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O conto da ilha desconhecida

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José Saramago

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O conto da ilha desconhecida

  1. 1. DADOS DE COPYRIGHT Sobre a obra: A presente obra � disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer conte�do para uso parcial em pesquisas e estudos acad�micos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. � expressamente proibida e totalmente repudi�vel a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conte�do Sobre n�s: O Le Livros e seus parceiros disponibilizam conte�do de dominio publico e propriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educa��o devem ser acess�veis e livres a toda e qualquer pessoa. Voc� pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.site ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link. "Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e n�o mais lutando por dinheiro e poder, ent�o nossa sociedade poder� enfim evoluir a um novo n�vel."
  2. 2. Um homem foi bater � porta do rei e disse-lhe, D�-me um barco. A casa do rei tinha muitas portas, mas aquela era a das peti��es. Como o rei passava todo o tempo sentado � porta dos obs�quios (entenda-se, os obs�quios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia algu�m a chamar � porta das peti��es fingia-se desentendido, e s� quando o ressoar cont�nuo da aldabra de bronze se tornava, mas do que not�rio, escandaloso, tirando o sossego � vizinhan�a (as pessoas come�avam a murmurar, Que rei temos n�s, que n�o atende), � que dava ordem ao primeiro-secret�rio para ir saber o que queria o impetrante, que n�o havia maneira de se calar. Ent�o, o primeiro-secret�rio chamava o segundo-secret�rio, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por a� fora at� chegar � mulher da limpeza, a qual, n�o tendo ningu�m em quem mandar, entreabria a porta das peti��es e perguntava pela frincha, Que � que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto �, pedia o que tinha de pedir, depois instalava-se a um canto da porta, � espera de que o requerimento fizesse, de um em um, o caminho contr�rio, at� chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obs�quios, o rei demorava a resposta, e j� n�o era pequeno sinal de aten��o ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secret�rio, o qual, escusado seria dizer, passa a encomenda ao segundo-secret�rio, este ao terceiro, sucessivamente, at� chegar outra vez � mulher da limpeza, que despachava sim ou n�o conforme estivesse a mar�. Contudo, no caso do homem que queria um barco, as coisas n�o se passaram bem assim. Quando a mulher da limpeza lhe perguntou pela nesga da porta, Que � que tu queres, o homem, em lugar de pedir, como era o costume de todos, um t�tulo, uma condecora��o, ou simplesmente dinheiro, respondeu, Quero falar ao rei, J� sabes que o rei n�o pode vir, est� na porta dos obs�quios, respondeu a mulher, Pois ent�o vai l� dizer-lhe que n�o saio daqui at� que ele venha, pessoalmente, saber o que quero, rematou o homem, e deitou-se ao comprido no limiar, tapando-se com a manta por causa do frio. Entrar e sair, s� por cima dele. Ora, isto era um enorme problema, se tivermos em considera��o que, de acordo com a pragm�tica das portas, ali s� se podia atender um suplicante de cada vez, donde resultava que, enquanto houvesse algu�m � espera de resposta, nenhuma outra pessoa se poderia
