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CONTEMPORÂNEA                                                                                                             ...
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Contemporânea número 02 - agosto de 2012

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Contemporânea número 02 - agosto de 2012

  1. 1. CONTEMPORÂNEA NÚMEROUma quase Revista do Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea 02 AGOSTO 2012 1 PROSSEGUINDO COM A quase REVISTA Em seu segundo número, Contemporânea, nossa quase revista, segue seu propósito de colocar ideias em movimento. São sete os textos. Em Arte e Crítica podemos ler um comentário de Michelle Gonçalves sobre o filme Cheyenne – This Must Be The Place (Aqui é o meu lugar), de Paolo Sorrentini, em que Sean Penn incorpora as diabrites de um rockstar anacronicamente gótico a reconstruir uma memória que ele ainda não conhece. Em Cultura do Futebol temos duas contribuições. A primeira é de Mozart Maragno, cujo tema é o lugar e as expectativas que o futebol encontra no imaginário e nas demandas nacionais no contexto dos Jogos Olímpicos. Logo após publicamos a primeira resenha de Contemporânea, de Carlus Augustus Jourand Correia, sobre o livro O Jogo da Minha Vida: história e reflexões de um atleta, de Paulo André, zagueiro do atual campeão da Copa Libertadores da América, O Corinthians Paulista. Carlus mostra as ambiguidades do discurso nativo, apontando também em sua fecundidade como fonte histórica e sociológica. Política e Sociedade reúne três contribuições, todas sobre os Jogos Olímpicos. A primeira, escrita por mim, é uma reflexão sobre os Jogos como fenômeno contemporâneo, nascentes junto com os primeiros suspiros do que Eric Hobsbawm chamou de short century, mas em movimento que se atualiza em tempos em que tudo parece ser imagem. Wagner Camargo comenta o desempenho brasileiro nos Jogos de Londres, analisando-os nos termos das posições geopolíticas das nações olímpicas, dos investimentos nacionais e das expectativas que temos sobre o sucesso e o fracasso de nossos atletas. Finalizando esta seção, Michelle Gonçalves narra uma experiência como espectadora presente nas últimas Olimpíadas, mostrando como o prazer sensorial corresponde, em certa medida, àquele identificado por Hans Ulrich Gumbrecht, o de fruir a beleza dos esportes. Educação recebe um breve texto meu sobre a importância da educação infantil para a formação das crianças, em especial no que se refere, no interesse desta consideração, à formação para a vida pública e ao combate contra todo tipo de obscurantismo. Contemporânea segue recebendo textos, sempre procurando conversa livre, a boa polêmica, o livre pensamento. Sintam-se convidados a ler, criticar, escrever. Ilha de Santa Catarina, 20 de setembro de 2012. Alexandre Fernandez Vaz Nesta edição: Arte e Crítica CHEYENNE – THIS MUST BE THE PLACE Michelle Carreirão Gonçalves Cultura do Futebol FUTEBOL EM SUA FACETA "GENI" Mozart Maragno RESENHA: BENINI, Paulo André Cren. O Jogo da Minha Vida: história e reflexões de um atleta. São Paulo: Leya, 2012 Carlus Augustus Jourand Correia Política e Sociedade OLIMPÍADAS Alexandre Fernandez Vaz POLÍTICA ESPORTIVA, MEDALHAS E UMA GEOPOLÍTICA À BRASILEIRA Wagner Xavier de Camargo LONDRES 2012: UMA EXPERIÊNCIA OLÍMPICA Michelle Carreirão Gonçalves Educação EDUCAÇÃO INFANTIL: CARÁTER PÚBLICO E FORMAÇÃO ILUMINISTA Alexandre Fernandez Vaz 1 http:/ / nu cle o de e stu do se pe squi sa s. blo gs pot. com .b r/ blog d onu cl eo @gma i l. co m 1
  2. 2. CONTEMPORÂNEA NÚMERO Uma quase Revista do Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea 02 AGOSTO 2012 1 ARTE E CRÍTICA CHEYENNE – THIS MUST BE THE PLACE Michelle Carreirão Gonçalves Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação /UFSC Dia desses assisti ao filme Cheyenne – This Must Be É interessante como o diretor italiano Paolo The Place (Aqui é o meu lugar, no Brasil) em um Freiluftkino Sorrentino trabalha com um jogo de cores nas diferentes (cinema a céu a aberto) de Berlim. O título é uma passagens de Cheyenne. Em Dublin, os tons são mais homenagem à homônima canção dos Talking Heads, no acinzentados, mais escuros, assim como a vida monótona filme interpretada pelo ex-vocalista da banda, David e depressiva; em Nova York as cores são vivas, agitadas Byrne, em pequena e especial participação. A experiência como a grande metrópole; no interior estadunidense, mais de assistir um filme em um parque, sentada numa cadeira no Novo México, as tonalidades passam por colorações do tipo espreguiçadeira, enrolada num cobertor (sim, amareladas, áridas, secas como a terra; já em Utah é porque as noites de verão alemão, muitas vezes, são frias), possível ver o branco e o azul gélido, anunciando o queSobre a autora em meio a árvores e tendo apenas o céu estrelado sobre está por vir. minha cabeça, já valeria a viagem. Mas o filme também A saga de Cheyenne em busca do algoz de seu paiMichelle Carreirão Gonçalves é não decepcionou. é claramente seu movimento de maturação. Ele sai deLicenciada em Educação Cheyenne é o personagem principal interpretado Dublin, da segurança do lar, seu esconderijo de menino,Física/UFSC; Mestre em por Sean Penn, um roqueiro gótico que parece ter parado com o andar cabisbaixo e o olhar desprotegido, encarandoEducação/UFSC; Graduanda do nos anos 1980, com suas roupas pretas, cabelo a dureza e a indiferença na cidade grande, as dores e acurso de Filosofia/UFSC; desarrumado, maquiagem carregadíssima no pó branco, insensibilidade no interior, a decadência e a outra versãoDoutoranda do Programa de Pós- no lápis preto e no batom vermelho. A referência é da história no “fim do mundo”. E faz isso com sua roupa,Graduação em Educação/UFSC; claramente Robert Smith, vocalista do The Cure, que fez penteado e maquiagem de adolescente, carregando suaBolsista CNPq (UFSC/Leibniz muito sucesso naquela década, com músicas como Boys inseparável mala de rodinhas. Por sinal, CheyenneUniversität Hannover); Membro do Don’t Cry e Friday I’m in Love. Além disso, há pitadas de aparece quase todo o filme, puxando algo (antes da mala,Núcleo de Estudos e Pesquisas Edward Mãos de Tesoura – interpretado por Johny Deep no há