Medieval - esplendor da honra

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Medieval - esplendor da honra

  1. 1. Honra e Paixão Julie Garwood Honra do esplendor Honor’s Splendor Julie Garwood Num feudo ingles, a gentil Lady Madelyne, sofreu os cruéis caprichos de seu impiedoso irmão, Barao Louddon. Entao, em vingança por um amargo crime, Barao Duncan de Wexton – o Lobo – envia a seus guerreiros contra o Forte de Louddon. A primorosa Madelyne foi o premio que ele capturou, mas quando ele olhou para a orgulhosa beleza, ele prometeu protege la com sua vida. Em seu aspero castelo, Duncan provou ser verdadeira sua honra. Mas quando, finalmente, a nobre paixao conquistou a ambos, ela se rendeu com toda sua alma. Agora, por amor, Madelyne permaneceria, tao corajosamente como seu Lord, o poderoso Lobo que combateu pela… Honra do esplendor. Para meu marido Gerry, para minhas irmãs Sharon, Kathleen, Marilyn, Mary, Cookie, Joanne e Monica, e para meu irmão Tom. Heróis e heroínas cada um deles Capítulo 1 “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguna virtude há e se algum louvor existe, seja isso que ocupe o vosso pensamento.” Filipenses 4-8 Inglaterra, 1099 Pretendiam matá-lo. O guerreiro estava de pé no centro do pátio deserto, com as mãos atadas as costas e sujeita por uma corda a um poste que tinha sido fincado no chão detrás de suas costas. Sua expressão se achava desprovida de toda emoção, enquanto olhava para diante, sem fazer aparentemente caso de seus inimigos. O cativo não tinha oferecido nenhuma classe de resistência, permitindo que seus captores o despissem até a cintura sem nem sequer levantar um punho ou pronunciar uma sozinha palavra de protesto. Sua magnífica capa para o inverno forrada de pele, sua grosa cota, sua camisa de algodão, suas meias e suas botas de couro lhe tinham sido arrancadas e jogadas no chão gelado, diante dele. A intenção que guiava a seus inimigos não podia ser mais clara. O guerreiro morreria, mas sem que sua morte chegasse a trazer consigo nenhuma nova marca para acrescentá-la a seu corpo, já famoso pelas cicatrizes da batalha. Enquanto sua ávida Projeto Revisoras 1
  2. 2. Honra e Paixão Julie Garwood audiência olhava, o cativo podia dedicar-se a contemplar seus objetos em tanto ia congelando- se pouco a pouco até morrer. Doze homens o rodeavam. Com as facas desenvainados para dar-se valor, aqueles homens andavam em círculos ao redor do cativo, zombando-se dele e lhe gritando insultos e obscenidades enquanto seus pés calçados com botas chutavam o chão em um esforço por manter afastada, a gélida temperatura. Mesmo assim, todos e cada um deles se mantinham a uma prudente distância dele, se por acaso chegasse a dar o caso de que, no momento o dócil cativo trocasse subitamente de parecer e, decidisse liberar-se de suas ataduras e atacá-los. Não lhes cabia nenhuma dúvida de que era perfeitamente capaz de tal façanha, porque todos tinham escutado as histórias que se contavam de sua hercúlea força. Alguns inclusive tinham podido presenciar em uma ou duas ocasiões as tremendas proezas que era capaz de levar a cabo no curso da batalha. E se o cativo se liberava das cordas que o sujeitavam ao poste, os homens se veriam obrigados a utilizar suas facas, mas não antes de que o guerreiro tivesse enviado a três, ou possivelmente inclusive quatro deles, à morte. O líder daquele grupo de doze homens, não podia acreditar em sua boa sorte. Tinham capturado ao Wolf e não demorariam para presenciar sua morte. Que engano tão terrível tinha cometido seu cativo ao deixar-se arrastar pela temeridade! Sim, Duncan, o poderoso barão dos feudos do Wexton, tinha entrado na fortaleza de seu inimigo cavalgando completamente só, e sem levar consigo nenhuma única arma com a qual pudesse defender-se. Tinha cometido a insensatez de acreditar que Louddon, um barão que era igual a ele no título, faria honra à trégua temporária que havia entre eles. Tem que estar muito convencido de sua própria reputação, pensou o homem que mandava. Realmente, deve se ter por tão invencível como asseguravam que era naquelas histórias de grandes batalha que tanto tinham chegado a exagerar. Sem dúvida essa era a razão para que o barão do Wexton parecesse sentir-se tão pouco preocupado pelas terríveis circunstâncias nas quais se encontrava agora. Uma vaga sensação de inquietação foi infiltrando-se pouco a pouco na mente do líder daqueles homens, enquanto contemplava a seu cativo. Tinham-no despojado de toda sua valia, fazendo farrapos o emblema que proclamava seu título e sua dignidade, e assegurando-se de que não ficasse nem um só vestígio do nobre civilizado. O barão Louddon queria que seu cativo morresse sem nenhuma dignidade ou honra. E entretanto, o guerreiro quase nu que tão orgulhosamente se elevava ante eles não estava respondendo no mais mínimo desejos do Louddon. O barão do Wexton não estava se comportando como teria esperado-se de um homem que vai morrer. Não! O cativo não suplicava por sua vida ou choramingava pedindo um rápido final. Tampouco tinha o aspecto de um agonizante. Não lhe tinha colocado a pele arrepiada, e esta, não havia empalidecido, mas sim seguia estando bronzeada pelo sol e curtida pela exposição ao mau tempo. Maldição! Mas se nem sequer tremia! Sim, eles tinham despido ao nobre, e entretanto debaixo de todas as capas de refinamento seguia achando-se presente o orgulhoso senhor da guerra, mostrando-se tão primitivo e carente de medo como contavam todas aquelas histórias que corriam a respeito dele. O Wolf tinha ficado subitamente revelado ante seus olhos. As brincadeiras dos primeiros momentos já tinham cessado. Agora só se podia ouvir o estrondo do vento que uivava através do pátio. O líder dirigiu sua atenção para seus homens, os quais permaneciam imóveis formando roda de pessoas a escassa distância dele. Todos mantinham os olhos cravados no chão. Ele sabia que evitavam olhar a seu cativo. Não podia culpá-los por aquela exibição de covardia, também lhe estava funcionando muito árdua o trabalho de olhar diretamente aos olhos do guerreiro. O barão Duncan das terras do Wexton era ao menos uma cabeça mais alto que o mais corpulento de todos os soldados presentes. Também era igual de imenso em suas proporções. Projeto Revisoras 2
  3. 3. Honra e Paixão Julie Garwood Com seus grossos e musculosos ombros e coxas, e com suas largas e robustas pernas bem separadas e firmemente plantadas no chão, sua postura indicava que era capaz de matar a todos... no caso de que se sentisse inclinado a isso. A escuridão já estava começando a descer sobre a terra, e com ela chegou uma pequena nevada. Então os soldados começaram a se queixar do mau tempo que estava fazendo. — Não temos nenhuma necessidade de morrer de frio junto a ele — murmurou um. — Ainda demorará horas em morrer — queixou-se outro —. Já faz mais de uma hora que se foi o barão. Louddon nunca chegará a saber se nós ficamos fora ou não. Os outros se mostraram de acordo com vigorosos grunhidos e assentimentos de cabeça, o que fez vacilar o líder. O frio também estava começando a irritá-lo. Sua inquietação tinha ido crescendo pouco, porque ao princípio tinha estado firmemente convencido de que o barão do Wexton não se diferenciava em nada de outros homens. Tinha estado seguro de que a aquelas alturas já se teria derrubado, e agora estaria gritando atormentadamente. A arrogância daquele homem o enchia de fúria. Por Deus, mas se pareciam aborrecê-lo com sua presença! Viu-se obrigado a admitir que tinha subestimado a seu oponente. A admissão, que não lhe funcionava nada fácil, fez que a raiva se apropriasse dele. Seus próprios pés, protegidos daquele clima terrível por grosas botas, já estavam uivando de agonia, e entretanto o barão Duncan se achava descalço e não se moveu nem trocou de postura desde que o ataram ao poste. Possivelmente, houvesse algo de verdadeiro nos relatos. Amaldiçoando sua supersticiosa natureza, ordenou a seus homens que se retirassem ao interior. Quando o último deles se foi, o vassalo do Louddon comprovou se a corda estava bem apertada e logo foi para seu cativo para plantar-se diante dele. — Dizem que é tão ardiloso como um Lobo, mas não é mais que um homem e não demorará para morrer como um. Louddon não quer que tenha feridas de faca recentes sobre sua pessoa. Quando chegar a manhã, levaremos seu corpo a uns quantos quilômetros daqui. Ninguém poderá demonstrar que foi Louddon quem esteve detrás disto. — O homem pronunciou aquelas palavras em um tom burlonamente depreciativo, sentindo-se cheio de fúria ao ver que seu cativo nem sequer se dignava baixar o olhar para ele, e logo acrescentou —: Se fosse possível fazer as coisas a minha maneira, tiraria-te o coração e terminaria antes — acrescentou, e logo acumulou saliva dentro de sua boca para arrojá-la asa face do guerreiro, esperando que aquele novo insulto por fim ganharia alguma classe de reação. E então o cativo baixou lentamente o olhar para ele. Os olhos do barão do Wexton se encontraram com os de seu inimigo. O líder dos soldados viu neles fez que tragasse saliva ruidosamente enquanto se apressava a retroceder assustado. Fez o sinal da cruz, em um insignificante esforço por manter afastada a escura promessa que tinha lido nos cinzas olhos do guerreiro, e murmurou para si mesmo que ele só estava cumprindo com a vontade de seu senhor. E logo correu para o amparo do castelo. Das sombras que se estendiam junto ao muro, Madelyne olhava. Deixou que transcorressem alguns minutos, para estar segura de que nenhum dos soldados de seu irmão ia voltar; empregou da maneira mais apropriada esse tempo para rezar pedindo o valor necessário a fim de que pudesse chegar a ver como seu plano terminava. Madelyne estava arriscando tudo com ele. Sabia que não havia nenhuma outra escolha. Agora, ela era a única pessoa que podia salvar ao cativo. Madelyne aceitava as responsabilidades e as conseqüências de seus atos, sabendo muito bem que se sua ação chegava a ser descoberta, com toda segurança significaria sua própria morte. Tremiam-lhe as mãos, mas seus passos foram rápidos e decididos. quanto mais logo terminasse, tão melhor para a paz de seu espírito. Já haveria tempo de sobra para começar a preocupar-se com suas ações uma vez que aquele cativo tão insensato tivesse sido liberado. Uma larga capa negra cobria completamente ao Madelyne da cabeça até os pés, e o barão não se deu conta de sua presença até que a teve diretamente diante dele. Uma forte rajada de vento Projeto Revisoras 3
