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tanto essa pulsão de investigar. Eis porque, talvez,                 fato, é impossível falar com mais consistência do    ...
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Música         Havia uma relação curiosa entre o dinheiro e o sa-       Justiniano de Serpa e Antonio Martins, autores    ...
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Revista Enredo

  1. 1. MÚSICAGilmar de Carvalhoreescreve a biografia JÓIAS DE PAPELde Alberto Nepomuceno Um passeio pelo setor de obras raras da Biblioteca Menezes Pimentel JARBAS OLIVEIRA Ensaio Fotográficooutubro Um foco sobre a cultura popular2008N° 0DISTRIBUIÇÃOGRATUITA BIENAL DO LIVRO A aventura da mestiçagem no Ceará
  2. 2. A Cultura deve ser tratada como política pública de Estado. Este enten- dimento permite o acesso universal ao que é criado pelos agentes cul- turais e também a democratização na aplicação dos recursos públicosvoltados para a área.O Ceará foi o primeiro Estado brasileiro a criar uma secretaria de Estado e umConselho especificamente para a Cultura. Isso aconteceu em 1966, duranteo governo Virgílio Távora, o que já demonstrava o interesse do poder públicoem estimular e valorizar a produção cultural cearense. Hoje, mais de 40 anosdepois, o Ceará é pólo de uma das mais ricas e admiradas culturas popularesdo Brasil.Com o objetivo de resgatar o interesse de desenvolver a cultura, o Governodo Estado tem se empenhado em promover todas as formas de expressõesartísticas de seu povo. Uma das iniciativas inovadoras do Estado no setor é oprojeto Constituinte Cultural. Por meio dele, realizamos discussões públicase democráticas com a finalidade de elaborar o Plano Plurianual da PolíticaCultural do Ceará.A revista Enredo, lançada agora pela Secretaria da Cultura (Secult), foi criadajustamente com o objetivo de consolidar um espaço democrático para o de-bate de conceitos e reflexões sobre a nossa Cultura. Para que ela atinja a meta,é necessário que todas as pessoas dispostas a pensar a Cultura no Estadoparticipem de suas discussões, contribuindo, assim, não só para o fortaleci-mento da publicação, mas principalmente para o desenvolvimento culturalde nossa terra. Governo do Estado do Ceará
  3. 3. GOVERNO DO ESTADO DO CEARÁExpediente Governador UM ENCONTRO POSSÍVEL Cid Ferreira Gomes Vice-Governador E Francisco José Pinheiro ntre as inúmeras vertentes do jornalismo moderno, o chamado jornalismo cultural Secretário da Cultura Francisco Auto Filho está entre aquelas de mais complexa execução. A começar pela contradição interna Secretária Adjunta da Cultura que amarra os dois pólos do termo. Enquanto “jornalismo” aponta para uma atividade Delânia Azevedo Cavalcante Coordenação de Comunicação que se realimenta diariamente, que tem no imediatismo do dia-a-dia o motor de sua dinâ- Bianca Felippsen mica; “cultural” reflete os sentidos da “cultura”, aquilo que se acumula a longo prazo e que INSTITUTO DE ARTE E CULTURA DO CEARÁ se cultiva a seu tempo próprio. Portanto, sob esse aspecto, a expressão “jornalismo cultural” Presidente aparece como uma impossibilidade semântica. Some-se a isso, então, o sentido um tanto Maninha Morais Diretor de Ação Cultural fluido que os conceitos de “cultura” e de “jornalismo” assumem em cada redação - e na cabe- Roberto Galvão ça de cada editor - e chegaremos à enorme babel que cerca o tema. Diretora Administrativo - Financeira Valéria Sales Diretora de Museus Para os termos do mercado jornalístico, no entanto, “jornalismo cultural” passou a significar o Valéria Laena selo genérico sob o qual se abriga a cobertura mais específica da indústria cultural - e, mais Coordenação de Comunicação Alyne Cardoso recentemente, da indústria das celebridades – com raros (e cada vez mais raros) espasmos de uma cobertura humanizada, que trate a cultura para além do imediatismo da agenda da ENREDO indústria e das leituras superficiais e recorrentes sobre a vida cultural de uma comunidade. Esta é uma publicação da Assessoria de Comunicação da Editorial Secretaria da Cultura do Governo do Estado do Ceará A revista Enredo, que a Secult oferece agora ao público cearense, se estriba num conceito Coordenação que, em vez de separar ou contradizer, tenta, para além das limitações dos veículos conven- Bianca Felippsen cionais de mercado, fazer as aproximações possíveis entre as noções de “jornalismo” e “cul- Editor tura”. Em primeiro lugar, tenta propor e fazer circular discussões e informações sobre aquilo Felipe Araújo que Edgar Morin, em correspondência com o sociólogo Danilo Miranda, aponta como “com- Editor de Arte e Diagramação petência geral do espírito”, aquele nível de conhecimento que, não se estabelecendo única Sérgio Helle e exclusivamente no âmbito da razão técnico-pragmática, ilumina outras faculdades e ajuda Ilustração na formação de uma consciência cidadã. Oficina de Quadrinhos da UFC Fotografias e Edição de Imagens Para além dos desafios do “saber” ou do “saber-fazer”, propomos uma revista em que pulse, Fábio Lima entre riscos e experimentações, um “saber-ser”. Um “saber-ser” cearense e, ao mesmo tempo Jornalistas - sem temer nem se furtar das devidas conexões e articulações -, um “saber-ser” brasileiro e Fábio Marques universal. Queremos trilhar um caminho que não se constrói apenas do mundo para o pa- Kiko Bloc-boris Lina Cavalcante pel, mas também do papel para o mundo. “Não se trata de dispensar o rigor ou renunciar aos métodos, mas simplesmente de aprender a escutar. Escutar mais generosamente a realida- Revisão Diana Melo de, as pessoas, as complexas relações humanas. Saber escutar é saber sentir, estas são duas palavras que se confundem em muitas línguas”, define Danilo Miranda na mesma discussão Colaboradores desta edição Felipe Gurgel / Gilmar de Carvalho sobre cultura com o pensador francês. Ricardo Jorge / Jarbas Oliveira Elizeu de Sousa / Ana Mary C. Cavalcante Já houve quem definisse o jornalismo como a arte de escutar, de dar voz a quem não tem. Equipe de Produção Nivea Jorge / Rodolfo Moriconi / Roberto Martins Em resumo, nos propomos a isso: a escutar da maneira mais generosa possível os inúmeros Capa: foto Jarbas Oliveira matizes da nossa realidade. Da nossa cultura, enfim. Eis um encontro possível entre “jorna- Jornalista responsável: Bianca Felippsen (CE 0569 JP) lismo” e “cultura”. Tiragem: 5.000 exemplares Distribuição gratuita Felipe Araújo editor contato: enredo@secult.ce.gov.br / (85) 3101-6761
  4. 4. 47 Novas Tecnologias 08 Ensaio Jornalismo Cultural Ruy Vasconcelos passeia pela história do Internet Ricardo Jorge mostra como, em tempos de internet, os jornais precisam superar o jornalismo cultural no Estado e propõe uma “analfabetismo visual” de seus leitores. reflexão sobre a atividade em nossos dias. 22 Música 50 Acervos Livros raros No setor de livros raros da Biblioteca Pública Alberto Nepomuceno Menezes Pimentel, tesouros publicados há Gilmar de Carvalho resgata concerto esquecido do cinco séculos. maestro cearense e reescreve sua trajetória. 26 Música Independente As estratégias dos músicos da cena independente diante dos desafios da nova indústria musical.Sumário 56 Patrimônio Cachaça de Viçosa Entre as veredas da Serra da Ibiapaba, os caminhos de uma das bebidas mais tradicionais do Estado. 30 Artes Plásticas Antônio Bandeira 68 Literatura Bienal do Livro Livro discute as fronteiras entre pintura e poesia na obra do artista cearense. Curadores da Feira do Livro do Ceará defendem a mestiçagem e a diversidade cultural como estratégias para a Bienal. Fotografia 34 Cultura Popular O fotógrafo Jarbas Oliveira capta imagens de 76 Cidade manifestações populares na região do Cariri. Periferia Elizeu de Sousa escreve sobre novos e velhos hábitos nas casas da periferia de Fortaleza. 80 Teatro Oficina Registros da passagem de Valentin Teplyakov e Maurice Durozier pelo Ceará Quadrinhos 84 José Alcides Pinto Oficina da UFC faz tabelinha entre jornalismo e quadrinhos.