  3. 3. aproximar a fim de expor as suas necessidades ou as sua ambi��es. � primeira vista, quem ficava a ganhar com esse artigo do regulamento era o rei, dado que, sendo menos numerosa a gente que o vinha incomodar com lam�rias, mais tempo ele passava a ter, e mais descanso, para receber, contemplar e guardar os obs�quios. � segunda vista, por�m, o rei perdia, e muito, porque os protestos p�blicos, ao notar-se que a resposta estava a tardar mais do que o justo, faziam aumentar gravemente o descontentamento social, o que, por seu turno, ia ter imediatas e negativas consequ�ncias no afluxo de obs�quios. No caso que estamos narrando, o resultado da pondera��o entre os benef�cios e os preju�zos foi ter ido o rei, ao cabo de tr�s dias, e em real pessoa, � porta das peti��es, para saber o que queria o intrometido que se havia negado a encaminhar o requerimento pelas competentes vias burocr�ticas. Abre a porta, disse o rei � mulher da limpeza, e ela perguntou, Toda, ou s� um bocadinho. O rei duvidou por um instante, na verdade n�o gostava muito de se expor aos ares da rua, mas depois reflexionou que pareceria mal, al�m de ser indigno de sua majestade, falar com um s�bdito atrav�s de uma nesga, como se tivesse medo dele, mormente estando a assistir ao col�quio a mulher da limpeza, que logo iria dizer por a� sabe Deus o qu�, De par em par, ordenou. O homem que queria um barco levantou-se do degrau da porta quando come�ou a ouvir correr os ferrolhos, enrolou a manta e p�s-se � espera. Estes sinais de que finalmente algu�m viria atender, e que portanto a pra�a n�o tardaria a ficar desocupada, fizeram aproximar-se da porta uns quantos aspirantes � liberalidade do trono que por ali andavam, prontos a assaltar o lugar mal ele vagasse. O inopinado aparecimento do rei (nunca uma tala coisa havia sucedido desde que ele andava de coroa na cabe�a) causou uma surpresa desmedida, n�o s� aos ditos candidatos mas tamb�m � vizinhan�a que atra�da pelo repentino alvoro�o, assomara �s janelas das casas, no outro lado da rua. A �nica pessoa que n�o se surpreendeu por a� al�m foi o homem que tinha vindo pedir um barco. Calculara ele, e acertara na previs�o, que o rei, mesmo que demorasse tr�s dias, haveria de sentir-se curioso de ver a cara de quem, sem mais nem menos, com not�vel atrevimento, o mandar chamar. repartido pois entre a curiosidade que n�o pudera reprimir e o desagrado de ver tanta gente junta, o rei, com o pior dos modos, perguntou tr�s perguntas seguidas, Que � que queres, Por que foi que n�o disseste logo o que querias, Pensar�s tu que eu n�o tenho mais nada que fazer, mas o homem s� respondeu � primeira
  4. 4. pergunta, D�-me um barco, disse. O assombro deixou o rei a tal ponto desconcertado, que a mulher da limpeza se apressou a chegar-lhe uma cadeira de palhinha, a mesma em que ela pr�pria se sentava quando precisava de trabalhar de linha e agulha, pois al�m da limpeza, tinha tamb�m � sua responsabilidade alguns trabalhos menores de costura no pal�cio, como passajar as pe�gas dos pajens. Mal sentado, porque a cadeira de palhinha era muito mais baixa que o trono, o rei estava a procurar a melhor maneira de acomodar as pernas, ora estendendo-as para os lados, enquanto o homem que queria um barco esperava com paci�ncia a pergunta que se seguiria, E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofr�vel comodidade, na cadeirada mulher da limpeza. Para ir � procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfar�ando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que t�m a mania das navega��es, a quem n�o seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, j� n�o h� ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que j� n�o h� ilhas desconhecidas, est�o todas nos mapas, Nos mapas s� est�o as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida � essa que queres ir � procura, Se eu to pudesse dizer, ent�o n�o seria desconhecida, A quem ouviste falar dela, perguntou o rei, agora mais s�rio, A ningu�m, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente por que � imposs�vel que n�o exista uma ilha desconhecida, E vieste aqui para me pedires um barco, Sim, vim aqui para pedir-lhe um barco, E tu quem �s, para que eu to d�, E tu quem �s, para que n�o mo d�s, Sou o rei deste reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencer�s tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei inquieto, Que tu, sem eles, �s nada, e que eles, sem ti, poder�o sempre navegar. �s minhas ordens, com os meus pilotos e os meus marinheiros, N�o te pe�o marinheiros nem pilotos, s� te pe�o um barco, E essa ilha desconhecida, se a encontrares, ser� para mim, A ti, rei, so te interessam as ilhas conhecidas. Tamb�m me interessam as desconhecidas quando deixam de o ser, Talvez esta n�o se deixe conhecer, Ent�o n�o te dou o barco, Dar�s. Ao ouvirem esta palavra, pronunciada com tranquila firmeza, os aspirantes � porta das peti��es, em quem, minuto ap�s minuto, desde o princ�pio da conversa, a impaci�ncia vinha crescendo, e mais para se verem livres dele do que por simpatia solid�ria, resolveram intervir a favor do homem que queria o barco,