uma cesta de compras, também com rodas), umEducação e Sociedade filme homônimo (Edward Scissorhands, 1990) – e do apêndice, um peso que saiu de seus ombrosContemporânea. também roqueiro Ozzy Osbourne, que aparecem nos (parafraseando o próprio personagem numa das cenas em trejeitos de Cheyenne, no jeito de andar, de falar e olhar. que conversa com o inventor da mala com rodas), mashttp://buscatextual.cnpq.br/buscat Cheyenne é um rockstar decadente que tem em que o persegue, que dificulta sua caminhada, que o atrasa,extual/visualizacv.do?id=K4770696 Dublin uma vida chata, cercado por sua mulher-bombeira que o torna cada vez mais deprimido. Não se sabe se oU7 (Frances MacDormand), um cachorro e uma fã que ele carrega é culpa pelo que ocorreu com seus fãs, inseparável, Mary (Eve Hewson que, por sinal, é filha de mágoa pelo rompimento com o pai, ou mesmo a Bono Vox, do U2, mais uma referência ao rock). Seus dias fragilidade e incapacidade de tomar sua vida nas própriasContato: são gastos entre ir ao supermercado, isolar-se na solidão mãos (sua esposa é a figura forte e dominante da casa e,michelle_carreirao@yahoo.com.br da casa, ou ainda, tentar mediar o desespero da mãe de nesse sentido, mais próxima do arquétipo masculino; ela é Mary, por conta de um mistério que envolve seu filho pai ao dar segurança, mãe ao consolar, esposa na Tony. A reviravolta acontece quando Cheyenne tem de intimidade da cama). De toda forma, é somente depois de voltar à Nova York para rever o pai à beira da morte e sofrer seu tardio e longo rito de passagem, que Cheyenne com quem não mantinha contato havia trinta anos. Mas consegue encontrar seu lugar, deixando para trás a ele chega tarde, por conta de uma das suas fantasia de uma vida infanto-juvenil alegre e leve, e excentricidades, e não consegue se despedir. No assumindo, finalmente, os riscos, a responsabilidade, as momento em que reencontra a família judia, descobre que dores e as delícias de ser adulto. o pai passou grande parte da vida procurando o torturador que o havia supliciado em Auschwitz. É aí que o filme muda de vez. Cheyenne toma para si a busca do pai, e sai rodando pelo interior dos EUA, no melhor estilo road movie. 1 http:/ / nu cle o de e stu do se pe squi sa s. blo gs pot. com .b r/ blogd onu cl eo @gma i l. co m 2
  3. 3. CONTEMPORÂNEA NÚMERO Uma quase Revista do Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea 02 AGOSTO 2012 1 CULTURA DO FUTEBOL FUTEBOL EM SUA FACETA "GENI" Mozart Maragno Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação /UFSC No momento de fechamento olímpico, quando a O contraste é claro, sedutor para a tradicional acidez seleção brasileira de futebol masculino foi medalha de nativa em relação aos bem sucedidos, mas perigoso. prata - ou seja, um resultado abaixo do que era esperado Vamos para as obviedades que o leitor está cansado de pelo grupo, pela imprensa, pelos torcedores –, saber: o futebol é o esporte mais popular do planeta, o de identifiquei um fenômeno interessante nas redes sociais, maior mercado, de maior mídia, com maior penetração caixa de ressonância “à quente” do cotidiano: um popular. Tudo isso proporciona aos bem sucedidos, como ressentimento em relação ao futebol masculino, sobretudo é o caso de Neymar, um status que o boxeador olímpico quando colocado em contraposição às modalidades jamais terá. O garoto de Mogi das Cruzes também não esportivas com menos visibilidade e apoio. Esse teve uma trajetória tranquila. A cobrança e pressãoSobre o autor ressentimento, essas manifestações, em alguns momentos apareceram desde cedo. Trata-se de um fenômeno hostis diante de um fracasso futebolístico, não são algo esportivo como poucos. Raros são os chegam à suaMozart Maragno é Licenciado em recente. Vários dos estudos sócio-culturais dedicados a condição aos 20 anos de idade. O futebol, por outro lado,Educação Física UFSC, Mestrando eventos de futebol já apresentaram interessantes análises tem um grau de imprevisibilidade muito maior que odo PPPGE/UFSC e Servidor do sobre a temática. Não foram poucas as ocasiões em que voleibol ou o boxe. Outra obviedade: uma equipe deInstituto Federal de Santa Catarina – vilões foram eleitos no futebol brasileiro. A derrota na menor condição técnica pode mais facilmenteCampus Ararangua. Copa do Mundo de 1950 é um belo exemplo disso – surpreender. Lembro que o futebol brasileiro jamais pode mesmo que trabalhos acadêmicos, como o de Antonio ser menos que o máximo, que campeão. E mesmo quandohttp://buscatextual.cnpq.br/buscat Jorge Soares, em seu doutoramento, não corroborem ganha, se não for de uma forma mais próxima dasextual/visualizacv.do?id=T127252 todas as “teses” enfatizadas no discurso popular das “tradições nacionais”, com o “nosso jeito”, com o “futebol- últimas décadas. No caso da medalha de prata de arte”, pode ser uma conquista com asteriscos (a seleçãoContato: Londres, com Neymar, Mano Menezes e companhia, campeã de 1994 não seria um exemplo de tensão nesse aparece um elemento novo, isto é, a crítica de amantes de sentido?). Diante desse grau de exigência, Londres 2012mozartmaragno@gmail.com outras modalidades que denunciam a monocultura mais uma vez foi um prato cheio para as comparações e a esportiva do país, as regalias que os atletas de futebol têm malhação da Geni, o futebol masculino brasileiro, já e os demais não, que atrasariam o desenvolvimento cobrado na máxima potência seja em Copas do Mundo ou brasileiro rumo a ser potência olímpica. Isso tudo, claro, é em qualquer amistoso. Refresco a memória do leitor de visão de sujeitos que se manifestam no contexto citado. quando o intelectual Emerson Leão já dizia que “na As três medalhas do boxe brasileiro, por exemplo, seleção, tudo vale tudo”. Dessa forma, no momento em acenderam o alerta para essa comparação. Justamente o que o esporte bretão vira parte de um todo muito menos boxe, cujos protagonistas são profundamente humildes badalado no dia a dia, como nos Jogos Olímpicos, acaba em origem e percorreram os caminhos mais tortuosos sendo alvo preferencial do ressentimento geral. Nada que para o sucesso esportivo máximo, que é subir ao pódio surpreenda em termos de Brasil, onde a oscilação que o nos Jogos Olímpicos. Os irmãos capixabas Yamaguchi