  4. 4. Honra e Paixão Julie Garwood se separou o capuz da cabeça do Madelyne, e uma grande mata de cabelos castanho avermelhados caiu até deter-se por debaixo dos ombros de uma esbelta figura. Madelyne separou uma mecha de cabelos de sua face e elevou o olhar para o cativo. Por um instante ele pensou que sua mente lhe estava gastando uma má passada. Duncan chegou a sacudir a cabeça em uma rápida negativa. Então a voz do Madelyne chegou até ele, e Duncan soube que o que estava vendo não era nenhum fruto de sua imaginação. — Em seguida te terei solto — disse-lhe Madelyne — . Rogo-te que não faça nenhum ruído até que nos encontremos longe daqui. O cativo não podia dar crédito ao que estava ouvindo. A voz de sua salvadora soava tão clara como a mais pura das harpas e era tão irresistivelmente atraente como um dos dias cálidos do verão. Duncan fechou os olhos, resistindo o impulso de rir a gargalhadas ante aquele estranho giro dos acontecimentos, enquanto pensava por um instante em lançar o grito de batalha e colocar ponto final ao engano; imediatamente rechaçou aquela idéia. Sua curiosidade era muito forte. Resolveu que esperaria um pouco mais, pelo menos até que sua salvadora tivesse revelado quais eram suas verdadeiras intenções. A expressão do cativo permaneceu inescrutável. Guardou silêncio enquanto a via tirar uma pequena adaga de debaixo de sua capa. encontrava-se o bastante perto dele para que Duncan pudesse capturá-la com suas pernas, que se achavam livres de ataduras; se as palavras que acabavam de sair de seus lábios finalmente demonstravam ser falsas ou sua adaga ia para o coração do guerreiro, então ele se veria obrigado a esmagá-la. Lady Madelyne não tinha nenhuma idéia do perigo que estava correndo. Concentrada unicamente em liberar o guerreiro de suas ataduras, aproximou-se um pouco mais a seu flanco e deu começo ao trabalho de atravessar a grosa corda com o fio de sua adaga. Duncan reparou em que lhe tremiam as mãos e não pôde decidir se era devido ao frio ou ao medo que sentia. O aroma das rosas chegou até ele. Quando inalou aquela suave fragrância, Duncan decidiu que o gélido da temperatura sem dúvida lhe tinha nublado a mente. Uma rosa em meados do inverno, um anjo dentro daquela fortaleza do purgatório... Nenhuma das duas coisas tinha o mais mínimo sentido para ele, e entretanto aquela jovem cheirava às flores da primavera e parecia uma visão chegada dos céus. Duncan voltou a sacudir a cabeça. A parte mais lógica de sua mente sabia com toda exatidão quem era aquela jovem. A descrição que lhe tinham dado dela se correspondia com a realidade em cada um de seus detalhes, mas ao mesmo tempo também funcionava enganosa. Lhe havia dito que a irmã do Louddon era de estatura média e que tinha o cabelo castanho e os olhos azuis e que era muito agradável à vista, recordou que lhe tinha informado também. Ah, decidiu então, ali radicava a falsidade. A irmã do diabo não era nem agradável nem bonita, posto que era realmente magnífica. Finalmente a corda cedeu sob a adaga, e as mãos do Duncan ficaram liberadas. Permaneceu onde estava, com sua expressão bem oculta. A jovem voltou a deter-se diante dele e o obsequiou com um pequeno sorriso antes de dar meia volta e ajoelhar-se sobre o chão para começar a recolher as posses do Duncan. O medo voltou bastante difícil aquela tarefa tão singela. A jovem se cambaleou quase não voltou a incorporar-se, depois do qual recuperou o equilíbrio para terminar voltando-se novamente para ele. — me siga, por favor — disse a modo de instruções. Ele não se moveu, mas sim seguiu onde estava, observando e esperando. Madelyne franziu o cenho ante o hesitação do guerreiro, pensando para seus adentros que sem dúvida o frio tinha paralisado sua capacidade de pensar. Apertou os objetos dele contra seu peito com uma mão, deixando que suas pesadas botas pendurassem das pontas de seus dedos, e logo lhe aconteceu o outro braço pela cintura. Projeto Revisoras 4
  5. 5. Honra e Paixão Julie Garwood — te apóie em mim — sussurrou — . Ajudarei-te, prometo-o. Mas por favor, agora temos que nos dar muita pressa. Seu olhar estava volta para as portas do castelo e o medo ressonava em sua voz. Duncan respondeu ao desespero da jovem. Quis lhe dizer que não precisavam esconder-se, já que seus homens estavam escalando os muros naquele mesmo instante, mas em seguida trocou de parecer. Quanto menos soubesse ela, tão melhor para ele quando chegasse o momento. A jovem apenas se lhe chegava ao ombro ao Duncan, mas mesmo assim tratou corajosamente de aceitar a carga de uma parte de seu peso, agarrando-o do braço e apressando-se a passar- lhe por cima dos ombros. — Iremos aos alojamentos do sacerdote visitante detrás da capela — disse-lhe em um suave murmúrio — . É o único lugar no que nunca lhes ocorrerá olhar. O guerreiro não emprestou muita atenção ao que lhe estava dizendo. Seu olhar se achava dirigida para a parte superior do muro norte. A meia lua conferia um fantasmagórico resplendor a frágil nevada que estava caindo e mostrava a seus soldados enquanto estes foram escalando o muro. Não se podia escutar nem um só som enquanto seus homens foram crescendo rapidamente em número com o passar do caminho de madeira que discorria pelo alto do muro. O guerreiro assentiu com satisfação. Os soldados do Louddon realmente eram tão estúpidos como seu senhor. Os rigores do tempo tinham feito que os guardas da porta se retirassem ao interior da fortaleza, com o qual tinham deixado o muro desprotegido e vulnerável. O inimigo tinha demonstrado sua debilidade e agora todos morreriam por causa dela. Duncan transferiu um pouco mais de seu peso a jovem para frear seu progresso com aquela nova carga enquanto flexionava as mãos, uma e outra vez, tentando dissipar o intumescimento de seus dedos. Apenas se sentia nada nos pés, algo que Duncan sabia era um mau sinal embora aceitasse a realidade de que agora não se podia fazer nada a respeito. Então ouviu um tênue assobio e levantou rapidamente a mão no ar, dando assim o sinal de esperar. Baixou o olhar para a jovem para ver se ela se dispôs de sua ação, mantendo sua outra mão preparada para fechar-se rapidamente sobre sua boca no caso de que ela desse a menor indicação de que sabia o que estava acontecendo. Mas a jovem estava muito ocupada lutando com o peso dele, e não parecia haver-se dado conta do fato de que se estivesse irrompendo em seu lar. Finalmente chegaram a uma estreita entrada e Madelyne, acreditando que o cativo se encontrava em um estado perigosamente debilitado, tratou de mantê-lo apoiado no muro de pedra sujeitando-o com uma mão enquanto se esforçava por abrir a porta com a outra. Compreendendo qual era sua intenção, o barão do Wexton se apoiou de boa vontade no muro e a viu fazer equilíbrios com seus objetos enquanto lutava com a corrente gelada. Uma vez que teve conseguido abrir a porta, a jovem agarrou da mão ao Duncan e o guiou apressada — mente através da escuridão. Uma corrente de ar gelado se formou redemoinhos ao redor deles enquanto se dirigiam por volta de uma segunda porta que havia ao final de um longo e úmido corredor. Madelyne a abriu sem perder um instante e fez gestos ao Duncan de que passasse dentro. A estadia em que acabavam de entrar carecia de janelas, mas várias velas acesas dentro dela projetavam uma cálida claridade sobre o santuário. O ar se achava bastante carregado. Uma capa de pó cobria o chão de madeira e grosas teias penduravam do baixo teto, balançando-se lentamente das vigas. Várias vestimentas de vivas cores que eram utilizadas pelos sacerdotes de visita penduravam de uns quantos ganchos, e um leito de palha tinha sido colocado no centro da pequena área, com duas grosas mantas dobradas junto a ele. Projeto Revisoras 5
  6. 6. Honra e Paixão Julie Garwood Madelyne passou o fecho da porta e suspirou com alívio. No momento estavam a salvo. Assinalou— o leito ao Duncan para que tomasse assento nele. — Quando vi o que lhe estavam fazendo, preparei esta residência — explicou enquanto lhe entregava sua roupa — . Meu nome é Madelyne e sou... — dispôs-se a explicar a relação que a unia com seu irmão, Louddon, e logo o pensou melhor — . Ficarei contigo até que comece a clarear e então te ensinarei como se pode sair daqui através de um passadiço secreto. Nem sequer Louddon sabe que existe. O barão do Wexton se sentou e dobrou as pernas ante ele, ficando-a camisa ao tempo que a escutava. Enquanto pensava que o ato de valentia daquela jovem certamente lhe complicava muito a vida, encontrou-se perguntando-se como reagiria ela quando se desse conta de qual era seu verdadeiro plano, e logo decidiu que seu curso de ação não podia ser alterado. Assim que a cota do guerreiro voltou a estar cobrindo seu enorme peito, Madelyne lhe envolveu os ombros com uma das mantas e logo se ajoelhou ante ele. Tornando-se para trás até ficar apoiada nos saltos de seus sapatos, pediu-lhe com um gesto que estendesse as pernas. Quando ele teve satisfeito seu desejo, Madelyne estudou seus pés com o cenho franzido pela preocupação. O guerreiro alargou as mãos para suas botas, mas Madelyne as deteve. — Primeiro devemos te esquentar os pés — explicou. Fez uma profunda inspiração de ar enquanto refletia sobre qual seria a maneira mais rápida de devolver a vida a seus esfomeados membros. Sua cabeça permanecia inclinada, defendendo seu rosto do vigilante olhar do guerreiro. Madelyne agarrou a segunda manta e começou a lhe envolver os pés com ela, e depois sacudiu a cabeça trocando de parecer. Sem oferecer uma sozinha palavra de explicação, Madelyne estendeu a manta em cima das pernas do Duncan, tirou-se a capa e logo foi subindo lentamente o vestido de cor creme que levava até deixá-lo por cima de seus joelhos. A cuerdecilla de couro trancado que utilizava como cinturão de adorno e como passagem para sua adaga se enganchou na meia túnica verde escuro que cobria seu vestido e Madelyne dedicou uns momentos a tirar-lhe depois do qual a deixou junto ao guerreiro. Sua estranha conduta despertou a curiosidade do Duncan e esperou a que lhe explicasse suas ações. Mas Madelyne não disse uma palavra. Tragando ar com outra profunda inspiração, agarrou-lhe os pés e, rapidamente, antes de que pudesse pensar-lhe duas vezes, os colocou debaixo da roupa deixando-os estendidos em cima do calor de seu estômago. Madelyne deixou escapar uma exclamação abafada quando a pele fria como o gelo dele entrou em contato com o calor de sua carne, e logo ficou bem o vestido e passou os braços por cima dele, estreitando os pés do Duncan contra ela. Seus ombros começaram a tremer, e o guerreiro sentiu como se Madelyne estivesse extraindo todo o frio de seu corpo para introduzi-lo no seu. Era o ato mais desprovido de egoísmo que ele tivesse presenciado jamais. A sensibilidade foi retornando rapidamente a seus pés. Duncan sentiu como se um milhar de adagas se cravassem nas plantas de seus pés, ardendo com uma intensidade que encontrou difícil deixar de lado. Tratou de trocar de postura, mas Madelyne não o permitiu e aumentou a pressão com uma força surpreendente. — Se houver dor, é bom sinal — disse-lhe, falando em um tom tão baixo que sua voz só era um murmúrio apagado — . Não demorará para passar. Além disso, tem muita sorte por sentir algo — acrescentou. A censura que havia em seu tom surpreendeu ao Duncan, e sua reação consistiu em elevar uma sobrancelha. Madelyne estava levantando o olhar nesse preciso instante e teve tempo de entrever sua expressão. apressou-se a explicar-se. — Se não houvesse agido de maneira tão descuidada, agora não te encontraria nesta situação — disse-lhe — . Só espero que tenha aprendido bem a lição. Não serei capaz de te salvar uma segunda vez. Projeto Revisoras 6
  7. 7. Honra e Paixão Julie Garwood Madelyne tinha suavizado seu tom. Inclusive tratou de lhe sorrir, mas foi um pobre esforço no melhor dos casos. — Já sei que acreditava que Louddon agiria com honra — seguiu dizendo — . Esse foi seu grande engano. Louddon não sabe o que é a honra. te lembre disso no futuro e possivelmente viva para ver outro ano. Logo baixou a vista e pensou no elevado preço que pagaria por ter deixado livre ao inimigo de seu irmão. Louddon não necessitaria muito tempo para compreender que era ela quem estava detrás da fuga. Madelyne agradeceu com uma oração que Louddon tivesse saído da fortaleza, porque sua marcha lhe proporcionava um tempo acrescentado para levar a cabo seu próprio plano de fuga. Em primeiro lugar, terei que ocupar do barão do Wexton. Uma vez que ele estivesse seguindo seu caminho longe de ali, Madelyne poderia preocupar-se com as repercussões de seu ousado ato. Estava decidida a não pensar nisso agora. — O fato, feito está — sussurrou, permitindo que toda a agonia e o desespero que estava sentindo ressonassem em sua voz. O barão do Wexton não respondeu a nenhuma das observações do Madelyne, e ela não ofereceu nenhuma explicação adicional. O silêncio foi prolongando-se gradualmente entre eles como um abismo que vai crescendo pouco a pouco. Madelyne desejou que lhe dissesse algo, algo, para aliviar o desconforto que sentia. Ter os pés do guerreiro aninhando junto a ela de uma maneira tão íntima funcionava bastante embaraçoso, e então caiu na conta de que bastaria com que ele fizesse o menor movimento com os dedos dos pés para que estes lhe roçassem a parte inferior dos seios. O pensá-lo fez que se ruborizasse, e se arriscou a lançar outro rápido olhar para cima para ver como estava reagindo o guerreiro a seu estranho método de tratamento. Ele estava esperando a que ela o olhasse, e capturou rapidamente o olhar do Madelyne sem que precisasse fazer nenhum esforço para isso. Pensou que os olhos daquela jovem eram tão azuis como o céu no mais claro dos dias, e também se disse que não se parecia em nada a seu irmão. advertiu-se a si mesmo de que as aparências não significavam nada, no mesmo instante em que sentia como começava a ficar fascinado pela embrujadora inocência do olhar do Madelyne. Logo teve que recordar-se que ela era a irmã de seu inimigo, nada mais e nada menos que isso. Formosa ou não, aquela jovem era seu peão, a cilada com a qual pretendia capturar ao demônio. Madelyne o olhou aos olhos e pensou que eram tão cinzas e frios como uma de suas adagas. O rosto do guerreiro parecia ter sido esculpido em pedra, porque não havia absolutamente nenhuma emoção ou sentimento nele. Seus cabelos ligeiramente frisados eram de um castanho escuro e os levava muito longos, mas isso não suavizava suas feições. Sua boca transmitia uma impressão de dureza e seu queixo era muito firme; Madelyne se fixou em que não havia nenhuma linha nas cantos de seus lábios. O barão do Wexton não parecia a classe de homem que ria ou sorria. Não, admitiu Madelyne com um estremecimento de apreensão, seu aspecto era tão duro e impassível como exigia sua posição. Era um guerreiro em primeiro lugar e um barão em segundo, e Madelyne supôs que não havia lugar em sua vida para a risada. de repente foi consciente de que não tinha nem a mais remota idéia do que lhe passava pela cabeça ao barão. Não saber o que estava pensando a preocupou. Tossiu para ocultar sua gravidez, e pensou em voltar a iniciar a conversação. Se lhe falava, então possivelmente ela não se sentiria tão intimidada por sua presença. — Pensava te enfrentar ao Louddon só? — perguntou. Esperou sua réplica durante longo tempo, e o contínuo de seu silêncio fez que terminasse suspirando com uma súbita moléstia. O guerreiro estava demonstrando ser tão teimoso como estúpido, disse-se. Madelyne acabava Projeto Revisoras 7