  5. 5. come�ando a gritar, D�-lhe o barco, d�-lhe o barco. O rei abriu a boca para dizer � mulher da limpeza que chamasse a guarda do pal�cio a vir restabelecer imediatamente a ordem p�blica e impor a disciplina, mas, nesse momento, as vizinhas que assistiam das janelas juntaram-se ao coro com entusiasmo, gritando como os outros, D�-lhe o barco, d�-lhe o barco. Perante uma t�o inilud�vel manifesta��o da vontade popular e preocupado com o que, neste meio tempo, j� haveria perdido na porta dos obs�quios, o rei levantou a m�o direita a impor sil�ncio e disse, Vou dar-te um barco, mas a tripula��o ter�s de arranj�-la tu, os meus marinheiros s�o-me precisos para as ilhas conhecidas. Os gritos de aplauso do p�blico n�o deixaram que se percebesse o agradecimento do homem que viera pedir um barco, ali�s o movimento dos l�bios tanto teria podido ser Obrigado, meu senhor, como Eu c� me arranjarei, mas o que distintamente se ouviu foi o dito seguinte do rei, Vais � doca, perguntas l� pelo capit�o do porto, dizes-lhe que te mandei eu, e ele que te d� o barco, levas o meu cart�o. O homem que ia receber um barco leu o cart�o de visita, onde dizia Rei por baixo do nome do rei, e eram estas as palavras que ele havia escrito sobre o ombro da mulher da limpeza, Entrega ao portador um barco, n�o precisa ser grande, mas que navegue bem e seja seguro, n�o quero ter remorsos na consci�ncia se as coisas lhe correrem mal. Quando o homem levantou a cabe�a, sup�e-se que desta vez � que iria agradecer a d�diva, j� o rei se tinha retirado, s� estava a mulher da limpeza a olhar para ele com cara de caso. O homem desceu do degrau da porta, sinal de que os outros candidatados podiam enfim avan�ar, nem valeria a pena explicar que a confus�o foi indescrit�vel, todos a quererem chegar ao s�tio em primeiro lugar, mas com t�o m� sorte que a porta j� estava fechada outra vez. A aldraba de bronze tornou a chamar a mulher da limpeza, mas a mulher da limpeza n�o est�, deu a volta e saiu com o balde e a vassoura por outra porta, a das decis�es, que � raro ser usada, mas quando �, �. Agora sim, agora pode- se compreender o porqu� da cara de caso com que a mulher da limpeza havia estado a olhar, foi esse o preciso momento em que ela resolveu ir atr�s do homem quando ele se dirigisse ao porto a tomar conta do barco. Pensou ela que j� bastava de uma vida a limpar e a lavar pal�cios, que tinha chegado a hora de mudar de of�cio, que lavar a limpar barcos � que era a sua voca��o verdadeira, no mar, ao menos, a �gua nunca lhe faltaria. O homem nem sonha que, n�o tendo ainda sequer come�ado a recrutar os tripulantes, j� leva atr�s de si a futura encarregada das baldea��es e outros asseios, tamb�m � deste
  6. 6. modo que o destino costuma comportar-se connosco, j� est� mesmo atr�s de n�s, j� entendeu a m�o para torcar-nos o ombro, e n�s ainda vamos a murmurar, Acabou-se, n�o h� mais que ver, � tudo igual. Andando, andando, o homem chegou ao porto, foi � doca, perguntou pelo capit�o, e enquanto ele n�o chegava deitou-se a adivinhar qual seria, de quantos barcos ali estavam, o que iria ser o seu, grande j� se sabia que n�o, o cart�o de visita do rei era muito claro neste ponto, por conseguinte ficavam de fora os paquetes, os cargueiros e os navios de guerra, t�o-pouco poderia ser ele t�o pequeno que resistisse mal �s for�as do vento e aos rigores do mar, o rei tamb�m havia sido categ�rico neste ponto, Que navegue bem e seja seguro, foram estas as suas formais palavras, assim implicitamente excluindo os botes, as faluas e os escaleres, os quais, sendo bons navegantes, e seguros, conforme a condi��o