Ministério da Educação
Secretaria de Educação Especial




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FICHA TÉCNICA




Secretaria de Educação Especial        Projeto Gráfico
Claudia Pereira Dutra                  Michelle V...
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APRESENTAÇÃO




       A proposta de atendimento educacional especializado para os alunos com altas habilidades/superdota...
SUMÁRIO




INTRODUÇÃO                                             9

Capítulo 1: Estratégias de Promoção da Criatividade ...
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INTRODUÇÃO
Denise de Souza Fleith




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Referências




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Capítulo 1




Estratégias de Promoção da
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     Se também argumentou sobre a necessidade deste                     O que nós chamamos de criatividade é um        ...
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a inteligência, a memória, a afetividade, as emoções,      trabalhos, encontraremos os conceitos criatividade e        ...
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é elevado e se reflete no produto final do ensino em               Uma dimensão vinculada à criatividade,
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Alunos Super Dotados 5

  1. 1. Ministério da Educação Secretaria de Educação Especial A Construção de Práticas Educacionais para Alunos com Altas Habilidades / Superdotação Volume 2: Atividades de Estimulação de Alunos Organização: Denise de Souza Fleith Brasília, DF 2007
  2. 2. 2
  3. 3. FICHA TÉCNICA Secretaria de Educação Especial Projeto Gráfico Claudia Pereira Dutra Michelle Virgolim Departamento de Políticas de Educação Especial Ilustrações Cláudia Maffini Griboski Isis Marques Lucas B. Souza FICHA CATALOGRÁFICA Coordenação Geral de Desenvolvimento da Educação Especial Fotos Kátia Aparecida Marangon Barbosa Vini Goulart Dados Interncaionais de Catalogação na Publicação (CIP) João Campello Fleith, Denise de Souza (Org) Organização Banco de imagens: A construção de práticas educacionais para alunos com Denise de Souza Fleith Stock Xchng altas habilidades/superdotação: volume 2: atividades de estimulação de alunos / organização: Denise de Souza Fleith. Revisão Técnica Capa - Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Renata Rodrigues Maia-Pinto Rubens Fontes Especial, 2007. 121 p.: il. color. Tiragem 5 mil cópias ISBN 978-85-60331-15-4 1. Educação dos superdotados. 2. Atendimento especializado. 3. Aluno superdotado. 4. Desenvolvimento da criatividade. 5. Autoconceito. 6. Prática pedagógica. I. Fleith, Denise de Souza. II. Brasil. Secretaria de Educação Especial. CDU 376.54
  4. 4. 4
  5. 5. APRESENTAÇÃO A proposta de atendimento educacional especializado para os alunos com altas habilidades/superdotação tem fundamento nos princípios filosóficos que embasam a educação inclusiva e como objetivo formar professores e profissionais da educação para a identificação dos alunos com altas habilidades/superdotação, oportunizando a construção do processo de aprendizagem e ampliando o atendimento, com vistas ao pleno desenvolvimento das potencialidades desses alunos. Para subsidiar as ações voltadas para essa área e contribuir para a implantação, a Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação – SEESP, convidou especialistas para elaborar esse conjunto de quatro volumes de livros didático-pedagógicos contendo informações que auxiliam as práticas de atendimento ao aluno com altas habilidades/superdotação, orientações para o professor e à família. São idéias e procedimentos que serão construídos de acordo com a realidade de cada Estado contribuindo efetivamente para a organização do sistema educacional, no sentido de atender às necessidades e interesses de todos os alunos, garantindo que tenham acesso a espaços destinados ao atendimento e desenvolvimento de sua aprendizagem. A atuação do MEC/SEESP na implantação da política de educação especial tem se baseado na identificação de oportunidades, no estímulo às iniciativas, na geração de alternativas e no apoio aos sistemas de ensino que encaminham para o melhor atendimento educacional do aluno com altas habilidades/superdotação. Nesse sentido, a Secretaria de Educação Especial, implantou, em parceria com as Secretarias de Educação, em todas as Unidades da Federação, os Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação – NAAH/S. Com essa ação, disponibiliza recursos didáticos e pedagógicos e promove a formação de professores para atender os desafios acadêmicos, sócio-emocionais dos alunos com altas habilidades/superdotação. Estes Núcleos são organizados para atendimento às necessidades educacionais especiais dos alunos, oportunizando o aprendizado específico e estimulando suas potencialidades criativas e seu senso crítico, com espaço para apoio pedagógico aos professores e orientação às famílias de alunos com altas habilidades/ superdotação. Os professores formados com o auxílio desse material poderão promover o atendimento e o desenvolvimento dos alunos com altas habilidades/superdotação das escolas públicas de educação básica e disseminando conhecimentos sobre o tema nos sistemas educacionais, comunidades escolares e famílias nos Estados e no Distrito Federal. Claudia Pereira Dutra Secretária de Educação Especial
  6. 6. SUMÁRIO INTRODUÇÃO 9 Capítulo 1: Estratégias de Promoção da Criatividade 13 Mônica Souza Neves-Pereira Capítulo 2: Desenvolvimento do Autoconceito 35 Angela Mágda Rodrigues Virgolim Capítulo 3: Modelo de Enriquecimento Escolar 55 Jane Farias Chagas Renata Rodrigues Maia-Pinto Vera Lúcia Palmeira Pereira Capítulo 4: Desenvolvimento de Projetos de Pesquisa 81 Renata Rodrigues Maia-Pinto Capítulo 5: Grupos de Enriquecimento 103 Jane Farias Chagas
  7. 7. 8
  8. 8. 9 INTRODUÇÃO Denise de Souza Fleith Volume 02: Atividades de Estimulação de Alunos Volume 02: Atividades de Estimulação de Alunos Apesar do crescente reconhecimento da diferenças individuais, quanto aos interesses, importância de se criar condições favoráveis ao estilos de aprendizagem e habilidades, são alguns desenvolvimento do potencial de indivíduos com dos fatores que podem interferir negativamente altas habilidades/superdotação, observa-se que no desempenho dos alunos com potencial pouco se conhece acerca das suas necessidades e elevado. características. Ademais, noções falsas sobre estes Tendências atuais na educação do super- indivíduos, fruto de preconceito e desinformação, dotado destacam a relevância de se preparar o estão profundamente enraizadas no pensamento aluno para a definição e solução de problemas, popular, interferindo e dificultando a implantação produzindo conhecimento por meio de práticas de práticas educacionais que atendam aos anseios que envolvam o pensamento crítico e criativo, e necessidades deste grupo. Por exemplo, uma paralelamente ao cultivo de um conjunto de traços idéia predominante em nossa sociedade é a de de personalidade como persistência, autocon- que o aluno superdotado tem recursos suficientes fiança e independência de pensamento, indis- para desenvolver suas habilidades por si só, não pensáveis a uma melhor expressão do potencial sendo necessária a intervenção do ambiente, ou superior (Alencar & Fleith, 2006; Colangelo & seja, os fatores genéticos são supervalorizados Davis, 1997). em detrimento do ambiente, que ocupa um papel Do ponto de vista da política de inclusão secundário no desenvolvimento de habilidades defendida pelo Ministério da Educação (Brasil, e competências. Entretanto, segundo Davis e 2005), flexibilizações curriculares e instrucionais Rimm (1994), um potencial não cultivado é um devem ser pensadas a partir de cada situação potencial perdido. O aluno com altas habili- particular e não como propostas universais. dades/superdotação necessita de uma variedade Assim, fundamentados nos princípios de atenção de experiências de aprendizagem enriquecedoras à diversidade e direito de todos à educação de que estimulem o seu desenvolvimento e favoreçam qualidade, chamamos a atenção para a neces- a realização plena de seu potencial (Alencar & sidade de se criar um ambiente educacional que Fleith, 2001). acolha e estimule o potencial promissor de alunos Outro mito é o de que o aluno superdotado com altas habilidades/superdotação. apresenta necessariamente um bom rendimento Este volume da coletânea sobre “Construção escolar. Porém, atitudes negativas com relação de Práticas Educacionais” focaliza atividades e à escola, bem como um currículo e estratégias estratégias de estimulação do potencial de alunos educacionais que não levam em consideração com altas habilidades/superdotação. No capítulo 1,
