Fluzz pilulas 4

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(Corresponde ao segundo tópico do Capítulo 1, intitulado No “lado de dentro” do abismo)

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Fluzz pilulas 4

  1. 1. Em pílulasEdição em 92 tópicos da versão preliminar integral do livro de Augusto deFranco (2011), FLUZZ: Vida humana e convivência social nos novos mundosaltamente conectados do terceiro milênio 4 (Corresponde ao segundo tópico do Capítulo 1, intitulado No “lado de dentro” do abismo) Mundos que se descobrem em redeO social não é o conjunto das pessoas, mas o que está entre elasA grande novidade do tempo em que vivemos não é o surgimento de umasociedade em rede (que, de resto, sempre existiu desde que existem sereshumanos em interação), mas a generalização do entendimento de quesociedade = rede social.Na verdade, não existe nada como ‘a’ sociedade: as sociedades são sempreconfigurações concretas e particulares que, olhadas de certo ponto de vista,revelam seres humanos em interação; quer dizer, a compreensão do socialsurge quando se constela a percepção de que não existem unidades
  2. 2. humanas separadas. De que o social não é o conjunto das pessoas, mas oque está entre elas. E de que cada mundo social é também (um modo deser) humano. A medida que esses mundos sociais vão se descobrindo emrede, como se diz, “as fichas vão caindo”. Vários aspectos surpreendentesdessa descoberta já podem ser registrados. O primeiro deles é que redesmais distribuídas do que centralizas são possíveis, sim, no “mundo real”.As redes sociais viraram moda nos últimos anos. Sites de relacionamento eserviços de emissão e troca de mensagens na Internet como, dentrecentenas de outros, MySpace, Facebook, Orkut e Twitter, que seautodenominaram (ou foram denominados) – impropriamente – ‘redessociais’, proliferaram na primeira década do século 21, registrando milhõesde pessoas.É fácil. Em geral não demora nem cinco minutos. Então muitos dessesmilhões de usuários de tais serviços acreditaram na conversa e acharamque, pelo fato de terem feito login e senha em um ou em vários dessessites, estavam “participando de redes sociais”.Fosse lá alguém dizer-lhes que redes sociais não são redes digitais ouvirtuais, mas, como o nome está dizendo, são sociais mesmo: um novopadrão de organização, mais distribuído do que centralizado. As pessoasnão entendiam as redes, antes de qualquer coisa porque não sabiam adiferença entre descentralizado e distribuído. Não percebiam quedescentralizado não é sem centro e sim com muitos centros. Sem centro édistribuído. Fig. 1 | Diagramas de Paul Baran 2
  3. 3. A figura acima mostra os famosos diagramas de Paul Baran (1964) (7).Note-se que os nodos estão no mesmo lugar, o que muda nos trêsdesenhos é a topologia, a configuração dos fluxos.A maioria das pessoas que se registraram nas tais “redes sociais”,entretanto, nunca tinha ouvido falar disso. De milhões de pessoasregistradas em sites de relacionamento e plataformas interativas, quantas,na hora de elaborar um texto, vídeo ou programa, organizar um evento,implementar ou executar um projeto, produzir algum bem, vender algumproduto ou prestar um serviço, atuavam em rede? E quantas abriram mãode dirigir, participar ou trabalhar em alguma organização hierárquica (querdizer, mais centralizada do que distribuída)?Mesmo os que já tinham ouvido falar das redes sociais como novo padrãode organização distribuído – mesmo estes – tentavam escapar dessaevidência aproveitando a profusão dos sites de relacionamento eplataformas interativas na Internet. A maioria fazia um blog ou seregistrava em alguma "rede social" e pronto: de vez em quando ia lá,postava um texto, um vídeo ou um comentário e dizia que "pertencia" auma (ou várias) rede(s). No restante do tempo, porém, essas pessoascontinuavam estudando, trabalhando, produzindo ou prestando serviços emorganizações hierárquicas (fosse uma burocracia escolar ou acadêmica, umaempresa, uma organização não-governamental ou uma instituição estatal).Havia exceções, é claro. Mas, na