NOTA PRÉVIAO livro A Lua de Joana contou, desde a primeira hora, com uma entusiástica adesão por parte das maisvariadas pe...
levaram aos palcos das escolas dramatizações inspiradas no livro A Lua de Joana. Muitas dessas drama-tizações deixaram-me ...
«Altas marés no tumulto me ressoamE paredes de silêncio me reflectem(…)»Sophia de Mello Breyner Andresen,Obra Poética III
PERSONAGENSDR. BRITO, pai de JoanaBE, mãe de JoanaJORGE BRITO, irmão de JoanaDIOGO, irmão de MartaALICE, mãe de MartaDR. G...
ACTO I                                                  CENA l                                   CENÁRIO A -   Sala da cas...
DR. BRITO(Em tom solene) Enganas-te, Be. Enganas-te redondamente.BE(Em tom de ironia) Como sempre... Mas explica lá, para ...
(Indignada) Não me digas que foste tu, Jorginho!JORGE(Descontraidamente) Fui. Fui eu mesmo.DR. BRITO(Com bons modos) E o q...
CENA 4BE(Sozinha na sala, levanta-se devagar e ajeita o cabelo com a mão. Depois, lentamente, aproxima-se dobaloiço em for...
(Nervoso, passa as mãos pela cabeleira.) Por que razão é que hei-de ser eu a fazer um esforço, hein?! Pravariar, seria bom...
O teu pai contou-me que a tua irmã mantinha correspondência com uma amiga que já tinha morrido... Eradisso que estavas a f...
(Coçando a cabeça, atrapalhado) Eu sei que nunca fomos lá muito normais... Mas também não éramoscomo hoje! Pelo menos, viv...
ACTO III                                                 CENA l                                   CENÁRIO A -   Sala da ca...
JOÃO PEDROOs cotas são todos assim! Ou melhor, só mostram os sentimentos quando tão furiosos... Nessas alturas,toda a gent...
(Baixando-se para mexer no baloiço) Não sei porquê, mas tenho um feeling de que isto devia ser da Joa-na. Ela era tipo art...
JOÃO PEDRO(Incrédulo) A que morreu com uma overdose.DR. BRITOEssa mesmo.LUÍS(Surpreendido) E a Joana não mandou essas cart...
LUÍS(Cabisbaixo) Eu acho que também não..JOÃO PEDRO(Em voz baixa) Provavelmente, nem eu.DR. BRITOMas eu não vos chamei aqu...
ACTO IVCENA lCENÁRIO B   - Consultório do PsicólogoMantém-se a iluminação do ACTO 2DR. GOMES(Sentado à mesa, virando-se pa...
DR. GOMESPorquê?BE(Irritada) Ora! Porque o meu marido não teve coragem de decidir para onde iriam as coisas da filha! Sefo...
E não lhe ocorreu que o Jorge pode ter levado o baloiço da irmã para a sala para chamar a vossa atençãopara alguma coisa q...
E para isso que podem contar com a minha ajuda.BE(Emocionada, elevando o tom de voz) Mas como é que havemos de aceitar uma...
ACTO V                                                  CENA l                                    CENÁRIO A -   Sala da ca...
DR. BRITONinguém pensou. Foi esse o nosso erro...DIOGO(Inclinando-se no cadeirão para ver o baloiço que continua no mesmo ...
(Pensativo) Talvez. Elas eram muito amigas...DIOGOÉramos amigos os três... Amigos de infância... (Sorri.) Amigos de sempre...
(Sentando-se no sofá) Não, que ideia! (Sorrindo de satisfação) Gosto até muito de a ter cá! Há que tem-pos que não nos vía...
ver se contacta todos os amigos da filha para... olhe, se quer que lhe diga, nem sei bem para quê! (Pausabreve) Não se con...
Cá em casa, era o contrário... O Jorge pareceu--nos sempre mais... extravagante. Enfim... (Suspira.)ALICEBem, vou andando,...
E... não queres saber o que pensei?BE(Enervada, pousando, novamente, a revista no colo) Não, não quero! A única coisa que ...
ACTO VIO palco tem o pano caído. Do lado esquerdo, encontra-se o baloiço da Joana, no chão, sobre o qual incideum foco de ...
(Enquanto os actores se retiram do palco, ouve-se o refrão de uma canção de Luís Represas: «Há semprealguém que nos diz: T...
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  1. 1. NOTA PRÉVIAO livro A Lua de Joana contou, desde a primeira hora, com uma entusiástica adesão por parte das maisvariadas pessoas e instituições (entre elas, inúmeros estabelecimentos de ensino, o Instituto Camões e oInstituto Português do Livro e das Bibliotecas) a quem, naturalmente, estarei para sempre muito grata.A Editorial Verbo não se poupou a esforços para divulgar a referida obra e fê-lo com um empenho que eunão poderia deixar de salientar. Mas muito me surpreende verificar que tantas pessoas fora do meio edito-rial se têm também interessado por este livro, ao ponto de colaborarem directamente na sua promoção.Pelo importante contributo que, tão generosamente, quiseram dar, não posso deixar de destacar a Excelen-tíssima Senhora Doutora Manuela Eanes, dedicada Presidente do IAC — Instituto de Apoio à Criança, e oSenhor Padre Vítor Feytor Pinto, que, na altura do lançamento do livro, assumia, entre outras, as funçõesde Alto Comissário para o Projecto Vida e se dispôs a redigir o texto para a contracapa.Depois, veio ainda a inestimável colaboração de outras pessoas cujo papel na sociedade portuguesa éindiscutivelmente relevante, como é o caso de vários profissionais da Comunicação Social, entre os quaisseria injusto não salientar o Senhor Dr. Carlos Pinto Coelho, responsável pelo programa cultural «Acon-tece», no qual, entre outras formas de divulgação, foi exibido um vídeo promocional de A Lua de Joana.Naturalmente, estou também muito grata aos livreiros portugueses, pelo destaque que quiseram dar a estelivro e pela sua presença em várias feiras do livro nas escolas, de Norte a Sul do País.Muitos têm sido os bibliotecários portugueses que me convidam a participar em encontros com grupos dejovens nas bibliotecas municipais, actividades que são, evidentemente, um estímulo para mim e umaoportunidade de reflexão e diálogo, em espaços privilegiados, onde o livro é sujeito e objecto.O facto de A Lua de Joana ter suscitado o interesse de editoras estrangeiras constituiu outra agradávelsurpresa para mim, tanto mais que não podia esperar ver um livro da minha autoria publicado em paísescomo a Albânia, a Bulgária ou... a China! Muito grata estou, especialmente, às senhoras tradutoras, Pro-fessora Doutora Margaritta Drenska (Bulgária) e Doutora Iliriana Agallia (Albânia), pelo seu empenho,que tanto me sensibilizou.Devo, igualmente, uma palavra de reconhecimento aos autores de manuais de Língua Portuguesa que qui-seram incluir nos seus livros excertos de A Lua de Joana, seguidos de interessantes propostas de activi-dades pedagógicas a desenvolver nas aulas.Por último, mas com toda a consideração e muita emoção, devo agradecer publicamente a todos os pro-fessores das escolas portuguesas (públicas e particulares) que viram neste livro um ponto de partida parareflexões com os alunos, bem como para outro tipo de actividades — plenas de criatividade! — que tive oprazer de conhecer nos encontros que, semanalmente, tenho com alunos e professores dos ensinos básicoe secundário. Foi, justamente, nas visitas às escolas que nasceu em mim a vontade de escrever a peça deteatro Os Herdeiros da Lua de Joana, dado que tantos têm sido os grupos de alunos e professores que