  9. 9. 10 10 “Estratégias de Promoção da Criatividade”, Mônica Renzulli, do Centro Nacional de Pesquisas sobre de pesquisa. Entretanto, pouco se sabe acerca Neves-Pereira apresenta diversas abordagens o Superdotado e Talentoso da Universidade de de como implementá-la de forma eficiente e Volume 02: Atividades de Estimulação de Alunos teóricas sobre criatividade, discute barreiras à Connecticut, nos Estados Unidos, fornece alter- produtiva. produção criativa e aponta características de uma nativas de enriquecimento curricular que podem Finalmente, no capítulo 5, Jane Farias atmosfera que favorece a expressão das habilidades ser utilizadas não apenas em programas para Chagas apresenta a estratégia dos “Grupos de criativas em sala de aula. Diante do cenário atual em alunos com altas habilidades/superdotação, mas Enriquecimento”, que visam proporcionar a todos que vivemos, de rápidas transformações e grandes também na sala de aula regular. Este modelo os alunos experiências de aprendizagem desafia- desafios, é inquestionável a necessidade de instru- sugere que altos níveis de desempenho escolar doras, auto-seletivas e baseadas em problemas mentalizar o aluno a prever problemas, romper e produção criativa podem ser alcançados pelos reais, além de favorecer o conhecimento avançado barreiras, reformular conteúdos e desenvolver alunos, desde que sejam oferecidas oportunidades em uma área específica, estimular o desenvolvi- formas de investigação mais produtivas. Para isso, é de aprendizagem significativa, autêntica e que mento de habilidades superiores de pensamento necessário que ele esteja inserido em um ambiente envolvam a construção do conhecimento pelos e encorajar a aplicação destas em situações que valorize e encoraje a criatividade (Alencar & alunos. Ainda neste capítulo, as autoras chamam criativas e produtivas (Renzulli, Gentry & Reis, Fleith, 2003; Wechsler, 2001). a atenção para a necessidade do professor, ao 2003). A preocupação em atender às necessi- planejar sua aula, selecionar técnicas instrucionais Esperamos que estes capítulos contribuam dades intelectuais e acadêmicas de alunos com e formas de avaliação, de considerar a diver- para o enriquecimento profissional dos educadores altas habilidades/superdotação é evidenciada sidade de interesses e estilos de aprendizagem e fornecendo subsídios para uma prática docente em programas e serviços para esta clientela. de expressão dos alunos. Amabile (1989) sugere que estimule um desenvolvimento criativo, Entretanto, pouco investimento tem sido feito no que os ambientes mais prejudiciais a um processo saudável e singular de cada aluno e oportunize que diz respeito ao desenvolvimento emocional de ensino-aprendizagem produtivo e prazeroso experiências de aprendizagem prazerosa consi- e social destes alunos (Alencar & Fleith, 2001; são ambientes inflexíveis que não conseguem derando a diversidade de interesses, estilos e Moon, 2002; Silverman, 1993). No capítulo acomodar a variedade de estilos e interesses que habilidades presente em sala de aula. 2 deste volume, Angela Virgolim aborda o os alunos apresentam. Ademais, uma educação “Desenvolvimento do Autoconceito”, dimensão democrática é aquela que leva em consideração essencial de uma vida emocional saudável. Neste as diferenças individuais, promovendo oportu- capítulo, a autora explica o que é autoconceito, nidades de aprendizagem compatíveis com as como ele é formado e que fatores contribuem para habilidades, interesses e estilos de aprendizagem a formação de um autoconceito positivo, além dos alunos (Fleith, 1999). de nos brindar com diversos exercícios interes- No capítulo 4, “Desenvolvimento de santes e criativos de promoção do autoconceito Projetos de Pesquisa”, Renata Maia-Pinto explica no contexto escolar. o que é pesquisa, detalha as etapas de elaboração e No capítulo 3, Jane Farias Chagas, Renata implementação de um projeto de pesquisa e fornece Maia-Pinto e Vera Lúcia Pereira se dedicam inúmeros recursos que podem auxiliar o professor e a apresentar o “Modelo de Enriquecimento alunos nesta tarefa investigativa. De maneira geral, Escolar”. Este modelo, proposto por Joseph se reconhece, na escola, a importância da atividade
  10. 10. 11 Referências Volume 02: Atividades de Estimulação de Alunos Volume 02: Atividades de Estimulação de Alunos Alencar, E. M. L. S. & Fleith, D. S. (2001). the gifted and talented. Denver, Co: Love. Superdotados: determinantes, educação e ajustamento. Renzulli, J. S., Gentry, M. & Reis, S. M. São Paulo: EPU. (2003). Enrichment clusters. A practical plan for real- Alencar, E. M. L. S. & Fleith, D. S. (2003). world student-driven learning. Mansfield Center, Criatividade: múltiplas perspectivas. Brasília: CT: Creative Learning Press. EdUnB. Wechsler, S. M. (2001). Criatividade na Alencar, E. M. L. S. & Fleith, D. S. (2006). cultura brasileira: uma década de estudos. Teoria, A atenção ao aluno que se destaca por um Investigação e Prática, 6, 215-226. potencial superior. Cadernos de Educação Especial, 27. Disponível: www.ufsm.br/ce/revista/index. htm (05/05/2006). Amabile, T. M. (1989). Growing up creative. Buffalo, NY: The Creative Education Foundation Press. Brasil. (2005). Educação inclusiva. Documento subsidiário à política de inclusão. Brasília: Ministério da Educação/Secretaria de Educação Especial. Colangelo, N. & Davis, G. A. (Orgs). (1997). Handbook of gifted education (2a. ed.). Needham Heights, MA: Allyn and Bacon. Davis, G. A. & Rimm, S. B. (1994). Education of the gifted and talented (3a. ed.). Needham Heights, MA: Allyn and Bacon. Fleith, D. S. (1999). Psicologia e educação do superdotado: definição, sistema de identificação e modelo de estimulação. Cadernos de Psicologia, 5, 37-50. Moon, S. M. (2002). Counseling needs and strategies. Em M. Neihart, S. M. Reis, N. M. Moon. (Orgs.), The social and emotional development of gifted children. What do we know? (pp. 213-222). Waco, TX: Prufrock Press. Silverman, L. K. (1993). (Org.). Counseling
  11. 11. Capítulo 1 Estratégias de Promoção da Criatividade Mônica Souza Neves-Pereira
  12. 12. 15 C riatividade é um tema de interesse geral. Não há quem não se as idéias estamos aprimorando nossas habilidades criativas. Dentro deste princípio, vamos explorar o Use este espaço para construir sua definição de criatividade, usando as letras “inventa- Capítulo 1: Estratégias de Promoção da Criatividade encante com os grandes criadores significado da palavra criatividade, seus conceitos das” e apresentadas acima. Não esqueça de da humanidade. Falar sobre as grandes invenções, a e suas múltiplas significações. que você pode criar outras letras diferentes. arte, a literatura, as descobertas científicas é sempre Vamos começar com uma brincadeira! Criar, Depois que você escrever a palavra “criatividade” muito envolvente e nos enche de prazer. Criar dá em japonês, se escreve assim: neste idioma diferente, traduza para o português o conceito inventado por você. prazer! É muito bom constatar que nossa espécie conseguiu chegar até aqui por causa desta compe- tência especial. É melhor ainda saber que temos esta competência, mesmo que não tenhamos muita Na verdade, a palavra é escrita na vertical. compreensão sobre a criatividade. Diferente, não é? A pronúncia da palavra corres- Para iniciar nossa conversa vamos consi- ponde ao som “kuriaru”. O significado literal derar que todos somos criativos, pelo menos em é “algo novo que nasce”. No idioma japonês as potencial. Vamos pensar em criatividade como um letras são diferentes, os significados também. Se recurso humano, como uma função psicológica que você fosse definir o que é criatividade, a partir de todos nós possuímos, desenvolvida em diferentes um idioma só seu, como seria esta palavra? Qual graus e dimensões, de acordo com a história de seria o seu significado? Você acrescentaria algo vida de cada um. Sendo assim, a criatividade não só novo ao significado de criatividade escrito em existe em potencial, como pode ser desenvolvida de japonês? Vamos imaginar que o alfabeto do seu fato. A partir destas idéias é que organizaremos os idioma particular fosse composto, em parte, pelas conteúdos deste capítulo, que se propõe a discutir letras abaixo. um pouco sobre criatividade, o que é este fenômeno Que letras são estas? O que significam? tão complexo, o que caracteriza as pessoas que se Use estas letras para escrever a palavra destacam por sua criatividade, quais barreiras são criatividade. Dê um significado a cada uma delas, comuns e impeditivas do processo de criar e como um significado que se relacione com o fenômeno podemos trabalhar no sentido de aprimorar nossas criativo. Brinque com estes símbolos e construa ferramentas criativas, nosso potencial latente, o seu conceito de criatividade. Você pode acres- Uma vez construída sua própria definição nosso talento. centar novas letras, se quiser. sobre o que é criatividade, podemos retomar a Falar sobre criatividade, portanto, exige discussão sobre este conceito, que apresenta algum esforço e certo talento criativo. Alguém disse, um consenso em sua definição e também expressa dia, que a necessidade é a mãe da criação. Vamos diferentes formas de abordagem do tema por parte partir do princípio de que a criatividade tem, de diversos pesquisadores. também, um pai, que é o divertimento. Criar pode Se você utilizou, na sua definição de criati- e deve conter uma dimensão de prazer, de alegria, vidade, a expressão “produzir algo novo” aproximou- de realização. Ao brincarmos com o pensamento e se da maior parte dos conceitos existentes.
