C A D E R N O S                    D A




Este Caderno complementa a série de vídeos da tv escola


Deficiência Auditiva
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Presidente da República
Fernando Henrique Cardoso                                                  SUMÁRIO
Ministro da Edu...
Programa 1                                                       5



   A PESSOA SURDA:
   DO DIAGNÓSTICO
   À PARTICIPAÇ...
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   O BEBÊ SURDO: TORNANDO-SE
   INDEPENDENTE

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Programa 3                                                   25



   A CRIANÇA SURDA:
   CAMINHOS DA APRENDIZAGEM

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   ATENDIMENTO ESCOLAR:
   UM PROCESSO INTEGRADOR

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Os sinais s...
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   ADOLESCÊNCIA: CONSTRUÇÃO
   DA IDENTIDADE PESSOAL

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geral d...
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Cadernos da Tv Escola Deficiência Auditiva

  1. 1. C A D E R N O S D A Este Caderno complementa a série de vídeos da tv escola Deficiência Auditiva Maria Cristina da F. Redondo & Josefina Martins Carvalho MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA N. 1/2000
  2. 2. Presidente da República Fernando Henrique Cardoso SUMÁRIO Ministro da Educação Paulo Renato Souza Secretário de Educação a Distância Pedro Paulo Poppovic Secretária de Educação Especial Marilene Ribeiro dos Santos Secretaria de Educação a Distância Cadernos da TV Escola Diretor de Produção e Divulgação José Roberto Neffa Sadek Coordenação Geral Vera Maria Arantes Projeto e Execução Editorial Elzira Arantes (texto) e Alex Furini (arte) Capa: Tratamento gráfico sobre reprodução de escultura de Rodin © 2000 Secretaria de Educação a Distância/MEC A pessoa surda: do diagnóstico Tiragem: 110 mil exemplares à participação social 5 Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou utilizada de qualquer forma ou por qualquer método, eletrônico ou mecânico, sem autorização, solicitada via carta ou fax. O bebê surdo: tornando-se independente 17 Ministério da Educação Secretaria de Educação a Distância A criança surda: caminhos da aprendizagem 25 Esplanada dos Ministérios, Bloco L, Sala 100 CEP 70047-900 Caixa Postal 9659 – CEP 70001-970 – Brasília, DF Fax: (0XX61) 410 9158 – E-mail: seed@seed.mec.gov.br Atendimento escolar: um processo integrador 33 Internet: http://www.mec.gov.br/seed/tvescola Adolescência: construção da identidade pessoal 45 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) O surdo adulto: do passado ao futuro 53 REDONDO, Maria Cristina da Fonseca Deficiência auditiva-/ Maria Cristina da Fonseca Redondo, Josefina Martins Carvalho. – Brasília : MEC. Secretaria de Educação Bibliografia a Distância, 2000. 61 64 p.: il. (Cadernos da TV Escola 1, ISSN 1518-4706) 1. Deficiência Auditiva. 2. Integração Escolar. 3. Educação Especial. I. Título. II. Redondo, Josefina Martins Carvalho. CDU 376.352
  3. 3. Programa 1 5 A PESSOA SURDA: DO DIAGNÓSTICO À PARTICIPAÇÃO SOCIAL […] o homem pode construir seu mundo simbólico com os materiais mais pobres e escassos. (Cassirer) deficiência auditiva traz muitas limitações para A o desenvolvimento do indivíduo. Consideran- do que a audição é essencial para a aquisição da linguagem falada, sua deficiência influi no relacio- namento da mãe com o filho e cria lacunas nos pro- cessos psicológicos de integração de experiências, afetando o equilíbrio e a capacidade normal de de- senvolvimento da pessoa. Mesmo assim, ainda hoje, a sociedade conhece bem pouco os portadores de deficiência. Esse desconhecimen- to se reflete por exemplo na ausência de estatísticas bra- sileiras tanto a respeito de seu número real quanto das formas de assistência disponíveis, de sua integração so- cial e de sua inclusão no mercado de trabalho. O retrato da ausência de informação se reflete na rara presença desse assunto em noticiários, e na pe- quena oferta de serviços adequados a portadores de deficiência – apesar de eles corresponderem a cerca de 10 por cento da população de países em desenvol- vimento, como o Brasil. No Brasil existem muitas leis voltadas para os por- tadores de deficiência, indicando a necessidade de di- ferenciação em relação aos demais cidadãos. No en- tanto, mesmo após decretadas, as leis são implanta- das de modo lento e parcial, sendo ignoradas pela maior parte da população. Os portadores de deficiên-
  4. 4. 6 Programa 1 A pessoa surda: do diagnóstico à participação social 7 Como as pessoas ouvem? Ossículos auditivos O ouvido humano possui três partes – ouvido externo, no ouvido médio (martelo, estribo e ouvido médio e ouvido interno –, sendo que cada uma Canais bigorna) semicirculares desempenha funções específicas: • Ouvido externo: é composto pelo pavilhão auricular e Nervo auditivo pelo canal auditivo, que é a porta de entrada do som. Nesse canal, certas glândulas produzem cera, para pro- Ouvido interno teger o ouvido. (cóclea) • Ouvido médio: formado pela membrana timpânica e por três ossos minúsculos, que são chamados de mar- telo, bigorna e estribo, pois são parecidos com esses objetos. Em contato com a membrana timpânica e o Trompa de Eustáquio, ouvido interno, eles transmitem as vibrações sonoras que leva à nasofaringe que entram no ouvido externo e devem ser conduzidas Tímpano Canal auditivo até o ouvido interno. interno • Ouvido interno: nele está a cóclea, em forma de caracol, que é a parte mais importante do ouvido: é responsável Qualquer tipo de problema em uma das partes do ouvido pela percepção auditiva. Os sons recebidos na cóclea são pode prejudicar a audição, em maior ou menor grau. Há transformados em impulsos elétricos que caminham até diferentes tipos de perda auditiva, conforme o local afeta- o cérebro, onde são ‘entendidos’ pela pessoa. do (ouvido médio, interno etc.). cia precisam sempre recorrer à legislação para reivin- Se o bebê for exageradamente quieto, não virar a dicar seus direitos de cidadão. cabeça procurando a origem de algum barulho forte – como um trovão, por exemplo – ou continuar o cho- ro, mesmo que a mãe tente acalmá-lo apenas com a Como detectar a perda auditiva em uma criança? voz, talvez seja o caso de se preocupar. A mãe precisa comentar isso com o pediatra, para que ele avalie a Sempre é mais fácil descobrir a perda severa ou pro- necessidade de encaminhamento a um especialista. funda do que a leve ou moderada. De qualquer for- Quando a perda auditiva é detectada precocemen- ma, é importante que os familiares e o pediatra se- te, o profissional se preocupa inicialmente em forne- jam observadores e atentos, para detectar eventuais cer informações aos pais, para que eles saibam o que sinais de perturbação, desde as primeiras semanas fazer e, principalmente, possam acolher esse filho e após o nascimento. aprender a lidar com a situação inesperada.