  2. 2. levaram aos palcos das escolas dramatizações inspiradas no livro A Lua de Joana. Muitas dessas drama-tizações deixaram-me profundamente sensibilizada e, sem desprimor para as restantes escolas (e são tan-tas!), gostaria de evidenciar aqui o meu enorme apreço pela peça levada à cena pêlos alunos da Escola Se-cundária Infanta D. Maria, de Coimbra, cidade onde nasci.Assim, foi com o maior prazer que resolvi aventurar-me pelo texto dramático, procurando retomar as per-sonagens de A Lua de Joana, no momento do seu luto pela perda irreparável que sofreram. Pareceu-meinteressante confrontá-las entre si e levá-las a transmitir uma mensagem que se me afigura cada vez maisimportante.Espero, sinceramente, não decepcionar os leitores de A Lua de Joana, a quem tanto devo — são eles tam-bém os «Herdeiros da Lua de Joana»! Gostaria que esta peça servisse como instrumento sobretudo para aactividade de expressão dramática nas escolas, bem como para bons momentos de convívio entre todosaqueles (e, segundo tenho visto, são muitos!) que gostam de teatro. E... da Joana! A Autora
  3. 3. «Altas marés no tumulto me ressoamE paredes de silêncio me reflectem(…)»Sophia de Mello Breyner Andresen,Obra Poética III
  4. 4. PERSONAGENSDR. BRITO, pai de JoanaBE, mãe de JoanaJORGE BRITO, irmão de JoanaDIOGO, irmão de MartaALICE, mãe de MartaDR. GOMES, psicólogoJOÃO PEDRO, colega e amigo de JoanaLUÍS, colega e amigo de JoanaPROFESSORA MARGARIDA, directora de turma de JoanaALUNA DO SECUNDÁRIOGUARDA-ROUPAVestem-se de luto carregado as seguintes personagens:Pai, Mãe e Irmão de Joana; Mãe e Irmão de Marta;Vestem-se de cinzento as restantes personagens, excepto a aluna do Secundário, que veste uma túnicacomprida preta (do lado esquerdo, onde deverá ser cosida uma meia-lua branca) e branca (do lado direito)e usa um sapato preto (o esquerdo) e outro branco.CENÁRIOA - Sala da casa de JoanaVê-se, em primeiro plano, no chão, do lado esquerdo do palco, um baloiço em forma de lua, preso a umacorrente metálica e comprida. Constituem outros elementos deste espaço cénico: um sofá e dois cadei-rões; uma mesa pequena, na qual se encontra, do lado esquerdo, uma jarra com uma flor branca; sob amesa, há um tapete de cor lisa e escura.B - Consultório do PsicólogoUm cadeirão (para o psicólogo) atrás de uma mesa de trabalho, onde se encontra um pequeno candeeiro,alguns livros empilhados, um cinzeiro e um pequeno vaso com uma planta verde; três cadeirões.
  5. 5. ACTO I CENA l CENÁRIO A - Sala da casa de JoanaA sala está parcamente iluminada, incidindo um foco de luz branca sobre a flor e outro sobre o baloiçoem forma de meia-lua.DR. BRITO(Entra cabisbaixo, senta-se no sofá, trazendo na mão as cartas de Joana, e começa a reler a última, pau-sadamente.)«... Não está ninguém em casa...» (Faz uma pausa breve, olhando em seu redor.) «Acho que vou telefo-nar a alguém. Talvez à Rita. O Lucas é óptima companhia, mas não fala...» (Paz nova pausa e sorri tris-temente.) «Pode ser que, dentro de alguns anos, com o avanço da tecnologia, dêem voz humana aos cães.E toda a gente ficará menos só.» (Pausa) «Um beijo da tua amiga Joana.» (Tira um lenço de assoar dobolso das calças e limpa os olhos; volta a pegar na carta e relê.) «Não está ninguém em casa...» (Olhanovamente em redor e, abanando a cabeça em jeito de negação, repete, em voz mais alta, dirigindo-se aopúblico.) Não está ninguém em casa!... (Levanta-se, sempre com as canas na mão, e dirige--se para obaloiço em forma de lua; baixa-se e permanece acocorado por algum tempo, a olhar a lua; depois, aca-ricia o baloiço. Levanta-se devagar e volta a olharem redor, antes de repetir, abanando a cabeça) Nãoestá ninguém em casa... CENA 2BE(Entrando na sala e vendo o marido de pé, com papéis na mão, franze o sobrolho e senta-se no cadeirãomais afastado do sofá.)Voltaste a ir buscar as... cartas... (Eleva o tom de voz.) Para quê? Para quê?! Não as saberás ainda de cor?!(Abana a cabeça, em jeito de reprovação.)DR. BRITO(Agarrando as cartas contra o peito, senta-se no sofá.) Não percebes, Be? Será que não percebes?! Estascartas são tudo quanto nos resta da Joana... São a única coisa a que posso agarrar-me para tentar com-preender... Para tentar...BE(Irritada) Para tentares o quê?! Não vês que não há nada mais a tentar; nada mais a fazer?!
  6. 6. DR. BRITO(Em tom solene) Enganas-te, Be. Enganas-te redondamente.BE(Em tom de ironia) Como sempre... Mas explica lá, para ver se eu entendo, já que nunca compreendonada...DR. BRITOOra, Be! Tu não queres compreender! (Com vos: desolada) Tu preferes esquecer...BE(Indignada) Esquecer?! Esquecer?! Como é que eu me posso esquecer?! Como?!, se Cu não falas de outracoisa, não pensas noutra coisa?! Achas que é da nossa filha que quero esquecer-me, achas?! É isso quepensas de mim?!DR. BRITO(Atabalhoadamente) Não, Be! Não é isso...BE(Em tom muito amargo) O que eu quero, o que eu preciso é de me esquecer do horror, da aflição por quepassámos! Esquecer o túmulo em que esta casa se tornou! (Olhando para o baloiço, levanta-se, aproxi-ma-se dele e aponta-o com a mão.) O que faz isto aqui na sala?! Que disparate! Quem trouxe isto paraaqui?DR. BRITO(Timidamente) Não fui eu... Também me surpreendi ao dar com o... baloiço que estava no quarto dela...Não fui eu, Be.BE(Voltando a sentar-se no mesmo lugar) Então, quem foi? CENA 3JORGE(Entrando na sala com cara de enfado) Já não se pode estar sossegado, nesta casa?! Tão aos gritos outravez... Tss... Que paranóia...BE(Virando-se para o filho) É que alguém teve a ideia absurda de trazer para aqui aquilo (Aponta o baloiçocom o indicador espetado.) Deve ter sido a Clementina, que tem sempre ideias disparatadas...JORGE(Sentando-se no cadeirão vazio) Não, não foi a Clementina, mãe. A desgraçada tá sempre a levar com asculpas em cima... Tss...BE
  7. 7. (Indignada) Não me digas que foste tu, Jorginho!JORGE(Descontraidamente) Fui. Fui eu mesmo.DR. BRITO(Com bons modos) E o que foi que te fez trazer para o meio da nossa sala a lua da Joana, filho?BEDiz lá! Não faz sentido nenhum, Jorge!JORGE(Elevando o tom de voz) O que não faz sentido nenhum é essa lua ou esse baloiço ou lá o que é essa cenacontinuar à porta do quarto que era da Joana, fogo! De cada vez que entro ou saio do meu quarto, tenhode gramar com essa cena! Tou farto.BE(Amuada) Não posso ser sempre eu a fazer tudo, nesta casa! Fui eu que tive de entrar no quarto dela; fuieu que tive de meter tudo em sacos; fui eu que tive de dar destino às coisas dela; fui eu que arrumei tudo...Faltou-me a lua, pronto! Não sabia o que fazer daquilo, se querem saber. Pensei que haveria de ter umaideia, uma solução, sei lá...JORGE(Com ironia) E achaste que a solução era pores a lua à porta do quarto, no corredor... Fixe, mãe! A tuaimaginação não pára de me surpreender... Julgava que até sabias umas tretas sobre decoração, passas avida a ler revistas de gente beta... Só que te esqueceste de um pormenor: eu não tenho de gramar comessa lua de cada vez que passo no corredor, okay?DR. BRITO(Virando-se para a mulher) E então? O que é que se faz com esta lua?BE(Irritada) Sei lá! Se soubesse, já lhe teria dado um destino, não acham?! Francamente!JORGE(Virando-se para a mãe) Não foste tu que mandaste fazer essa cena para a Joana, quando ela fez anos?BE(Virando-se para o filho) Fui. Foi ela que me pediu, sei lá bem porquê... Enfim, ideias da tua irmã...Aliás, foi ela que fez o desenho para eu levar ao marceneiro. Foi ela que quis! E insistiu, que eu lembro-me perfeitamente! Eu bem lhe disse que era uma ideia sem pés nem cabeça, mas sabes como a tua irmãera... Teimosa!...JORGE(Encolhendo os ombros) Foste tu que mandaste fazer aquela cena; agora, vê-te livre dela! O problema éteu. (Virando-se para o pai, em quando se levanta para sair) O problema é vosso.(Saem Jorge e o pai.)
