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Os Lusíadas - Reflexões do Poeta, Canto X, est. 145­-156

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Leitura analítica e crítica de Os Lusíadas - Reflexões do Poeta, Canto X, est. 145­-156

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Os Lusíadas - Reflexões do Poeta, Canto X, est. 145­-156

  1. 1. Reflexões do Poeta – C.X, est. 145-156 Reflexão suscitada pela chegada da armada de Vasco da Gama a Portugal. 145 Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho Destemperada e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida. O favor com que mais se acende o engenho Não no dá a pátria, não, que está mePda No gosto da cobiça e na rudeza Düa austera, apagada e vil tristeza. Em suma - Camões confessa--se cansado de “cantar a gente surda e endurecida” que não o sabe apreciar, uma gente “mePda / no gosto da cobiça e na rudeza / Düa austera, apagada e vil tristeza”, aliás é a imagem do Portugal de então, que ele apresenta com alguma mágoa e até sarcasmo e azedume. VocaPvo – a quem se dirige o poeta Metonímia/Metáfora – a “Lira” enquanto símbolo da arte poéPca Camões sente-se desiludido e cansado não de escrever, mas sim do Ppo de “público” que possui – incultos, ignorantes, insensíveis. O seu estado de espírito prende-se também com a constatação de que o país vive numa crise de valores e em decadência.
  2. 2. Reflexões do Poeta – C.X, est. 145-156 146 E não sei por que influxo de DesPno Não tem um ledo orgulho e geral gosto, Que os ânimos levanta de conPno A ter pera trabalhos ledo o rosto. Por isso vós, ó Rei, que por divino Conselho estais no régio sólio posto, Olhai que sois (e vede as outras gentes) Senhor só de vassalos excelentes. 147 Olhai que ledos vão, por várias vias, Quais rompentes liões e bravos touros, Dando os corpos a fomes e vigias, A ferro, a fogo, a setas e pelouros, A quentes regiões, a plagas frias, A golpes de Idolátras e de Mouros, A perigos incógnitos do mundo, A naufrágios, a pexes, ao profundo. 148 Por vos servir, a tudo aparelhados; De vós tão longe, sempre obedientes; A quaisquer vossos ásperos mandados, Sem dar reposta, prontos e contentes. Só com saber que são de vós olhados, Demónios infernais, negros e ardentes, Cometerão convosco, e não duvido Que vencedor vos façam, não vencido. VocaPvo – a quem se dirige o poeta UPlização do imperaPvo – apelo ao Rei para que ele observe os seus súbditos e perceba que estes são os mais: •  alegres; •  bravos; •  esforçados; •  corajosos; •  destemidos; •  dedicados; •  com espírito de sacriicio; •  orgulhosos; •  acedem a todos os desejos do monarca… Elogio máximo ao portugueses.
  3. 3. Reflexões do Poeta – C.X, est. 145-156 149 Favorecei-os logo, e alegrai-os Com a presença e leda humanidade; De rigorosas leis desalivai-os, Que assi se abre o caminho à sanPdade. Os mais exprimentados levantai-os, Se, com a experiência, têm bondade Pera vosso conselho, pois que sabem O como, o quando, e onde as cousas cabem. 150 Todos favorecei em seus oicios, Segundo têm das vidas o talento; Tenham Religiosos exercícios De rogarem, por vosso regimento, Com jejuns, disciplina, pelos vícios Comuns; toda ambição terão por vento, Que o bom Religioso verdadeiro Glória vã não pretende nem dinheiro. 151 Os Cavaleiros tende em muita esPma, Pois com seu sangue intrépido e fervente Estendem não sòmente a Lei de cima, Mas inda vosso Império preminente. Pois aqueles que a tão remoto clima Vos vão servir, com passo diligente, Dous inimigos vencem: uns, os vivos, E (o que é mais) os trabalhos excessivos. 152 Fazei, Senhor, que nunca os admirados Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses, Possam dizer que são pera mandados, Mais que pera mandar, os Portugueses. Tomai conselho só d'exprimentados Que viram largos anos, largos meses, Que, posto que em cientes muito cabe. Mais em parPcular o experto sabe. Após ter tecido elogios aos portugueses nas estrofes anteriores, da estrofe 149 à 151, Camões apela ao Rei para que este recompense os seus súbditos, apoiando-os sem disPnção, promovendo, simultaneamente, os mais experientes e esPmando os que dilatam a Fé e o Império sem temer os inimigos nem poupar esforços. O Poeta suplica ao Rei para que este não permita que os estrangeiros subjuguem os portugueses. Camões pede a D. SebasPão para que este se aconselhe com os mais experientes e não com os teóricos.
  4. 4. 153 De Formião, filósofo elegante, Vereis como Anibal escarnecia, Quando das artes bélicas, diante Dele, com larga voz tratava e lia. A disciplina militar prestante Não se aprende, Senhor, na fantasia, Sonhando, imaginando ou estudando, Senão vendo, tratando e pelejando. 154 Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo, De vós não conhecido nem sonhado? Da boca dos pequenos sei, contudo, Que o louvor sai às vezes acabado. Tem me falta na vida honesto estudo, Com longa experiência misturado, Nem engenho, que aqui vereis presente, Cousas que juntas se acham raramente. 155 Pera servir-vos, braço às armas feito, Pera cantar-vos, mente às Musas dada; Só me falece ser a vós aceito, De quem virtude deve ser prezada. Se me isto o Céu concede, e o vosso peito Dina empresa tomar de ser cantada, Como a pres[s]aga mente vaPcina Olhando a vossa inclinação divina, 156 Ou fazendo que, mais que a de Medusa, A vista vossa tema o monte Atlante, Ou rompendo nos campos de Ampelusa Os muros de Marrocos e Trudante, A minha já esPmada e leda Musa Fico que em todo o mundo de vós cante, De sorte que Alexandro em vós se veja, Sem à dita de Aquiles ter enveja. Reflexões do Poeta – C.X, est. 145-156 A parPr da estrofe 154, Camões centra o discurso sobre si, revelando-se indigno da atenção do Rei, que não o conhece. Apesar disso, apresenta a sua vontade de o servir quer pela escrita quer pelas armas. ConPnuação do que foi dito entre as estrofes 149-152 Conjunção coordenaPva adversaPva – mudança de assunto.
  5. 5. •  O poeta confessa-se cansado pela falta de reconhecimento pátrio – o país não reconhece nem se orgulha dos letrados; •  CríPca amarga ao estado de decadência moral do país; •  O poeta dirige--se ao rei D. SebasPão, lembrando--lhe que tem “vassalos excelentes”, que demonstram grande força e coragem, pois enfrentam perigos, obedecem às suas ordens com pronPdão e alegria e farão dele sempre um vencedor e não um vencido; •  IncenPva o rei para que seja um monarca digno da grandeza do nome de Portugal; •  Manifesta a sua disponibilidade para servir o país pelas armas e pela escrita Reflexões do Poeta – C.X, est. 145-156 Em poucas palavras: Com base nestas intervenções, Os Lusíadas pode ser visto como uma obra didáPca, onde se estabelece um modelo de valores que devem ser considerados como uma teoria e que define normas morais a seguir. É um texto que criPca os vícios que assolam a sociedade da época, propondo aos portugueses, contemporâneos de Camões, que corrijam os seus vícios para aPngirem um nível superior de humanidade.

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