  5. 5. 8 Programa 1 A pessoa surda: do diagnóstico à participação social 9 Idealmente, a surdez deve ser diagnosticada o época em que ocorreu a surdez e grau de prejuízo; mais cedo possível, mas não é o que acontece na tipo de atendimento reabilitacional recebido, oral ou maior parte das vezes. Com freqüência a criança fica oral com sinais/gestos; estimulação feita para a aqui- sem atendimento até o momento de ir para a escola. sição da linguagem; aproveitamento dos resíduos Quanto mais tempo se passa, maiores são as dificul- auditivos –, bem como o trabalho com a família, dades de desenvolvimento – tanto no campo da lin- auxiliando-a a aprender a lidar com a diferença do guagem quanto nos níveis social, psíquico e cognitivo. filho, têm contribuído para que a pessoa com surdez Quando há problemas, o diagnóstico precoce per- ocupe seu lugar na sociedade. mite que a família seja orientada desde o primeiro momento, recebendo informações de profissionais Como evitar ou prevenir a perda auditiva? (médico, psicólogo, fonoaudiólogo) e tendo apoio • Todas as mulheres devem ser vacinadas contra a ru- para cuidar do desenvolvimento da criança. béola, que constitui uma das principais causas de Depois de o médico diagnosticar uma perda au- surdez congênita em nosso País. ditiva, e identificar o grau dessa perda, ele precisa en- • A criança jamais deve tomar remédio sem receita caminhar a criança para um tratamento fonoaudioló- médica; um antibiótico, por exemplo, pode conter gico integrado, a ser feito pelo fonoaudiólogo, com a aminoglicosídeo, substância que geralmente preju- equipe que for considerada necessária. Dependendo dica a audição de forma irreversível. (Corrêa, 1999) do caso, o profissional competente indicará o uso de um aparelho auditivo. Primeiras medidas As causas da surdez Inicialmente, a linguagem oral não é a mais impor- Em muitos casos, o diagnóstico médico consegue tante na comunicação de qualquer criança com sua identificar a causa mais provável da perda auditiva, família; o contato depende mais da sensibilidade, mas nem sempre isso é possível. A ocorrência de ges- que se traduz em um toque, uma expressão de feli- tações e partos com histórico complicado, bem como cidade ou de tristeza. No caso da deficiência auditi- a manifestação de doenças maternas no período pró- va, os pais não devem se desesperar, mas sim apren- ximo ao nascimento da criança, podem inviabilizar a der como participar da educação de sua criança. O identificação dessa causa. futuro dela vai depender muito da atuação deles, em Por isso mesmo, em cerca de 50 por cento dos parceria com profissionais como fonoaudiólogo e casos, a origem da deficiência auditiva é atribuída a otorrinolaringologista. ‘causas desconhecidas’. Quando se consegue desco- Existe uma diferença significativa no desenvolvimen- brir a causa, o mais freqüente é que ela se deva a to da linguagem e da comunicação de crianças que so- doenças hereditárias, rubéola materna e meningite. frem perda auditiva antes dos 2 anos de idade, em com- O conhecimento da história de cada pessoa – paração com as que ficam surdas após ter adquirido a
  6. 6. 10 Programa 1 A pessoa surda: do diagnóstico à participação social 11 linguagem (por exemplo, no caso de surdez causada por tiva; as respostas são dadas em decibéis (medida de meningite, depois dos 4 anos de idade). As maiores já som, cujo símbolo é dB). tiveram a oportunidade de estruturar a memória auditi- Já a criança maior pode cooperar e, nesse caso, é va e um sistema lingüístico próprio. feito o exame audiométrico, que identifica seu nível Saber em que momento se instalou a surdez é mínimo de audição. Esse exame permite avaliar a audi- fundamental para planejar as necessidades de ção das diferentes freqüências de tons puros – do grave estimulação da criança, seja qual for a idade. Mas tam- ao agudo –, com especial atenção para a ‘zona da pala- bém são necessárias outras informações, tais como: vra’, que fica nas freqüências de 500 a 4 mil hertz (Hz). • se a surdez se instalou antes ou depois do nas- Com base no trabalho de Roeser & Downs, Martinez (2000) propõe a seguinte classificação dos cimento, ou durante o parto; limiares de audição: • se foi detectada nos primeiros anos de vida, e Limiares tonais* em que fase isso aconteceu; Audição normal 0 a 15 dB • qual o grau da perda auditiva – leve, moderada, severa ou profunda; Deficiência auditiva suave 16 a 25 dB • se a criança recebeu atendimento especializado Deficiência auditiva leve 26 a 40 dB (e foi indicada a utilização de aparelho de am- plificação sonora individual); Deficiência auditiva moderada 41 a 55 dB • como a audição foi estimulada, desde o início; Deficiência auditiva moderadamente severa 56 a 70 dB • qual a reação da família e que tipo de assistên- Deficiência auditiva severa 71 a 90 dB cia ela recebeu; • se a surdez está ou não associada a outra defi- Deficiência auditiva profunda acima de 91 dB ciência, ou a problemas de saúde. * Média dos limiares tonais em 500, 1.000 e 2.000 Hz. Há mais de uma forma de fazer a avaliação Deficiente auditivo ou surdo? audiológica, para constatar se houve perda de audi- ção. E os graus de perda também variam bastante. Há Deficiente auditivo é como se autodenominam mui- pessoas que escutam muito pouco, sendo incapazes tos dos surdos adultos, principalmente aqueles que de ouvir um avião passando; outras conseguem ou- apresentam perda auditiva de leve a moderada, que vir a voz humana, mas não chegam a discriminar o não se consideram totalmente surdos. Essa atitude que está sendo dito. resulta do processo educacional e reabilitacional a Quando a criança é bem pequena, se realiza o di- que foram submetidos, nos anos 70 e 80, época em agnóstico objetivo, como o Bera (Brain Stam Evocated que era dada grande ênfase ao oralismo. Response: respostas evocadas do tronco cerebral). Esse Na abordagem oralista, ainda hoje adotada por teste permite avaliar a perda de audição por via audi- algumas instituições, a comunicação se baseia na fala:
  7. 7. 12 Programa 1 A pessoa surda: do diagnóstico à participação social 13 Audiometria tonal: audição normal no ouvido Audiometria tonal: perda auditiva severa no esquerdo e perda leve no ouvido direito ouvido esquerdo e profunda no direito 250 500 1K 2K 4K 8K Hz 250 500 1K 2K 4K 8K Hz -10 -10 0 0 10 ○ ○ ○○ ○ ○ ○ ○○ ○ ○ ○ ○ ○ 10 X ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○○ ○ ○ ○ ○○ ○ ○ 20 ○ ○ X ○○ 20 ○ ○○ 30 ○ ○ X 30 X X ○ ○ ○ ○○ ○ ○ ○ ○ ○ 40 X○ ○ 40 50 50 60 60 70 70 ○ ○ ○ ○ 80 80 ○○ ○ ○ X ○ 90 90 ○ ○ ○ ○ X○○ ○ ○ ○○ ○ ○ ○ ○○ ○ ○ ○ X ○○ ○ ○ 100 100 ○ ○ ○ X ○ ○ ○ ○ ○ X ○ 110 110 120 120 dB dB ○ ○ ○ ○ (vermelho) Ouvido direito ○ ○ ○ ○ (vermelho) Ouvido direito ○ X ○ ○ ○ (azul) Ouvido esquerdo ○ X ○ ○ ○ (azul) Ouvido esquerdo Audiometria tonal: perda Audiometria tonal: perda auditiva auditiva moderada em ambos os ouvidos profunda em ambos os ouvidos 250 500 1K 2K 4K 8K Hz 250 500 1K 2K 4K 8K Hz -10 -10 0 0 10 10 20 20 30 30 40 40 50 50 60 ○ ○ ○ X ○○ ○ ○ X 60 X X ○ 70 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ X ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 70 X ○ ○○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 80 ○ 80 ○ ○ 90 90 X○ ○ 100 100 ○ ○ ○ X ○ ○ ○ ○○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○○ ○ ○ 110 110 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 120 120 X ○ ○ ○ ○ X ○○ X ○ ○○ ○ ○ ○ X ○ ○ ○ ○ ○ ○ dB dB ○ ○ ○ ○ (vermelho) Ouvido direito ○ ○ ○ ○ (vermelho) Ouvido direito ○ X ○ ○ ○ (azul) Ouvido esquerdo ○ X ○ ○ ○ (azul) Ouvido esquerdo