de cada qual, n�o tinham nascido para sulcar os oceanos, que � onde se encontram as ilhas desconhecidas. Um pouco afastada dali, escondida por tr�s de uns bid�es, a mulher da limpeza correu os olhos pelos barcos atracados, Para o meu gosto, aquele, pensou, por�m a sua opini�o n�o contava, nem sequer havia sido ainda contratada, vamos ouvir antes o que dir� o capit�o do porto. O capit�o veio, leu o cart�o, mirou o homem de alto a baixo, e fez a pergunta que o rei se tinha esquecido de fazer, Sabes navegar, tens carta de navega��o, ao que o homem respondeu, Aprenderei no mar. O capit�o disse, N�o to aconselharia, capit�o sou eu, e n�o me atrevo com qualquer barco, D�-me ent�o um com que possa atrever- me eu, n�o, um desses n�o, d�-me antes um barco que eu respeite e que possa respeitar-me a mim, Essa linguagem � de marinheiro, mas tu n�o �s marinheiro, Se tenho a linguagem, � como se o fosse. O capit�o tornou a ler o cart�o do rei, depois perguntou, Poder�s dizer-me para que queres o barco, Para ir � procura da ilha desconhecida, J� n�o h� ilhas desconhecidas, O mesmo me disse o rei, O que ele sabe de ilhas, aprendeu-o comigo, �< estranho que tu, sendo homem do mar, me digas isso, que j� n�o h� ilhas desconhecidas, homem da terra sou eu, e n�o ignoro que todas as ilhas, mesmo as conhecidas, s�o desconhecidas enquanto n�o desembarcarmos nelas, Mas tu, se bem entendi, vais � procura de uma onde nunca ningu�m tenha desembarcado, Sab�-lo-ei quando l� chegar, Se chegares, Sim, �s vezes naufraga-se pelo caminho, mas, se tal me viesse a acontecer, deverias escrever nos anais do porto que o ponto a que cheguei foi esse, Queres dizer
  7. 7. que chegar, sempre se chega, n�o serias quem �s se n�o o soubesses j�. O capit�o do porto disse, Vou dar-te a embarca��o que te conv�m, Qual � ela, � um barco com muita experi�ncia, ainda do tempo em que toda a gente andava � procura de ilhas desconhecidas, Qual � ele, Julgo at� que encontrou algumas, Qual, Aquele. Assim que a mulher da limpeza percebeu para onde o capit�o apontava, saiu a correr de detr�s dos bid�es e gritou, � o meu barco, � o meu barco, h� que perdoar-lhe a ins�lita reivindica��o de propriedade, a todos os t�tulos abusiva, o barco era aquele de que ela tinha gostado, simplesmente. Parece uma caravela, disse o homem, Mais ou menos, concordou o capit�o, no princ�pio era uma caravela, depois passou por arranjos e adapta��es que a modificaram um bocado, Mas continua a ser uma caravela, Sim, no conjunto conserva o antigo ar, E tem mastros e velas, Quando se vai procurar ilhas desconhecidas, � o mais recomend�vel. A mulher da limpeza n�o se conteve, Para mim n�o quero outro, Quem �s tu, perguntou o homem, N�o te lembras de mim, N�o tenho ideia, Sou a mulher da limpeza, Qual limpeza, A do pal�cio do rei, A que abria a porta das peti��es, N�o havia outra, E por que n�o est�s tu no pal�cio do rei a limpar e a abrir portas, Porque as portas que eu realmente queria j� foram abertas e porque de hoje em diante s� limparei barcos, Ent�o est�s decidida a ir comigo procurar a ilha desconhecida, Sa� do pal�cio pela porta das decis�es, Sendo assim, vai para a caravela, v� como est� aquilo, depois do tempo que passou de e precisar de uma boa lavagem, e tem cuidado com as gaivotas, que n�o s�o de fiar, N�o queres vir comigo conhecer o teu barco por dentro, Tu disseste que era teu, Desculpa, foi s� porque gostei dele, Gostar � provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar. O capit�o do porto interrompeu a conversa, Tenho de entregar as chaves ao dono do barco, a um ou a outro, resolvam-se, a mim tanto se me d�, Os barcos t�m chave, perguntou o homem, Para entrar, n�o, mas l� est�o as arrecada��es e os pai�is, e a escrivaninha do comandante com o di�rio de bordo, Ela que se encarregue de tudo, eu vou recrutar a tripula��o, disse o homem, e afastou-se. A mulher da limpeza foi ao escrit�rio do capit�o para recolher as chaves, depois entrou no barco, duas coisas lhe valeram a�, a vassoura do pal�cio e a preven��o contra as gaivotas, ainda n�o tinha acabado de atravessar a prancha que ligava a amurada ao cais e j� as malvadas estavam a precipitar-se sobre
