete.”; parecença de Pedro com o bisavô, que enlouqueceu e se enforcou; a sombrinha escarlate de Maria Monforte tapa Pedro e parece a Afonso uma larga mancha de sangue; •  Cap. VI – Ega compara Carlos a Dom Juan – “Tu és simplesmente como ele, um devasso; e hás de vir a acabar desgraçadamente como ele, numa tragédia infernal!”; •  Cap. IX – origem dos olhos azuis de Rosa; •  Cap. X – Carlos afirma que nunca se sabe se o que nos acontece é, na verdade, bom ou mau. Cra| responde que, por regra, é mau. •  Cap. XI – quando vai a casa de Maria Eduarda para observar a governanta, em cima de uma mesa há uma jarra com três lírios brancos, já́ murchos = os três Maias; Carlos acha semelhanças entre Maria Eduarda e Afonso, pelo facto de ser piedosa; •  Cap. XII – Ega pressente um “grave segredo” na vida de Carlos; •  Cap. XIII – decoração do quarto, na Toca; •  Cap. XIV - ao adiar a parCda para Itália “...o presságio de um futuro onde tudo seria confuso e escuro também.”; Maria vê em Carlos parecenças com a sua mãe; •  Cap. XVII – “Há três anos, quando o Sr. Afonso me encomendou aqui as primeiras obras, lembrei-lhe eu que, segundo uma anCga lenda, eram sempre fatais aos Maias as paredes do Ramalhete. O Sr. Afonso da Maia riu de agouros e lendas... Pois fatais foram!”. Presságios Características trágicas dos protagonistas – especificamente na obra
  16. 16. DesCno •  Cap. II – a escolha do nome Carlos Eduardo “parecia-lhe conter todo um desCno de amores e façanhas.” •  Cap. VI – Ega diz a Carlos que cada um tem “a sua mulher” e, ainda que estejam longe um do outro, inevitavelmente, encontrar-se-ão; •  Cap. VIII – imaginação de Carlos acerca de Maria – “...foi-lhe surgindo na alma um romance radiante e absurdo: um sopro de paixão mais forte que as leis humanas, levava juntos o seu desCno e o dela.”; •  Cap. XI – similitude nos nomes de ambos – “Quem sabe se não pressagiava a concordância dos seus desCnos!”; •  Cap. XII – “...como se esperassem, suspensos, o desfecho supremo dos seus desCnos...”; “...conhece- me tão pouco, para irmos assim ambos, quebrando por tudo, criar um desCno que é irreparável...”; Ega percebe, pelo modo como Carlos fala de Maria, que esse amor se tornou “o seu irreparável desCno.”; •  Cap. XV – Carlos considera-se “apanhado dentro de uma implacável rede de fatalidades...”; •  Cap. XVII – o desCno abate-se mais uma vez sobre Afonso - “...vencido enfim por aquele implacável desCno que, depois de o ter ferido (...) com a desgraça do filho – o esmagava (...) com a desgraça do neto.”. Características trágicas dos protagonistas – especificamente na obra
  17. 17. •  Juventude, exílio e casamento de Afonso •  Amores e suicídio de Pedro •  Educação e formação de Carlos c. 1820-1875 1875-1877 •  Amores de Carlos e Maria Eduarda (preparação do incesto, consumação do incesto, final trágico) •  Crónica de costumes (cf. espaço social) 1887 •  Passeio de Carlos e Ega, em Lisboa Antecedentes da ação principal Ação principal Epílogo Tempo da história (marcos fundamentais) Linguagem, estilo e estrutura O romance: complexidade do tempo
  18. 18. A ação de Os Maias não é contada linearmente, sendo alguns acontecimentos apresentados por meio de analepses. Jacinto do Prado Coelho esquemaCzou a arquitetura do romance da seguinte forma: 1. Introdução: marco inicial da ação; o Ramalhete; Afonso 2. Preparação: a) Juventude de Afonso b) Infância de Pedro c) Juventude, amores e suicídio de Pedro d) Infância e educação de Carlos e) Carlos estudante em Coimbra f) Primeira viagem de Carlos 3. Ação 4. Epílogo a) Viagem de Carlos e de Ega (1877-78); b) Cenas da estada de Carlos em Lisboa, dez anos depois (1887) COELHO, J. (1976), in Ao contrário de Penélope. Lisboa: Bertrand [pp. 169-170]
  19. 19. •  O romance encerra duas intrigas: •  a principal: •  protagonizada por Carlos e Maria Eduarda, uma história de amores trágicos e incestuosos •  a secundária: •  condiciona a ação central, tem como personagens principais Pedro da Maia, que se suicida, e Maria Monforte, que foge com um amante, levando uma filha e deixando um filho aos cuidados do marido traído. •  A ação do romance não é narrada linearmente: •  começa em 1875: •  de imediato, existe uma analepse até ao ano de 1820. Em ritmo rápido (em cerca de 85 páginas), são percorridos 55 anos, através de uma criteriosa seleção de pequenas cenas e episódios significaCvos e da supressão de outros, através de elipses e resumos. •  No capítulo IV, retoma-se a ação central e o percurso de Carlos em Lisboa até ao penúlCmo capítulo da obra. O ritmo narraCvo torna-se lento (dois anos em cerca de 590 páginas) com inúmeras descrições e cenas dialogadas e com duas breves analepses: aquando da confissão de Maria Eduarda a Carlos sobre o seu passado e aquando da leitura da carta de Maria Monforte. •  No úlCmo capítulo, encontramos Carlos e Ega em Lisboa, 10 anos passados.
  20. 20. Revolução liberal do Porto Elaboração e proclamação da ConsCtuição “E todavia, o furor revolucionário do pobre moço consis>ra em ler Rousseau, Volney, Helvécio, e a «Enciclopédia»; em a>rar foguetes de lágrimas à Cons>tuição […].” (Cap. I) Ação de Os Maias Tempo histórico 1820 1824 Factos históricos “Durante os dias da Abrilada estava ele nas corridas de Epsom […].” (Cap. I) Reação miguelista: Abrilada Linguagem, estilo e estrutura O romance: complexidade do tempo
  21. 21. Regresso triunfal de D. Miguel a Lisboa, após exílio em Viena “Tais palavras, apenas soltas, voavam a Queluz. E quando se reuniram as Cortes Gerais, a polícia invadiu Benfica, «a procurar papéis e armas escondidas».” (Cap. I) Início da Regeneração Ação de Os Maias Tempo histórico 1828 1851 1858 1870 Factos históricos Guerra franco-prussiana “Longos anos o Ramalhete permanecera desabitado […]. Em 1858, Monsenhor Buccarini […] visitara-o” […].” (Cap. I) “De repente rebentou a guerra com a Prússia.” (Cap. XV) u Tempo organizado de forma complexa e socorrendo-se de analepses, prolepses, resumos e sumários.
  22. 22. Tempo histórico •  Numa época em que o descrédito políCco era evidente, Eça de Queirós reflete, na sua obra, sobre a atmosfera decadente e a crise de idenCdade que se vivia em Portugal no final do século XIX. •  De modo a permiCr ao escritor analisar a sociedade portuguesa em que está inserido, Eça de Queirós aborda temas como: •  o casamento (insCtuição em crise); •  o adultério; •  a educação feminina; •  a hipocrisia religiosa; •  a ociosidade da burguesia; •  a mediocridade do poder políCco e a incapacidade de reação da sociedade.

×