  8. 8. CENA 4BE(Sozinha na sala, levanta-se devagar e ajeita o cabelo com a mão. Depois, lentamente, aproxima-se dobaloiço em forma de lua e fica a observá-lo por uns segundos. Virando-se para o público) Que hei-defazer com esta lua?!... ACTO II CENA l CENÁRIO B — Consultório do Psicólogo(O psicólogo, Dr. Gomes, está sentado à mesa, onde se vê o candeeiro aceso. Um f oco de luz incidesobre o cadeirão onde está sentado Jorge.)JORGE(Levanta-se, nervoso, dá uns passos e volta a sentar-se, roendo as unhas.) Aquela casa tá a pôr-memaluco, doutor Gomes! (Com ironia) Mais ainda do que já era...DR. GOMES(Acenando afirmativamente com a cabeça) Já é a terceira vez que dizes isso, hoje... Seria bom avançar-mos, Jorge. Precisamos de fazer progressos, lembras--te?JORGE(Sorrindo ironicamente) Progressos, pois... Progressos... Para si, que é psicólogo e não faz parte da minhafamília, se é que se lhe pode chamar família..., é fácil falar de progressos! É que não dá, percebe?DR. GOMES(Em tom paciente) O que é que não dá, Jorge?JORGE(Elevando um pouco o tom de voz) Na minha família não há progressos; só retrocessos! (A beira dodesespero) Tá tudo a andar pra trás! Tudo a andar pra trás...DR. GOMESExplica-te melhor.JORGE(Encolhendo os ombros) Não adianta.DR. GOMES(Com alguma autoridade na voz) Faz um esforço!JORGE
  9. 9. (Nervoso, passa as mãos pela cabeleira.) Por que razão é que hei-de ser eu a fazer um esforço, hein?! Pravariar, seria bom pedir um esforço aos meus pais! Eles é que pararam no tempo! Desistiram de tudo... Jánão são os meus pais, são zombies... (Elevando o tom de voz) Zombies, percebe?!DR. GOMES(Franzindo o sobrolho) Porque é que dizes que eles desistiram de tudo, Jorge?JORGE(Indignado) Porquê?! Porque é a verdade. (Elevando o tom de voz) A verdade! Não é disso que se trata?Não me pediu que dissesse a verdade? Pois aí a tem, a verdade nua e crua. Não gosta, paciência. Não pos-so fazer nada... (Com ironia) A não ser que me queira receitar umas pastilhas para ver tudo de outramaneira, tudo cor-de-rosa; cor-de-rosa não, que não é o meu género; pra ver tudo menos... negro. E isso!Arranje-me aí uns comprimidos fixes! Pode ser, quem sabe?, que possa voltar a ver o mundo às cores...E que, pra ser sincero, há muito tempo que não vejo uma cor na minha casa, na minha vida... (Pausa bre-ve) Lembro-me de que, quando éramos pequenos, a Joana e eu íamos à janela ver o arco-íris, nos dias cin-zentos... (Sorri tristemente) A Joana... era tão apanhada, a minha irmã... A Joana dizia que o arco-íris nas-cia sempre no quarto da avó Ju e que era dali que crescia e se estendia até ao outro lado do mundo... Edizia que a avó era a fada das cores; que era ela quem as tinha inventado...DR. GOMESSabes que é normal os teus pais estarem deprimidos, não sabes, Jorge?JORGEOs meus pais não estão deprimidos, doutor Gomes; para isso precisavam de se encontrar no estado sólido,como a maioria das pessoas... Eles passaram para o estado gasoso, tá a ver? (Pensativo, como quem falasozinho) São fantasmas feitos de vapor. Uma espécie de nuvens... Há alturas em que fico à espera que sedesfaçam e caia uma carga de água lá em casa; que haja um dilúvio que leve tudo... que lave tudo... (Ele-vando o tom de voz) Uma enxurrada que arraste pra bem longe a lua!DR. GOMES(Incrédulo) A lua?!JORGEA lua da Joana... A minha irmã, com as paranóias dela, mandou fazer um baloiço branco, em forma demeia-lua, para suspender do tecto do quarto dela, com uma corrente. Psicadélico, não é? A Joana eraassim... Houve um tempo em que eu pensava que ela era original, tipo artista, tá a ver? Depois...DR. GOMESDepois o quê?JORGE(Encolhendo os ombros) Passou-se. E eu também tou quase a passar-me. Mas pior do que eu tá o meupai! O meu pai tá numa de querer, à força, perceber o que aconteceu... Passa a vida agarrado a umascenas que a minha irmã escreveu e lê aquilo os dias inteiros!DR. GOMES
  10. 10. O teu pai contou-me que a tua irmã mantinha correspondência com uma amiga que já tinha morrido... Eradisso que estavas a falar, Jorge?JORGEIá. Sabe, quando o meu pai me falou daquelas cartas, fiquei a pensar que é preciso tar muito maluco... oumuito só para se escrever cartas a quem já morreu... (Muito triste) E o cúmulo da solidão... (Pausa breve)E eu não fazia a mínima ideia de que a Joana... enfim, de que a Joana se sentia assim; não imaginava queela tava na pior...(Pausa breve) Ela até não era feia; tinha sempre notas fixes; saía-se bem no desporto,chegou mesmo a ganhar umas medalhas, parece-me; tinha amigos... (Desolado) Não percebo!DR. GOMES(Sorrindo) Os teus pais também não. Talvez seja por isso que o teu pai está a tentar compreender agora oque aconteceu na vossa vida, Jorge. Já que ninguém se deu conta do que estava, realmente, a suceder navossa casa, talvez ele precise de encontrar algumas explicações.JORGE(Indignado) Para quê?!DR. GOMESPara poder continuar a viver, Jorge...JORGE(Levanta-se, dá uns passos e volta a sentar-se. Sorri com amargura.) Sabe o que é mais ridículo? Quandoa Joana era viva, não dávamos por ela lá em casa; agora, sei lá... Dá ideia de que está mais viva do quenunca! (Pensativo) É estranho como o caraças, mas até parece que a Joana continua lá em casa, em todasas divisões da casa! Todas! Até...DR. GOMESAté... onde, Jorge?JORGE(Tentando disfarçar a comoção) Até no meu quarto...DR. GOMESIsso não é assim tão estranho como te parece. Acontece nas famílias que sofreram uma perda im-portante...JORGE(Incrédulo) Acha?!DR. GOMES(Acenando afirmativamente com a cabeça) Tenho a certeza disso.JORGE E... como é que se faz para voltar tudo ao normal?DR. GOMES(Sorrindo) Define «normal».JORGE
  11. 11. (Coçando a cabeça, atrapalhado) Eu sei que nunca fomos lá muito normais... Mas também não éramoscomo hoje! Pelo menos, vivíamos! E estávamos no estado sólido (sorri), embora a minha mãe tenha vivi-do sempre no gasoso, um gasoso tipo perfumado, no meio das futilidades lá da loja dela, no meio dasdondocas, das betas, das tias... A minha mãe nunca teve os pés, ou melhor, os saltos altíssimos que elausa, na terra. Viveu sempre aí a uns dez centímetros do solo... Já o meu pai é diferente, aliás, era! Agoratambém não tá cá. Transformou-se em urso, hibernou. Tá a viver numa caverna escura, no meio das car-tas da Joana. (Pensativo) Acho que... tem medo de acordar...DR. GOMESE tu, Jorge?JORGEEu o quê?DR. GOMESQueres acordar?JORGE(Elevando o tom de voz) Lógico que quero!DR. GOMESE o que é que gostarias de ver, ao acordares?JORGE(Pensativo) Acho que... (Pausa breve) Gostaria de acordar noutro lugar.DR. GOMESQue lugar?JORGE(Em voz alta) Num lugar qualquer, desde que não fosse a minha casa... Ou então, na minha casa, masdepois de uma grande mudança.DR. GOMESO que é que mudarias, em primeiro lugar, Jorge?JORGETiraria lá de casa a lua... (Sorri com tristeza.) Podia ser que, assim, a Joana desaparecesse com ela e ficas-se, para sempre, no céu...