  13. 13. 16 Se também argumentou sobre a necessidade deste O que nós chamamos de criatividade é um da época. Foi necessária a passagem do tempo para “algo novo ser útil em alguma instância”, também fenômeno que é construído por meio de interações que a obra deste grande artista pudesse adquirir chegou perto do que pensa a maioria dos investiga- entre produtores e audiência. Criatividade não é pro- reconhecimento e exercer profunda influência na dores da área. Criatividade parece incluir estas duas duto de indivíduos singulares, mas fruto de sistemas arte contemporânea. O exemplo de Van Gogh nos características, além de outras mais. Vamos ver o sociais que fazem julgamentos sobre estes indivíduos mostra que a criatividade necessita da chancela que dizem diferentes pesquisadores: e seus produtos. (Csikszentmihalyi, 1999, p. 314) do grupo social e histórico para emergir, precisa ser reconhecida pelo outro, que vai atribuir valor e Criatividade é o processo que resulta em um Há vários conceitos sobre criatividade, cada utilidade para a produção criativa. produto novo, que é aceito como útil e/ou satisfa- um deles acrescentando uma nova dimensão ao Alguns autores (Boden, 1999; Smolucha, tório por um número significativo de pessoas em fenômeno. Em geral, todos concordam que algo 1992a, 1992b; Vygotsky, 1987, 1990) destacam uma algum ponto no tempo. (Stein, citado em Alencar, criativo tem que atender aos critérios de ser original dimensão da criatividade que consiste em produzir 1995, p. 13) e útil, em um determinado tempo histórico. Um algo novo a partir da “combinação de idéias” já Pessoas de mente científica (...) geralmente produto ou idéia, para serem considerados criativos, existentes. Parte-se do princípio de que “ninguém definem criatividade como “combinação original de têm que contar com a concordância de um grupo cria alguma coisa do nada”. É indispensável que o idéias conhecidas” (...). As combinações originais social, em um determinado momento do tempo. sujeito criativo domine sua área de criação, tenha precisam ter algum tipo de valor, pois chamar uma Esta proposição é fácil de ser verificada. Vamos conhecimentos adequados para ser capaz de idéia de criativa é dizer que ela não é apenas nova, examinar o exemplo de Van Gogh. combinar idéias e gerar um resultado original. mas interessante. (Boden, 1999, pp. 81-82) Vincent Van Gogh (1853-1890), pintor Vygotsky (1987), renomado estudioso do A criatividade, como conceito, constitui uma holandês, é considerado um dos maiores mestres da desenvolvimento, foi um dos defensores desta visão construção teórica elaborada para tentar apreender história da arte de todos os tempos. Por meio do seu da criatividade. Este pesquisador compreendia uma realidade psicológica que se define, essencial- trabalho, Van Gogh estabeleceu as bases da pintura a criatividade como fenômeno potencialmente mente, por dois critérios que são relativos: os critérios do século XX. Mais ousado do que os impressio- universal, isto é, patrimônio de todos, e também de novidade e de valor; existindo consenso entre os nistas, o holandês expressou seus sentimentos por considerava a criatividade muito mais como regra do especialistas de que a criatividade se refere à capaci- meio de uma representação totalmente subjetiva da que exceção. Vygotsky também reforça a percepção dade de produzir algo que, simultaneamente, é novo realidade. Van Gogh criou uma nova “linguagem” da criatividade como fenômeno presente, de modo e valioso em algum grau. (Martínez, 2001, p. 92) plástica, desconstruindo modos de pintar e potencial, em todos os seres humanos. Na sua Novidade ou originalidade devem ser carac- propondo variações de pinceladas originais nunca concepção, não podemos definir se um indivíduo é terísticas imediatamente associadas com criatividade antes experimentadas. Este notável pintor, entre- criativo ou não apenas a partir de sua performance (...). Para ser criativo, uma idéia ou produto deve ser tanto, não foi compreendido pela sociedade de sua ou desempenho individual. As características que novo. O segundo aspecto da criatividade é a apro- época. Sua obra, hoje considerada genial e vendida compõem o fenômeno da criatividade são dadas priação. Um fator importante na determinação da por preços exorbitantes, não foi reconhecida pelas experiências de vida de cada sujeito em seu apropriação é o contexto cultural no qual a criativida- quando Van Gogh era vivo. O seu grupo social cenário histórico e cultural. de é baseada (...). Os veículos e o foco da criatividade não conseguiu identificar a originalidade do seu Este autor compreende a criatividade como variam de cultura para cultura e ao longo do tempo. trabalho, apenas a dimensão de transgressão da fenômeno psicológico, isto é, a criatividade faz (Starko, 1995, p. 5) sua obra, que não foi bem recebida pela sociedade parte do nosso repertório psicológico, assim como
  14. 14. 17 a inteligência, a memória, a afetividade, as emoções, trabalhos, encontraremos os conceitos criatividade e a distinção que este autor fez entre imaginação dentre outros. O sujeito criativo desenvolve suas imaginação compondo um pequeno sistema que ele reprodutiva e imaginação combinatória. A Capítulo 1: Estratégias de Promoção da Criatividade funções psicológicas em um cenário social que é, denominou “imaginação criativa”. imaginação reprodutiva está diretamente vinculada também, histórico e cultural. O modo como este A imaginação é, também, uma função psico- aos processos de memória e consiste na cópia, por sujeito vai construir as rotas de desenvolvimento de lógica humana. Costumamos pensar sobre a imagi- parte do indivíduo, de situações passadas, objetos sua criatividade se relaciona com este cenário, ou seja, nação como o exercício de um “pensamento aberto ou elementos apreendidos, dados de experiências como ele é significado, percebido e internalizado. a todas as possibilidades”. Por meio da imaginação afetivas, entre outros fatores. Já a imaginação combi- Além disso, Vygotsky considera o sujeito como ser podemos tudo: visitar planetas desconhecidos, natória, corresponde à criação de novos elementos, ativo nesta construção do desenvolvimento, um imaginar pessoas que não existem, pensar em idéias não vivenciados pelo sujeito, por meio da união e/ou sujeito que vai atuar no sentido de produzir o novo malucas ou simplesmente divertidas. A imaginação, fusão de idéias, experiências concretas ou subjetivas e reconhecer o novo. Desta forma, parece que a porém, é uma atividade mental totalmente conectada anteriores, dando origem a novas formas, compor- relação criatividade & indivíduo & cultura faz parte com a realidade, pois seus conteúdos são retirados tamentos, produtos. É uma ação eminentemente de um mesmo sistema, em que o indivíduo se torna da realidade e, posteriormente, transformados e/ou de origem social, pois corresponde aos anseios sujeito por meio da cultura, desenvolve suas habili- recombinados pela função imaginativa, construindo humanos de projeção no futuro, buscando soluções dades criativas em um cenário sócio-histórico e novas realidades. Se a imaginação permite combinar para situações do presente ou atendendo a desejos devolve a este cenário o produto de sua criatividade, idéias, ela não só pode como deve ter muito a ver de produtividade pessoal. Dessa forma, todo ato que pode ser traduzido em arte, ciência e/ou conhe- com a produção da criatividade. Boden (1999), criativo nasce da imaginação que, por sua vez, se cimentos cotidianos. Csikszentmihalyi (1999), um quando definiu criatividade, destacou a “combi- origina no contexto histórico-cultural. dos autores citados nas definições de criatividade, nação de idéias” como aspecto constituinte do Uma vez apresentados e discutidos distintos aproxima seu modo de ver o fenômeno criativo das ato de criar. Vygotsky também apostou na imagi- conceitos sobre criatividade, compreendendo que concepções de Vygotsky. nação como elemento essencial para que houvesse este fenômeno tem uma natureza extremamente Uma vez compreendida desta forma, como expressão criativa. complexa e que seu desenvolvimento é sistêmico, isto fenômeno psicológico humano, como função típica A atividade criativa, para Vygotsky, é originária é, envolve várias dimensões da existência humana, do homem, o conceito de criatividade se amplia e, da função da imaginação, é uma ação relacionada podemos nos aventurar em outro tema relevante: “o segundo Vygotsky (1987), se liberta da concepção com a interpretação da realidade