A obra eterniza o poeta (f. pessoa)

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A obra eterniza o poeta (f. pessoa)

  1. 1. Eu sou uma antologia. ‘Screvo tão diversamente Que, pouca ou muita a valia Dos poemas, ninguém diria Que o poeta é um somente. Assim deve ser — qualquer, Enfim porque já o seja — Pode ser um, porque o é. O poeta deve ser Mais do que um, para poder. Depois para si o poeta Deve ser poeta também. Se ele não tem a completa  Diversidade Não é poeta, é só alguém… Eu, graças a Deus, não tenho Nenhuma individualidade. Sou como o mundo. Silva, M. P. et al. (2006). Poesia 1931-1935 e não datada , Lisboa: Assírio & Alvim, ed. Imagem: © Pedro Tavares
  2. 2. Olá, guardador de rebanhos - X «Olá, guardador de rebanhos, Aí à beira da estrada, Que te diz o vento que passa?» «Que é vento, e que passa, E que já passou antes, E que passará depois. E a ti o que te diz?» «Muita coisa mais do que isso, Fala-me de muitas outras coisas. De memórias e de saudades E de coisas que nunca foram.» «Nunca ouviste passar o vento. O vento só fala do vento. O que lhe ouviste foi mentira, E a mentira está em ti.» Pessoa, F. (1993). Poemas de Alberto Caeiro .“O Guardador de Rebanhos” . Lisboa: Ática, p. 40. “ O Guardador de Rebanhos”. 1ª publ. in Athena , nº 4. Lisboa: Jan. 1925. Imagem: © Pedro Tavares
  3. 3. ODE TRIUNFAL (excerto)   À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica Tenho febre e escrevo. Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.   Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! Em fúria fora e dentro de mim, Por todos os meus nervos dissecados fora, Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, De vos ouvir demasiadamente de perto, E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso De expressão de todas as minhas sensações, Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! (…) Eia! eia! eia! Eia electricidade, nervos doentes da Matéria! Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente! (…) Eia! eia! eia! Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita! Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô! (…) Giro dentro das hélices de todos os navios. Eia! eia-hô! eia! Eia! sou o calor mecânico e a electricidade! Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa! Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia! Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá! Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá! Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o! Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z! Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!                            Londres, 1914 — Junho. Pessoa, F. (1944). Poesias de Álvaro de Campos . Lisboa: Ática, p. 144. Imagem: © Pedro Tavares
  4. 4. Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.                  (Enlacemos as mãos). Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,                  Mais longe que os deuses. Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente                  E sem desassossegos grandes. (…) Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro                  Ouvindo correr o rio e vendo-o. Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as No colo, e que o seu perfume suavize o momento — Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,                  Pagãos inocentes da decadência. Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos                  Nem fomos mais do que crianças. E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio, Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti. Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,                  Pagã triste e com flores no regaço. 12-6-1914 Pessoa, F. (1946). Odes de Ricardo Reis . Lisboa: Ática, p. 23. Imagem: © Pedro Tavares
  5. 5. Escuto-me sonhar. Embalo-me com o som das minhas imagens… Soletra-me em recônditas melodias (…) O som duma frase imageada vale tantos gestos! Uma metáfora consola de tantas coisas! (…) Deixo os sonhos só... Tenho-os tão puros que eles excedem sempre o que eu espero deles. São sempre mais belos do que eu quero. Mas isto só o sonhador aperfeiçoado pode esperar obter. Tenho levado anos a buscar sonhadoramente isto. Hoje consigo-o sem esforço... A melhor maneira de começar a sonhar é mediante livros. Os romances servem de muito para o principiante. Aprender a entregar-se totalmente à leitura, a viver absolutamente com as personagens de um romance - eis o 1º passo. (…) Pessoa, F. (1990). Livro do Desassossego. (de Bernardo Soares). Coimbra: Presença, 1990. Imagem: © Pedro Tavares
  6. 6. Tributo Ó Fernando És 1.ª, 2.ª, 3.ª Pessoa Singular No plural   És tantos E tão sós Que fazem uma multidão Na solidão   És personagens Geniais Por pastagens e paisagens Urbanas, rurais Chãs, com Mensagens Mas sempre desiguais   Caia Chuva Oblíqua Faça Sol que seca És da Ítaca Ou de Meca?   Vais de Lisboa Para Durban E para a Escócia e Revisitas Lisbon   És daqui Vais p’ra acolá Ou de sonho Ou de navio Ou de Combóio Descendente Trofa-a-fafe  ú-ú   Umas vezes confiante Outras vezes decadente Como a lua nos seus quartos Minguante e crescente   Cambiante, Intermitente, Num eterno Desassossego A tua mente É um segredo.   Sei que é desajeitado E pequeno este tributo Para o teu grande legado. Ao menos não deixas luto   És vida em movimento Nas mentes das gentes De todo e qualquer Momento   Será a hora ?   (Ana Margarida Botelho da Silva, 30/11/2006)

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