  12. 12. ACTO III CENA l CENÁRIO A - Sala da casa de Joana Mantém-se a iluminação do ACTO I.(João Pedro e Luís estão sentados nos dois cadeirões, à espera do dono da casa.)JOÃO PEDROPois é, Luís, não esperava nada encontrar-te aqui, meu!LUÍSEu também fiquei admirado quando o pai da Joana me ligou a dizer que gostava de conversar comigo...JOÃO PEDROO doutor Brito pareceu-me muito em baixo de forma, ao telefone...LUÍSA mim também. Mas é normal, não é?...JOÃO PEDROIá.LUÍS(Intrigado) O que será que ele nos quer dizer, João Pedro?JOÃO PEDRODeve ser sobre a Joana. Só pode.LUÍSLógico...JOÃO PEDRO(Pensativo) Sabes, quando ele me telefonou, fiquei um bocado à rasca, meu... No dia do funeral da Joana,fui cumprimentá-lo, mas nem sequer fui capaz de lhe dar os meus sentimentos... Fui um básico...LUÍSOh! Ele deve ter compreendido que a gente não sabia o que lhe havia de dizer. Além do mais, isso de daros sentimentos é uma cena que eu nunca percebi muito bem, João Pedro.JOÃO PEDROEu também não! (Ri-se.) Aliás, os sentimentos são das poucas coisas que a gente não pode dar, não é?(Sorri com tristeza.) Até é pena... Às vezes, dava jeito... A Joana, por exemplo, tinha montes de senti-mentos! E mostrava-os!LUÍS(Com voz triste) Eu sei! (Pausa) Eu cá sempre tive dificuldade em mostrar o que sinto. Acho que é umacoisa hereditária: os meus pais também são assim...
  13. 13. JOÃO PEDROOs cotas são todos assim! Ou melhor, só mostram os sentimentos quando tão furiosos... Nessas alturas,toda a gente fica a saber o que eles sentem... De resto, fecham-se. (Pausa breve) Acho que têm vergonhade mostrar que sentem orgulho dos filhos; de dar a entender que os amam...LUÍS(Sorrindo) Continuas um intelectual, meu! Aposto que, desde que entraste para o secundário, já leste ospoetas e os filósofos todos! Ainda por cima, foste pró quarto agrupamento... (Ironicamente) Ouve lá, ...ainda andas a reler Marx?JOÃO PEDRO(Um pouco embatucado) Tenho lido bastante... E é por isso que...LUÍS(Em tom de brincadeira) Só sabes que nada sabes e... do que sabes não tens a certeza!JOÃO PEDRO(Descontraído) Errado! Só sei que nada sei e... o que sei ainda não me serviu pra nada, meu... Querodizer, serviu apenas pra mostrar ao professor de Filosofia que não sou tão básico como pareço. (Ri-se.)LUÍS(Pensativo) Eu gramava que algum filósofo soubesse explicar por que razão é que uma pessoa como aJoana decide destruir-se... É um enigma!JOÃO PEDRO(Pausadamente) A Joana não decidiu destruir-se, Luís. Ela simplesmente, deixou-se levar, meu... Lem-bras--te daquela peça de teatro que fizemos a propósito do que aconteceu com a Marta, «Os amigos daonça»? Pois é... As companhias que ela escolheu não eram recomendáveis, como costuma dizer a minhamãe...(Sorri.) Acho que tou a ficar velho! Já cito a minha mãe pra lhe dar razão e tudo! Fogo!... Tou a ficarsenil...LUÍS(Consultando o relógio de pulso) E o pai da Joana? Tá atrasado...JOÃO PEDROEle é médico... Sabes como é...LUÍS(Levanta-se e vai ver o baloiço em forma de meia-lua.) O que será esta cena, meu?JOÃO PEDRO(Levanta-se e vai ter com o amigo.) Não faço ideia, Luís! Parece um... baloiço.LUÍS (Com ironia) Até aí, já tinha chegado...JOÃO PEDRO
  14. 14. (Baixando-se para mexer no baloiço) Não sei porquê, mas tenho um feeling de que isto devia ser da Joa-na. Ela era tipo artista... Um bocado original... Fazia uns desenhos bué fixes. Até me deu uns... Tinhatalento!LUÍS(Intrigado) Mas o que é que isto estará aqui a fazer no chão da sala?! CENA 2DR. BRITO(Entra na sala, poisa uma pasta no chão e cumprimenta os dois jovens, que imediatamente se dirigem aele para lhe estenderem a mão.) Desculpem o meu atraso! Estava um trânsito infernal! (Senta-se no sofá.)Vocês querem tomar alguma coisa?JOÃO PEDRO e LUÍS(Em simultâneo e com um certo acanhamento) Não, obrigado.DR. BRITOSentem-se! Sentem-se! Desculpem, uma vez mais, ter-vos feito esperar... (Pausa breve) Devem ter ficadoum pouco... surpreendidos com o meu telefonema, suponho.JOÃO PEDROUm pouco, sim, doutor Brito...LUÍSEnquanto esperávamos, não resistimos e fomos dar uma olhada por aquela... coisa que ali está no chão.(Aponta o baloiço.) Achámos... curioso.DR. BRITO (Com um sorriso triste) É a lua da Joana...JOÃO PEDRO e LUÍS (Intrigados) A lua da Joana?!DR. BRITOÉ um baloiço que a Joana pediu que mandássemos fazer para ela pendurar no quarto. Era lá que ela sesentava para ler, para escrever, para pensar... Quando estava alegre, punha a lua em quarto crescente;quando estava triste, punha-a em posição de quarto minguante. (Pausa breve) Eu sei isto porque tenhoandado a ler umas cartas que a minha filha deixou... Devo confessar que, se não fosse pelas cartas, nãosaberia o significado daquela meia-lua (com muita tristeza); aliás, não saberia praticamente nada...JOÃO PEDROA Joana deixou umas cartas para a família, foi?DR. BRITONão. A Joana escrevia, quase diariamente, para a melhor amiga dela...LUÍSA... Marta, que era vossa vizinha e andou na nossa turma?