  8. 8. Honra e Paixão Julie Garwood de lhe salvar a vida e não lhe tinha dirigido nenhuma sozinha palavra de gratidão. Suas maneiras estavam funcionando ser tão ásperos como sua aparência e sua reputação. Assustava-a. Uma vez que teve admitido aquele fato ante si mesmo, Madelyne começou a irritar-se. reprovou-se a maneira em que tinha reagido ante o barão do Wexton, pensando que agora estava comportando-se de uma maneira tão estúpida como ele. Aquele homem não havia dito uma sozinha palavra, e entretanto ela tremia igual a uma criança. Era seu tamanho, decidiu Madelyne. Claro, pensou com um assentimento de cabeça. Naquela pequena estadia, o barão do Wexton se elevava sobre ela afligindo-a com sua corpulência. — Nem te ocorra voltar de novo para pelo Louddon — disse-lhe — . Isso seria outro grave engano e pode estar seguro de que a próxima vez ele te matará. O guerreiro não respondeu. Logo se moveu, separando-se lentamente seus pés do calor que lhes proporcionava Madelyne. tomou tempo para isso, fazendo que seus pés fossem baixando pouco a pouco e com deliberada provocação pela sensível pele da parte superior das coxas dela. Madelyne seguiu ajoelhada diante dele, mantendo os olhos baixos enquanto ele ia ficando-as meias e se calçava as botas. Quando o barão teve concluído sua tarefa, elevou lentamente o cinturão trancado que Madelyne se tirou e o sustentou diante dela. Madelyne reagiu estendendo instintivamente ambas as mãos para aceitar seu cinturão. Enquanto o fazia sorriu, pensando que aquela ação do guerreiro representava alguma classe de oferenda de paz, e logo esperou a que lhe expressasse finalmente sua gratidão. Então foi quando o guerreiro agiu com a celeridade do raio. Agarrou a mão esquerda do Madelyne e atou velozmente o cordoncillo ao redor de seu punho. antes de que Madelyne tivesse tempo de pensar em se separar-se dele, o guerreiro passou rapidamente o cinturão ao redor de seu outro punho e lhe atou uma mão à outra. Madelyne se olhou as mãos com assombro e logo levantou os olhos para ele, com a confusão grafite neles. A expressão que havia no rosto dele fez que um calafrio de temor descendesse subitamente pela coluna vertebral do Madelyne. Sacudiu a cabeça, negando o que estava acontecendo. E então o guerreiro falou. — Não vim a pelo Louddon, Madelyne — disse — . vim a por você. Capítulo 2 A mim a vingança, eu farei justiça... Epístola aos Romanos, 12, 19 — É que te tornaste louco? — sussurrou Madelyne com voz cheia de assombro. O barão não lhe respondeu, mas seu franzimento de cenho sugeria que a pergunta não lhe tinha gostado de nada. Incorporando ao Madelyne com um rápido puxão, logo teve que agarrá-la pelos ombros para que não perdesse o equilíbrio. Sem sua ajuda ela houvesse tornado a ficar prostrada de joelhos no chão. Madelyne se surpreendeu ao descobrir que as mãos do barão do Wexton sabiam ser muito suaves para o que se pôde esperar de um homem de seu tamanho, e aquela pequena partícula de conhecimento a deixou ainda mais confusa do que já estava. A mutreta que o guerreiro acabava de empregar com o Madelyne ficava além de sua compreensão. Ele era o cativo e ela sua salvadora, e não cabia dúvida de que o barão já tinha Projeto Revisoras 8
  9. 9. Honra e Paixão Julie Garwood reparado naquele fato, verdade? Mas se Madelyne o tinha arriscado todo por ele! Santo Deus, havia-lhe tocado os pés e os tinha esquentado; sim, tinha-lhe dado absolutamente todo aquilo que se atrevia a chegar a dar. O barão do Wexton, aquele nobre subitamente convertido em bárbaro, elevava-se sobre ela igual a uma torre, e em seu rosto havia uma expressão de selvageria mais que acorde com o gigantesco de suas proporções. Madelyne sentiu o poder que irradiava dele, tão irresistível e abrasador como o contato de um atiçador esquentado pelas chamas de uma chaminé, e embora tratou desesperadamente de não encolher-se ante o impressionante olhar dos gélidos olhos cinzas do barão, soube que estava tremendo de uma maneira o bastante violenta para que ele pudesse dar-se conta de seus estremecimentos. Duncan interpretou mal sua reação e se inclinou para recolher sua capa. Quando colocou o objeto ao redor dos ombros do Madelyne, sua mão lhe roçou a curva dos seios. Ela pensou que o contato não tinha sido intencionado, mas mesmo assim retrocedeu instintivamente um passo enquanto se apressava a sujeitar a capa ante ela. O franzimento de cenho do barão se voltou mais profundo do que tinha sido antes. Agarrando a das mãos, deu meia volta e a precedeu pelo escuro corredor, arrastando-a detrás dele. Madelyne teve que correr para manter-se a sua altura, já que do contrário ele a tivesse arrastado pelo chão. — por que quer te enfrentar aos homens do Louddon quando não há nenhuma necessidade disso? — perguntou-lhe. Não houve resposta por parte do barão, mas isso não dissuadiu ao Madelyne. O guerreiro estava indo para sua própria morte e ela se sentia obrigada a detê-lo. — Por favor, barão, não faça isto — disse-lhe — . Me escute. O frio te embotou a mente. Matarão-lhe. Madelyne atirou de seu captor, resistindo energicamente e empregando todas suas forças, mas ele nem sequer afrouxou o passo. Como ia salvar o agora, no nome de Deus? Chegaram à pesada porta que dava ao pátio de armas. O barão a abriu com um empurrão tão enérgico que as dobradiças se desprenderam de suas sujeições. A porta ficou convertida em um montão de tablones ao estelar se violentamente contra o muro de pedra. Madelyne foi arrastada através da abertura, para um vento gelado que lhe esbofeteou a face e se zombou de sua fervente convicção de que o homem ao que tinha solto fazia menos de uma hora tinha enlouquecido. Não, o barão não podia estar mais cordato. A prova de sua prudência rodeava ao Madelyne. mais de cem soldados se alinhavam com o passar do pátio interior e havia mais que agora estavam chegando ao alto do muro de pedra depois de havê-lo escalado rapidamente, todos eles movendo-se com a celeridade do vento quando começa a aumentar e tão silenciosamente como ladrões, e com cada um deles luzindo as cores azul e alvo do barão do Wexton. Madelyne ficou tão afligida por aquela súbita visão que nem sequer se deu conta de que seu captor se deteve a olhar a seus homens enquanto estes foram formando diante dele. Chocou-se com as costas do barão e estendeu instintivamente as mãos para agarrar-se a sua cota de malha e assim recuperar o equilíbrio; só então se deu conta de que o barão lhe tinha atado as mãos. Ele não deu a menor indicação de que soubesse que ela se encontrasse imóvel detrás de suas costas, agarrando-se a seu objeto como se de repente esta se converteu em sua única tabela de salvação. Madelyne se deu conta de que podia parecer que estava escondendo-se ou, pior ainda, que tinha medo, e reagiu imediatamente dando um valente passo para um lado para que todos e cada um dos pressente pudessem vê-la. Seu alto da cabeça chegava aos ombros do barão. Madelyne ficou imóvel com os ombros muito erguidos, tratando de igualar a postura desafiante do barão enquanto rezava para que o terror que estava sentindo não fora visível. Projeto Revisoras 9
  10. 10. Honra e Paixão Julie Garwood Deus, o que assustada estava! Para falar a verdade, Madelyne não lhe tinha muito medo à morte e o que realmente a aterrorizava era o ato de morrer que precedia à morte propriamente dita. Sim, o que a fazia sentir-se tão mal por dentro era pensar em qual seria sua própria conduta antes de que a suja ação tivesse chegado a completar-se. Teria uma morte rápida, ou lhe arrancariam a vida muito lentamente? Perderia no último instante esse domínio de si mesmo que tão cuidadosamente tinha cultivado, e se comportaria então como uma covarde? Pensá-lo-a transtornou até tal ponto que esteve aponto de gritar, ali e naquele mesmo momento, que queria ser primeira em sentir o contato da folha que traria consigo a morte. Mas suplicar um final rápido também faria dela uma covarde, verdade? e então a predição de seu irmão se veria cumprida. O barão do Wexton não tinha nem idéia de quais eram os pensamentos que estavam acontecendo como uma exalação pela mente de seu cativa naquele instante. Baixando o olhar para o Madelyne, viu o tranqüilo de sua expressão e se sentiu levemente surpreso por ela. Via- a cheia de calma, quase serena, e entretanto ele sabia que suas maneiras não foram demorar muito em trocar. Madelyne se achava aponto de presenciar sua vingança, a qual daria começo com a destruição total e absoluta de seu lar. antes de que dita vingança tivesse chegado a seu fim, sem dúvida ela já estaria chorando e rogando mercê. Um dos soldados chegou correndo e se deteve diante do barão. Ao Madelyne funcionou evidente que se achava aparentado com seu captor, já que tinha a mesma cor entre negro e castanho dos cabelos e o mesmo porte musculoso, embora não era nem muito menos tão alto. O soldado desdenhou ao Madelyne e se dirigiu ao homem que o mandava. — Dá a ordem, Duncan, ou ficamos aqui durante toda a noite? — perguntou-lhe. Assim que o barão se chamava Duncan. Por estranho que pudesse parecer, o ouvir seu nome de família ajudou a mitigar um pouco o temor do Madelyne. Duncan... Sim, o nome pareceu fazê-lo um pouco mais humano dentro de sua mente. — E bem, irmão? — quis saber o soldado, proporcionando com isso ao Madelyne tanto o parentesco que os unia como a razão de que o barão estivesse consentindo uma atitude tão insolente por parte de seu vassalo. O soldado, a bom seguro um irmão menor a julgar por seu aspecto juvenil e a falta de cicatrizes infligidas pela batalha, voltou-se a olhar ao Madelyne. Seus olhos castanhos refletiram o desprezo que lhe inspirava. Parecia como se pudesse atingi-la em qualquer momento. O enfurecido soldado chegou ao extremo de dar um passo atrás, como se desejasse interpor um pouco mais de distancia entre ele e a leprosa em que se converteu Madelyne subitamente. — Louddon não se encontra aqui, Gilard — disse-lhe Duncan a seu irmão. O comentário do barão foi feito em um tom tão suave e tranqüilo que Madelyne em seguida se sentiu cheia de uma nova esperança. — Então irá a casa, milord? — perguntou, voltando-se para elevar o olhar para ele. Duncan não lhe respondeu. Madelyne tivesse repetido sua pergunta se o vassalo não a tivesse interrompido gritando uma litania de observações terrivelmente grosseiras. Seu olhar não se separou nem um só instante dela enquanto dava renda solta a sua decepção. Embora Madelyne não entendeu a maior parte daqueles soezes comentários, bastou-lhe vendo a aterradora expressão que havia nos olhos do Gilard para saber que eram pecaminosos. Duncan se dispunha a ordenar a seu irmão que colocasse fim de uma vez a seu ataque infantil, quando sentiu que Madelyne lhe agarrava a mão. Seu contato o deixou tão assombrado que não soube como reagir. Madelyne se tinha pego a ele e Duncan pôde sentir como tremia, mas quando se voltou para baixar os olhos para ela, viu que parecia tranqüila e proprietária de si mesmo. Estava olhando fixamente ao Gilard. Duncan sacudiu a cabeça. Sabia que seu irmão não tinha nem idéia de Projeto Revisoras 10