  8. 8. 14 Programa 1 A pessoa surda: do diagnóstico à participação social 15 não se aceita a utilização de gestos ou sinais para re- surdez vem obtendo oportunidades cada vez mais presentar ou indicar coisas, objetos etc. No oralismo, amplas e melhores de ser vista como um cidadão os resíduos de audição servem como parâmetro para comum e de freqüentar escolas comuns, além das clas- a aquisição da fala e da linguagem, sendo associados ses ou escolas especiais. A inclusão do portador de à leitura da expressão facial. deficiência no sistema escolar pode permitir que ele Entre os mais jovens, e particularmente entre gradualmente passe a contar com os mesmos benefí- aqueles que apresentam perdas auditivas severas e cios oferecidos aos demais educandos. profundas, existe um movimento para que assumam Seja qual for o tipo de educação recebida, espe- a própria surdez. Lutam por seus direitos e buscam cial ou não, o surdo não precisa apenas de escola. É divulgar a Língua de Sinais Brasileira (LSB), mostran- indispensável que lhe seja oferecido atendimento nos do que se trata de uma língua com regras próprias, aspectos médicos relacionados com a surdez, bem como a língua portuguesa. como orientação familiar e suporte emocional, pro- Os que adotam essa linha valorizam sua fala, le- curando facilitar o desenvolvimento de suas vando em conta que é uma fala diferente, e valorizam potencialidades, levando-o a fazer escolhas e respon- também seu direito de usar recursos variados para se sabilizar-se por elas e oferecendo-lhe as mesmas comunicar, na busca de uma melhor participação so- oportunidades disponíveis para as pessoas que não cial. Rejeitam o termo ‘deficiente’, que embute um são portadoras de deficiência. conceito de déficit, e defendem uma atitude na qual Mas a luta por sua participação social não é uma seja dado valor ao indivíduo, e não à deficiência da luta apenas do surdo e de seus familiares. Ao se falar qual ele é portador. em integração (ou, atualmente, em inserção), é fun- damental que a sociedade faça sua parte, usando de Para que a sociedade possa melhor conhecer as pes- todos os meios para atenuar as dificuldades impos- soas que têm perda de audição, é importante pensar tas pela surdez. em cada indivíduo como um ser único, repleto de Receber o surdo e facilitar seu acesso a todos os possibilidades. espaços sociais (escola, parques, festas, empresas, teatros, cinema, museus etc.) é a contrapartida para Os recursos de comunicação adotados pelo surdo, que exista realmente integração e participação. seja ele mais ou menos oralizado, não podem ser usados para caracterizá-lo como pessoa. É preciso Se o surdo não pode ficar esperando que a sociedade levar em conta seu percurso de vida e a forma pela faça tudo por ele, também não pode lutar sozinho e qual seu modo de se comunicar possibilita sua competir com os ouvintes, como se fosse ouvinte. integração nos diferentes meios sociais que freqüen- ta, fazendo com que se sinta mais feliz. No tocante à escolaridade, a pessoa portadora de
  9. 9. Programa 2 17 O BEBÊ SURDO: TORNANDO-SE INDEPENDENTE […] o bebê precisa de alguém que, por um tempo, o coloque em primeiro lugar numa lista de prioridades. (D.W. Winnicott) ssim que nasce, e ao longo dos primeiros me- A ses de vida, o bebê ainda não é capaz de esta- belecer ligações entre suas emoções e o signi- ficado delas. Ele depende totalmente da mãe, para ser compreendido e para ser atendido em suas necessi- dades básicas. Em sua mente adulta, a mãe elabora um significa- do simbólico daquilo que o bebê necessita. Em segui- da, ela transmite – pelo olhar, na voz, na maneira como o segura e o amamenta – ‘algo’ que permite tam- bém a ele construir um significado simbólico das emoções que experimenta. Assim, nos momentos em que o bebê vive um des- conforto, uma tensão, é a mãe que decodifica a ori- gem do problema e oferece o alívio necessário para restabelecer o equilíbrio. A repetição constante dessas vivências com signi- ficado é uma condição para o desenvolvimento da capacidade de pensar – daí a importância da relação mãe-bebê. O conhecimento real e verdadeiro vem da experiência com o outro. O bebê abandonado a seu próprio entendimento, deixado a sós, certamente criará significados estra- nhos para suas vivências. É freqüente que a surdez seja descoberta pelos pais apenas quando a criança tem 1 ou 2 anos. Isso implica
  10. 10. 18 Programa 2 O bebê surdo: tornando-se independente 19 uma dificuldade maior na transmissão de significados sim- aspecto a ser lembrado é que a criança surda, em seus bólicos às experiências do bebê. Um exemplo: o bebê cho- primeiros meses de vida, é um bebê com necessida- ra, e a mãe procura acalmá-lo conversando com ele – sem des peculiares, pois a ausência da audição, interferin- que ela saiba, sua voz não chega até ele para tranqüilizá- do na aquisição da linguagem e na maneira de conhe- lo, acalmá-lo e marcar a presença materna. Somente ao vê- cer o mundo, deixará marcas para o resto da vida. la ele pode se assegurar de sua proximidade. Principalmente nos casos em que se pode suspei- À medida que se repetem experiências desse tipo, tar desse tipo de quadro – como nascimento de alto o bebê pode desenvolver sentimentos de inseguran- risco, casos de surdez hereditária na família, casamen- ça e abandono, o que talvez traga como conseqüên- tos consangüíneos, ocorrência de rubéola na gravidez cia uma auto-estima rebaixada. ou um quadro de meningite após o nascimento – é Por outro lado, quando descobre a surdez do fi- fundamental que o bebê seja encaminhado para ava- lho, a grande maioria das mães passa a usar menos a liação médica o quanto antes. voz para se comunicar com ele. Outras diminuem suas falas diretas com o filho, ou até deixam de se utilizar Aprender a falar da palavra. Todos caem no silêncio. Por meio da audição, e do ambiente familiar adequa- As atitudes maternas de acentuado desalento ou de do, a criança ouvinte aprende naturalmente o modelo superproteção podem ser compreensíveis, mas não de sua língua, processo que ocorre em três estágios: servem para incentivar o desenvolvimento da criança. Linguagem receptiva: a recepção ocorre por intermé- Os pais (e, principalmente, a mãe, pois ela tem con- dio da audição: a criança recebe a linguagem de seu tato mais intenso e freqüente com o bebê) devem com- ambiente lingüístico; ao ouvir a palavra muitas ve- preender que há muitas formas de comunicação com o zes, acaba por armazená-la. bebê, além da linguagem oral: toques, sorrisos, carinhos. Linguagem compreensiva: a criança passa a compre- Todas essas linguagens devem ser utilizadas no trato ender que a palavra ‘papai’ se refere a determinada com o bebê, inclusive a oral. Deve-se falar sempre de pessoa (relaciona significante e significado). frente para a criança, olhando para ela, permitindo que Linguagem expressiva: a criança emite a palavra ‘papai’, ela perceba a existência dessa forma de comunicação. quando já possui a segurança de seu significado. O diagnóstico precoce Ninguém nasce falando. Esses estágios fazem parte É de grande importância que a surdez seja diagnosti- da natureza humana e se sucedem em um espaço cada o mais cedo possível. E que, assim que for cons- mínimo de um ano após o nascimento, quando a tatada, se inicie o atendimento especializado, que não criança passa a emitir as primeiras palavras. se resume ao trabalho com a criança — deve incluir Nos primeiros meses de vida, a criança não precisa da também os pais. audição para falar. É a fase de balbucio (primeiro estágio No trabalho de estimulação precoce, o primeiro da linguagem expressiva), na qual ela emite sons
