Successfully reported this slideshow.
We use your LinkedIn profile and activity data to personalize ads and to show you more relevant ads. You can change your ad preferences anytime.

Os Lusíadas - Reflexões do Poeta, Canto VII, est. 78-­87

46,212 views

Published on

Leitura analítica e crítica de Os Lusíadas - Reflexões do Poeta, Canto VII, est. 78-­87

Published in: Education
  • Be the first to comment

Os Lusíadas - Reflexões do Poeta, Canto VII, est. 78-­87

  1. 1. Reflexões do Poeta – C.VII, est. 78-87 Reflexão suscitada pelo pedido do Catual a Paulo da Gama para que lhe explique o significado das figuras desenhadas nas bandeiras da nau. Um ramo na mão Fnha... Mas, ó cego! Eu, que cometo insano e temerário, Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego, Por caminho tão árduo, longo e vário! Vosso favor invoco, que navego Por alto mar, com vento tão contrário, Que, se não me ajudais, hei grande medo Que o meu fraco batel se alague cedo. O Poeta confessa que o seu “caminho”/ vida tem sido: •  muito diXcil; •  cheio de adversidades e obstáculos a transpor; •  Por isso: •  teme pelo que lhe poderá acontecer. Pedido de auxílio, de inspiração. Metáfora de vida – reforça a precaridade e a falta de valor que lhe dão. Sente que é um náufrago, sem apoio, sem valorização. O facto de perceber que “navega” sozinho, ameaçado por “vento tão contrário”, tendo uma tarefa “tão [árdua]” fá-lo senFr-se desanimado e triste. Conjunção coordenaFva adversaFva
  2. 2. 79 Olhai que há tanto tempo que, cantando O vosso Tejo e os vossos Lusitanos, A fortuna mo traz peregrinando, Novos trabalhos vendo, e novos danos: Agora o mar, agora experimentando Os perigos Mavórcios inumanos, Qual Cánace, que à morte se condena, Numa mão sempre a espada, e noutra a pena. 80 Agora, com pobreza avorrecida, Por hospícios alheios degradado; Agora, da esperança já adquirida, De novo, mais que nunca, derribado; Agora às costas escapando a vida, Que dum fio pendia tão delgado Que não menos milagre foi salvar-se Que para o Rei Judaico acrescentar-se. 81 E ainda, Ninfas minhas, não bastava Que tamanhas misérias me cercassem, Senão que aqueles, que eu cantando andava Tal prémio de meus versos me tornassem: A troco dos descansos que esperava, Das capelas de louro que me honrassem, Trabalhos nunca usados me inventaram, Com que em tão duro estado me deitaram. Há muito que celebra em verso os portugueses. O desFno não tem sido favorável, moFvo pelo qual se sente um peregrino, sendo-lhe apresentados “novos trabalhos” e “novos danos”. Vive constantemente em perigo, quer no mar, quer na guerra. Simultaneamente escreve e luta. Esteve no exílio (fruto também da sua pobreza). Qualquer esperança que possa ter Fdo foi seguida de momentos de maior dor e abaFmento. Sente que viveu à beira da morte. A sua vida resume-se ao infortúnio, agudizado pela falta de reconhecimento daqueles que ele louvou e que nunca o recompensaram por tal feito (muito pelo contrário). RepeFção e anáfora que reforça a quanFdade de infortúnios que lhe aconteceram.
  3. 3. 82 Vede, Ninfas, que engenhos de senhores O vosso Tejo cria valorosos, Que assim sabem prezar com tais favores A quem os faz, cantando, gloriosos! Que exemplos a futuros escritores, Para espertar engenhos curiosos, Para porem as coisas em memória, Que merecerem ter eterna glória! 83 Pois logo em tantos males é forçado, Que só vosso favor me não faleça, Principalmente aqui, que sou chegado Onde feitos diversos engrandeça: Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado Que não o empregue em quem o não mereça, Nem por lisonja louve algum subido, Sob pena de não ser agradecido. 84 Nem creiais, Ninfas, não, que a fama desse A quem ao bem comum e do seu Rei Antepuser seu próprio interesse, Inimigo da divina e humana Lei. Nenhum ambicioso, que quisesse Subir a grandes cargos, cantarei, Só por poder com torpes exercícios Usar mais largamente de seus vícios; Ironia – críFca do poeta a todos aqueles que não valorizam os poetas/escritores. Esta desvalorização não fomenta o aparecimento de novos escritores, o que originará o esquecimento dos heróis e um país sem cultura. O poeta compromete-se a nunca louvar aqueles que não merecem: •  os ambiciosos (colocam os seus interesses acima de tudo e desrespeitam Deus); •  os que abusam do poder (para proveito próprio); •  os que exploram os mais fracos 85 Nenhum que use de seu poder bastante, Para servir a seu desejo feio, E que, por comprazer ao vulgo errante, Se muda em mais figuras que Proteio. Nem, Camenas, também cuideis que canto Quem, com hábito honesto e grave, veio, Por contentar ao Rei no oXcio novo, A despir e roubar o pobre povo.
  4. 4. 86 Nem quem acha que é justo e que é direito Guardar-se a lei do Rei severamente, E não acha que é justo e bom respeito, Que se pague o suor da servil gente; Nem quem sempre, com pouco experto peito, Razões aprende, e cuida que é prudente, Para taxar, com mão rapace e escassa, Os trabalhos alheios, que não passa. 87 Aqueles sós direi, que aventuraram Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida, Onde, perdendo-a, em fama a dilataram, Tão bem de suas obras merecida. Apolo, e as Musas que me acompanharam, Me dobrarão a fúria concedida, Enquanto eu tomo alento descansado, Por tornar ao trabalho, mais folgado. (cont.) O poeta compromete-se a nunca louvar aqueles que não merecem: •  os que exploram os mais fracos; •  os que roubam, enganam e escravizam o povo O Poeta só louvará aqueles que se “[aventuram]”, lutam, sacrificam por Deus, pelo Rei, pela vida, sem medo de, inclusivamente, morrer por uma boa causa. Referência a Apolo, deus das Belas artes, e às Musas: •  pede-lhes que o apoiem nesta tarefa tão diXcil (apesar de não esquecer todas as adversidades anteriormente nomeadas).
  5. 5. Reflexão do Canto VII - Em poucas palavras - Intervenção pedagógica; - O povo português revela indiferença e insensibilidade face à cultura e literatura, desprezando e não dando valor ao poeta; - PerspeFva pessoal do desprezo que lhe é votado - lamento do poeta pelos infortúnios sofridos e pelo não reconhecimento do seu mérito; - O seu exemplo (o desprezo e falta de reconhecimento face ao seu esforço) é inviabilizador do incenFvo a futuros escritores, nenhum escritor quererá louvar os feitos dos portugueses; - Os portugueses menosprezam a cultura e literatura, o que os poderá levar à decadência; - Denúncia dos abusos dos poderosos e das injusFças que aFngem o povo.

×