Successfully reported this slideshow.
We use your LinkedIn profile and activity data to personalize ads and to show you more relevant ads. You can change your ad preferences anytime.
PRADO Jr., Caio.
O que � filosofia.
S�o Paulo: Brasiliense, 1981 (Primeiros Passos, 37).
Cr�ditos: Indispon�veis
Revis�o: ...
O que � filosofia*
* Texto originalmente publicado no Almanaque, n� 4, Ed. Brasiliense, 1977.
N�o precisamos buscar na inf...
literariamente, como pode s�-lo a Ci�ncia e o conhecimento em geral. Mas que isso seja forma, e n�o
fundo. Esse fundo � ou...
Filosofia n�o � e n�o pode ser, logo veremos por que, simplesmente prolongamento da Ci�ncia, uma
"superci�ncia" que a ela ...
nada mais que um ponto de vista mais geral e amplo, mas essencialmente de igual natureza, dos
mesmos objetos de que se ocu...
mais complexo e refinado conhecimento cient�fico. N�o h�, ali�s, nenhuma fronteira marcada, ou
poss�vel de marcar, nessa c...
conclus�o como corpo de conhecimentos para o qual o processo afinal se dirige e em que se torna.
S�o essas as quest�es que...
A Filosofia, embora ultrapassando largamente aquilo que de ordin�rio se trata na teoria do
conhecimento, conserva-se dentr...
(que � o do "conhecer" como fun��o e constituinte essencial da natureza humana), fim primordial de
determinar e orientar d...
que torna o debate, no mais das vezes, em infind�veis mon�logos que se desenrolam paralelamente
uns aos outros, e sem corr...
idealista, assim a descreve: "Primeiro fabrica-se, tirando-o do objeto, o conceito desse objeto; depois
inverte-se tudo, e...
pretendida. A abertura do Tractatus Logico" Philosophicus de Wittgenstein (o evangelho, pode-se
dizer, do logicalismo) nos...
origin�ria de todas as coisas? E o que n�o tem preocupado devidamente os historiadores da Filosofia,
como se a quest�o se ...
Os mil�sios responder�o a essa quest�o, que �, como se v�, fundamentalmente gnosiol�gica ,
trata-se no essencial de estabe...
express�o geral e formal da opera��o mental com que se qualificam e identificam as fei��es da
Natureza, e com isso se cara...
Filosofia grega desde seu nascedouro com os mil�sios e centralizada, como vimos, no problema
da unidade e perman�ncia na d...
ocorre entre o que designamos por "Ci�ncia" e "Filosofia": a primeira ocupando-se com os dados
experimentais colhidos na c...
pr�prias coisas. Isso �, elas s�o tudo isso , subst�ncia, qualidade, quantidade, etc. E n�o apenas se
concebem e denominam...
e aparentemente t�o inst�vel que cerca o Homem e onde ele vive, a "natureza sens�vel", como
Arist�teles a denomina, e que ...
Arist�teles no que ali�s ele se mostra muito bem informado. E constitui de fato tentativa e ensaio, o
que era ali�s o que ...
maneira como esses fatos s�o concebidos, ou devem ser concebidos; os conceitos em que se
enquadram; e como esses conceitos...
Conhecimento se torna em sistema geral abstrato e de conjunto, e por isso mesmo de mais f�cil
cesso, evoca��o, comunica��o...
L�gica para os fatos da Realidade concreta, para o mundo das "coisas sens�veis", designa��o com
que o pr�prio Arist�teles ...
se encontra na perspectiva do Conhecimento do Conhecimento, e vai tratar n�o daquelas ocorr�ncias,
e sim do conhecimento q...
Realidade exterior ao pensamento. Em Plat�o essa separa��o se faz ainda mais radical, e de tal modo
extremada que as id�ia...
acima lembradas dos conceitos "espa�o" e "tempo" que, representando embora rela��es, se fazem,
porque expressos verbalment...
� com esse rumo que a Metaf�sica de inspira��o aristot�lica intervir� na tarefa de elabora��o
cient�fica, com os resultado...
propriamente, a saber, a representa��o mental das fei��es da Realidade exterior ao pensamento
elaborador. De outro, a cons...
tornando-nos assim como senhores e possuidores do Universo".
25
Esse dom�nio do Homem sobre a Realidade que Descartes prec...
Conhecimento da Realidade tal rela��o pode proporcionar. O que vai dar no como e em que medida
contribuem respectivamente ...
forma��o dos conceitos ou "id�ias" que se tornam, com o Conhecimento que comp�em, em simples
reflexo mental mais ou menos ...
O que é Filosofia
O que é Filosofia
O que é Filosofia
O que é Filosofia
O que é Filosofia
O que é Filosofia
O que é Filosofia
O que é Filosofia
O que é Filosofia
O que é Filosofia
O que é Filosofia
O que é Filosofia
O que é Filosofia
Upcoming SlideShare
Loading in …5
×

O que é Filosofia

418 views

Published on

O que é Filosofia

Published in: Education
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

O que é Filosofia

  1. 1. PRADO Jr., Caio. O que � filosofia. S�o Paulo: Brasiliense, 1981 (Primeiros Passos, 37). Cr�ditos: Indispon�veis Revis�o: PDL
  2. 2. O que � filosofia* * Texto originalmente publicado no Almanaque, n� 4, Ed. Brasiliense, 1977. N�o precisamos buscar na infinidade de conceitos de "Filosofia" , talvez um para cada autor de certa express�o, e que � vagueza das formula��es acrescentam �s vezes at� posi��es contradit�rias, n�o precisamos procurar a� a incerteza e imprecis�o que reinam e, sobretudo em nossos dias, no que concerne o objeto da especula��o filos�fica. Muito mais ilustrativa � a consulta aos, textos filos�ficos ou qualquer exposi��o ou an�lise do desenvolvimento hist�rico do assunto. De tudo se trata, pode-se dizer, ou se tem tratado na "Filosofia", e at� os mesmos assuntos, ou aparentemente os mesmos, s�o considerados em perspectivas de tal modo apartadas uma das outras que n�o se combinam e entrosam entre si, tornando-se imposs�vel contrast�-las. Para alguns, essa situa��o � n�o apenas normal, mas plenamente justific�vel. A Filosofia seria isso mesmo: uma especula��o infinita e desregrada em torno de qualquer assunto ou quest�o, ao sabor de cada autor, de suas prefer�ncias e mesmo de seus humores. H� mesmo quem afirme n�o caber � Filosofia "resolver", e sim unicamente sugerir quest�es e propor problemas, fazer perguntas cujas respostas n�o t�m maior interesse, e com o fim unicamente de estimular a reflex�o, agu�ar a curiosidade. E j� se afirmou at� que a Filosofia n�o passava de uma "gin�stica" do pensamento, entendendo por isso o simples exerc�cio e adestramento de uma fun��o, no caso, o pensamento em vez dos m�sculos , sem outra finalidade que essa. Apesar, contudo, de boa parte da especula��o filos�fica, particularmente em nossos dias, parecer confirmar tal ponto de vista, ele certamente n�o � verdadeiro. H� sem d�vida um terreno comum onde a Filosofia, ou aquilo que se tem entendido como tal, se confunde com a literatura (no bom sentido, entenda-se bem) e n�o objetiva realmente conclus�o alguma, destinando-se t�o somente, como toda literatura, a par do entretimento que proporciona, levar aos leitores ou ouvintes, a partir destes centros condensadores da consci�ncia coletiva que s�o os profissionais do pensamento, levar-lhes impress�es e estados de esp�rito, emo��es e est�mulos, d�vidas e indaga��es. Mas esse terreno que a Filosofia, ou pelo menos aquilo que se tem entendido por "Filosofia", compartilha com a literatura, n�o � toda Filosofia, nem mesmo, de certo modo, a sua mais importante e principal parte. E nem ao menos, a meu ver, com todo interesse que possa representar, constitui propriamente "Filosofia", e deveria antes se confundir, na classifica��o, e �s vezes at� mesmo na designa��o, com a mesma literatura com que j� apresenta tantas afinidades. Mas conserve embora a Filosofia liter�ria sua qualifica��o e status, � necess�rio que a par dela e com ela se desenvolva tamb�m uma Filosofia de outro teor que d� resposta, e na medida do poss�vel, precisa, �s quest�es que efetivamente nela se prop�em. A Filosofia pode a rigor ser tratada
  3. 3. literariamente, como pode s�-lo a Ci�ncia e o conhecimento em geral. Mas que isso seja forma, e n�o fundo. Esse fundo � outra coisa que, apesar de tudo, se percebe em todo verdadeiro fil�sofo, por mais que se disfarce num pensamento confuso, disperso, sem objetivo desde logo aparente e seguro. Que se percebe sobretudo na Filosofia em conjunto como maneira espec�fica de tratar dos assuntos de que se ocupa, por mais variados e d�spares que sejam. Com toda sua heterogeneidade, confus�o e hermetismo de tantos de seus textos vazados em linguagem acess�vel unicamente a iniciados,ou antes, por eles julgados acess�veis, mais do que acess�veis de fato , com tudo isso, a Filosofia encontra resson�ncia tal que, se n�o fosse outro o motivo, j� por si bastaria para comprovar que nela se abrigam quest�es que dizem muito de perto com interesses e aspira��es humanas que devem, por isso, ser atendidos, e n�o frustrados pela aus�ncia ou desconhecimento de objetivo e rumo seguros da parte daqueles que se ocupam do assunto. Mas onde encontrar esse "objeto" �ltimo e profundo da especula��o filos�fica para o qual converge e onde se concentra a variegada problem�tica de que a Filosofia vem atrav�s dos s�culos e em todos os lugares se ocupando; e de que trata ? E muito importante determin�-lo, porque isso pouparia esfor�os que t�o freq�entemente se perdem em indaga��es in�teis ou mel propostas; e que, concentrados na dire��o de um alvo leg�timo e claramente definido, reuniriam um m�ximo de probabilidades de atingirem esse alvo, ou pelo menos de o aproximarem. Existir� contudo esse objeto central e leg�timo de toda a especula��o filos�fica, um denominador comum que embora disfar�ado e mal expl�cito, orienta mais ou menos inconscientemente aquela especula��o? Acredito que sim, e a sua determina��o constitui tarefa necess�ria e preliminar da indaga��o filos�fica; e, certamente, mesmo que n�o chegue logo a uma precis�o rigorosa (se � que ela � poss�vel), ser� por certo de resultados altamente fecundos. O ponto de partida dessa determina��o deve ser, para nada perder em objetividade, a considera��o e exame do pr�prio conte�do e desenvolvimento daquilo que se tem por pesquisa filos�fica e do Conhecimento em geral. Mais comumente a Filosofia � tida como uma complementa��o da Ci�ncia e da elabora��o cognitiva em geral; como seu coroamento e s�ntese. Esse conceito da Filosofia se encontra ali�s mais ou menos expressamente formulado em boa parte das defini��es e explica��es que dela se d�o, e partidas dos mais afastados e mesmo antag�nicos quadrantes. At� mesmo o s�c. XVIII, e talvez o seguinte, Filosofia ainda se confundia com Ci�ncia; e das filosofias particulares (como por exemplo a "filosofia qu�mica", que n�o � sen�o a nossa Qu�mica, simplesmente) passava-se imperceptivelmente para assuntos gerais que se enquadrariam melhor naquilo que hoje entender�amos mais especificamente como "Filosofia". Que a Filosofia � Conhecimento, e que de certa forma se ocupa dos mesmos objetos que as ci�ncias em geral, n�o h� d�vida. Mas tudo est� nessa restri��o "de certa forma". isso porque a
  4. 4. Filosofia n�o � e n�o pode ser, logo veremos por que, simplesmente prolongamento da Ci�ncia, uma "superci�ncia" que a ela se sobrep�e e que a completa. N�o h� lugar para esse simples prolongamento. Ou melhor, qualquer legitimo prolongamento da Ci�ncia � e sempre ser�, tudo indica, Ci�ncia e n�o outra coisa. Isso se pode concluir do fato que o desenvolvimento da Ci�ncia, quando se excluem indevidas extrapola��es, se faz sempre num sentido �nico que � o da crescente generaliza��o. E n�o h� nenhum ponto fixado, no passado, ou previs�vel no futuro, nem mesmo fronteira difusa naquele processo al�m do qual n�o caberia mais falar em Ci�ncia propriamente. A hist�ria da Ci�ncia nos mostra que sua marcha e progresso v�o uniformemente no sentido da elabora��o de conceitos, ou melhor "conceitua��o" cada vez mais abstrata e geral. Isto �, de sistemas conceptuais mais inclusivos, que por sso mesmo cobrem e representam conjuntos mais amplos da Realidade universal ,n�o no sentido de ais extensos simplesmente, quantitativamente maiores, e sim mais complexos e abrangentes, de fei��es mais diferenciadas. Comparam-se a esse prop�sito os dois setores do Conhecimento que se encontram contemporaneamente nos extremos da linha ascendente do progresso cient�fico: de um lado as Ci�ncias sociais, de outro as f�sicas. No primeiro desses setores encontramo-nos em face de um conhecimento emp�rico ainda solid�rio, diretamente, com dados imediatos da observa��o e experimenta��o. A conceitua��o representativa desses dados que refletem os fatos sociais � de insignificante generalidade; os conceitos que a constituem se entrosam mal e frouxadamente entre si, e n�o se englobam em sistemas amplos capazes de formarem, por sua vez, outros tantos conceitos de mais elevado n�vel de abstra��o e generalidade. Confronte-se essa situa��o com a das Ci�ncias f�sicas e de seus imponentes sistemas conceptuais que cobrem e compreendem, representando-os conceptualmente, extensos e amplamente diversificados aspectos e fei��es da Realidade universal. Considere-se em particular o progresso recente dessas Ci�ncias no sentido de uma precipitada generaliza��o, que j� hoje compreende (embora ainda falte um bom caminho para a complementa��o e integra��o sistem�tica total do assunto) o conjunto das Ci�ncias fisico-quimicas que h� algumas d�cadas passadas ainda se confinavam em esferas estanques e impenetr�veis uma � outra. Observando-se esses fatos da marcha progressiva do Conhecimento e da Ci�ncia, o que se verifica � a homogeneidade desse progresso. E da i se pode concluir a respeito da homogeneidade tamb�m do conhecimento cient�fico, de sua natureza, car�ter e estrutura, que s�o sempre uniformes e do mesmo padr�o. Onde pois o hiato ou transforma��o qualitativa suficientemente acentuado para justificar, nesse processo de desenvolvimento e aprofundamento do Conhecimento, a eventualidade da fixa��o de limites al�m dos quais j� n�o se trataria mais de "Ci�ncia" e sim de outra disciplina? Outra ordem de Conhecimento que caberia � Filosofia? Essa indaga��o sem resposta plaus�vel leva � conclus�o de que a Filosofia n�o � e n�o pode ser simples prolongamento do conhecimento cient�fico,