  11. 11. 20 Programa 2 O bebê surdo: tornando-se independente 21 inarticulados de sensação de prazer e desprazer. É como se pelos familiares, ignorando a compreensiva, invisível mas estivesse treinando a emissão de sons, sem perceber o que dedutível? Pensamos que, desde os primeiros choros e interações com a mãe, a linguagem começa a despontar está fazendo – não precisa da audição, para essa atividade. como um todo. (Solange Issler, in Corrêa, 1999, pp. 23-24) O bebê com perda auditiva interrompe o balbu- cio devido à falta de audição normal; não escuta os próprios sons, e assim seu desenvolvimento lingüís- O aparelho auditivo tico não tem estímulos. Em alguns casos, o exame audiométrico indica a pos- sibilidade de adoção de um aparelho de amplificação Apoio e orientação à família sonora individual (A.A.S.I.). Trata-se de um equipamen- Identificada a surdez, o primeiro passo consiste em to pequeno, colocado junto ao ouvido da criança, que dar apoio à família e orientá-la em relação às neces- amplia a intensidade dos sons e os traz para um nível sidades de seu bebê. A estimulação precoce realizada confortável para quem precisa usá-lo. Atualmente, há no ambiente doméstico, aliada ao trabalho educacio- aparelhos com alto nível de sofisticação, que ampliam nal de profissionais, permitirá que a criança adquira o som de maneira cada vez mais seletiva. Por exem- condições de se comunicar da melhor forma possível, plo, nos momentos de comunicação, os sons da fala têm situando-se de modo adequado na sociedade. ‘prioridade’ sobre os ruídos ambientais. No trabalho com os pais, não basta orientá-los em Os benefícios advindos do uso do aparelho audi- relação à melhor forma de estimular a audição dos tivo não são percebidos de imediato; é necessário um filhos. Eles precisam ter a oportunidade de manifes- período de aprendizagem e de adequação auditiva tar suas preocupações e receber esclarecimentos su- que, às vezes, desanima a criança e seus familiares. ficientes para que se sintam mais seguros. É impor- Mas os pais precisam entender o que esse aparelho tante que possam falar de suas angústias por ter um pode representar para o filho, os benefícios que pode filho diferente do esperado. trazer e suas limitações. O uso do aparelho pode ser Os pais precisam aprender a escutar os sons emi- comparado com o dos óculos, para quem tem deficiên- tidos pelo bebê, sabendo que eles contêm significa- cias de visão, embora neste último caso a aceitação seja dos, ou seja, constituem uma linguagem. Essa atitude mais fácil, pois o resultado – ver melhor – é imediato. equivale à da mãe da criança ouvinte: quando o bebê O aparelho de surdez costuma gerar grandes ex- emite ‘pá’, a mãe dá um sentido ao som, completando pectativas, como se fosse capaz de realizar milagres. a palavra de acordo com o que entendeu – ‘papai’, Muitos pais imaginam que, a partir do uso do apare- ‘papa’, ‘você quer comer’ etc. lho, seu filho deixará de ser surdo e se transformará em ouvinte. Mas não é assim. As crianças adquirem a linguagem, obviamente. A questão agora é a que tipo de linguagem nos referimos quando di- Para saber quando a criança vai aprender a perceber zemos que só aos 24 meses a criança ‘tem’ linguagem. os sons com o aparelho auditivo, deve-se levar em conta Referimo-nos à linguagem expressiva, ouvida e percebida a perda auditiva e, mais ainda, a estimulação recebida.
  12. 12. 22 Programa 2 O bebê surdo: tornando-se independente 23 res, que precisam valorizar tais manifestações como O desenvolvimento auditivo não acontece logo após uma forma de comunicação e mostrar compreensão. a colocação e o uso do aparelho. Depende de um pro- A criança não vai desenvolver a linguagem oral es- cesso, que vai ocorrendo com o passar do tempo: os pontaneamente, sem estímulos. pais e profissionais não podem desanimar. Com o início da escolaridade em creches e insti- tuições de educação infantil – comum, ou especial – Quando os pais não têm oportunidade de discutir a criança começa a partilhar com outras as brincadei- suas expectativas e de receber esclarecimentos, às ve- ras, as conversas e a atenção do professor. zes se cria uma sensação de decepção e frustração. E esses sentimentos trazem grandes prejuízos ao desen- Para que possa expressar seus desejos e suas neces- volvimento emocional, cognitivo e social da criança. sidades, utilizando gestos e/ou sons, a criança surda Há crianças que passam a não querer usar o apare- deve ser exposta a uma linguagem compreensível lho, ao perceber que essa sua diferença traz sofrimen- para ela, como contribuição a sua socialização. to para os pais. Algumas famílias deixam às vezes de colocar o Os pais e professores precisam colaborar para que aparelho na criança pelos mais diversos motivos: a criança com deficiência auditiva se comunique com porque ela acordou chorando, porque a babá não os colegas e com outros adultos. Para isso, é impor- chegou… ou seja, há sempre uma desculpa para não tante deixar claro quais são suas limitações e quais utilizá-lo. Há casos em que o aparelho fica mais tem- suas possibilidades. po na gaveta do que no ouvido da criança. O desafio do trabalho precoce com a criança sur- Não é suficiente usar o aparelho auditivo durante da está em criar situações de comunicação que favo- algumas horas por dia. Ele precisa ser colocado ao reçam sua expressão e sua interação contínua com as acordar e só pode ser retirado para tomar banho e pessoas, utilizando-se do olhar, dos gestos, dos sinais, para dormir. Seu uso é tão importante quanto o hábi- da linguagem oral etc. to de se alimentar. Toda criança adquire a linguagem naturalmente, por meio da interação; a fala é uma das manifesta- O aprendizado do convívio ções da linguagem, tal como os sinais, os gestos e a A partir de 2 a 3 anos toda criança, mesmo que seja escrita – são formas de estabelecer a comunicação e surda, busca conhecer o mundo, se torna cada vez possibilitar a representação do pensamento. mais consciente de si mesma como pessoa, no conví- O atendimento precoce à família e à criança per- vio com outras crianças e com adultos. mite diminuir as dificuldades dos pais em aceitar seu Para a criança surda o contato é feito por meio de filho diferente, ajudando-os a ter uma visão mais re- sinais espontâneos e expressões faciais, cujo signifi- alista e positiva das verdadeiras possibilidades de cado deve ser compreendido pelos pais e professo- desenvolvimento de seu filho surdo.