  5. 5. Jornalismo Ensaio à sombra das mangueiras O professor Ruy Vasconcelos escreve sobre a trajetória do jornalismo cultural em Fortaleza, cidade em que qualquer bosque de mangueira é um potencial Círculo de Viena Ruy Vasconcelos F alar de jornalismo cultural em Fortaleza dos livros-caixa, dos turnos e expedientes – é ter muito pano para as mangas. Afinal, distendia-se em especulações, anedotas, pe- as mangueiras estão entre as árvores quenas arengas e disputas. mais cultivadas na cidade. E a sombra delas é convidativa, numa terra em que o sol ameaça Tudo que era conversado, ao seu turno, fin- devassar cada mínimo recanto. Um pequeno da a jornada de lazer, esticava-se como um bosque de mangueiras arma uma sorte de vetor-chave para a semana, recobrindo-a de alpendre natural, ao ar livre, onde é possível algum nexo, de alguma explicação – por mais ensaiar alguma forma de lazer. Um circo débil que fosse – propondo-lhe um sentido. doméstico. Cumprindo função análoga a de um editorial ou à do jornalismo de opinião. Pense no modo como até bem pouco tem- po atrás, famílias inteiras, com seus amigos e Ninguém vive direito sem acreditar que, ao agregados, se reuniam na chácara de fim de menos em potência, possui a chave da decifra- semana, sob essas mangueiras, para a cele- ção de certos fenômenos: a inflação, o trânsito bração de um ócio que as compensava das na Avenida Washington Soares, a epidemia de árduas rotinas semanais. E esses momentos dengue, os alimentos transgênicos, a zaga do eram caros ao pensamento que, livre de cál- Ceará Sporting, a existência do Além, o empre- culos mais imediatos – livre do pragmatismo go dos advérbios na linguagem forense...Coleção da revista Clã na Biblioteca Pública:contribuição para a reflexão sobre a cultura no Ceará
  6. 6. Quer dizer, assim como o corpo habituou-se a lismo é ofertado há pelo menos quatro décadas. Então, de início, é preciso ter em conta que a ci- Herbster rapidamente ficariam para trás da déca- conviver com esse senso exuberante de vida Seria extemporâneo dimensionar mais a fundo as dade em que medrou a geração de Rocha Lima, da de 40 em diante. Mas também, nesse ponto, a ao ar livre – a ele entregue de mão beijada pelo razões disso. Mas, ao menos é oportuno dispor al- Araripe Júnior, Capistrano de Abreu, Tomaz Pom- câmara foi incapaz de elaborar um novo planeja- permanente veraneio do clima –, em Fortaleza, a guns elementos. E, de início, insistir em uma longa peu, Xilderico de Faria e João Lopes, por volta de mento, justamente quando a cidade engrenou um mente entende que também pode se arriscar no contextualização histórica. 1870, meio-século depois de Sampaio, era um surto de crescimento vertiginoso e, mais do que campo das idéias, munida desse mesmo espon- nada geográfico de cerca de 19.000 habitantes. nunca, precisava ser minimamente prevista. taneísmo. E, no mínimo, ser eclética. Ou seja, lan- Como ressalva, também é necessário, antes, impli- E ainda era também uma cidade bastante portu- çar mão dessa robusta capacidade de improviso car com a tautologia existente na expressão “jor- guesa em espírito. E como tudo que era ibérico Quanto ao espírito português da Fortaleza de e fabulação que acaba transformando um bos- nalismo cultural” – como se fosse possível existir àquela época, também muito católica. E, porque então: poderia ser diferente? A chamada Ge- que de mangueiras, durante um fim de semana, um jornalismo “não-cultural”. Quer dizer, nos ocu- católica, entendia-se dividida entre os freqüen- ração de 1870 surgiu apenas algumas décadas na extensão do caramanchão, do alpendre, da pamos daquele tipo de jornalismo que investiga, tadores de suas duas principais igrejas: a de Sãoapós a independência. As residências eram casa. Mas também da assembléia, do teatro, da dimensiona, critica e avaliza o que é produzido José (no local da atual Sé), a leste; e a do Patrocí- ainda a imagem e a semelhança das do Porto igreja, do estádio... numa esfera em que a criatividade, a mestria de nio, a oeste – que lá está até hoje, na Praça José e de Lisboa. Não poucas, inclusive guarnecidas expressão, a dimensão estética ou um esforço de de Alencar. de porões, mesmo que Entre meados do séc. XIX e a década de 30 do esquadrinhamento sócio-histórico e seus deriva- não houvesse vinho para século seguinte, Fortaleza, então uma cidade dos falam acima das demais. Um jornalismo, hoje, Em seu espaço físico, de estocar lá por baixo. As acanhada, produziu verdadeiros fenômenos no praticado sobretudo nos segundos-cadernos e nos resto, a cidade não avança- pessoas se vestiam à por- jornalismo. Hoje, a cidade é uma metrópole. É, suplementos de cultura. Mas não só, uma vez que va muito além dessas duas Dificilmente se vai en- tuguesa, ainda que essa pelo menos, cento e cinqüenta vezes maior do alguns jornalistas de áreas mais ao largo, como eco- freguesias. Ao fim do séc. indumentária se apre- que quando viu surgir a Geração de 1870 -- qui- nomia, tecnologia, política ou polícia, muitas vezes XIX, para se ter uma idéia, contrar, nos outros es- sentasse completamen- çá seu primeiro grande espasmo de inteligência burilam tanto sua expressão que acabam repondo a região em torno da atual tados, um elenco tão te inadequada ao verão coletiva. Mas o panorama atual empolga menos. diante do leitor um texto que, em alguns casos, ri- Igreja do Coração de Jesus, fino de jovens intelec- permanente do clima Podemos partir desse paradoxo na busca de co- valiza com os mais ortodoxamente “culturais”. era quase um subúrbio tuais que naturalmen- equatorial. Livros e jornais mentar alguns aspectos do jornalismo cultural distante. Demarcava os li- portugueses eram muito na cidade. E a própria cidade. Muito antes da Geração de 1870, no entanto, há va- mites a sul da cidade. Uma te lançaram mão do disseminados entre uma gas notícias da circulação de uma folha, ainda ma- cidade branca, portugue- jornalismo como canal população em que havia À primeira vista, o fenômeno parece inexplicável. nuscrita, à época em que o Governador Sampaio sa, católica, de edificações prioritário de expres- um número considerável Mas seria simplista pensar que se trata tão-só de e Silva Paulet, portugueses a serviço de D. João VI, relativamente modestas são e teste de idéias. de lusitanos e de seus um “em terra de cego quem tem olho é rei”. Até passaram por Fortaleza. em escala, de costas para descendentes recentes. porque dificilmente se vai encontrar, nos outros o mar e contando com vá- estados, um elenco tão fino de jovens intelectu- Não é improvável. Ambos tinham vínculos com a rios problemas estruturais, Destaca-se entre estes, ais que naturalmente lançaram mão do jornalis- nobreza, e há relatos sobre os famosos “outeiros”, como a falta d’água. Daí um avultado contingen- mo como canal prioritário de expressão e teste saraus lítero-musicais, promovidos por Sampaio. que