  5. 5. nada mais que um ponto de vista mais geral e amplo, mas essencialmente de igual natureza, dos mesmos objetos de que se ocupa a Ci�ncia. E simplesmente Ci�ncia e n�o h� por que inclu�-la em outra ordem de conhecimentos al�m da Ci�ncia. A Filosofia ser� outra coisa, ou ent�o n�o tem raz�o de existir. Aquilo de que se ocuparia um simples prolongamento ou generaliza��o do conhecimento cient�fico n�o merece outro nome que "ci�ncia" simplesmente. Em outras palavras e mais sumariamente, � pelo objeto, pela mat�ria ou assunto de que se ocupa, que a Filosofia, para ter exist�ncia pr�pria e se legitimar, se h� de distinguir. N�o seria simplesmente pela maneira, pelo m�todo especifico de tratar do mesmo objeto das Ci�ncias, que se justificaria uma ordem distinta de conhecimentos que caberiam ent�o � Filosofia. Se o objeto da Filosofia � identicamente o mesmo que o das Ci�ncias, a saber, os fatos e fei��es do Universo em geral, n�o haveria mister dela; e a pr�pria Ci�ncia daria conta da tarefa. Isso porque a elabora��o do Conhecimento n�o segue caminhos diversos, ou n�o deveria segui-los: um que seria o ordin�rio da Ci�ncia, outro distinto deste que se observa correntemente na elabora��o cient�fica, e que por ser assim distinto caberia � Filosofia. � certo que a elabora��o cient�fica se realiza atrav�s de procedimentos v�rios, que a rigor se poderiam considerar m�todos diferentes. Os tratados usuais da L�gica elementar costumam considerar e enumerar esses "m�todos", se � que merecem a designa��o. Mas essas diferen�as n�o s�o essenciais. Trata-se antes de t�cnicas, digamos assim, de investiga��o e exame dos fatos considerados. T�ticas ou estrat�gias, por assim dizer, de abordagem desses fatos pela inquiri��o cient�fica. O essencial do processo de elabora��o cient�fica digna desse nome e legitima � fundamentalmente o mesmo em qualquer terreno. O que se procura e o que se obt�m com essa elabora��o n�o somente n�o apresenta disparidade essencial alguma, como n�o se percebe ou concebe onde e de que modo essa disparidade se poderia insinuar. N�o � com ela pois que se lograr� discernir e determinar uma ordem de conhecimentos distintos dos da Ci�ncia e necessitando por isso de outra disciplina, que seria a Filosofia. � assim pelo seu objeto, e somente por ele, que a Filosofia se h� de distinguir da Ci�ncia, e com isso se legitimar como disciplina � parte. Mas se � Ci�ncia cabe, como objeto, a Realidade Universal, isto �, o Universo e seu conjunto de ocorr�ncias, fei��es, circunst�ncias que envolvem e tamb�m compreendem o Homem, o que ficar� de fora para eventual mente constituir objeto pr�prio da Filosofia? Note-se que estamos aqui empregando a express�o "ci�ncia" onde dever�amos com mais propriedade dizer "Conhecimento". isso porque Ci�ncia n�o � sen�o Conhecimento sistematizado, e advertida e intencionalmente elaborado, n�o se distinguindo sen�o por essa sistematiza��o em n�vel elevado e elabora��o intencional do Conhecimento comum ou vulgar, aquele de que todo ser humano � titular, por mais rudimentar que seja seu n�vel de cultura. O Conhecimento � essencialmente de uma s� natureza, e por mais elementar e grosseiro que seja, tem fundamentalmente o mesmo car�ter do
  6. 6. mais complexo e refinado conhecimento cient�fico. N�o h�, ali�s, nenhuma fronteira marcada, ou poss�vel de marcar, nessa complexidade, nem mesmo separa��o poss�vel, pois o conhecimento cient�fico de hoje ser� o vulgar de amanh�. Assim sendo, as nossas considera��es acima se aplicam n�o especialmente ao conhecimento cient�fico, e sim ao Conhecimento em geral, ocupe ele o plano hier�rquico e o n�vel de import�ncia que ocupar. E, reformulando nessa base a nossa quest�o, dir�amos: qual o poss�vel objeto do Conhecimento que n�o seja objeto do Conhecimento? Pergunta aparentemente sem sentido dentro dos c�nones l�gico-ling�isticos ordin�rios mas que se resolve simplesmente, e veremos que historicamente tamb�m, no fato de que al�m do conhecimento dos objetos ordin�rios do Conhecimento, as fei��es e ocorr�ncias do Universo em que existimos e de que participamos,pode haver, e efetivamente h� ainda, reflexivamente, um Conhecimento do pr�prio Conhecimento. Realmente � o que se verifica no desenvolvimento hist�rico do pensamento humano logo que o progresso do Conhecimento atinge certo n�vel. Isto �, um retorno reflexivo da elabora��o cognitiva sobre si mesma, passando o pr�prio Conhecimento a se fazer objeto do conhecer. Fato esse suficientemente marcado para dar lugar a uma ordem de cogita��es bem caracterizadas e distintas do Conhecimento ordin�rio. E se bem que pensadores e elaboradores do Conhecimento n�o se tenham desde logo dado plenamente conta da diferencia��o e parti��o interior dos objetos de que se ocupavam (do que ali�s resultariam mal entendidos e confus�es de largas conseq��ncias) a sua obra n�o deixar� de refletir a duplicidade do assunto tratado e o novo rumo que tomava o pensamento e elabora��o do Conhecimento; isto �, a par do Conhecimento, a do Conhecimento do Conhecimento. O que cronologicamente coincide no Mundo Antigo (e n�o ter� sido por certo uma simples coincid�ncia) com a eclos�o daquilo que seria havido como "filosofia". Veremos isso com suficiente clareza para uma primeira abordagem do assunto, assim penso, numa sum�ria recapitula��o, a largos tra�os, das linhas mestras e momentos culminantes e decisivos do pensamento e elabora��o do Conhecimento nas sociedades que mais contribu�ram, at� os nossos dias, para a evolu��o em conjunto e conforma��o da cultura moderna; e que vem a ser aquela que, brotada no seio das civiliza��es do Mediterr�neo oriental, se difundiria pela Europa ocidental e da� para o mundo todo. Mas em que consiste ou pode consistir esse Conhecimento do Conhecimento cuja g�nese e vicissitudes sofridas no curso de sua evolu��o se trata para n�s aqui de examinar? Ou, em outras palavras, que vem a ser Conhecimento como "objeto do Conhecimento"? Em primeiro lugar, est� claro, a natureza do Conhecimento, seu processamento. Dito de outro modo: o que vem a ser o fato ou ato de "conhecer"; e como se realiza esse fato, qual a sua seq��ncia,sua g�nese, seu desenvolvimento e seu desenlace; em que vai dar. Isso �, como se apresenta e configura na sua
  7. 7. conclus�o como corpo de conhecimentos para o qual o processo afinal se dirige e em que se torna. S�o essas as quest�es que se agrupam na disciplina ordinariamente conhecida por Teoria do Conhecimento, epistemologia ou mais genericamente: gnosiologia. Disciplinas essas que constituem, segundo consenso generalizado, cap�tulos da Filosofia. At� a�, portanto, n�o haver� diverg�ncias apreci�veis que come�am da� por diante. H� os que restringem a Filosofia a isso mesmo, e at� menos, como os logicalistas que fazem da pr�pria Teoria do Conhecimento, e pois da Filosofia que a ele se reduziria, uma simples an�lise l�gico-cr�tica da linguagem ou simbolismo em que o Conhecimento e a Ci�ncia em particular se exprimem. Essa concep��o, contudo, � restrita a reduzidos c�rculos. Em regra, pelo contr�rio, a teoria do conhecimento, em si, ocupa oficialmente um lugar secund�rio e dir�amos quase marginal da Filosofia que, a julgar pelos assuntos nela tratados, ou pelo menos sob sua responsabilidade, tem voz em qualquer terreno, duplicando de certa forma com isso o papel da Ci�ncia cujo objeto n�o se distinguiria essencialmente do seu. Filosofia e Ci�ncia, distintas embora quanto � perspectiva em que respectivamente se colocam, e ao m�todo, ou antes "estilo" que adotam, se ocupariam uma e outra da mesma Realidade universal. J� lembramos acima essa universalidade da Filosofia, bem como a confus�o reinante no seu ponto de partida entre os objetos respectivos do Conhecimento (que seria em particular a Ci�ncia) e o Conhecimento do Conhecimento, ou Filosofia. Confus�o essa que se prolongar� sob muitos aspectos, embora progressivamente se atenuando, at� os dias de hoje. Notamos tamb�m que em princ�pio e em frente aos fatos do desenvolvimento hist�rico da Ci�ncia, essa pretens�o da Filosofia de se ocupar com assuntos da al�ada da Ci�ncia n�o se justifica. Nesse ponto os logicalistas, que partem dessa quest�o para seu programa de limita��o do campo da Filosofia, t�m plena raz�o. Quando a Filosofia se ocupa dos objetos da Ci�ncia, a saber, das fei��es e fatos do Universo, suas conclus�es s�o sempre desmentidas em prazo mais ou menos dilatado, mas sempre fatal. Como se depreende claramente da hist�ria da Ci�ncia, e sobretudo da F�sica moderna, a Filosofia, ou antes, os fil�sofos, no que se refere � sua atua��o no campo cient�fico, n�o t�m feito mais que consagrar velhas e ultrapassadas concep��es, disfar�ando-as em princ�pios absolutos com pretens�es � validade eterna. E sob esse disfarce que as rudimentares e grosseiras no��es f�sicas de Arist�teles atravessaram os s�culos; e mais tarde a Mec�nica newtoniana foi erigida em "verdade" final e absoluta. Assim tem sido porque, tratando de objetos que n�o s�o seus, e portanto sem condi��es para faz�-lo, a Filosofia n�o podia dar, como n�o deu, em outra coisa que vestir hip�teses cient�ficas de trajes filos�ficos, fazendo deles "princ�pios" dentro dos quais aquelas hip�teses se "putrificam", na sugestiva express�o de P. Franck. 1 1 Philipp Franck. Modern Science and its Philosophy. Harvard University Press. Cambridge, 1950, p. 214.
  8. 8. A Filosofia, embora ultrapassando largamente aquilo que de ordin�rio se trata na teoria do conhecimento, conserva-se dentro e no �mbito do Conhecimento como objeto. Isso �, enquanto a Ci�ncia e o Conhecimento em geral, em que a Ci�ncia constitui o setor organizado e sistematizado,t�m por objeto as fei��es e ocorr�ncias do Universo que envolvem o Homem e de que ele tamb�m participa, o objeto da Filosofia � precisamente esse "conhecimento" de tais fei��es e ocorr�ncias. E assim Conhecimento desse Conhecimento. E isso n�o apenas por ser essa, para a` Filosofia, a perspectiva pr�pria para a considera��o e exame das quest�es que nela legitimamente se prop�e. Mas ainda, e sobretudo porque esse tem sido o seu campo de a��o, mesmo quando, por uma falsa perspectiva e involunt�ria confus�o, aparenta dela se afastar. A Filosofia sempre se ocupou, de fato, do Conhecimento em si e todas suas implica��es, embora freq�entemente julgue, ou melhor, julgam os fil�sofos seus autores estarem tratando de outro objeto. � ali�s dessa confus�o que resultam e sempre t�m resultado os mal-entendidos que viciam a especula��o filos�fica e a tornam, em t�o grande parte e alto grau, imprecisa e amb�gua, infestada de debates est�reis e quest�es in�teis e insol�veis. O que, al�m do mais, faz perder de vista, ou prop�e de forma defeituosa algumas das quest�es essenciais da Filosofia. Bem como perturba a elabora��o cient�fica, como t�o frequentemente tem acontecido, como teremos ocasi�o de referir e j� foi lembrado no caso da Filosofia de Arist�teles e da Mec�nica de Newton. Vejamos como isso ocorre. Procurarei aqui clarear e explicar a confus�o b�sica que vicia a generalidade da especula��o filos�fica, para em seguida mostrar como ela efetivamente se vem verificando no curso do desenvolvimento hist�rico da Filosofia. O Conhecimento, como objeto do Conhecimento, se prop�e em seq��ncia ao conhecimento da Realidade universal exterior ao pensamento elaborador 2 Esse conhecimento da Realidade se apresenta na conceitua��o que, elaborada na base da experi�ncia do indiv�duo pensante, reflete, ou melhor, representa na esfera mental desse indiv�duo pensante as fei��es e ocorr�ncias da Realidade. Desse primeiro momento ou n�vel da atividade cognitiva (isto �, a elabora��o da conceitua��o representativa da Realidade), o instrumento dessa atividade, que � o pensamento elaborador do Conhecimento, se volta sobre si pr�prio e toma reflexivamente por objeto aquele mesmo conte�do conceptual ou Conhecimento por ele elaborado. Trata-se de uma posi��o como que cr�tica, que objetiva de Um lado, e entre outros, aferir de um modo geral a seguran�a, e ponderar o valor e alcance do Conhecimento adquirido e por adquirir; e, de outro, visa e se prop�e dar ao Conhecimento express�o conveniente (em especial e fundamentalmente pela linguagem discursiva) e ordenar e sistematizar a conceitua��o que comp�e o Conhecimento. Isso tudo para, no contexto geral do processo cognitivo, alcan�ar o seu fim primordial 2 Essa restri��o do pensamento "elaborador" � necess�ria, pois o pensamento em si, abstra��o feita do ato da elabora��o do Conhecimento, participa das ocorr�ncias do Universo como as demais. E ser� objeto legitimo da Ci�ncia, da Psicologia em particular.