  13. 13. Programa 3 25 A CRIANÇA SURDA: CAMINHOS DA APRENDIZAGEM […] Agora que eu tenho 6 anos, sou o mais esperto dos espertos. Então, acho que vou continuar com 6 anos pra sempre. (A.A. Milne) objetivo central da educação infantil é favorecer O o desenvolvimento físico, motor, emocional, cognitivo e social de todas as crianças – ouvin- tes ou surdas. As experiências e os conhecimentos são promovidos e ampliados, por meio de jogos e brinca- deiras, bem como do convívio com outras crianças e outros adultos, fora do ambiente doméstico. A socialização, que se inicia antes dos 3 anos, vai se consolidando entre os 4 e os 6 anos de idade. A criança escolhe com quem quer brincar e conversar, de quem quer ser amiga. A educação da criança surda em fase de socializa- ção precisa se adequar a suas características pesso- ais. A observação de suas respostas aos primeiros atendimentos escolares e clínicos (estimulação audi- tiva, socialização etc.), serve para indicar o caminho a seguir: optar pelo ensino especializado (escola e classe especial), ou pelo ensino comum. Cada criança deve receber atendimento de acordo com sua realidade e suas condições, para vivenciar e ex- plorar ao máximo suas potencialidades. Algumas crianças surdas têm possibilidade de adquirir e desenvolver a linguagem oral, utilizando a fala para se comunicar. Outras, por características pes-
  14. 14. 26 Programa 3 A criança surda: caminhos da aprendizagem 27 soais e também em decorrência do ambiente familiar leitura da escrita, enfim, tudo aquilo que sirva de meio em que cresceram, apresentam linguagem oral míni- para ajudar a desenvolver o vocabulário, linguagem e ma, que deve ser complementada com outras formas conceito de idéias entre o indivíduo surdo e o outro”. de comunicação (escrita e por sinais). (Marta Ciccone, in Corrêa, p. 22) A criança também pode desenvolver a leitura oro- Bilingüismo: essa abordagem pretende que ambas as facial, isto é a leitura labial e a fisionômica, capaci- línguas – os sinais (LSB, a Língua de Sinais Brasileira) dade de ler os lábios e a expressão facial de quem fala. e a oral (português) – sejam ensinadas e usadas sem Mesmo quando usam um aparelho auditivo adequa- que uma interfira/prejudique a outra. Elas se desti- do, os deficientes auditivos em geral fazem também a nariam a situações diferentes. leitura labial, para compreender melhor a fala do outro. A leitura labial é uma capacidade inata em to- A comunicação com a criança surda das as pessoas, mas apenas aquelas que têm perda auditiva desenvolvem tal habilidade. Muitas vezes os pais, professores e outros adultos tomam atitudes inadequadas em relação a crianças Métodos de treinamento com perda auditiva, ignorando suas reais limitações. Por exemplo: Há vários métodos para o desenvolvimento da lingua- • Com freqüência tratam a pessoa com deficiência gem de deficientes auditivos empregados no Brasil: auditiva como se ela fosse incapaz de compreen- Método oral unissensorial: usa apenas a pista auditi- der. Falam de maneira pouco natural, apenas com va. Por meio do aparelho auditivo, integra a audição gestos; se usam palavras, falam ‘como índio’, sem à personalidade da criança com perda auditiva; não artigos ou frases completas, utilizando apenas enfatiza a leitura labial, nem utiliza a língua de sinais. palavras soltas, como se o outro fosse incapaz de Exemplos: método Pollack e método Perdoncini. entender as formulações completas. • Não conseguem agir com naturalidade. Não infor- Método oral multissensorial: usa todos os sentidos: mam, por exemplo, o que está acontecendo: a mãe audição com apoio de aparelhos auditivos, visão com sai sem dizer onde está indo, como se a criança apoio da leitura labial, tato etc.; também não utiliza a não pudesse participar da vida em comum. língua de sinais. Exemplos: método áudio + visual de • Ao conversar, viram o rosto para outro interlocutor, linguagem. de modo que a criança não perceba o que está Método de comunicação total: “É uma filosofia, não sendo falado. Além de ser uma falta de respeito, simplesmente um outro método, cuja premissa básica é diminui a auto-estima da criança. utilizar tudo o que seja necessário para o indivíduo com • Alguns pais enfatizam a deficiência auditiva, es- deficiência auditiva como meio de comunicação: quecendo que a criança tem um potencial a de- oralização, prótese auditiva, gestos naturais, linguagem senvolver. Já outros cobram excessivamente dos de sinais, expressão facial, alfabeto digital, leitura labial, filhos, achando que devem compensar a defi-
  15. 15. 28 Programa 3 A criança surda: caminhos da aprendizagem 29 ciência com atitudes perfeccionistas. Ambos os teúdo que queremos transmitir a ela. Toda situação é extremos são prejudiciais. boa para falarmos de assuntos variados, de coisas que podem acontecer ou aconteceram. O desenvolvimento da linguagem Por exemplo: quando a criança come, se lava, se veste, ou passeia pela rua se oferecem ótimas oca- A escola, comum ou especializada, deve preparar a siões para falar com ela a respeito das coisas que está criança surda para a vida em sociedade, oferecendo- vendo, de como as pessoas estão agindo, das sensa- lhe condições de aprender um código de comunica- ções dela e das nossas. ção que permita seu ingresso na realidade sociocul- tural, com efetiva participação na sociedade. O trabalho de linguagem, tanto em língua portu- É indispensável interagir com a criança surda a cada guesa (oral) quanto na Língua de Sinais Brasileira momento, utilizando perguntas e respostas que vão (LSB), é desenvolvido de forma a dar à criança surda se tornando conhecidas e que ela vai aprendendo. um instrumento lingüístico que a torne capaz de se comunicar. A partir dessas situações espontâneas de relacio- Os principais recursos utilizados nesse trabalho são namento, o professor e os pais podem realizar ativi- atividades de imitação, jogos, desenhos, dramatizações, dades e brincadeiras que estimulem a interação com brincadeiras de faz-de-conta, histórias infantis etc. Tais a criança, mantendo sua atenção e ajudando-a a se atividades possibilitam, ao mesmo tempo, a aquisição expressar a partir de gestos, sinais, atitudes corporais de linguagem e a aprendizagem de conceitos e regras e linguagem oral. de um código de comunicação, aspectos importantíssi- Pela repetição das palavras e pela vivência no dia- mos para o processo de integração escolar. a-dia, as crianças aprendem a compreender uma lín- A criança surda adquire sua linguagem ao relacio- gua e a usá-la. Isso vale tanto para as crianças ouvin- nar a experiência que está vivendo com a verbalização tes quanto para aquelas com perda auditiva. No en- e/ou os sinais que ela observa em outra pessoa (co- tanto, as que têm perda auditiva precisam de mais legas, pais, professores etc.), bem como ao relacionar estímulos, de mais repetições e de mais vivências. A o que está sendo falado pelo outro com suas próprias partir do momento em que a criança surda percebe experiências e também ao comunicar seus pensamen- que cada coisa ou pessoa tem um nome, seu progres- tos e experiências de forma oral, escrita ou com sinais. so se torna mais rápido. Para Piaget, a linguagem é um sistema para repre- O jogo, o brincar de faz-de-conta e o relato de his- sentar a realidade. É ela que torna possível a comu- tórias infantis são experiências que permitem ampliar nicação entre os indivíduos, a transmissão de infor- seu âmbito de informações e ajudá-la a buscar, a pe- mações e a troca de experiências. dir, a fazer perguntas, enriquecendo cada vez mais sua A situação comunicativa em um contexto espon- comunicação. tâneo ajuda a criança a compreender melhor o con- Qualquer situação corriqueira, em particular quan-