até meados do século te de mestres de ofício: de idéias. Rocha Lima, garoto prodígio entre É provável que, de algum modo, quisessem es- passado pode-se perce- pedreiros, carpinteiros, garotos prodígios, passou parte de sua vida nas tender o conteúdo dessas reuniões galantes pelo ber, em fotos panorâmicas, a grande quantidade alfaiates, ferreiros, sapateiros, padeiros, calafates, estreitas saletas que faziam as vezes de redação. menos aos que se viam, por uma ou outra razão, de cataventos disseminados pelos quintais de mecânicos, tipógrafos. Esses artesãos eram desig- impossibilitados de comparecer a elas. Essas fo- Fortaleza. nados pelo nome de “operários”. Entre outros, es- Em benefício de quem edita os segundos cader- lhas manuscritas, atas de tertúlias, talvez hajam ses operários legaram à Cidade o Teatro São José nos de hoje, se pode alegar que isso nem de lon- constituído o primeiro esboço não só do jornalis- Essa pequena cidade aportuguesada e gentil se- – obra do Círculo Operário Cristão de Fortaleza e ge é um paradoxo restrito só ao jornalismo. Nessa mo cultural, mas do próprio jornalismo no Ceará. guiu até a década de 30, quando seus limites coin- que ainda reflete a antiga rivalidade entre as fre- fase de acanhamento e expansão inicial, Fortaleza Mas, se assim foi, tratava-se ainda apenas de uma cidiram com os do plano urbanístico traçado, com guesias de São José e do Patrocínio. Rivalidade, produziu mais figuras de impacto na cultura bra- insinuação, de uma espécie de proto-jornalismo. certo empenho, por Adolfo Herbster em 1875. Os aliás, que está à base de uma divisão da cidade, sileira como um todo do que em toda a segunda Até porque a Fortaleza da época de Sampaio e anos 30 representam o momento em que Fortale- entre leste e oeste, que perdura até os dias de metade do séc. XX e inícios do XXI. Isso, apesar Paulet, de que nos conta Henry Koster, que nela za também atingiu certo equilíbrio orgânico e ar- hoje, sob outras formas simbólicas. Infelizmente, de no período posterior contar com instituições passou uma estadia, em 1810, não abrigava mais quitetônico que foi impiedosamente desmontado ainda não se produziu um trabalho que dimen- superiores de ensino, em que o curso de jorna- de 1.200 habitantes. nas décadas subseqüentes. Os limites traçados por sione a importância deste grupamento social, de10 enredo outubro 2008 outubro 2008 enredo 11
  7. 7. por lá, adeptos de uma cultura de tantos traços afeiçoando à província na qual iam trabalhar, medievais, baseada em noções de honra, heredi- em geral ainda jovens. E acabavam se fixando. tariedade e normas estritas. As enormes distâncias, transpostas predomi- nantemente por mar, eram um sério empecilho Uma vez em Fortaleza, os menos afluentes se também à circulação das idéias. Elas criavam, estabeleciam em bairros como o Arraial Moura de outro modo, a necessidade de uma intuição Brasil ou os arrabaldes mais a oeste. Isso quan- muito aguda, no sentido de filtrar dentre o es- do não era possível seguir mais adiante. Ou seja, toque de teorias disponíveis, aquelas que mais predominantemente para a Amazônia. Um dia, asseguravam um acerto mínimo de leitura dian- ainda se estudará com mais sistema essa di- te da circunstância local. Este último fator de- áspora cearense – e não mandava uma prodigiosa apenas em sua dimensão capacidade de optar por externa, mas também em uma determinada linha suas injunções internas, de pensamento, ainda que nem sempre foram que dela não se tivesse, forçadas pelas secas e fla- A vida intelectual de muitas vezes, todas as co- gelos. E, mais importante, então praticamente ordenadas. Isso constituía se dimensionará, a partir um problema, por um Membros da “Padaria Espiritual” em foto de 1982: pensamento europeu e vicissitudes cearenses desses estudos, os modos se resumia ao Rio de lado. Por outro, no entan- artesãos portugueses e seus descendentes, para gado que já haviam conhecido melhores dias, culturais implicados nes- Janeiro. Todos os es- to, propiciava uma maior a consolidação urbana e cultural de Fortaleza. ao mesmo tempo em que o ciclo do açúcar ses deslocamentos. critores, jornalistas, autonomia no manejo em Pernambuco passava por seu esplendor e o dessas teorias. Uma maior À altura em que os componentes da Academia Ceará não era mais que um apêndice, inclusive músicos e artistas Além disso, a vida inte- valorização da intuição e Francesa do Ceará eram crianças, o êxodo ru- político, dessa circunstância. lectual brasileira de então mais promissores ou da criatividade. Uma ope- ral ainda não tinha expulsado para Fortaleza o praticamente se resumia ambiciosos, para lá ração de preenchimento enorme contingente de pecuaristas e agricul- E se ainda não havia um êxodo para Fortaleza, de tores de extração mais mestiça, empobrecidos resto, isto se dava pela simples razão de existir no ao Rio de Janeiro. Todos migravam. de lacunas, assim como os escritores, jornalistas, um cerrado empenho em ou desde sempre pobres que, esquecidos pelo interior núcleos urbanos que, mesmo modestís- músicos e artistas mais adaptar essas categorias litoral, vararam séculos no isolamento, explo- simos para os censos atuais, chegavam à época rando a mão-de-obra dos indígenas, fazendo- a rivalizar com Fortaleza em escala e importân- promissores ou ambicio- de pensamento europeu lhes guerra, assimilando um tanto de sua cultu- cia (Sobral, Icó, Crato, Granja, Aracati). Esses tipos sos, para lá migravam em à circunstância local. ra, mesclando-se a eles. interioranos, ao contrário dos da Marinha, provi- busca de completar sua nham do Sertão para o Litoral – “do Sertão para formação ou de encontrar condições materiais Foi, de resto, esse esforço em aclimatizar o pen- Inicialmente, esses pioneiros instalaram-se ao o Ceará”, como se dizia então – despossuídos de menos desfavoráveis. As exceções eram os que samento europeu às vicissitudes locais, um dos longo dos rios: do Camocim, do Acaraú, do qualquer noção mais estável das regras do jogo morriam muito jovens – caso de Rocha Lima. talentos cultivados pela primeira floração da in- Jaguaribe, do Poti, do Salgado, do Curu. Rios capitalista. Eram os do Brasil profundo, que es- Ou, quando muito, a de algum político que al- telligentsia de Fortaleza – caso dos desabusados temporários que, em parte, se tornaram ainda tavam no país há mais tempo, pelas brenhas, ternava funções no Rio com outras na provín- rapazes da geração de 1870. Eles são os mesmos menos caudalosos pelo sistema predatório de sofrendo as metamorfoses culturais que iriam cia. E havia ainda o caso de funcionários comis- a porem as primeiras pedras sobre o calçamento exploração dessa pecuária e dessa agricultura ser decisivas para a construção de uma cultura sionados, vindos de outros estados, a serviço da estrada. Pedras que, posteriormente, se reco- extensivas, calcadas no ataque frontal a tudo distinta da européia. À semelhança dos habi- do império ou da incipiente república. Esses nhecem, mesmo sob o asfalto gasto, em tantos que pudesse ser resgatado de imediato da tantes de terras agrestes – como os hurdanos administradores graduados eram designados outros desdobramentos. Como na Padaria Espiri- terra colonizada em um meio áspero. E assim espanhóis – haviam deixado a contragosto seus viveram, nesse interior remoto, por séculos, modos de vida rudes, do sertão, apenas para sal- para períodos curtos, bianuais, quando muito. tual, na geração em torno do Barão de Studart e da cultivando a subsistência, tocando fazendas de varem a própria pele. Do contrário, teriam ficado Num ou noutro caso, no entanto, acabavam se criação do Instituto do Ceará, até se chegar, poste-12 enredo outubro 2008 outubro 2008 enredo 13