feita pelos sujeitos sujeito criativo”! corriqueira que julga a criatividade como atributo e depende, diretamente, das experiências do homem Quem é o sujeito criativo? O que diferencia de alguns poucos iluminados, desconsiderando a em contato com sua realidade cultural objetiva e esta pessoa das outras? Por que algumas pessoas capacidade criativa presente no homem comum. subjetiva. A imaginação está ligada à emoção. Ela conseguem produzir arte, ciência e tecnologia É reconfortante saber que todos somos criativos, retira fragmentos da realidade e, por meio de novas com superioridade, quando comparadas a outros em alguma competência, alguma instância, algum significações destes fragmentos, devolve à cultura, sujeitos? cantinho do nosso saber-fazer e sentir. Mas, o que é em forma de um produto criativo, leituras renovadas Examinemos o quadro a seguir: criatividade para Vygotsky? desta mesma realidade. Esta é a essência do processo Júlio, Luzia, André, Paula e Kika são pessoas Ao falar sobre criatividade,Vygotsky (Smolucha, criativo na concepção de Vygotsky. comuns, cada um com suas características próprias, 1992a) não dissociou este fenômeno de outras funções Concluindo a conceituação de criatividade que as definem como personalidades distintas. psicológicas, especialmente da imaginação. Em seus na perspectiva de Vygotsky (1987) vamos destacar Certamente conhecemos várias outras pessoas que
  15. 15. 18 possuem traços de personalidade parecidos com os uma produção criativa. Afinal, uma obra de arte, um principais traços de personalidade. A psicologia da das nossas personagens acima. Júlio, Luzia, André, modelo científico, um produto inovador costumam criatividade já avançou bastante nesta área de inves- Paula e Kika, potencialmente, podem ser conside- ser reconhecidos por uma gama de indivíduos (pelo tigação e tem algumas contribuições a dar. rados criativos. Porém, se entre as nossas personagens menos) dentro de um contexto social. Entretanto, se Para identificar traços de personalidade há alguma, em especial, que se destaca por uma desejamos conhecer sobre criatividade não podemos que caracterizam pessoas criativas parece óbvio produção criativa em maior grau, como saberemos? abrir mão de tentar compreender quem é o sujeito procurar conhecer os sujeitos que se destacam por Definir quem é o sujeito criativo consiste criativo. É importante saber o que diferencia este elevada criatividade e tentar analisar o que carac- em uma tarefa difícil. Parece mais fácil identificar sujeito das outras pessoas e investigar quais os seus teriza a personalidade destes indivíduos. Foi o que fizeram Barron e MacKinnon (citados em Alencar, 1995). Estes pesquisadores elaboraram estudos com o propósito de conhecer quem é o sujeito considerado criativo, como ele funciona cognitiva- Júlio - 15 anos Luzia - 19 anos Aventureira, mente e quais as características e traços de perso- Muito inteligente, gosta do perigo nalidade que o diferenciam dos demais. sensível e e de desafios. romântico. Na escola, As pesquisas realizadas utilizaram como Desenha porém, apresenta amostra sujeitos representantes de vários campos muito bem. problemas. do conhecimento, como: artes, ciências, arqui- tetura, matemática, entre outros, todos consi- derados altamente criativos pelas contribuições André - 25 anos prestadas às suas respectivas áreas. Por meio Curioso, tem senso destes estudos, evidenciou-se que as caracterís- investigativo e ticas e os traços de personalidade dos sujeitos gosta de misté- rios. Não é muito estudados apresentavam pontos comuns perce- comunicativo e bidos nas diversas amostras analisadas. Alencar gosta de silêncio. (1992) procurou articular os diferentes traços de personalidade típicos de sujeitos criativos em quatro tópicos, a saber: Paula - 30 anos (a) autonomia, iniciativa e persistência; Kika - 12 anos É uma pessoa Rebelde e indisci- (b) flexibilidade e abertura a experiências; triste, mas escreve plinada, não gosta lindas poesias. Já de seguir regras. (c) autoconfiança, independência e publicou 3 livros É a líder do seu e têm recebido (d) sensibilidade emocional, espontaneidade e grupo e admira- convites para da por todos. intuição. palestras. Starko (1995) considera que a identificação de sujeitos criativos consiste em um grande desafio para a ciência. Indivíduos criativos são dotados de
  16. 16. 19 personalidades complexas, como todas as pessoas, regular ou superior de inteligência. Quando o sujeito porém com traços personológicos diferenciados. que cria apresenta inteligência superior à média, este O SUJEITO CRIATIVO TEM... Capítulo 1: Estratégias de Promoção da Criatividade Como ainda não avançamos o suficiente no campo fator parece não exercer efeito significativo sobre os Senso de humor elevado; científico, a ponto de sabermos o que acontece resultados do esforço criativo. Independência para julgar na mente de um sujeito criativo, a autora prefere Criatividade exige inteligência, sem dúvida, suas pró-prias idéias; apostar nesta identificação por meio de três fatores porém a recíproca não parece proceder. Entretanto, Flexibilidade mental; distintos: há casos de sujeitos com déficits de aprendizagem Pensamento metafórico; (a) análise das características cognitivas do e desenvolvimento que apresentam criatividade em Abertura para novas idéias; sujeito; grau significativo. Há relatos de indivíduos “savant” Muita indignação; (b) identificação de traços de personalidade (um quadro em que o sujeito apresenta déficits Habilidades de pensamento lógico; relacionados com a criatividade e cognitivos e, ao mesmo tempo, grande talento em Preferências por situações e pensamentos (c) eventos biográficos, que nos permite conhecer área específica) que apresentam produções altamente complexos; melhor o sujeito criativo por meio da sua criativas, em domínios distintos (Starko, 1995). Estes Coragem; história de vida. casos representam exceções à regra. Em geral, sujeitos Foco na tarefa; Um aspecto que podemos destacar no sujeito criativos são muito inteligentes. Pode-se evidenciar Compromisso com a tarefa; criativo é a alta probabilidade dele apresentar inteli- tal relação em pessoas com altas habilidades. A criati- Curiosidade; gência superior. A relação entre criatividade e inteli- vidade é um dos elementos que permite a identifi- Perseverança; gência vem sendo investigada há tempos, por diversos cação da superdotação. Disposição para correr riscos; autores (Barron, 1969; Barron & Harrington, Com relação aos traços de personalidade, os Auto-estima positiva; 1981; Getzels & Jackson, 1962; Guilford, 1967, estudos de MacKinnon (1978) também identifi- Abertura a novas experiências; 1979; MacKinnon, 1978). Os resultados apontam caram que o sujeito criativo é: para aspectos interessantes e ambíguos, porém de (a) original, capaz de gerar múltiplas idéias; Tolerância à ambigüidade; relevância na composição do intricado quebra- (b) independente, o que gera motivação para lidar Interesses amplos por diferentes campos do saber; cabeça que representa a compreensão do sujeito que com situações onde a liberdade é valorizada e Gosto pela aventura; se destaca por sua criatividade. o conformismo não tem vez; Inteligência e criatividade parecem se relacionar (c) intuitivo, ou seja, valoriza inspirações, insights, Percepção de si mesmo como criativo; de modo singular. Os achados de MacKinnon metáforas e aspectos subjetivos do saber; Resistência a seguir regras. (1978), por exemplo, não permitem avaliar a criati- (d) interessado em múltiplas áreas do vidade de uma pessoa por meio de um escore de conhecimento e principais características personológicas identificadas QI, mas indicam que sujeitos que se destacam por (e) acredita em seu potencial criativo, no valor do em pessoas com alto desempenho criativo. uma produção criativa costumam apresentar inteli- seu trabalho e do seu esforço. O sujeito criativo apresenta traços de perso- gência superior. Barron (1969) identificou, em seus O sujeito criativo, portanto, é dotado de nalidade bem específicos. Porém, mesmo de posse estudos, uma moderada relação entre criatividade distintos traços de personalidade que costumam ser destes saberes, identificar uma pessoa como altamente e inteligência. Na perspectiva deste autor, qualquer comuns a todos aqueles que se destacam por uma criativa baseado apenas em evidências de traços de contribuição criativa exige, do seu autor, um padrão produção criativa. O desenho abaixo apresenta as personalidade pode não levar a resultados precisos.
