“A máscara diz mais do que a face”.                                                                                   Osca...
PERSONAGENS DA TRAMA       Cada aluno do grupo de Produção Textual, orientado pela professora Cristiane, deveriacriar uma ...
CAUÊInteligente, tímido, feliz, faz tudo para alcançar o que quer. Legal com quem é legal.Ou gosta ou odeia, e odeia a sal...
LARISSAEstuda muito, não sai de casa só para poder estudar mais. Sua rotina é da escola paracasa, de casa para a escola. P...
Devaneio                                                          Por Cristiane Papi Crespo Frufrek       15 adolescentes....
ALEXANDRE                                                    Calmo e pensativo, amigo e bom, gosta                        ...
Naquela hora, mil coisas começaram a passar pela minha cabeça: seria o corpo deAnne? Onde ela estaria? Quem teria motivos ...
chão me intrigaram. A sala não fora limpa, já que Maria José, a faxineira, havia faltadoporque estava com muita gripe. A s...
ALICE                                                   Uma menina meiga, inocente, ingênua e                             ...
entender, mas nós tínhamos coisas mais importantes para fazer do que ficar perguntandosobre o cheiro. Logo, logo, saía.   ...
para o Seu Zé levar Carol até a delegacia. Para complicar mais a situação, a surpresa: ozelador havia sumido também! E só ...
Ao entrarem na casa, estavam os cinco garotos desmaiados e nus. Certamente teriamsofrido agressão sexual por parte dos hom...
ANNE                                                      Inconsequente. Apaixonada. Imatura.                             ...
continuasse de estômago vazio passaria mal sem dúvida nenhuma. Subi correndo e mal vique a embalagem estava minusculamente...
no colégio, mas hesitei. Como se lesse meu pensamento, ela sorriu. Carol quase nunca sorria.A não ser por Gustavo. Ela era...
Voltei para casa apressada. Vasculhei meu quarto. Nem sinal do meu diário. Coloqueialgumas coisas na mochila, disse a minh...
BRUNA                                                Uma menina de família rica, que age por                              ...
meninas da sala, exceto Carolina e Larissa, que só pensam em estudar, e eu também estavafora da lista, é claro, já que ten...
descobrir, ele tinha que ficar sabendo por mim, mas eu não podia contar diretamente, ele iaachar que estava fazendo isso s...
Então pegou minha mão, abriu-a e, tirando do bolso, colocou uma pulseira de pratacom um coração meio torto e disse:       ...
CAROLINA                                                   Garota normal, quieta, tímida, e sem                           ...
Tudo aconteceu na tarde do dia 15 de maio, eu tinha Educação Física às cinco,cheguei pontualmente e fui lá em cima para tr...
Eu ainda tossia muito e acabei perdendo a consciência. Acordei um tempo depois.Estava tudo quieto e não tinha nem noção da...
Peguei a faca e comecei pelas mãos, depois pelos ombros, a cabeça me deu até umcerto trabalho, não conseguia achar o lugar...
CAUÊ                                          Inteligente, tímido, feliz, faz tudo para alcançar o                        ...
Carolina estava aflita, um pouco nervosa. Para não acabar constrangida agradeci e fuiembora à procura de Anne.       Procu...
Segui o tal homem durante duas horas e cheguei a uma casa pequena, feita de madeirae bem antiga. Ele entrou, e eu fiquei e...
GABRIEL                                                  17 anos, corinthiano, muito louco, decidiu                       ...
parecia ser uma garota comum, igual a todas, mas era herdeira de uma grande fortuna eprocurava sempre fazer justiça, indep...
GABRIEL PAPI                                                   Garoto apaixonado por esportes, popular,                   ...
Começou a prova e eu não conseguia me concentrar, um cheiro forte de perfumeestava me deixando com dor de cabeça, abaixei ...
também, ela me abraçou mais forte ainda e com toda esperança do mundo disse que tudo iaficar bem, que ela iria me ajudar e...
GABRIELA                                                     Aparentemente comum, extrovertida,                           ...
me informou que haviam desaparecido cinco alunos de minha classe. Logo abri um sorriso,imaginando que finalmente minhas ha...
prestes a identificá-lo, quando uma funcionária entrou na sala e comentou: “Alguémexagerou no Egeo hoje!” Egeo! Sabia que ...
GUSTAVO                                                      Um cara feliz, educado, mulherengo,                          ...
Ao chegar lá, ela ficou espantada com a vida que ele levava, um descaso total, seuspais não lhe davam bola, nem ligavam pa...
LANNA                                            16 anos, uma pessoa de aparência bem calma e                             ...
Chegou segunda-feira, e nossos familiares ainda sem notícias nossas; a polícia já àprocura, mas na escola ninguém quis com...
LARISSA                                                Estuda muito, não sai de casa só para poder                        ...
era iluminada. Meu corpo tremia de frio, meus olhos chacoalhavam e minha boca estavaseca.       Chegando em casa, eu avist...
Bom, ficamos muito travados e assustados naquela semana, afinal, tudo era estranho.Ele precisava de um bom tratamento psic...
A verdade usa máscara
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Projeto de Literatura do Colégio CTAM
Professora responsável: Cristiane Papi

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A verdade usa máscara

  1. 1. “A máscara diz mais do que a face”. Oscar Wilde Apresentação Às vezes é bastante curiosa a forma como nos preparamos para escrever uma história:ela nasce do nada, outras vezes é criada a partir de enigmas, de intrigas, de um devaneio damente, do lado magnífico de nossa imaginação. Como autores, vestimos máscaras que nos permitem ser aquilo que não somos, ou quesomos, mas não mostramos a ninguém, ou ainda que não somos e não mostramos, mas lá noímpeto de nossas almas gostaríamos de ser ou admiramos quem se encoraja e assume umoutro lado obscuro do ser. Este trabalho permitiu exatamente isso: que vestíssemos máscaras para que fossepossível criar, a partir dos vários segmentos temáticos estudados em sala de aula. Destaforma, cada aluno assumiu uma personagem e mostrou um outro lado de si para contar assuas versões e tentar buscar respostas para uma mesma situação. A partir de um sorteio,tiveram que driblar as dificuldades e aguçar suas ideias para criar narrativas com segmentospoliciais, românticos, humorísticos, trágicos, sobrenaturais, polêmcos e implícitos. E oresultado não poderia deixar de ter sido mais interessante e satisfatório! Basta ler e conferir as mais diversas histórias contadas a partir de uma situação fictíciae será possível analisar o que uma mente é capaz de fazer quando assume seu ladointelectual-ativo-criativo para a arte de redigir histórias! E você deverá, como co-autor,relacionar as histórias ao perfil de cada personagem. Aí sim vai poder comprovar se as taismáscaras são reais! No final você será convidado a vestir a sua máscara e escrever a sua versão dos fatos! Boa diversão! Professora Cristiane Papi Crespo Frufrek
  2. 2. PERSONAGENS DA TRAMA Cada aluno do grupo de Produção Textual, orientado pela professora Cristiane, deveriacriar uma descrição de um personagem que tivesse o seu próprio nome, mas que assumisseoutra personalidade, ou ainda um outro lado de sua personalidade que poucos conhecessem.Abaixo você encontrará os nomes e as descrições criadas. A partir delas será possívelentender o caso e escolher a história mais convincente. ALEXANDRE Calmo e pensativo, amigo e bom, gosta muito de contar histórias e de passar o tempo com os amigos. ALICE Uma menina meiga, inocente, ingênua e linda, que foi achada numa caixa e sapato na beira da praia. ANNE Inconsequente. Apaixonada. Imatura. Sensível e delicada. Gosta da rotina, da paz. Opta sempre pelo mais fácil e cômodo. BRUNA Uma menina de família rica, que age por impulsos, causando muita confusão e problemas. Tem uma relação conflituosa com o pai, muito conservador, que preza pela honra da família. CAROLINA Garota normal, quieta, tímida, e sem amigos, nerd e muito esforçada.
  3. 3. CAUÊInteligente, tímido, feliz, faz tudo para alcançar o que quer. Legal com quem é legal.Ou gosta ou odeia, e odeia a sala onde estuda.GABRIEL17 anos, corinthiano, muito louco, decidiu que não quer mais estudar; vive em festas,apesar de ser meio briguento, é muito gente boa.GABRIEL PAPIGaroto apaixonado por esportes, popular, misterioso, preza muito pela amizade.GABRIELAAparentemente comum, extrovertida, herdeira de uma fortuna, mas que por trásesconde um grande segredo, é apaixonada por lutas, e com sua personalidade forte nãose sente à vontade quando o assunto é falar sobre seus sentimentos. Procura semprefazer justiça, seja qual o preço que tenha que pagar para que isso aconteça.GUSTAVOUm cara feliz, educado, mulherengo, bonitão, de fácil convivência, se dá bem comtodo mundo.LANNA16 anos, uma pessoa de aparência bem calma e amena, e que também aparentementeparece ser uma pessoa sem aventuras, ou ter algo interessante para contar. O queninguém sabe é o que se esconde atrás daquela aparência, ambiciosa e cheia de más eboas intenções... ninguém sabe o que esperar de uma amiga assim.
  4. 4. LARISSAEstuda muito, não sai de casa só para poder estudar mais. Sua rotina é da escola paracasa, de casa para a escola. Por isso, não possui amigos. Mora com o irmão mais velho,que é totalmente o contrário dela. Ela é uma garota muito linda, mas não possuinamorado porque não quer desperdiçar seu tempo, afinal, quer estudar muito.LUIZ HENRIQUEQuieto, sem amigos, misterioso, ninguém sabe de onde veio e de nada sobre sua vida.PAULO ROBERTOÉ um assíduo leitor de romances policiais, seu personagem predileto é SherlockHolmes, que o inspira em ações do seu cotidiano. É um garoto de grande imaginação efaz uso desta para criar situações nas quais suas habilidades de detetive são postas emprática.RAFAELUma pessoa muito inteligente, simpática, nunca deixa de rir para quem o cerca, trata atodos com muito amor e respeito. Mas, no fundo, no fundo, é uma pessoa com desejode morte e falsidade: um camaleão com alma de serpente.
  5. 5. Devaneio Por Cristiane Papi Crespo Frufrek 15 adolescentes. Uma turma unida. Unida nas ações, nos pensamentos, nas polêmicas,nas atitudes. Intrigas, claro, sempre existiram, como em toda boa sala. O que impressionavaera a inteligência e diplomacia na convivência. Como eles eram bons! Conseguiam quasetudo o que queriam... Ousados, sabiam convencer e encantar. Até aquele dia 16 de maio de2011, dia em que ficou marcado na mente dos 15 alunos que integravam a turma. Entrei para mais uma rotineira tarde de aula. Notei coisas que geralmente não notaria.Alguns assustados, outros descontraídos além do habitual; não disse nada, preferi observar.Nas escadas que dão acesso à sala, olhares atentos e desconfiados. Cumprimentei aqueles quevi pelo caminho. Ao entrar, notei pingos, como manchas vermelhas, espalhadosminusculamente pelo chão. Sangue? Calda de sorvete? Batom? Não pude identificar o queera; já que não queria levantar qualquer suspeita. Li isso em livros de Ágatha Christie: osdetetives considerados bons estão acima de qualquer suspeita! Professores, às vezes, tambémtiram onde como detetives! Além do vermelho no chão, notei alguns alunos faltantes, o que não era tão comumassim... ainda mais em dia de prova. Eram cinco os ausentes, e quando perguntei à sala omotivo das faltas, já que eles normalmente sabem, ninguém se manifestou. Estranho... Percebi ainda um cheiro de perfume no ar. Notei isso porque, grávida, o olfato ficaainda mais aguçado. Era um perfume masculino, gostoso, envolvente. Por que alguém viriatão perfumado para uma aula vespertina de Redação? Ou era conquista, ou alguma tentativade disfarçar um outro cheiro... Na verdade, depois que, em minutos, pude constatar tudo isso, pensei que eu pudesseestar envolvida demais com minhas leituras policias, às quais tenho me dedicadoultimamente em razão de um trabalho de pós-graduação. Não sei, talvez tenha confundidotudo. Talvez não fosse nada demais esses indícios, que seriam normais aos olhos de qualquermortal normal. Apliquei a prova, deixei a sala e me dirigi à sala dos professores ainda meiodesconfiada. Um recado para que eu comparecesse à orientação me intrigou. Lá, recebi anotícia de que cinco alunos estavam desaparecidos havia algumas horas. Coincidentemente,os mesmos que ao haviam comparecido à minha aula. O que teria acontecido? Com os alunos ainda no pátio da escola, como é de costume, comecei a ouvir um a um,informalmente, claro, para tentar descobrir alguma pista ou tirar de vez a neura de minhasideias.