  11. 11. Honra e Paixão Julie Garwood quão aterrador funcionava para o Madelyne. Para falar a verdade, Duncan duvidava de que isso lhe tivesse importado muito ao Gilard no caso de que soubesse. de repente a ira do Gilard irritou ao Duncan. Madelyne era seu cativa, não seu oponente, e quanto mais logo entendesse Gilard como tinha que ser tratada, tão melhor. — Basta! — exigiu — . Louddon se foi. Seus maldições não o trarão de volta. Duncan separou subitamente sua mão da do Madelyne. Logo lhe aconteceu o braço pelos ombros, quase atirando-a ao chão em sua pressa, e a atraiu para seu flanco. Gilard ficou tão assombrado por aquela evidente exibição de amparo que quão único pôde fazer foi ficar contemplando a seu irmão com a boca aberta. — Louddon tem que ter tomado o caminho que leva para o sul, Gilard, porque do contrário o teriam divisado — disse Duncan. Madelyne não pôde evitar intervir. — Agora irá a casa? — perguntou, tentando que sua voz não soasse excessivamente desejosa de que assim fora — . Sempre pode desafiar ao Louddon em outra ocasião — sugeriu, esperando que isso aliviasse a desilusão que estavam sentindo os dois irmãos. Ambos se voltaram a olhá-la. Nenhum lhe respondeu, mas a expressão que havia em sua faces deixava muito claro que pensavam que não lhe regia muito bem a cabeça. O medo do Madelyne começou a intensificar-se de novo. A terrível expressão que havia nos olhos do barão fez que quase lhe dobrassem os joelhos. Baixou rapidamente a vista até que se encontrou contemplando o peito do barão, envergonhando-se com toda sua alma de que estivesse demonstrando semelhante fraqueza de caráter. — Não sou eu quem perdeu o julgamento — murmurou — . Ainda pode sair daqui sem que lhe agarrem. Duncan fez como se não tivesse ouvido seu comentário e, agarrando-a pelas mãos atadas, arrastou-a até o mesmo poste do que ela o tinha liberado. Madelyne, com as pernas debilitadas pelo medo, tropeçou em duas ocasiões. Quando Duncan finalmente a soltou, Madelyne se apoiou na madeira estilhaçada e esperou para ver o que faria a seguir. O barão a fulminou com um prolongada olhar, e Madelyne chegou à conclusão de que aquele olhar era uma ordem não falada de que não se movesse dali. Logo se deu a volta até que seus ombros ocultaram a seus soldados. Suas musculosas coxas se achavam muito separados e suas enormes mãos se converteram em dois punhos firmemente apoiados sobre o ângulo de seus quadris. Era uma postura de batalha que desafiava claramente a sua audiência. — Ninguém vai toca la. É minha — ressonou então a poderosa voz do Duncan, abatendo-se sobre seus homens com tanta violência como as gélidas partículas que se precipitavam sobre eles das alturas. Madelyne se voltou para contemplar a porta do castelo do Louddon. A voz do Duncan tinha que ter chegado ao interior, alertando aos soldados dormidos. Mas quando os homens do Louddon não irromperam imediatamente no pátio, Madelyne decidiu que o vendaval tinha que haver-se levado consigo a voz do barão do Wexton. Duncan começou a afastar-se do Madelyne. Ela estendeu a mão e o agarrou pela parte de atrás de sua cota. Os elos circulares de aço lhe cortaram os dedos. Madelyne torceu o gesto em uma careta de dor, mas não esteve segura de se sua reação tinha sido causada por aqueles elos que a tinham raspado ou pela expressão de fúria que luzia o rosto do barão do Wexton quando se voltou para ela. Tinha-o tão perto que seu — peito roçava o dela. Madelyne se viu obrigada a jogar a cabeça para trás para poder ver sua face. — Não o entende, barão — balbuciou — . Bastaria com que adviesse a razões para que te desse conta de quão desatinado é este plano. — Quão desatinado é meu plano? — repetiu Duncan, sentindo-o bastante assombrado pela ousada ~ afirmação do Madelyne para chegar ao extremo de ficar a uivar. Não entendia por que podia querer saber do que estava falando aquela moça, mas o caso era que queria sabê-lo. Projeto Revisoras 11
  12. 12. Honra e Paixão Julie Garwood Demônios, mas se acabava de insultá-lo! Duncan tivesse matado até homem por muito menos. Contudo, a expressão de inocência que havia no rosto do Madelyne, e a sinceridade que impregnava sua voz, indicavam que ela nem sequer era consciente da terrível transgressão que acabava de cometer. Madelyne pensou que Duncan estava colocando face de querer estrangulá-la, e reprimiu o impulso de voltar a fechar os olhos contra aquele olhar que tanto a intimidava. — Se tiver vindo a por mim, então desperdiçaste seu tempo — disse. — Acaso acredita que não vale o suficiente para que seja mereça ora de minha atenção? — perguntou Duncan. — É obvio que não valho o suficiente para isso. Aos olhos de meu irmão, eu não tenho valor algum. Isso é um fato de que sou muito consciente — acrescentou, falando com tal despreocupação que Duncan soube que acreditava o que dizia — . E pode estar seguro de que esta noite morrerá. Sim, superam-lhe em número, ao menos quatro a um segundo minhas contas. Há uma segunda fortaleza na torre que temos debaixo, com mais de cem soldados que agora mesmo estão dormindo dentro dela. Esses soldados ouvirão o ruído do combate. O que opina disso? — perguntou, sabendo que agora se estava retorcendo as mãos mas sem ser capaz de deixar de fazê-lo. Duncan permaneceu imóvel, contemplando-a com uma expressão de perplexidade no rosto. Madelyne rezou para que aquela informação sobre a segunda fortaleza cheia de soldados que acabava de compartilhar com ele o obrigasse a ver a insensatez de seu plano. Suas orações foram em vão. Quando o barão reagiu finalmente, não o fez da maneira que Madelyne tinha esperado. limitou-se a encolher-se de ombros. O gesto enfureceu muitíssimo ao Madelyne. Aquele estúpido guerreiro estava claramente resolvido a morrer. — Pensar que daria as costas a isto fossem quais fossem as probabilidades, era uma falsa esperança, verdade? — perguntou Madelyne. — Era-o — respondeu Duncan. Um cálido brilho se infiltrou em seus olhos, surpreendendo ao Madelyne, e logo se esfumou antes de que tivesse tido tempo de reagir. estaria-se rendo dela o barão? Madelyne não teve valor para perguntar-lhe Duncan continuou olhando-a fixamente durante outro interminável momento. Logo sacudiu a cabeça, deu meia volta e pôs-se a andar para o lar do Louddon. Obviamente acabava de decidir que já tinha perdido suficiente tempo com ela. Não houve nem a mais leve pista a respeito de qual podia ser sua intenção. De fato, e se a gente julgava pela aprazível expressão de seu rosto e a pouca pressa que se estava dando ao andar, muito bem tivesse podido estar executando uma visita social. Mas Madelyne sabia que não se tratava disso. Sentindo-se cheia de um súbito horror, pensou que ia vomitar. Pôde sentir como a bílis subia pelo interior de seu corpo para ir deixando um atalho abrasador ao longo de toda sua garganta. Começou a respirar com uma série de baforadas entrecortadas e ofegantes enquanto se esforçava freneticamente por desfazer os nós que lhe atavam as mãos. O pânico voltou impossível a tarefa, porque Madelyne acabava de cair na conta de que também havia serventes dormindo dentro. Duvidava de que os soldados do Duncan fossem limitar se a matar a quem se enfrentasse a eles indo armados. Louddon certamente não tivesse feito tal distinção. Madelyne sabia que não demoraria para morrer. O fato de que fora a irmã do Louddon já não podia apagar-se. Mas se podia salvar vistas inocentes antes de sua própria morte, não daria esse ato de bondade algum propósito a sua existência? Santo Deus, salvar a uma pessoa não faria que sua vida tivesse importância... para alguém? Projeto Revisoras 12
  13. 13. Honra e Paixão Julie Garwood Madelyne continuou debatendo-se com a corda enquanto olhava ao barão. Quando este chegou aos degraus e se voltou para seus homens, seu verdadeiro propósito ficou evidenciado. Sim, a expressão que havia em seu rosto mostrava com toda claridade a fúria que sentia. Duncan levantou lentamente sua espada por cima de sua cabeça. E depois sua voz ressonou com tal força que sem dúvida teve que atravessar os muros de pedra que os rodeavam. Suas palavras cheias de um firme propósito não puderam estar mais claras. — Que não haja mercê! Os gritos da batalha torturavam ao Madelyne. Sua mente se imaginava todo aquilo que não podia ver, deixando-a presa dentro de um purgatório de pensamentos obscenos. Nunca tinha presenciado uma batalha, e só tinha ouvido exageradas histórias de astúcia e proezas de lábios de soldados vitoriosos que estavam alardeando de seus triunfos. Mas nenhuma daquelas histórias tinha incluído as descrições das mortes, e quando quão soldados combatiam uns com outros terminaram enchendo o pátio, o purgatório mental do Madelyne se converteu em um inferno vivente, com o sangue das vítimas transformada no fogo da vingança de seu captor. Embora a superioridade numérica favorecia grandemente aos homens do Louddon, Madelyne não demorou para dar-se conta de que estes não se achavam preparados para enfrentar-se aos bem adestrados soldados do Duncan. Viu como um dos soldados de seu irmão elevava sua espada contra o barão do Wexton e perdia a vida devido a isso, e presenciou como outro valente soldado impulsionava sua lança para diante e logo contemplava com estupefação como a lança e o braço eram separados de seu corpo. Um ensurdecedor alarido de agonia seguiu ao ataque quando o soldado se desabou para diante e caiu ao chão, agora empapado com seu próprio sangue. Madelyne sentiu que lhe revolvia o estômago ante todas aquelas atrocidades. Fechou os olhos para não ter que seguir vendo o horror, mas as imagens continuaram acossando-a. Um moço que Madelyne pensou podia ser o escudeiro do Duncan foi correndo para ela para ficar — se a seu lado. Tinha o cabelo de um loiro intenso e era de estatura média; era tão musculoso que a simples vista podia parecer gordo. O moço desenvainó uma adaga e a sustentou ante ele. Apenas se emprestou atenção ao Madelyne e manteve seu olhar dirigido para o Duncan, mas ela pensou que se colocou ali para protegê-la. Tão só uns momentos antes tinha visto como Duncan o fazia um gesto ao moço. Fazendo um desesperado esforço, Madelyne tratou de centrar seu olhar no rosto do escudeiro. O moço se mordiscava nervosamente o lábio inferior. Madelyne não estava muito segura de se aquela ação era causada pelo medo ou pela excitação e então o moço jogou acorrer para diante, voltando a deixá-la desamparada. Voltando-se para o Duncan, Madelyne viu que tinha deixado cair seu escudo e logo contemplou como o escudeiro corria a recuperá-lo para seu senhor. Em sua pressa, o moço deixou cair sua própria adaga. Madelyne correu para ela, recolheu-a do chão e logo voltou para poste se por acaso se dava o caso de que Duncan fora para ela. ajoelhou-se no chão, com sua capa ocultando sua ação, e começou a cortar a corda que lhe atava as mãos. O acre aroma da fumaça chegou até ela. Madelyne levantou a vista com o tempo justo de ver como uma língua de fogo estalava através da entrada aberta do castelo. Os serventes se mesclaram com os homens que combatiam, tentando ganhar sua liberdade enquanto corriam para as portas. O fogo correu atrás deles, abrasando o ar. Simon, o primogênito do magistrado saxão e agora já um ancião, foi para o Madelyne. As lágrimas corriam por seu curtido rosto e o desespero tinha curvado seus robustos ombros. — Pensava que lhes tinham matado, minha senhora — sussurrou enquanto a ajudava a ficar em pé. Projeto Revisoras 13