  8. 8. riormente, a nomes como Gustavo Barroso, Herman Pedro II era o órgão ligado ao Partido conserva- dade formal de seus redatores também como tocadas por profissionais. O Correio do Ceará, deLima, Leonardo Mota, Abelardo F. Montenegro, Ra- dor. A ele se contrapunha o jornal dos liberais, O forma de mirar outro ponto. Qual seja, o de Álvaro da Cunha Mendes; e O Unitário, de Joãochel de Queiroz, Moreira Campos, o Grupo Clã. Cearense, que contava com uma equipe de peso, questionar a excelência de nosso atual modelo Brígido, estão entre os pioneiros dessa nova eta- em que se destacavam Tomás Pompeu e o então de universidade, em que a maioria dos gradu- pa. O Correio, de resto, órgão ligado à diocese,Tudo isso não quer dizer que não houvesse jovem João Brígido. andos teria sérias dificuldades de entabular uma atesta ainda uma vez, a marcante influência doaqueles que conseguissem tocar suas carreiras conversação com um desses espíritos do passa- catolicismo institucional no cenário das idéias deem Fortaleza – ou mesmo no interior – com ra- Ambas as folhas não sobreviveram à queda da do: independentes, autodidatas, profundamente então. Sucederam a esses pioneiros de um jor-zoável êxito. Mas estes não só eram a exceção, monarquia e foram extintas logo a seguir. À épo- conscientes de seus esforços para se auto-edu- nalismo mais dinâmico e noticioso, aprofundan-como também não tiveram maior ressonância ca em que isso se deu, já se encontravam entre car - e eram também, em muitos casos, menos do suas novidades técnicas e um maior profis-nacional. Pode-se pensar, aqui, no caso de Pe- os mais antigos veículos de imprensa brasileiros assombrados pelas limitações da vida prática, sionalismo, o Jornal do Ceará, a Gazeta de Notíciasdro Théberge, no Icó. Ou no polemista João Brí- em circulação. Também por essa quadra, nomes por pertencerem à minúscula elite letrada de (1927) e O Povo (1928).gido – que é talvez o nome mais emblemático como Juvenal Galeno, Rocha Lima, Oliveira Pai- então, que mais administrava e vivia de rendasdo jornalismo em Fortaleza. Ele viveu ao final va e Farias Brito, circulavam entre os tipos e as do que propriamente pe- A derrocada de parte dasdo séc. XIX e primeiras décadas do séc. XX. Um prensas, pelas redações compactas. Elas não gava no pesado. Tudo isso oligarquias ao fim da Itipo sangüíneo, temido pela mordacidade. Nas eram um privilégio de Fortaleza: Sobral, Baturi- aponta para o fato de ha- Guerra Mundial tambémmãos de Brígido – que possuía um interesse tão té, Camocim e Maranguape estiveram entre as vermos crescido bastante contribuiu para um maiorvivo quanto assistemático pela História do Cea- cidades onde a prática do jornalismo foi mais em extensão, quantidade, arejamento e pluralidaderá -- o jornal virava uma arma branca, capaz de disseminada. porém muito pouco qua- Ser jornalista não era de idéias. A censura impos-perfurar a carne de quem quer que se indispu- litativamente. tanto uma profissão ta pelos truculentos coro-sesse com ele. E, de outra forma, o espaço era De resto, havia uma grande quantidade de jor- quanto uma espécie néis abrandou. E, aqui, é nais em todo o estado. A maioria feita em ve- Assim também, essa pul- preciso lembrar que só unstão acanhado, que propiciou a Brígido ser com- lhas prensas manuais, de forma precária, com verização geográfica dos de hobby. Os filhos poucos anos antes, a prá-panheiro, na juventude, durante os anos quemorou em Quixeramobim, de Antônio Mendes severas limitações gráficas, circulação bastante jornais pelo estado pode de abastados comer- tica do “empastelamento”Maciel. De onde surgiu o célebre episódio, nar- limitada, distribuição apreogada pelas ruas e pe- ser contrastada ao modo ciantes ou fazendei- era ainda bastante difundi-rado por Brígido, em que salva a vida do futuro riodicidade irregular. E, assim mesmo, revelando como os veículos de co- ros montavam peque- da. E que também não era um grau de cultura formal insuspeitada para os municação modernos (es- infreqüente que jornalistasConselheiro quando este se afogava em uma tempos de hoje, em que possuímos um número pecialmente o rádio e a TV) nos jornais, em parte fossem presos e espanca-gamboa do Rio Sitiá. considerável de instituições de ensino médio e vieram sendo controlados para se divertirem, dos. A oligarquia acciolynaO primeiro jornal superior. Quando por meia-dúzia de em- fazer circular o talk of não foi um período par-impresso no Ceará surgiu a geração presários, que trataram de the town. ticularmente confortávelchamava-se Diário em torno de Ro- solidificar esses quase mo- para a turma da imprensa.do Governo. Tudo cha Lima, para se nopólios, ao longo da se- E pode-se listar o assassi-indica que come- ter uma idéia, For- gunda metade do séc. XX nato de pelo menos doisçou a circular em taleza não possuía – para entrevê-los ameaça- jornalistas: João Demétrio e1824. Seu redator sequer uma facul- dos apenas com a difusão Antônio Drummond.era um padre, Inácio dade. da internet. Além disso, essa profusão de jornais,de Loiola de Albu- em um estado com elevadas taxas de analfabe- Ser jornalista, até as primeiras décadas do séc. XXquerque e Melo. Até É importante tismo, remete a duas coisas: 1. o baixo custo dos não era tanto uma profissão quanto uma espéciepelo menos o sur- apontar para esse equipamentos e 2. o fato de os jornalistas ainda de hobby. Os filhos de abastados comerciantesgimento do Correio descompasso en- estarem, de algum modo, vinculados a um esque- ou fazendeiros afluentes montavam pequenosdo Ceará, em 1915, tre o grande nú- ma mental próximo da Europa Ibérica. jornais, em parte para se divertirem, fazer circularos jornais eram estri- mero de jornais e o talk of the town. Ou simplesmente se envolvertamente vinculados a pouca escolari- Foi somente no início do séc. XX, no entanto, em torneios e disputas literárias, além, claro, dea partidos e grupa- que a profissão de jornalista ganhou alguma atacar os adversários políticos – às vezes, de for-mentos políticos. No dignidade. No Ceará, isso se reflete na monta- ma velada, de onde surgiu a grande quantidade Gustavo Barroso:Segundo Império, o gem de redações mais amplas, bem equipadas e de jornais com teor satírico. atmosfera das pequenas gráficas de Fortaleza outubro 2008 enredo 15