  6. 6. ALEXANDRE Calmo e pensativo, amigo e bom, gosta muito de contar histórias e de passar o tempo com os amigos. Segmento: Implícito (o final “fica no ar”) O mistério das alianças Eu estava sentado no sofá assistindo à TV, era noite do dia 15 de maio, um dia normal,sem nada de especial ou incomum, quando de repente o telefone tocou. Tive um maupressentimento. Era um dos meus colegas de classe, Paulo Roberto, que disse que precisavafalar comigo urgentemente. Notei que sua voz estava trêmula, o que deixava claro que eleestava extremamente perturbado e nervoso; tentei perguntar o motivo, ele respondeu que sópoderia me falar pessoalmente. Foi quando eu o convidei para vir até minha casa paraconversarmos, mal sabia eu que os meus problemas estavam apenas começando. Esperei por alguns minutos, a campainha tocou. Quando abri a porta, Paulo entroudesesperadamente e me disse que antes eu deveria jurar que eu não ia contar a ninguém sobreo ocorrido. Prometi manter a boca fechada. Foi quando ele, tremendo e soluçando, me disseque tinha uma horrível notícia para me dar e que ele havia testemunhado o que seria umaimportante pista sobre um suposto assassinato. Ele contou que dois dias atrás, quando ia paraum de seus compromissos semanais, passou por um beco escuro onde vira dois vultos,resolveu chegar mais perto por curiosidade para ver quem era, e ao se aproximar notou queeram Anne e Gustavo, outros dois amigos que estudavam conosco. Paulo disse que haviavisto os dois tendo uma discussão que lhe pareceu muito violenta, e que Anne estava muitonervosa, que chorava durante a conversa. Até aí nenhuma surpresa, a não ser o local ondeestavam – Anne e Gustavo costumavam discutir. Foi quando ele me pediu para sentar e metrouxe um copo d’água, disse que eu teria que ser forte para aguentar o que ele diria.Confidenciou-me que um corpo havia sido encontrado carbonizado enterrado nos arredoresda cidade, e que uma terrível coincidência também tinha acontecido, Anne estavadesaparecida há mais de 24 horas.
  7. 7. Naquela hora, mil coisas começaram a passar pela minha cabeça: seria o corpo deAnne? Onde ela estaria? Quem teria motivos para cometer tal crime? Eu e Paulo decidimos,então, buscar pistas para descobrir o que estaria acontecendo; peguei meu casacorapidamente e juntos saímos de minha casa em direção ao tal beco onde supostamente eleteria visto Anne pela ultima vez. Logo ao sair pelas escuras ruas, tivemos a impressão deestarmos sendo observados. Passados alguns minutos de caminhada, chegamos ao local. Eraum pequeno beco, muito escuro, sem nenhuma iluminação, sujo e fedorento, notei que o talbeco tinha apenas uma saída, uma pequena porta aos fundos pelo canto esquerdo. Perguntei então em que lugar exatamente ele havia visto Anne e Gustavo; andamosmais alguns passos, foi quando notei no chão da rua algumas manchas vermelhas, seriasangue? Tinta? Ou tudo fruto da nossa imaginação? Notei também que havia um forte cheirono ar, o que me parecia ser um perfume masculino. Cansados, resolvemos voltar até a minhacasa e re-avaliar tudo o que havia acontecido até aquele momento. Chegando novamente àminha casa, corremos para os fundos, pegamos um caderno e anotamos horários, dias, pistas,pessoas, tudo. Foi quando meu celular tocou, era Carolina, uma grande amiga nossa etambém de Anne, ela nos contou chorando que um teste de DNA havia sido feito, e que ocorpo encontrado era mesmo o de Anne. Ela também nos contou uma coisa ainda mais triste,nos fez jurar não contar para ninguém, nem aos nossos pais, nem às pessoas em quem maisconfiávamos, ninguém poderia saber. Anne estava grávida de quatro meses. Na mesma horatodas as nossas suspeitas pareciam apontar para o namorado dela, afinal, uma gravidezindesejada, um futuro em jogo, ele teria vários motivos para cometer tal crime. Ele, quesempre pareceu tratá-la muito bem, ambos pareciam estar tão felizes... Paulo disse que ia para casa, descansar um pouco, tentar esfriar a cabeça e esquecertodo aquele pesadelo. Para mim parecia que nada daquilo era verdade, e que eu estava apenassonhando, nada parecia ser realidade. Refleti por horas durante a madrugada a fim de tentarencontrar a solução, em vão. O despertador tocou, outro dia amanhecia nublado, chuvoso, océu escuro, e eu ali refletindo a tristeza que nos cercava; tive por alguns minutos algumaslembranças dela, estudávamos juntos desde crianças, parecia que seria só mais um dia normalna escola onde veríamos nossos amigos novamente, eu não queria acreditar ainda, mas jásabia que eu, gostando ou não havia perdido uma pessoa importante e que minha vida nuncamais seria a mesma. Levantei, tomei banho e coloquei meu uniforme, peguei o ônibus e fui para a escola.Chegando lá, vi uma grande faixa de luto e notei que vários alunos haviam faltado. Noteitambém que Gustavo era um dos poucos que tinha ido para a aula, achei aquilo muitoestranho, afinal, ela era sua namorada há mais de dois anos. Olhamo-nos rapidamente semnos cumprimentar, sentei a apenas alguns metros de distância dele. Foi quando notei um fortecheiro no ar, um perfume que surpreendentemente era muito semelhante ao que eu haviasentido um dia atrás no tal beco misterioso. Subi à sala de aula para relembrar momentoslegais que havia passado com minha amiga. Minúsculas manchas de sangue presentes no
  8. 8. chão me intrigaram. A sala não fora limpa, já que Maria José, a faxineira, havia faltadoporque estava com muita gripe. A sala permanecera intacta, portanto. Por mais que tentasse, eu não conseguia identificar de quem era aquele perfume tãoforte, e as marcas de sangue não saiam de minha cabeça. Foi quando a coordenadora entrouna sala e anunciou que havia outros cinco alunos desaparecidos: Bruna, Carolina, Gabriela,Gabriel e Alice. Todos estavam desaparecidos há mais de três dias, menos Carolina queestava há apenas um dia. Seriam todos eles testemunhas do crime? Seriam osdesaparecimentos tentativas do assassino de esconder a verdade? Depois da aula fui até a casa de Paulo para tentarmos achar mais pistas, foi quando eleme mostrou a noticia do assassinato no jornal, e que uma nova pista havia sido encontrada -um anel estaria enterrado junto com o corpo. Imaginei que poderia ser uma das alianças, delaou dele, já que havia um boato de que eles estariam pensando em ficar noivos em virtude dagravidez. Provavelmente era a dela, pois estava escrito dentro do anel “Gustavo”. Passados alguns dias, nenhuma nova pista havia sido encontrada, portanto a polícianão tinha nenhuma prova concreta de quem seria o assassino, então o caso foi encerrado atéque novas pistas aparecessem. Um semana se passou e nada havia sido concluído; fiqueimuito decepcionado, fui então levar flores até o túmulo de Anne, coisa que eu fazia quasetodos os dias, depois da tragédia. Logo ao chegar, notei que o cemitério estava vazio,caminhei alguns metros e quando olhei para frente vi Luiz Henrique um garoto da sala, muitoestranho, e poucos gostavam dele, já que era muito quieto, misterioso, tinha a fama de ter umciúme doentio, coisa que eu desconhecia se era verdade ou não. Escondi-me atrás de umaárvore e fiquei só observando o que ele estava fazendo. Notei que ele deixara algo em cimado túmulo e saíra, sem notar minha presença. Esperei ele ir embora, caminhei até o túmulocurioso para saber o que ele havia deixado, estava ventando muito, as árvores pareciamacompanhar o ritmo do vento criando uma certa sintonia, pássaros cantavam, folhas voavamem mais uma tarde ensolarada de domingo. Aproximei-me do túmulo, vi um certo brilhocomo se uma jóia estivesse ali, notei que era um anel, um lindo anel dourado, escrito em seuinterior: Anne.
  9. 9. ALICE Uma menina meiga, inocente, ingênua e linda, que foi achada numa caixa e sapato na beira da praia. Segmento: Policial Um dia e tanto Segunda-feira. Como manda a rotina, mais um dia de aula à tarde. Estava cansada,tivera um final de semana agitadíssimo, a vontade de ir para a aula era mínima. Infelizmenteera dia de prova, portanto, não tive outra escolha. Como de costume, a Bruna sempre passa em casa para subirmos juntas ao colégio epouco depois do almoço ela me ligou, dizendo que marcara com a Lanna de ir uma horaantes ao colégio para dar uma revisada na matéria. Marquei de ir também, eu precisavamesmo revisar alguns pontos que não prestei atenção. Chegamos à escola, cumprimentamos logo na entrada a Lucélia e atrás dela estava oSeu Zé, novo zelador, que tinha uma aparência simples, humilde e era muito bem humorado.Dava-se bem com todos os alunos! A Lanna já estava lá nos esperando, pensativa... Era uma amiga imprevisível. Mas nósgostávamos dela. Fizemos um sinal que estávamos subindo para a sala e ela já veio logo emseguida. A escola estava vazia, as crianças e as professoras estavam passando a tarde noSuper Festa. Na subida para a sala, Seu Zé, com suas mãos ocupadas por produtos de limpeza, nosinterrompeu e perguntou o motivo de tão cedo estarmos na escola. Explicamos, eleconsentiu, ficou pensativo e saiu. Continuamos a subida distraídas e logo após entramos nasala e nos ajeitamos nas carteiras. Percebemos um cheiro forte de perfume, estranhamos, eraimpossível ficar na sala. Fui abrir as janelas e deixamos a porta aberta. Ficamos sem
  10. 10. entender, mas nós tínhamos coisas mais importantes para fazer do que ficar perguntandosobre o cheiro. Logo, logo, saía. Ao começar a ler uma das matérias, fomos interrompidas pelo celular da Bruna, quetocava algumas vezes confidencial. Quando ela atendia, ficavam uns murmúrios e logodesligava. Logo após, ligaram no meu celular. A mesma coisa. Havia uns barulhos distantes,mas ninguém entendia o que era. Já imaginamos que poderia ser alguma brincadeira de malgosto de um de nossos colegas. Não deu tempo de estudar muito e os alunos já foram chegando. A Larissa foi aprimeira e logo sentiu o cheiro forte, e mais, notou pequenos pingos vermelhos no chão quenós não tínhamos reparado. Chegamos perto, não sabíamos se era sangue, batom, calda demorango ou algo relacionado. Deixamos quieto, depois Seu Zé vinha e limpava. Talvez eleaté já tivesse notado quando estava com os produtos de limpeza em mãos. Mas retornou àcantina, talvez por não querer nos atrapalhar, depois ele fazia o serviço. A professora chegou à sala, toda sorridente, pois há poucos dias recebera a notícia deque seria mãe novamente. A felicidade ficava estampada todos os dias em seu rosto. Maslogo também percebeu o cheiro forte e as gotas vermelhas que sujavam o chão, porém nadafez e começou a aula com a chamada. Faltavam cinco alunos. Estranho. Era dia de prova eninguém costumava faltar. Carolina disse que algumas horas antes vira o Alexandre, oGabriel Papi, o Gabriel, Cauê e o Luiz Henrique em um carro velho, caindo aos pedaços, queestava em alta velocidade com um homem estranho dirigindo. Sinistro. Matando aula, será? Logo Cauê, tão estudioso, no meio deles? Nada feito.Todos da sala estranharam. Enfim, fizemos a prova. Alguns alunos foram embora e outrosficaram na cantina conversando. Percebemos a presença da mãe do Alexandre perguntandoonde ele estava para levá-lo embora. Contamos que ele não havia aparecido na escola e haviasumido com mais quatro meninos. A mãe dele disse que era impossível, pois dera caronapara o Gabriel e deixara os dois na escola. Disse ainda que fora horas antes da aula, poistinha um compromisso e precisou deixá-los antes. Uma das ordens que a Lucélia recebe é não deixar nenhum aluno sair da escola semautorização. As mães dos outros meninos chegaram para buscá-los e explicamos o que haviaacontecido, e então a movimentação começou. Havia cinco alunos desaparecidos e talvezvestígios disso estivessem lá na sala de aula. A professora foi chamada na orientação e foiavisada do ocorrido. Ela disse que desconfiou que algo poderia não estar certo, mas preferiuficar quieta, pois poderia ser alguma de suas neuras. A diretora ligou para a polícia para investigar o caso. Contamos que a Carol vira osgarotos pouco antes da aula. Todas as mães mostravam seu nervosismo e faziam ligaçõespara todos os conhecidos. E nada. Ficamos todos apavorados, para piorar, nada havia sidoregistrado pelas câmeras do colégio. Uma viatura foi mandada para a escola e pediram para a Carol comparecer à delegaciapara fazer um retrato-falado do motorista que dirigia o tal carro que levava os garotos paraalgum lugar. A diretora queria acompanhar os passos da polícia e, imediatamente, foi pedir