  16. 16. 30 Programa 3 A criança surda: caminhos da aprendizagem 31 do vinculada às idéias e aos interesses da criança meta. É fundamental conversar com os pais a respei- surda, pode ser útil para estimular e desenvolver seu to desses objetivos e adequar o programa, de manei- processo de comunicação. Por exemplo: se ela gosta ra a permitir que a família colabore, aproveitando os de carros, de motos, ou de bonecas, seu brinquedo contextos naturais e cotidianos para estimular a lin- predileto pode servir de motivação para a aprendiza- guagem do filho. gem. Ela irá se interessar por saber seus nomes, re- A intervenção do professor no campo da comuni- produzir o ruído que fazem, sentir as vibrações dos cação e da linguagem com a criança surda pequena não veículos que passam pela rua, observar as cores das pode partir de programas rígidos quanto ao conteúdo diferentes motos, ou reproduzir com suas bonecas o – como por exemplo listas preestabelecidas de pala- cuidado materno, dando nome aos sentimentos – ‘eu vras. Sempre devemos ter presente o interesse de cada gosto’, ‘eu choro’, ‘eu estou triste’, ‘eu estou alegre’ etc. criança, ‘conversando’ com ela sobre o que vivenciou A compreensão e a realização de uma tarefa exi- em casa, com os colegas ou com outros adultos. gem da criança surda um grande esforço de atenção. Precisamos abordar o desenvolvimento da lingua- Por isso, é compreensível que ela não goste de fazer gem de uma criança surda em toda sua variedade e exercícios de articulação durante muito tempo. O ide- em todas suas possibilidades, dando um papel signi- al é apresentar esses exercícios disfarçados, na forma ficativo às funções comunicativas que ela realiza com de jogos e brincadeiras. suas próprias expressões e ao vínculo comunicativo É conveniente aproveitar situações lúdicas para que ela estabelece com o outro (adulto ou criança). favorecer a aquisição lingüística. Mas não se pode Para a criança, não é importante apenas ‘falar algo’, esquecer que essa estimulação não tem por objetivo mas ser capaz de utilizar a linguagem para transmitir criar um ouvinte falante, suprimindo ou ignorando as diferentes intenções, como pedir, afirmar, perguntar etc. características peculiares da criança surda. Devemos ainda evitar transmitir apenas o nome dos objetos, procurando sempre mencionar outros Levar em conta as potencialidades e limitações da aspectos importantes que suscitem a curiosidade da criança surda permite que ela manifeste sua espon- criança, levando-a a perguntar (por quê? para quê? o taneidade e suas diferenças. Diferenças que não a tor- que é?) e a expressar seus sentimentos (eu quero, eu nam um ser inferior ou menos capaz, mas apenas di- não quero, eu gosto). Isso permitirá estabelecer uma ferente – como todo ser humano. comunicação mais completa, natural e próxima à da criança ouvinte, sem se limitar à mera nomeação ver- bal de objetos. O papel do professor É importante utilizar os mais variados recursos de comunicação: além da linguagem oral, recorrer sem O trabalho do professor deve estar marcado pelos restrições aos gestos, às expressões faciais e corporais objetivos que ele pretende alcançar na área da lingua- e a um sistema estruturado de sinais. gem e por um programa concreto para cumprir essa
  17. 17. Programa 4 33 ATENDIMENTO ESCOLAR: UM PROCESSO INTEGRADOR Deixe uma criança comigo até os 7 anos, e então qualquer pessoa poderá cuidar dela. (Inácio de Loyola) artindo do princípio de que a educação é um P direito de todos, o atendimento educacional às pessoas com necessidades especiais, em am- biente escolar comum ou em grupos especializados, está assegurado na Constituição Brasileira. Ações como a proposta no capítulo V – “A educa- ção especial” – da Lei de Diretrizes e Bases da Educa- ção Nacional (LDB 9.394/96), vêm demonstrando a abertura do processo de atendimento educacional e a garantia de introduzir nele inovações, objetivando assegurar maiores possibilidades de integração do portador de deficiência à sociedade. Nessa nova visão, a inclusão social passa a ser vista como um processo de adaptação da sociedade, que in- clui as pessoas com necessidades especiais em todos os ambientes sociais. Isso torna possível que, ao mesmo tempo, essas pessoas se preparem para assumir seu lu- gar na sociedade, e para desempenhar os papéis ade- quados a cada situação (Ver Sassaki, 1997, p. 41). A inclusão da criança com surdez na escola regular requer uma boa preparação tanto do aluno quanto da escola, para que ambos se sintam capacitados a par- ticipar dessa integração. Para pedagogos como Frazão de Sousa (1999, pp. 65-68), a inclusão no ambiente escolar consiste em:
  18. 18. 34 Programa 4 Atendimento escolar: um processo integrador 35 • possibilitar à criança um desenvolvimento den- todo seu potencial de comunicação. tro de seus limites pessoais, e não de padrões Antigamente, a criança surda freqüentava a esco- impostos socialmente; la comum e se convertia em uma ‘grande copiadora’; • acreditar que a criança portadora de necessida- mas essa atitude não pode servir de exemplo para as des especiais é capaz de uma aprendizagem rica novas vivências. e construtiva. As crianças portadoras de necessidades educacionais Integração à escola especiais, que outrora iam para escolas especializadas, Na proposta atual, mais inclusiva, a criança com sur- têm atualmente direito de ser matriculadas em qual- dez participa do sistema educacional, não está fora quer escola da rede regular. Essa mudança gerou um dele. É esperado que ela, bem como os professores e intercâmbio de experiências, de profissionais e de toda a escola, conte com dispositivos que auxiliem seu material, provocando a aproximação dos dois sistemas pleno desenvolvimento escolar, sem sacrifícios. educacionais: o especial e o regular. No entanto, a inclusão na escola comum deve A integração, verbalizada como a melhor prática constituir um processo gradativo, que respeite as di- no processo de educação de crianças portadoras de ferentes necessidades e interesses de cada criança. necessidades especiais, implica reciprocidade. Mas o Antes de tudo, é necessário verificar se ela está pre- processo pedagógico baseado na integração deve ser parada para freqüentar uma classe comum, na qual as gradual e dinâmico, adequado às necessidades de diferenças (principalmente as que se referem à lingua- cada indivíduo. gem) serão evidenciadas pela comparação com os Na verdade, a integração efetiva implica uma colegas ouvintes. mudança total de atitude. Implica desmistificar a questão do convívio e da educação da criança porta- A integração da criança com surdez em classe comum dora de necessidades especiais e, para isso, é da má- da escola regular terá mais chances de sucesso se for xima importância o papel dos profissionais e espe- gradativa e resultar de um estudo de cada caso, indi- cialistas. vidualmente. Quando o professor recebe em sua classe (de ou- vintes) um aluno surdo, é freqüente que sua primeira A família precisa fornecer aos professores os da- reação seja pensar: Como vou falar com esse aluno? dos necessários para que eles entendam melhor tudo Não sou especialista! Como posso assisti-lo? que a falta de audição pode acarretar e possam pre- Não se pode ‘jogar’ a criança surda em uma esco- ver o tipo de reação da criança no ambiente escolar. la ou em uma classe comum, alegando a necessidade Esses dados incluem parecer médico, resultados das de ‘inseri-la’ na escola regular; isso corresponderia a avaliações audiológicas periódicas, informações da ignorar sua necessidade de ter um atendimento cui- fonoaudióloga etc. dadoso, capaz de possibilitar o desenvolvimento de Como condição para participar de uma classe co-