maior parte dos casos, era assim.Inclusive acadêmicos, militantes sociais e consultores que falavam tanto emredes sociais, por algum motivo tinham imensa dificuldade de articulá-las.Provavelmente porque não conseguiam experimentá-las. Bastava ver comoessas pessoas se relacionavam com as outras pessoas que lhe erampróximas: será que elas participavam de redes nos seus locais de moradia,estudo, trabalho, lazer ou em torno de seus temas de interesse?Em suma, as pessoas tendiam (e, em grande parte ainda tendem) a seorganizar – reproduzindo o que é de praxe - segundo um padrão deorganização centralizado ou multicentralizado. Para manter centralizações efiltros que caracterizam uma organização hierárquica, os mais inteligentesem geral argumentavam que “tem que haver uma transição”, ou que “umaorganização em rede distribuída (em um mundo como o nosso) é umautopia”. E argumentava assim inclusive boa parte dos que investigavam asredes sociais e publicavam sobre o assunto.Com o surgimento de novos mundos-fluzz, as coisas, entretanto, começama se passar de outro jeito. A idéia de que redes sociais (mais distribuídas do 3
  4. 4. que centralizadas) não são possíveis no “mundo real” (seja lá o que seentende por isso) como forma de (auto) organização da ação coletiva, foisendo abandonada. Essa idéia, como se sabe, está baseada no velhopreconceito de que nada que agregue uma pluralidade de seres humanospoderia funcionar sem administração (baseada em comando-e-controle),sem organização (a partir de modelos de ordem aplicados top down), semliderança (ou melhor, monoliderança).Foi ficando cada vez mais claro que, em qualquer lugar, pode-se “fazerredes”. Sim, em qualquer lugar: na vizinhança, na empresa, na ONG,entidade ou organização da sociedade civil, em um órgão governamental etcoetera. Pouco importa se a estrutura dessas localidades ou organizações évertical, hierárquica, centralizada: as pessoas que estão lá não são e não hácomo impedir que elas se conectem horizontalmente, de modo distribuído,umas com as outras. E não importa se todas as pessoas não estiveremdispostas a fazer isso. E não importa se a maioria das pessoas em cadauma dessas territorialidades ou organizações for contra isso. A partir de trêspessoas já é possível começar uma rede distribuída. Fazendo isso,articulando uma rede distribuída, cria-se uma “zona autônoma” (em relaçãoao poder centralizado). Se for uma rede distribuída (a rigor, mais distribuídado que centralizada), coisas surpreendentes começarão a acontecer (namedida do grau de distribuição e de conectividade alcançados). Uma novafenomenologia certamente acompanhará a nova topologia. Pode-se apostarque isso fará diferença. E que a diferença será notável.Nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio começa abrotar a consciência de que fazer rede é fazer amigos. Amigos políticos, nosentido original, grego, do termo ‘político’, que se refere à interação e àinserção na comunidade política; i. e., à polis – que não era a cidade-Estadoe sim a koinonia política (como assinalou Hannah Arendt em “A condiçãohumana” (1958): “a polis não era Atenas, e sim os atenienses”) (8). Isso éuma subversão completa das identidades organizacionais abstratas,construídas top down para alocar uma pessoa em um degrau da escada.Para que ela pise na cabeça de quem está no degrau de baixo e tenteultrapassar quem está no degrau de cima, agarrando-se a ele e puxando-opara baixo, como fazem os caranguejos em uma lata...Essa é a grande descoberta da democracia como movimento dedesconstituição de autocracia, instaurada na experiência local dos gregospara evitar a volta da tirania dos Psistrátidas (que, como qualquer podervertical, se baseava na inimizade política). Tratava-se de preservar aliberdade. Mas como escreveu a mesma Arendt, em “A questão da guerra”(1959): [para os gregos] “a liberdade... é um atributo do modo como os 4