  11. 11. para o Seu Zé levar Carol até a delegacia. Para complicar mais a situação, a surpresa: ozelador havia sumido também! E só poderia ter sido pelos fundos, pois todos estavam lá nafrente e ninguém vira nada. Por que Seu Zé sairia pelos fundos sem avisar ninguém? Será que aquele zelador tãosimpático sabia de alguma coisa que pudesse esclarecer os fatos? Ou estaria envolvido?Ligamos atrás dele e nada. Uma das mães levou Carol enquanto dois policiais foram atrás deSeu Zé em sua casa. Outros policiais presentes no colégio confirmaram que aquelas gotas vermelhas na salaeram sangue, realmente. Na mesma hora receberam a ligação de que a casa de Seu Zé estavacompletamente bagunçada e das poucas roupas que ele tinha não havia mais nenhuma noguarda-roupa. Os vizinhos deram a informação de que o zelador tinha acabado de sair dali,correndo, assustado, com uma mala na mão e fora ao encontro de um carro que o esperava naesquina. Será o mesmo carro em que os garotos estavam? Se fosse, eles poderiam estar porperto! Após Carolina ter feito o retrato-falado do motorista e do carro, a polícia não perdeutempo e foi atrás deles. A cidade é pequena. Seis viaturas já eram suficientes e ainda com aajuda da Polícia Rodoviária, eles fecharam todas as saídas de Santo Antônio da Platina. Nãoiam ter escapatória. Os celulares dos meninos estavam fora de área. Por que os celulares nunca estãodisponíveis quando precisamos deles? A agonia aumentava, os policiais não davam notícias.Horas passavam e nenhuma notícia chegava. Os pais aguardavam ansiosos e muitodesesperados. Há poucos metros da escola, aproximou-se o som da sirene misturado a um tiroteio, oque gerou gritaria de toda a vizinhança. Sim. A polícia encontrara Seu Zé e o tal motorista docarro velho em uma casa abandonada. O momento foi bastante tenso, já que, com a correria,não era possível saber ao certo quem era bandido, quem era curioso ou policial disfarçado.Houve muita troca de tiros, o que apavorou toda a família e amigos dos garotos. Um dos policiais tentou entrar em acordo com os dois sequestradores. Seu Zé dizia quesó os devolveria se tivesse recompensa e logo após pudesse fugir. Os pais, aos escutaremaquela negociação que aparentemente não teria fim, imploravam aos policiais para fechar oacordo, pois eles pagariam o preço que fosse para ter os filhos de volta. O policial, mesmoentendendo a situação daqueles pais desesperados, não poderia deixar de cumprir seu papel eoptou por tentar reverter a situação, que seria fazer os bandidos se renderem. E nisso eleconfiava, já que tinha parceiros ótimos. Tanto que na discussão para entrarem em um acordo,um dos policiais que chegara depois sem ter chamado a atenção pulou o quintal dos fundosjunto com outros três de sua equipe e cercaram os sequestradores. Ao perceberem o ato, os bandidos reagiram e acabaram ferindo um policial. Mas logoapós receberam um tiro certeiro que os derrubou e perderam, assim, os movimentos. Aambulância foi chamada com urgência.
  12. 12. Ao entrarem na casa, estavam os cinco garotos desmaiados e nus. Certamente teriamsofrido agressão sexual por parte dos homens. A imagem era constrangedora. Ao lado, álcoole um pano, que talvez fora usado para “apagá-los”. Os homens foram presos e os meninos recuperados. Ficaram com um grande trauma ereceberam ajuda psicológica. O cheiro de perfume na sala havia sido estrategicamente colocado pra disfarçar ocheiro forte do álcool usado por Seu Zé para já tentar “apagá-los” ali mesmo, mas Cauêreagiu e fora agredido com uma faca, que provocou um corte profundo e sangrou muito, oque podia ser visto facilmente – os tais pingos no chão. O motivo para os sequestradores terem escolhido os cinco garotos? O zelador e seuamigo estavam com uma dívida altíssima com um traficante, se eles não pagassem em menosde 48 horas estariam mortos. Seu Zé, ao ver os garotos de boa família entrarem na escola queestava vazia, não pensou duas vezes. As câmeras estavam travadas com um grampo de cabelo usado por Seu Zé – deve teraprendido a estratégia em mais um desses filmes de ação, e por isso nada fora registrado. Quem diria que aquela tarde de aula renderia uma boa história para contar?
  13. 13. ANNE Inconsequente. Apaixonada. Imatura. Sensível e delicada. Gosta da rotina, da paz. Opta sempre pelo mais fácil e cômodo. Segmento: Implícito (o final “fica no ar”) Cinco Bruna era perfeita. Pelo menos pra mim, que sempre fui vista como a menininha frágil.Os olhares pra ela sempre eram cheios de inveja e com uma certa luxúria por parte dosmeninos. Eu queria ser como ela. Eu queria ser autêntica. Invejada, popular. Eu nunca passeide um rastro, de uma sombra da garota mais incrível do colégio. Mas eu nunca conseguiriaser mais do que isso, sempre que eu tentava eu me travava, já que ela sempre insistia emfazer algo melhor, mais caloroso e cheio de vida. Típico dela. Era dia cinco de maio. Cinco do cinco. Minha paixão pelo número cinco existe desde queeu existo. Minha mãe costumava dizer que o número cinco era o número da falsidade, porqueele podia ser transformado facilmente com apenas alguns rabiscos. A estrela de cinco pontas.O pentagrama é a figura mais freqüente nos instrumentos de magia, e é usado em amuletos einstrumentos de exorcismo. Alguns afirmam que é o símbolo da dissimulação. Jesus Cristofoi chagado por cinco vezes. O dia amanheceu quente. Incomumente quente, já que era maio. A cidade pareciaabafada, as pessoas pareciam agitadas. Passei a manhã lendo Dom Casmurro para me distrairum pouco. Tomei um banho quente e rápido, coloquei qualquer roupa e fui para o colégio.Subi as escadas e senti um cheiro familiar que dominava o corredor; segundos depoisGustavo segurou com suas mãos minha cintura. Disse que eu estava linda. Eu não estavalinda. Dei um sorriso seco e me senti enjoada, pois havia saído de casa sem comer nada. A sala ainda estava semi vazia, aproveitei o tempo e desci rapidamente para comprar umsuco ou algo do tipo. Passei antes pelo banheiro para conferir. A porta estava trancada. Volteiao pátio, só tinha de goiaba. Eu nunca gostei muito de goiaba, mas não tinha outra opção e se
  14. 14. continuasse de estômago vazio passaria mal sem dúvida nenhuma. Subi correndo e mal vique a embalagem estava minusculamente rasgada, deixando assim pingos pela sala toda. A professora não tardou a chegar. Entrou como sempre com o suéter azul de bolinhas, seBruna estivesse na classe certamente faria algum comentário sobre ele não estar sendo usadoda forma correta. Me arrepiei. Eu queria lhe contar do meu final de semana, dizer o quantoeu fui boa e corajosa no que fiz, como ela. Sem que ela me olhasse e repetisse que eu nuncavou chegar a lugar nenhum se continuar sendo tão sonsa. “Você é simples demais, muitosonsinha”, repetia ela, e continuava: “mulheres boas vão para o céu, mulheres más vão praonde quiserem”. Lanna, o seu braço direito, nada além de uma cópia menos eficaz da rainha,desabotoava dois botões da minha camisete e ainda sorria, “que pena que você não tempeitos suficientes ainda, garotos adoram seios”. A chamada começou a ser feita, cinco alunos haviam faltado. Olha só o cinco meperseguindo outra vez. Estranhei Carol ter faltado, ela era do tipo que fazia da escola suaprimeira casa, ou melhor... a sua casa. Os outros quatro eram Alice, Bruna, Paulo e Lanna. A aula continuou normalmente. O sinal bateu e corri novamente ao banheiro, com abexiga quase estourando. A porta se mantinha trancada. Subi no vaso sanitário do outrobanheiro e fiquei na ponta dos pés arriscando tentar enxergar alguma coisa. Lá estava, um parde pernas aparentemente imóvel, o par de tênis listrado inconfundível. Alice. Em passos curtos e rápidos procurei a zeladora e, afobada, expliquei a situação. Elapegou um molho de chaves e atravessamos o pátio. Senti um calafrio. Mas eu tinha que serforte, Bruna no meu lugar seria forte, eu tinha de ser forte. A zeladora destrancou a porta.Meus membros inferiores amoleceram. Alice estava roxa e encolhida, assim como estavaquando a encontraram com apenas alguns dias de vida dentro de uma caixa de sapatos, masagora, sem vida. O suco de goiaba não fez muito efeito, pude sentir meus sentidos se esgotarem assimcomo minha pressão, meu estômago embrulhou. Caí. Imagens embaralhadas. Sangue. Abrios olhos assustada com a tentativa da zeladora de me acordar. Retomei minha posturadevagar, eu havia sido levada para a enfermaria. A diretora anunciava que daria um recadoimportante. Fui andando devagar até a quadra. Aquela voz latejava na minha cabeça. Demorou quase vinte minutos para nos dizer queseríamos dispensados naquela tarde. Os alunos comemoraram sem questionar, era tantaignorância para um lugar só... O colégio foi esvaziado aos poucos. Eu não queria voltar paracasa. Fraca, fraca, repetia a voz arrogante de Bruna na minha mente. No começo era só ela.Mas as coisas foram complicando e complicando, e como dizia minha avó... uma mentiraleva à outra. Eu não tinha culpa. Alice só estava no lugar errado e na hora errada. Anoiteceu. Eu estava vagando pela cidade desde então. Costumava me sentar atrás dogrande muro do cemitério, falar com a escuridão. O grande ipê barrava um pouco o ventoforte que soprava naquela noite. O portão da casa da frente foi levemente empurrado. Carolsempre fora estranha desde nossa infância, nunca gostou muito das pessoas, diga-se depassagem. Silenciosa, sentou do meu lado. Pensei em lhe perguntar o motivo de ter faltado
  15. 15. no colégio, mas hesitei. Como se lesse meu pensamento, ela sorriu. Carol quase nunca sorria.A não ser por Gustavo. Ela era completamente apaixonada por ele, suas expressões mudavamincrivelmente perto dele; está aí o motivo de ela não me engolir. Eu realmente não sei o que ele via em mim, Bruna sempre me disse que eu era simplesdemais pra um pegador de carteirinha como ele. Mas ele sempre me dava atenção mais doque o normal e era estupidamente notável o quanto Carol se afetava com isso. Seus olhos,escondidos atrás de uns óculos fortíssimos, se enfureciam. Carol respirou fundo, como se quisesse controlar algo, e me perguntou o que eu tinha dediferente. Meu olhar fixou-se no vazio. Eu não tinha nada de diferente. Eu era comumdemais, simples demais para alguém me notar. Seca, questionei a pergunta. Carol me fitou,segura, pela primeira vez seus olhos tinham segurança e continuou: - Não finja que está preocupada com Alice. Estremeci. Gaguejei procurando palavras; não as encontrei. Carol começou a contardetalhadamente sobre sua noite anterior, havia se declarado para Gustavo e obviamente comoesperado sua reação fora a mais escrota possível. Rira, humilhara, disse que nunca seenvolveria com uma nerd feito ela. Carol gargalhou. Uma risada leve. Limpa edescontrolada. - Sua inveja foi maior do que você. Não suportava o fato de ela ser melhor que vocêem tudo que ela fazia. Alguma coisa saiu errado, não foi? Você não conseguiu ter o controlede tudo como ela tinha. Lanna atrapalhou. Não pude responder. Engoli seco. Ela sabia. - Paulo era meu único amigo, eu confiava nele. A sua inteligência e a sua audácia aassustou, não foi? Ele seria uma pedra no seu sapato. Naquela altura eu só conseguia pensar no meu diário e na minha maldita mania de terque contar tudo a ele já que nada e nem ninguém suportaria ouvir minhas lamúrias, nem aomenos minhas paredes, já que estas têm dezenas de ouvidos. Carol continuou a acusação,calma e fria. - Eu precisava descobrir se você o queria tanto quanto eu, e veja só o que por destinoeu acabo descobrindo: eu sempre te odiei e não só pelo Gustavo, mas porque para mim vocêsempre foi uma garotinha influenciável demais, sonsa. Virei-lhe um tapa que fez seus grandes óculos saírem do lugar. Sonsa não. Eu nuncamais seria chamada de sonsa. Carol me enfrentou e repetiu, como Bruna fazia quase quediariamente. Sonsa, sonsa. Dei-lhe outro tapa mais forte. Meus dedos ficaram marcados noseu rosto pálido. Ela re-ergueu o semblante e recomeçou. - Essa é a princesinha da classe? A garotinha doce? Vamos lá, continue! Carol sabia. Tudo ou quase tudo. Eu precisava pensar. Mantive-me calada e então ela secansou. Disse que aquilo não ia ficar impune. Atravessou a rua sem notar que eu ainda aobservava. Agachou, destravando algo no portão eletrônico e entrou no grande casarão emque passava a maior parte do tempo sozinha, graças aos pais que viajavam constantemente. Agaragem estava vazia.