  17. 17. 20 terizam criatividade no adulto não necessaria- é aquela força interna que nos mobiliza e nos leva mente garante que estes mesmos traços apareçam a realizar e produzir coisas, idéias, objetos, arte ou em crianças criativas, ou mesmo em crianças que ciência pelo simples desejo de querer produzir. A crescem em companhia de adultos muito criativos. motivação intrínseca é interna, surge no âmago Na perspectiva desta autora, os conhecimentos que do nosso desejo de realizar coisas. Para que haja dominamos sobre a criatividade e suas manifes- criatividade, a motivação intrínseca é indispen- tações em crianças são, ainda, bastante limitados. sável. Amabile enfatiza, ainda, a diferença entre Tal limitação, entretanto, não impede que se pense motivação intrínseca e extrínseca, alegando sobre estratégias de promoção da criatividade na que esta última pode ter efeito danoso sobre o infância. O conhecimento acerca dos aspectos processo criativo, uma vez que desvia o interesse personológicos que caracterizam o sujeito criativo do indivíduo da tarefa para elementos exteriores muito tem a auxiliar neste contexto. de caráter compensatório. Um ponto, que tem sido também destacado Até aqui apresentamos múltiplas possibi- nas discussões sobre a personalidade criativa, diz lidades de identificação de sujeitos criativos, com Uma pessoa é mais do que o somatório dos seus respeito à importância de se possuir “conheci- base em seus processos cognitivos e traços de perso- traços de personalidade. Ela é fruto de uma história mentos”, sejam gerais ou específicos. A maioria nalidade. Entretanto, podemos dizer que as nossas pessoal, única e intransferível. Mesmo cientes de que dos autores concorda que, sem algum conheci- personagens são criativas a partir da evidência estes traços, por si sós, não são capazes de informar mento prévio sobre um assunto, torna-se pouco destes elementos? Vamos rever nossas personagens. sobre o nível ou grau de criatividade de uma pessoa, provável produzir algo que possa ser considerado Se formos analisar o breve histórico de cada eles representam um avanço nas investigações sobre inovador ou original. Uma bagagem de conheci- personagem vamos encontrar traços de persona- criatividade, pois lançam luzes importantes sobre esta mentos é fundamental para o processo criativo. lidade que se associam à criatividade em quase tarefa complexa, que é “conhecer a personalidade de Quanto maior esta bagagem, maior o número todas. Entretanto, a identificação destes traços é pessoas com alto potencial criativo”. de padrões, combinações ou idéias que se pode suficiente para avaliarmos se Kika, por exemplo, A identificação dos traços de personalidade alcançar (Alencar, 1992). é uma menina criativa? A presença destas carac- que caracterizam sujeitos criativos também repre- A motivação é outro aspecto que também terísticas é fator indicativo, mas não garante que senta uma opção metodológica quando pensamos tem recebido destaque por diferentes estudiosos, o sujeito seja, de fato, criativo. Criatividade, como em promover criatividade. Se conhecemos os como Amabile (1983), Amabile e Hennessey todo fenômeno complexo, exige mais trabalho traços que estão associados aos sujeitos com alto (1987) e Torrance (1987). Torrance, em suas em sua identificação. Avaliar a criatividade de potencial criativo, podemos atuar no sentido de considerações sobre o comportamento criativo, um sujeito demanda, também, compreender sua auxiliar pessoas comuns a trabalharem estes traços identificou que se pode esperar altos níveis de história de vida, a sua construção de rotas de desen- em si mesmas e, conseqüentemente, abrir campo performance criativa de pessoas que apresentam volvimento, seus processos de aprendizagem e sua fértil para o cultivo da criatividade. motivação e habilidades necessárias ao ato produção criativa. A história do sujeito tem muito Identificar adultos criativos é a mesma coisa criativo. Amabile defende a hipótese de que a a nos informar sobre sua criatividade, por isso a que identificar crianças criativas? Starko (1995) motivação intrínseca é a chave mestra que abre as relevância em investigarmos os traços biográficos destaca que a identificação de traços que carac- portas do processo criativo. Motivação intrínseca que se relacionam com um perfil criativo.
  18. 18. 21 desenvolver suas habilidades criativas do que outras crianças, desprovidas destes aspectos ambientais. Capítulo 1: Estratégias de Promoção da Criatividade Júlio - 15 Luzia - 19 O fenômeno criativo é revestido de uma anos anos Aventureira, natureza muito complexa e parece indispensável Muito gosta do abordá-lo a partir de, pelo menos, dois eixos, a saber: inteligente, perigo e de sensível e desafios. Na (1) um eixo de análise do indivíduo criativo, romântico. escola, porém, que vamos chamar de eixo intrapessoal, isto Desenha apresenta muito bem. problemas. é, uma perspectiva de avaliação do sujeito em seus processos internos e, (2) um eixo de análise do ambiente social André - 25 anos e cultural do sujeito criativo, que vamos Curioso, tem sen- so investigativo e chamar de eixo interpessoal, ou seja, uma gosta de misté- perspectiva de avaliação do sujeito em suas rios. Não é muito comunicativo e interações com os outros e com o ambiente gosta de silêncio. social e cultural (Neves-Pereira, 2004). Criatividade investigada em uma perspectiva intrapessoal vai enfatizar aspectos constituintes do Paula - 30 anos Kika - 12 anos Rebelde e fenômeno, como a dimensão cognitiva, o processo É uma pessoa triste, mas escreve indisciplinada, criativo e alguns traços de personalidade. Tais lindas poesias. não gosta de seguir regras. dimensões ampliam nosso conhecimento sobre Já publicou 3 livros e têm É a líder do seu a criatividade e seus processos, mas ofertam uma recebido convites grupo e admi- para palestras. rada por todos. visão ainda limitada da dinâmica e funcionamento da ação criativa inserida em um contexto ambiental e cultural. Ao considerar a perspectiva interpessoal, as pesquisas sobre o fenômeno criativo privilegiam Em Starko (1995) encontramos alguns indica- Entretanto, há registros de sujeitos criativos que tópicos como: tivos sobre aspectos biográficos que se relacionam não apresentavam estas características biográficas. O (a) as barreiras sociais presentes no ato de criar; com a criatividade. Esta autora comenta que sujeitos que os estudos nos mostram é que estas variáveis se (b) as dimensões social e cultural que outorgam criativos são, em grande parte, filhos primogênitos relacionam de modo significativo com a expressão a chancela de “criativo” para determinados e são criados em ambientes ricos em estimulação e criativa, mas não são elementos presentes em “todos” produtos e/ou idéias e diversidade de informações. Também aparece como os sujeitos criativos. Porém, crianças que têm a (c) a relevância do suporte social para que a resultado de pesquisa que os sujeitos altamente oportunidade de vivenciarem um clima familiar criatividade se desenvolva. Compreender a criativos, na infância, gostavam muito da escola, harmonioso e estimulador, que estão cercadas por criatividade como fenômeno que só existe adoravam a leitura, adotavam diversos hobbies adultos inteligentes e criativos e que recebem escola- em uma relação de interdependência com e tinham múltiplos interesses extra-escolares. ridade de qualidade possuem melhores condições de o ambiente e a cultura é muito importante
  19. 19. 22 para entender quem é o sujeito criativo e o de premissas culturais, historicamente datadas e que o motiva a criar. construídas por estas pessoas ao longo de suas traje- Segundo Amabile (1983), para que o sujeito tórias desenvolvimentais. Portanto, a menos que um possa estar intrinsecamente motivado é necessário determinado grupo social dê a chancela de criativo um ambiente propício e favorável, que valorize a determinado produto, este não tem chances de a criatividade e que não imponha restrições ou adquirir este valor por si só. Como destaca o próprio contextos competitivos, detrimentais a uma autor: “Assim, se uma idéia ou produto são criativos produção original. Neste sentido, a motivação ou não, não depende de suas qualidades intrínsecas, intrínseca não é compreendida como um fenômeno mas do efeito que são capazes de produzir em outros psicológico apenas interno, dissociado de uma sujeitos expostos a eles” (1988, p. 314). perspectiva maior, que é representada pelo contexto Csikszentmihalyi define criatividade, então, ambiental e/ou social. A proposta desta autora é de como um fenômeno construído por meio de uma “Psicologia Social da Criatividade”, na qual as interações entre criador e audiência. Criatividade dimensões ambientais vão operar de modo signi- não é produto de indivíduos singulares, em ações Na sua perspectiva, para que ocorra criati- ficativo no incentivo à motivação