  5. 5. seres humanos se organizam e nada mais” (9). Dizendo de outra maneira(e pulando algumas passagens da argumentação): a falta de liberdade éuma função direta dos superávits de ordem top down.Antes era mais difícil reconhecer isso: todas as organizações verticais sebaseiam na inimizade política: quanto mais centralizadas, mais “sealimentam” de inimizade e de seus bad feelings acompanhantes, como adesconfiança. Ora, é isso que torna imperativa a necessidade de controle e,por decorrência, a exigência de obediência.Fazer amigos é uma subversão de todos os mecanismos de comando-e-controle. Fazer amigos que se conectam em rede distribuída dentro de umaorganização hierárquica vai desabilitando ou corrompendo os scripts dosprogramas verticalizadores que rodam nessa organização. Redesdistribuídas, mesmo com pequeno número de nodos, funcionam, assim,dentro de uma organização hierárquica, como espécies de vírus; ou melhor,de anti-virus (pois em relação à rede-mãe – aquela rede que existeindependentemente de nossos esforços conectivos voluntários, à rede queexiste desde que existam seres humanos que se relacionam entre si – sãoos programas verticalizadores que devem ser encarados como vírus).Trata-se de uma infecção antiga, resistente, resiliente, que permanece namedida em que nós nos transformamos em vetores de contaminação pormeio de nossas formas de relacionamento. Cada piramidezinha queconstruímos, nos espaços privados e públicos que habitamos, na nossafamília, escola, igreja, entidade, corporação, empresa, partido ou governo,vai viabilizando a prorrogação da infestação do poder vertical. Pelocontrário, cada rede que articulamos vai dificultando a propagação dessevírus ou a replicação desse meme, por meio da criação de zonasautônomas, mesmo que sejam temporárias (e são, como percebeu HakimBey) (10), criando condições para que a confiança possa transitar (ou paraque o capital social possa fluir, se preferirmos usar essa metáfora), paraque a competição possa ser convertida em cooperação; enfim – em umsentido ampliado do termo – para a manifestação da amizade (ou parafazer “downloads” daquela emoção que Maturana (11) chamou... vejam só!,de amor, mas a palavra parece ser forte demais – um verdadeiro escândalo– e acaba chocando as pessoas que se imaginam preocupadas com coisas“mais sérias”.Mas não se trata de converter as almas por meio do proselitismo, dodiscurso ético normativo, exalçando as vantagens da cooperação sobre acompetição, como imaginavam os adeptos das concepções 2.0. Trata-se deadotar padrões de organização que viabilizem a conversão de competição 5
  6. 6. em cooperação. Parodiando Arendt, “a cooperação... é um atributo do modocomo os seres humanos se organizam e nada mais”. Se nos organizamossegundo um padrão de rede distribuída, isso começa a ocorrer“naturalmente”; quer dizer, é uma fenomenologia que se manifesta emfunção da topologia (e não das boas intenções dos sujeitos). Umaorganização hierárquica de seres animados pelas melhores intenções,cheios de amor-prá-dar, não se constitui como um ambiente favorável àcooperação. Em outras palavras, o capital social de uma organizaçãorigidamente centralizada será sempre próximo de zero, mesmo que talorganização seja composta por clones de Francisco de Assis ou por réplicasperfeitas de Mohandas Ghandi.Essas descobertas foram conseqüências da formidável irrupção-fluzz quecomeçou a alterar radicalmente nossos flowscapes conceituais eorganizacionais. Mas tem mais. 6
  7. 7. Notas(7) BARAN, Paul (1964). “On distributed communications: I. Introduction todistributed communications networks” (Memorandum RM-3420-PR August 1964).Santa Monica: The Rand Corporation, 1964.(8) ARENDT, Hannah (1958). A condição humana. Rio de Janeiro: Forense, 2001.(9) ARENDT, Hannah (1959). “A questão da guerra” in O que é política?(Fragmentos das “Obras Póstumas” (1992), compilados por Ursula Ludz). Rio deJaneiro: Bertrand Brasil, 1998.(10) BEY, Hakim (Peter Lamborn Wilson) (1984-1990). TAZ. São Paulo: ColetivoSabotagem: Contra-Cultura, s/d.(11) MATURANA, Humberto (1993). La democracia es uma obra de arte. Bogotá:Cooperativa Editorial Magistério, 1993. 7

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