aESPERANÇA  que temosevangevaldo farias de sousa          2004            1
A esperança que temosA Esperança que temos© 1996, Evangevaldo Farias de Souzae-mail: vanjo_s@yahoo.com.brImpressão de Prim...
ConteúdoPrefácio 5Introdução 71. A dor que exige explicação 92. Os motivos de Deus 153. Unidos, em esperança, ao coração d...
A esperança que temos         4
Prefácio      As tribulações, as perplexidades, os abatimentos, asdores e as aflições geram no homem uma necessidade única...
A esperança que temospara o bem e para a eternidade daqueles que amam ao Senhor(Rm 8.28).      Este trabalho é o resultado...
Introdução     “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cris-     to que, segundo a sua muita misericórdia, nos re-    ...
A esperança que temosdência, mas manifesta a intenção de Deus de nos comunicar,encher e enriquecer com ela, porque Ele mes...
1             A dor que exige               explicação     Jó era homem fiel e temente a Deus, de tal maneira que,segundo ...
A esperança que temosrespeito de um homem suscita a ira de Satanás que faz daqueda de Jó um desafio para si. Ainda hoje é ...
A dor que exige explicação      O conflito, portanto, não é entre Jó e Satanás, mas entreDeus e Satanás. Por um lado, o Se...
A esperança que temosmuitos meses. Diante da perseverança de Jó e do repetidotestemunho de Deus: “Observaste meu servo Jó?...
A dor que exige explicação     c) Tinha pesadelos horríveis (7.13-16);     d) Sentia-se como uma coisa podre (13.28);     ...
A esperança que temos      Jó, que tinha esperança de ser consolado por seus ami-gos (Jó 6.14) , logo descobriu que, ao in...
2        Os motivos de Deus      Podemos até pensar que se houve alguém na terra commotivos para queixar-se, este alguém f...
A esperança que temosmente despropositados e sem nexo. Qual a relação entre osofrimento de um homem íntegro e o hipopótamo...
Os motivos de Deus      Deus tem conhecimento completo do antes, do agora edo após. “…pois para o Senhor um dia é como mil...
A esperança que temos      Ele é Alfa e Ômega, Princípio e Fim. Tudo está retidon’Ele, encerrado n’Ele – Ele é os limites ...
Os motivos de Deuscumpriria. Não sabia que mil anos depois Deus daria teste-munho dele (Ez 14.14) e que três mil e quinhen...
A esperança que temos      Uma vez o nosso bem significou o abandono do Ama-do, a morte do Filho Unigênito do Pai.      E ...
Os motivos de Deus        Então, Ele olha para o Seu Filho e sorri. Sim, Ele sealegra mais em Seu Filho do que Abraão pode...
A esperança que temosminho à santidade do Pai. Caminho para mim, “geração defor-mada”. Seu sangue escorrendo – Sua vida de...
Os motivos de Deusdade para te amar e seguir te amando e crescendo neste amor.E ainda assim saberei que não será suficient...
A esperança que temos      Um dia, precisarás ser humilhado (Jó 16.15), ter a tua“coroa lançada por terra” (Jó 19.9), para...
Os motivos de Deus       Foi assim com Jesus em Getsêmani, quando Ele sentia“pavor até a morte” e de angustia cambaleava, ...
A esperança que temosDepois dela nada deteria o Autor da vida, nem mesmo a mor-te (At 2.24; 3.15). Ele seria exaltado e o ...
Os motivos de Deus        A nossa vocação, então, é a mesma de Adão: multipli-car a imagem e a vida de Deus. Encher a terr...
A esperança que temos      Nunca sofremos apenas por nós mesmos e para nósmesmos: “Mas, se somos atribulados é para o voss...
Os motivos de Deusresponsabilidade! Assim foi a existência de Jesus na terra:plena de um senso santo de conseqüência.     ...
A esperança que temosem nosso coração pelo Espírito Santo (Rm 5.5). Ó Espíritodá-me mais desse amor!      Para amarmos a D...