  9. 9. (que � o do "conhecer" como fun��o e constituinte essencial da natureza humana), fim primordial de determinar e orientar devida o comportamento do Homem. N�o entraremos aqui no pormenor desses pontos a fim de n�o particularizar a exposi��o e perder com isso de vista o conjunto e o essencial do assunto que diretamente aqui nos interessa, e que vem a ser a duplicidade dos n�veis em que opera o pensamento elaborador do Conhecimento, e o que essa duplicidade significa. Repetindo, temos de um lado, como ponto de partida, o n�vel do conhecimento direto e imediato das fei��es e ocorr�ncias da Realidade que se trata de conhecer, isso �, aquilo que ordinariamente entendemos simplesmente por "Conhecimento", e Ci�ncia em particular. Temos de outro, e em seguida, um segundo n�vel sobreposto ao primeiro, e no qual o pensamento se ocupa j� n�o diretamente com as fei��es e ocorr�ncias da Realidade, mas com o Conhecimento acerca dessas fei��es e ocorr�ncias. No primeiro n�vel, o pensamento estar� se aplicando � esfera objetiva e exterior ao ato pensante 3 , no outro, se aplicar� a si pr�prio, ou antes, ao seu conte�do , e, note-se bem, propriamente como seu conte�do, j� desligado da Realidade que representa , conte�do de Conhecimento ou conceitua��o representativa da esfera objetiva, e elaborada no curso de sua atividade no primeiro n�vel. Mas, aplicando-se embora ao seu conte�do de Conhecimento e conceitua��o, ou seja, � esfera subjetiva, o pensamento ir� por for�a se referir, embora indiretamente, aos objetos daquele Conhecimento , que s�o, repetimos, as fei��es e ocorr�ncias da Realidade que lhe s�o exteriores. isso � �bvio, pois pensamento ou conhecimento n�o existem em estado "puro" e vazio de representa��o conceptual das fei��es e ocorr�ncias do Universo. N�o existem mesmo, tais quais "faculdades" potenciais do indiv�duo pensante e conhecedor, � parte dessa representa��o que lhes concede a subst�ncia de que se constituem. Essa situa��o � por sua pr�pria natureza fonte de confus�o entre as duas esferas, a subjetiva e a objetiva. E deriva da� a impress�o e ilus�o que t�o fortemente se ancoraria na Filosofia, e que consiste em tratar de um objeto julgando tratar-se de outro Ou melhor, simplesmente ignorar a distin��o e oscilar dubiamente entre um e outro; ocupar-se do Conhecimento e conceitua��o que o comp�e, como se tratasse das fei��es e ocorr�ncias da Realidade exterior ao pensamento representados conceptualmente por aquele Conhecimento. Caso flagrante disso, que refiro a t�tulo de ilustra��o bem esclarecedora dessa confus�o, � o conceito "mat�ria", que vem constituindo atrav�s dos s�culos um dos principais divisores do pensamento filos�fico; e a respeito do qual as partes que contendem incessantemente n�o conseguem sequer fixar com clareza o que est� sendo debatido. O 3 Lembramos aqui novamente a observa��o j� feita em nota anterior, que o pensamento em si pode ser e � de fato objeto da Ci�ncia, da Psicologia em particular. Mas nesse caso ele ser� considerado em abstrato e fora do ato pensante efetivo, isto �, na perspectiva de uma fei��o, ocorr�ncia do Universo, tal como o restante da objetividade de que se ocupa a atividade cognitiva.
  10. 10. que torna o debate, no mais das vezes, em infind�veis mon�logos que se desenrolam paralelamente uns aos outros, e sem correspond�ncia no mais das vezes entre si. Cada qual trata respectivamente de assuntos que n�o coincidem, embora essa coincid�ncia esteja sendo presumida. O desentendimento nesse caso tem suas ra�zes na considera��o de "mat�ria" de �ngulos distintos, em que se mesclam em propor��es v�rias, conforme os fil�sofos, de um lado a perspectiva de algo exterior e que a express�o "mat�ria" designaria (subst�ncia corp�rea ou sens�vel... componente prim�rio e original do Universo... substratum de todas as coisas.), de outro lado o conceito propriamente de "mat�ria",como se d� quando se trata de contrastar o conceito "mat�ria" com outros conceitos, como seja "esp�rito", "id�ia", "forma"; ou ent�o quando com o conceito de mat�ria se integra um sistema conceptual, como se d� com a no��o aristot�lica de "potencialidade para receber forma". Note-se bem que n�o se trata a� unicamente, nem mesmo essencialmente, de diferen�a de sentido, de acep��o da palavra "mat�ria", pois se fosse apenas isso o acordo ainda seria poss�vel, pelo menos no que se refere �s premissas da discuss�o, seu ponto de partida. A diverg�ncia � muito mais profunda, pois diz respeito � "localiza��o", digamos assim, daquilo que se designa por "mat�ria". Localiza��o essa que, nos casos extremos mais puros, ser� alternativamente: ou entre objetos ou fei��es naturais exteriores ao pensamento; ou, no caso contr�rio, entre elementos conceptuais. Na maioria dos textos filos�ficos em que ocorre o conceito "mat�ria", um exame atento e devidamente alertado revela essa indistin��o entre o conceito propriamente e em si, de um lado; e doutro, o objeto da Realidade exterior que ele representa, ou que deveria ou poderia referir e representar. Naturalmente os fil�sofos julgam sempre, ou parecem julgar ao se referirem a "mat�ria", estarem tratando de objetos exteriores ao pensamento e inclu�dos na Realidade e fei��es do Universo. Mas o que efetivamente est�o fazendo,no caso da mat�ria como no de outro conceito qualquer da mesma natureza amb�gua,� projetaram seu pensamento e conceitua��o no mundo exterior, e tratarem assim, como inclu�do nesse mundo exterior, o que realmente constitui um fato de seu pensamento, um conceito. 4 A confus�o entre esfera subjetiva e objetiva vai dar assim na proje��o da primeira na segunda; a proje��o da conceitua��o no mundo exterior ao pensamento. Fato esse que tem papel essencial em todo desenvolvimento hist�rico do pensamento humano. Pode-se mesmo dizer que o comum das concep��es gerais acerca da Realidade (isso tanto no n�vel da Filosofia e da Ci�ncia, como no das concep��es vulgares) se acha fortemente influenciado por essa verdadeira invers�o idealista pela qual se recria no exterior do pensamento um mundo feito � imagem desse pensamento. Isso �, modelado e configurado segundo padr�es conceptuais. Engels, o primeiro, que eu saiba, a assinalar essa invers�o 4 Particularmente ilustrativo dos termos confusos em que se situa o debate acerca de "mat�ria", � a longamente disputada distin��o (entre os pr�prios escol�sticos) que Tom�s de Aquino faz entre "mat�ria-prima", que tem mais ares de puro conceito, e "mat�ria signata", que � mat�ria com extens�o, e que portanto j� lembra mais algo de "material" no sentido vulgar e mais corrente da palavra.
  11. 11. idealista, assim a descreve: "Primeiro fabrica-se, tirando-o do objeto, o conceito desse objeto; depois inverte-se tudo, e mede-se o objeto pela sua c�pia, o conceito". 5 Daqueles padr�es conceptuais pelos quais se modela a Realidade, o mais importante � naturalmente o da linguagem discursiva, na qual e atrav�s da qual a conceitua��o, no mais das vezes, se formaliza e exprime. 6 Essa a raz�o principal por que encontramos a nossa concep��o corrente e ordin�ria do Universo fundamentalmente conformada por estruturas verbais. E atrav�s de formas verbais que o realismo ing�nuo (que espontaneamente, e na base de nossa educa��o e forma��o ordin�ria, � de todos n�s) enxerga o Universo e o interpreta; e � na base delas que se disp�em as fei��es e ocorr�ncias da Realidade universal. E da� que deriva, entre outras, a no��o de um mundo constitu�do de "coisas' e "entidades" bem discriminadas e separadas entre si; coisas e entidades essas de cujas "qualidades" e comportamento resultam os fatos, fei��es e circunst�ncias em geral do Universo Mal se disfar�a nessa concep��o ing�nua e integrada tanto no pensamento filos�fico profissional, como no ordin�rio e vulgar, mal se disfar�a a� o modelo que o inspira, a saber, a estrutura gramatical do sujeito e predicado, e seus elementos constituintes essenciais: substantivo, adjetivo, verbo Temos a; os materiais com que se constitui e concebe ordinariamente o Universo, com as circunst�ncias que nele se verificam e ocorrem. Os substantivos se far�o nas coisas e entidades em que o Universo � discriminado e dividido; os adjetivos ser�o as qualidades com que se revestem aquelas coisas e entidades; e os verbos, finalmente, designar�o (e a rigor "ser�o" mesmo) a a��o das mesmas coisas e entidades; a��o essa com que se descrever� o comportamento do Universo . Essa maneira de proceder, isso �, de inverter a ordem do processo do Conhecimento que, originando-se na Realidade exterior ao pensamento elaborador, retorna e se projeta afinal sobre essa mesma Realidade e a modela segundo seus padr�es, esse procedimento tem na Filosofia ra�zes t�o fortes que a encontramos mesmo naqueles setores que mais diligentemente procuraram se libertar dos preconceitos e distor��es da Filosofia cl�ssica - que vem a ser ali�s a Metaf�sica aristot�lica que consagrou filosoficamente e projetou pelos s�culos afora e at� nossos dias, como ali�s veremos adiante, a confus�o das esferas subjetiva e objetiva do pensamento e Conhecimento. Assim os logicalistas que fundamentalmente visavam desfazer aquelas distor��es atrav�s do correto emprego da linguagem simb�lica "perfeitamente" constru�da (e s�o essa corre��o e perfei��o que sobretudo visam em seus trabalhos) acabam concebendo e construindo com todas as pe�as esse mundo idealmente modelado para ser adequadamente descrito por aquela linguagem "perfeita" por eles 5 Engels. M. E. D�hring bouleverse la science (anti-D�hring), trad. francesa. Paris, 1931, 1, 139. 6 Na acep��o aqui adotada, reserva-se a designa��o de "conceito" ou "conceitua��o" � representa��o mental das ocorr�ncias ou circunst�ncias em geral do Universo. Aquilo em suma que ordinariamente se entende por ''id�ia". A linguagem discursiva , tal como outras verbais, gr�ficas e demais, como em particular a principal delas (depois da discursiva), e que � o simbolismo matem�tico, a linguagem discursiva constitui express�o formal, isso �, direta e imediatamente acess�vel aos sentidos, da conceitua��o.