  19. 19. 36 Programa 4 Atendimento escolar: um processo integrador 37 mum, o aluno surdo precisa ter adquirido um nível programático escolar e adquirir conhecimento do mun- de linguagem (incluindo um bom vocabulário) sufi- do e de si mesmo (social/escolar/psíquico). ciente para permitir um diálogo, mesmo que simples, com professores e colegas, além de certo domínio de O que caracteriza o aluno (surdo ou não) é sua capa- leitura e escrita. Só assim ele poderá expressar seus cidade de aprendizagem, e não a deficiência que pensamentos e sentimentos, e conseguir compreen- apresenta. Existe um sujeito com potencial, no qual der e aplicar os conceitos utilizados nas diferentes se deve investir. disciplinas. A escola comum, por sua vez, também precisa dis- Conforme expõe Marques (1999, p. 38) , o obstá- por de recursos que tornem viável o processo de in- culo sensorial cria situações comunicativas específi- clusão, como por exemplo: cas para o surdo, sem impedi-lo de adquirir uma lin- • assessoria em relação à língua de sinais, se a guagem e desenvolver sua capacidade de representa- criança tiver linguagem oral restrita, e às estra- ção. Os mecanismos mentais envolvidos nesse proces- tégias adequadas para propiciar o diálogo, na so também não são os mesmos da pessoa ouvinte; por linguagem oral e/ou escrita. isso, tornam-se responsáveis pela construção de es- • material concreto e visual que sirva de apoio quemas de pensamento e de estratégias intelectuais para garantir a assimilação de conceitos novos. que dependem da natureza do desenvolvimento linguístico-cognitivo de cada um. • contato com professores que tenham vivenciado situações semelhantes. Tanto no ensino comum quanto no especializado o aluno precisa se sentir envolvido no processo de • orientação de professores de educação espe- aprendizagem, participar de fato e ser capaz de fazer cial – itinerantes ou de salas de recursos. Po- escolhas com responsabilidade, programando-se para dem ser feitas reuniões para trocar experiên- cias, discutir diferentes enfoques do conteúdo o futuro. e esclarecer dúvidas a respeito dos planos de O conteúdo curricular a ser desenvolvido pelo atuação e de avaliação. professor de escola comum é exatamente o mesmo trabalhado com os alunos ouvintes, com base nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). E o mes- O processo de aprendizagem mo ocorre com a metodologia de ensino. Em todos os níveis escolares (infantil, fundamental, O uso de materiais variados (jornais, revistas, pro- médio e superior), e principalmente quando o aluno pagandas, noticiários de TV, computadores etc.) con- apresenta perda auditiva severa ou profunda, é neces- tribui para motivar os alunos, mantê-los atualizados sário levar em conta, tanto para o atendimento escolar em relação aos acontecimentos do mundo e dar-lhes comum quanto para o especializado, que existe um su- uma visão ampla dos conhecimentos. jeito que precisa se desenvolver, aprender o conteúdo Todos os alunos serão beneficiados se o profes-
  20. 20. 38 Programa 4 Atendimento escolar: um processo integrador 39 sor proporcionar atividades a partir de centros de tos humanos e sociais. A construção da subjetividade interesse, integrando diferentes disciplinas. ocorre no contato com uma pluralidade de existênci- Uma sugestão interessante de um trabalho desse as. Portanto, a proposta de integração não permite tipo consiste em planejar um estudo do bairro. Os apenas o acesso democrático; a ‘troca’ de experiências professores de Matemática e de Estudos sociais po- promove desafios que interferem tanto no comporta- dem discutir e trabalhar juntos, organizando várias mento acadêmico quanto no social. atividades relacionadas com o assunto, como: locali- O envolvimento da família é fundamental para a zar bairros diferentes (em relação à escola ou à resi- integração do aluno surdo na escola ou na classe comum. dência), calcular distâncias, enumerar locais comer- Participando do processo escolar, os pais acompanham ciais, hospitais, fábricas etc. Trata-se de uma ativida- o desenvolvimento de seu filho e colaboram para que ele de que pode ser desenvolvida satisfatoriamente tan- se entrose e se sinta valorizado pessoalmente. to pelos alunos surdos quanto pelos ouvintes. À medida que se integra, a criança se torna mais O principal papel do professor consiste em pro- participativa e consegue cursar o ensino fundamen- mover a compreensão das informações para todos os tal sem que ocorra muita defasagem em relação aos alunos. As propostas dos Parâmetros curriculares na- alunos ouvintes. cionais e o próprio conteúdo curricular favorecem a Ao primeiro indício de descompasso da criança surda integração, pois se baseiam na interação dos alunos em relação à média da classe, o professor deve buscar for- entre si ao longo das atividades – no grupo, na clas- mas de atenuar as dificuldades (indicar a procura de refor- se, na escola e na comunidade. ço escolar, orientação da psicóloga ou da coordenação). Faz parte do processo educacional aprender a respei- A avaliação contínua permite ponderar se é o caso de tar as diferenças e a exercer atividades solidárias. manter a criança na escola comum, ou se seria me- lhor que ela freqüentasse um ensino especializado. O processo de integração Se não existir entrosamento da família e da crian- Integrar pressupõe o encontro de diversidades, quer ça surda com a escola e com o professor do ensino sejam pessoas, idéias, ou culturas. Ora, para que o regular, o risco de fracasso é grande, principalmente diferente seja identificado como tal, é preciso que haja para o surdo. As conquistas serão lentas e os resulta- um padrão considerado ‘normal’. Que padrão é esse? dos exigirão muito sacrifício (para ambos os lados). Para a pedagoga Frazão de Sousa (1999, p. 69), No final, podem ser levantadas questões do tipo: Va- considera-se como normalidade a capacidade de cada leu a pena? Será que este aluno está aprendendo? O ‘fa- um, dentro de suas possibilidades, ser produtivo para lar bem’ significa uma aprendizagem efetiva? a sociedade em que vive, demonstrando talento, ap- Na visão inclusiva, que depende do compromis- tidão, e inteligência em relação a determinados aspec- so de todos, a criança com perda auditiva deve ser
  21. 21. 40 Programa 4 Atendimento escolar: um processo integrador 41 acolhida dentro de uma proposta globalizadora, que idéias, seus pensamentos e sentimentos. Em termos valorize a escolaridade, os hábitos e as atitudes pre- educacionais, o profissional deveria enfatizar apenas paratórios para a vida adulta e que possibilite ao alu- a pista auditiva (abordagem unissensorial), ou recor- no se tornar responsável pelo próprio processo esco- rer à leitura oro-facial, a gestos, à pista auditiva e à lar e consciente de seus direitos (que são os mesmos escrita, tendo sempre como apoio a fala (abordagem dos ouvintes). Também os aspectos cognitivos, emo- multissensorial). cionais e afetivos devem ser considerados. Na verdade, poucos conseguiam bom desempe- nho na linguagem oral – em geral, isso era possível As escolas vêm buscando adotar métodos e técnicas apenas para aqueles que podiam contar com atendi- que propiciem ao aluno com surdez a aquisição ne- mento especializado de outros profissionais, o que cessária de conhecimentos e habilidades, bem como não faz parte da realidade da maioria da população a formação de valores que o identifiquem como pes- brasileira. soa única e como parte integrante da sociedade. Em função dos resultados obtidos no oralismo e das pesquisas que reconhecem a língua de sinais como lín- Não existe uma metodologia única, específica para gua, os sinais começaram a ser adotados na educação a educação de surdos, mas são necessárias adaptações dos surdos na forma sintática da língua portuguesa, no curriculares para atender às especifidades da cliente- método denominado Comunicação Total. la, seja na escola especial ou na regular. Os educado- A Comunicação Total é uma filosofia segundo a qual res devem considerar, além da metodologia, as neces- os surdos devem ter acesso a todas as modalidades de sidades específicas dos alunos, com o objetivo de fa- comunicação disponíveis, escolhendo aquela, ou aque- vorecer sua adaptação e sua integração. las, que atende melhor a suas necessidades: • fala; A educação especial • escrita; Ao longo do tempo, a educação especial tem adotado • pista auditiva: aproveitamento dos resíduos de diferentes abordagens para atender às necessidades audição, por meio de aparelhos de amplificação das pessoas com surdez e instrumentalizá-las para sonora; atuar socialmente. • leitura oro-facial: leitura dos movimentos dos No entanto, apesar da posição individual dos pro- lábios e dos músculos do rosto; fissionais, os pais das crianças surdas devem ser in- • expressão corporal; formados e orientados em relação às vantagens e li- mitações de cada uma das diferentes abordagens, para • sinais: movimentos com as mãos representando que eles possam participar da decisão. idéias, usados por comunidades de surdos; Até recentemente, acreditava-se que o surdo de- • alfabeto digital: movimentos com as mãos que via fazer uso exclusivo da fala para transmitir suas representam as letras de nosso alfabeto.