  15. 15. JOÃO PEDRO(Incrédulo) A que morreu com uma overdose.DR. BRITOEssa mesmo.LUÍS(Surpreendido) E a Joana não mandou essas cartas à Marta porquê, doutor Brito?DR. BRITOPorque a Marta já tinha falecido... (O João Pedro e o Luís olham-se espantados.)JOÃO PEDRO (Perplexo) A Joana escreveu para...?!DR. BRITOPara alguém que já tinha morrido, sim. (Pausa) A minha filha... (emocionado) sentia-se muito só... Muitosó! Era com a Marta que ela mais convivia. Cá em casa, era com a avó que se abria... (Pausa) Depois damorte da Marta e da avó, a Joana entrou em ruptura...LUÍS(Desolado) Não fazia ideia... Sabia que ela andava meio estranha, mas...JOÃO PEDRO(Emocionado) Eu, a certa altura, também percebi que ela estava com problemas, mas já foi tarde demais... Lamento...DR. BRITOEu também! Como lamento! (Pausa) Vocês eram apenas colegas de escola, amigos... Eu... era o pai dela!(Muito desolado, abanando a cabeça negativamente) E também não me apercebi a tempo do sofrimentoda minha filha... (Pausa breve) Mas eu pedi que cá viessem hoje para vos dizer que encontrei muitas coi-sas agradáveis a vosso respeito nas... cartas da Joana. Para ser sincero, não sei se, moralmente, tinha odireito de ler essas cartas, mas a verdade é que, vendo-as no quarto dela, não resisti. Fiquei tão perdido,tão desorientado, que precisei urgentemente de encontrar um fio da meada.LUÍS(Timidamente) E... encontrou?DR. BRITOEncontrei algumas respostas para as minhas perguntas, sim... Mas só algumas... A Joana escrevia as car-tas como quem faz um diário, sabem? Assim, acabei por tomar conhecimento de uma data de coisas quese iam passando na vida dela, desde a morte da Marta...LUÍS(Sorrindo com tristeza) Ela era tão boa aluna!...JOÃO PEDRO(Com convicção) Além disso, toda a gente gostava dela!DR. BRITO(Desolado) Só que a Joana, pêlos vistos, não sentiu isso... (Muito consternado) Eu não lhe fiz sentir isso!
  16. 16. LUÍS(Cabisbaixo) Eu acho que também não..JOÃO PEDRO(Em voz baixa) Provavelmente, nem eu.DR. BRITOMas eu não vos chamei aqui para vos deprimir! Não fiquem assim, por favor! Conforme vos disse, a Joa-na gostava de vocês e creio que, no fundo, ela sabia que vocês eram amigos dela. Vocês não têm culpa denada. Nem pensem numa coisa dessas! Só quis... enfim, só quis conhecer-vos um pouco melhor, conver-sar um pouco convosco... E, claro, agradecer-vos a vossa presença no funeral da Joana. (Pausa breve) Naverdade, fiquei surpreendido com a quantidade de jovens que lá apareceram! Foi muito impressionante...Não me lembrava de ter conhecido algum deles... Mas, claro, eu nunca tinha tempo para ir à escola...(Elevando um pouco o tom de voz) Nunca tinha tempo para nada! Nunca chegava a horas a lugar nenhum!E o mais ridículo é que passava a vida a oferecer relógios à minha filha... Como se eu, nessa altura, tives-se alguma noção do que o tempo significava...LUÍSO meu pai também é mais ou menos assim... Trabalha numa multinacional e está sempre a viajar...JOÃO PEDROO meu não viaja muito, mas também só o vemos quando ele chega para jantar, lá pràs nove e tal...DR. BRITOEu queria pedir-vos uma coisa, embora não me sinta com esse direito...JOÃO PEDRO e LUÍS (Em simultâneo) Diga!DR. BRITOQueria pedir-vos que se lembrem sempre do que aconteceu com a Joana, para que, um dia, não tenham delamentar uma tragédia como a que se abateu sobre mim e a minha família... Se, um dia, tiverem filhos,lembrem-se de que eles não vão ficar convosco para sempre... (Pausa breve) Era isto que eu queria dizer-vos.LUÍS(Levantando-se) E... aquela lua? Vai ficar por aqui?DR. BRITONão sei. Parece que, nesta casa, ainda ninguém sabe o que fazer com essa lua...
  17. 17. ACTO IVCENA lCENÁRIO B - Consultório do PsicólogoMantém-se a iluminação do ACTO 2DR. GOMES(Sentado à mesa, virando-se para Be) Finalmente, tenho o prazer de a conhecer, minha senhora! Já cáesteve o seu marido... e, claro, o Jorge, mas esse já o conheço há uns tempos, como sabe...BEE como vai o meu filho, doutor Gomes? Parece-me tão... desorientado!DR. GOMESEu diria... revoltado. Mas a revolta do Jorge já vem de longe.BE(Indignada) Não sei porquê! Teve sempre tudo o que quis!DR. GOMES(Sorrindo) Talvez por isso mesmo.BE(Abanando a cabeça negativamente) Não compreendo! Aliás, ultimamente, tenho a sensação de que jánão compreendo nada nem ninguém!DR. GOMESQuer exemplificar, senhora dona Isabel?BEPor favor, trate-me por Bé, como toda a gente. Nunca gostei do meu nome, sabe?DR. GOMES(Sorrindo) Fiquei agora a saber... Mas estava a dizer...BEAinda no outro dia houve uma discussão lá em casa por causa de uma coisa sem importância. (Pausa bre-ve) A minha filha, a Joana... tinha um baloiço no quarto dela; era uma coisa especial para ela, julgo... Foiela quem me pediu que o mandasse fazer, de acordo com as indicações que me deu. Quando a Joana...desapareceu...DR. GOMES(Corrigindo delicadamente) Morreu...BE(Morde o lábio inferior e respira fundo.) Sim, claro... Bem, como deve calcular, tivemos de dar um desti-no às coisas dela; ou melhor, quem fez isso fui eu, o que já era de esperar...