e futebol provoca entre o “somos os melhores do mundo” e Esquiva Falcão, com histórias de vida cinematográficas, a autodepreciação implacável é cotidiana. conquistaram, nas próprias palavras deles, “mais que o futebol” em Londres. Isso, não há dúvidas, pode provocar comoção geral durante as duas sagradas semanas. Esquiva foi tão medalha de prata quanto a estrela Neymar, de salário estratosférico, de mil e uma propagandas na televisão, xodó, ídolo, “queridinho da mídia”. O sucesso permanente do voleibol e, em outras Olimpíadas, do futebol feminino, também gerou reações duras diante de mais um “fracasso” dos rapazes (a medalha de ouro inédita não veio mais uma vez). Embora com toda estrutura gerada ao longo de muitos anos, o voleibol, evidente, não desfruta das mesmas condições midiáticas do futebol e, com muita luta, encaixa uma final de liga nacional em emissora aberta. O futebol feminino, pela própria gestão (?) da CBF, já escancara as diferenças. 1 http:/ / nu cle o de e stu do se pe squi sa s. blo gs pot. com .b r/ blogd onu cl eo @gma i l. co m 3
  4. 4. CONTEMPORÂNEA NÚMERO Uma quase Revista do Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea 02 AGOSTO 2012 1 CULTURA DO FUTEBOL RESENHA BENINI, Paulo André Cren. O Jogo da Minha Vida: história e reflexões de um atleta. São Paulo: Leya, 2012 Carlus Augustus Jourand Correia Mestrando em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro O Jogo da Minha Vida: Historias e reflexões de um profissionalização não elimina as dificuldades enfrentadas atleta é um livro exemplar em diversos aspectos. O no futebol, mas as transforma em outras, principalmente esporte e mais especificamente o futebol é, há muito em relação aos cuidados com o corpo, ao enfrentamento tempo, teorizado, discutido e narrado por historiadores, das lesões e à convivência com empresários e dirigentes. antropólogos, sociólogos e diversos outros pensadores Em contrapartida, são relatas as alegrias de jogar futebol, das Ciências Humanas. Contudo, esse debate e esses principalmente no momento das vitórias, e a possibilidade estudos ainda carecem muito da participação ativa dos de obter recursos financeiros para ajudar a família, nativos do futebol quando se trata de expor suas ideias e conhecer novos lugares no mundo e aprender sobre novasSobre o autor tomar a palavra para si. culturas. A atuação pelo Corinthians ganha força emCarlus Augustus Jourand Correia é Nesse ponto as autobiografias dos atletas ainda função da conquista do título Brasileiro.graduado em História pela são escassas, sendo um dos poucos exemplos a do ex- A terceira e última parte traz para os leitores asUniversidade Federal Fluminense atleta Zé Mario1. O livro de Paulo André vem acrescentar ideias e questionamentos de um jogador para com seu(UFF) e mestrando em Educação muito em nosso conhecimento sobre futebol e nossas esporte, ou mais próximo de nossa realidade dopela Universidade Federal do Rio de indagações não só sobre o jogo, mas também sobre a trabalhador com o seu próprio labor. Paulo AndréJaneiro(UFRJ). Membro do estrutura por trás dele. praticamente conversa com o leitor e expõem suasLaboratório de Estudos do Corpo Paulo André é atualmente jogador do concepções sobre como se comportar como atleta, sobre as(LABEC) e do Núcleo de Estudos e Corinthians, atuando como zagueiro, mas também mazelas na formação no futebol e como o cuidar do corpoPesquisa em Esporte e Sociedade desempenha as ocupações de escritor e artista plástico. e da mente, elementos fundamentais para o sucesso e(NEPESS) desenvolve pesquisas na Iniciou a carreira aos 15 anos no São Paulo Futebol Clube desenvolvimento do jogador profissional. Através de suasárea de História, Sociologia e e passou por diversos clubes no Brasil, tais como Guarani reflexões, o autor desnuda a estrutura do futebol nacionalEducação com enfoque nas relações de Campinas e Atlético Paranaense. Além disso, atuou e dialoga com os vários atores participantes desseentre esporte, sociedade e educação três anos na Europa, jogando pelo Le Mans da França, processo, tais como pais, dirigentes, expectadores e osno Brasil e no Mundo. regressando em 2009 para defender o Corinthians. Paulo jogadores, estejam eles em formação ou sendo já André pode ser considerado uma exceção no meio profissionais.http://buscatextual.cnpq.br/buscat futebolítisco atual, caracterizado pelo tom blasé dos O livro O Jogo da Minha vida é, no entanto, muitoextual/visualizacv.do?id=S4332342 discursos. Muito articulado com as palavras e as ideias, mais que uma biografia, um rico material para pensarmos busca conciliar ao máximo o futebol e os estudos de a realidade do futebol brasileiro através dos olhos de um forma autodidata, para que possa praticar a reconversão nativo do campo esportivo que possui o devidoContato: profissional ao final de sua carreira, como ele mesmo distanciamento que nos leva a bem compreender oscabelovf@hotmail.com destaca no livro. Toda essa sua trajetória é o combustível problemas e a estrutura do futebol nacional, e o fio condutor da autobiografia. principalmente no que concerne à formação de nossos A obra está dividida em três partes. A primeira atletas. O livro é um retrato do futebol nacional e a intitula-se Futebol amador e nela Paulo André relata desde história de Paulo André poderia ser, na verdade, a de o momento em que decidiu se tornar um jogador de muitos outros jovens no Brasil, sendo necessário para isso futebol, na infância, até a assinatura de seu primeiro que apenas fosse trocado nome do autor. contrato profissional, com o Guarani de Campinas. Nessa Talvez a primeira parte do livro seja a mais primeira parte são descritas as “veias abertas da formação interessante por mostrar uma realidade ainda pouco de atletas”2, ou seja, as dificuldades e o cotidiano das conhecida ou divulgada na mídia para os espectadores de categorias de base no futebol brasileiro vivenciadas por futebol. Nela é evidenciado um esporte sem ele. regulamentação ou fiscalização efetiva, que estimula seus O autor procura desconstruir as ideias divulgadas jovens a buscar a profissionalização no futebol, mas que na grande mídia sobre o sucesso da profissão de jogador quase não oferece amparo para seu desenvolvimento de futebol e suas facilidades. Com isso, Paulo André esportivo, e muito menos incentivo para a formação de relata o caminho percorrido por ele antes de ser um cidadão nos bancos escolares. Por isso, no texto são profissional e as várias dificuldades e incertezas que o mostradas as dificuldades de conciliação da escola com o esporte lhe proporcionou, além dos diversos sacrifícios futebol, produzindo jovens que somente sabem jogar, mas que precisou enfrentar para alcançar seu objetivo. sem possibilidade de reconversão profissional em caso de não obterem sucesso na carreira ou quando se retirarem dos palcos esportivos. 1 http:/ / nu cle o de e stu do se pe squi sa s. blo gs pot. com .b r/ 4 blogd onu cl eo @gma i l. co m