  12. 12. pretendida. A abertura do Tractatus Logico" Philosophicus de Wittgenstein (o evangelho, pode-se dizer, do logicalismo) nos d� conta desse mundo ideal, num encadeamento de proposi��es, tal qual normas de um texto legal, segundo o estilo t�o caracter�stico do autor,cuja inspira��o em modelos e padr�es puramente gramaticais � patente e inconfund�vel. Numa considera��o bem alertada e atenta interpreta��o do desenvolvimento hist�rico da Filosofia, vamos encontrar a comprova��o n�o somente de que o verdadeiro objeto dela � o Conhecimento em si, e n�o dos objetos desse Conhecimento que s�o os fatos, fei��es ou circunst�ncias em geral da Realidade exterior ao pensamento elaborador (embora freq�entemente, e mesmo no mais das vezes isso tenha passado despercebido), veremos n�o somente isso, mas ainda que foi e ainda � precisamente essa incompreens�o ou falta de rigorosa discrimina��o entre as esferas objetiva e subjetiva, que se encontra na base dos mal-entendidos e confus�es que permeiam e viciam o pensamento filos�fico, tornando t�o prec�ria a realiza��o da tarefa que lhe incumbe. Como foi notado, e procuraremos comprova -lo agora com os fatos hist�ricos, a Filosofia tem suas origens e ponto de partida quando o pensamento investigador do Homem se volta reflexivamente sobre si pr�prio e seu conte�do de conhecimentos j� elaborados e conceituados, ou em vias de elabora��o, a fim de aferi-los, compreender o processo de sua elabora��o, conceder-lhe seguran�a e orienta��o adequada para a utiliza��o pr�tica a que se destinam. E para realizar isso, organiz�-los e concaten�-los devidamente na sua express�o verbal. Transfere-se ent�o o pensamento investigador para outro n�vel. Isso �, da considera��o das fei��es e fatos da Realidade exterior, bem como da atividade elaboradora do Conhecimento dessa Realidade, passa-se para a considera��o desse mesmo Conhecimento em si, e processo de sua elabora��o. Isso, contudo, n�o se perceber� plenamente desde logo, dando lugar � confus�o das esferas subjetiva (objeto da Filosofia) e objetiva (objeto da Ci�ncia). E com isso se baralham os distintos n�veis de elabora��o do Conhecimento. Observemos essa seq��ncia de fatos hist�ricos e as primeiras manifesta��es do mal-entendido e confus�o que viciariam da� por diante o pensamento filos�fico j� no desabrochar da Filosofia grega. Nesse prel�dio do que seria a matriz principal de todo pensamento ocidental atrav�s dos s�culos, verifica-se muito bem aquela transi��o da elabora��o cognitiva para novo n�vel que ser� o da Filosofia que ent�o se inaugura. Esse momento se situa nos chamados "f�sicos de Mileto", e vai-se sobretudo revelar na natureza do problema central proposto por esses precursores da Filosofia grega, e que seria o seu ponto de partida. A saber, o problema da "subst�ncia" Universal que daria origem a todas as coisas e as teria constitu�do. Tales dir�, como se sabe, que � a �gua. Anax�menes, o ar Anaximandro, uma subst�ncia indefinida,apeiron. Como se explica a proposi��o desse problema da exist�ncia de uma subst�ncia Universal
  13. 13. origin�ria de todas as coisas? E o que n�o tem preocupado devidamente os historiadores da Filosofia, como se a quest�o se apresentasse espontaneamente e fatalmente, sem necessidade de maior explica��o. Entretanto, as circunst�ncias em que ela se prop�e, tanto seus antecedentes como seu desenvolvimento futuro nos dizem muita coisa a respeito, e mostram que o pensamento grego se engajara a� em nova dire��o que embora preparada e condicionada pelo que a precedera, assumia outro sentido bem diverso do anterior. Os mil�sios trouxeram grande contribui��o, como se sabe, para a Ci�ncia e o Conhecimento dos fatos da Natureza. Mas o tema que os ocupa centralmente e que diz respeito � "subst�ncia" constituinte do Universo representa sem d�vida alguma coisa bem diferente e um novo caminho imprimido a seu pensamento. Constitui erro, assim penso, e imperdo�vel anacronismo considerar,como freq�entemente se tem feito ou pelo menos insinuado,que os pensadores gregos estivessem preocupados com a subst�ncia ou elemento constituinte do Universo com o mesmo esp�rito com que os f�sicos da atualidade e de um s�culo para c� investigam as "part�culas" ou outras ocorr�ncias de cujas estruturas, disposi��o e comportamento no plano microsc�pico, resultam os fatos observados no plano macrosc�pico que � o nosso usual de todos os dias. Estruturas e comportamento esses com que se torna poss�vel explicar tais fatos, ou antes represent�-los conceptualmente (mentalmente) e formalizar e exprimir essa representa��o que os descreve atrav�s do simbolismo matem�tico. Evidentemente preocupa��es dessa natureza eram completamente estranhas, como n�o podia deixar de ser, aos pensadores gregos. Nem possu�am eles lastro suficiente de conhecimentos para cogitar delas, nem tampouco a maneira de propor o assunto e em seguida desenvolv�-lo apresentam a mais remota analogia com o que ocorre nos procedimentos da Ci�ncia de nossos dias. De fato, o que os pensadores que se ocupam do assunto t�m em mira � essencialmente uma quest�o que constituir� o pano de fundo de todo debate, e tema central da Filosofia grega em geral. J� em outra oportunidade procurei desenvolver esse assunto 7 que consiste resumidamente no seguinte. Trata-se em suma e esquematicamente de explicar como neste mundo t�o variado e em permanente fluxo e transforma��o; onde as fei��es naturais se apresentam aos sentidos n�o somente sob tal multiplicidade de aspectos a ponto de nunca se assemelharem perfeitamente entre si; como tamb�m porque se modificam sem cessar; trata-se assim de explicar como � poss�vel neste mundo t�o variado e vari�vel, multiforme e em fluxo e transforma��o permanentes, como � poss�vel um verdadeiro e leg�timo Conhecimento que implica uniformidade e perman�ncia, condi��es essas indispens�veis para a caracteriza��o e identifica��o dos objetos daquele Conhecimento. Todo Conhecimento come�a necessariamente por essa caracteriza��o e identifica��o dos objetos que se trata de conhecer, o que somente � conceb�vel na uniformidade e estabilidade deles. 7 Dial�tica do Conhecimento, 1969 ( 5�ed.) I, 177.
  14. 14. Os mil�sios responder�o a essa quest�o, que �, como se v�, fundamentalmente gnosiol�gica , trata-se no essencial de estabelecer e fixar as condi��es do Conhecimento 8 , responder�o com a sua subst�ncia material ou assemelhada que preencher� para eles a fun��o de representar o substrato permanente e est�vel do Universo que faz poss�vel o Conhecimento Com isso os mil�sios davam bem mostra da ingenuidade de suas concep��es ainda presas inteiramente a um n�vel rudimentar e grosseiro de Conhecimento n�o liberto do empirismo de seus come�os, e confundido por isso com os dados diretos e imediatos dos sentidos com que o Homem entra em primeiro e original contato com a Realidade exterior Uma nova gera��o de pensadores mais maduros que segue esses precursores e se inaugura na segunda metade do VI s�c. A.C. procurar� dar � quest�o uma resposta mais profunda,embora a mesclem ainda, em grandes propor��es, com as grosseiras concep��es derivadas dos mil�sios; concep��es essas que somente desaparecer�o na obra de Plat�o. A multiplicidade e instabilidade das fei��es naturais ser� por eles atribu�da � ilus�o enganadora dos sentidos. Por tr�s dessa ilus�o, dir�o eles, se abriga a verdadeira Realidade, onde se encontram a uniformidade e perman�ncia que se trata de apreender e que proporcionar�o o leg�timo Conhecimento, A identidade desse princ�pio ideal (ou pelo menos semi-ideal, como � o caso dos mais antigos pensadores dessa fase), principio unificador da Natureza, variar� segundo os fil�sofos: ser�o os n�meros, para Pit�goras; o SER, para Parm�nides; o Logos para Her�clito; o Nous para Anax�goras .. Mas seja qual for a natureza atribu�da ao principio unificador, ele mal disfar�a e em �ltima inst�ncia se confunde sempre com o pensamento. E a solu��o do problema da Uniformidade na multiplicidade, e da perman�ncia no fluxo das coisas e fei��es do Universo, se transferir� para o plano do pensamento do Homem, exibindo-se com isso a natureza do que seria a Filosofia e seu objeto, que n�o consistia, como poderia �s vezes parecer � primeira vista, e nas concep��es grosseiras dos mil�sios podia mesmo iludir, n�o consistia nas fei��es da Natureza. O objeto de que se ocupam os pensadores que mereceram, e com acerto, a qualifica��o de "fil�sofos" (pois de outra forma seriam, como realmente os houve, simplesmente homens de ci�ncia), esse objeto eram o pensamento e o produto da elabora��o desse pensamento que vem a ser o Conhecimento. Isso � patente sobretudo, e por isso o destacamos aqui, naquela concep��o que mais se projetaria no futuro desenvolvimento da Filosofia, e durante s�culos constituiria, podemos dizer, seu tema central. Refiro-me ao SER de Parm�nides, que � afinal, e sem embargo da tempestade verborr�gica que a Metaf�sica desencadearia em torno do assunto 9 n�o � sen�o 8 Mais tarde, mas sempre na mesma linha de pensamento, Plat�o usar� como fundamento b�sico de sua doutrina das Id�ias (sobre o que voltaremos adiante} o argumento referido por Arist�teles que procura refut�-lo: "Se h� ci�ncia e conhecimento de alguma coisa, devem existir algumas outras naturezas al�m das naturezas sens�veis, realidades est�veis, pois n�o h� ci�ncia do que est� em permanente fluxo". Arist�teles, Metaf�sica, trad. francesa de J. Tricot, I, 733. 9 Heldegger chega a considerar o "problema" do SER, o centro da Filosofia, e entende que se a palavra SER n�o existisse, n�o existiria o Homem como tal.
  15. 15. express�o geral e formal da opera��o mental com que se qualificam e identificam as fei��es da Natureza, e com isso se caracterizem, determinam e fixam. O SER � originariamente a c�pula (verbo) com que formalmente se exprime a qualifica��o e se designa a identifica��o (a �rvore � Um vegetal, o homem � racional, isto com que escrevo � uma esferogr�fica... ). N�o pode haver duvida que Parm�nides pressentiu com sua concep��o, confusamente embora, mas com mais clareza que qualquer de seus contempor�neos, que a quest�o central proposta pelos mil�sios se situava efetivamente no plano conceptual. Que se tratava, para empregarmos uma linguagem no caso anacr�nica, de um problema da "teoria do conhecimento". O pressentimento de Parm�nides, que ali�s ficar� nisso, degenerando em sua esdr�xula e grosseira imagem de uma "esfera im�vel, sem princ�pio e sem fim" , encontrar� seu int�rprete, em seguimento aos Sofistas e sobretudo S�crates , em Plat�o. N�o vamos aqui entrar no exame da filosofia plat�nica. Ela se resume no essencial, pode-se dizer, na observa��o de Raphael Demos: "A filosofia de Plat�o se sumariza na vida da raz�o". 10 N�o importa que Plat�o tenha hipostasiado a Raz�o, fazendo dela um mundo supra-sens�vel � parte: o mundo das id�ias que faz contrapeso e contrasta com o mundo sens�vel; que constitui o prot�tipo de que esse mundo sens�vel n�o � sen�o imperfeita reprodu��o. Esse mundo das id�ias n�o � sen�o o pensamento, a fun��o pensante e a atividade racional do Homem. E � desse pensamento disfar�ado, sublimado e substancializado que o fil�sofo se ocupa. E se ocupa num exame que, desbastado do floreio em que este poeta que foi Plat�o o envolve, revela efetivamente, e com precis�o e seguran�a, alguns dos aspectos essenciais da atividade do pensamento na estrutura��o do Conhecimento. Em particular, o processo mental da identifica��o e qualifica��o fundamento e ponto de partida de toda atividade racional na elabora��o e express�o do conhecimento, encontra em Plat�o um analista seguro, E foi a compreens�o desse processo que permitiu a Plat�o abrir as perspectivas para a formula��o da l�gica formal que, j� delineada e potencialmente contida na obra do fil�sofo, ser� desenvolvida por seu disc�pulo e sucessor Arist�teles, que lhe dar� forma final e acabada. Se alguma d�vida houvesse, nos fil�sofos que antecederam Plat�o e lhe prepararam o caminho, acerca da natureza e do objeto da Filosofia nesta sua fase preliminar e ponto de partida do que seria o pensamento grego, essa duvida se desfaz inteiramente na considera��o e exame da obra plat�nica que consistiu em continuar e prolongar a linha de desenvolvimento daquele pensamento, procurando, e com grande sucesso, dar resposta �s perguntas nele propostas. Aquilo de que Plat�o se ocupa, em continua��o aos pensadores que o precederam, e que constitui o objeto essencial e fundamental de sua obra, contribui��o m�xima para a cultura, s�o o pensamento e o Conhecimento tal como n�s hoje o conceituamos. O seu ponto de partida e quest�o primeira que a ele se prop�e, � a mesma de toda a 10 The Dialogues of Plato, translated into english by B. Jowett, M. A. Introdu��o, X, ,Weber dir�: "[Para Plat�o) o mundo sens�vel todo inteiro n�o � sen�o um s�mbolo, uma figura, uma alegoria. � a coisa significada, a Id�ia expressa pelas coisas que somente interessa ao fil�sofo". Alfred Weber. Histoire de la Philosophie europe�nne. Paris, 1925, p, 62.