  14. 14. Honra e Paixão Julie Garwood O servente lhe tirou a adaga de entre os dedos e cortou rapidamente a corda com ela. Uma vez que teve ficado livre, Madelyne lhe colocou as mãos junto aos ombros. — te salve, Simon — disse-lhe — . Esta não é seu batalha. Corre, te afaste daqui. Seu família te necessita. — Mas você... — Vai-te, antes de que seja muito tarde — implorou-lhe Madelyne. Sua voz soou enrouquecida pelo medo. Simon era um homem bom e temeroso de Deus que tinha sido muito amável com ela no passado. achava-se preso, ao igual ao estavam os outros serventes, pela posição e a herança, atado pela lei à terra do Louddon, e por si só isso já era sentença mais que suficiente com a que ter que carregar para um homem. Deus não podia ser tão cruel para exigir também sua vida. — Venham comigo, lady Madelyne — suplicou-lhe Simon — . Esconderei-lhes. Madelyne sacudiu a cabeça, lhe negando aquilo que lhe pedia. — Tem melhores possibilidades sem mim, Simon. O barão do Wexton iria detrás de mim. Não discuta, por favor — apressou-se a acrescentar quando viu que Simon se dispunha a protestar de novo — . Vai-te! — disse, gritando a ordem e lhe dando uma ênfase adicional quando suas mãos empurraram os ombros do Simon. — Que o Senhor lhes proteja — murmurou Simon. Entregou-lhe a adaga e se voltou para dirigir-se para as portas. O ancião apenas se afastou uns quantos passos de sua senhora quando foi arrojado ao chão pelo irmão do Duncan. Gilard, em sua pressa por atacar a outro dos soldados do Louddon, acabava de chocar acidentalmente com o servente. Simon já tinha conseguido ficar de joelhos quando Gilard se voltou subitamente, como se acabasse de dar-se conta de que havia outro inimigo mais à mão que o anterior. A intenção do Gilard não podia estar mais clara para o Madelyne. Gritando uma advertência, apressou-se a colocar-se diante do Simon enquanto empregava seu corpo fardo proteger a seu servente da folha do Gilard. — te faça a um lado! — gritou Gilard, com a espada levantada. — Não! — Gritou Madelyne a sua vez — . Terá que me matar para chegar até ele. Gilard reagiu imediatamente elevando um pouco mais sua espada, o que indicava que isso ia ser precisamente o que faria. Seu rosto estava avermelhado pela fúria. Madelyne pensou que Gilard era mais que capaz de matá-la sem que logo chegasse a padecer nem um só instante de remorso por isso. Duncan viu o que estava tendo lugar e correu imediatamente para o Madelyne. Todos sabiam que Gilard tinha muito mau caráter, mas mesmo assim ao Duncan não preocupava que seu irmão pudesse fazer machuco ao Madelyne. Gilard morreria antes que infringir uma ordem. Irmão ou não, Duncan era barão dos feudos do Wexford e Gilard era seu vassalo. Gilard honraria esse vínculo e Duncan não tinha podido ser mais claro: Madelyne lhe pertencia. Ninguém devia tocá-la. Ninguém. Os outros serventes, quase trinta em total, também presenciaram o que estava ocorrendo. Quem não se achava o bastante perto da liberdade se apressaram a formar um grupo detrás do Simon em busca de amparo. Madelyne sustentou o olhar cheia de fúria do Gilard com uma expressão cheia de compostura, mostrando uma tranqüilidade que desmentia o terremoto que estava tendo lugar em seu interior. Duncan se deteve junto a seu irmão com o tempo justo de observar a estranha reação do Madelyne. Seu cativa elevou lentamente a mão para seus cabelos e logo se separou a espessa massa de cachos do lado de seu pescoço. Falando com uma voz que não podia estar mais cheia de calma, sugeriu que Gilard afundasse sua folha ali e, se tinha a bondade, que fora o mais rápido possível ao fazê-lo. Gilard pareceu ficar atônito ante a reação do Madelyne a sua fanfarronada, e foi baixando lentamente sua espada até que a ponta ensangüentada ficou dirigida para o chão. Projeto Revisoras 14
  15. 15. Honra e Paixão Julie Garwood A expressão do Madelyne não se alterou enquanto dirigia sua atenção para o Duncan. — É que o ódio que sente pelo Louddon se estende a seus serventes? — perguntou-lhe — . Matas a homens e mulheres inocentes porque a lei os obriga a servir a meu irmão? antes de que Duncan pudesse articular uma resposta, Madelyne lhe deu as costas. Logo agarrou da mão ao Simon e o ajudou a levantar-se. — ouvi dizer que o barão do Wexton é um homem de honra, Simon. Não te separe de mim. Faremo-lhe frente juntos, meu querido amigo. — E, voltando-se novamente para o Duncan, acrescentou — : e veremos se este nobre é um homem de honra ou se não se diferencia em nada do Louddon. Então Madelyne foi subitamente consciente de que sustentava a adaga em sua outra mão. Escondeu a evidência detrás de suas costas até que sentiu um súbito rasgar-se no forro de sua capa, e logo deslizou a faca dentro da abertura, rezando para que a prega fosse o bastante forte para poder sustentá-lo. A fim de cobrir sua ação, gritou: — Todas estas boas gente tentaram me proteger de meu irmão, e morrerei antes que ver como lhes coloca a mão em cima! A escolha é tua. Quando respondeu a seu desafio, a voz do Duncan estava cheia de desprezo. — A diferença de seu irmão, eu não faço presa nos fracos — disse ao Madelyne — . Vai-te, ancião, e abandona este lugar. Pode te levar contigo a outros. Os serventes se apressaram a obedecer. Madelyne os viu correr para as portas; aquela amostra de compaixão por parte do guerreiro a surpreendeu. — E agora, barão, tenho uma petição mais que te fazer — disse, voltando-se novamente para o Duncan — . Rogo-te que me mate agora. Já sei que sou uma covarde ao pedi-lo, mas a espera se está voltando insuportável. Faz o que deva fazer. Acreditava que ele tinha intenção de matá-la. Duncan voltou a sentir-se assombrado por seus comentários, e decidiu que lady Madelyne era a mulher mais estranha com a que se encontrou jamais. — Não vou matar te, Madelyne — anunciou antes de dar meia volta e afastar-se. Uma súbita onda de alívio se enseñoreó do Madelyne. Acreditava que Duncan lhe tinha respondido lhe dizendo a verdade. Quando lhe pediu que acabasse de uma vez com aquela vil ação, ele tinha parecido sentir-se tão surpreso que... Sim, agora lhe estava dizendo a verdade. Madelyne se sentiu vitoriosa pela primeira vez em toda sua existência. Tinha-lhe salvado a vida ao Duncan, e viveria para poder falar disso. A batalha tinha terminado. Os cavalos tinham sido liberados dos estábulos, e expulsos detrás dos serventes através das portas abertas uns instantes antes de que novas e destrutivas chamas devorassem a frágil madeira. Madelyne foi incapaz de sentir nem a menor sombra de indignação ante a destruição do lar de seu irmão. Aquele lugar nunca lhe tinha pertencido a ela. Ali não havia lembranças felizes. Não, não tinha maneira de sentir indignação. A vingança do Duncan era o justo castigo aos pecados de seu irmão Louddon. Aquela escura noite se estava fazendo justiça graças à mão de um bárbaro vestido com roupagens de cavalheiro, um radical para a maneira de pensar do Madelyne, que se atrevia a passar por cima a forte amizade que unia ao Louddon com o rei da Inglaterra. O que lhe tinha feito Louddon ao barão do Wexton para merecer semelhante represália? E que preço teria que pagar Duncan por sua ousadia? Exigiria Guillermo II, quando se inteirasse daquele ataque, a vida do Duncan? Sem dúvida o rei comprazeria ao Louddon se ordenava semelhante ação. Diziam que Louddon exercia um insólito domínio sobre o rei, e Madelyne tinha ouvido dizer que eram uns amigos muito especiais. Só na semana anterior se inteirou do que realmente significavam todas as obscenidades murmuradas em voz baixa. Marta, que tinha a língua muito larga e estava casada com o encarregado dos estábulos, tinha extraído um Projeto Revisoras 15
  16. 16. Honra e Paixão Julie Garwood grande deleite de revelar a baixeza de sua relação já entrada a noite, depois de ter bebido muitos goles de cerveja. Madelyne não a tinha acreditado. ficou vermelha e o negou todo, lhe dizendo a Marta que Louddon tinha permanecido solteiro porque a dama a qual entregou seu coração tinha morrido. Marta se tinha zombado da inocência do Madelyne, e finalmente terminou obrigando a sua senhora a admitir a possibilidade. Até aquela noite, Madelyne não tinha caído na conta de que alguns homens podiam chegar a agir muito intimamente com outros homens, e a revelação de que um desses homens era seu irmão e se dizia que o outro era o rei da Inglaterra fazia que todo fora ainda mais repulsivo. Seu asco se tornou físico: Madelyne recordava que tinha vomitado o jantar, o qual fez rir do lindo a Marta. — Queimem a capela. A ordem do Duncan ressonou através do pátio, fazendo que os pensamentos do Madelyne voltassem para presente. Recolhendo-as saias, correu imediatamente para a igreja com a esperança de ter tempo para tirar dali suas escassas posses antes de que a ordem fora levada a cabo. Ninguém parecia estar lhe emprestando nenhuma atenção. Duncan a interceptou no preciso instante em que Madelyne chegava à entrada lateral. O barão do Wexton deixou cair bruscamente suas mãos sobre a parede, lhe impedindo o passo a ambos os lados. Madelyne deixou escapar um ofego de surpresa e se voltou para elevar o olhar para ele. — Não há nenhum lugar no que possa te esconder de mim, Madelyne. Sua voz era suave. Deus, quase parecia aborrecido. — Não me escondo de ninguém — respondeu Madelyne, tratando de manter afastada a ira de sua voz. — Então, é que desejas arder com sua capela? — Perguntou-lhe Duncan — . Ou possivelmente pensa utilizar esse passadiço secreto do que me falou... — Nenhuma das duas coisas — respondeu Madelyne — . Todas minhas posses se encontram dentro da igreja. Dispunha-me às recolher. Disse que não foste matar me e pensei que poderia me levar minhas coisas comigo. Como Duncan não respondeu à explicação que ela acabava de lhe dar, Madelyne fez outro intento. Dar forma até pensamento coerente, não obstante, era algo que funcionava muito difícil com o Duncan olhando-a tão fixamente. — Não te pedirei uma arreios — disse-lhe — , a não ser Unicamente minhas roupas que estão atrás do altar. — Não me pedirá isso? — Duncan sussurrou a pergunta. Madelyne não soube como reagir a ela, ou ao sorriso que tinha passado a lhe dedicar — . Realmente espera que me cria que estiveste vivendo na igreja? Madelyne desejou ter o valor suficiente para lhe dizer que lhe dava igual o que ele acreditasse ou deixasse de acreditar. Deus, realmente era uma covarde! Mas os muitos anos de duras lições sobre como controlar seus verdadeiros sentimentos lhe foram de grande utilidade naquele momento porque lhe proporcionaram uma expressão tranqüila, obrigando a sua ira a fazer-se até lado. De fato, inclusive as arrumou para encolher-se de ombros. Duncan viu inflamá-la faísca da ira no azul dos olhos de seu cativa. Aquela emoção se advinha tão pouco com a serena expressão de seu rosto e desapareceu tão rapidamente, que esteve convencido de que não a tivesse surpreso de não ter estado observando-a com tanta atenção. Para não ser mais que uma mulher, Madelyne sabia controlar-se com assombrosa habilidade. — me responda, Madelyne. Desejas que eu cria que estiveste vivendo nesta igreja? Projeto Revisoras 16