  18. 18. DR. GOMESPorquê?BE(Irritada) Ora! Porque o meu marido não teve coragem de decidir para onde iriam as coisas da filha! Sefosse por ele, não nos tínhamos desfeito de nada...(Elevando um pouco o tom de voz) E claro que era preciso decidir o que fazer com as coisas da Joana!DR. GOMESMas não deixa de ser um processo muito doloroso...BE(Nervosa) Evidentemente!DR. GOMESMas continue, por favor.BEFui eu que dei um destino a tudo, quero dizer... a quase tudo. Ficou...DR. GOMESO tal baloiço...BEPois foi. (Pausa breve) Sabe, é um baloiço muito original: tem a forma de uma meia-lua pintada de bran-co; de resto, todo o quarto da Joana era branco, completamente branco, até... enfim, até ela começar a...desnortear-se...DR. GOMESE a discussão foi sobre essa lua...BEPois foi. Não sabia o que fazer dela e deixei-a no corredor lá de casa, até encontrar uma solução... (Pausabreve) Ora, o meu filho, irritadiço como tem andado, embirrou com aquilo e resolveu levar o baloiço paraa sala! (Elevando o tom de voz) Uma coisa sem cabimento...DR. GOMESE como é que a BÉ interpreta essa atitude do Jorge?BE(Irritada) Sei lá! Foi para nos enervar ainda mais, a mim e ao pai! Como se não bastasse o que nos acon-teceu...DR. GOMES(Corrigindo delicadamente) O que vos aconteceu a todos! O Jorge também sofreu e está a sofrer muito...BE(Cabisbaixa) Sim, eu sei.DR. GOMES
  19. 19. E não lhe ocorreu que o Jorge pode ter levado o baloiço da irmã para a sala para chamar a vossa atençãopara alguma coisa que ele gostaria de ver mudada?BE(Intrigada) O quê?DR. GOMES(Pausadamente) Esse baloiço... essa tal lua... de certa maneira, representa a Joana, não será?BEBem, talvez... (Pausa breve) Nunca tinha pensado nisso, mas faz algum sentido, sim...DR. GOMESEu acho que faz muito sentido. Pelo que tenho ouvido acerca da sua filha, a visão que tenho dela podebem ser materializada nessa tal meia-lua branca: a outra metade, como no astro, fica invisível, mas pode-mos visualizá-la facilmente... Ora, por aquilo que o seu marido me transmitiu, a Joana sentia-se muito...incompleta. Muito... só. (Pausa breve) Faltava-lhe a tal metade...BE(Perplexa) Qual?!DR. GOMES(Sorrindo com condescendência) Vejo que ainda não pensou nisso, Be, mas há-de chegar lá...BE(Abespinhada) Mas eu dei atenção à minha filha, ora essa! Atenção e muitos mimos! (Irritada) Se o meumarido lhe disse o contrário, mentiu!DR. GOMESNão, o seu marido nem me falou de si...BE(Com ironia) Era de esperar... Ele vive obcecado com a Joana... Só pensa nela, só fala dela... Para ele,nada mais existe... Esquece-se de que era ele quem passava menos tempo a dar-lhe atenção!...DR. GOMES(Pausadamente) Não, Bé. Está enganada. O seu marido nunca mais se vai esquecer disso... É, aliás, issoque mais lamenta, para além do que aconteceu à Joana, evidentemente.BE(Preocupada) E... quanto ao Jorge? Como é que posso ajudá-lo?DR. GOMESPrimeiro, se me permite um conselho, cada um de vós terá de aprender a aceitar a perda que sofreu... Eaceitar que cada um levará o seu tempo até isso acontecer e reagirá de forma diferente até que essemomento venha...BE(Com alguma ironia) O seu conselho é fácil de perceber, mas difícil de pôr em prática...DR. GOMES
  20. 20. E para isso que podem contar com a minha ajuda.BE(Emocionada, elevando o tom de voz) Mas como é que havemos de aceitar uma brutalidade como a quenos atingiu?! Como vamos viver até conseguirmos aceitar?!DR. GOMES(Sorrindo com ternura) Um dia de cada vez... Procurando deixar para trás o que não se pode recuperar eretendo aquilo que vale a pena...BE(Com tristeza) Um dia de cada vez... (Pausa breve) Um dia é um século, naquela casa... (Sorrindo comironia) E por isso que nós os três temos envelhecido tanto... Até o Jorge!DR. GOMESEnvelhecer não é assim tão mau, desde que, ao mesmo tempo, se vá crescendo... E eu acredito que têmcrescido. Todos! São todos sobreviventes de uma tragédia e isso prova que têm energia para continuar alutar.BE(Sorrindo com tristeza) De facto, sobrevivemos todos... (Suspira longamente.) Nem sei como! (Pausabreve) Só o Lucas não sobreviveu à morte da Joana...DR. GOMES(Intrigado) O...BEEra o cão da Joana. (Sorrindo com ternura) A minha filha apareceu, um dia, com ele, todo sujo, esquelé-tico, faminto... Eu confesso que não o queria lá em casa, mas a Joana insistiu tanto!... Na verdade, dedi-cou-se a ele como se o tivesse desde sempre! (Pausa breve) E o cão, de facto, era-lhe muito chegado.Queria ir com ela para todo o lado...DR. GOMES(Sorrindo) Os cães costumam ser assim com quem lhes quer bem, com quem lhes dá atenção...BEPois é... E o pobre do Lucas não resistiu às saudades... (Pesarosa) Deixou de comer... Já nem queria sair àrua... Deixou-se abater por completo. Até me fez impressão! (Pausa breve; suspira.) Sabe, chego a pensarque o Lucas era o único amigo da Joana, o seu único amigo verdadeiro. Os outros...
  21. 21. ACTO V CENA l CENÁRIO A - Sala da casa de Joana Mantém-se a iluminação do ACTO I(O Dr. Brito e o Diogo estão sentados na sala. Sobre a mesa de apoio ao sofá, há dois copos de refrescoe as cartas da Joana, presas por um clipe.)DR. BRITOFolgo em saber que estás muito melhor, Diogo! Já há muito tempo que não te via... A tua mãe tem-medado notícias tuas, quando nos cruzamos à entrada do prédio ou no elevador.DIOGO(Acabando de dar um gole no refresco) Estive fora uns tempos, como deve ter sabido... Estive numa clí-nica de desintoxicação... Desta vez, acho que correu tudo bastante bem, doutor Brito. Sinto-me, realmen-te, melhor.DR. BRITO(Sorrindo com satisfação) E muito bom ouvir-te dizer isso, rapaz! Parabéns!DIOGOBem, eu não sei se tou completamente... curado. (Pausa breve) Temos de esperar para ver... Pra já, possodizer que sinto mesmo que tou em recuperação. Nas outras clínicas, foi uma perda de tempo... (Pausabreve) De tempo e de dinheiro!...DR. BRITOCalculo... Mas isso agora não importa; o que interessa é que estás no bom caminho, não é verdade?DIOGO(Timidamente) Espero bem... (Pausa) Sabe, eu já era pra cá ter vindo... Nem fui ao funeral nemnada...(Pausa breve) A droga é lixada!... (Cabisbaixo) Tava completamente desatinado, percebe?DR. BRITOEstavas doente, foi por isso, com certeza. De qualquer maneira, não penses mais nisso, Diogo! Já lá vai!DIOGO(Erguendo o sobrolho, admirado) Já?.DR. BRITOBem, foi uma maneira de falar... É claro que ainda estamos todos muito afectados, como podes com-preender... Já passaste pelo mesmo com a tua irmã...DIOGO(Cabisbaixo) Já... Só que eu nunca pensei que a Joana...