  5. 5. CONTEMPORÂNEA NÚMERO 02 Uma quase Revista do Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea AGOSTO 2012 1 Além disso, é posta em análise a quantidade de Esse processo foi influenciado pelo processo dejovens que serão excretados desse circuito futebolístico e hipermercantilização do esporte mundial verificado aque, sem escolarização adequada, acabarão ocupando partir da década de 1970 com o desenvolvimentopostos de trabalho subvalorizados. Nesse ponto devemos tecnológico, proporcionado pelo avanço dos meios delembrar que os relatos de Paulo André, corroboram as comunicação e transporte, o desenvolvimento da televisãoassertivas de Arlei Damo sobre a formação de e a ampliação do número de pessoas interessadas emfutebolísticas à "brasileira"3, ou seja, privilegiando quase acompanhar as competições. Através disso, ocorreu aexclusivamente a obtenção de capitais futebolísticos. multiplicação do público e conseqüentemente, o potencial Apesar de Paulo André poder ser caracterizado mercantil do esporte, fato que traria mudanças nacomo um jogador exceção na sua concepção de organização dos torneios e nas próprias regras que dãoestruturação sobre o futebol no Brasil e no mundo, em formato às modalidades esportivas.determinados elementos esse atleta ainda perpetua em Isso ficou bem claro na associação da FIFA com asseus discursos alguns elementos do senso comum grandes empresas multinacionais, como a Adidas e a 1BARROS, José Mario de. Futebol: Porque foi...futebolístico. Coca-Cola principalmente a partir do início da década de Porque não é mais. São Paulo: SprintCom isso, é interessante analisar o livro também como um 1980 transformando essa federação esportiva quase que Editora,1990.discurso cristalizado do atleta e como a representação de numa empresa do ramo do entretenimento. Assim a 2Esse termo é uma paráfrase ao livro de Eduardosua visão sobre o esporte e o futebol. Nesse ponto, cabe exposição cada vez maior desses esportes em um contexto Galeano intitulado “As veias abertas da Américaressaltar novamente que Paulo André é um nativo desse televisivo na década de 1980 e sua consolidação na década Latina”. Nesse livro o autor disserta sobre a história da América latina expondo eventos decampo e com isso possui, por dentro dessa estrutura, de 1990 proporcionou o consumo deles em formas grande impacto para a história do continente.certo conhecimento de seu funcionamento, mas talvez inéditas e estabeleceu a construção de um esporte- 3Esse denominação de modelo à “brasileira” foinão consiga observá-la como um maior distanciamento espetáculo e do jogador-mercadoria. cunhado pelo antropólogo Arlei Sander Damoem determinados pontos. O jogador não é mais somente um especialista em (2007) para descrever as especificidades da formação dos atletas brasileiros mais focados na determinado ofício, ele é também uma imagem a ser obtenção de capitais futebolísticos do que na “os nativos, mestres e aprendizes têm veiculada a produtos e demandas que só podem ser formação educacional básica. um domínio difuso do que sejam as valorizados se suas performances dentro e fora de campo 4DAMO, Arlei Sander. Do Dom a Profissão: categorias amplas instituídas pelo estiverem boas. Sendo essas performances fora de campo formação de futebolistas no Brasil e na França. Estado e pela FIFA, o que não impede São Paulo: Aderaldo e Rothschild Editora, entendidas como as práticas sociais valorizadas numa que eles as manipulem e observem- Anpocs, 2007. Pág 145 sociedade capitalista, tais como o ascetismo, a disciplina e nas”4 o profissionalismo em suas atitudes. Esse talvez seja o motivo pelo qual ao longo de O trabalho duro, compromissado e árduo é, dessatodo o livro ele realize diversas críticas ao futebol forma, parte do profissionalismo propagandeado pelobrasileiro, à formação das categorias de base e ao autor e visto como condição sine qua non para acomportamento dos atletas, mas sem indicar com precisão sobrevivência dos mais aptos, como descreve na terceiraa quem as críticas se dirigem. Isso mostra como ele tem o parte, intitulada de Reflexões. Com isso, mesmo que nãoconhecimento dos problemas, consequência direta de perceba, reitera o discurso do mercado com sua mãosuas experiências cotidianas, mas não consegue invisível premiando e selecionando os atletas que mais secompreender os delineamentos macrossociais desses encaixam na lógica de comportamento do modeloprocessos. considerado ideal e valorizado nesses novos tempos de Nesse ponto o livro procura romper com as mercantilização do esporte. O atleta-máquina, dócil, masrepresentações do jogador apenas como ícone pop da também consciente de suas funções como atleta.cultura globalizada e igualmente discutir a própria A biografia de Paulo André avança bastante aoestrutura de formação dos atletas. No entanto, não “colocar para jogo” bastidores da formação, comconsegue avançar mais em suas análises, pois recai em indagações e opiniões de alguém que está cotidianamentediscursos pré-formatados sobre o sucesso e sua relação imerso nesse campo e pode, dessa forma, suscitar debatesdireta com o comprometimento nos treinos, na obediência para além da academia. Mas essa imersão no campoas hierarquias e ordens dentro do clube e na manutenção esportivo ao mesmo tempo internaliza discursos edo condicionamento físico. Dessa forma, reproduz as posicionamentos que valorizam atitudes, e concepçõesconcepções dominantes sobre o comportamento esperado responsáveis pela legitimação das práticas do mercadodos