  16. 16. Voltei para casa apressada. Vasculhei meu quarto. Nem sinal do meu diário. Coloqueialgumas coisas na mochila, disse a minha mãe que iria dormir na casa de uma amiga. Nãodormi. Cheguei em casa por volta das quatro. Entrei em passos leves, fechei a porta do meuquarto, risquei o dia cinco do calendário. Adormeci. A terça-feira amanheceu fria. Comumente fria, já que era maio. Os rádios, jornais,programas anunciavam a maior tragédia da história da pequena cidade. Cinco adolescentesencontrados mortos sem explicações aparentes. Veja só o cinco outra vez.
  17. 17. BRUNA Uma menina de família rica, que age por impulsos, causando muita confusão e problemas. Tem uma relação conflituosa com o pai, muito conservador, que preza pela honra da família. Segmento: Romântico Feitiço contra o feiticeiro Assim como todas as manhãs, acordei às seis horas ao som de Kesha, levantei e comode costume fui direto para o banho. Às sete horas o despertador tocou novamente mealertando de que já estava na hora de ir para o colégio, desci e o motorista estava a minhaespera. Já estava a caminho do carro quando meu pai me chamou, voltei achando ser algoimportante, mas era mais um de seus discursos dizendo que se minhas notas nãomelhorassem ficaria de castigo por um tempo memorável, sem roupa nova, sem celular, e opior, sem festas. Até aí tudo bem, eu ainda estava calma, mas então ele começou a falar daminha irmã, falar que se eu não mudasse acabaria engravidando de um drogadinho qualquersem futuro, assim como ela. Isso me tirou do sério, o sangue subiu à minha cabeça e quandodei por mim já estava sendo segurada por um dos funcionários de meu pai para não atacá-lo.Depois dessa tensão, achei melhor entrar logo no carro e ir para o colégio, não conseguiriaficar mais nem um minuto olhando para a cara daquele homem que dizia me amar, mas sóestava preocupado com o status da nossa família. Cheguei ao CTAM fumegando de raiva, prestes a matar o primeiro que discordasse demim. Entrei na sala e deixei a bolsa na minha carteira, fixa ao lado das minhas melhoresamigas, Alice e Anne, as únicas que escutam meus problemas e aguentam meus maus-tratose meu mau-humor sem reclamar. Alice, um anjo de menina, sempre me apoiando e me dandoos melhores conselhos. Anne também é um doce de menina, porém mais quieta. Ficamosconversando até que senti um cheiro forte de perfume masculino que me deu náuseas e umavontade de vomitar, principalmente quando percebi de quem era. Era do Gustavo, o meninomais escroto que conheço, mulherengo, idiota, que se acha o tal, e o que mais me estressa éque as meninas morrem por ele e os meninos o tratam como um rei. Ele já ficou com todas as
  18. 18. meninas da sala, exceto Carolina e Larissa, que só pensam em estudar, e eu também estavafora da lista, é claro, já que tenho detector contra idiotas. Confesso que quando ele entrou nocolégio até me atraiu, ele parecia ser um menino meigo, fofo, bonito, é claro, e mostravainteresse por mim. Pensei em dar uma chance a ele, mas meu pai logo tirou essa idéia daminha cabeça me dizendo que ele era igual a seu irmão (o cafajeste que engravidou minhairmã). Meu pai sente uma raiva imensa dessa família, o pai deles, Robson Dal Bom, havia lhetirado muito dinheiro e depois veio a história do Guilherme com a minha irmã. Disse que nãoqueria me ver de conversinha com ele, queria me ver longe do garoto. Foi aí que tive uma ótima idéia, acho que a melhor que já pensei em ter: “vou ficarcom o Gustavo e fazer com que ele se apaixone por mim”. Perfeito! Meu pai vai explodir deraiva e ainda de bônus eu ganho a oportunidade de iludir o Gustavo e fazê-lo sofrer. A idéia já estava formada, agora só precisava de um plano. Tinha que ficar com ele naaula da manhã, no almoço meu pai “sem querer” descobriria e à tarde eu terminaria com ele.Tudo certo, comecei a colocar o plano em prática. Nos dois primeiros horários fiqueiconversando com ele, rindo das piadas que ele contava, jogando charme. Bateu o sinal para ointervalo, peguei uns livros que tinha que devolver na biblioteca e esbarrei nele de propósitofazendo-os cair no chão, ambos abaixamos para pegá-los, toquei minha mão na sua e tireirapidamente, assim como tinha visto em um filme. Depois de me ajudar a pegar os livros, fezquestão de me ajudar a levá-los à biblioteca. - Que cavalheiro, não se vê mais meninos assim. Você tem sorte em tê-lo! – disse abibliotecária. - Também acho. Tenho muita sorte! – disse olhando para ele e sorrindo. Saindo da biblioteca, ele me segurou pela cintura, me encostou na parede, olhou nosmeus olhos e me beijou. Fiquei um tempo presa no beijo, mas então lembrei que aquilo eraum plano e não bastava apenas ficar com ele, tinha que fazê-lo se apaixonar por mim. Entãointerrompi o beijo e disse que não era como as outras, que se ele quisesse me ter em seusbraços novamente teria que ser do jeito certo, namorando. Saí sem hesitar, sem olhar paratrás. E isso funcionou, pois quando estava saindo para o segundo intervalo segurou-me pelamão e encaixou seus dedos nos meus, com a outra mão acariciou meu rosto e olhando nofundo dos meus olhos disse: - Quero estar com você, não importa como. Se você quer do jeito certo será do jeitocerto. Nos beijamos novamente, mas dessa vez foi um beijo mais suave, romântico,envolvente. Olhei para ele e sorri, ele me deu um abraço apertado e ficamos o intervalointeiro ali, juntos. Passei as duas últimas aulas pensando nele, lembrando dos beijos, de quão macios sãoseus lábios, daquele abraço, daqueles braços quentes e tão aconchegantes. O que estáacontecendo comigo? Eu não posso nem pensar em me apaixonar por ele. Tenho que agirpela razão e não pelo coração. Pensei. Comecei a pensar em uma forma de o meu pai
  19. 19. descobrir, ele tinha que ficar sabendo por mim, mas eu não podia contar diretamente, ele iaachar que estava fazendo isso só para irritá-lo. De fato estava, mas ele não podia saber. Peguei uma caneta e com letra de forma escrevi em meu pulso “TE AMO GATA!SEU AMOR, GU” e fiz um coração. Fui para casa e na hora do almoço fiz questão deesperar para almoçar com meu pai, sentei-me do lado dele e fiz com que notasse o rabisco nomeu pulso. Enquanto esperávamos a sobremesa, ele disse num tom bravo: - Deu pra fazer essas babaquices de escrever na pele agora, menina?! - Não fui eu que escrevi! – respondi. - Quem fez isso? - É melhor o senhor não saber – disse, escondendo a mão. Ele, ainda mais furioso, levantou do seu lugar, foi até onde estava, pegou meu braço eleu o que estava escrito. Quando terminou de ler, me segurou e ordenou que tirasse aquilo dobraço e nunca mais dirigisse uma só palavra ao Gustavo ou ele teria que tomar medidasdrásticas e me tirar do CTAM. Depois saiu frio, dizendo que tinha perdido a vontade dasobremesa. Sorri de felicidade, consegui cumprir meu plano, meu pai ficara realmente bravo. Masquando estava no ápice da minha felicidade parei para pensar e percebi que teria que terminarcom Gu e não poderia sequer olhar na sua cara. Eu não poderia fazer isso com ele. Jáouviram o famoso ditado “e o feitiço virou contra o feiticeiro”? Pois é, eu sou a feiticeira queacabou se enrolando com seu plano e agora estava sofrendo por ter que se afastar do meninoque antes queria ver sofrer. Menino por quem agora estou... estou... apaixonada! Se eu continuar com ele perderia muita coisa, sair do CTAM não significava apenasdeixar um dos melhores colégios da cidade, significava também deixar meus amigos deinfância e principalmente, eu nunca mais iria ver o Gustavo! Passei o resto do almoçoanalisando os prós e contras de ficar com ele e cheguei a uma conclusão. Me arrumei e fui para a aula de Redação mais cedo. Chegando ao colégio, subi asescadas e entrei na sala que estava com cheiro de perfume maravilhoso, era o perfume doGustavo. Vi também uma mancha vermelha no chão que parecia sangue. Será que era deletambém? Eu tinha que encontrá-lo, ver se ele estava bem; como estava cedo e ainda faltavamtrês alunos, não pensei duas vezes e fui procurá-lo. Encontrei-o saindo do banheiro, o sangue era mesmo seu, porém nada demais, apenasum corte na ponta do dedo indicador. Ele me cumprimentou com um beijo e um abraço tãoapertado que me fez pensar que ele já soubesse de toda a história e já soubesse também daminha decisão. Puxei-o pela mão e o levei até a biblioteca, encostei-o na parede, local onde tudocomeçou. - Quero te falar uma coisa – eu disse com um aperto no coração e os olhos cheiosd’água por saber que aquele era o fim de tudo. - Eu também tenho uma coisa para te falar – ele disse com um sorriso no rosto.
  20. 20. Então pegou minha mão, abriu-a e, tirando do bolso, colocou uma pulseira de pratacom um coração meio torto e disse: - Eu mesmo fiz esse coração. Ele está meio torto. Meu coração é meio torto e eu possoter feito muita coisa errada e nossas famílias podem ter seus desentendimentos, mas eu estoudisposto a resolver tudo isso. Eu quero estar com você, você é meiga, engraçada, linda econseguiu fazer o que NENHUMA menina conseguira até então... me fez virar um boboapaixonado que não consegue parar de pensar em você. Eu te amo! Fiquei pasma, não conseguia me mexer e nem dizer nada, apenas sentia as lágrimasescorrerem pelo meu rosto. Se ele estava disposto a fazer tudo isso, resolver os problemasentre nossos pais, por que eu não poderia jogar tudo para cima e fazer o mesmo? Olhei nos seus olhos cor de mel e disse: - Lembra o que a bibliotecária disse? Eu tenho sorte em ter você! Você não é bobo, éperfeito para mim! Nos beijamos e então eu soube que tudo ficaria bem!