  8. 8. ela aos guinchos, furiosas, de goela aberta, como se ali mesmo a quisessem devorar. N�o sabiam com quem se metiam. A mulher da limpeza pousou o balde, meteu as chaves no seio, firmou bem os p�s na prancha, e, redemoinhando a vassoura como se fosse um espad�o dos antigos, fez debandar o bando assassino. Foi s� quando entrou no barco que compreendeu a ira das gaivotas, havia ninhos por toda a parte, muitos deles abandonados, outros ainda com ovos, e uns poucos com gaivotinhos de bico aberto, � espera da comida, Pois sim, mas o melhor � mudarem-se daqui, um barco que vai procurar a ilha desconhecida n�o pode ter este aspecto, como se fosse um galinheiro, disse. Atirou para a �gua os ninhos vazios, quanto aos outros deixou-os ficar, at� ver. Depois arrega�ou as mangas e p�s-se a lavar a coberta. Quando acabou a dura tarefa, foi abrir o paiol das velas e procedeu a um exame minucioso do estado das costuras, depois de tanto tempo sem irem ao mar e sem terem de suportar os estic�es saud�veis do vento. As velas s�o os m�sculos do barco, basta ver como incham quando se esfor�am, mas, e isso mesmo sucede aos m�sculos, se n�o se lhes d� uso regularmente, abrandam, amolecem, perdem nervos das velas, pensou a mulher da limpeza, contente por estar a aprender t�o depressa a arte de marinharia. Achou esgar�adas algumas bainhas, mas contentou-se com assinal�-las, uma vez que para este trabalho n�o podiam servir a linha e a agulha com que passajava as pe�gas dos pajens antigamente, quer dizer, ainda ontem. Quanto aos outros pai�is, viu logo que estavam vazios. Que o da p�lvora estivesse desmunido, salvo uns pozinhos negros no fundo, que primeiro mais lhe pareceram caganitas de rato, n�o lhe importou nada, de facto n�o est� escrito em nenhuma lei, pelo menos at� onde a sabedoria duma mulher da limpeza � capaz de alcan�ar, que ir em busca duma ilha desconhecida tenha de ser for�osamente uma empresa de guerra. J� a ralou, e muito, a falta absoluta de muni��es de boca no paiol respectivo, n�o por si pr�pria, que estava mais do que acostumada ao mau passadio do pal�cio, mas por causa do homem a quem deram este barco, n�o tarda que o sol se ponha, e ele a aparecer-me a� a clamar que tem fome, que � o dito de todos os homens mal entram em casa, como se s� eles � que tivessem est�mago e sofressem da necessidade de o encher. E se j� traz marinheiros para a tripula��o, que s�o uns ogres a comer, ent�o � que n�o sei como nos iremos governar, disse a mulher da limpeza. N�o valia a pena ter-se preocupado tanto. O sol havia acabado de sumir-se no
  9. 9. oceano quando o homem que tinha um barco surgiu no extremo do cais. Trazia um embrulho na m�o, por�m vinha sozinho e cabisbaixo. A mulher da limpeza foi esper�-lo � prancha, mas antes que ela abrisse a boca para se inteirar de como lhe tinha corrido o resto do dia, ele disse, Est� descansada, trago aqui comida para os dois, E os marinheiros, perguntou ela, N�o veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que j� n�o h� ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, n�o iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oce�nicas, � procura de um imposs�vel, como se ainda estiv�ssemos no tempo do mar tenebroso, E n�o lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se n�o a conhe�o, Mas tens a certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento, visto daqui, com aquela �gua cor de jade e o c�u como um inc�ndio, de tenebroso n�o lhe encontro nada, � uma ilus�o tua, tamb�m as ilhas �s vezes parece que flutuam sobre as �guas, e n�o � verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripula��o, Ainda n�o sei, Pod�amos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que v�m � doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um of�cio, uma profiss�o, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, N�o o sabes, Se n�o sais de ti, n�o chegas a saber quem �s, O fil�sofo do rei, quando n�o tinha que fazer, ia sentar-se ao