atletas. dentro do futebol. Sendo assim a imersão no campo é um Toda essa obra é na verdade a narração de uma elemento importante para compreender questões muitastrajetória vitoriosa de um atleta que supera as vezes conhecidas apenas pelos nativos, mas também podeadversidades e os problemas por meio do trabalho duro, trazer os perigos de concepções naturalizadas eda privação e da responsabilidade. A fala de Paulo André atemporais, como se determinadas práticas realizadas poré um elogio ao profissionalismo do jogador de futebol, eles fossem um processo natural, inexorável e realizadospara que ele se torne um atleta e não apenas um jogador, “desde sempre”.como destaca o autor. No mais o livro deve ser visto como um olhar do Esse discurso do atleta que começou a jogar a nativo sobre sua realidade, mas também como uma fontepartir de 1995 é consequência direta do processo de histórica e sociológica do futebol nacional, observando-setransformação pelo qual passa o futebol brasileiro desde o em seu interior a construção do discurso e o contexto nofinal da década de 1990, com uma maior qual foi produzido.profissionalização dos campeonatos e da estrutura dosclubes de futebol. Nessa questão a profissionalização dojogador também é requerida e preconizada pelosinstrumentos midiáticos, os investidores e os torcedores.Isso porque estando o futebol imbricado no sistemacapitalista mundial e sendo dentro dele uma mercadoria,a obtenção de lucros e manutenção como produtoatraente está diretamente relacionada com a forma de 1gestão e atuação dos atores diretamente envolvidos com o http:/ / nu cle o de e stu do se pe squi sa s. blo gs pot. com .b r/jogo. 5 blogd onu cl eo @gma i l. co m
  6. 6. CONTEMPORÂNEA NÚMERO Uma quase Revista do Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea 02 AGOSTO 2012 1 POLÍTICA E SOCIEDADE OLIMPÍADAS Alexandre Fernandez Vaz Professor da UFSC Os Jogos Olímpicos de Londres atualizaram o absteve de cantar louvores ao regime nazista que, por sua mito do encontro esportivo entre nações celebrado a cada vez, não se furtou de fazer o elogio ao corpo esportivo quatro anos. Decalcando as Olimpíadas da Antiguidade, "puro", asséptico, higiênico, sem misturas, máculas ou os Jogos modernos deveriam reafirmar a paz e a união história, condição que corresponde ao totalitarismo. entre os povos, suspendendo as eventuais guerras para Apesar das inúmeras e rigorosas regras para a sua realização, segundo o espírito do ideário do Barão de captação e divulgação de imagens, os Jogos de Londres Coubertin. Ele e outros aristocratas, no final do século foram, sem dúvidas, a edição olímpica em que elas com dezenove, levaram adiante aquele objetivo que quase mais velocidade e alcance estiveram disponíveis. De soava anacrônico em tempos já de sociedade burguesa atletas e público foi exigida toda uma etiqueta a ser consolidada: reunir atletas para, sem interesse financeiro, cumprida nos locais de competição, sendo a preocupação representarem a si e a seus países em uma contenda maior a de não ferir os interesses dos patrocinadores. Nas esportiva. O prazer desinteressado deveria vir antes da praças esportivas não se podia consumir alimentos que busca frenética por recordes e vitórias. não os oficiais, tampouco estava autoriza a manifestação Quase que um último suspiro da aristocracia, em política. seu impulso neoclássico de restauração de um poder De fato, os Jogos já foram lugar de embatesSobre o autor ferido de morte cem anos antes, com a Revolução históricos para além dos campos esportivos, como o gesto Francesa, os Jogos proibiram durante muito tempo a de dois velocistas estadunidenses medalhistas no México,Alexandre Fernandez Vaz é Doutor participação de profissionais. Nada mais estranho ao em 1968, punhos em luvas negras erguidos durante opela Leibniz Universität Hannover. mundo aristocrático do que a democracia e o trabalho hasteamento da bandeira a execução do hino nacional naProfessor dos Programas de Pós- para o próprio sustento, de forma que aqueles que cerimônia de premiação. Ou como os boicotes de paísesgraduação em Educação e ganhavam a vida com o próprio corpo deveriam ficar africanos em 1976, dos Estados Unidos e vários aliados emInterdisciplinar em Ciências alheios à festa. Em arroubo sexista, inicialmente também 1980, dos soviéticos e sua área de influência em 1984.Humanas da Universidade Federal vedavam a participação de mulheres, já presentes, no Foram também lugar de terrorismo, a exemplo dode Santa Catarina (UFSC). entanto, na segunda edição das Olimpíadas. sequestro e assassinato de onze atletas israelenses nosCoordenador do Núcleo de Estudos Nas Olimpíadas de Londres não vimos nada Jogos de Munique, em 5 de setembro de1972, por ume Pesquisas Educação e Sociedade disso. Lá estavam atletas altamente profissionais a comando palestino que desejava intercambiá-los porContemporânea (UFSC/CNPq). disputar medalhas acompanhadas de bônus por vitórias e presos em Israel. A assepsia política atual não visa aPesquisador CNPq. de uma exposição jamais experimentada. Historicamente, proteção do ideal aristocrata da paz nesses dias de Jogos, a presença de profissionais nas competições foi sendo como faz supor a indústria do entretenimento, mas ahttp://buscatextual.cnpq.br/buscat paulatinamente tolerada, primeiro no futebol, depois em proteção do grande negócio que o evento é.extual/visualizacv.do?id=B295957 outros esportes. A discussão foi inteiramente superada Terá sido impossível controlar as milhares de com o fim da Guerra Fria. Os países que compunham o pessoas com seus refinados aparatos tecnológicos a captar,Contato: Pacto de Varsóvia se orgulhavam de promover o espírito montar e divulgar imagens e textos de forma quasealexfvaz@uol.com.br olímpico, negando o profissionalismo, mas abrigando, instantânea. Os próprios expectadores foram personagens sob forte apoio estatal, seus atletas, demarcando um dos dos enredos que inundam as redes sociais, assim como os muitos paradoxos do socialismo real, a defesa de um atletas. Walter Benjamin disse nos anos 1930, que o ator de modelo esportivo aristocrático. Pensando bem, é enorme cinema atuava no enfrentamento da câmera; Riefenstahl a coerência da plutocracia soviética com o esporte