  21. 21. CAROLINA Garota normal, quieta, tímida, e sem amigos, nerd e muito esforçada. . Segmento: Trágico Personagens de um mesmo eu “Nos desonestos pode-se sempre confiar em suas desonestidades. Honestamente, oshonestos é que deviam ser vigiados, pois nunca se sabe quando farão alguma coisa realmenteestúpida”. Tenho mania de sempre me inspirar em personagens para fazer coisas grandes emminha vida, e agora penso que talvez se uma, apenas uma pessoa tivesse o mesmo hábito queeu e se inspirasse no Capitão Jack Sparrow e nessa sua frase de efeito, quem sabe tinha memandado prender antes mesmo de ter consumado meu ato, meu horrível ato... Mas tenhacalma meu querido leitor, já contarei meu efeito e, como dizia meu caro Jack Estripador,vamos por partes. Desde que mudei para essa escola, na 8° série, certos alunos têm como hobbie mechamar por certos nomes amáveis como “fundo de garrafa”, “nerd”, e outros, porém se vocêpensa que eles limitam suas mediocridades apenas a apelidos, você está redondamenteenganado, há também atos como enfiar minha cabeça na privada e dar descarga ou passar opé para eu cair na escada. Eu aguentava. Na verdade nem ligava, afinal sou uma pessoa de nervos de aço eaprendi a não ligar para esses idiotas. Só peço que não pergunte às minha paredes, elascostumam inventar histórias, de que choro muito, e tenho ataques frequentemente, mas émentira! Afirmo, mentira! Não dê NUNCA ouvidos a elas. Voltemos ao ato. Primeiro, quero deixar bem claro que não estou culpando meusamáveis amigos, aqueles dos apelidos, assumo inteiramente a culpa pelo que fiz, pela minhafrieza, pelo meu calculismo e pela minha futura... bem, voltemos logo ao ato.
  22. 22. Tudo aconteceu na tarde do dia 15 de maio, eu tinha Educação Física às cinco,cheguei pontualmente e fui lá em cima para trocar de roupa. Quando subi as escadas, percebias vozes dos meus amáveis amigos; hesitei, mas decidi enfrentá-los. Então continuei a subirenquanto eles desciam. Senti um empurrão, e como estava com minha bolsa nas mãos caí eacabei batendo meu nariz no chão. Veio uma dor seca e contínua e logo depois veio osangue, lavando e respingando o mármore frio da escada. Com as mãos na escada, apoiei-mepara levantar. Percebi que estava no topo dela, então me lembrei da câmera no corredor e tiveuma ideia. Consegui levantar e subi mais um degrau, chegando assim ao término dela.Alexandre então me empurrou novamente dizendo para ficar no chão, onde era o meu lugar,de acordo com ele. Gabriel riu uma risada solta e pesada, que me cortava por dentro, olheipara ele dizendo “é exatamente assim, ri de suas notas, é bom não é?! Rir dos outros, sesentir melhor, não te culpo, porque é exatamente assim que me senti quando você tirouaquele zero em Gramática, ou foi em Física, são tantos que nem que queira consigo melembrar mais...”. Senti então um chute na barriga que levou meu ar com ele. Risos e mais risos, era tudo o que eu ouvia ao sentir o sangue do meu narizescorrendo pelo meu rosto. Mas eu ri também, em pensamento, é claro, ao olhar a câmeranos filmando discretamente. Devia ter me calado guardando a vitória só para mim, mas não!Afinal, de que serviria um narcisista sem um espelho para contemplar e então se gabar de suabeleza? Olhei para eles e disse “Sorriam, vocês estão sendo filmados”. Sorri então imitandoa cara do smile que vem naquelas placas de lojas com câmera, mas só senti o gosto do sangueem meus dentes que vieram parar ali devido ao nariz. Gabriel foi tentar me chutar de novo,mas foi interrompido por Alexandre, que fez sinal para ficar quieto. Ele entrou na sala do terceiro ano e só pude ouvir alguns barulhos. Ele devia estardesligando a câmera, mas não faria mal, pois o que interessava já estava gravado, não tinhanada que eles podiam fazer. Certo? Errado!! Fui arrastada até o banheiro masculino e lá eles me chutaram e claro queprotegeram meu rosto, pois os hematomas não poderiam ficar expostos, depois me pegarampelo cabelo e mergulharam minha cabeça na privada, deram descarga. E pude sentir o gostodo meu sangue misturado com água sanitária, e outra coisa que prefiro nem pensar no queera. Soltaram-me, e eu, afogada, não conseguia respirar, apenas tossia loucamente num cantodo banheiro. Eles trancaram a porta e aos chutes quebraram o trinco, pularam a parede quedividia um sanitário do outro. O que não consigo entender é como pensaram em tudo em tão pouco tempo. Éclaro que tudo vinha do Alexandre, pois Gabriel só o observava e repetia, como sempre fez avida toda. Deve ter planejado tudo antes, com certeza, só que para uma outra ocasião, poisnão contava com o fato de eu usar a câmera contra eles. Mas a ideia de desligá-la e saberonde desligava, e ainda usar o banheiro dos deficientes para ter mais espaço para quebrar otrinco, foi tudo tão genial.
  23. 23. Eu ainda tossia muito e acabei perdendo a consciência. Acordei um tempo depois.Estava tudo quieto e não tinha nem noção das horas, meu celular ficou na minha bolsa, naescada. Decidi gritar por socorro, mas foi em vão. Tudo doía, minha cabeça, meu nariz e todomeu corpo, que fora espancado por eles. Gritei de novo e pude ouvir barulho nas escadas,pensei que eram eles. Mas logo reconheci a voz que gritou de volta “quem tá aí?”. Era umavoz feminina e familiar, lembrei da tia Mari, que ficava na escola até mais tarde. Eu dissechorando “sou eu tia, a Carol do segundo”. Ela abriu a porta do banheiro. “Me ajude, me tiredaqui”, e ela “Se acalme, minha flor”. Tentou em vão abrir a porta “Não consigo abrir, Ah!Tive uma ideia, vou pegar alguma faca para descochar os parafusos, já volto”. Ela voltoulogo. “Voltei! Flor, eu acho que os parafusos estão do lado de dentro, e não tem como eupassar a faca por debaixo da porta, porque o cabo da faca é muito grosso e o espaço entre aporta e o chão é muito pequeno, vou te passar por cima, sobe no vaso que eu te dou, mascuidado, porque ela tá muito afiada”. Subi então como ela havia me pedido, peguei a faca e na hora de descer sem querermeu pé escorregou e caiu na patente, para melhorar meu estado. Enquanto descochava osparafusos a tia falava sem parar. - Ai, menina, como você foi parar aí? Vai ter que contar essa história direito, em?!Eu estava indo embora, estou louca pra ir embora, porque não sei se você sabe mas hoje émeu último dia aqui, graças a Deus eu pedi demissão desse lugar. E continuava sem respirar, um blábláblá irritante, aquilo latejava minha cabeça queparecia estourar de tanta dor. Começou a me dar raiva! Mas enfim, terminei de descochar, e ela: “agora me passa a faca que depois é só darum empurrãozinho e a porta cai”. Subi no vaso com a faca na mão, mas na hora em que fuichamar a tia para pegar a faca, escorreguei na água que espirrou no momento em que meu pécaiu e acabei indo pra frente e esbarrando na porta, que foi caindo e acabei sem querer, aotentar segurar, fincando a faca no outro lado dela. Retomei meu equilíbrio, vendo a portacair, e permaneci em cima do vaso quando vi um líquido vermelho escorrendo no chão, olheipara os lados e não via a tia. Desci do vaso, levantei a porta e desvirei seu corpo que estavafincado com a faca no peito. Seu olhar era frio e refletia um certo horror, talvez o meupróprio horror ao olhar a cena. Não consegui fazer nada além de olhar para seu rosto, que me acusava, mesmo eudizendo não com a cabeça. Sentei-me e encolhida pensava a todo momento eu a matei! Eu sou uma assassina!Foi então que me veio o pensamento que ninguém podia ficar sabendo, eu tinha que escondê-la! Mas eu não conseguiria fazer aquilo sozinha, aí minha tal “mania de personagens”resolveu dar o ar graça. Lembrei de C.S.I. Los Angeles, mais especificamente do senhorlegista. Sempre o admirei, sua frieza para lidar com corpos, era tão simples para ele. Estavadecidido! Era ele quem eu seria naquele momento.
  24. 24. Peguei a faca e comecei pelas mãos, depois pelos ombros, a cabeça me deu até umcerto trabalho, não conseguia achar o lugar certo para cortar, saía muito sangue no começo,mas quando comecei a cortar os membros inferiores eles já estavam coagulados e não faziammuita bagunça. Até assobiei, como o senhor legista costuma fazer, às vezes me assusto comessa minha mania, mas no fundo eu acho engraçado, confesso! Terminei. Peguei o molho de chaves e depois de tentar três delas consegui abrir aporta para o futuro elevador. Voltei ao banheiro, peguei os pedaços e joguei no buracodestinado ao elevador, tranquei e joguei a chave pela descarga. Desci e entrei na cantina,peguei um balde, um pano e produtos de limpeza. Lavei tudo, ficou branquinho, coloquei ospanos na bolsa e devolvi o balde e os produtos. Sei que existe o tal luminol para detectar osangue que alguém limpa depois de um crime, mas isso não seria problema: o meu nariz,estava tudo registrado. Voltei para a casa e no outro dia fui normalmente à escola. Os covardes haviamfaltado, é claro. Ninguém notou meu nariz inchado, ninguém me notou, mas notaram umcheiro estranho no corredor. Era o corpo, e isso me deixou nervosa. Acabou a aula, fui paracasa, estava muito nervosa. “Eles descobririam, estava tudo acabado.” Já estava decidido: memataria. Não passaria pela vergonha de ser acusada de assassinato. Não eu! Então minhamania voltou a aparecer, lembrei do “e não sobrou nenhum” de Agatha Christie, do juiz quemata todos e se mata, e deixa uma carta explicando os crimes. Faria isso, e escreveria a carta.Esta carta! Sobre como será minha morte ainda não tenho certeza, mas acho que vou tomarcomprimidos de minha mãe. Espero que você leitor de meus últimos minutos de vida, procure entender meusmotivos. Dignidade. Morri com dignidade, sem dúvida. Assinado: eu.
  25. 25. CAUÊ Inteligente, tímido, feliz, faz tudo para alcançar o que quer. Legal com quem é legal. Ou gosta ou odeia, e odeia a sala onde estuda. Segmento: Polêmico Alucinada paixão Pensei em como tudo aquilo pode ter acontecido, o sangue, os alunos ausentes, ocheiro de perfume no ar. Aquele cheiro não me era estranho, tinha a sensação de já tê-losentido. Fui atrás de alguns alunos para tentar descobrir algo e tirar a paranóia da minhacabeça. Comecei pelo Paulo, foi o primeiro que vi. Aquele garoto que conheço desde pequenoadora Sherlock Holmes e suas investigações. Aquilo poderia me ajudar a descobrir algo,então perguntei: - Paulo, você sabe o que aconteceu com os alunos ausentes? - Não sei, a única coisa de que me lembro é que os vi ontem com a Carolina. Estavamchamando-a de nerd, essas coisas, sabe?! - Obrigado Paulo. - respondi. Bem, já sei com quem conversar. Carolina estava em um canto, sozinha e estudando para a prova de Redação queaconteceria logo após o intervalo. - Oi, Carolina! - Oi, Cauê. Tudo bem com você? - Bem, como todos nós. Mas estou preocupada com a Alice, o Alexandre, o Gabriel, aGabriela e o Gustavo. - Mas o que aconteceu com eles? - Ainda não vieram à aula. - Você não esteve com eles? - Não. Quem deve saber de algo é a Anne, que não desgruda deles.