intrínseca, que individuais, mas sim fruto do julgamento e vidade, uma série de práticas, crenças e valores devem consiste na semente do ato criativo. aceitação de determinados grupos de indivíduos ser transmitidos do domínio para o indivíduo. Este Csikszentmihalyi (1999) também destaca a acerca dos produtos apresentados como criativos. A pode, por meio da significação destas informações importância de analisarmos a criatividade conside- dimensão social é que vai significar a criatividade, culturais, produzir algo novo a partir do domínio. rando sua dimensão social e ambiental. Ele destaca porém, em uma perspectiva sistêmica, onde cada Entretanto, esta produção deve ser selecionada e que a criatividade tem sido investigada mais como sujeito é relevante para o processo, mas dependente aprovada pelo campo, para que haja futura inclusão fenômeno mental do que fenômeno social e cultural, do grupo social para reconhecimento e validação de da novidade no domínio e, conseqüentemente, aspectos que a caracterizam com mais ênfase. A partir sua criação. transformação cultural. de suas reflexões e estudos sobre o fenômeno criativo, Na formulação do seu modelo explicativo A visão sistêmica de Csikszentmihalyi este autor desenvolveu um modelo sistêmico por meio do fenômeno criativo, Csikszentmihalyi (1999) considera a cultura (domínio) como fonte do qual tenta explicar as complexas relações entre acrescentou outros conceitos aos já discutidos da produção humana. Sem a cultura não há criatividade, sociedade e cultura (Csikszentmihalyi, anteriormente. Ele identificou a relevância de humanidade, nem significação de obras, produções 1988). O modelo proposto por este pesquisador parte se considerar a cultura como representante do e inovações. O modelo também assume a relevância da premissa de que não é possível a emergência da aspecto simbólico do processo, que ele nominou do indivíduo no processo criativo e o diferencial que criatividade sem um aval sócio-cultural. Conceituar como “domínio”, assim como uma dimensão cada sujeito faz no contexto da criação, sem, entre- ou mesmo identificar criatividade com base em social, neste modelo denominada como “campo”. tanto, dissociá-lo de seu entorno social e cultural, traços personológicos ou mesmo a partir de signi- A estas duas dimensões foi somada a dimensão que vai alimentar esta criatividade para que ela ficados subjetivos que o sujeito dá à sua produção “individual”, correspondente ao sujeito co-autor seja devolvida ao domínio, por meio de obras e não consiste em postura correta neste domínio. Algo do processo criativo. A partir deste modelo e das novas idéias. Csikszentmihalyi, porém, acrescenta só é reconhecido como criativo quando exposto ao interações entre as partes constituintes é que surge o conceito de campo, considerando a organização julgamento de outras pessoas. Este julgamento parte a criatividade. social do domínio a dimensão que vai decidir o
  20. 20. 23 que é aceito como criativo pela sociedade, em seus São várias as barreiras que impedem a O desconhecimento, por parte do indivíduo, diferentes níveis. emergência da criatividade. Estas barreiras têm de seus próprios recursos internos; Capítulo 1: Estratégias de Promoção da Criatividade Em uma perspectiva sistêmica, a criatividade origem em aspectos individuais, coletivos, sociais e Medo de arriscar e de fracassar; sempre vai gerar modificações em todas as instâncias culturais. Em geral, as sociedades não se organizam Dificuldade em reestruturar um problema, envolvidas no processo criativo: o sujeito, seu núcleo de modo a promover ou mesmo estimular seus vendo-o sob um novo enfoque, dimensão ou social e seu nicho cultural. Ao inovar, o sujeito parte de indivíduos a serem criativos. Pessoas criativas trans- ponto de vista; premissas, idéias e informações recebidas por meio dos gridem, modificam as regras, mudam os sistemas, A dificuldade de reformular um julgamento mediadores culturais, devolvendo este saber em forma promovem inovação. Estes processos são complica- previamente formado a respeito de algo; de um produto ou idéia, suficientemente impactantes, dores da ordem social e, portanto, pouco estimulados Inabilidade para observar e isolar aspectos a ponto de gerar novos padrões nesta mesma cultura da na sociedade. Vivenciamos um paradoxo: necessitamos diversos de um problema. qual foi originado. É um processo que se auto-alimenta, da criatividade, pois ela é a mola mestra que promove As barreiras de natureza social surgem no seio que funciona modificando todas as dimensões envol- progresso e adaptação à vida, mas, ao mesmo tempo, da cultura de cada grupo e atuam no sentido de evitar vidas e que tem origem na complexidade das relações tememos o novo, porque ele modifica as estruturas já comportamentos desviantes “da norma social”. As homem e cultura. Portanto, compreender criatividade conhecidas. Diante deste impasse, o contexto social agências sociais, como a escola, trabalham para “educar” sem abordar uma visão sistêmica e dialética restringe termina por impedir a expressão criativa como medida e “moldar” as pessoas a partir de modelos estabelecidos a riqueza deste fenômeno, situando-o em dimensões de manutenção da “ordem e da estabilidade” social. As de acordo com as ideologias dominantes. Inseridos isoladas, que não permitem a visualização e o enten- barreiras surgem a partir deste contexto, desta neces- neste sistema, os sujeitos apresentam dificuldades dimento da dinâmica e da estrutura desta função sidade de construirmos sociedades “anticriativogê- significativas para expressarem seus talentos, desejos e humana tão necessária para a nossa sobrevivência. nicas”, parafraseando Arieti (1976). inspirações. Alencar (1995) aponta para as seguintes Mesmo investigando as múltiplas nuances que Estas barreiras, entretanto, são de natureza barreiras de natureza social: caracterizam a criatividade, ainda assim a identifi- diferenciada. Algumas expressam impossibilidades As pressões sociais em relação ao indivíduo que cação do sujeito criativo continua sendo tarefa difícil. pessoais e são construídas por meio de crenças e diverge da norma; Entretanto, se conhecemos os traços personológicos valores disseminados mediante a educação informal Aceitação pelo grupo como um dos valores que definem um perfil criativo, se compreendemos e formal. As barreiras pessoais impedem que nos mais cultivados; a história do sujeito e se conseguimos visualizar sua vejamos como criativos e embaçam a percepção do As expectativas com relação ao papel sexual, ou produção inserida em um contexto ambiental, social e sujeito no sentido de “ver o novo”. Estas barreiras, em seja, há coisas que só os meninos fazem e outras cultural já somos competentes o suficiente para levan- geral, incluem o reforço de traços de personalidade que só as meninas podem fazer; tarmos hipóteses sobre a existência de criatividade. que não são favoráveis à expressão criativa, promo- Consideração da tradição como preferível à Há, porém, outros fatores que inviabilizam a expressão vendo no indivíduo sentimentos de insegurança com mudança; do talento criativo, como por exemplo, as barreiras de relação ao seu potencial criador. Alencar (1992, 1995) Ênfase na razão e na lógica, desvalorizando-se a diferentes naturezas que impedem a criatividade. Falar elencou algumas destas barreiras, a saber: intuição e os sentimentos. sobre estas barreiras é de extrema relevância para o Medo do erro e da crítica; Estas barreiras, tão comuns na vida diária, entendimento do processo de criar, pois o meio social e Baixa expectativa com relação a si mesmo; impedem o florescimento da criatividade em cultural tanto promove como inibe a expressão criativa Preferência por julgar idéias ao invés de múltiplas instâncias, em especial na escola. A dos sujeitos. gerar idéias; partir de agora vamos direcionar nosso assunto