p� de mim, a ver- me passajar as pe�gas dos pajens, e �s vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem � uma ilha, eu, como aquilo n�o era comigo, visto que sou mulher, n�o lhe dava import�ncia, tu que achas, Que � necess�rio sair da ilha para ver a ilha, que n�o nos vemos se n�o nos sa�mos de n�s, Se n�o sa�mos de n�s pr�prios, queres tu dizer, N�o � a mesma coisa. O inc�ndio do c�u ia esmorecendo, a �gua arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar � mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas. Disse o homem, Deixemos as filosofias para o fil�sofo do rei, que para isso � que lhe pagam, agora vamos n�s comer, mas a mulher n�o esteve de acordo, Primeiro, tens de ver o teu barco, s� o conheces por fora, Que tal o encontraste H� algumas bainhas das velas que est�o a precisar de refor�o, Desceste ao por�o, encontraste �gua aberta, No fundo v�-se alguma, de mistura com o lastro, mais isso parece que � pr�prio, faz bem ao barco, Como foi que aprendeste essas coisas, Assim, Assim como, Como tu, quando
  10. 10. disseste ao capit�o do porto que aprenderias a navegar no mar, Ainda n�o estamos no mar, Mas j� estamos na �gua, Sempre tive a ideia de que para a navega��o s� h� dois mestres verdadeiros, um que � o mar, o outro que � o barco, E o c�u, est�s a esquecer-te do c�u, Sim, claro, o c�u, Os ventos, As nuvens, O c�u, Sim, o c�u. Em menos de um quarto de hora tinham acabado a volta pelo barco, uma caravela, mesmo transformada, n�o d� para grandes passeios. � bonita, disse o homem, mas se eu n�o conseguir arranjar tripulantes suficientes para a manobra, terei de ir dizer ao rei que j� n�o a quero, Perdes o �nimo logo � primeira contrariedade, A primeira contrariedade foi estar � espera do rei tr�s dias, e n�o desisti, Se n�o encontrares marinheiros que queiram vir, c� nos arranjaremos os dois, Est�s doida, duas pessoas sozinhas n�o seriam capazes de governar um barco destes, eu teria de estar sempre ao leme, e tu, nem vale a pena estar a explicar-te, � uma loucura, Depois veremos, agora vamos mas � comer. Subiram para o castelo de popa, o homem ainda a protestar contra o que chamara loucura, e, ali, a mulher da limpeza abriu o farnel que ele tinha trazido, um p�o, queijo duro, de cabra, azeitonas, uma garrafa de vinho. A lua j� estava meio palmo sobre o mar, as sombras da verga e do mastro grande vieram deita-se-lhes aos p�s. � realmente bonita a nossa caravela, disse a mulher, e emendou logo, A tua, a tua caravela, Desconfio que n�o o ser� por muito tempo, Navegues ou n�o navegues com ela, � tua, deu-ta o rei, Pedi-lha para ir procurar uma ilha desconhecida, Mas estas coisas n�o se fazem do p� para a m�o, levam o seu tempo, j� o meu av� dizia que quem vai ao mar avia- se em terra, e mais n�o era ele marinheiro, Sem tripulantes n�o poderemos navegar, J� o tinhas dito, E h� que abastecer o barco das mil coisas necess�rias a uma viagem como esta, que n�o se sabe aonde nos levar�, Evidentemente, e depois teremos de esperar que seja a boa esta��o, e sair com a boa mar�, e vir gente ao cais a desejar-nos boa viagem, Est�s a rir-te de mim, Nunca me riria de quem me fez sair pela porta das decis�es, Desculpa- me, E n�o tornarei a passar por ela, suceda o que suceder. O luar iluminava em cheio a cara da mulher da limpeza, � bonita, realmente � bonita, pensou o homem, que desta vez n�o estava a referir-se � caravela. A mulher, essa, n�o pensou nada, devia ter pensado tudo durante aqueles tr�s dias, quando entreabrira de vez em quando a porta para ver se aquele ainda continuava l� fora, � espera. N�o sobrou migalha de p�o ou de queijo, nem gota de vinho,