  16. 16. Filosofia grega desde seu nascedouro com os mil�sios e centralizada, como vimos, no problema da unidade e perman�ncia na diversidade e fluxo em que a Natureza se apresenta aos sentidos, "unidade e perman�ncia" essa que j� se fixara (no consenso geral, ou pelo menos decisivamente dominante) no SER de Parm�nides, que n�o vem a ser sen�o, isso tamb�m se consagrara , o universal, id�ntico e permanente, em contraste com o particular dado na percep��o sens�vel e diverso e em transforma��o constante. Universal que se revela e representa na Id�ia, no conceito. � da� que Plat�o parte. O que, traduzido para nossa linguagem ordin�ria e corrente, vai dar em que as Id�ias do platonismo n�o s�o outra coisa mais que aquilo que entendemos por Conhecimento. Plat�o exterioriza suas id�ias e lhes concede uma exist�ncia extra-humana. Mas vistas mais de perto e no quadro de nossas concep��es atuais (que t�m atr�s de si a aliment�-las e a lhes darem base, n�o o esque�amos, a longa experi�ncia, aprendizagem e progresso cultural e cient�fico milenares de que somos herdeiros) tais id�ias s�o apenas e simplesmente as nossas "id�ias" vulgares; conceitos cujo conjunto constitui o Conhecimento. A an�lise que Plat�o faz das id�ias, procurando determinar a sua natureza e estrutura��o, a disposi��o relativa em que elas em conjunto se articulam e entrosam entre si, sua deriva��o e filia��o umas das outras,e a� Plat�o apresenta um dos cap�tulos mais fecundos de sua obra, quando, entre outros no Sofista, considera a "classifica��o", isto �, a opera��o mental de classificar, tudo isso significa na realidade an�lise do Conhecimento e da sistem�tica conceptual em que os conhecimentos se apresentam. E desse Conhecimento, portanto, que Plat�o, e mais que ele, a pr�pria Filosofia para cujo embasamento e constitui��o o platonismo tanto contribuiu, � disso que se trata. A Filosofia como Conhecimento do Conhecimento se revela a� claramente. Pode-se mesmo dizer que Plat�o, embora envolvendo suas concep��es num manto de misticismo e fantasia liter�ria que lamentavelmente as ofusca e muitas vezes lhes torce o sentido profundo, bem como disfar�a o que deveria ser sua contribui��o mais fecunda para a devida proposi��o das verdadeiras quest�es da Filosofia, pode-se dizer que Plat�o teve a intui��o e marcou, com um m�ximo de clareza para um precursor, a distin��o entre Conhecimento e Conhecimento do Conhecimento; entre Ci�ncia e Filosofia. Desenvolvendo uma no��o j� em germe nos fil�sofos seus antecessores, e particularmente em Parm�nides que separava o Conhecimento da simples opini�o, Plat�o, que emprega ali�s as mesmas designa��es, acentua o objeto daquelas duas esferas. A primeira objetivaria as "imagens" (dados sens�veis), a outra, as "id�ias", constituindo esta outra a "cumeeira do Saber".11 N�o � dif�cil para n�s hoje em dia identificar atr�s dessa distin��o aquela que efetivamente 11 Estamos naturalmente esquematizando, para fins de simples exposi��o sum�ria, o pensamento de Plat�o, na realidade mais complexo. Veja-se a respeito, em particular, a parte final do Livro IV de Rep�blica.
  17. 17. ocorre entre o que designamos por "Ci�ncia" e "Filosofia": a primeira ocupando-se com os dados experimentais colhidos na considera��o direta das fei��es e ocorr�ncias da Realidade; e a Filosofia, com as id�ias (dir�amos melhor "conceitos" ou representa��es mentais daquela Realidade exterior carreada pela experi�ncia). S� que Plat�o inverte a nossa ordem de preced�ncia, processamento e estrutura do Conhecimento: para ele as "imagens" ou dados da experi�ncia s�o reflexos ou c�pias aproximadas e imperfeitas das "id�ias"; enquanto para n�s, isto �, � luz das concep��es cient�ficas de nossos dias (se bem que ainda sobrem idealistas que pensam diferentemente, e, embora nem sempre com muita consci�ncia disso, aproximam-se mais de Plat�o), s�o as "id�ias" que constituem reprodu��o, ou melhor, "representa��o" da Realidade. A distin��o entre Conhecimento e Conhecimento do Conhecimento a� est�. E tivessem os sucessores de Plat�o insistido nesse ponto, logrando ao mesmo tempo despir o platonismo do v�u m�stico que o envolve, sem desprezar aquela distin��o, e outra teria sido talvez a marcha da Filosofia. Mas as coisas n�o estavam maduras para isso que viria gradualmente, muito mais tarde, na base do progresso cient�fico, como veremos adiante. E, pelo contr�rio, quem desembara�ar� o platonismo, nisso com todo acerto, de suas complica��es m�sticas e envolvimento po�tico, ser� ao mesmo tempo quem mais contribuir� para borrar a distin��o nele feita entre Ci�ncia e Filosofia. Ou antes, entre os objetos respectivamente de uma e outra esfera do Saber. Ser� esse Arist�teles, que introduzir�, ou pelo menos cuja obra servir� para fundamentar a grande confus�o e mal-entendido que viciar�o da� por diante, e atrav�s dos s�culos, o pensamento filos�fico. E cient�fico tamb�m. E que ainda hoje encontram forte resson�ncia e reflexos poderosos. Arist�teles elimina a distin��o estabelecida por Plat�o entre os objetos da Ci�ncia e da Filosofia, empreguemos, para cortar confus�es, a nossa terminologia moderna, em substitui��o � de Plat�o para quem s� a Filosofia, ou Dial�tica (a dele, Plat�o), constitu�a "Conhecimento". E trazendo as id�ias plat�nicas da esfera supra-sens�vel em que se encontravam, para as coisas do mundo sens�vel, confunde assim o objeto do Conhecimento com o Conhecimento como objeto. De fato, Plat�o separara as "id�ias" das coisas sens�veis que n�o seriam mais que c�pias deformadas da "verdadeira" realidade daquelas coisas. Tal como os c�rculos que tra�amos ou que encontramos na Realidade sens�vel (como por exemplo os c�rculos conc�ntricos produzidos numa superf�cie d'�gua tranq�ila pelo impacto de Uma pedra nela ca�da), c�rculos esses que seriam uma reprodu��o aproximada mas imperfeita do c�rculo real que concebe a Matem�tica. Arist�teles integra aquelas "id�ias" nas pr�prias "coisas" da Realidade sens�vel. Para ele, o que Plat�o designa por "Id�ias" n�o s�o mais que diferentes maneiras com que concebemos as coisas , e com isso Arist�teles descarta com grande acerto o misticismo plat�nico. Mas essas maneiras de conceber as coisas, ou sejam, as "categorias" do entendimento (subst�ncia, qualidade, quantidade, rela��o, lugar, tempo, situa��o, maneira de ser, a��o sofrida), constituem para Arist�teles maneiras de ser das
  18. 18. pr�prias coisas. Isso �, elas s�o tudo isso , subst�ncia, qualidade, quantidade, etc. E n�o apenas se concebem e denominam como tal. 12 Em suma, e exprimindo-nos em linguagem mais atualizada, os conceitos e a conceitua��o com que representamos mentalmente a Realidade exterior ao pensamento, � inclu�da por Arist�teles nessa pr�pria Realidade. E o que denominamos acima de "invers�o idealista", que consiste em projetar as opera��es e fatos mentais na Realidade extramental e exterior ao pensamento e nela integrando-os. As representa��es mentais (id�ias ou conceitos) se elaboram pelo pensamento a partir da Realidade exterior (que saio as fei��es e ocorr�ncias da Natureza com que o indiv�duo pensante se defronta). A invers�o idealista consiste em levar essas id�ias ou conceitos, que evidentemente n�o s�o aquelas fei��es e ocorr�ncias, e sim i a sua representa��o no pensamento, lev�-las de retorno �s mesmas fei��es e ocorr�ncias, considerando-as como nelas inclu�das. Lembramos acima, como exemplifica��o da invers�o idealista que ainda hoje � fator de n�o pouca confus�o, o caso do conceito "mat�ria", que de conceito se faz, ou antes � feito em constituinte das coisas que comp�em o Universo. E ainda voltaremos ao assunto mais adiante. � isso que Arist�teles faz, e � o que viciar� profundamente n�o s� a Filosofia subseq�ente, mas ainda os h�bitos ordin�rios de pensar e maneira de ver e de interpretar as coisas generalizadamente arraigadas em toda a cultura ocidental para cuja conforma��o Arist�teles direta ou indiretamente tanto contribuiu. Embara�ar� tamb�m a marcha da elabora��o cient�fica que somente ganhar� impulso quando modernamente se libera da Filosofia, ou antes da Metaf�sica em que a Filosofia se envolvera. Vejamos como Arist�teles desenvolve seu pensamento, as conclus�es a que chega e as conseq��ncias a que por elas � levado. Plat�o, seu mestre, concentrara a "uniformidade e perman�ncia",condi��o para os gregos, como referimos, do Conhecimento,no mundo das id�ias fixas e est�veis, e por isso distinto e separado do variegado mundo da percep��o sens�vel, mundo inst�vel e em permanente fluxo e transforma��o. E Plat�o assim procedera, no depoimento do pr�prio Arist�teles num texto que j� referimos acima, porque "se existe a ci�ncia e o conhecimento de algo, devem existir outras realidades al�m das naturezas sens�veis; realidades est�veis, pois n�o h� ci�ncia daquilo que est� em perp�tuo fluxo". Tais "outras realidades est�veis" al�m do mundo sens�vel, seriam as "Id�ias". Mas para Arist�teles que tem os p�s mais firmes na terra que o sonhador e poeta que � seu mestre, embora reconhecendo a necessidade para o Conhecimento de uma base est�vel em que se apoiar e fundar, para Arist�teles s�o precisamente outras realidades, mas ao alcance da percep��o sens�vel, que se trata de desvendar, conhecer e compreender. E esse mundo dos sentidos, variegado 12 Alfred Weber, op. cit, 77. Como bem demonstrou Zeller, as categorias aristot�licas tem um car�ter metaf�sico e ontol�gico tanto quanto l�gico: s�o formas do atributo, predicados e do ser, e n�o, como em Kant, formas subjetivas do pensamento, Cit. p. J. Tricot, La M�taphysique, I, 270, n. 2.
  19. 19. e aparentemente t�o inst�vel que cerca o Homem e onde ele vive, a "natureza sens�vel", como Arist�teles a denomina, e que as id�ias plat�nicas marginalizem, � isso que importa. E para o conhecimento da natureza sens�vel, "as Id�ias n�o saio de nenhum aux�lio". 13 N�o ser� isolando a fonte do Conhecimento da natureza sens�vel e isolando-a num mundo � parte de id�ias, como fez Plat�o, n�o � assim que se alcan�ar� aquela natureza sens�vel que � o que interessa, segundo Arist�teles e que ele objetiva conhecer. "� gra�as aos princ�pios e com os princ�pios", afirma Arist�teles, "que se conhece o resto". 14 E no esquema plat�nico, os "princ�pios" ficariam naturalmente restritos ao mundo apartado e estanque de realidades est�veis, as id�ias, que eles encarnam e exprimem. � preciso assim substituir o esquema plat�nico, e abrir caminho para comunicar o setor est�vel da Realidade onde se situam o Conhecimento e os princ�pios, e que Plat�o apartara e isolara, � preciso comunic�-lo com a natureza sens�vel que se trata de conhecer. E o que far� Arist�teles, estabelecendo a comunica��o por via da "dedu��o" do particular (que � o dado na percep��o sens�vel) a partir do universal que substitui de certa forma a Id�ia plat�nica, e que � o verdadeiro SER e seu conhecimento. Dedu��o essa cujo processamento e m�todo (que ser� a sua grande realiza��o) Arist�teles vai buscar no exame do discurso, a linguagem discursiva, informando-se para isso, em especial, nos modelos dial�ticos (debates orais) de seus antecessores na mat�ria, os Sofistas; e sobretudo nos di�logos de seu mestre Plat�o. E num tal exame que Arist�teles lograr� destacar e revelar os elementos ou "formas" essenciais da estrutura b�sica da linguagem discursiva. Ou seja, a maneira ou forma como se disp�e e interliga nos seus termos a express�o verbal capaz de, pela sua coer�ncia, demonstrar, com seguran�a e sem contesta��o poss�vel, opini�es ou teses defendidas; e convencer com isso o interlocutor. Circunst�ncias essas que se admitiam a priori como prova incontest�vel do acerto , a "verdade" , das conclus�es. � com isso, reduzido a normas precisas, que Arist�teles constituir� a sua L�gica, que tem como n�cleo central, como se sabe, o silogismo. Precisamente o instrumento que Arist�teles necessitava para realizar sua almejada "dedu��o" do particular a partir do universal. Isto �, o entrosamento e seq��ncia verbal coerente (n�o contradit�rio), de Uma para outra, das express�es verbais daqueles dois termos da opera��o dedutiva, respectivamente o Universal e o particular. � na base e com a manipula��o dessa sua L�gica, que Arist�teles procurar� a sistematiza��o dos conhecimentos do seu tempo e entrosamento dedutivo da express�o verbal deles. Tarefa que muito pouco tem de "cient�fico" propriamente, no sentido que hoje se d� � Ci�ncia e sua elabora��o,afora a cole��o dos parcos dados emp�ricos existentes na �poca e ao alcance de 13 Arist�teles. La Metaphysique, trad. cit., M, 5, II. 14 Id., A, 2. I, 15.