  17. 17. Honra e Paixão Julie Garwood — Não estive vivendo ali — respondeu Madelyne quando não pôde seguir suportando a penetrante olhe — dá do Duncan nem um só instante mais — . Só escondi ali minhas coisas para assim poder escapar pela manhã. Duncan franziu o cenho enquanto refletia sobre o que acabava de ouvir. Acaso tomava por louco para pensar que ele chegaria a acreditar uma história tão descabelada? Nenhuma mulher abandonaria as comodidades de seu lar para viajar durante aqueles meses tão duros. E aonde queria que acreditasse que se dirigia? Tomou a rápida decisão de demonstrar a falsidade da história do Madelyne, só para ver qual era sua reação quando a mentira fosse descoberta. — Pode ir recolher seus coisas — disse-lhe. Madelyne não ia discutir sua boa fortuna. Acreditou que ao dar sua aprovação, Duncan também estava aceitando seu próprio plano para deixar a fortaleza. — Então posso deixar esta fortaleza? Pergunta-a saiu de seus lábios antes de que pudesse conter-se. E Deus, como lhe tremeu a voz ao fazê-la. — Sim, Madelyne, deixará esta fortaleza — conveio Duncan. Chegou a lhe sorrir. Aquela súbita mudança em sua disposição deixou um pouco preocupada ao Madelyne. Elevou o olhar para ele, tratando de lhe ler a mente. Era uma empresa do mais fútil, como compreendeu em seguida. Duncan ocultava muito bem seus sentimentos, muito para que ela pudesse decidir se estava dizendo a verdade ou não. Passando por debaixo de seu braço, Madelyne pôs-se a correr pelo corredor que havia na parte de atrás da igreja com o Duncan indo detrás dela. O pequeno saco de arpillera seguia estando onde o tinha escondido no dia anterior. Madelyne tomou em seus braços e logo se voltou para olhar ao Duncan. dispunha-se a lhe expressar sua gratidão, mas titubeou assim que voltou a ver a expressão de surpresa em seu rosto. — Não me creíste? — perguntou, e em sua voz havia tanta incredulidade como a que se achava presente na expressão dele. Duncan lhe respondeu com um franzimento de cenho. Logo deu meia volta e saiu da igreja andando com passo rápido e decidido. Madelyne o seguiu. Agora suas mãos estavam tremendo de uma maneira que era quase violenta em seus intensos estremecimentos. Madelyne decidiu que só se tratava do horror da batalha que tinha presenciado e que começava a sortir efeito. Tinha visto tanto sangue, tantos mortos... Seu estômago e sua mente se rebelavam, e o único que podia fazer era rezar para que fora capaz de manter a compostura até que Duncan e seus soldados se foram. Assim que saiu da capela, arrojaram tochas acesas ao interior dela. Como ursos famintos, as chamas devoraram o edifício com uma selvagem intensidade. Madelyne esteve contemplando o fogo durante um bom momento, até que se deu conta de que se estava agarrando à mão do Duncan. Então se separou imediatamente dele. voltou-se e viu que tinham levado a pátio interior os cavalos dos soldados. A maior parte dos homens do Duncan já tinham montado e aguardavam ordens. No centro do pátio esperava a mais magnífica das bestas, um enorme corcel branco quase duas mãos mais alto que qualquer dos outros cavalos. O escudeiro de loiros cabelos permanecia imóvel diretamente em frente do animal, tentando conservar as renda em suas mãos sem que tivesse muito êxito nesse trabalho. Aquele impressionante animal sem dúvida pertencia ao Duncan, uma besta adequada para a estatura e a fila do barão. Duncan assinalou o corcel ao Madelyne, lhe indicando que devia ir para ele. Madelyne franziu o cenho ante sua ordem, mas logo pôs-se a andar instintivamente para o enorme cavalo. quanto mais perto estava dele, mais assustada se sentia. Um negro pensamento foi cristalizando no canto mais recôndito de sua confusa mente. Santo Deus, não a foram deixar ali. Projeto Revisoras 17
  18. 18. Honra e Paixão Julie Garwood Madelyne respirou fundo, tentando acalmar-se. disse-se que estava muito afetada para pensar com claridade. Pois claro que o barão não ia levar se a consigo. por que ia fazer tal coisa, quando ela não era o bastante importante para tomar-se tais moléstias? Decidiu que mesmo assim precisava ouvir sua negativa. — Não pensará me levar contigo, verdade? — balbuciou. Sua voz soou claramente enrouquecida pela tensão, e soube que não tinha conseguido evitar que o medo chegasse a fazer ato de presença nela. Duncan foi para o Madelyne. Agarrou-lhe o saco e o jogou em seu escudeiro. Então Madelyne teve sua resposta. Elevando o olhar para o Duncan, viu-o montar rapidamente e logo lhe estender a mão. Madelyne começou a retroceder. Que Deus a ajudasse, mas ia desafiar o! Sabia que se tentava escalar a distância que a separava do alto daquele cavalo dele que parecia um demônio, terminaria cobrindo-se de oprobio assim mesma perdendo o conhecimento ou, o que seria ainda pior, ficando a gritar. Se tinha que ser sincera, Madelyne acreditava preferir a morte à humilhação. O corcel lhe dava ainda mais medo que o barão. Madelyne se achava tristemente falta de educação, e não possuía nenhuma sozinha das habilidades básicas que compunham a arte da subida. Lembranças de uns dias nos que ela ainda era muito jovem, quando Louddon tinha utilizado aquelas escassas lições de equitação que chegou a lhe dar como uma ferramenta mais para obter sua submissão, ainda retornavam a sua memória de vez em quando. Agora que já era toda uma mulher, Madelyne se dava conta de que não havia razão alguma para todos esses medos deles, mas mesmo assim a criança assustada que havia dentro dela continuava rebelando-se tercamente com um temor tão obstinado como carente de lógica. Deu outro passo atrás. Então sacudiu lentamente a cabeça, rechaçando a ajuda do Duncan. Sua decisão tinha sido tomada. Com isso a obrigaria a matá-la se o barão realmente estava disposto a fazer tal coisa, mas Madelyne não ia subir ao corcel. Sem pensar nem por um só instante em aonde ia, Madelyne deu meia volta e pôs-se a andar. Tremia de tal maneira que deu vários tropeções. O pânico ia crescendo rapidamente dentro de seu ser até que terminou vendo-se quase cegada por ele, mas mesmo assim manteve o olhar firmemente dirigido para o chão e continuou andando para diante, dando um passo resolvido detrás de outro. deteve-se quando chegou ao corpo mutilado de um dos soldados do Louddon. O rosto do homem se achava horrivelmente desfigurado. Aquele espetáculo demonstrou ser o ponto mais à frente do qual Madelyne já não podia seguir adiante. ficou imóvel ali, no centro do açougue, contemplando ao soldado morto até que ouviu o eco longínquo de um grito cheio de agonia. O som não podia ser mais dilacerador. Madelyne se levou as mãos aos ouvidos para tratar de sossegar aquele ruído, mas a ação não serve de nada. O horrível som seguiu e seguiu. Duncan esporeou a seu cavalo fazendo-o avançar assim que ouviu que Madelyne começava a gritar. Chegou até ela, inclinou-se e tomou em seus braços, levantando-a rapidamente do chão sem que tivesse necessidade de fazer nenhum esforço para isso. . Madelyne deixou de gritar assim que ele a tocou. Duncan dispôs sua grosa capa até que seu cativa ficou completamente coberta por ela. O rosto do Madelyne descansava sobre os elos de aço de sua cota, mas mesmo assim Duncan dedicou tempo e atenção a jogar para diante uns quantos pregas da capa dela, de tal maneira que sua bochecha ficasse em cima do suave forro de pele de ovelha. Nem por um só instante lhe pareceu que houvesse nada de estranho naquele repentino seu desejo de tratá-la com delicadeza. A imagem do Madelyne ajoelhando-se ante ele e tomando seus pés quase congelados debaixo de seu próprio vestido para lhes dar calor passou raudamente ante seus olhos. Aquilo tinha sido um ato de bondade, e agora: Duncan não podia Projeto Revisoras 18
  19. 19. Honra e Paixão Julie Garwood fazer menos por ela. depois de todo, ele era o único responsável por que ao Madelyne tivesse causado tal dor em primeiro lugar. Duncan deixou escapar um prolongado suspiro. Já parecia. Por todos os infernos, e pensar que além disso tinha começado sendo um plano tão fácil de levar a cabo! Sempre se podia confiar em uma mulher para que o complicasse todo. Agora havia muitas coisas que tinha que voltar a examinar. Embora o barão sabia que Madelyne não era consciente disso, não cabia dúvida de que ela o tinha complicado todo. disse-se a si mesmo que teria que colocar um pouco de ordem em toda aquela confusão. Agora o plano se viu alterado tanto se lhe gostava como se não, porque Duncan sabia, com uma certeza que o assombrava e o enfurecia de uma vez, que nunca deixaria partir ao Madelyne. Duncan sujeitou a seu cativa com mais força e finalmente deu o sinal de ficar em marcha. ficou detrás para formar o final do longo cortejo. Quando o último de seus soldados teve saído dali, e já só se encontrava flanqueado pelo Gilard e o jovem escudeiro, dedicou uns minutos preciosos a contemplar a destruição. Madelyne jogou a cabeça para trás para poder ver claramente o rosto do Duncan. Este teve que sentir como ela elevava o olhar para ele, porque baixou lentamente a sua até que se encontrou olhando-a diretamente aos olhos. — Olho por olho, Madelyne — disse-lhe. Madelyne esperou a que lhe contasse algo mais, que explicasse o que era o que tinha feito seu irmão para provocar semelhante represália. Mas Duncan se limitou a seguir contemplando-a em silêncio, como se estivesse desejando com todas suas forças que ela entendesse. Madelyne já tinha compreendido que ele não ia oferecer nenhuma desculpa para ser tão implacável. Os vencedores não precisavam justificar-se. voltou-se para as ruínas e então se lembrou de uma das histórias que lhe tinha contado seu tio, o pai Berton, a respeito das guerras púnicas que se livraram na antigüidade. Havia muitas histórias que tinham ido sendo transmitidas com o passar do tempo, a maioria das quais estavam bastante mal vista pela Santa Igreja. Mas mesmo assim o pai Berton as tinha repetido ao Madelyne, educando a da maneira mais inaceitável possível e, de fato, de um modo que podia terminar sendo castigado mediante a imposição de uma severo disciplina no caso de que quem mandava na igreja tivessem chegado a ter idéia do que estava fazendo o sacerdote. O açougue que acabava de presenciar tinha feito que Madelyne se lembrasse da história de Cartago. Durante a terceira e última guerra entre dois grandes poderes, os vencedores destruíram por completo a cidade assim que Cartago teve caído. O que não tinha sido queimado até converter-se em cinzas tinha sido enterrado debaixo do fértil chão. Nem a uma sozinha pedra lhe permitiu seguir em cima de outra. Como última medida, os campos foram cobertos com sal para que nada crescesse ali no futuro. A história se repetia aquela noite; agora tanto Louddon como todo aquilo que lhe pertencia estavam sendo profanados. — Delenda est Carthago — sussurrou Madelyne para si mesmo, repetindo o juramento feito fazia já tanto tempo por Cartilha, um tribuno da antigüidade. A observação que acabava de fazer Madelyne deixou um pouco surpreso ao Duncan, que se perguntou como tinha chegado a adquirir tal conhecimento. — Certo, Madelyne. Ao igual a Cartago, seu irmão deve ser destruído. — E eu também pertenço ao Loud... a Cartago? — perguntou Madelyne, negando-se a pronunciar o nome de seu irmão. — Não, Madelyne. Você não pertence a Cartago. Madelyne assentiu e depois fechou os olhos, inclinando-se para diante até que ficou apoiada no peito dele. Projeto Revisoras 19
  20. 20. Honra e Paixão Julie Garwood Duncan utilizou sua mão para lhe levantar o queixo, obrigando-a a que voltasse a olhá-lo. — Não pertence ao Louddon, Madelyne — disse-lhe — . A partir deste momento, me pertence. Entendeste-o? Madelyne assentiu com a cabeça. Duncan afrouxou a pressão com que a sujeitava quando viu o muito que a estava assustando. Seguiu contemplando-a por um instante e logo muito devagar e, sim, com muita delicadeza, cobriu-lhe a face com a capa. Desde seu cálido esconderijo junto a ele, Madelyne falou em um sussurro: — Parece-me que preferiria não lhe pertencer a nenhum homem. Duncan a ouviu. Um lento sorriso atravessou seu rosto. O que quisesse ou deixasse de querer lady Madelyne não significava absolutamente nada para ele. Porque agora lhe pertencia, tanto se o desejava como se não. Lady Madelyne tinha selado seu próprio destino. Tinha-lhe esquentado os pés. Capítulo 3 Tratar com injustiça desonra mais que padecê-la. PLATÓN, Gorgias Foram para o norte, cavalgando sem parar durante o resto da noite e a maior parte do dia seguinte, detendo-se só em um par de ocasiões para dar uma pausa a seus cavalos da árdua marcha imposta pelo barão. Ao Madelyne lhe permitiu desfrutar de uns quantos momentos de intimidade, mas o fato de que suas pernas apenas se pudessem sustentar seu peso convertia a tarefa de atender suas necessidades pessoais em uma exaustiva prova; além disso, antes de que tivesse tido ocasião de estirar seus músculos que não paravam de protestar, voltava a ser içada ao corcel do Duncan. Como o fato de que fossem muitos lhes proporcionava segurança, Duncan decidiu seguir pelo caminho principal. Era um péssimo atalho no melhor dos casos, com muita espessura e ramos nus que convertiam a marcha em uma contínua provocação inclusive para o mais acostumado dos cavalheiros. Os escudos dos homens permaneciam elevados durante a maior parte do tempo. Madelyne, entretanto, achava-se bem protegida, firmemente circundada como estava debaixo da capa do Duncan. Os soldados contavam com o bom serviço que lhes emprestava sua pesado equipe, salvo os que se tocavam com os cascos cónicos que deixavam a face ao descoberto e cavalgavam com as mãos nuas; graças a isso o estado de abandono do atalho não tinha mais efeito sobre eles que o de fazer ir um pouco mais devagar. A cruel tortura que supôs aquela cavalgada se prolongou durante quase dois dias. Quando Duncan anunciou que foram passar a noite em um claro que tinha divisado, Madelyne já estava firmemente convencida de que o barão não era humano. Tinha ouvido como os homens se referiam a quem os mandava como um Wolf e entendeu muito bem aquele odioso paralelismo, porque Duncan luzia o perfil dessa terrível besta de presa em cima de seu brasão branco e azul. Aquilo a levou a fantasiar que a mãe de seu captor tinha que ter sido uma diabinha surta do inferno e seu pai um enorme e feio Wolf, e que essa era a única razão pela qual podia chegar a manter uma marcha tão exaustiva e desumana. Quando por fim se detiveram passar a noite, Madelyne estava morta de fome. sentou-se em um penhasco e contemplou como os soldados se ocupavam de seus monturas. Essa era a Projeto Revisoras 20