  11. 11. os caro�os das azeitonas foram atirados para a �gua, o ch�o est� t�o limpo como ficara quando a mulher da limpeza lhe passou por cima o �ltimo esfreg�o. A sereia de um paquete que sa�a para o mar soltou um ronco potente, como deviam ter sido os do leviat�, e a mulher disse, Quando for a nossa vez faremos menos barulho. Apesar de estarem no interior da doca, a �gua ondulou um pouco � passagem do paquete, e o homem disse, Mas baloi�aremos muito mais. Riram os dois, depois ficaram calados, passado um bocado um deles opinou que o melhor seria irem dormir, N�o � que eu tenha muito sono, e o outro concordou, Nem eu, depois calaram-se outra vez, a lua subiu e continuou a subir, em certa altura a mulher disse, H� beliches l� em baixo, o homem disse, Sim, e foi ent�o que se levantaram, que desceram � coberta, a� a mulher disse, At� amanh�, eu vou para este lado, e o homem respondeu, E eu vou para este, at� amanh�, n�o disseram bombordo nem estibordo. Decerto por estarem ainda a praticar na arte. A mulher voltou atr�s, Tinha-me esquecido, tirou do bolso do avental dois cotos de vela, Encontrei- os quando andava a limpar, o que n�o tenho � f�sforos, Eu tenho, disse o homem. Ela segurou as velas, uma em cada m�o, ele acendeu um f�sforo, depois abrigando a chama sob a c�pula dos dedos curvados, levou-a com todo o cuidado aos velhos pavios, a luz pegou, cresceu lentamente como faz o luar, banhou a cara da mulher da limpeza, nem seria preciso dizer o que ele pensou, � bonita, mas o que ela pensou, sim, V�-se bem que s� tem olhos para a ilha desconhecida, aqui est� como as pessoas se enganam nos sentidos do olhar, sobretudo ao princ�pio. Ela entregou-lhe uma vela, disse, At� amanh�, dorme bem, ele quis dizer o mesmo doutra maneira, Que tenhas sonhos felizes, foi a frase que lhe saiu, daqui a pouco, quando l� estiver em baixo, deitado no seu beliche, vir-lhe-�o � ideia outras frases, mais espirituosas, sobretudo mais insinuantes, como se espera que sejam as de um homem quando est� a s�s com uma muulher. Perguntava-se se j� dormiria, se teria tardado a entrar no sono, depois imaginou que andava � procura dela e n�o a encontrava em nenhum s�tio, que estavam perdidos os dois num barco enorme, o sonho � um prestidigitador h�bil, muda as propor��es das coisas e as suas dist�ncias, separa as pessoas, e elas est�o juntas, re�ne-as, e quase n�o se v�em uma � outra, a mulher dorme a poucos metros e ele n�o soube como alcan�a-la, quando � t�o f�cil ir de bombordo a estibordo. Tinha-lhe desejado felizes sonhos, mas foi ele quem levou toda a noite a
  12. 12. sonhar. Sonhou que a sua caravela ia no mar alto, com as tr�s velas triangulares gloriosamente enfunadas, abrindo caminho sobre as ondas, enquanto ele manejava a roda do leme e a tripula��o descansava � sombra. N�o percebia como podiam ali estar os marinheiros que no porto e na cidade se tinham recusado a embarcar com ele para ir � procura da ilha desconhecida, provavelmente arrependeram-se da grosseira ironia com que o haviam tratado. Via animais espalhados pela coberta, patos coelhos, galinhas, o habitual da cria��o dom�stica, debicando os gr�os de milho ou roendo as folhas de couve que um marinheiro lhes atirava, n�o se lembrava de quando os tinha trazido para o barco, fosse como fosse era natural que ali estivessem, imaginemos que a ilha desconhecida �, como tantas vezes o foi no passado, uma ilha deserta, o melhor ser� jogar pelo seguro, todos sabemos que abrir a porta da coelheira e agarrar um coelho pelas orelhas sempre foi mais f�cil do que persegui-lo por montes e vales. Do fundo do por�o veio agora um coro de relinchos de cavalos, de mugidos de bois, de zurros de asnos, as vozes dos nobres animais necess�rios para o trabalho pesado, e como foi que vieram eles, como podem estar numa caravela onde a tripula��o humana mal cabe, de s�bito o vento deu uma guinada, a vela maior bateu e ondulou, por tr�s dela estava o que antes n�o se vira, um grupo de mulheres que mesmo sem as contar se adivinha serem tantas quantos os marinheiros, ocupam-se nas suas coisas de mulheres, ainda n�o chegou o tempo de se ocuparem doutras, est� claro que isto s� pode ser um sonho, na vida real nunca se viajou assim. O homem do leme buscou com os olhos a mulher da limpeza e n�o a viu, Talvez esteja no beliche de estibordo, a descansar da lavagem da coberta, pensou, mas foi um pensar fingido, porque ele bem sabe, embora tamb�m n�o saiba como o sabe, que ela � �ltima hora n�o quis vir, que saltou