  9. 9. jornal satírico da província. A certa altura, Cabe- tevão para imprimir o seu Figurinha é, aliás, com Os responsáveis pelos jornais também eram Como não podia deixar de ser, o epicentro da ça d’Água, o protagonista do romance, adentra seu senso de humor áspero e certo azedume, uma funcionários graduados, comerciantes, peque- atividade jornalística do Brasil no começo do séc. uma dessas gráficas às pressas, por mão de um das personagens mais singulares do romance de nos artesãos endinheirados, autoridades civis e XX era o Rio de Janeiro, simultaneamente capital amigo, fugindo de uma chuva: Barroso. Seu jornaleco saía quinzenalmente: da Igreja, profissionais liberais, para os quais os cultural, política e econômica. Uma cidade que O Cabeça d’Água viu, então, na semi-obscuridade O Figurinha de Lammenais fazia medo, porque jornais cumpriam também a função terapêu- sugava para si a nata da inteligência dos esta- da meia-água um prelo de mão, tomando-a quase mexia com toda a gente da cidade. Não respei- tica de um divertimento que contrabalançava dos – o que implicava também em fortes trocas toda, meia-dúzia de caixas de tipos ao longo das tava ninguém. Por isso seu dono subsistia à custa a aridez ou a circunspeção da profissão de ori- culturais. Além disso, o momento era de grande paredes, uma mesa cheia de coisas ao fundo. [BAR- de uma modalidade menos grave de chantagem. gem. A cada ano, na Revista do Instituto His- dinamismo econômico, potencializado pela I ROSO, Gustavo, in Mississipi, p.48] Dava facadas pessoalmente ou por meio de cartas tórico, o Barão de Studart divulgava uma lista, Guerra Mundial e pela chegada de levas de imi- nas pessoas de recursos, que, a fim de evitar qual- não exaustiva, de jornais publicados no Ceará. grantes europeus que, apesar de empobrecidos, A gráfica prestava serviços, mas também impri- quer versalhada ou anedota, lhe enviavam pelo E, a cada ano, os jornais humorísticos sempre eram, em sua maioria, alfabetizados, versados na mia um pasquim: menos a metade do que pedia. [IDEM, 50] economia de mercado, com forte mentalidade Na tipografia do Estevão, especializada em anún- empreendedora e cônscios da importância da cios, boletins, convites, cartões de visitas e pequenos Até mesmo na descrição do Lammenais, pode- imprensa como instituição de barganha ou es- trabalhos, se imprimia O Figurinha, que a molecada se pescar, ainda uma vez, da prosa de Barroso, pelhamento coletivo. Toda uma conjuntura que, se encarregava de vir buscar, apregoar e vender pelas a precariedade e mesquinhez de condições em de resto, revelar-se-á bastante propícia a um jo- ruas, nos dias de saída. Muito procurado, a edição es- que esses pequenos periódicos eram editados e vem jornalista recém-chegado da província mu- gotava-se. Enquanto o dinheiro ganho não se aca- compostos: nido de alguma disposição e talento, como no bava, o Lammenais não fazia outra e sempre ficava O mulato tresandava a cachaça. Seu estado nor- caso de Gustavo Barroso. a dever a última ao impressor. [IDEM, 50] mal. Um talento conservado no álcool. Talento es- pontâneo, natural e por isso mesmo sem nenhuma Barroso já publicava textos e caricaturas em jor- Esse Lammenais, jornalista mulato, alcoólatra e lapidação, rústico. Seu jornaleco saía quinzenal- nais cariocas antes mesmo de chegar ao Rio, em pequeno patife, que fazia uso da tipografia do Es- mente com irregularidades e falhas. Com os pou- 1912. Seu mestre havia sido João Brígido, para quem trabalhou na redação d’O Unitário. Os dois posteriormente romperiam, mas Barroso jamais sonegou que a colaboração com o velho deca- no do jornalismo cearense foi decisiva para seu aprendizado do ofício: Comecei minha carreira jornalística em 1906 com um artigo na República de Fortaleza. Em 1907, pas- sei a fazer reportagens para o Unitário, jornal com- bativo de João Brígido dos Santos, famoso no jor- nalismo, na advocacia e na política do Estado. Foi o meu primeiro mestre na imprensa e meu amigo até 1914, quando se tornou meu inimigo, atribuindo- me cousas feitas por outros. A política nos ajuntouDetalhes da Revista O Saco, acima e nos separou. Recebi admiráveis lições sobre as re-e na página ao lado: relevância editorial alidades do mundo na sua convivência. [BARROSO, Gustavo, in O Consulado da China, p.167] respondiam por uma percentagem considerá- É, aliás, de Gustavo Barroso, em seu romance vel nas listagens do Barão. De resto, para muitos Mississipi, uma das raras descrições vívidas, a par- à época, O Pão, publicado pelos escritores em tir da qual se pode dimensionar a atmosfera de torno da Padaria Espiritual, era apenas mais um uma dessas pequenas gráficas de Fortaleza. Ou desses jornais galhofeiros. a precária estrutura em torno de um pequeno16 enredo outubro 2008
  10. 10. cos anúncios obtidos, pagava a impressão e o pa- guetes e repicavam sinos. Meninos apregoavam surgir a figura de um jornalista mais composto nos anos de chumbo. Da interação entre rádio pel de pequeno formato. Os clichês das caricaturas numa voz cantada A Matraca a 40 réis! -- um e envernizado. É provável que a personagem, e jornal. Da criação da UFC e do curso de jorna- e desenhos ele mesmo os abria a canivete em casca jornaleco imundo que falava da vida alheia e José Pereira, tenha sido inspirada em João Brí- lismo. Do advento da imprensa oficial. Da che- de cajazeira. O texto, em prosa e verso, ele mesmo que por duas vezes trouxera sujidades contra gido. José Pereira não é mais aquele editor de gada da primeira off-set para O Povo, em 1971. redigia, compondo diretamente na caixa, pois co- João da Mata. Maria do Carmo quis ver o que pasquins, porém alguém de maior prestígio na Da edição de suplementos culturais de grande meçara a vida como tipógrafo do antigo órgão po- dizia A Matraca, apesar do padrinho ter proibi- escala social. Era amigo do Zuza, mas também requinte gráfico. Da relevância da revista O Saco. lítico O Cearense. Estampava em números seguidos do expressamente a entrada do pasquim em sua do presidente do estado. Ele aparece em várias Do gradual arejamento das idéias à década de as paródias que rimava sobre poesias célebres. Sua casa. Ali só entrava A Província, disse ele; isso cenas. Inclusive como galanteador, caminhando 80. Da concorrência dos jornais e suplementos especialidade. [IDEM, 49] mesmo porque o José Pereira não exigia paga- ao lado das normalistas no Passeio Público ou de alcance nacional nos anos 90. Do suplemento mento de assinatura. O mais era uma súcia de tomando uma cerveja num café. A redação de Sábado. De certo apuro dos segundos cadernos, Só uns poucos anos antes, temos por mão de papéis nojentos que só serviam para...