  26. 26. Carolina estava aflita, um pouco nervosa. Para não acabar constrangida agradeci e fuiembora à procura de Anne. Procurei muito, até que a vi com o Rafael. Os dois estavam tristes, deprimidos, poisGabriel, um dos ausentes, era irmão de Rafael e namorado de Anne. Fui ver o que estavaacontecendo. - O que foi que aconteceu, gente? - Oi, Cauê, meu irmão, na verdade, não faltou à aula, mas sim sumiu. - Como assim? - Ele e os outros quatro ausentes - Anne respondeu. - Meu Deus! E qual foi a última vez que vocês os viram? - Eu o vi ontem conversando com alguém no telefone à noite antes de dormir -respondeu Rafael. - E eu o vi ontem à tarde quando estávamos com os outros. - Muito obrigado pela informação. Realmente tinha um mistério nas mãos. Paulo disse que Carolina estava com eles, masela negou, e Anne disse que os viu apenas à tarde. Novamente senti aquele perfume forte e masculino. Senti um arrepio, uma sensaçãoestranha, tinha certeza de que era o perfume. Bateu o sinal, Anne passou ao meu lado e eusenti o mesmo aroma mais uma vez. Era Anne que estava usando, então após a aula decidisegui-la para ver o que estava acontecendo. Quando tocou o sinal e todos entregaram as provas, resolvi ir atrás e investigar melhor.Comecei a seguir Anne, pois sabia onde morava, por fim e menos esperado ela foi para acasa. Isso não me tranquilizou, pois sabia que algo ruim estava acontecendo. Resolvi esperar,quem sabe os alunos desaparecidos não iriam à aula no dia seguinte? No dia seguinte, estava louco para voltar à escola e ver se realmente não era nada etorcendo para que os alunos desaparecidos estivessem lá. Não foi isso o que aconteceu. Osmesmos alunos estavam ausentes. Não poderia ser coincidência, algo de muito ruim estavaacontecendo, pois os alunos não poderiam faltar mais uma vez em um dia de aula cheio deprovas. Anne estava muito aflita e diferente, e ainda usava o mesmo perfume. Decidi segui-lanovamente após as aulas acabarem. Então veio a surpresa... Logo que as aulas acabaram, segui Anne até um barracão onde a escutei conversandocom um homem estranho, alto, careca e bem forte. Anne disse: - Onde estão? - Eu os coloquei em um lugar mais discreto e seguro para que ninguém os veja. - Ok. Mas cuidado com eles. Eles são muito importantes para mim. Quando escutei essa conversa levei um choque, pois a Anne, uma garota tão boa eeducada, estava envolvida no sumiço dos garotos e um deles era seu próprio namorado.Resolvi seguir o homem e tentar descobrir esse local tão discreto mencionado na conversapara poder ajudar os garotos e ter certeza de que Anne estava envolvida com isso.
  27. 27. Segui o tal homem durante duas horas e cheguei a uma casa pequena, feita de madeirae bem antiga. Ele entrou, e eu fiquei esperando fora da casa até que ele saiu. Foi a minhachance de entrar e descobrir o que estava acontecendo. Tentei entrar pela porta, mas estava trancada. Resolvi dar a volta na casa até queencontrei uma janela de madeira bem antiga e fácil de ser aberta. Não precisei fazer tantaforça. Entrei. Por dentro, a casa era bonita, cheia de quadros, livros e espelhos. Um banheiro,um quarto, uma cozinha e uma porta, que quando aberta dava acesso ao porão, local de ondeescutei um barulho, como um cochicho. Parecia ser a voz do Gabriel, por isso não penseiduas vezes e decidi entrar. Para minha surpresa, dei de cara com os garotos, que estavam lá,amarrados por uma corda bem grossa e tinham uma fita que prendia a boca. A primeira coisaque fiz foi desamarrá-los para poder ajudá-los. - Quem os trouxe aqui? - perguntei. - Foi Anne e seu capanga - respondeu Gabriel. - Meu Deus! Mas por que isso? - Não sei, cara - disse Alice. - Anne fez tudo isso, pois não estava segura com o nosso namoro e achou que eu aestava traindo com Alice. Ela trouxe o Gustavo e a Gabriela, pois Gustavo namora a Alice, eGabriela é sua irmã e Alexandre estava no momento do sequestro. - Nossa, estou sentido aquele perfume forte de novo. - Deve ser o meu, Cauê. - Mas eu senti a Anne com ele. - Ela estava tão obcecada por mim que começou a usar as minhas coisas. - Mas e aquele sangue? - Não era sangue, Cauê. Ouvi Anne reclamando que sujou sua roupa na escola, poisrecebeu uma ligação do seu capanga e saiu correndo e acabou derrubando o vidro de esmalte. - Mas não tinha cheiro de esmalte! - Eu sei, aquele esmalte fui eu que dei, ele não possui cheiro, pois Anne é alérgica acheiro de esmaltes, exclusivamente. Componentes químicos, você sabe... coisa de mulher... - Estou abismada com tudo isso. Nunca imaginei que Anne fosse capaz de fazer issocom as pessoas que ela mais gostava. - Nem nós - disse Gustavo. - Temos que fazer algo contra o homem e contra a... O homem chegou por trás, me agarrou, e até hoje ninguém sabe realmente ondeestamos e o que aconteceu.
  28. 28. GABRIEL 17 anos, corinthiano, muito louco, decidiu que não quer mais estudar; vive em festas, apesar de ser meio briguento, é muito gente boa. Segmento: Humorístico Frustração Em um longo dia de aula, estava meio “desligado”, não conseguia prestar atenção nasaulas, foi aí que comecei a reparar em meus colegas de classe. Nossa sala era unida, mas àsvezes havia algumas intrigas aqui e outras ali, mesmo assim sempre tivera um ótimodesempenho, a turma toda. O professor falava e eu não conseguia entender, então comecei aprestar atenção em qualquer movimento que algum colega fazia, assim, percebi que PauloRoberto observava a todos, e anotava em um bloquinho de papel. Tinha conversado com Paulo uns dias atrás e lembrei que ele era um grande apreciadorde romances policias, e que levava sua vida como se fosse um detetive. Foi então que resolvifalar com Paulo na hora do intervalo, perguntei o que ele tanto anotava naqueles papéis. Elerespondeu que era sobre alguns alunos que andavam meio estranhos ultimamente, e dissetambém uma coisa que eu não havia percebido, talvez por ser meio desligado: que cincoalunos tinham faltado naquele dia, e ninguém sabia o motivo. Os professores estavam ficando preocupados, toda vez que algum aluno faltava tinhaque justificar sua falta ou seus pais avisavam, mas nesse dia ninguém deu nenhumaexplicação para faltar, e a direção da escola já tinha ligado para os pais dos alunos e eleshaviam dito que seus filhos não estavam em casa e que haviam ido para a aula mais cedo queo normal. Além do mais, os alunos que sumiram não eram de perder aula, sempre foram osmais exemplares. Bruna era uma garota de família rica, já teve algumas brigas dentro de sala, mas nadafora do normal. Carolina era muito quieta, não tinha muitos amigos, estudava muito, eraconsidera a nerd da sala. Gustavo era um cara feliz com a vida, educado, porém dava emcima de todas as garotas do colégio, só que na maioria das vezes não dava certo. Gabriela
  29. 29. parecia ser uma garota comum, igual a todas, mas era herdeira de uma grande fortuna eprocurava sempre fazer justiça, independente do que acontecesse. Alexandre era um garotocalmo, pensativo, amigo de todos, vivia contando suas histórias para a turma, e passava amaioria do tempo com seus amigos. Quem iria dar fim a esses adolescentes? Por que isso? Paulo Roberto foi o primeiro a começar a investigar toda a história, observava quemnão conversava e quem discutia mais. Tudo que pudesse levar a alguma pista de ondeestavam seus amigos. Ele tinha descoberto que Cauê detestava a sala onde estudava, entãoprovavelmente não tinha muitos amigos, dar fim em cinco pessoas que ele não gostava e quepodiam atrapalhá-lo em algo não seria nada difícil. Luiz Henrique era outro grande suspeito, era quieto, sem amigos, ninguém sabia nadasobre ele nem sobre sua vida, era tudo um grande mistério. Rafael também era um suspeitoforte, apesar de ser uma pessoa inteligente e amorosa, dava para perceber no seu olharalgumas falsidades, um desejo de vingança talvez. Paulo investigava desde às 7 horas da manhã o desaparecimento de seus colegas.Queria saber o que eram as manchas vermelhas encontradas no chão da sala, que ninguémhavia colocado a mão, pois achavam que era sangue. Duas horas depois do início dainvestigação, nada tinha sido descoberto ainda. Quase no final da aula, quando todos os professores e pais já estavam apavorados equerendo ligar para a polícia, chegaram ao colégio os alunos até então desaparecidos. Riamalto e despreocupados, só houve silêncio quando de longe viram uma confusão de adultoshistéricos que, quando os viram, saíram correndo para o abraço e com as palavrasatrapalhadas pediam explicações imediatas. Gustavo foi quem começou a contar a história, disse que Carolina e Gabrielacombinaram com ele, com Alexandre e Bruna de chegar mais cedo para explicar a matériaque cairia na prova. Carolina trouxe com ela dezenas de salgadinhos, Alexandre fez questãode correr em sua casa e buscar maionese e catchup, e e um saquinho estourou e espirroumanchinhas vermelhas para todos os lados. Bruna continuou contando que como todosestavam sujos correram para a lavanderia antes de a diretora vê-los, e como não estava abertaainda, demoraram a lavar o uniforme, fazendo-os perder o horário da prova. Todos os pais e a direção do colégio ficaram aliviados por ter sido apenas umaconfusão e logo se acalmaram, porém Paulo Roberto ficou desolado por não conseguirdesvendar esse mistério antes de os alunos aparecerem. Frustrado, nunca mais leu nenhumlivro de romance policial e também nunca mais assistiu às cenas de Sherlock Holmes.
  30. 30. GABRIEL PAPI Garoto apaixonado por esportes, popular, misterioso, preza muito pela amizade Segmento: Dramático Então tudo mudou... Minha vida andava tão boa, tão tranqüila, mas mudou repentinamente, na manhã dodia 16 de maio de 2011, dia que ficou marcado na minha vida. Estudo no Colégio Tia Ana Maria faz um ano, sou bolsista, estudo lá porque sou dotime de basquete. Adoro esporte, pratico desde quando era criança, nada me fascina mais doque o esporte. Durante a semana meu organismo parecia estranho, e no dia 16 algo mais estranhoainda aconteceu, senti uma sonolência que não me deixava levantar da cama, uma sensaçãode cansaço, de fraqueza, algo que nunca tinha acontecido comigo, não daquela forma. Pela manhã, chamei minha mãe no quarto e contei a ela o que estava acontecendo epara que ela me deixasse faltar na escola, ela, desesperada, ligou rapidamente para o doutorpara que ele me consultasse e dissesse o que estava acontecendo comigo. Chegando aomédico, o doutor me pediu para que fizesse alguns exames, que ficaria pronto na parte datarde. Cheguei em casa, estava sem fome, outro fato estranho, já que sempre fui cheio deapetite. No período da tarde, tive que ir à escola, pois haveria prova e eu não poderia faltar.Chegando lá, notei a ausência de cinco alunos: Alexandre, Carolina, Alice, Cauê e Bruna. Jáque ainda estavam faltando alguns alunos chegarem, eu fui rapidamente ao consultóriomédico para pegar o resultado do meu exame; lá, o doutor me disse que aquele exame era degrande importância, mudaria minha vida, me pediu para que ficasse em casa em repouso,abrisse o envelope com o resultado com calma e voltasse no dia seguinte com a minha mãepara que eles pudessem conversar a respeito. Não fui para casa, fui correndo para a escola,pois não poderia faltar em dia de prova. Não abri o envelope, deixei para mais tarde.