  20. 20. Arist�teles no que ali�s ele se mostra muito bem informado. E constitui de fato tentativa e ensaio, o que era ali�s o que Arist�teles pretendia, embora sem muito discernimento do que realizava , ensaio de modelo de entrosamento dedutivo daqueles dados emp�ricos dentro da sistem�tica conceptual, e sua express�o verbal, impl�citas nos conhecimentos do seu tempo e que ele soube, em suas linhas gerais, revelar. "O m�todo que Arist�teles emprega para o estudo dos fen�menos [fatos f�sicos]", observa um dos mais modernos tradutores e autorizados comentaristas dos textos aristot�licos, "� antes de tudo dedutivo e sistem�tico. Nas Meteorol�gicas, como em toda sua obra, Arist�teles julga que uma explica��o verdadeira n�o pode ser sen�o racional." 15 isto �, apresentado de maneira formalmente coerente, que vem a ser aquilo que ordinariamente chamar�amos de "l�gico". E poder�amos acrescentar o inverso: que a explica��o racional � necessariamente verdadeira. Em suma, o que Arist�teles de fato realiza � a organiza��o e integra��o (na medida do poss�vel, bem entendido, e que n�o podia ser, como n�o foi, muito ampla e rigorosa) da conceitua��o de seu tempo relativa aos objetos tratados no que hoje seriam a F�sica, a Astronomia, a Biologia, etc., em sistemas l�gico-formais. Isto �, expressos em forma verbal coerente, de modo a se poderem deduzir logicamente (dentro dos c�nones l�gicos) os dados emp�ricos dispon�veis. Note-se de in�cio, e isso � importante para o que nos interessa aqui centralmente, que assim procedendo Arist�teles estar� de fato e essencialmente ocupando-se n�o com os fatos propriamente e os dados emp�ricos que a percep��o sens�vel proporciona; e sim com a maneira de filiar esses dados, seria a sua "dedu��o",a uma conceitua��o preexistente ou pelo menos presumida; ou melhor, dada a priori. E dentro dela enquadr�-los. A maneira de justific�-los logicamente atrav�s de um enquadramento e integra��o numa sistem�tica conceptual pr�-formada. " Racionaliza��o ", dir�amos hoje. A aten��o de Arist�teles numa tal tarefa estar� assim primordialmente voltada, como logo se v�, para aquela sistem�tica conceptual e sua estrutura, procurando alcan��-la pela aplica��o do seu m�todo. Tanto � assim que seu resultado principal n�o ser� propriamente uma contribui��o cient�fica, na acep��o corrente de nossos dias,o que a obra de Arist�teles como j� foi notado, n�o oferece, e sim um exemplo de modelo de aplica��o da L�gica na considera��o dos dados sens�veis da observa��o emp�rica, visando como que uma interpreta��o "l�gica" do comportamento da Natureza tal como ela se apresenta naqueles dados. Em conclus�o, o interesse de Arist�teles e a contribui��o que oferece, afinal, se fixam essencialmente n�o nos fatos que refere, e sim no Conhecimento deles, no Conhecimento em si. O objeto � assunto de que Arist�teles se ocupa em seus tratados relativos aos fatos da Natureza , f�sicos, geol�gicos, astron�micos, biol�gicos, etc. , n�o s�o direta e essencialmente te is fatos, e sim a 15 J. Tricot. Les M�t�orologiques, introdu��o, VIII. Paris, 1941
  21. 21. maneira como esses fatos s�o concebidos, ou devem ser concebidos; os conceitos em que se enquadram; e como esses conceitos se h�o de entrosar uns com os outros, logicamente se estruturarem e formalmente exprimirem no discurso. Arist�teles estar� n�o elaborando conhecimentos ou expondo seus procedimentos no processo de elabora��o, o que consistiria em compor nova conceitua��o, ou remodelar a existente na base de dados originais ou antes n�o considerados devidamente e que se trataria de determinar e incluir na conceitua��o existente, dando-se assim conta deles. N�o � isso a obra de Arist�teles que estar� antes e como que oferecendo e ilustrando um modelo l�gico. Ocupando-se, pois, n�o do Conhecimento propriamente, mas do Conhecimento do Conhecimento. E fa�a-se de Arist�teles o ju�zo que for, e j� sem falar na sua L�gica, o significativo da obra que deixou e que tamanho papel desempenharia na evolu��o do pensamento humano, bem como aquilo que se pode considerar nessa obra a sua "Filosofia", isso n�o ser� elabora��o cient�fica, nem outra coisa sen�o um tal Conhecimento do Conhecimento. � isso a obra de Arist�teles Obra que constituiu a complementa��o e encerramento de um cicio decisivo do pensamento humano, e que vem a ser a tarefa empreendida pelos pensadores que precederam Arist�teles no mesmo rumo, desde os pioneiros da Filosofia grega at� os Sofistas, S�crates e Plat�o que foram sucessiva e progressivamente contribuindo para a ascens�o do pensamento e Conhecimento, do empirismo rudimentar e grosseiro que constitui a primeira e mais primitiva etapa da evolu��o mental do indiv�duo pensante e conhecedor que � o Homem, para o racionalismo propriamente que faz ent�o sua entrada decisiva na cultura humana. Do Conhecimento limitado � simples constata��o emp�rica e registro de fatos diretamente acess�veis � percep��o sens�vel, e de sua representa��o imaginativa segundo modelos sens�veis de f�cil e imediata identifica��o (como os arcos de uma roda com que Anaximandro ainda explicava os "fogos celestes"; ou a pr�pria subst�ncia do Universo modelada com materiais comuns) 16 passam os pensadores gregos a um plano abstrato, e v�o ocupar-se reflexivamente do pr�prio pensamento em si, e da sistematiza��o do Conhecimento; procurando realizar no conjunto dele o que a L�gica designaria mais tarde por 'coer�ncia". A saber, o entrosamento disciplinado e n�o contradit�rio da conceitua��o e sua express�o verbal. ou seja, a adequada estrutura��o conceptual e de suas formas expressivas, em contraste com o simples registro emp�rico e disperso de representa��es sens�veis imediatas que caracteriza a fase anterior. A obra de Arist�teles oferecer� assim, a par de sua L�gica e m�todo de pensamento que implica, o primeiro esbo�o e modelo, grosseiro embora, para uma tal racionaliza��o geral do Conhecimento. A sua "logifica��o", podemos assim denominar o processo. Em suma, o 16 Note-se que Arist�teles tamb�m lan�ava m�o desses modelos sens�veis, como, entre outros, os quatro elementos do mundo sublunar engendrados pelos princ�pios , o quente, o frio, o �mido, o seco (Da Gera��o o Corrup��o, II, 2 e 3); ou as "axalac�es" destinadas a dar conta dos fen�menos os mais estranhos uns a outros... Mas a� o pensamento central j� e outro: como observa Tricot, trata se de reduzir essa variedade a uma "unidade fundamental da
  22. 22. Conhecimento se torna em sistema geral abstrato e de conjunto, e por isso mesmo de mais f�cil cesso, evoca��o, comunica��o eficiente e utiliza��o na a��o, o que constitui afinal o objetivo da fun��o humana do Conhecimento. Note-se que n�o seria isso certamente, nem poderia ser o que Arist�teles deliberadamente objetivava. Aquilo de que julgava cuidar e de que pretendeu ocupar-se em seus tratados naturais, era o conhecimento da Realidade da percep��o, destes seres sens�veis que, por sua diversidade e instabilidade, e nada mais que imperfeitas c�pias dos verdadeiros Seres que seriam as Id�ias, seu mestre Plat�o deixara de lado e reputara imposs�veis de leg�timo Conhecimento, e objetos unicamente da Opini�o, Arist�teles em oposi��o a seu mestre, acreditava chegar a esse Conhecimento, como vimos, pela dedu��o de que revelou o m�todo, a sua L�gica, e precisamente para aquele fim. Mas para justificar a legitimidade de sua dedu��o, havia que ligar o Ser, o conceito dado no universal, e que Plat�o isolara nas suas id�ias, lig�-lo com a Realidade sens�vel expressa no particular. Como realiz�- lo? � o que Arist�teles desenvolve no que seria a sua Metaf�sica, a sua concep��o geral e fundamental da Realidade que se faria padr�o do pensamento filos�fico pelos tempos afora. E que, embora retocado continuamente atrav�s dos s�culos, torcido e retorcido pelas sucessivas gera��es de pensadores e escolas filos�ficas na tentativa, de muito poucos resultados, de ajust�-la �s novas fei��es que o Conhecimento foi tomando, e harmoniz�-la com o progresso desses conhecimentos; embora tudo isso, a Metaf�sica aristot�lica ainda conserva at� hoje seus quadros fundamentais que impregnam o pensamento moderno e lhe trazem toda sorte de dificuldades e deforma��es. Vejamos esquematicamente os pontos essenciais e linhas mestras dessa Metaf�sica, e em especial as circunst�ncias que a inspiram em seu nascedouro, e que foram, como se notou, a necessidade de fundamentar o m�todo dedutivo com que Arist�teles julgava alcan�ar o conhecimento da Realidade sens�vel. A atenta considera��o de tais circunst�ncias esclarece muita coisa dos rumos que tomaria o pensamento filos�fico; e contribui em particular para a compreens�o dos principais problemas e quest�es que a perspectiva metaf�sica, subjacente naquele pensamento, iria suscitar, mesmo depois de formalmente e oficialmente posta de lado pelos principais setores do pensamento moderno. O que n�o impediu que se conservasse latente em muito dele e em quest�es pendentes at� os dias de hoje. O interesse do assunto continua assim a ser da maior atualidade. Na Metaf�sica, Arist�teles transfere a sua L�gica, e com ela o m�todo dedutivo que implica. L�gica e m�todo que de fato n�o s�o sen�o sistemas derivados de formas ling��sticas 17 , transfere sua raz�o". Les M�t�orologiques, Intr., VIII. 17 J� tem sido observada a coincid�ncia das estruturas e categorias l�gicas e gramaticais. Abordam o assunto dois trabalhos inclu�dos no n� de 1958 de Les �tudes Philosophiques, Paris: Pens�e et Grammaire, de Jean Fourquet; e Cat�gories do Pens�e et Cat�gories do Langue de �mile Benveniste. N�o se procurou todavia ainda, que eu saiba, concluir
  23. 23. L�gica para os fatos da Realidade concreta, para o mundo das "coisas sens�veis", designa��o com que o pr�prio Arist�teles por vezes se refere �s "realidades da percep��o" que trata de conhecer pela aplica��o do m�todo. Simples "transfer�ncia" de fato porque a nada mais que isso corresponde esta concep��o aristot�lica, centro nevr�lgico da Metaf�sica, que vem a ser a da gera��o das "coisas sens�veis" (que afinal n�o s�o sen�o o "particular", em contraste com o "universal") pela"realiza��o" da forma,aquilo que faz a coisa ser o que �, na mat�ria, subst�ncia indeterminada das coisas sens�veis, mas que re�ne em cada caso as condi��es espec�ficas necess�rias para que a forma determinada possa nela se concretizar ou gerar; que tenha a "potencialidade" para isso, que seja a "coisa em pot�ncia", na terminologia aristot�lica. Para usar Uma ilustra��o, entre outras do pr�prio Arist�teles tal como se d� com o "lenho" relativamente ao "cofre" que � com ele confeccionado: o lenho seria a mat�ria em pot�ncia na qual a forma "cofre" se realiza, � gerada. 18 Ora, a forma, que � ess�ncia ou "aquilo que faz a coisa ser o que �", se reduz na terminologia aristot�lica � id�ia, ao universal. 19 E assim, tal como na L�gica aristot�lica o particular se "deduz" do universal, assim tamb�m a coisa sens�vel, que � o "particular", se "gera" pela realiza��o da forma potencial contida se emparelham; de na mat�ria; forma essa que vem a ser o "universal". Os dois casos se emparelham: de um lado a opera��o l�gica pela qual se alcan�a o conhecimento das coisas sens�veis,o que as coisas s�o,; de outro, o fato concreto em que se geram as coisas. Ambos se confundem; v�m no final a dar no mesmo. E consuma-se com isso a invers�o idealista aristot�lica, a confus�o das esferas subjetiva e objetiva que se projetar� pelos s�culos afora e ainda impregna at� hoje o pensamento filos�fico ,e com ele a maneira ordin�ria de pensar, e em muitos casos at� mesmo a cient�fica, ou que se pretende ou presume cient�fica. A confus�o das "coisas" (que � a designa��o tradicional e consagrada da Metaf�sica, e ali�s corrente em todos os setores, para indicar as fei��es do Universo, e assim fragment�-lo, numa outra inst�ncia da invers�o idealista, � imagem da express�o verbal) a confus�o das "coisas" com a maneira como se conhecem. E a confus�o conseq�ente do conhecido com o Conhecimento; da esfera exterior ao pensar e objeto dele, com esse pr�prio pensar. O que praticamente vem a consistir,na tarefa de interpreta��o da Realidade e elabora��o do Conhecimento e constru��o da Ci�ncia ,vem a consistir na confus�o do Conhecimento com o Conhecimento do Conhecimento, com o embaraIhamento de seus respectivos objetos. O pesquisador, mais precisamente o fil�sofo de forma��o aristot�lica,e muitas vezes o cientista tamb�m, pretende ocupar-se de ocorr�ncias e circunst�ncias da Natureza, e freq�entemente julga faz�-lo, quando de fato da� o que me parece evidente, e se confirma historicamente, como ali�s j� foi notado acima , que a L�gica formei cl�ssica se elaborou na base da linguagem discursiva. Nada tem a ver com "leis do pensamento", ou estruturas a priori, pr�-formadas n�o se sabe onde. 18 Metaf�sica, IX, 7.
