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O que está numa foto

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O que está numa foto

  1. 1. O que está numa foto: a definição de um casamentomoderno. in Público10.11.2012 - 01:00 Por PhilipKennicot A foto que Obama colocou no Twitter Quem está a abraçar quem naquela fotografia dos Obamas que se tornou viral na noite daseleições? A imagem, tirada de baixo para cima, e isolando o casal contra um céu nublado,mostra o Presidente abraçado à sua mulher num comício de campanha em Agosto. A primeira-dama é vista de costas, envolvida nos braços do Presidente, que tem os olhosfechados. Divulgada pela conta de Twitter do Presidente na noite de terça-feira, pouco tempodepois das cadeias noticiosas declararem Obama o vencedor da eleição, a fotografia foiimediatamente partilhada por centenas de milhares de pessoas, fazendo dela a imagem maispopular na história do Twitter e gerando uma onda de amor através de uma série de programasdas redes sociais. A fotografia tem todos os ingredientes genéricos de uma imagem política de sucesso. Como seu céu cinzento e temperamental, encapsula o dramatismo que muitos apoiantes doPresidente Obama sentiram na noite de terça-feira: os Obamassobreviveram à tempestade. Aimagem também alimenta o afecto, por vezes quase um culto, que muitos americanos sentempelo casal. O facto de se ter multiplicado nas redes sociais normalmente utilizadas para manter ocontacto com a família e os amigos, oferecia uma ilusão de intimidade com a família presidencial,como as fotografias das filhas de Obama, Sasha e Malia, ou do cão da família Bo, que tantocomovem os mesmos receptores emocionais. Para os democratas, tem ainda uma funçãoalegórica: a ligação amorosa entre Barack e Michelle simboliza uma sociedade saudável. Para osafro-americanos, acrescenta mais uma peça ao repositório de imagens celebratórias do sucessodos Obamas, por oposição à frequente diabolização das famílias negras supostamentedisfuncionais na cultura popular. Mas a fotografia tem uma notável mensagem latente, muito específica. Ao contrário demuitas imagens de casais políticos, em que o marido reclama a sua mulher num gestosimbolicamente possessivo - tocando-lhe no ombro, levantando a sua mão ou beijando-a -, oabraço entre estas duas pessoas parece mútuo. A primeira-dama é, entre muitas outras coisas,
  2. 2. uma mulher alta, famosa pelos seus músculos tonificados, e nesta imagem, o abraço é tanto delacomo dele. O Presidente parece precisar deste abraço, parece quase dependente e atévulnerável. Os obrigatórios sinais masculinos de liderança - determinação, auto-suficiência eequanimidade emocional - dissolvem-se, obliterados pela comunhão daquelas duas pessoasperdidas no seu próprio mundo. É impossível conhecer a realidade por detrás desta imagem, se o Presidente e a primeira-dama estão realmente apaixonados da forma que a fotografia sugere. Talvez esta seja apenasmais uma excelente variação da cuidadosa encenação do amor que é obrigatória para o sucessopolítico. Mas, independentemente da realidade, é a variação que é significativa. A fotografiasugere fortemente um ideal de mutualidade no casamento, livre das ideias de posse e obediênciaque ainda vigoram em algumas religiões profundamente tradicionalistas. Ainda hoje a retórica política mantém o rasto dessas ideias, mantendo-as vivas. É muitocomum, entre políticos, dizer que "a minha mulher foi a melhor escolha que já fiz". George W.Bush adorava esta frase, e MittRomney recorreu a uma formulação semelhante para o seudiscurso de concessão na madrugada de quarta-feira. À primeira vista, o elogio à "cara-metade"dá ideia de ser uma declaração de algum menosprezo ou desvalorização individual. Mas, narealidade, reforça a ideia de que o casamento é a escolha pelo homem de uma mulher, e dopolítico como um homem que toma decisões. O casamento é sempre descrito como uma acçãono presente do indicativo, com o homem como o sujeito da frase. As cenas do vídeo do comício em Dubuque, Iowa, onde a fotografia foi tirada, revelamvários dos gestos que descrevemos como manifestações tradicionais de amor pelos políticos: oPresidente inclina-se para um beijo, agarra Michelle pelo ombro, caminha de mãos dadas. Masdo espólio (seguramente) de milhares de imagens dos dois juntos, o Presidente escolheu estafotografia única para o seu Twitter, disseminando uma imagem que não enfatiza nem o poder dohomem nem a beleza da mulher. O facto de a imagem se ter tornado viral mostra claramente como ela foi absorvida pelaspessoas, como ela representa um ideal mais moderno de genuína igualdade nas relaçõesemocionais.E que esta imagem se tenha tornado viral na mesma noite que os eleitores de quatroestados decidiram quebrar o padrão de voto contra o casamento gay e apoiar a igualdade para oscasais do mesmo sexo pode não ser inteiramente acidental. (…) A fotografia dos Obamas revela uma outra realidade, que poderia ser chamada daspossibilidades ilimitadas da verdadeira reciprocidade, de um casamento que desafia as definiçõesmais rígidas. O casamento dos Obamas encanta e atrai tanta gente porque parece tãoconfortável que ninguém está preocupado com quem usa as calças lá em casa - e essa é arealidade de muitos dos casamentos felizes. Num casamento saudável, os parceiros nãointerpretam simplesmente os papéis tradicionais do seu género, reproduzindo a trama deobediência e fidelidade: inventam os seus próprios papéis da maneira que melhor serve ointeresse de ambos. O casamento é improvisação, e cada caso é um caso único. A variedadeabunda, e as pessoas adaptam-se. (…) O facto de esta foto ser tão popular neste momento particular da história indica que aindavamos analisar as implicações culturais mais vastas desta eleição por muito tempo. Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

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