para a ilha desconhecida, vou-me embora, e n�o era verdade, agora mesmo andam os olhos dele a procur�-la e n�o a encontram. Neste momento o c�u cobriu-se e come�ou a chover, e, tendo chovido, principiaram a brotar in�meras plantas das fileiras de sacos de terra alinhadas ao longo da amurada, n�o est�o ali porque se suspeite que n�o haja terra bastante na ilha desconhecida, mas porque assim se ganhar� tempo, no dia em que l� chegarmos s� teremos que transplantar as �rvores de fruto, semear os gr�os das pequenas searas que v�o amadurecer aqui, enfeitar os canteiros com as flores que desabrochar�o destes bot�es. O homem do leme pergunta aos marinheiros que descansam na cobertura se avistam alguma ilha desabitada, e eles respondem que n�o v�em
  13. 13. nem de umas nem das outras, mas que est�o a pensar em desembarcar na primeira terra povoada que lhes apare�a, desde que haja l� um porto onde fundear, uma taberna onde beber e uma cama onde folgar, que sim n�o se pode, com toda esta gente junta. E a ilha desconhecida, perguntou o homem do leme, A ilha desconhecida � coisa que n�o existe, n�o passa duma ideia da tua cabe�a, os ge�grafos do rei foram ver nos mapas e declararam que ilhas por conhecer � coisa que se acabou desde h� muito tempo, Dev�eis ter ficado na cidade, em lugar de vir atrapalhar-me a navega��o, And�vamos � procura de um s�tio melhor para viver e resolvemos aproveitar a tua viagem, N�o sois marinheiros, Nunca o fomos, Sozinho, n�o serei capaz de governar o barco, Pensasses nisso antes de ir pedi-lo ao rei, o mar n�o ensina a navegar. Ent�o o homem do leme viu uma terra ao longe e quis passar adiante, fazer de conta que ela era a miragem de uma outra terra, uma imagem que tivesse vindo do outro lado do mundo pelo espa�o, mas os homens que nunca haviam sido marinheiros protestaram, disseram que ali mesmo � que queriam desembarcar, Esta � uma ilha do mapa, gritaram, matar-te-emos se n�o nos levares l�. Ent�o, por si mesma, a caravela virou a proa em direc��o � terra, entrou no porto e foi encostar � muralha da doca, Podeis ir-vos, disse o homem do leme, acto cont�nuo sa�ram em correnteza, primeiro as mulheres, depois os homens, mas n�o foram sozinhos, levaram com eles os patos, os coelhos e as galinhas, levaram os bois, os burros e os cavalos, e at� as gaivotas, uma ap�s outra, levantaram voo e se foram do barco transportando no bico os seus gaivotinhos, proeza que n�o tinha sido cometida antes, mas h� sempre uma vez. O homem do leme assistiu � debandada em sil�ncio, n�o fez nada para reter os que o abandonavam, ao menos tinham-no deixado com as �rvores, os trigos e as flores, com as trepadeiras que se enrolavam nos mastros e pendiam da amurada como fest�es. Por causa do atropelo da sa�da haviam-se rompido e derramado os sacos de terra, de modo que a coberta era toda ela como um campo lavrado e semeado, s� falta que venha um pouco mais de chuva para que seja um bom ano agr�cola. Desde que a viagem � ilha desconhecida come�ou que n�o se v� o homem do leme comer, deve ser porque est� a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um peda�o de p�o ou uma ma��, seria um puro invento, nada mais. As ra�zes das �rvores j� est�o penetrando no cavername, n�o tarda que estas velas i�adas devem de ser precisas, bastar� que o vento sopre nas copas e v� encaminhando a caravela ao seu destino. � uma floresta que navega e se
  14. 14. balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, come�aram a cantar p�ssaros, deviam estar escondidos por a� e de repente decidiram sair � luz, talvez porque a seara j� esteja madura e � preciso ceif�-la. Ent�o o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na m�o, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra. Acordou abra�ado � mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que n�o se sabe se este � o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar � caravela. Pela hora do meio-dia, com a mar�, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, � procura de si mesma.

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