  24. 24. se encontra na perspectiva do Conhecimento do Conhecimento, e vai tratar n�o daquelas ocorr�ncias, e sim do conhecimento que se tem delas, de sua representa��o mental ou conceito, e de sua express�o verbal que assim, inadvertidamente, se projeta na Realidade considerada. J� nos referimos acima a essa confus�o e proje��o idealista ao lembrarmos o caso t�o flagrante do conceito "mat�ria". Outra inst�ncia caracter�stica no assunto, fartamente conhecida, debatida e de consider�vel papel na hist�ria e evolu��o do pensamento filos�fico, bem como do cient�fico tamb�m, � a dos conceitos "espa�o" e "tempo". Em virtude daquela deformada perspectiva e invers�o, o "espa�o", de simples rela��o de situa��o ou posi��o de uns objetos com respeito a outros; e o "tempo", de rela��o de sucess�o de situa��es 20 , isto �, de simples conceitos mentalmente representativos de circunst�ncias particulares da Realidade, se far�o, uma vez transpostos para essa Realidade e nela confundidos e substancializados, se far�o num espa�o e tempo absolutos e de realidade e exist�ncia extramental concreta e em si, independentemente de quaisquer objetos eventualmente neles presentes e inclu�dos. Algo como, para o "espa�o", um continente extenso e infinito predisposto para conter e abrigar no seu interior as coisas de um Universo nele eventualmente introduzido; mas que dele inteiramente independe, podendo ser concebido como sem esse conte�do. E no que diz respeito ao "tempo" seria como o desenrolar no v�cuo desta outra entidade ad hoc inventada e que seria a "Eternidade", a presenciar ou o vazio, ou o perpassar incidente de coisas e ocorr�ncias eventualmente presentes no correr de uma exist�ncia sem come�o nem fim . . . A literatura filos�fica, com extens�es trai�oeiras inclusive para o campo da Ci�ncia,a� est� para exibir o infind�vel debate sem perspectivas, e os paradoxos sem conta, nem sa�da, a que levaram e levam ainda hoje baralhamentos como esses das esferas subjetiva e objetiva. A confus�o da Realidade concreta, com o pensamento dessa Realidade, o que d� na confus�o do Conhecimento com o Conhecimento do Conhecimento. Nesse sentido, e de certo modo, poder�amos dizer,possivelmente com alguma dose de anacronismo,que a obra de Arist�teles constituiu um passo atr�s nas realiza��es de seus antecessores. Estes, embora sem muita clareza e precis�o, muito pelo contr�rio, � for�a reconhecer, e de forma grosseira no tratar o assunto, tinham ao menos vislumbrado a distin��o entre as esferas mental e extramental. Parm�nides, p. ex., como foi lembrado, ocupa-se em separado daquilo que respectivamente designa por "verdade" (que diria respeito � esfera mental) e por Opini�o, que constituiria o que hoje designar�amos por Conhecimento propriamente (em contraste com o Conhecimento do Conhecimento) ou ci�ncia emp�rica, isto �, dirigida direta e imediatamente para a 19 . Zeller. Outlines of the History of Greek Philosophy, trad. ingl. de L. R. Palmer. London, 173 20 Leibniz dir� do espa�o e tempo que "s�o ambos uma ordem geral das coisas. O espa�o � a ordem das coexist�ncias, e o tempo, a ordem das exist�ncias sucessivas. S�o coisas verdadeiras, mas id�ias, como os n�meros". Opera (ed. Dutens), III, 445.
  25. 25. Realidade exterior ao pensamento. Em Plat�o essa separa��o se faz ainda mais radical, e de tal modo extremada que as id�ias plat�nicas se substancializam num mundo supersens�vel bem destacado do sens�vel que constituiria a Realidade de nossa experi�ncia concreta ordin�ria. Com toda sua fantasia po�tica e deforma��o m�stica, a concep��o plat�nica tinha pelo menos o m�rito de distinguir as duas esferas respectivamente mental e extramental. Obviava-se com isso a confus�o em que incorreria Arist�teles e de t�o danosas conseq��ncias que at� nossos dias ainda vicia o pensamento filos�fico, fazendo-o t�o freq�entemente perder de vista suas verdadeiras e leg�timas metas com a proposi��o de quest�es sem conte�do real algum e incapazes de levar a outra coisa sen�o um infind�vel e est�ril debate em torno do significado de conceitos ou pseudoconceitos reduzidos a simples formula��es verbais que j� h� muito perderam qualquer liga��o com a Realidade em que vivemos e que condiciona a exist�ncia humana ,se � que jamais tiveram aquela liga��o. Isso a par dos empecilhos que tantas vezes op�s e ainda op�e a uma correta e adequada elabora��o cient�fica. Considere-se, para exemplificar, a famosa quest�o dos "Universais" que agitou, e dada a posi��o central que ocupa, esterilizou em boa parte, durante s�culos, o melhor do pensamento filos�fico. E ainda hoje, embora com alguns disfarces, tem os seus apreciadores. Os danosos efeitos da confus�o das duas esferas t�m a� flagrante confirma��o, pois o que se discute no assunto em �ltima inst�ncia, � precisamente o grau de "participa��o", digamos assim, dos conceitos numa ou noutra esfera. A simples delimita��o delas elimina a quest�o. Em vez disso, e enquanto os fil�sofos se afogam em sutilezas que n�o passam no mais das vezes de puro jogo de palavras, a quest�o que se pode dizer b�sica da Filosofia, que � a da caracteriza��o e processamento da conceitua��o, premissa essencial da Teoria do Conhecimento, e portanto de toda problem�tica da Filosofia em geral, se obscurece e perde inteiramente num cipoal sem sa�da e debate sem solu��o nos termos em que a quest�o � proposta. A confus�o das esferas subjetiva e objetiva do Conhecimento que deriva da Metaf�sica aristot�lica n�o vicia somente a Filosofia, mas ainda, e at� nossos dias, atinge importantes setores da elabora��o cient�fica; e at� mesmo concep��es correntes e h�bitos usuais de pensamento. Efetivamente, o fato de sobrepor o pensamento e seus sistemas e formas � Realidade que lhe � exterior, e incluir nessa Realidade os quadros conceptuais em que pensamento e Conhecimento se organizam e estruturam (e � nisso que vai dar a confus�o aristot�lica); e derivando por conseguinte a elabora��o do Conhecimento daqueles quadros, tais circunst�ncias resultam for�osamente na tend�ncia, que acima referimos, ao enrijecimento e imobiliza��o do Conhecimento. Isso porque, por for�a delas passa-se a lidar com conceitos e as formas l�gicas de sua express�o verbal, julgando tratar de fatos da Realidade exterior ao pensamento, como ali�s se v� t�o claramente nas inst�ncias
  26. 26. acima lembradas dos conceitos "espa�o" e "tempo" que, representando embora rela��es, se fazem, porque expressos verbalmente por substantivos, em "coisas" ou "entidades" de exist�ncia substancial inclu�da na Realidade exterior ao pensamento. Erigem-se assim, por for�a de confus�o an�loga, simples opera��es mentais que vem a ser a "dedu��o" aristot�lica, em fiel reprodu��o de ocorr�ncias da Realidade. O logicamente coerente, e pois corretamente "deduzido" e ajust�vel com isso ao sistema ou sistemas conceptuais estabelecidos e consagrados, se reputa desde logo como reprodu��o ou representa��o acertada da Realidade. N�o � por simples acaso ou analogia que a express�o vulgar e corrente t�o em voga, que vem a ser "� l�gico", tem o sentido de acerto e seguran�a da afirma��o formulada e assim qualificada. Tampouco constitui coincid�ncia o emprego, na terminologia consagrada da L�gica, do mesmo voc�bulo para designar a "verdade" formal e a "verdade" emp�rica, com o que se equipara em valor significativo, a articula��o coerente da express�o verbal ou simb�lica (fato puramente mental), com a verifica��o emp�rica; a "verdade" do puro pensamento e a verdade real. Pensamento e Realidade se confundem. E a transposi��o do pensamento para a Realidade; ou inversamente, se preferirem, a interioriza��o da Realidade no pensamento. Em ambos esses casos exemplificativos citados, faz-se sentir a presen�a da velha concep��o aristot�lica e confus�o que nela se faz entre as duas esferas do Conhecimento, entre o mental e o extramental. Bem como do complicado dispositivo metaf�sico que acima procurei esquematizar, e que resulta dessa confus�o e pretende justific�-la. Dispositivo esse com que Arist�teles introduziu as Id�ias plat�nicas nas "coisas sens�veis", tornando as em componentes delas: a forma realizando-se na mat�ria e dando com isso a "coisa". "Forma" essa que vem a ser afinal o "conceito" que se trata de alcan�ar pelo Conhecimento a ser obtido, na concep��o aristot�lica endossada em seguida pelos s�culos afora, com a descoberta daquele conceito no am�lgama de "pot�ncia" e "ato" em que a coisa sens�vel se realiza. � assim na manipula��o conceptual, atrav�s de opera��es l�gicas, que se alcan�a o Conhecimento. 21 Quanto aos fatos reais, �s fei��es e circunst�ncias que comp�em a Realidade concreta exterior ao pensamento conhecedor e elaborador do Conhecimento, isso que constitui na perspectiva moderna p�s-metaf�sica o leg�timo objeto do Conhecimento; se subestima, se n�o se desconsidera por completo, ou ent�o se manipula convenientemente a fim de acomod�-lo aos esquemas conceptuais consagrados. 21 N�o � aqui o lugar pr�prio para desenvolver a teoria desta excresc�ncia da Metaf�sica que � a indu��o aristot�lica cuja verdadeira natureza sempre se discutiu e discute ainda sem maior esclarecimento do assunto. O certo contudo � que com a indu��o aristot�lica (n�o consideramos sua variante da indu��o "completa", que � puro tru�smo verbal, e nada tem de significativo} com a indu��o aristot�lica n�o se trata propriamente de elaborar, construir o conceito e representa��o menta. Das fei��es da Realidade,que � no que efetivamente consiste o Conhecimento. E trata-se sim de atinar com a "ess�ncia" das coisas que vem a ser o conceito que preexiste � opera��o de conhecer e que se trata de
  27. 27. � com esse rumo que a Metaf�sica de inspira��o aristot�lica intervir� na tarefa de elabora��o cient�fica, com os resultados que se podem avaliar e que a hist�ria fartamente ilustra. Uma inst�ncia flagrante desse procedimento, tanto mais esclarecedora como exemplo que j� data dos tempos modernos, e por isso al�m de largamente documentada e de f�cil acesso e exame, melhor se destaca no contraste com o novo pensamento antimetaf�sico que come�ava na �poca a dominar; essa inst�ncia ser� a famosa quest�o da "ess�ncia das esp�cies" que tamanho papel, e papel altamente negativo, representou no desenvolvimento das Ci�ncias naturais. Ocupei-me do assunto em outra oportunidade 22 e lembrarei aqui apenas a observa��o de Darwin a respeito do assunto, lamentando os naturalistas do seu tempo "incessantemente perseguidos pelas d�vidas insol�veis sobre a ess�ncia espec�fica desta ou daquela forma". Em suma, a elabora��o cient�fica se tornava essencialmente, na base do modelo metaf�sico, um processo especulativo onde opera��es l�gico dedutivas faziam as vezes da observa��o emp�rica e conceptualiza��o da experi�ncia. E na forma l�gica que se haveria de desvendar a VERDADE. N�o � preciso insistir que � isso o observado no mundo ocidental, acentuando-se com a Escol�stica e a consagra��o da Metaf�sica aristot�lica que iria da� por diante soberanamente inspirar e orientar o pensamento da �poca. Assistiremos a�, a par de um intenso trabalho de elabora��o l�gica (ou antes de refinamento e bizantiniza��o da L�gica aristot�lica) a Uma desenfreada especula��o abstrata orientada por aquela L�gica, e que no terreno da elabora��o cient�fica deixa a considera��o dos fatos reais num segundo e muito apagado plano. A ci�ncia por isso marcar� passo, e somente ganhar� impulso quando nos tempos modernos come�a a gradualmente se desligar da Filosofia,ou antes da Metaf�sica e dos esquemas l�gicos estereotipados e especula��es sem fim a que ela se reduzir�. 23 E a elabora��o do Conhecimento, em alguns de seus setores pelo menos, se orientar� diretamente para seu verdadeiro objeto: os fatos naturais exteriores ao pensamento elaborador, 24 e n�o os fatos mentais que n�o fazem sen�o representar conceptualmente aqueles fatos naturais. E abrem-se com isso as perspectivas para a separa��o das duas esferas do pensamento confundidas pela Metaf�sica: de um lado o processo mental pelo qual se elabora o Conhecimento desvendar. 22 Dial�tica do Conhecimento. 5a. ed. S�o Paulo, 1969, II, 361. 23 H� um beneficio contudo que talvez tenha sobrado dessa desenfreada especula��o a que levou a Metaf�sica S�o muitas gera��es sucessivas que se ter�o exercitado na condu��o disciplinada das opera��es racionais a que levou aquela especula��o, o que possivelmente teria contribu�do, apesar de sua esterilidade em mat�ria de elabora��o do Conhecimento, como gin�stica mental adestradora do pensamento e educadora dele nos h�bitos de rigor e precis�o em que a cultura ocidental t�o marcadamente se destaca.. O que teria poss�vel mente preparado o terreno para o surto da Ci�ncia moderna em que o pioneirismo dessa cultura � manifesto, 24 � preciso aten��o para essa restri��o: "pensamento elaborador", pois o pr�prio pensamento ou antes a atividade pensante pode constituir, e eventualmente constitui de fato objeto do Conhecimento como fei��o da Realidade que tamb�m �. Assim na Psicologia que numa certa perspectiva se ocupa do "Pensamento" como objeto. Do que se trata no texto � do pensamento como integrante do Sujeito do Conhecimento em confronto com o Objeto do mesmo Conhecimento.