  31. 31. Começou a prova e eu não conseguia me concentrar, um cheiro forte de perfumeestava me deixando com dor de cabeça, abaixei a cabeça, olhei para o chão e vi uma pequenapoça de sangue, olhei desesperado para aquilo e senti um gosto estranho de sangue na minhaboca, pedi para a professora que me deixasse ir ao banheiro. Olhei-me no espelho e vi queestava saindo sangue da minha gengiva, fiquei apavorado, limpei aquilo e voltei para a sala.Tentei continuar a prova, mas não consegui novamente, aquele cheiro insuportável deperfume não passava, pedi que me mudassem de lugar, mas de nada adiantava, o cheiroestava encalacrado na sala; começou a me dar tontura, minha vista foi embaçando, nãoenxergava mais nada, desmaiei. Acordei no hospital, com algumas enfermeiras me olhando, perguntei o que haviaacontecido e me disseram que eu havia apenas desmaiado, mas que já estava tudo bem. Elasnão sabiam o que havia acontecido comigo durante a tarde, me mandaram para a casadescansar. Cheguei a casa novamente, minha mãe me perguntou por que eu havia demoradotanto, menti para ela dizendo que fui para casa de um amigo logo após a prova, pois nãoqueria preocupá-la, pois estava cheia de problemas com o meu avô; meu problema nãoparecia ser tão grave. Ela me perguntou também se eu estava bem, se o mal-estar que eusentira pela manhã havia passado, eu disse que sim, que estava tudo bem agora. Entrei no meu quarto, deitei na minha cama, peguei o envelope, olhei fixamente paraele, mas não tive coragem de abri-lo, estava muito nervoso. Fui tomar um banho quente pararelaxar; quando saí do banho, reparei que minha gengiva estava sangrando novamente e euestava pálido, muito pálido, a dor de cabeça voltou. Comecei a chorar desesperadamente, nãosabia o que fazer, comecei a pensar que aquilo que parecia não ser nada grave parecia estarficando cada vez mais grave, mas não contei para minha mãe, novamente não queriapreocupá-la. Lembrei-me das palavras ditas pelo doutor quando fui buscar meu exame,desabei a chorar novamente, estava muito nervoso com a situação pela qual eu estavapassando. Lavei meu rosto, a gengiva havia parado de sangrar. Acalmei-me, minha mãe mechamou para jantar, e eu, mais uma vez, estava sem fome, disse a ela que comeria depois, iaestudar um pouco. Voltei ao meu quarto, peguei o envelope, coloquei-o sobre a minhaescrivaninha, sentei-me, acalmei-me e abri cuidadosamente o envelope. Tenso, no exatomomento em que terminara de abrir, percebi uma gota de sangue caindo sobre ele. Corri probanheiro, lavei o rosto mais uma vez, peguei um papel para limpar o envelope, voltei aoquarto, limpei o envelope, respirei fundo e vi o resultado. Parei por um segundo, meus olhos encheram de lágrimas, meu coração sentiu umaperto, aquilo que vi me deixou baqueado, o pouco de esperança que eu tinha de que aquilonão seria grave naquele instante foi por água abaixo. Fiquei pálido novamente, chorei, choreimuito, como nunca havia chorado em toda a minha vida, e como o doutor havia dito, oresultado realmente mudaria toda a minha vida, teria grande importância sobre o meu futuro. Corri para os braços da minha mãe, com os olhos cheios de lágrimas, abracei-a bemforte e mostrei para ela o tão esperado resultado, vi os olhos dela se encherem de lágrimas
  32. 32. também, ela me abraçou mais forte ainda e com toda esperança do mundo disse que tudo iaficar bem, que ela iria me ajudar e me apoiar em todos os momentos, o tratamento me fariaficar bem novamente. As palavras da minha mãe me deixaram um pouco mais tranqüilo, mas eu sabia que iaser completamente difícil para mim passar por tudo, era difícil aceitar que aquilo estavaacontecendo comigo, justo comigo. Não questionei e nem julguei Deus por isso, apenas jureipara mim mesmo que eu iria ser forte e que tudo ficaria bem. O resultado denunciava leucemia. Olhei-me no espelho, respirei fundo e disse a mim mesmo: o jogo está apenas noinício. Eu vou me curar!
  33. 33. GABRIELA Aparentemente comum, extrovertida, herdeira de uma fortuna, mas que por trás esconde um grande segredo, é apaixonada por lutas, e com sua personalidade forte não se sente à vontade quando o assunto é falar sobre seus sentimentos. Procura sempre fazer justiça, seja qual o preço que tenha que pagar para que isso aconteça. Segmento: Humorístico (humor ácido) Um dia nada normal O dia começou com meu humor excelente. Acordei com meus avós chegando deviagem, e quase tendo um infarto por me encontrar dormindo. Tanto escândalo por nada,afinal, não eram nem duas da tarde! Uma e cinqüenta e nove para ser mais explícita, e outra,não tenho culpa se esqueceram de tomar seus remedinhos diários... Abriram tão violentamente as cortinas, que cheguei a me sentir cega. Sem contar nafalação, acho que pensavam que meus ouvidos eram penicos ou apenas queriam meensurdecer, devia ser castigo. Pelo menos não viram o ferimento em minha perna, casocontrário, haveria mais uma pessoa aleijada no mundo. Tudo bem, tudo bem! Como um flash, pulei da cama e me arrumei rapidamente paraminhas aulas à tarde. Poderia dizer que toda essa energia surgiu porque sou uma neta muitoobediente, educada e amo meus avós, mas, como sou uma pessoa do bem, não vou mentir.Minha motivação surgiu após meus avós ameaçarem contratar uma “babá” para me vigiardurante as férias, caso não levantasse imediatamente. Pronto, confessei. Após treinar minhas caras de tenha medo de mim em meu espelho imundo, saí doquarto com a cara mais medonha que consegui fazer e fui direto para o carro, que já estava àminha espera. Não quis nem comentar o fato de que se fosse para me levar a algum lugar demeu interesse, ele chegaria ao mínimo algumas horas atrasado. Fui o caminho inteiro rezando para que uma bomba nuclear tivesse caído bem emcima da escola, mas como de costume, o Senhor não me ouviu. Tudo bem, eu supero. Entreina escola planejando ir direto para a sala e continuar meu sono diário, mas uma voz meimpedia de realizar o ato. Sim, era a voz da minha “querida” professora me chamando paraque fosse até ela. Ficha já cedo? Pensei comigo. Mas até que o assunto era interessante. Ela
  34. 34. me informou que haviam desaparecido cinco alunos de minha classe. Logo abri um sorriso,imaginando que finalmente minhas habilidades de detetive sairiam dos video-gamesdiretamente para o mundo real. Estava prestes a perguntar quem eram os desaparecidos,quando fui interrompida por uma voz: “Nossa! Olha a perna dela.” Foi então que notei. Saítão apressada de casa que acabei me esquecendo de fazer um curativo para meu ferimento. Reconheci de quem era a voz, afinal, até surda reconheceria. Era de uma criatura quese achava o centro do universo, mas que na verdade não passa de um animal inútil, tambémchamado de Gustavo. Pensei em apenas dizer a ele que havia apenas passado catchup nolocal, mas aí me lembrei de que ele acreditaria e então aquilo não acabaria muito bem...Também pensei em mandá-lo se olhar em seu espelhinho e me lembrei que havia quebrado otal objeto na semana passada. Então apenas ameacei de arrancar-lhe os dentes, caso nãosaísse da minha vista imediatamente. O abusado me chamou de animal e saiu, decidi deixarpara dar um jeito nele mais tarde, já que agora tinha outros interesses. Estava pronta para voltar ao meu assunto, quando fui interrompida por uma mão emmeu ombro. O ato veio acompanhado de uma voz aguada, que exclamava: “Credo, quehorror está essa sua perna, baby!” Logo reconheci a tal voz. Era da Barbie falsificada deminha classe, também identificada por versão feminina de Gustavo, só que incrivelmentemais fútil chamada Bruna. Minha reação inicialmente seria quebrar o braço da tal, utilizandoum golpe que aprendi em uma de minhas aulas de Muay Thay, mas percebi que havia muitastestemunhas no local, então decidi apenas dizer que era uma tatuagem 3D. Ela, que não perdeuma, me disse que aquilo não era nada fashion. Disse a ela, então, que estava enganada, poisera a última moda em Paris. A menina saiu correndo como um flash para fazer uma igual. Iame oferecer para fazer a tal “tatuagem” eu mesma, mas fui interrompida pela professora meperguntando se eu havia passado pela sala. Respondi que não, já que mal havia chegado e elajá me chamara. Indaguei o porquê da pergunta, e ela me informou que havia encontradogotas vermelhas, que acreditava ser sangue, pelo chão e que ao ver meu ferimento, imaginouque fosse meu. Estranho. Como qualquer boa detetive, decidi investigar o local. Cheguei à porta da sala, e logo encontrei as tais gotas. Aproximei-me. Cheguei bemperto do local, e o observei. Depois de cinco minutos, que para mim parecia que tinham sepassado horas, cheguei a uma conclusão. Aquilo não era sangue, era claro demais! Pensei empegar meu quite de espionagem para identificar a substância, mas me lembrei de que nãotinha um. Trágico! Então decidi utilizar do método indicado para um espião desprevenido, nocaso eu, que vi em um episódio do desenho Três Espiãs Demais, meu desenho animadopreferido na infância. Estiquei o dedo indicador, passei sobre uma das gostas e levei à boca(um pouco nojento eu sei, mas era preciso). Hum... Catchup! Decepcionei-me ao perceberque meu caso de um possível assassinato, se tornou no máximo o caso de um alunodesastrado que come sanduíches pela sala. E que ainda derrama pelo chão! Desiludida, fui para uma carteira na última fileira. Sentei. Coloquei meus fones e medebrucei sobre a carteira. Estava prestes a pegar no sono, quando comecei a sentir um cheirodiferente. Forte, porém agradável. Perfume masculino! Só me restava identificar qual. Estava
  35. 35. prestes a identificá-lo, quando uma funcionária entrou na sala e comentou: “Alguémexagerou no Egeo hoje!” Egeo! Sabia que conhecia aquele cheiro. Era o perfume quecomprava para meu pai todo ano. Um belo presente de dia dos pais, em minha opinião.Comecei a me perguntar quem usaria aquele perfume. Notei que havia uma mochila nacarteira ao meu lado. De repente, o perfume começou a ficar mais forte. Um aluno entrourapidamente pela sala e sentou-se na carteira onde estava a mochila. Com certeza esse era odono do perfume. Era um menino estranho de minha classe, que eu acreditava ser mudo.Poderia até dizer que era apenas mais um nerd, mas suas notas baixas não permitiam talafirmação. Não sabia muito sobre ele, apenas que se chamava Luiz Henrique e, agora, quetinha um bom gosto para perfumes. Nunca me interessei em conversar com o indivíduo, jáque o tal sempre pareceu inútil aos meus olhos. Isso até agora. Por que um aluno que semprequer passar despercebido viria tão perfumado para uma aula vespertina? Chamar a atenção,talvez? Bom se esse fosse o objetivo, conseguiu. Tentei puxar algum assunto, perguntei setinha alguma tarefa para entregar. Sem tirar os olhos de seu Gibi, disse: “Olha a minha carade quem faz tarefa!” Custava apenas dizer que não sabia? Era por isso que não tinha amigonenhum! Voltei a fingir que ele não existia. Estava quase na hora da aula começar, quando a professora entrou e olhou a sala comose procurasse alguém, no caso, eu. Sentou-se na carteira ao meu lado e voltou a me contardos cinco alunos. Informou-me quem eram os desconhecidos: Carolina (uma nerdinha,quieta demais, na minha opinião, mas útil em trabalhos em grupo); Alice (um pouco sem saleu sei, mas, tirando a criancice e ingenuidade, é uma boa colega de sala); Rafael (ah, essemerece mesmo sumir, sempre se faz de bom moço e amigo, mas não me engana. Sei que eleesconde um lado maligno o qual, ainda vou descobrir); Anne (o quê? Como assim a Annesumiu? Tá, eu sei que é um pouco imatura e cabeça oca, mas é uma boa amiga) e Gabriel (ah,esse não é novidade estar envolvido em confusão, tenta sempre parecer marrento, mas paramim não passa de um adolescente rebelde e até que é gente boa). Engraçado, pensei comigo, estava com todos estes no dia anterior. Tinham ido à minhacasa na tarde anterior para que fizéssemos um trabalho em grupo, que para falar a verdadenem conseguimos começar, já que meus cachorros haviam escapado do canil e começaram acorrer pela casa, deixando todos em pânico. Esta minha linha de pensamentos foiinterrompida por uma ligação de minha avó me perguntando o que cinco adolescentes faziamtrancados no porão de casa. Ah... sabia que havia esquecido algo!