inventou os atletas como atores modernos, assim como olímpico, em especial no contexto da corrida tecnológica fizera com os políticos em Triunfo da Vontade, perpetrada por ela e pelos países da OTAN. Conquista do documentário sobre um congresso do Partido Nazista. O espaço, armamentos para os conflitos do Terceiro Mundo esporte há muito que não é apenas documentado ou e instrumentalização dos corpos no esporte (em que transmitido, mas produzido e realizado para ser pontificava o doping), foram armas importantes na capturado pelas lentes que cada vez mais são o batalha sem fronteiras que sucedeu a II Guerra Mundial e prolongamento do olho. Mercadoria espetacular, os Jogos que durou até o início dos anos 1990, quando o Império já não foram apenas em Londres, mas em todos os lugares Soviético caiu "como um castelo de cartas", segundo a ao mesmo tempo. expressão do historiador Eric Hobsbawm. O ideário aristocrata já não está presente nas O esporte sempre andou pari passu com as Olimpíadas, o que não deixa de ser uma vantagem. imagens que o divulgam. Contemporâneo do cinema e da Espetáculo global de atletas que devemos admirar pelas grande imprensa, os Jogos Olímpicos foram, em proezas, negócio dos mais lucrativos a mobilizar Berlim/1936, tema de uma das primeiras transmissões sentimentos difusos em nosso tempo, como o televisivas experimentais. Aquela Olimpíada inaugurou nacionalismo e a identificação patriótica. Melhor seria ver ainda a moderna maneira de filmar e, portanto, de ver tudo isso como um jogo, que sempre tem algo de gratuito esportes. Tudo o que se assiste hoje na TV pôde ser e simplório, de fascinante e grandioso. Aos Jogos antevisto antevisto no documentário de Leni Riefenstahl, Olímpicos, a devida importância. E nada mais. Olympia, na captação de imagens, na montagem ou na 1 narrativa. Nazista desde sua concepção, o projeto de Uma versão deste texto foi publicada no Diário Catarinense (DC Cultura) em 11 de agosto de 2012, sob o título de Olimpíada da Riefenstahl não é, no entanto, mostra de uma suposta imagem. "traição" aos ideais olímpicos pelos Jogos organizados pelo Nacional-socialismo. O Barão de Coubertin não se 6
  7. 7. CONTEMPORÂNEA NÚMERO Uma quase Revista do Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea 02 AGOSTO 2012 1 POLÍTICA E SOCIEDADE POLÍTICA ESPORTIVA, MEDALHAS E UMA GEOPOLÍTICA À BRASILEIRA Wagner Xavier de Camargo Doutor em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina Os jornais televisivos e virtuais noticiaram no é exemplo similar. O jovem país participou pela primeira último dia das Olimpíadas de Londres, que o Comitê vez das Olimpíadas em Londres-1948 e durante quase Olímpico Brasileiro (COB) anunciou ter cumprido a meta quarenta anos manteve-se nas últimas posições do esportiva planejada para o Brasil nos Jogos. Segundo famigerado quadro. A ascensão como Tigre Asiático e o consta, com R$ 100 milhões a mais para o esporte em redimensionamento da economia traduziram-se em relação ao que fora repassado pelas loterias no ciclo investimento em educação com reflexos claros no esporte, olímpico chinês (à época, R$ 231 milhões), o país cumpriu como se tem constatado. Se somadas as desta versão sua “missão”. olímpica de verão, o país totaliza 244 medalhas em sua Que geopolítica esportiva é essa, que com esse história. plus de milhões, só garantiu duas medalhas a mais em Estes dois países são exemplos a serem seguidos.Sobre o autor relação ao resultado de 2008? Como se pode avaliar a Terminam estas Olimpíadas em colocações campanha do país no conjunto dos resultados obtidos inquestionáveis: a Grã-Bretanha em 3º lugar, com 29Wagner Xavier de Camargo é nestes Jogos Olímpicos? As marcas e medalhas ouros, e a Coréia do Sul em 5º lugar, com 13 ouros.cientista social com mestrado em aguardadas na natação não vieram a contento. Nas classes Muitos dirão que tais efeitos foram possíveisEducação Física. Doutor em Ciências da vela, outras decepções: o "feijão com arroz básico" não porque tais países sediaram Olimpíadas – isto é, oHumanas pela Universidade Federal garantiu o que o potencial da modalidade predizia. O planejamento governamental refletiu-se em méritosde Santa Catarina (UFSC), foi atletismo só flertou com possibilidades e nada trouxe. No esportivos. Eu não apostaria tantas fichas nestebolsista da Deutscher Akademischer hipismo, diz-se que faltaram cavalos adequados. E teve argumento. E mais: os resultados concretos (eAustausch-Dienst (DAAD) em até algoz do lado das forças (sobre)naturais, como ventos sistematicamente melhorados em termos de número deestágio internacional na Freie demoníacos e usurpadores de chances. O boxe é caso medalhas) são sintomas de, no mínimo, forte investimentoUniversität Berlin (FU Berlin), excepcional e merece ser considerado à parte. No no esporte de base e clara política de detecção de talentos,Alemanha. Insere-se no campo dos alvorecer de sábado, penúltimo dia de competições na além de investimentos permanentes na manutenção deestudos antropológicos das práticas capital londrina, os meios de comunicação destacavam – jovens no meio esportivo. Não é preciso ir muito longeesportivas e dedica-se, com especial alguns de modo modesto, outros mais enfáticos – que a para colher um exemplo disso: se na Colômbia o grandedestaque, à investigação das campanha brasileira foi “a melhor dos últimos vinte capital de fomento ao esporte vem da esfera públicarelações de gênero entre anos”. Atente-se para o detalhe: desde Barcelona-92 não (como acontece em nosso país), distintamente daqui, lá semasculinidades nos esportes de íamos tão bem no quesito “total de medalhas”! mantém um programa de incentivo a milhares de criançascompetição. Ou seja, mesmo não entrando no mérito da com aptidão esportiva que necessitam do desempenho distribuição de ouros, pratas e bronzes, depois das 15 escolar para obterem o auxílio. Aqui os oficiais Comitêshttp://buscatextual.cnpq.br/buscat medalhas em Atlanta-96, 12 em Sydney-2000, 10 em Olímpico e Paralímpico investem unidirecionalmente noextual/visualizacv.do?id=B195056 Atenas-04, 15 em Pequim-08, agora foram as incríveis 17 alto nível e algumas ONGs que se propõem a inserir e medalhas conquistadas! Realmente um feito estimular crianças