  22. 22. 42 Programa 4 Atendimento escolar: um processo integrador 43 Os sinais são extraídos da Língua de Sinais Brasilei- guesa, o surdo tem a seu alcance um leque mais am- ra: o professor, ao ler um texto, se expressa em sinais. plo de recursos lingüísticos, que atendam melhor a A língua de sinais não segue a mesma organização da suas necessidades. língua portuguesa, pois não possui a mesma sintaxe, nem as mesmas regras gramaticais. Por exemplo: O alfabeto manual Língua de Sinais aula, ir Língua Portuguesa (eu) vou à aula Fonte: Quadros, 1997, p. 74. A reivindicação dos surdos para ter assegurado o direito de usar a língua de sinais em sua vida e na educação fez com que algumas escolas especiais para surdos propusessem o bilingüismo na educação. No bilingüismo, a criança surda é exposta à língua de sinais desde pequena, por uma pessoa que domi- ne essa forma de comunicação, de preferência um surdo. A língua portuguesa, em sua forma oral e/ou escrita, é ensinada como segunda língua. O impedimento na audição faz com que as pes- soas surdas tenham maior acesso ao canal visual, tornando a língua de sinais biologicamente natural para elas. A língua de sinais, que sempre existiu, tem passa- do de geração para geração de pessoas surdas. Ficou esquecida e desvalorizada por muito tempo, em vista da valorização da língua oral, que é a falada pela co- munidade ouvinte majoritária. Naquela época, a linguagem de sinais não era vis- ta como língua, mas sim como mímica, sem uma or- ganização. Essa perspectiva predominou até 1960, quando os estudos lingüísticos comprovaram que se trata de uma língua, com regras próprias. Ao ter acesso à língua de sinais e à língua portu-
  23. 23. Programa 5 45 ADOLESCÊNCIA: CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE PESSOAL — Eu quero ser EU. — A vida é minha. — Quero ter vida própria. — Confie em mim. (Falas de um adolescente) desenvolvimento do ‘eu’ e da identidade pes- O soal é o tema mais importante na adolescên- cia, pois se refere tanto ao mundo interno da pessoa quanto a seu comportamento (no mundo ex- terno). Esse processo se vincula estreitamente à his- tória pessoal de cada adolescente. Nos primeiros anos de vida, até o momento da en- trada na escola, a família constitui para a criança o grupo mais importante e quase único de referência. Na adolescência, as interações sociais se expandem de maneira extraordinária, para além da referência fami- liar, nos diferentes grupos aos quais o adolescente pertence – dança, teatro, escola, igreja ou esportes. Muitas vezes, o adolescente surdo vive sob os cui- dados de pais superprotetores, que não acreditam nas potencialidades do filho e vêem a surdez como uma doença, imaginando que o surdo é incapaz de se cui- dar e de pensar. Nesses casos, a liberdade e a auto- nomia do adolescente são seriamente prejudicadas e ele sente insegurança para se comunicar e conviver com pessoas ouvintes. A precariedade das referências familiares diminui a capacidade de iniciativa do jovem para buscar no- vas referências fora de casa, podendo gerar uma ima- turidade emocional, associada a um enrijecimento
  24. 24. 46 Programa 5 Adolescência: construção da identidade pessoal 47 geral da personalidade – que se traduz em padrões ção sexual enfoca diferentes temas: direito à sexuali- infantis, carentes da elaboração correspondente a sua dade, iniciação, responsabilidade, necessidade de idade cronológica e física. proteção (em relação a doenças e gravidez), casamen- Muitos adolescentes com surdez – tal como mui- to etc. A abordagem dos temas tanto é feita de forma tas pessoas, ouvintes ou não – fazem uma associação específica quanto associada a determinadas discipli- errônea entre inteligência e boa comunicação oral, ou nas, como as referências biológicas ao conhecimento seja, à capacidade de falar bem. do próprio corpo dadas em Ciências. Tal atitude equivocada é prejudicial para o jovem Hoje, a educação sexual é vista com maior natu- que, diante de sua dificuldade de comunicação oral, ralidade, pois o interesse infantil pelo assunto é re- começa a se sentir menos competente. conhecido como um aspecto positivo do desenvolvi- mento sadio, tanto quanto as dúvidas e questões vi- A baixa estima pode levar à acomodação, ao desâni- vidas pelos adolescentes. mo e ao conformismo, induzido pelo medo de enfren- tar situações novas e conflitos. A preparação para o trabalho É comum os adultos se queixarem de que o adoles- O próprio surdo com comunicação restrita tende cente se sente perdido, sem interesses em relação a às vezes a delegar mais status ao colega que ‘fala bem’ seu futuro profissional; que sua auto-imagem é defor- (produz fala mais compreensível) e a elegê-lo como mada e confusa; que ele apela para soluções pouco representante e porta-voz de seus interesses. refletidas, ou influenciadas por amigos e familiares; A orientação sexual que dá prioridade ao retorno financeiro e deixa de lado valores como ‘gostar’ e ‘poder’. Tema sempre presente na adolescência, a orientação Para contornar essas dificuldades se torna ne- sexual busca hoje tratar o assunto de um ponto de cessário, ao longo do ensino fundamental e médio, vista cultural, com base na aceitação de diferentes um processo de orientação educacional que colo- valores, e não mais como um modelo padronizado de que à disposição do adolescente, surdo ou não, re- comportamento. Apesar de ser abordado com maior cursos para combater o desconhecimento de si pró- liberdade, o assunto ainda provoca conflitos entre as prio, a incapacidade para identificar o que ele pre- gerações. fere e o que são escolhas dos outros. O adolescente Algumas escolas, com o apoio dos familiares, cos- precisa aprender a compatibilizar suas aspirações tumam convidar médicos e especialistas para ofere- pessoais com as oportunidades sociais e as condi- cer palestras aos alunos adolescentes, buscando am- ções familiares. pliar o nível de informações disponíveis e sanar mui- O adolescente portador de surdez sofre também tas dúvidas. as conseqüências de outras circunstâncias: poucas Tratando o assunto com naturalidade, a orienta- oportunidades de cursos profissionalizantes, desin-
  25. 25. 48 Programa 5 Adolescência: construção da identidade pessoal 49 formação generalizada sobre as exigências e as opções mitações e potencialidades e ao reconhecimento das do mercado de trabalho, pouca visualização das pos- condições reais do mercado de trabalho. sibilidades profissionais em campos de trabalho não muito conhecidos e ainda restritos. Um processo de orientação profissional efetivo per- O ideal é que o jovem possa ser ativo em suas mitirá que o adolescente surdo encontre elementos escolhas, baseando-se na auto-análise, na compreen- para vir a competir profissionalmente com trabalha- são pessoal, no reconhecimento das vantagens e das dores ouvintes, em condições semelhantes. exigências de cada ocupação e de seu interesse por ela. É preciso, ainda, que identifique os requisitos A questão da capacitação profissional é outro as- profissionais e analise as próprias características pes- pecto importante a ser analisado na educação do ado- soais, para que possa escolher o que fará e venha a lescente com surdez. Embora muitos tenham acesso ser feliz com sua decisão. a cursos profissionalizantes, com freqüência tendem Para que o surdo possa ampliar seu conhecimen- a se concentrar na área de informática. É compreen- to sobre o mundo do trabalho, que a cada dia se tor- sível, já que, cada vez mais, as tarefas do dia-a-dia na mais competitivo, é imprescindível que ele, como dependem da informatização. qualquer outro adolescente, vivencie diferentes re- No entanto, o mercado de trabalho está em cons- alidades do universo ocupacional, por meio de vi- tante transformação e é preciso tomar consciência sitas a empresas, observação e entrevista com pro- dessas mudanças, antes de qualquer decisão. Por fissionais no próprio ambiente de trabalho e está- exemplo: nos anos 70, o surdo foi apontado como um gios visando a sondagem de habilidades e interes- ótimo profissional para operar máquinas de perfurar, ses profissionais. dado o intenso ruído advindo dessa operação, preju- dicial para as pessoas ouvintes. O processo escolar deve propiciar ao adolescente, Mais recentemente, ele foi considerado um surdo ou não, oportunidades de discutir as diferen- digitador muito produtivo, por sua maior capacidade tes situações conflitantes, procurando amadurecê-lo de concentração. Mas, qual será seu futuro se essas para superá-las ou, pelo menos, atenuá-las. funções desaparecerem, tal como já vem acontecendo? Será que o surdo poderá competir no mercado de trabalho de igual para igual, uma vez que suas opor- É fundamental que a escola crie condições para tunidades dependem da lacuna deixada pelos traba- ampliar as possibilidades dos jovens para que eles lhadores ouvintes? planejem sua carreira profissional durante o proces- so de ensino fundamental e médio. A opção escolar O plano de vida de cada aluno se enriquecerá ao ser compartilhado com seus colegas de classe, ajudan- Cursar uma escola especializada, ou encaminhar-se do a conduzi-lo à identificação de suas aspirações, li- para uma de ensino regular? Esta é uma das escolhas

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