Portugal artigo de jacques amaury

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Portugal artigo de jacques amaury

  1. 1. ARTIGO DE JACQUES AMAURY,SOCIÓLOGO E FILÓSOFO FRANCÊS, ACERCA DE PORTUGALUm artigo de Jacques Amaury, sociólogo e filósofo francês, professor na Universidade de Estrasburgo."Portugal atravessa um dos momentos mais difíceis da sua história que teráque resolver com urgência, sob o perigo de deflagrar crescentes tensões econsequentes convulsões sociais.Importa em primeiro lugar averiguar as causas. Devem-se sobretudo à máaplicação dos dinheiros emprestados pela CE para o esforço de adesão eadaptação às exigências da união.Foi o país onde mais a CE investiu "per capita" e o que menos proveitoretirou. Não se actualizou, não melhorou as classes laborais, regrediu naqualidade da educação, vendeu ou privatizou mesmo actividadesprimordiais e património que poderiam hoje ser um sustentáculo.Os dinheiros foram encaminhados para auto-estradas, estádios defutebol, constituição de centenas de instituições público-privadas,fundações e institutos, de duvidosa utilidade, auxílios financeiros aempresas que os reverteram em seu exclusivo benefício, pagamento aagricultores para deixarem os campos e aos pescadores para venderemas embarcações, apoios estrategicamente endereçados a elementos ou apróximos deles, nos principais partidos, elevados vencimentos nas classessuperiores da administração pública, o tácito desinteresse da Justiça,frente à corrupção galopante e um desinteresse quase total das Finanças noque respeita à cobrança na riqueza, na Banca, na especulação, nos grandesnegócios, desenvolvendo, em contrário, uma atenção especialmentepersecutória junto dos pequenos comerciantes e população mais pobre.
  2. 2. A política lusa é um campo escorregadio onde os mais hábeis e corajosospenetram, já que os partidos cada vez mais desacreditados, funcionamessencialmente como agências de emprego que admitem os maiscorruptos e incapazes, permitindo que com as alterações governativaspermaneçam, transformando-se num enorme peso bruto e parasitário.Assim, a monstruosa Função Publica, ao lado da classe dos professores,assessoradas por sindicatos aguerridos, de umas Forças Armadasdispendiosas e caducas, tornaram-se não uma solução, mas um factor de pesonos problemas do país.Não existe partido de centro já que as diferenças são apenas de retórica,entre o PS (Partido Socialista) e o PSD (Partido Social Democrata), dedireita, agora mais conservador ainda, com a inclusão de um novo líder,que tem um suporte estratégico no PR e no tecido empresarial abastado.Mais à direita, o CDS (Partido Popular), com uma actividade assinalável, mascom telhados de vidro e linguagem pública, diametralmente oposta ao que osseus princípios recomendam e praticarão na primeira oportunidade.À esquerda, o BE (Bloco de Esquerda), com tantos adeptos como o anterior,mas igualmente com uma linguagem difícil de se encaixar nas recomendaçõesao Governo, que manifesta um horror atávico à esquerda, tal como apopulação em geral, laboriosamente formatada para o mesmo receio. Mais àesquerda, o PC (Partido comunista) menosprezado pela comunicaçãosocial, que o coloca sempre como um perigo latente e uma extensãoinspirada na União Soviética, oportunamente extinta, e portanto longe dasrealidades actuais.Assim, não se encontrando forças capazes de alterar o status, parece que ademocracia pré-fabricada não encontra novos instrumentos.Contudo, na génese deste beco sem aparente saída, está a impreparação,ou melhor, a ignorância de uma população deixada ao abandono, nessefulcral e determinante aspecto. Mal preparada nos bancos das escolas, nosecundário e nas faculdades, não tem capacidade de decisão, a não
  3. 3. ser a que lhe é oferecida pelos órgãos de Comunicação. Ora e aqui está ogrande problema deste pequeno país; as TVs as Rádios e os Jornais, sãona sua totalidade, pertença de privados ligados à alta finança, àindustria e comercio, à banca e com infiltrações accionistas de váriospaíses.Ora, é bem de ver que com este caldo, não se pode cozinhar umaalimentação saudável, mas apenas os pratos que o "chefe" recomenda.Daí a estagnação que tem sido cómoda para a crescente distância entrericos e pobres.A RTP, a estação que agora engloba a Rádio e TV oficiais, está dominadapor elementos dos dois partidos principais, com notório assento dossociais-democratas, especialistas em silenciar posições esclarecedoras ecalar quem levanta o mínimo problema ou dúvida. A selecção dosgestores, dos directores e dos principais jornalistas é feitaexclusivamente por via partidária. Os jovens jornalistas, sãocondicionados pelos problemas já descritos e ainda pelos contratos aprazo determinantes para o posto de trabalho enquanto, o afastamentodos jornalistas seniores, a quem é mais difícil formatar o processo a pôrem prática, está a chegar ao fim. A deserção destes, foi notória.Não há um único meio ao alcance das pessoas mais esclarecidas e porisso, "non gratas" pelo establishment, onde possam dar luz a novasideias e à realidade do seu país, envolto no conveniente manto diáfanoque apenas deixa ver os vendedores de ideias já feitas e as cenasrecomendáveis para a manutenção da sensação de liberdade e da práticada apregoada democracia.Só uma comunicação não vendida e alienante, pode ajudar a população, afugir da banca, o cancro endémico de que padece, a exigir uma justiça maiscélere e justa, umas finanças atentas e cumpridoras, enfim, a ganharconsciência e lucidez sobre os seus desígnios.

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