  22. 22. DR. BRITONinguém pensou. Foi esse o nosso erro...DIOGO(Inclinando-se no cadeirão para ver o baloiço que continua no mesmo lugar) E aquilo ali? Não tava noquarto da Joana?DR. BRITOEstava sim, rapaz... Era a lua dela... Não sabemos o que fazer dela... A Joana estava tão ligada àquelebaloiço!DIOGO (Surpreendido) Tava?DR. BRITOSim. (Pausa breve) Eu só descobri isso... isso e muitas outras coisas importantes, depois de ler o que eladeixou escrito...DIOGO(Surpreendido) A Joana deixou uma carta... assim tipo carta de... despedida, foi? Não imaginava...DR. BRITONão, Diogo. A Joana escrevia, nos últimos anos, cartas, muitas cartas...DIOGO(Surpreendido) Escrevia-lhe cartas... a si?!DR. BRITONão a mim... (Pausa breve) Eram dirigidas j... tua irmã.DIOGO(Incrédulo) À minha irmã?! À Marta?! E ela já tinha morrido?DR. BRITOJá, rapaz, já... Eu sei que parece estranho, mas a Joana sentia-se muito desamparada, percebes? Não tinhacom quem falar, depois que a tua irmã faleceu; assim, foi a maneira que ela encontrou de se sentir menossó...DIOGO(Indignado) Fogo! Nunca pensei! Ela devia tar na pior! (Pausa) A Joana nunca aceitou a morte da minhairmã... Eu fartei-me de lhe dizer para ela não pensar mais naquilo que tinha acontecido, mas ela teimavaem puxar o assunto... (Pausa) Mas... e ela escrevia a contar o quê?...DR. BRITOO que se ia passando de importante na vida dela, na cabeça dela... Foi assim que comecei a conhecer aminha filha, Diogo... Só assim! (Pausa breve) E vi que tu foste importante para ela...DIOGO(Acanhado) Nem por isso... Acho que a Joana só queria ver-me para falar da Marta... Sei lá... Julgo quegostava de ir lá a casa para, de alguma forma, se sentir mais perto da Marta.DR. BRITO
  23. 23. (Pensativo) Talvez. Elas eram muito amigas...DIOGOÉramos amigos os três... Amigos de infância... (Sorri.) Amigos de sempre! Quando éramos pequenos eíamos os três à praia com a minha mãe, divertíamo-nos à brava!... Ríamo-nos por tudo e por nada! Gozá-vamos com tudo... (Pausa) Mas, depois, eu não soube ser o amigo que ela precisava. (Pesaroso) Agora,sei que a devo ter decepcionado muito...DR. BRITONão foste só tu, Diogo. (Eleva um pouco o tom de voz.) Eu também! E nem fazíamos ideia disso, não é?(Suspira.) Às vezes, sem darmos conta, estamos tão longe daqueles que amamos...DIOGO(Acenando afirmativamente) Pois estamos...DR. BRITO(Pausadamente) Temos de aprender com os nossos erros, sobretudo os que nos custam mais caro, não é?DIOGO(Cabisbaixo) E...DR. BRITOQuando quiseres desabafar, podes contar comigo, Diogo, estás a ouvir? Não faças cerimónia! (Pausa bre-ve) Sabes, eu agora tenho uma outra noção do tempo; uma outra noção das prioridades...DIOGO(Acanhado, levanta-se) Bem, eu até gostava de ficar aqui mais tempo a conversar consigo, mas fiquei depassar em casa de uma amiga...DR. BRITO(Levantando-se) Claro, claro, compreendo. Eu acompanho-te à porta.(Saem ambos.) CENA 2(Entram na sala BÉ e Alice, mãe de Diogo.)BE(Apontando um dos cadeirões) Sente-se, Alice. (Sorrindo com simpatia) Que agradável surpresa receber asua visita!ALICE(Sentando-se) Eu não queria incomodar. Vim só para saber do meu filho. O Diogo deixou-me um recadoem casa a avisar que vinha até cá. Parece que foi o seu marido quem lhe ligou para terem uma conver-sa...(Com um certo acanhamento) Se calhar, vim em má altura, Be...BE
  24. 24. (Sentando-se no sofá) Não, que ideia! (Sorrindo de satisfação) Gosto até muito de a ter cá! Há que tem-pos que não nos víamos! E moramos no mesmo prédio!... (Pausa breve) Não quer tomar um chá?ALICENão, muito obrigada, Be. (Sorri com algum nervosismo) Não posso demorar-me. Era mesmo só para verse o Diogo ainda cá estava...BEO seu filho já saiu; aliás, cruzámo-nos à porta de casa, quando eu vinha a chegar do supermercado. (Pau-sa breve) Pareceu-me com boa cara, o Diogo!ALICE(Sorrindo timidamente) Pois... Bem, de facto, ele anda muito melhor, graças a Deus! (Pausa breve) Estaúltima clínica onde esteve fez-lhe muito bem, sabe? E claro que, como já se sabe, não se pode dizer que jáesteja completamente curado, infelizmente...BE(Assentindo com um gesto de cabeça) Pois... Estas coisas são mesmo assim. (Em tom optimista) Mas oque importa é que ele está a recuperar! (Faz pausa breve e um sorriso triste.) Ao menos ele!...ALICE(Consternada) Não calcula como lamento o que se passou com a Joaninha! Gostava tanto dela... A Joanaera a melhor amiga da minha Marta... (Sorrindo) Eram inseparáveis! (Pausa) Pode crer que sei bem o quevocês têm passado... (Muito triste) E tão duro!BEPois é, Alice... Duro de mais... (Pausa breve) Ainda andamos todos atarantados; completamente desnor-teados... (Emociona-se. Tira um lenço de assoar da algibeira e limpa os olhos.) Às vezes, dá-me a ideiade que estou a ouvir a Joana... Dou por mim, muitas vezes, a perguntar à mulher-a-dias por que razão nãopôs um lugar à mesa de jantar para ela... (Suspira longamente.) É horrível! (Indignada) É tudo tão injusto!ALICEE...BESabe, temos andado a fazer terapia familiar com um psicólogo que nos foi recomendado por uma amiga, odoutor Gomes.ALICE(Um pouco surpreendida) Ai sim? Parece-me uma óptima ideia, Be, sinceramente. Era isso que o meu ex-marido e eu devíamos ter feito quando... quando a Marta desapareceu...BE(Corrigindo delicadamente) Morreu; quando a Marta morreu, Alice. O doutor Gomes diz que nos de-vemos esforçar por chamar as coisas pelo nome; que é fundamental enfrentarmos a verdade... (Pausa bre-ve) Eu sei que não é nada fácil... Também ainda não fui capaz de aceitar o que nos aconteceu... E o meumarido ainda menos! Passa a vida agarrado a umas cartas que a Joana deixou... E, ultimamente, só quer é
  25. 25. ver se contacta todos os amigos da filha para... olhe, se quer que lhe diga, nem sei bem para quê! (Pausabreve) Não se conforma, sabe? Não é que esteja conformada, que não estou! Mas, enfim, acho que estou aconseguir reagir um pouco melhor do que ele. (Cabisbaixa) A verdade é que ainda não somos capazes deter uma vida normal... Acho que nunca mais teremos!ALICEE o vosso filho? Como vai ele?BE(Encolhendo os ombros) Olhe, nem sei que lhe diga... (Pausa breve) O Jorge está muito revoltado, com-preende?ALICECompreendo perfeitamente...BEAinda há pouco tempo, resolveu trazer aqui para a sala o baloiço que a Joana tinha no quarto dela... Nãosei o que lhe deu! (Apontando o baloiço) Está a vê-lo ali? (Alice vira a cabeça na direcção do baloiço.)Ainda não sabemos que destino dar-lhe. (Sorrindo com ternura) A Joana gostava tanto daquele baloiço...(Pausa breve) Era muito criativa, muito original, a minha filha... (Suspira longamente.) Como elamudou!... (Chocada) Como é possível uma transformação tão grande?!ALICETambém não tenho respostas, Be... Com a Marta foi a mesma coisa. E tudo tão rápido que quase nem dápara nos apercebermos! (Pausa breve) Há jovens a quem sucede tanta coisa em tão pouco tempo!...Suponho que a Marta e a Joana até nisso foram gémeas, como elas gostavam de chamar uma à outra,quando eram pequenas... (Sorri com ternura.) Quem poderia dizer que uma coisa destas lhes viria a acon-tecer?!BE(Pensativa) A vida é tão complicada para os jovens de hoje, não é, Alice? (Pausa breve) Nunca foi muitofácil ser-se adolescente, bem o sabemos, mas agora há tantas solicitações para coisas terríveis! Coisas quenem sequer nos passam pela cabeça... Se os pais não estiverem muito atentos, acabam por ter surpresasmuito desagradáveis... Falo por mim, que andava sempre tão atarefada com o meu trabalho lá na loja... Eo meu marido, então, nem se fala!... (Pausa) Julgávamos que estava tudo a correr bem...ALICENunca nos passa pela cabeça que certas coisas aconteçam aos nossos filhos... Vamos à escola, falamoscom os professores... Analisamos as notas... Vêmo--los sair, muito satisfeitos, com os amigos... Achamo-los normais, saudáveis... (Acabrunhada) Mas, na verdade, nunca me lembrei de perguntar à minha filha seela se sentia feliz... (Indignada) Como é que ela não haveria de sentir-se feliz?! Era jovem, bonita, tinhaboas notas, estávamos sempre a comprar-lhe o que ela pedia! (Sorrindo com tristeza) E era tão exigente, aMarta... Mais até do que o Diogo...BE