-- Maria seu jornal assoma numa cena fugidia : em especial do Vida & Arte, de meados para fins Adolfo Caminha, notícia de algo similar em deu um pulo até a casa da Viúva Campelo e aí O escritório de A Província estava quase deserto. da década de 90. E é claro que tudo isso mere- relação a esses pasquins precários, irregula- pôde comprar A Matraca. O Padrinho estava no Apenas o José Pereira e o ce ser visto com melhor res, mas muito apreciados. Trata-se do trecho banho. --O Namoro do Trilho de Ferro! -- grita- estudante conversavam lupa. em que correm rumores de que o filho de um vam os vendedores. Maria teve um palpite. Cer- amigavelmente, sentados afluente coronel, o Zuza, estaria de namoro to aquilo era com ela. Que felicidade o Padrinho defronte um do outro à Mas, agora, a tarefa será com uma certa normalista da Rua do Trilho. estar no Banho! Pagou o menino, pedindo-lhe mesa dos redatores, fuman- a de apontar algumas ca- Os rumores são reforçados por um pasquim pelo amor de Deus que não gritasse mais “O Na- do, enquanto lá dentro, nos Há modos de ser inte- racterísticas dos segun- chamado A Matraca: moro do Trilho de Ferro”. Abriu o jornal ansiosa. fundos onde ficavam as ofi- ligente sem soar pre- dos cadernos nos dias O dia seguinte era domingo. Todos na casa do Que horror! Havia, com efeito, uma piada sobre cinas, os tipógrafos compu- que correm. Eles, assim amanuense acordaram muito bem dispostos. ela e o Zuza. [CAMINHA, Adolfo, A Normalista, p.41] nham atarefados a matéria tensioso. Quase sem- como o jornal inteiro, Havia missa cantada na Sé. Espoucavam fo- Mas é também em A Normalista, que vemos do dia. pre a simplicidade é estão muito marcados Seriam duas horas da tarde. pela perspectiva do jor- Um rapazinho raquítico, em o pré-requisito de um nalismo de serviços, bem Vida & Arte nos anos 90: momento de apuro no trato com a cultura mangas de camisa, com bom texto. Mesmo como também, em seu manchas de tinta no rosto e quando se trata de texto, pelos ditames do um ar amolentado, veio tra- manual de redação. Além zer as provas do expediente assuntos abstratos, disso, ainda seguem do governo: ultra-especializados, se ajustando à recém- -Falta matéria? - perguntou chegada rede mundial o José Pereira, encarando-o. complexos. de computadores. E, no “Não sabia, não senhor, ia plano específico de sua ver”. E saiu voltando imedia- orientação editorial, sur- tamente: que o jornal estava gem um tanto afetados completo. [IDEM, p.95] pela indiscriminada pro- liferação dos cursos de pós-graduação. Quer Aqui, vamos interpor um fade. E nossa história dizer, há uma espécie de deslumbre diante de será retomada tão-só muitos anos depois, já ren- alguns conceitos trabalhados nesses cursos, mas te ao presente. Todo esse passado de jornalismo que soam bastante deslocados – ou no mínimo um tanto amador, feito em precárias oficinas pouco consistentes – quando propostos como aos fundos da casa, ficará para trás. E haverá um filtros de análise cultural nos jornais. parêntese longo. De muita coisa não se fala- rá por razões de espaço e escopo. Da situação Além disso, as imensas facilidades tecnológicas dos jornais cearenses durante o Estado Novo. de hoje parecem também domar certo ímpeto Do advento dos Diários Associados. Da contri- investigativo, acomodando o jornalista em sua ca- buição do Grupo Clã. Do panorama dos jornais deira. A prática do release também amortiza um18 enredo outubro 2008 outubro 2008 enredo 19
  11. 11. tanto essa pulsão de investigar. Eis porque, talvez, fato, é impossível falar com mais consistência do É claro que ele não necessita – e mesmo não deve de encantar pela idiossincrasia, começa a cansarhaja sido tão fácil para Yuri Firmeza, por exemplo, que não tem consistência. – clamar pelo especialista para explicar todos os pela pretensão, a mesmice, o vazio.preparar o logro que pôs à prova não só o preparo fenômenos de que trata. Sobretudo se esse es-cultural de nossos jornalistas de variedades, mas Por outro lado, há a tendência, hoje, de retornar um pecialista está, de algum modo, afetado pelos Mas retomemos o argumento do início. Essetambém a própria capacidade investigativa deles. tanto – mas de forma menos auspiciosa – àquela aspectos menos auspiciosos da universidade senso de ar livre, de desabusado improviso faz oE eles não se saíram nada bem nas duas provas. disponibilidade para falar de tudo, característica dos brasileira, e de seu sistema de pós-gradução que, fortalezense crer que, assim como para o corpo,De outro modo, pode-se questionar a validade do conversadores à sombra de mangueiras, de que tra- com ilustres exceções, tem mordido um boca- a cidade em si é também um local arejado paraprocedimento de Firmeza. Mas não se pode per- tamos no início deste artigo. É mais ou menos óbvio do o próprio rabo ao invés de buscar, com certa a mente. Que qualquer mínimo quebra-luz comdoar que um jornalista não cheque a veracidade que um jornalista da área de cultura não possa ao aplicação e empenho verdadeiramente genero- alguma sombra serve de estúdio para o ofício dedo que está tratando. Especialmente numa época mesmo tempo ser crítico de cinema, de literatura, sos e criativos, a chave da decifração, da fruição e pensar. Que qualquer bosque de mangueira, sobem que uma ferramenta de busca como o Goo- de artes plásticas, de música, de dança, de teatro, de da análise de determinados fenômenos. o qual se arma um círculo de cadeiras e redes, égle está ao alcance de um clique de mouse. E com manifestações populares, de moda, de fotografia, de o próprio Círculo de Viena. Capacidade prodigio-esse mesmo clique se pode, por igual, lançar mão arquitetura. E, além disso, ser memorialista, repórter, Aliás, um bom caminho, como está insinuado ao sa de converter em várias circunstâncias, umade uma enciclopédia gigantesca – e com versões cronista, poeta, arquivista, colecionador, historiador, longo deste artigo, pode ser o de conveniar suas circunstância. Quer dizer, poucas populações doem vários idiomas – sem precisar abandonar o te- artesão, museólogo, teórico da comunicação, tradu- esferas de interesse como jornalista e cidadão, a Brasil terão tanto futuro com o advento do virtual,clado do computador. tor, documentarista, gestor cultural. Ele deve buscar uma forte dose de curiosidade histórica. E casar porque a vida do fortalezense, antes mesmo da as áreas que melhor confinam com suas inclinações esses dois fatores, interesses pessoais e consci- chegada do virtual, já se pautava por esse prin-É óbvio que não se deve personalizar o episódio. e talentos. Do contrário, há a perspectiva de que ele ência histórica, à sua própria experiência de vida cípio. Foram séculos de convívio com a escassez.E isso seria mesmo um desserviço. Mas também apenas seja tão-só mais um circuito integrando-se à e intuição. Isso certamente o vacinará contra os