  21. 21. 24 para a escola, como local privilegiado de desen- sempre um núcleo de mensagens culturais a serem pedagógico, por vezes, impede o pleno desenvol- volvimento humano e aprendizagem e como transmitidas (de forma intencional e/ou oculta) e vimento das competências citadas anteriormente, espaço potencialmente capaz de promover a esse trabalho cabe ao universo da educação formal, destacando tarefas e atividades que privilegiam a criatividade dos alunos. que advoga para si a função de preparar os novos memorização, a reprodução de conhecimentos, a A escola, desde o seu surgimento nas socie- cidadãos de uma sociedade. obediência e a submissão às regras, aspectos detri- dades industrializadas, vem assumindo a tarefa da A escola é o destino da maioria das crianças mentais à expressão criativa. educação formal, preparando crianças e jovens para das sociedades industrializadas. É na escola que elas O que parece é que a escola, historicamente, a vida em sociedade, para a aquisição de um fazer passarão anos, em convívio intenso com colegas, não assumiu seu papel de promotora da criatividade profissional e para a construção de competências de professores, educadores e os significados da cultura. dos seus alunos e nem de um ensino criativo. Nos cidadania. Em quase todas as culturas ocidentais, as A escola não é uma opção para estas crianças, países desenvolvidos, observamos iniciativas que crianças estão ingressando cada vez mais cedo na é a regra. Todos deverão passar por ela e a ela se mostram certo interesse em prover os educadores instituição escolar. Por múltiplas razões, esse ingresso submeter. Sendo este espaço de tamanha influência de programas e modelos que auxiliem na tarefa do antecipado tem promovido transformações qualita- nos processos de desenvolvimento e aprendizagem desenvolvimento das habilidades criativas (Cropley, tivas e quantitativas no desenvolvimento infantil. A infantil, é bom que a escola se dê conta disto e se 1997; Davis, 1991; Starko, 1995; Torrance, 1987). escola é o local onde parte significativa dos processos prepare para atuar da forma mais competente e Em países em desenvolvimento, entretanto, esta não de desenvolvimento e aprendizagem da criança adequada possível. tem sido a tônica. acontecerá, por meio das suas relações com profes- Ao pensarmos em uma escola preparada para No Brasil, em especial, os programas de sores e colegas. atuar de modo competente, não podemos desconsi- formação de professores não tem considerado a A escolarização formal implica inserção do derar a relevância da criatividade como geradora de relevância de preparar o professor para a mediação de sujeito em uma instituição social, com regras e valores métodos, conteúdos e habilidades a serem formadas, um ensino criativo. Salvo iniciativas pontuais, geral- pré-estabelecidos e com um objetivo bem específico: tanto em alunos como em professores. Será que a mente identificadas por meio de demandas de cursos transmitir o legado cultural de cada grupo social aos escola está preparada para isto? Está pronta para e oficinas de criatividade, tanto o setor público como alunos, assim como o repertório de crenças e valores promover a criatividade dos alunos? Está pronta para o setor privado do ensino não assumiram, ainda, um cultuados pela comunidade onde se localiza a insti- ofertar um ensino criativo? É capaz de preparar seus compromisso genuíno com a promoção da criatividade tuição. Para adquirir essa herança cultural, a criança educadores para, também, serem sujeito criativos na escola. Em um país com tantas demandas educa- necessita participar concretamente das atividades em sala de aula e fora dela? cionais urgentes, como vagas nas escolas públicas, culturais (Rogoff, 1990, 2003), permanecendo por A realidade escolar é complexa e contra- preparo e capacitação de professores, aquisição de um tempo em contato com essas mensagens (daí ditória, quando se trata de criatividade e ensino. recursos materiais, fomento financeiro, entre outros a importância da continuidade do ensino básico). Geralmente, encontramos escolas, professores e pais aspectos, preocupar-se com a criatividade no ensino Ela precisa, portanto, vivenciar estas práticas por muito interessados em criatividade e sua promoção. torna-se, aparentemente, quase um luxo. Mas não é. meio de exercícios, jogos e brincadeiras, para que Na prática, o cenário é um tanto diferenciado deste Quem pesquisa e investiga criatividade no a internalização possa ocorrer de modo eficiente. A desejo. Em algumas escolas, é possível identificar contexto educacional sabe da importância deste tema despeito das escolas adotarem modelos pedagógicos ênfase em atividades que auxiliam o desenvolvi- para o desenvolvimento humano e cultural de uma muito diferenciados, todas assumem esse objetivo mento da autonomia, autoconfiança, criatividade nação. O desperdício que se observa em sala de aula, central: “a transmissão do conhecimento”. Há e auto-estima das crianças. Em outras, o desenho com relação ao desenvolvimento do potencial criativo,
  22. 22. 25 é elevado e se reflete no produto final do ensino em Uma dimensão vinculada à criatividade, nosso país, como por exemplo: alunos mal preparados, normalmente negligenciada pela escola, diz respeito Capítulo 1: Estratégias de Promoção da Criatividade com uma visão reprodutivista do conhecimento e sem ao desenvolvimento dos processos de imaginação. É auto-estima para inovar e/ou propor soluções originais do senso comum a constatação de que a imaginação para os velhos problemas. Tal contexto é detrimental faz parte da estrutura psíquica infantil, destacando-se para o país, pois evidencia o pouco aproveitamento de como função de grande valor no processo de desen- competências humanas totalmente disponíveis, bem volvimento da criança (Vygotsky, 1987). Ainda não ali, na sala de aula. dotada de um raciocínio conceitual, a criança experi- A escola, por falta de informação e formação, menta e compreende o mundo a partir da imaginação. vem atuando muito mais na direção oposta, no que Suas emoções se expressam também por meio desta diz respeito ao fomento da criatividade. O que se função. Mesmo quando inicia o domínio do raciocínio registra, em grande parte das instituições de ensino, conceitual, a criança mantém atividades imaginativas, é uma atuação no sentido de bloquear e desesti- pois estas lhes proporcionam imenso prazer e senti- favorece o surgimento de autoconceito negativo e/ mular o processo criativo nos alunos. As caracte- mento de liberdade. Entretanto, a escola não tem se ou inadequado nas crianças. Essa postura depre- rísticas estruturais da escola refletem uma postura posicionado como um espaço propício ao exercício da ciativa em relação ao potencial e capacidades do educacional voltada para o passado, cuja principal imaginação ou mesmo da fantasia. Em geral, propõe- aluno termina por desperdiçar talentos, recursos e preocupação se refere ao acúmulo de conheci- se a “treinar” os alunos para lidarem com a “realidade”, possibilidades disponíveis, mesmo que em latência, mentos. Permanece a conduta conservadora que reforçando todos os comportamentos não estimula- em todos os indivíduos. não reconhece a necessidade de olhar o futuro e dores da imaginação e da fantasia como o silêncio, a A questão do erro, como sinônimo de seus desafios e preparar os alunos para lidarem atenção, a memorização e a repetição de conteúdos. fracasso, merece atenção dentro do contexto escolar. com um mundo em rápida mutação, dando-lhes Segundo Alencar (1992): É dado culturalmente, e a escola como agência de instrumentos para solucionar problemas diferen- O treino da realidade começa, porém, bem socialização reforça essa crença, uma regra com a ciados e criar modelos novos. cedo na vida de toda criança e a imaginação tem sido qual a maior parte das pessoas concorda. A regra Dentro deste quadro de resistência a modifi- rejeitada e reprimida. Mesmo na pré-escola, a ênfase é: “é proibido errar!”, principalmente se almejamos cações, a escola vem se posicionando como não tem sido cada vez mais no sentido de se transmitir ao sucesso. De posse dessa regra, toda vez que estimuladora do pensamento criativo. O ensino informações factuais e o espaço para o jogo e para a cometemos erros nos sentimos constrangidos e tem se pautado na reprodução e memorização dos brincadeira vem se reduzindo de uma forma signi- envergonhados. Esquecemos que o erro constitui conhecimentos, com pouco estímulo à pesquisa e ficativa. (p.77) fenômeno oposto, porém complementar ao acerto, solução de problemas. Quase todo o tempo gasto A escola apresenta-se, então, como um local são lados de um mesmo processo de ação. Em geral, na escola destina-se à aquisição de conhecimentos. onde se prepara o aluno para atitudes de confor- a ênfase no “é proibido errar” nos leva a adotar As metodologias, em geral, reforçam o conserva- mismo e de não exploração de seu talento e potencial. comportamentos conservadores e assumirmos dorismo e estimulam a obediência. A criança perde A ênfase no conformismo termina por propiciar posturas onde não corremos riscos. Perdemos, a oportunidade, dentro da escola, de desenvolver campo fértil para o surgimento de sujeitos com uma assim, a oportunidade de vivenciarmos experiências suas habilidades de pensamento criativo assim visão de si mesmos limitada, não reconhecedores de instrutivas que, caso resultassem em erro, serviriam como sua capacidade de julgamento e avaliação. seus próprios recursos. Em geral, este tipo de conduta como ponto de partida para novas situações e/ou