  26. 26. Cá em casa, era o contrário... O Jorge pareceu--nos sempre mais... extravagante. Enfim... (Suspira.)ALICEBem, vou andando, Be. (Consulta o relógio de pulso.) JÁ é tarde e não quero que o Diogo fique muitotempo sozinho em casa... O médico dele pediu que ficássemos atentos, naturalmente, sem o pressionar-mos! (Levantando-se) Tenho de ir. Obrigada por este bocadinho, Be! (Sorrindo satisfeita) É tão bom con-versar com quem pode entender-nos!BE(Levantando-se) Eu acompanho-a. (Saem ambas.)CENA 3(O Dr. Brito e Be estão sentados: ele no sofá; ela no cadeirão mais distante. Ela lê uma revista.)DR. BRITO(Atende uma chamada no telemóvel e a mulher deixa de ler a revista e Jïca a olhá-lo atentamente.) Sim,filho... Não vieste jantar a casa... Com quem? Ah, sim, já sei... Está bem, Jorge, mas não venhas muitotarde, filho, amanhã tens aulas cedo... Espera, comeste alguma coisa, ao menos? Está? Está?... (Virando-separa a mulher) Desligou!BEPor onde é que ele anda?DR. BRITODisse-me que estava com o Rocha e o Almeida...BE(Preocupada) E ainda não jantou?! Já passa das dez!DR. BRITO(Suspira e levanta-se para ir dar uma olhada no baloiço da Joana. Em seguida, volta para o seu lugar esenta-se.) Sabes, Be... (Elevando o tom de voz) Be!BE(Enfadada por ter de interromper novamente a leitura da revista) O que foi agora?! Será que não possoficar um pouco sossegada, depois do jantar? Tive um dia péssimo, na loja!DR. BRITO(Delicadamente) Desculpa estar a interromper a tua leitura, mas estive a pensar nisto do... da... lua daJoana...BEE então?DR. BRITOAcho que tive uma boa ideia.BE(Desinteressada, volta a pegar na revista.) Óptimo. Faz o que entenderes.DR. BRITO
  27. 27. E... não queres saber o que pensei?BE(Enervada, pousando, novamente, a revista no colo) Não, não quero! A única coisa que me interessa éque se dê um destino àquilo. Tiveste uma boa ideia, não foi? Ainda bem. Desde que aquilo saia cá decasa, faz o que achares melhor. O Jorge já não pode ver aquele baloiço à frente, traumatizado já ele está;eu, francamente, também não. No quarto da Joana deixou de fazer sentido; aqui na sala, menos sentidofaz! Dá-lhe o destino que pensaste e pronto. Não se fala mais nisso. (Pega na revista, abre-a e começa aler, permanecendo assim até ao final da cena.)DR. BRITOE que, em conversa com o doutor Gomes, trocámos umas ideias sobre o assunto... Ele também achou quenão era... saudável, saudável foi a palavra que ele usou, mantermos este baloiço cá em casa, até porque,como disseste, o Jorge, ao trazê-lo para aqui, já transmitiu a sua mensagem... (Pausa breve) Estás a ouvir,Be?BE(Sem tirar os olhos da revista) Hum-hum.DR. BRITODe maneira que acabei por ter uma ideia que talvez faça algum sentido...BE(Continuando a ler) Hum-hum.DR. BRITO(Levanta-se e volta a sentar-se, inquieto.) Temos de dar mais atenção ao Jorge... Parece-me que, pela pri-meira vez desde que era ainda uma criança, está a tentar comunicar connosco... Não podemos forçar nada,claro, mas..., enfim, é preciso acompanhá-lo. (Sorri com ternura.) Ele julga que já é um homem, evi-dentemente, mas tem coisas ainda tão... infantis... (Suspira e aflige-se.) Não podemos perder também oJorge! (Pausa) Era bom começarmos a pensar no que havemos de oferecer-lhe pêlos anos, que o aniversá-rio dele é já no mês que vem. (Sorri com tristeza.) Uma coisa é certa: não vou comprar-lhe um relógio,que ele já tem um de que gosta... (Pausa breve) Tantos relógios que eu dei à Joana... Que disparates queeu fiz!... (Levanta-se e aproxima-se do baloiço, ficando a observá-lo.) Pois é... Vamos ter de organizar anossa vida. (Olha para o tecto e, em seguida, para o baloiço; depois, novamente para cima.) Há tantacoisa para mudar, não há?...(Cai o pano.)
  28. 28. ACTO VIO palco tem o pano caído. Do lado esquerdo, encontra-se o baloiço da Joana, no chão, sobre o qual incideum foco de luz branca.(A professora Margarida, directora de turma da Joana, vinda da plateia, sobe ao palco, coloca-se aocentro e fica à boca de cena.)PROFESSORA MARGARIDABoa tarde a todos! Eu sou a professora Margarida. Fui directora de turma da Joana, do sétimo ao nono anoe queria pedir a vossa máxima atenção para um convidado especial que aqui vamos ter hoje para nos dar oseu testemunho e que quis oferecer à nossa escola um presente muito... original. (Aproxima-se do baloiçoe aponta-o.) O que temos aqui é... um baloiço diferente dos normais e, para nós que fomos amigos daJoana, tem um significado profundo, visto que lhe pertencia e estava pendurado no seu quarto. (Pausabreve) Não vou dar-vos mais explicações sobre este baloiço branco em meia-lua, porque, para isso, va-mos contar com a presença do nosso convidado, que chamo agora ao palco, o doutor Brito, médico-cirurgião!(O público bate palmas, mas logo o Dr. Brito faz sinal para que parem, com um gesto da mão.)(Uma aluna do Secundário, surge, então, pelo meio da cortina. Traz na mão direita a flor branca queesteve sempre no cenário A e, solenemente, vai entregá-la ao Dr. Brito. Depois, em silêncio, dá-lhe umabraço apertado e, sempre devagar e olhando o Dr. Brito, afasta-se, entrando pelo meio da cortina.)DR. BRITO(Sorrindo com modéstia) Boa tarde! Sou o pai da Joana e chamo-me João Brito... (Pausa) Começo porvos confessar que é a primeira vez que venho aqui à vossa escola... (Com alguma ironia) Dantes, achavaque não tinha tempo... (Pausa breve) É bom reconhecer, no meio de vós, alguns dos amigos da minhafilha! Bem hajam por estarem presentes! (Pausa) Queria contar-vos uma história... (Pausa breve) Umahistória verdadeira! E, para contar uma história verdadeira, é preciso dizer toda a verdade... Por isso, aprimeira coisa que devo confessar-vos é que comecei a conhecer a minha filha, a Joana, no dia em que elamorreu... (Pausa breve) Para contar esta história, vou chamar quem nela participou. (Pausa. Em seguida,chama, um a um os actores da peça, por ordem de entrada em cena, os quais, de mãos dadas e com o Dr.Brito ao centro, fazem uma vénia prolongada.)
  29. 29. (Enquanto os actores se retiram do palco, ouve-se o refrão de uma canção de Luís Represas: «Há semprealguém que nos diz: Tem cuidado! / Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco. / Há semprealguém que nos faz falta à saudade...»)

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