Uma escassez renovada pela sucessiva chegadanão se pode esquecê-lo. Ele existiu. E ilustra bem unidade central de processamento de informações males de certa passividade. de retirantes. E então, é preciso estar atento paraa medida da superficialidade de que se reveste que tem sido capaz de desumanizar até mesmo saber retirar desse senso de improviso seus divi-não só o jornalismo que trata da cultura, mas a algumas das manifestações mais humanas, que res- Essa modalidade de espectadorismo é a mesma dendos, como fizeram os jovens da Geração deprópria cultura que é tratada pelo jornalismo. De pondem pelo nome de arte, cultura. que freqüentemente se encontra também nos Capistrano e Rocha Lima. E refugar os excessos. segundos cadernos: jornalistas que se escondem atrás de citações e clichês teóricos tão aborreci- dos quanto lugares-comuns. E é claro, um jorna- Ruy Vasconcelos é professor de Literatura e tradutor lista cultural até pode ser um doutor em jornalis-Caderno 3, do Diário do Nordeste: jornalismo cultural precisa conciliar interesse estético e curiosidade histórica mo. Mas quase sempre prega no vazio, quando tenta fazer de seu leitor um interlocutor não de um jornalista, mas de um doutorando em jorna- lismo. Não um leitor de reportagem, artigo, nota, editorial, entrevista, mas de tese de doutorado PARA LER em jornalismo. Mississipi, de Gustavo Barroso. Edições UFC, Co- leção Alagadiço Novo, Fortaleza, 1996 Há modos de ser inteligente sem soar pretensio- so. Quase sempre a simplicidade é o pré-requisito A Normalista, de Adolfo Caminha. Brasil Editora, de um bom texto. Mesmo quando se trata de as- São Paulo, 1961 suntos abstratos, ultra-especializados, complexos. Naturalmente, há os que sabem disso e tiram de Viagens ao Nordeste do Brasil, de Henry Koster, letra. Sem dúvida, tentar “trabalhar a relação” com tradução e notas de Luís da Câmara Cascudo, o leitor nos moldes psicanalíticos ou entrevê-lo Sec. do Departamento de Cultura, Recife, 1978 como “leitor-ativo” nos moldes de Barthes, têm Introdução à História do Jornalismo no Ceará, sido a cova de muito jornalista por aí. Um jor- de Geraldo Nobre, Gráfica Editorial Cearense, For- nalista, em certo sentido, é um improvisador. Se taleza, 1975 começa a ficar muito refém de um sistema de pensamento pré-concebido, seu texto, ao invés outubro 2008 enredo 21
  12. 12. O Concerto da O s historiadores da música brasileira re- montam a 1887 a estréia do compositor a mãe Maria Virgínia e a irmã Emília, que deve- riam ser acolhidas pela família Paiva, da qual fa-Música Abolição Alberto Nepomuceno, e datam de 1892 o ziam parte. Depois da morte do pai Victor, em primeiro concerto regido por ele, à frente da Or- 1880, em Pernambuco, para onde se transferira questra Tonhalle, em Zurich (Suíça). A leitura da com a família, em 1872, em busca de melhores edição de 20 de março de 1884 do jornal cearen- condições de vida, a situação se agravou e o jo- se “Libertador” desmente esses fatos e antecipa a vem Alberto não pôde ser o arrimo da família, estréia de Nepomuceno como compositor e dá apesar de ter sido professor de piano, trabalhado pistas para sua atuação futura como maestro. em tipografia e dirigido o Club Carlos Gomes do Recife. Na véspera do grande dia de festa no Ceará pro- vincial, a Abolição da Escravatura, a 25 de março A saída foi trazer a mãe e a irmã para a casa dos daquele ano, um concerto musical teve a dire- tios José e Manoel de Oliveira Paiva (este o autor ção do jovem Alberto, que tocou piano e teve de “Dona Guidinha do Poço”). Aqui, passaram a duas de suas primeiras composições apresenta- morar nos fundos do Palácio Presidencial da Pro- das. Este texto pretende discutir as modificações víncia, esquina da atual Rua Sena Madureira com que o fato introduz na biografia e na cronologia o Beco dos Pocinhos, correndo o Riacho Pajeú Novas referências do compositor que incluiu o Português no canto no quintal da chácara, de acordo com o profes- erudito e se inscreveu como referência na músi- sor Liberal de Castro. biográficas de Alberto ca brasileira de todos os tempos. Nepomuceno encontradas Nepomuceno não poderia ficar indiferente ao Em 1884, o Ceará regurgitava com a festa da clamor cívico. Daí a colocá-lo como colaborador por Gilmar de Carvalho Abolição da Escravatura. Não se poderia, a ri- de jornais abolicionistas, parece um visível exa- reescrevem a cronologia gor, cobrar que as pessoas assumissem um dis- gero. Em primeiro lugar, pelo tempo. Como ele tanciamento. A falta de entusiasmo poderia ser chegou aqui em 1884, a Abolição já estava deci- “oficial” do maestro e confundida com adesão aos “negreiros”, aos “co- dida, inclusive com data para ser assinada. Nem compositor cearense e merciantes de carne” ou aos antropófagos, como os historiadores da imprensa cearense (Perdigão dizia o jornal “Libertador”, desde 1881, vibrante de Oliveira, Barão de Studart, Geraldo Nobre), lançam um novo olhar porta-voz dessa luta humanitária. nem os estudiosos da Abolição (Raimundo Gi- sobre sua trajetória rão, Yaco Fernandes) fazem menção a essa prá- Ainda hoje, alguns, talvez movidos pelo exagero tica jornalística. das comemorações e pelo tom ufanista que ga- Gilmar de Carvalho nhou a festa, que nos valeu o epíteto de “Terra da Abolicionista, ligado à elite intelectual reunida Luz”, tentam minimizar o feito, falando do con- em torno da Faculdade de Direito do Recife, não tingente pouco expressivo de escravos, de como poderia fazer de conta que não estava aconte- constituíam um fardo para os fazendeiros “que- cendo algo muito importante, que mudaria os brados”, da valorização da mão-de-obra escrava rumos do País. Abolição e República eram, na no mercado nacional (por conta da interdição verdade, a mesma bandeira de luta contra os pri- da entrada de novas levas da África) e pelo esva- vilégios das elites e as campanhas se posiciona- ziamento político e econômico do Norte (ainda vam como um jogo de dominó: ao cair a primei- não se falava em Nordeste). ra peça, a outra seria uma questão de (pouco) tempo. E assim se deu. A constituição de sociedades secretas e a circu- lação do “Libertador” dizem da seriedade com Curioso como as elites intelectuais (e também que as elites se envolveram no episódio. Curiosa econômicas e políticas) do Ceará de então eram a troca de insultos pelos jornais. Prevaleceu o hu- esclarecidas. Boa parte das famílias tradicionais manismo iluminista, ainda que pouco se tenha apoiava a extinção da escravatura e dava os feito pelos libertos, depois da “ressaca” da festa. quadros para a Literatura, a Medicina, o Direito Sob esse clima, chegou a Fortaleza, Alberto Ne- e o Jornalismo, além da atuação nos negócios pomuceno, no início de 1884, com dezenove intensificados pela valorização do algodão no Estátua do compositor em Fortaleza: anos de idade, vindo do Recife, acompanhando mercado internacional. maestro tornou-se referência na vida musical da cidade