  21. 21. Honra e Paixão Julie Garwood primeira preocupação de um nobre, decidiu Madelyne, sabendo como sabia que um nobre perdia toda efetividade sem seu corcel. Sim, os cavalos estavam primeiro. A seguir se acenderam pequenas fogueiras, com de oito a dez homens ao redor de cada uma delas, e quando todos os fogos tiveram ficado presos, houve ao menos trinta fogueiras, perfilando todas elas os cansados ombros de quão soldados ao fim estavam inteligentes para descansar. A comida chegou em último lugar, um parco jantar consistente em pão duro e queijo que tinha ido ficando amarelo. Chifres cheios de uma cerveja que sabia a sal circularam também entre os homens, mas Madelyne se fixou em que os soldados só bebiam uma pequena porção dela. Pensou que a cautela possivelmente se impôs a seu desejo de desfrutar da bebida, porque certamente precisariam encontrá-lo mais limpos possível durante aquela noite, acampados como se achavam em uma posição tão vulnerável. Estava o sempre presente perigo das bandas formadas por homens que, tendo perdido seu lar, converteram-se em abutres que esperavam a ocasião de cair sobre quem quer que fosse mais fraco que eles, e também estavam as bestas selvagens que percorriam os bosques com uma intenção muito parecida. O escudeiro do Duncan tinha recebido a ordem de ocupar-se de atender as necessidades do Madelyne. O moço se chamava Ansel, e Madelyne em seguida soube pelo franzimento de seu cenho que o trabalho que lhe tinham atribuído não era muito de seu agrado. Quão único consolava ao Madelyne era saber que cada légua que foram avançando para o norte a aproximava uma légua mais a seu próprio destino secreto. antes de que o barão do Wexton interferisse com seus planos, ela tinha estado planejando sua própria fuga. Ia à casa de sua prima Edwythe em Escócia. Agora Madelyne compreendia quão ingênua tinha sido ao pensar que seria capaz de levar a cabo semelhante empresa. Sim, já se tinha dado conta de sua loucura e inclusive admitia que não tivesse chegado a durar mais de um dia abandonada a seus próprios recursos, montando a única égua do estábulo do Louddon que não a teria feito cair de sua cadeira. A égua, com a garupa bastante caída e já muito velha, não tivesse tido a resistência necessária para semelhante viagem. Sem uma arreios robusta e uma roupa adequada, a fuga não teria sido mais que uma forma de suicídio. E o mapa que Madelyne tinha desenhado a toda pressa apoiando-se na memória cheia de vãos do Simon a tivesse feito ir em círculos. Embora admitia que em realidade não era mais que um sonho insensato, Madelyne decidiu que teria que seguir agarrando-se a ele. agarrou-se a aquele brilho de esperança pela singela razão de que era quão único tinha. Duncan certamente vivia o bastante perto da fronteira escocesa para que se pudesse chegar até ela a pé. Quanto mais longe podia encontrá-la nova casa da prima do Madelyne? Possivelmente inclusive poderia ir até ali andando. Os obstáculos terminariam vencendo-a no caso de que lhes permitisse chegar a encontrar um ponto de apoio. Madelyne deixou a um lado a razão e se concentrou em fazer a inteligente de tudo o que ia necessitar. Primeiro um cavalo que pudesse levá-la, logo as provisões e, em último lugar, a bênção de Deus. depois de haver o pensado um pouco, Madelyne decidiu que tinha investido a ordem de importância, e acabava de colocar a Deus no primeiro lugar da preparada e ao cavalo no último quando viu o Duncan dirigindo-se para o centro do acampamento. Santo céu, acaso não era Duncan o maior de todos os obstáculos aos quais teria que enfrentar-se? Sim, Duncan, em parte homem e em parte Wolf, seria o obstáculo mais difícil de quantos deveria superar. Duncan não lhe havia dito nenhuma sozinha palavra desde que tinham saído da fortaleza do Louddon. Durante esse tempo, Madelyne esteve a ponto de enlouquecer de preocupação de tanto pensar naquela apaixonada sua afirmação de que agora lhe pertencia. E o que se supunha que significava isso exatamente? Desejou ter tido o valor de lhe exigir uma explicação. Mas agora o barão se mostrava tão frio e distante com ela que Madelyne o encontrava muito aterrador para que se sentisse capaz de aproximar-se o Projeto Revisoras 21
  22. 22. Honra e Paixão Julie Garwood Deus, estava esgotada. Não podia preocupar-se com ele agora. Quando tivesse descansado, já encontraria alguma maneira de escapar. Esse era o primeiro dever de uma cativa, não? Madelyne sabia que ela não tinha nenhuma experiência no que fazia referência a tais questões. Do que servia que soubesse ler e escrever? Ninguém chegaria ou seja jamais daquela insólita habilidade dela, dado que não se considerava aceitável que uma mulher tivesse recebido semelhante classe de instrução. Mas se a maioria dos nobres nem sequer eram capazes de escrever seus próprios nomes! Confiavam nos clérigos para que se encarregassem de desempenhar aquelas tarefas tão carentes de significado por eles. Madelyne não culpava a seu tio de sua falta de instrução. Aquele sacerdote ao que sempre tinha querido tanto sentiu prazer em lhe ensinar todas as histórias da antigüidade. A que contava as aventuras do Odiseo terminou chegando a ser a favorita do Madelyne. O guerreiro mitológico se converteu em seu companheiro quando era uma garota que passava todo seu tempo terrivelmente assustada. Madelyne fingia que Odiseo se encontrava sentado junto a ela durante as largas e escuras noites, ajudando-a a mitigar seu medo de que Louddon viesse e a levasse de retorno a casa. Louddon! Seu negro nome bastava para fazer que lhe formasse um nó no estômago. Sim, seu irmão era a verdadeira razão pela que agora Madelyne carecia de todas as habilidades necessárias para a sobrevivência. Nem sequer era capaz de montar a um cavalo, pelo amor de Deus! Disso também tinha a culpa Louddon. Seu irmão a tinha levado a cavalgar umas quantas vezes, quando ela tinha seis anos, e Madelyne ainda recordava aquelas saídas com tanta claridade como se tivessem tido lugar no dia anterior. Como tinha feito o ridículo Madelyne, ou ao menos isso era o que lhe tinha gritado Louddon, dando botes sobre a cadeira igual a se fosse um montão de palha precariamente amarrado a seu suporte! E assim que seu irmão se deu conta de quão assustada estava Madelyne, o que fez foi atá-la à cadeira de montar e lhe dar uma palmada na garupa ao cavalo para que se lançasse em um desenfreado galope através dos campos. O terror do Madelyne tinha excitado a seu irmão. Quando ela finalmente aprendeu a ocultar seu medo, Louddon cessou por fim seu sádico jogo. Até ali onde chegava sua memória, Madelyne sempre tinha sabido que não lhes caía nada bem nem a seu pai nem a seu irmão, e tinha provado todas as maneiras que conhecia para fazer que a quisessem embora só fosse um pouquinho. Quando Madelyne fez oito anos a enviaram com o pai Berton, o irmão pequeno de sua mãe, para o que ao princípio tão só ia ser uma curta visita e que logo se converteu em longos anos cheios de paz. O pai Berton era o único parente vivo do lado materno da família. O sacerdote fez quanto pôde para criá-la e lhe repetia constantemente, até que finalmente Madelyne quase chegou a acreditá-lo, que eram seu pai e seu irmão quem era uns estúpidos, e não ela. OH, sim, seu tio era um homem muito bom e carinhoso cujas amáveis maneiras terminaram passando a formar parte do caráter do Madelyne. O pai Berton lhe ensinou muitas coisas, nenhuma das quais era tangível, e a queria tanto como qualquer pai de verdade tivesse podido querer a sua filha. Explicou-lhe que Louddon desprezava a todas as mulheres, mas nisso Madelyne não lhe acreditou. A seu irmão só importavam suas irmãs maiores. Tanto Clarissa como Sara tinham sido enviadas a magníficas mansões para que fossem adquirindo a educação apropriada, e as duas irmãs contavam com uma dote impressionante que contribuir ao matrimônio, embora só Clarissa tinha chegado a casar-se. O pai Berton também lhe havia dito que se o pai do Madelyne não queria ter nada que ver com ela isso era porque se parecia muito a sua mãe, uma mulher delicada e carinhosa com a que ele contraiu matrimônio para logo passar a converter-se em seu inimigo quase logo que se intercambiaram os votos nupciais. Seu tio não sabia qual era a razão pela que o pai do Madelyne tinha trocado de atitude, mas mesmo assim atribuía a culpa a sua alma. Projeto Revisoras 22
  23. 23. Honra e Paixão Julie Garwood Madelyne quase não guardava nenhuma lembrança dos primeiros anos, embora uma agradável calidez se apropriava de todo seu ser cada vez que lhe ocorria pensar em sua mãe. naquela época Louddon não tinha estado ali muito freqüentemente para poder zombar-se dela, e Madelyne se encontrava adequadamente protegida pelo amor de sua mãe. Louddon era o único que dispunha das respostas às perguntas que se fazia Madelyne. Seu irmão possivelmente o explicaria todo algum dia, e então ela o entenderia. E com a compreensão chegaria a cura, verdade? Deus, decidiu Madelyne, tenho que se separar de minha cabeça todos estes pensamentos tão sombrios. deixou-se escorregar do alto do penhasco e foi dar um passeio pelo acampamento, bem afastada dos homens. Quando deu meia volta e entrou no denso bosque, ninguém a seguiu e isso permitiu que Madelyne pudesse ocupar-se de dar satisfação às exigências de seu corpo. Já estava retornando por onde tinha vindo quando viu um pequeno arroio. A superfície das águas se havia gelado, mas Madelyne utilizou um ramo para quebrar o gelo. Ajoelhando-se junto ao arroio, lavou-se as mãos v a face. As águas do arroio estavam o bastante geladas para lhe enrugar as pontas dos dedos, mas aquele líquido cristalino sabia maravilhosamente. Então Madelyne sentiu que alguém acabava de deter-se detrás dela. voltou-se com tal rapidez que esteve a ponto de perder o equilíbrio. Era Duncan, elevando-se sobre ela. — Vêem, Madelyne — disse-lhe — . É hora de descansar. Não lhe deu tempo a que respondesse a sua ordem, mas sim se inclinou sobre ela e a colocou em pé. Sua calosa mão era tão grande que rodeou as suas. A presa do Duncan era firme, mas seu contato era suave e não a soltou até que tiveram chegado à abertura de sua loja, uma estrutura de estranho aspecto consistente em peles de animais selvagens que formavam uma cúpula graças às grosas e rígidos ramos que as sustentavam. As peles manteriam a raia o vento que já estava começando a aumentar. Outra pele cinza tinha sido estendida em cima do chão dentro da loja, com a óbvia intenção de que fora utilizada como cama de armar. O resplendor da fogueira mais próxima projetava sombras que dançavam sobre as peles, fazendo que a loja parecesse cálida e invitadora. Duncan lhe indicou com um gesto que entrasse. Madelyne se apressou a lhe obedecer, mas uma vez dentro da loja descobriu que não conseguia estar-se quieta. As peles de animal tinham absorvido uma grande parte da umidade do chão, e Madelyne se sentiu como se a tivessem deitado em cima de um enorme bloco de gelo. Duncan se tinha ficado imóvel com os braços cruzados diante de seu enorme peito e a contemplava enquanto ela tratava de ficar cômoda. Madelyne manteve o rosto impassível, jurando-se que morreria antes que lhe oferecer uma sozinha palavra de queixa ao Duncan. de repente ele voltou a incorporá-la com um brusco puxão, faltando muito pouco para que derrubasse a loja em sua pressa. lhe tirando a capa dos ombros, Duncan fincou um joelho no chão e estendeu o objeto em cima das peles de animal. Madelyne não entendia qual podia ser sua intenção. Tinha pensado que a loja era unicamente para ela, mas ato seguido Duncan se acomodou no interior e, estirando-se quão longo era, ocupou a maior parte do espaço. Madelyne começou a voltar-se, enfurecida ante a maneira em que ele tinha reclamado sua capa para sua própria comodidade. por que não se limitou a deixá-la na fortaleza do Louddon se tinha intenção de fazê-la morrer de frio, em vez de arrastá-la consigo através de meio mundo? Nem sequer teve tempo de soltar uma exclamação abafada, porque Duncan a prendeu com a celeridade do raio. Madelyne caiu em cima dele e deixou escapar um gemido de protesto. Quase não tinha conseguido meter-se dentro do peito um pouco de ar fresco e uma nova ofensa antes de que Duncan se voltasse sobre seu flanco, levando-lhe com ele. Logo estendeu sua capa por cima dos dois, deixando presa ao Madelyne dentro de seu abraço. Sua face tinha Projeto Revisoras 23