  36. 36. GUSTAVO Um cara feliz, educado, mulherengo, bonitão, de fácil convivência, se dá bem com todo mundo. Segmento: Romântico Romance escolar Era mais um dia de aula normal pra mim, eu tomava meu lanche quando a minhaprofessora de Redação veio me perguntar se eu sabia o que tinha acontecido, que cinco dosalunos da sala tinham faltado à aula. Eu tinha notado algo estranho na sala, realmente, masera normal da turma, só não tão normal em dias de prova. Outro fato que não julguei ser tãonormal assim foram algumas manchas vermelhas no chão da sala, não sabia o que era, maspoderia ter algo a ver com os alunos que faltaram. Lembrei então que os alunos brincavam nasala de jogar bolinhas de papel um no outro, e como era de costume alguém se irritava ejogava outros objetos para machucar de verdade. Um colega, Luiz Henrique, então, nãoaguentou a brincadeira e arremessou um compasso que acertou a mão de Paulo, que sangrou.Ele correu à coordenação, que o socorreu. Ao retornar para a sala, Paulo já estava com suamão enfaixada e com um forte cheiro de remédio que alguém tinha passado nele. Mas o que teria acontecido com Alice, Alexandre, Bruna, Gabriel e Gabriela, osfaltantes? Agora aquilo me intrigava realmente. Onde estariam os cinco alunos? Todosestavam preocupados com o sumiço deles. Lembrei-me de que no dia anterior os mesmotinham me convidado para ir a uma festa estilo rave, então contei à professora sobre isso, jáque poderia ser uma pista. A professora, como tinha conhecimento sobre essas festas“malucas”, já sabia que elas envolvem drogas e duram muitas horas e até mesmo dias.Sabendo disso, ela resolveu esperar até no dia seguinte para ver se tinha notícias deles. Eu fuiatrás deles na tal festa, chegando lá encontrei Gabriel desmaiado, caído no chão, pareciaalcoolizado, drogado, tentei achar os outros, mas parece que eles já tinham ido embora. Semsaber o que fazer, liguei para a minha professora para me ajudar a socorrer o menino. Commedo de tomar atitudes que prejudicassem o menino, a professora resolveu levar Gabriel atésua casa.
  37. 37. Ao chegar lá, ela ficou espantada com a vida que ele levava, um descaso total, seuspais não lhe davam bola, nem ligavam para ele. Na manhã seguinte ao entrar na sala,percebeu que Gabriel estava cabisbaixo, triste, parecia revoltado com tudo aquilo que elevinha passando em sua vida. A professora então pediu para que os dois tivessem umaconversa, e tinha a intenção de ajudá-lo. Ao ouvir a história do garoto, a professora seemocionou. Gabriel percebeu que, mesmo não tendo apoio familiar, ainda havia pessoas quese preocupavam com ele, e na escola poderia encontrar todo o apoio que necessitava. Commedo de poder dar a impressão de um interesse maior no que realmente ela estavaintencionada a fazer, a professora então despediu-se. Disse apenas que alguém o procuraria.Esta pessoa foi Alice, afinal, uma menina que havia sido encontrada em uma caixa de sapatotivera uma vida ao muito diferente da de Gabriel, de sofrimento e de ingratidão. Achei muito bonita a atitude da professora. Ela fez a diferença na vida daquele casal!Sim! Casal! Eles se envolveram de tal forma que namoraram por um longo tempo e pelo quefiquei sabendo até construíram uma bela família. O que acontecera com os sumidos da aula de Redação? Ah! E o que isso importa, setivemos um final romântico e feliz?!
  38. 38. LANNA 16 anos, uma pessoa de aparência bem calma e amena, e que também aparentemente parece ser uma pessoa sem aventuras, ou ter algo interessante para contar. O que ninguém sabe é o que se esconde atrás daquela aparência, ambiciosa e cheia de más e boas intenções... ninguém sabe o que esperar de uma amiga assim. Segmento: Dramático Desaparecidos Mais uma segunda-feira, mais uma comum aula de Redação. Era assim que eupensava antes do dia 16 de maio, antes de eu ver acontecerem coisas que nem a minha mentetão perversa e ambiciosa imaginaria. Como a aula de Redação é uma segunda-feira e antes vem o final de semana,resolvemos sair eu, Gabriel, Rafael, Bruna e Gustavo, já que éramos os únicos da sala que sedavam aparentemente bem. Bruna tinha combinado de dar carona para todo mundo, já que ela tinha carro etambém não era incômodo. O mais difícil para mim é que, apesar de sermos aparentementeamigos, alguns escondiam uma personalidade ruim e que não dava para confiar. Quando jáestávamos todos no carro prontos para seguir para o barzinho aonde íamos, Rafael começou ase exaltar e obrigou Bruna a mudar a rota em direção a um lugar abandonado. Bruna pareciabem assustada, mas fez o que Rafael pediu, o nervosismo de todos que estavam no banco detrás, inclusive o meu, era enorme. Chegando ao tal local abandonado, Rafael, que já tinha deixado sua feição de umapessoa boa e normal de lado, começou a se mostrar mais agressivo ainda, e nesse momentoBruna, para nossa surpresa, revelou-se parceira dele, não por ela ser má, e sim por serinconsequente e gostar de arranjar confusões. Eles amarraram nossas mãos e pés e vendaramnossos olhos. Rafael espancou Gustavo até a morte, a situação era de medo e horror, nãotinha saída e nem como fugir. Rafael e Bruna foram embora e me deixaram junto comGabriel amarrados e vendados, e Gustavo morto ao nosso lado.
  39. 39. Chegou segunda-feira, e nossos familiares ainda sem notícias nossas; a polícia já àprocura, mas na escola ninguém quis comentar. À tarde teve aula de Redação, nossaprofessora Cristiane tinha notado tudo, mas achou que era coisa de sua cabeça, pois nãoconseguia desconfiar de alunos aparentemente normais. A única coisa que não saía da cabeçada professora era aquele cheiro forte de perfume que enjoava a sala, como quando alguémquer esconder um outro cheiro. No final da semana, todo o caso foi desvendado pela polícia, que já investigava essesjovens há meses, já que haviam se metido em confusão antes: a família de Gustavoreconheceu o corpo e nós fomos resgatados, tivemos que dar depoimentos para esclarecertudo no inquérito policial. Bruna, por ser muito rica e da alta sociedade, conseguiu enganar a mídia e se livrar dequalquer punição; já Rafael foi para uma prisão para menores, além de outras coisas que teveque acertar com a justiça, afinal ele matou o próprio colega de classe. Eu e Gabriel nos recuperamos do trauma e não mudamos de escola, pois quemapresentava perigo já estava no seu devido lugar. Bom, pelo menos eu acho, né? Vai saber oque esconde em cada uma daquelas pessoas com quem temos que conviver todos os dias,talvez coisas boas ou ruins, mas é bom sempre estar atento, pois ali o inimigo mora ao lado...e as pessoas usam máscaras.
  40. 40. LARISSA Estuda muito, não sai de casa só para poder estudar mais. Sua rotina é da escola para casa, de casa para a escola. Por isso, não possui amigos. Mora com o irmão mais velho, que é totalmente o contrário dela. Ela é uma garota muito linda, mas não possui namorado porque não quer desperdiçar seu tempo, afinal, quer estudar muito. Segmento: Sobrenatural Psicopata Eu não havia dormido bem na noite passada. Os sonhos e os arrepios roubaram meusono. Não sei o que pode ter causado tamanho desespero, mas naquela noite eu me senti forado próprio corpo. Bom, meus estudos vão indo bem. Tive sorte em gostar de ler. A leituraabre a mente para novas sensações. Semana passada, a professora de Biologia solicitou ao líder da sala para que nosenviasse por email o que seria o novo trabalho. Nós teríamos que estudar sobre algunsanimais e escrever a respeito de sua reprodução. O trabalho seria dividido em partes e duplas.Meu par seria o Rafael, e falaríamos sobre os coelhos. Combinamos então de ir até a casa daminha madrinha na próxima tarde. Lá era lotado de coelhos brancos e pêlos no carpete. Umcheiro esquisito de urina seca tomava conta da sala. Eu e Rafael ficaríamos lá até às dez danoite. Confesso, não foi fácil engolir o jantar, o odor se tornara insuportável. Dei um beijo na tia Nice e agradeci a boa vontade. Eu e Rafael nos despedimos naesquina. _ Até amanhã! Fique tranqüilo. Chegando em casa, eu mandarei o email para oGustavo com o trabalho _ disse a ele. Não saiu comentário algum de sua boca e eu permaneci ali, esperando que ele falasse algo. Notei que ele me olhavaestranhamente. Olhos grandes, iluminados pela lua e possuídos pelo ódio. Quando eu vireioutra vez ele me olhou e saiu correndo como um animal. Pela calçada suja e escura, umapenumbra tomava conta do rastro da sombra que restara. O vento emitia um ruído forte. Ofrio era insuportável. Fiquei sem reação. Fui andando rapidamente até a próxima esquina que
  41. 41. era iluminada. Meu corpo tremia de frio, meus olhos chacoalhavam e minha boca estavaseca. Chegando em casa, eu avistei meu cachorro latindo desesperadamente olhando paracima onde havia uma árvore velha e seca. Eu gritei, mas ele não olhava para trás. Então,entrei em casa e fui até o meu quarto descansar. Meu irmão estava deitado no sofá da sala,dormindo. Meu quarto estava iluminado com fortes lâmpadas brancas. Despertei daquelemedo e fui estudar mais um pouco. Abri o livro e as letras se embaralhavam nos meus olhos,minha vista estava cansada e minha mente ainda assustada. Fui dormir. Deitada na cama, coberta por grossos cobertores, eu ainda tremia de frio. Quandoadormeci tive sonhos fora do normal. O céu era vermelho e chovia sangue. Havia animaismortos sobre a terra molhada. Ouviam-se gritos de seres estranhos e estouros de coisasqueimando. A terra se cansara e se transformara num inferno. Acho que esse pesadelo foiconseqüência do que havia acontecido no dia anterior, afinal, dormi assustada. De manhã o sol nasceu fraco, mas o despertador me acordou no pulo. Chegando àescola, entrei na sala de aula e sentei na mesma carteira como o habitual. Esfreguei os olhos eolhei para o chão. O ventilador fez com que pelos voassem do chão. Senti um forte eagradável cheiro de perfume de homem no ar. Levantei e fui até o lixo jogar alguns papéisque estavam guardados na bolsa. Quando olhei pra dentro do lixo, avistei gotas vermelhas desangue jogadas em torno dele, e pedaços de carne disfarçados em meio a folhas brancas. Fuiandando e vi que ali havia um rastro das gotas de sangue pelo chão. Fui ligando um fato aoutro, mas não acreditava no que havia visto. Será que aquilo era mesmo um animal recémmorto? Nesse instante, me lembrei de Rafael. Ele havia se comportado estranhamente no diaanterior diante dos coelhos. Como ele poderia ter feito uma coisa daquelas, além disso,dentro da sala de aula? Ninguém sabia responder, estávamos todos assustados, e Rafael havia acabado de sairda escola. Alguns alunos também tinham ido embora devido ao mal-estar que aquilo causara.O sinal tocou e a professora entrou na sala. Ela observou e perguntou o motivo de haver tãopoucos alunos. Ninguém se manifestou. Ela saiu da sala rapidamente e todos permaneceramquietos, sentados. A camareira entrou para limpar toda aquela sujeira e todos nós fomoschamados no pátio da escola para esclarecer o fato. Eu chamei a professora, expliquei o quehavia acontecido com Rafael na noite passada. Ela estranhou e ligou imediatamente aos paisdele. Os pais responderam que Rafael não havia dormido em casa e que ele estava secomportando estranhamente nos últimos dias. Eles disseram também que na família haviaavós com casos de psicopatia. A psicopatia é um distúrbio mental grave, caracterizado por um desvio de caráter,ausência de culpa para os atos cruéis, frieza, insensibilidade aos sentimentos alheios. Aescola constatou então que, talvez, Rafael era um garoto doente que precisava de fortestratamentos psicológicos. Nós, da sala de aula, éramos muito unidos, e Rafael nunca haviafeito nada que levantasse qualquer suspeita. Mas descobrimos que, talvez, isso seria normal,pois portadores de psicopatia agem normalmente.
  42. 42. Bom, ficamos muito travados e assustados naquela semana, afinal, tudo era estranho.Ele precisava de um bom tratamento psicológico e acompanhamento familiar, pois ocomportamento de um psicopata pode ser perigoso e nunca se sabe o que esperar dele.

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