e adolescentes carentes em programasContato: surpreendente! Sozinho nesta versão olímpica, Michael esportivos, acabam suspeitas de corrupção e desvio dewxcamargo@gmail.com Phelps conseguiu mais ouros que os/as atletas/as verbas públicas. brasileiros/as (e mesmo que todas as modalidades em A reincidência à pergunta é para fazer pensar: que que o país esteve presente) lá nos Jogos. Sabe-se, geopolítica é esta em que um resultado de 17 medalhas é igualmente, que ele conquistou, em sua jovem carreira ovacionado? Só se for à moda brasileira mesmo. Aliás, esportiva, mais ouros do que a Argentina em toda a sua como já disse certa vez o inigualável Nelson Rodrigues: história olímpica. "O brasileiro não está preparado para ser o maior do Mas não pensem que apenas o Brasil tem este mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em histórico de resultados parcos, quase insignificantes. qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma Depois dos promissores anos do início do século XX, a grave, pesada e sufocante responsabilidade." Por essas Grã-Bretanha amargou desempenhos relativamente lógicas ilógicas é que continuamos fadados a vestir a fracos no quadro geral de medalhas, o que a levou a uma fantasia de “sempre brasileiros”: fazemos festa por duas política de remodelamento do sistema e replanejamento a anacrônicas medalhas a mais no quadro geral, bebemos médio e longo prazos após o fiasco de Atlanta-96 (quando nossa cerveja, amamos nossas mulheres (mulatas, os britânicos conquistaram, no total, apenas 15 medalhas). obviamente, porque vivemos de estereótipos) e na Nas versões sucessivas foram 28 (Sydney-2000), segunda-feira de trabalho já esquecemos tudo o que 30 (Atenas-04) e 47 medalhas (Pequim-08). O principal aconteceu. E que venha a festa apoteótica “Rio-2016”! foco foi incentivar esportes até então nacionalmente pouco desenvolvidos, como o ciclismo. A Coréia do Sul é 1 htt p:/ / nu cle o de e stu do se pe squi sa s. blo gs pot. com .b r/ blogd onu cl eo @gma i l. co m 7
  8. 8. CONTEMPORÂNEA NÚMERO Uma quase Revista do Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea 02 AGOSTO 2012 1 POLÍTICA E SOCIEDADE LONDRES 2012: UMA EXPERIÊNCIA OLÍMPICA Michelle Carreirão Gonçalves Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação /UFSC Sou fã de esportes. Adoro assistir as mais Atletas misturavam-se com ex-atletas e não atletas. Os diversas competições. E em tempos de Jogos Olímpicos, pontos turísticos estavam abarrotados de curiosos com fico completamente fora do ar, curtindo na frente da TV suas máquinas fotográficas, câmeras, celulares e tablets nas as duas semanas em que ocorre o maior evento esportivo mãos, querendo registrar o momento, os lugares, captar mundial. Neste ano, por conta da proximidade aquela atmosfera em que os heróis olímpicos descem e se geográfica, tive a oportunidade de estar na cidade sede misturam aos homens comuns. Já nas arenas, o dos Jogos durante os últimos dias da Olimpíada. movimento era outro: as ordinary people procuravam se Londres estava incrivelmente organizada e diferenciar por meio de pinturas, de fantasias, de gritos, preparada para receber os milhares de visitantes vindos enfim, das diversas formas de chamar a atenção daSobre a autora de todos os cantos do mundo para prestigiar, ver, torcer, câmera de TV. Ali, nada parecia mais importante do que sofrer e se alegrar com os Jogos. A cada esquina era ser filmado e ter a imagem projetada no telão da arena.Michelle Carreirão Gonçalves é possível encontrar duplas de policiais fazendo a Nem mesmo a torcida pela seleção preferida parecia serLicenciada em Educação segurança, mas também dando informações, auxiliando mais importante.Física/UFSC; Mestre em no que fosse preciso. Nas estações do Underground (o Nesse lugar cheio de deuses disfarçados de mortais,Educação/UFSC; Graduanda do metrô londrino), muitos voluntários dando dicas, e de mortais tentando ter seu momento estrelar, tambémcurso de Filosofia/UFSC; mostrando as direções e caminhos para os mais variados não contive a emoção ao me deparar com alguns atletasDoutoranda do Programa de Pós- locais de competição. Eles também podiam ser vistos nos conhecidos do Brasil: Flavio Canto (ex-judoca,Graduação em Educação/UFSC; parques e em diferentes lugares da cidade, com suas comentarista de uma emissora de TV), Fabiano PeçanhaBolsista CNPq (UFSC/Leibniz camisetas rosa e sua boa vontade, sempre prontos para (corredor de 1500m e 800m, prova que disputou), VirnaUniversität Hannover); Membro do ajudar. Muitos falavam outros idiomas, algo inclusive (ex-jogadora de vôlei, também comentarista) e Dani LinsNúcleo de Estudos e Pesquisas sinalizado nas respectivas camisetas (encontrei um desses (levantadora da seleção de vôlei, medalhista de ouro).Educação e Sociedade Staffs que tinha um pequeno botton dizendo “Ich spreche Mas foi o encontro fortuito com um campeãoContemporânea. Deutsch” – “Falo alemão” – e fiquei muito feliz, apesar de olímpico que me emocionou de um jeito inimaginável. estar me virando em inglês). E havia ainda as pessoas Quando aquele sujeito muito alto passou na direçãohttp://buscatextual.cnpq.br/buscat comuns, moradores da cidade, que foram também muito contrária a minha, entrando na estação de metrô,extual/visualizacv.do?id=K4770696 receptivos. Numa manhã, um senhor que saía de um reconheci seu rosto. Para confirmar, li em seu crachá:U7 prédio, ao ver eu e minha companheira de viagem, Joaquim Cruz. Eu e minha parceira de aventura olímpica Viviane Silveira, perdidas com um mapa na mão, não acreditamos no que vimos. Pensamos: “com ele atravessou a rua, mudou sua rota e veio nos perguntar, precisamos tirar uma foto”. E o chamamos de Joaquim,Contato: “What are you looking for?” assim, como se fôssemos íntimas. Ele se virou e pareceumichelle_carreirao@yahoo.com.br Para quem não tinha ingressos para assistir suas um pouco assustado, um tanto surpreso talvez, porque modalidades preferidas, era possível ir até algum grande não esperava ser parado ali, ainda mais por duas fãs que parque, como o Hyde ou o Victoria, e assistir, numa não são da geração que o viu correr e brilhar nas pistas do imponente estrutura montada com telões, praça de mundo (ele foi campeão olímpico em 