  13. 13. Música Havia uma relação curiosa entre o dinheiro e o sa- Justiniano de Serpa e Antonio Martins, autores estro João Moreira da Costa, executado pela banda A Comissão encarregada agradecia, “penhora- ber, como se as fortunas amealhadas fossem pre- das “Três Liras”, livro publicado em 1883, reunindo de música do Corpo de Polícia. damente, a todos as excelentíssimas senhoras e texto ou álibi para viagens à Europa, acesso aos composições, talvez mais militantes do que con- ilustres cavalheiros que, voluntariamente e de boa pianos, aos livros e embrião dos grêmios literários sistentes, do ponto de vista da função poética da A peça seguinte, intitulada “25 de Março”, era vontade, se prestarão a tomar parte neste concer- que proliferariam a partir da Academia Francesa linguagem. apresentada como “marcha triumphal para dois to”. O texto concluía com a informação de que o (1873/1875). pianos a oito mãos”, o que não deixa de ser evento estaria previsto para as 18 horas. O jornal “Libertador” fazia curioso pela possibilidade de reunir dois pianos, a contagem regressiva quando, hoje, muitas salas de espetáculo, como Além de mostrar um Nepomuceno incansável para o grande instante. o Teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cul- e plenamente entrosado com a vida musical de A luta era dada por vi- tura, por exemplo, não dispõem de um sequer. A Fortaleza, o Concerto joga novo foco de luz sobre toriosa e os nomes dos referência a Nepomuceno vinha entre parênte- a biografia e a produção artística dele. O “Catálogo que contribuíram para sis, depois dos nomes das intérpretes. A se julgar Geral” organizado por seu neto Sérgio Alvim Cor- isso estavam estampados pela leitura integral da programação, deduz-se rêa (publicado pela Funarte), põe o ano de 1887 nas páginas do jornal. A que a autoria da marcha seja do jovem Alberto, como o de suas primeiras composições e vai além relação dos libertos se pois os autores das demais peças têm seus no- ao dizer que a primeira de todas foi “Prece”. avolumava. As senhoras mes sempre grafados entre parêntesis. organizavam o “jantar A leitura da programação do Concerto revela pos- dos mendigos e infelizes”, Chama a atenção a simetria do Concerto e a sin- síveis pistas de composições da juventude, ante- colaborando para a extin- tonia de Nepomuceno com o espírito do tempo. riores ao que estabelece o Catálogo Geral. Mesmo ção da fome aos necessi- As duas partes da apresentação musical tinham sua condição de regente deve ser revista porque o tados de sempre. Poemas peças dele, com um tom de civismo, tudo inter- levantamento oficial coloca o ano de 1892, quan- de Rodolpho Teophilo e calado por árias de óperas, bailados para cantos, do, na verdade, oito anos antes, ele teria dirigido Francisca Clotilde, dentre fantasias para flauta e piano, tudo interpretado um Concerto (não de uma orquestra, mas de um Vale ressaltar muitos outros, conclama- por senhoras das elites, músicos importantes de grupo de músicos) com todas as implicações de que Fortaleza vam para o grande mo- então, como Simplício Montezuna ou por um fazê-lo na província, sem maiores recursos e sem se inseria, timi- mento. “esperançoso menino”. o aparato de um grande centro, como Zurich. damente, no cir- cuito musical de Assim, a edição do “Li- O intervalo de quinze minutos daria tempo Um Nepomuceno “zero” estaria aqui e a recupera- para o farfalhar das sedas, a dança dos leques e então, sendo pa- bertador” de 20 de mar- ção dessa parte seminal de sua vida e obra parece para as olhadelas de soslaio. Importante ser vis- rada, apesar das ço de 1884, constante fundamental como contraponto ao desrespeito à to naquele espaço público onde se reuniam os complicações do do acervo de periódicos memória, à falta de documentos e à importância representantes do povo de então, a Assembléia porto, das com- microfilmados da Biblio- de homenageá-lo. Provincial, atual Museu do Ceará, em cujo Paço panhias e artistas teca Pública Governador teve lugar, a 24 de maio de 1883, a libertação dos líricos que transi- Fac símile do jornal: em destaque, a notícia sobre o concerto Menezes Pimentel, trazia escravos de Fortaleza, ponto de partida para a Em 1885, ele viaja para o Rio de Janeiro e volta ao tavam entre Recife o programa do “Concerto tela “Fortaleza Liberta”, de J. Irineu de Sousa, re- Ceará, em 1888, onde se apresentou em três con- e Manaus. Os Theatros Thaliense e São Luiz eram 24 de março”, citado como “Introdução e Auxílio à gistro iconográfico de um episódio significativo certos, em abril e maio, não coincidentemente às palco de apresentações de intérpretes do canto, de Patriótica Festa de 25 de Março sob a direção de de nossa história. vésperas da Abolição da Escravatura no Brasil. Foi instrumentistas e de grupos de câmera que faziam Alberto Nepomuceno”. quando tocou, pela primeira vez, acompanhado apresentações pelo norte do País. A segunda parte do Concerto se iniciava com pelo violoncelista Frederico Nascimento, a “Dança Ele ainda não se arriscara a mostrar-se por intei- um “Galope Marcha” para dois pianos a oito de Negros”, que mais tarde se tornaria o “Batuque”, O jovem Nepomuceno se envolveu com a vida ro. O entusiasmo o levou a ter coragem de reger mãos, executado por Emília Cunha, Maria Esther da Série Brasileira, reforçando as bases de uma cultural da província, ele que chegara a Fortale- um concerto e incluir suas peças de juventude no da Silva, Maria Pia Salgado e Ernestina de Paula música brasileira de expressão internacional. za num instante de recesso das tertúlias literárias, contexto de uma festa apoteótica, como dizem Vidal, outra provável composição de Alberto Ne- coincidindo com o intervalo entre as atividades da os anúncios da venda de bandeirolas de todos os pomuceno, levando-se em conta seu nome no Aí já era o artista com experiência nos salões da Academia Francesa e a implantação do Clube Lite- países, das lanternas, da iluminação a “giorno” e da final da frase do texto jornalístico. capital do Império e pronto para a viagem de for- rário, em 1886. “champagne” francesa, para ricos e pobres. mação que marcaria para sempre sua trajetória. O nacionalismo de Carlos Gomes se fez presen- Esse hiato pode ser explicado pela luta abolicionis- O jornal transcreveu o programa que se iniciava te, bem como a “Grande Fantasia Triunfal sobre o ta e rendeu uma poesia voltada para o tema, que com o “Hymno da Sociedade Libertadora Cearen- Hino Brasileiro”, de Gottschalk, no encerramento Gilmar de Carvalho é jornalista e professor do Departamen- teve como seus representantes Antonio Bezerra, se”, com letra de Frederico Severo e música do ma- da sessão musical. to de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará. 24 enredo outubro 2008 outubro 2008 enredo 25

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