  24. 24. Honra e Paixão Julie Garwood ficado volta para cima junto à base do pescoço do Duncan, e seu alto da cabeça se encontrava justo debaixo do queixo deste. Madelyne, horrorizada ante uma posição tão íntima, tratou de se separar-se. Empregou até o último grama de energia que possuía, mas a pressão do Duncan era muito forte para que pudesse quebrá-la. — Não posso respirar — murmurou junto ao pescoço do Duncan. — Sim que pode — respondeu ele. Madelyne acreditou ouvir diversão em sua voz. Isso a enfureceu quase tanto como o arrogante de sua atitude. Como se atrevia a decidir se ela podia respirar ou não? Madelyne estava muito irritada para que o fora possível ter medo. de repente se deu conta de que suas mãos seguiam livres de ataduras, e começou a lhe dar tapas nos ombros ao Duncan até que lhe arderam as Palmas. Duncan se tinha tirado a cota antes de entrar na loja, por isso agora seu peito só se achava coberto por uma camisa de algodão. O fina tecido ficava tensamente estirada sobre seus largos ombros, perfilando os grossos músculos. Madelyne podia sentir a fortaleza que irradiava seu corpo através da suavidade do algodão. Deus, não havia nem um só grama de gordura que agarrar e beliscar! A pele do Duncan era tão inflexível como sua teimosa natureza. E entretanto, havia uma diferença muito clara. O peito do Duncan em contato com sua bochecha era uma presença cálida, quase quente, e terrivelmente invitadora no referente a aconchegar-se junto a ele. Além disso cheirava muito bem, a couro e masculinidade, e Madelyne não pôde evitar reagir. Estava esgotada. Sim, essa era a razão pela que a proximidade do Duncan estava tendo um efeito tão inquietante sobre ela. Mas se o coração lhe batia a toda velocidade! O fôlego do Duncan lhe esquentava o pescoço, reconfortando-a. Como podia ser que estivesse sentindo aquilo? Madelyne estava tão confusa que já nada parecia ter sentido para ela. Sacudiu a cabeça, decidida a tirar-se de cima aquela sensação de sonolência que estava invadindo suas boas intenções, e logo fechou as mãos sobre a camisa do Duncan e começou a atirar dela. Duncan já devia haver-se fartado de que não parasse de debater-se. Madelyne o ouviu suspirar uns instantes antes de que terminasse lhe agarrando as mãos e as colocasse debaixo da camisa, fazendo que as Palmas destas ficassem plainas em cima do peito. A grosa capa de pêlo que cobria a cálida pele do Duncan fez que Madelyne sentisse um suave comichão nas pontas dos dedos. Madelyne se perguntou como era possível que estivesse sentindo tanto calor quando fora fazia tão frio. A proximidade do Duncan era como um puxão erótico e sensual que pesasse sobre seus sentidos, alagando-a com umas sensações que Madelyne nunca tinha sabido pudesse chegar a possuir. Sim, aquilo era erótico, o qual sem lugar a dúvidas o voltava também pecaminoso e obsceno, porque a pélvis do Duncan se achava comprimida contra a união das pernas do Madelyne. Agora Madelyne podia sentir a dureza do Duncan precisamente ali, intimamente aninhada junto a ela. A camisola que tinha colocado estava demonstrando ser um amparo totalmente inadequado contra a virilidade do Duncan, e a falta de experiência do Madelyne no referente a aquelas questões não proporcionava nenhuma classe de amparo contra as estranhas sensações, capazes de deixá-la totalmente perplexa, que lhe estava provocando aquela situação. por que não se sentia enojada pelo contato do Duncan? O certo era que Madelyne não se sentia enojada, a não ser unicamente falta de fôlego. Então um pensamento espantoso se infiltrou na mente do Madelyne e fez que exalasse um ofego de horror. Não era precisamente aquela a postura que adotava um homem quando se acoplava com uma mulher? Madelyne esteve dando voltas a aquele pensamento durante uns momentos intermináveis e logo se apressou a descartar esse temor. Recordava que a mulher tinha que estar deitada sobre as costas, e embora não estava muito segura de qual era a Projeto Revisoras 24
  25. 25. Honra e Paixão Julie Garwood maneira exata em que se fazia aquilo, não acreditava que estivesse correndo um autêntico perigo. Em uma ocasião tinha ouvido a Marta enquanto falava com as outras faxineiras durante uma visita, e recordava que aquela mulher tão tosca sempre dava começo a cada uma das luxuriosos aventura que relatava com a observação de que ela tinha estado deitada sobre as costas. Sim, recordou Madelyne com um intenso alívio, Marta tinha sido muito precisa. «Tombada sobre as costas estava eu», começava sempre. Agora Madelyne lamentava não haver ficado a escutar o resto das atrevidas histórias daquela mulher. Deus, essas era outras das áreas de sua educação que tinham sido infelizmente descuidadas! Então Madelyne se zangou muitíssimo, porque uma dama decente não tivesse tido que ver-se obrigada a carregar com semelhante preocupação. Todo era culpa do Duncan, naturalmente. Estaria-a abraçando de uma maneira tão íntima única e exclusivamente para zombar-se dela? Madelyne se encontrava o bastante perto dele para que pudesse sentir a força de seus robustos músculos. Se queria, Duncan podia chegar a esmagá-la. Madelyne se estremeceu ante semelhante imagem e cessou imediatamente em seus esforços. Não queria provocar ao bárbaro. Ao menos agora, a nova posição de suas mãos lhe protegia os seios, e Madelyne agradeceu que assim fora. Sua gratidão teve uma vida muito curta, entretanto, porque logo que acabava de pensar que no fundo devia agradecer essa pequena mercê, Duncan trocou de postura e então os seios do Madelyne ficaram pegos a ele. Seus mamilos se endureceram, envergonhando-a ainda mais. de repente Duncan voltou a mover-se. — Que diabos...? — disse, rugindo a pergunta inacabada junto à orelha do Madelyne. Ela não soube o que era o que tinha provocado aquele estalo por parte dele, só que ia estar surda durante o resto de sua vida. Quando Duncan deu um salto, resmungando um juramento que ela não pôde evitar ouvir, Madelyne se apressou a se separar-se. Olhou ao Duncan pela extremidade do olho. Seu captor se incorporou sobre um cotovelo e estava procurando algo debaixo dele. Então, e precisamente no mesmo instante em que a mão do Duncan levantava a arma, Madelyne se lembrou da adaga pertencente ao escudeiro que ela tinha escondido antes no forro de sua capa. Não pôde evitar franzir o cenho. Duncan não pôde evitar sorrir. Madelyne ficou tão surpreendida por aquele sorriso tão cheia de espontaneidade que pouco faltou para que chegasse a devolver-lhe Então se deu conta de que o sorriso do Duncan não terminava de estender-se por completo até seus olhos, e decidiu que seria melhor não sorrir depois de todo. — Para ser uma criatura tão tímida está demonstrando ter muitos recursos, Madelyne — disse-lhe Duncan. Sua voz não tinha podido ser mais doce e suave. Acabava de elogiá-la ou se estava zombando dela? Madelyne não sabia o que pensar, por isso decidiu não lhe contar que se esqueceu da existência da arma. Se chegava a admitir aquela verdade ante o Duncan, então não cabia dúvida de que ele tomaria por uma estúpida. — Foi você quem me capturou — recordou-lhe — . Se tiver demonstrado ter recursos, é unicamente porque a honra me obriga a escapar. Tal é o dever de uma cativa. Duncan franziu o cenho. — Ofende-te minha honestidade, milord? — Perguntou-lhe Madelyne — . Então possivelmente seria melhor que não te dirigisse a palavra. Agora eu gostaria de dormir — acrescentou. E vou tratar de esquecer inclusive o fato de que esteja aqui. Para demonstrar que tinha falado a sério, Madelyne fechou os olhos. — Vêem aqui, Madelyne. Projeto Revisoras 25
  26. 26. Honra e Paixão Julie Garwood Aquela ordem pronunciada em um tom tão suave fez que um calafrio de medo descendesse rapidamente pelas costas do Madelyne, e um nó de tensão cobrou forma dentro de seu estômago. Duncan o estava voltando a fazer, decidiu, porque conseguia assustá-la até tal ponto que não podia nem respirar. E Madelyne já se estava fartando de todo aquilo. Não acreditava que pudesse ficar muito medo dentro. Abriu os olhos para olhar ao Duncan, e quando viu que agora a adaga estava apontando em sua direção, deu-se conta de que pensando-o bem ainda ficava uma reserva de medo depois de todo. Que covarde sou, pensou enquanto se ia aproximando lentamente a ele. Finalmente se estendeu sobre o flanco, volta de face para ele e a só uns centímetros de distância. — Já está. Satisfeito? — perguntou. Um instante depois supôs que ele não se sentia nada satisfeito quando se encontrou jazendo sobre as costas, com o Duncan elevando-se em cima dela. Madelyne o tinha tão perto que podia ver os puntitos prateados que reluziam dentro do cinza de seus olhos. Madelyne tinha ouvido dizer que se supunha que os olhos refletiam os pensamentos que passavam pela mente, mas nem mesmo assim pôde saber o que era o que estava pensando Duncan. Isso a preocupou. Duncan observou ao Madelyne. A confusão de emoções que lhe estava mostrando sem querer o divertia ao mesmo tempo que o irritava. Sabia que Madelyne lhe tinha muito medo, e entretanto não chorava nem lhe suplicava. E que formosa era, santo Deus! Uma respingo de sardas cobria a ponte de seu nariz. Duncan encontrou do mais atrativo aquele pequeno defeito. Sua boca também era atraente. Duncan se perguntou a que saberia aquela boca, e em seguida pôde sentir como começava a avivar-se só de pensá-lo. — vais passar te toda a noite me olhando? — perguntou-lhe Madelyne. — Possivelmente o faça — respondeu Duncan — . Se desejo fazê-lo — acrescentou, sorrindo ante a maneira em que ela tentou não franzir o cenho ante sua resposta. — Então eu terei que estar te olhando durante toda a noite — respondeu Madelyne. — E a que se deve isso, Madelyne? — perguntou-lhe ele com doçura. — Se pensar que vais poder te aproveitar de mim enquanto durmo, barão, está muito equivocado. A via muito indignada. — E como vou aproveitar me de você, Madelyne? Agora lhe estava sorrindo e nesta ocasião sim que se tratava de um autêntico sorriso, porque se refletia nas profundidades de seus olhos. Madelyne desejou ter guardado silêncio. Deus, mas se agora era ela mesma a que lhe estava colocando idéias obscenas na cabeça! — Preferiria não falar dessa questão — conseguiu balbuciar finalmente — . Sim, esquece o que hei dito, rogo-lhe isso. — Mas é que não quero esquecê-lo respondeu Duncan — . Pensa que esta noite vou satisfazer minha luxúria e que tomarei enquanto descansa? Duncan baixou a cabeça até que esta se encontrou a um hálito escasso de distância do rosto do Madelyne. Comprouve-lhe ver como se ruborizava ela, e inclusive chegou ao extremo de expressar sua aprovação com um grunhido. Madelyne permanecia tão imóvel como uma cierva, presa por suas próprias preocupações. — Não me tocará — balbuciou subitamente — . Tem que estar muito cansado para que te funcione possível pensar em tais coisas... e além disso acampamos em um claro... Não, não me tocará — concluiu. — Possivelmente. E o que podia significar aquilo exatamente? Madelyne viu o brilho misterioso que reluzia nos olhos do Duncan. Estaria extraindo um autêntico prazer da óbvia inquietação que sentia ela? Decidiu que não ia consentir que Duncan se aproveitasse dela sem que antes houvesse uma boa briga. Com esse pensamento na cabeça, atingiu-o, dirigindo seu punho justo debaixo de Projeto Revisoras 26

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