1984, quando eu alimentação, banheiros e atividades de lazer, o que tinha apenas 1 ano de idade). Mas foi incrivelmente estivesse sendo transmitido por lá, geralmente disputas simpático e atencioso. Aquele foi meu momento olímpico, com participação de equipes da Grã-Bretanha ou as finais completamente mágico, quando Joaquim Cruz, um dos das modalidades. meus ídolos do atletismo, dedicou um breve instante do Fiquei impressionada com a quantidade de “sem seu tempo para oferecer uma imagem sorridente para a ingressos” pela cidade. Havia bastante gente tentando fotografia, capturada pela objetiva e retida de modo descolar algo em frente aos estádios e ginásios, horas singular na minha memória. E é a ele e a todos os atletas antes das partidas. Muitos brasileiros, inclusive. Por sinal, que me fizeram e ainda me fazem emocionar, me a presença brasileira também me impressionou, com suas surpreender e me fascinar ao ver esportes, que agradeço. fantasias verde-e-amarelas, suas bandeiras enchendo a Nisso concordo com Gumbrecht: não há nada mais cidade. Nada como viver em tempos de economia importante a agradecer ao esporte do que o prazer que ele aquecida em terras tupiniquins. nos proporciona. Pelas ruas da cidade, por todos os cantos, gente, muita gente, com as mais diversas caras, línguas e cores. Vestindo uniformes, camisetas, trazendo bandeiras. Atletas 1 http:/ / nu cle o de e stu do se pe squi sa s. blo gs pot. com .b r/ blogd onu cl eo @gma i l. co m 8
  9. 9. CONTEMPORÂNEA NÚMERO Uma quase Revista do Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea 02 AGOSTO 2012 1 EDUCAÇÃO EDUCAÇÃO INFANTIL: CARÁTER PÚBLICO E FORMAÇÃO ILUMINISTA Alexandre Fernandez Vaz Professor da UFSC A educação infantil é direito das famílias, em Da mesma forma, a pauta da educação infantil especial das crianças, e, como tal, obrigação do Estado. não pode ser a do calendário do comércio e do consumo. Meninos e meninas frequentam as instituições de Para ser formativa, ela deve apresentar às crianças formas educação infantil não só porque os pais trabalham, mas de interpretar o mundo que não equiparem poder de porque lá podem e devem ter experiências educativas compra e fascinação pela mercadoria a sucesso e singulares. Professoras com formação especializada e felicidade. Os pequenos são expostos a todo tipo de outros profissionais cuidam dos pequenos, colocando-os demanda do mercado, em especial neste país, em que a em contato mais próximo com o mundo elaborado pela televisão como alternativa de entretenimento, tem uma ciência e pela arte, com o quê já existia antes de eles onipresença brutal na vida de cada um de nós. A presença nascerem e é constantemente renovado. Brincar é agressiva da propaganda, com ofertas em cores e formas atividade própria das crianças, ainda que não com personagens e brinquedos que parecem exigir umSobre o autor exclusivamente delas. Na educação infantil encontram gozo sem limites, exige a disposição para o combate espaço, tempo, materiais e mediações de pares e de pedagógico. Oferecer outros modelos de interpretação doAlexandre Fernandez Vaz é Doutor adultos para isso. Com as brincadeiras e outras mundo, distintos da indústria do entretenimento, é algopela Leibniz Universität Hannover. atividades, propostas ou espontâneas, elas aprendem que a educação não deve prescindir.Professor dos Programas de Pós- conceitos, desenvolvem o senso estético e a moralidade. A educação infantil é essencial para a formaçãograduação em Educação e As brincadeiras são experimentações lúdicas que não das crianças. Mas, para que sua promessa se cumpra,Interdisciplinar em Ciências prescindem de um movimento que é similar ao da precisamos levar muito a sério, e em sentido extenso, oHumanas da Universidade Federal composição da obra de arte, combinando a abertura dos caráter público da educação. Pequenos iluministas,de Santa Catarina (UFSC). sentidos com o esforço intelectual. sensíveis e não conformistas, para que possam se tornarCoordenador do Núcleo de Estudos Assim como depois fará a escola, a educação pessoas críticas e autônomas, é o que queremos que ase Pesquisas Educação e Sociedade infantil deve preparar as crianças para a vida pública, crianças sejam.Contemporânea (UFSC/CNPq).Pesquisador CNPq. para no futuro atuarem criticamente em sociedade. Como bem destacou Hannah Arendt, cabe aos adultos 1 O texto é devedor de contribuições de Ana Cristina Richter, mostrarem a elas o mundo que as recebe, ao mesmo Gisele Carreirão Gonçalves, Josiana Piccolli e Michelle Carreirãohttp://buscatextual.cnpq.br/buscat Gonçalves, sem que isso as torne responsáveis por qualquer dosextual/visualizacv.do?id=B295957 tempo em que devem protegê-las, desencarregando-as de equívocos nele presentes. Uma versão mais resumida foi tarefas e expectativas que são daqueles que já cresceram. publicada na coluna Opinião, do Diário Catarinense, n. 9649, emContato: O imenso desafio que se coloca para a educação é o de 19.ix.2012, p. 18, sob o título de Por uma educação infantil. efetivar a formação dos pequenos frente a este mundo,alexfvaz@uol.com.br sem deixar que neles se perca a possibilidade de transformação deste mesmo mundo. Como espaço de formação, a educação infantil diferencia-se da família em concepção, organização e práticas. Não há dúvidas sobre a importância da presença da família nas instituições de educação infantil, mas elas devem ter calendários distintos porque atuam na formação de forma diversa. Os eventos nas instituições, por exemplo, devem ser distintos das celebrações domésticas. É preciso diferenciar espaço público de vida privada. A educação pública não pode, por exemplo, fazer proselitismo religioso, mas reforçar o próprio caráter laico, inclusive por respeito à pluralidade de crianças que recebe. É bom que no interior da instituição os adultos coloquem entre parênteses suas crenças e que ajam sob os desígnios da razão pública. Professoras que expõem as crianças a canções e filmes religiosos, que as ensinam a rezar e as ameaçam com castigos "divinos", ou com quaisquer outros, devem rever sua prática. 1 http:/ / nu cle o de e stu do se pe squi sa s. blo gs pot. co m .b r/ blogd onu cl eo @gma i l. co m 9

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