  28. 28. propriamente, a saber, a representa��o mental das fei��es da Realidade exterior ao pensamento elaborador. De outro, a considera��o dessa mesma representa��o mental elaborada pelo Pensamento e nele presente como conceitua��o constituinte do Conhecimento; da Ci�ncia em particular. Para essa discrimina��o dos objetos da atividade pensante , discrimina��o essa que delimitar� as esferas objetiva e subjetiva, isto �, que os campos respectivos: do Conhecimento, de um lado; de outro, do Conhecimento do Conhecimento que constitui ou deve constituir o pr�prio da Filosofia, para essa discrimina��o, � importante not�-lo, contribui sobretudo a experimenta��o. Realmente na experimenta��o as duas esferas se prop�em desde logo separadamente e bem discriminadas uma da outra. Diferentemente da simples observa��o passiva e contemplativa, o pensador e elaborador do Conhecimento, na experimenta��o, interv�m ativamente para dispor de maneira conveniente e em perspectiva adequada o objeto de sua considera��o e exame, para fazer com que se reproduza nesse objeto o fato que se trata de compreender e representar mentalmente. intervir nele e como que participar dele com sua a��o. A��o pensada, e no outro extremo da a��o reflexo, com o pensamento alertado n�o somente visando o objetivo imediato de dirigir a a��o, e sim tamb�m o de se integrar no Conhecimento preexistente, torna-se ele pr�prio Conhecimento novo. A��o pensada em fun��o do objeto considerado, no curso da qual se desenrola o processo de elabora��o cognitiva e em que essa elabora��o se realiza na base do duplo e conjugado impulso do pensamento conduzindo a a��o para amold�-la ao objeto e reproduzi-la, e da a��o inspirando e estimulando o pensamento e o ajustando ao objeto. E esse o processo cognitivo (processo natural e espont�neo, mas que se vai tornando cada vez mais consciente e deliberado no curso da experimenta��o cient�fica e adestramento que proporciona), � isso que se revelar� sempre mais acentuadamente nos procedimentos da elabora��o cient�fica moderna. Procedimentos esses que pela sua pr�pria natureza e din�mica, em contraste com a especula��o abstrata e a simples observa��o passiva, p�em em confronto direto, e ao longo de todas as suas opera��es, o sujeito e o objeto bem discriminados um do outro. Isso tanto mais acentuadamente quanto, por for�a de circunst�ncias hist�ricas gerais not�rias que n�o precisam ser aqui repisadas, prop�e-se crescentemente, no "conhecer", n�o apenas, como objetivo, o simples deleite intelectual ou valor intr�nseco e em si da atividade intelectual e do Saber, como se dava com os fil�sofos gregos;] ou, como nos s�culos que os separam do mundo moderno, o objetivo fixado no sobrenatural e no conhecimento da Divindade e de seu comportamento com rela��o � humanidade. E sim prop�e-se o "conhecer", na express�o famosa de Descartes, como aquisi��o de "uma pr�tica pela qual conhecendo a for�a e as a��es do fogo, da �gua, dos astros, dos c�us e de todos os outros corpos que nos cercam, t�o distintamente como conhecemos os diferentes misteres de nossos artes�os, pud�ssemos aplic�-los pela mesma forma a todos os usos para os quais s�o pr�prios, e
  29. 29. tornando-nos assim como senhores e possuidores do Universo". 25 Esse dom�nio do Homem sobre a Realidade que Descartes preconizava, e de fato se estava realizando em ritmo acelerado com o progresso da Ci�ncia moderna; esse "gerar" das coisas sens�veis sem ser pela "forma" potencialmente preexistente e inclu�da nelas, nos termos da Metaf�sica; e sim forjadas no Conhecimento construtor pelo pr�prio Homem, dirigindo a sua a��o, e n�o desvendado pela "dedu��o"; isso permite desde logo discriminar os objetos do Conhecimento e abrir claras perspectivas para o Conhecimento do Conhecimento, para o objeto da Filosofia disfar�ado na confus�o metaf�sica do ser e do conhecer. Assim ser� efetivamente, e o objeto pr�prio da Filosofia come�a a se definir. E que o problema do Conhecimento, o como conhecer, premissa da Filosofia, se prop�e de forma patente com o progresso da Ci�ncia e as perspectivas que esse progresso abria. Tratava-se de uma transforma��o radical dos m�todos de elabora��o cognitiva. Galileu e seus sucessores, atirando objetos de alturas para o solo, e fazendo rolar esferas sobre planos inclinados, contrastavam nitidamente seus m�todos com a anterior e habitual especula��o inspirada na Metaf�sica aristot�lica. Achavam-se pois abertamente em jogo os procedimentos adequados para a elabora��o do Conhecimento. E era preciso n�o somente determinar esses procedimentos, mas trazer a sua justifica��o e reeducar-se na condu��o dos novos m�todos. Tanto mais que tais m�todos iam chocar-se em �ltima inst�ncia com preconceitos profundamente implantados em concep��es tradicionais que traziam o poderoso selo de convic��es religiosas. As necessidades do momento levavam assim os homens de pensamento a se deterem atentamente nos problemas do Conhecimento. O que, afora as est�reis manipula��es verbais a que se reduzira a L�gica formal cl�ssica, praticamente j� n�o detinha a aten��o de ningu�m. Abria-se com isso uma nova fase para a Filosofia, for�ando-a a se voltar para seus objetos pr�prios e neles se concentrar. Afirmam-se tais objetos que se far�o patentes. Toda a Filosofia moderna nos traz o testemunho disso, de Bacon e Descartes at� o criticismo kantiano. Aquilo que ocupar� desde o s�c. XVI (note-se a precisa coincid�ncia com o grande surto da ci�ncia moderna) o centro das aten��es filos�ficas, ser�o expressamente as quest�es relativas ao Conhecimento e sua elabora��o. 26 A Filosofia encontrava seu caminho como Conhecimento do Conhecimento. A indaga��o central e nevr�lgica que se prop�e ser� essencialmente determinar a rela��o entre a mente humana (pensamento, Raz�o) e o mundo exterior da experi�ncia sens�vel; e que 25 Discurso do M�todo. Sexta Parte. 26 Na Filosofia moderna, a partir de Descartes, "h� uma invers�o da pergunta cl�ssica: Que s�o as coisas?, para convert�-la na pergunta: Que � o conhecimento das coisas, e como se pode alcan�a-lo? (Jos� Ferrater Mora, Diccionario de Filosofia. Buenos Aires, 1958, p. 647.) S� que o autor, como em geral os historiadores da Filosofia, n�o se d� muito ao trabalho de pesquisar a fundo e interpretar essa "invers�o" no conjunto do processo evolutivo do pensamento filos�fico, ligando o anterior ao posterior da ''invers�o''. Com algumas exce��es, bem entendido, mas raras. A hist�ria da Filosofia se apresenta em geral como o desfilar, num mesmo plano, das opini�es de sucessivos fil�sofos e suas escolas.
  30. 30. Conhecimento da Realidade tal rela��o pode proporcionar. O que vai dar no como e em que medida contribuem respectivamente para o Conhecimento, e como para isso se combinam e associam entre si os dois fatores cuja participa��o se podia observar na pr�tica da elabora��o cient�fica moderna. Numa palavra, tratava-se de determinar como se repartia e como se combinava a participa��o respectiva, de um lado, da experi�ncia sens�vel; de outro, do pensamento propriamente e independentemente de qualquer outra contribui��o. � nesses termos que fundamentalmente se prop�e o problema do Conhecimento, dando origem �s duas tend�ncias para as quais se inclinam respectivamente as solu��es propostas: no sentido, seja da valoriza��o e destaque da atividade pensante e racional, com a relativa desconsidera��o, e at� mesmo, nos casos extremos, elimina��o da realidade sens�vel e dos dados que fornece; seja, em sentido oposto, a subestimac�o da atividade pensante, relegada a papel subsidi�rio e insignificante da simples sensa��o. Os dois p�los da Filosofia moderna, o idealismo e o materialismo, embora muitas vezes reciprocamente se interpenetrando, sobrepondo-se um a outro e inextricavelmente se confundindo, t�m suas ra�zes nessa oposi��o, mais ou menos marcada e radicalizada conforme os autores, em que se situa o problema do Conhecimento. E ser� em �ltima inst�ncia sob a inspira��o e na base das respectivas posi��es em face de tal problema, que se v�o constituir os sistemas filos�ficos e concep��es ontol�gicas. Tudo isso naturalmente temperado e ajustado convenientemente em fun��o de concep��es fide�stas ditadas pelo h�bito muito mais que por outra coisa (j� fora ficando para tr�s a verdadeira f� religiosa que o mundo medieval conhecera), preconceitos ideol�gicos, respeito � tradi��o e conveni�ncias pol�ticas. O que neo deixa muitas vezes de complicar inextricavelmente os textos filos�ficos da �poca, t�o marcados ainda pelos remanescentes da heran�a metaf�sica e o caracter�stico estilo da especula��o escol�stica.27 Apesar disso, contudo, destacam-se linhas discriminat�rias suficientemente marcadas. Os materialistas, ou antes os mais voltados para a "subst�ncia material" como componente do Universo, em contraste com a "subst�ncia ideal" dos idealistas, esses simplesmente equiparam o Conhecimento elaborado ou por elaborar, ou mais precisamente a conceitua��o e a forma verbal em que tal conceitua��o se exprime e apresenta, equiparam-na, em correspond�ncia biun�voca, � realidade sens�vel. Cada coisa, entidade, qualidade, a��o... que comp�e o Universo e que os sentidos percebem, ter� sua "id�ia" e express�o verbal pr�pria a registr�-la no pensamento. Reduz-se assim ao m�nimo, se n�o se elimina de todo, o papel ativo do pensamento na elabora��o do Conhecimento e 27 N�o posso deixar aqui de chamar a aten��o para Descartes, certamente a grande figura daqueles s�culos. Ningu�m como ele ter� exibido melhor o modelo ilustrativo dessa confus�o discursiva caracter�stica da �poca. E para senti-lo bem, nada melhor que a compara��o, entre outros textos cartesianos, da clareza, rigor e precis�o das Regras para a condu��o do esp�rito, e a divaga��o, o convencionalismo e o repetido ajustamento formal do texto para tais, presentes na
  31. 31. forma��o dos conceitos ou "id�ias" que se tornam, com o Conhecimento que comp�em, em simples reflexo mental mais ou menos passivo da Realidade exterior. Locke (que destacamos aqui apenas como pioneiro que foi do materialismo moderno) e aproximadamente na mesma esteira a generalizada dos materialistas, 28 Locke deriva as "id�ias" de que se constitui o Conhecimento diretamente das sensa��es que se marcariam na mente como "impress�es na cera", n�o cabendo assim ao pensamento nada mais, com aquele registro das sensa��es tornadas em id�ias, que "combinar, comparar e analisar" essas mesmas id�ias. Desse modo o materialismo, se de um lado empresta o devido valor � experi�ncia sens�vel como fator prim�rio da elabora��o cognitiva, de outro lado tende a fechar as perspectivas para uma aprecia��o adequada da fun��o pensante e da natureza real do Conhecimento. Os idealistas v�o em sentido contr�rio. Em vez de exteriorizarem o Conhecimento, segundo o modelo do materialismo, fazendo dele algo a ser simplesmente copiado pelos sentidos, como que desvendado, descoberto na Realidade onde j� estaria pr�-formado, 29 os idealistas trazem o Universo para dentro da esfera subjetiva, e ai ir� busc�-lo o Conhecimento. Em alguns idealistas, particularmente nos grandes precursores de Kant, e no pr�prio Kant, isso se disfar�a ainda sob a apar�ncia de uma Realidade exterior que, embora incognosc�vel, assim mesmo existe e representa o papel discreto de estimulante do pensamento: � a "coisa em si", o "n�mero" kantiano. Mas como bem dir� Fichte em seguimento a Kant, se esta pseudo-exist�ncia � incognosc�vel, � que verdadeiramente n�o existe. E assim o idealismo tende necessariamente para a elimina��o da Realidade exterior ao Pensamento, e � subestima��o, sen�o desprezo total da experi�ncia sens�vel na forma��o do Conhecimento. Seja contudo qual for o tipo ou matiz do idealismo, em todo ele o que realmente ocorre, aquilo de que os fil�sofos idealistas se ocupam,e � o que centralmente nos interessa aqui,� do pensamento e seu produto que � o Conhecimento. E assim, revestindo embora seu exame e suas conclus�es de linguagem amb�gua que nem sempre deixa muito claro o objeto a que se refere, o idealismo, devidamente filtrado, vai oferecer algumas das principais premissas para a devida proposi��o do problema do Conhecimento e a caracteriza��o e defini��o do Conhecimento do Conhecimento. Isto �, do papel da Filosofia. E essa em particular a contribui��o de Kant e Hegel. O criticismo kantiano coloca em plena luz o papel ativo e participante do pensamento, a Raz�o, linha dominante do consagrado Discurso do M�todo. 28 Note-se bem que estamos aqui nos referindo ao chamado materialismo "vulgar" que Marx e Engels viriam mais tarde reformular no materialismo dial�tico. 29 Como vimos pelo nosso esquema, os conceitos ou id�ias se apresentariam aos materialistas como que presentes nas "coisas", etc. do Universo, uma vez que n�o h� no caso sen�o perceb�-las pelos sentidos e registr�-las sob forma de "id�ias". O que x assemelha mais a uma simples "descoberta" e n�o elabora��o como efetivamente se d� com os conceitos, e ser� obra da Dial�tica marxista.

×