  23. 23. 26 Comprometer-se com a promoção da criati- contexto. Em geral, os professores não são prepa- vidade na escola é um grande desafio. Exige da rados nem para o ensino criativo, muito menos para escola e de seus componentes uma série de habili- o desenvolvimento do potencial criativo dos seus dades e saberes nem sempre disponíveis. Demanda alunos. A falta de informações gera uma grande a necessidade de pesquisar sobre criatividade, de quantidade de mitos com relação à criatividade, conhecer o fenômeno, de saber como se promove distanciando os docentes de uma prática pedagógica um ensino criativo, dentre tantas outras nuances que criativa e transformadora. fazem parte deste contexto. Starko (1995) chama a O professor, com certeza, é o principal atenção para a diferença entre ensinar para a criati- mediador do processo de ensino e aprendizagem. vidade (teaching for creativity) e o ensino criativo Em sala de aula, sua influência é decisiva na (creative teaching). Segundo esta autora: conduta futura dos alunos. Sua atitude é extrema- Uma atividade de ensino que produz prazer mente poderosa no sentido de influenciar o aluno, ou mesmo criatividade não necessariamente pro- tanto positiva como negativamente. Ele pode e move a criatividade, a menos que os alunos tenham deve interferir no ensino das habilidades criativas, a oportunidade de pensar criativamente... O ensino estimulando o aluno para que este apresente seu criativo (quando o professor é criativo) não é o mes- melhor desempenho. O que se observa, porém, são ações. A escola não deveria desperdiçar os erros de mo que o ensino voltado para o desenvolvimento da professores não oferecendo condições adequadas seus alunos e sim aproveitá-los como matéria-prima criatividade... Ensinar para a promoção da criativi- para a expressão da criatividade de seus alunos geradora de novos comportamentos e aprendizagem. dade tem um foco diferente; a criatividade essencial (Alencar, 1992). Não há reconhecimento, por parte A utilização dos conhecimentos científicos surge por parte dos alunos. (p.15) do professor, do potencial criativo dos alunos nem sobre criatividade, no contexto escolar, enfrenta Esta autora traz uma contribuição relevante tampouco oferta de espaço estimulante ao flores- uma série de dificuldades, barreiras e mesmo ao diferenciar estes dois aspectos da promoção cimento das habilidades criadoras. Normalmente, contradições. Embora seja do interesse de todos ter da criatividade. Ao que parece, de nada adianta o docente tem baixas expectativas com relação sujeitos criativos na escola, a presença desses alunos levar um circo para a sala de aula se os alunos não aos seus alunos, não confiando em suas capaci- termina por gerar situações de conflitos e oposição tiverem a oportunidade de trabalharem com suas dades e talentos. Torrance (1987) destaca que, se às normas vigente, o que resulta em insatisfação ou habilidades criativas. Também não adianta privi- o professor não valoriza as habilidades de pensa- mesmo medo destas pessoas diferentes e ousadas. legiar o desenvolvimento da criatividade do sujeito mento criativo, é difícil para ele encorajar seus A escola quer desenvolver a criatividade de seus se o ensino não for dotado de abertura para o novo, alunos a se expressarem criativamente. alunos, mas espera que eles atendam ao padrão do de desafios, de elementos estimuladores da criati- Uma visão ainda tradicional do ensino aluno ideal, que é bonzinho, educado, obediente e vidade. somada a uma falta de conhecimento acerca do conformado com as regras. Abrir-se para o novo Podemos até identificar alguns esforços de fenômeno criativo reflete um contexto onde as e lidar com pessoas diferentes tornam-se compe- educadores em promover um ensino criativo, mas atitudes e comportamentos, tanto de professores tências que a escola deve adquirir se pretende isso não significa desenvolver, de fato, o potencial quanto de alunos, permanecem arraigados a práticas promover criatividade e múltiplos talentos em suas criativo dos alunos. Os programas de formação pedagógicas que não conseguem inovar, ou mesmo práticas pedagógicas. de professores têm grande responsabilidade neste transformar o tecido social e escolar. Um modelo
  24. 24. 27 educacional com este perfil mostra-se incapaz de giados. Neves-Pereira (2004) procurou identificar mente, estimule o desenvolvimento da criati- incentivar o pleno desenvolvimento do potencial quais aspectos seriam relevantes para que o professor vidade. É necessário que este fenômeno seja Capítulo 1: Estratégias de Promoção da Criatividade humano, necessitando de modificações que visem pudesse atuar, em sala de aula, de modo a promover considerado, especificamente, no contexto promover condições adequadas à promoção da a criatividade de seus alunos, assim como ofertar um educacional, trabalhado em termos concei- criatividade em sala de aula. ensino criativo. Algumas idéias surgiram desta inves- tuais e em termos de práticas pedagógicas Neste ponto do presente texto chegamos ao tigação. Vamos conversar sobre elas. orientadas para o seu desenvolvimento. nosso objetivo central: “como podemos promover Para que ocorra ensino criativo e promoção Quando um professor é bem formado e criatividade em sala de aula?”. Parece que alguns da criatividade dos alunos, é importante considerar conhece sobre desenvolvimento infantil e processos indicadores emergiram a partir da discussão os seguintes aspectos: de aprendizagem, sua visão de homem se amplia e elaborada. Vamos tentar aproveitá-los. (1) Para que um professor promova, de fato, suas concepções acerca dos processos psicológicos se A tarefa da promoção da criatividade é ação criatividade em sala de aula, é necessário tornam mais complexas. Criatividade é um processo complexa, que exige do educador conhecimentos que ele vá além dos conhecimentos especí- psicológico, assim como a imaginação, a cognição, acerca do fenômeno criativo assim como o domínio ficos sobre criatividade; é indispensável o dentre tantos outros. Um professor competente vai e treino de suas próprias habilidades e competências domínio de saberes pedagógicos consis- apresentar conhecimentos gerais sobre estes temas, criativas. Não adianta ser um professor criativo se tentes e progressistas. porém sem o domínio necessário para que, de fato, não há saberes construídos sobre como desenvolver Quando um professor tem formação sólida consiga atuar no sentido de fomentar criatividade a criatividade da criança. A recíproca parece verda- e detém conhecimentos consistentes sobre modelos em sala de aula. Parece claro que, para promover deira: não adianta conhecer estratégias de promoção teóricos que discutem aspectos de desenvolvimento criatividade em sala de aula, é muito importante uma da criatividade do sujeito se, em sala de aula, o ensino e de aprendizagem das crianças, a probabilidade formação profissional consistente e de qualidade, permanece vinculado a um padrão não-criativo. Para de que este professor perceba a criatividade como mas esta formação não é determinante para que trabalharmos no sentido de promover criatividade parte dos processos de desenvolvimento infantil e ocorra ensino criativo. Só a formação profissional de modo eficaz é indispensável atentarmos para dois merecedora de atenção especial é bastante repre- de qualidade não é suficiente. É indispensável que aspectos constituintes deste processo, a saber: sentativa. Ao possuir domínio teórico, o professor o professor saiba alguma coisa sobre o fenômeno (1) a formação do professor capaz de ofertar facilita sua prática e favorece uma mediação mais criativo e sobre como trabalhar com a criatividade ensino criativo e; rica em sala de aula, o que facilita a promoção da no contexto da sala de aula. Esta necessidade nos (2) a construção de estratégias que facilitem a criatividade. Um professor competente, por mais leva ao aspecto seguinte. promoção da criatividade do aluno em sala que desconheça sobre criatividade e seus processos, (3) Um professor apto a desenvolver criati- de aula. tem mais chances de estruturar aulas criativas do vidade em seus alunos deve ter uma Formar um professor criativo, capaz de que um professor pouco competente e também formação específica nesta área. organizar um ambiente escolar estimulador da desconhecedor dos processos criativos. Portanto, a Já sabemos que a promoção de um ensino criatividade e que domine diferentes estratégias de formação de qualidade é critério de extrema impor- voltado para o desenvolvimento das capacidades promoção da criatividade exige um esforço concen- tância na promoção da criatividade no ensino. criativas exige uma formação de qualidade do trado que se estende desde a formação inicial deste (2) O domínio de saberes pedagógicos consis- professor, em aspectos diretamente relacionados profissional até a oferta de formação continuada, tentes e progressistas, entretanto, não é à sua prática pedagógica. Também sabemos que em que conteúdos sobre criatividade sejam privile- suficiente para que um professor, particular- esta formação, por si só, não é suficiente para que

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