3       Unidos em esperança       ao coração de Deus       Para a maioria dos homens, é mais fácil sentir do quecrer. As s...
A esperança que temos      A esperança é fruto da experiência. Ninguém adquire ex-periência sem perseverar, e, ninguém pre...
Unidos em esperança ao coração de Deusrança impede a amargura e o endurecimento. Anima e revi-gora a vontade e nos firma e...
A esperança que temos      É preciso entender que além de cooperadores, somosmatéria-prima de Deus, pronta para ser consum...
Unidos em esperança ao coração de Deusintercessores, sacerdotes fiéis, adoradores santos (Hb 5.1,2;1Pe 2.9; Jo 4.23,24).  ...
A esperança que temosera sua por direito. Não lhe pesava nenhuma obrigação. Nin-guém lhe deu ordem – nem poderia: não havi...
Unidos em esperança ao coração de Deus(Hb 1.5) indicam um tempo futuro. Isto significa que, até en-tão, a relação entre El...
A esperança que temos      Trocou a adoração e o louvor dos habitantes celestes –seres santos e poderosos – para enfrentar...
Unidos em esperança ao coração de Deusxesse condenação, é para sua glória que devemos viver. Para istofomos criados e para...
A esperança que temos      “O resplendor da glória”, Aquele para quem os céus seinclinam, foi humilhado pela ralé da terra...
Unidos em esperança ao coração de Deuspela morte. Não! Ao contrário, a morte foi o limite da obe-diência. Como não havia m...
A esperança que temos      “Pelo que também Deus O exaltou sobremaneira e lhe      deu o nome que está acima de todo o nom...
Unidos em esperança ao coração de Deus     Senhor meu, que Te posso dar como demonstração degratidão e reconhecimento? Com...
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A esperança que temostas guerras, o horror contra Urias, a repreensão de Natã, oincesto de Amnom, o homicídio entre os fil...
Unidos em esperança ao coração de Deus      Deus precisava “quebrar” Davi. Como diz GeneEdwards em seu excelente livro Per...
A esperança que temos      Somente homens quebrados, fracos em si mesmos, humi-lhados e vencidos por Deus, podem vergar es...
Unidos em esperança ao coração de Deus                          Isto é a cruz!      Se te perseguem, provocam ou insultam,...
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Unidos em esperança ao coração de Deusda bondade de Deus. Por isso, também, a expressão máximade Sua glória. Deste modo, a...
A esperança que temos         52
4 Olhando com esperança    pela lente de Deus     A esperança nos faz ver e nos transporta ao “final feliz”,de tal modo qu...
A esperança que temosnas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque asque se vêem são temporais, e as que se não ...
Olhando com esperança pela lente de Deus      O resultado de tal confiança de coração é uma perseve-rança inabalável. “Por...
A esperança que temos      Quantas vezes na igreja, conversando com irmãos an-gustiados, aflitos e exaustos lembro-me das ...
Olhando com esperança pela lente de Deusdesconfortável. Cada minuto é uma eternidade. Onde estãoos pais que não aparecem? ...
A esperança que temos90.12). Ao contrário, passa a vida orando para se livrar dos pro-blemas. Esquece que Deus não tem dif...
Olhando com esperança pela lente de Deusdefinido e queria o bem do povo. Um bem permanente: “Eu éque sei que pensamentos t...
A esperança que temostêm sido livres pela intercessão d’Aquele que “vive parainterceder por nós?” (Rm 8.34; Hb 7.25). Como...
Olhando com esperança pela lente de Deus      Possamos imitar aqueles que “…morreram na fé, semter obtido as promessas, ve...
A esperança que temos      Mas há outros “… que, perseverando em fazer o bem,procuram glória, honra e incorruptibilidade” ...
Olhando com esperança pela lente de Deusatender as extravagâncias dos que pensam que governam.Quanta surpresa haverá no di...
A esperança que temos      São estes, os santos que o mundo odeia (Jo 15.18,19) eque são amados pelo Pai! (Jo 14.21-23).  ...
5        Invadindo o desespero          Fala-se, no mundo, que “a esperança é a última quemorre”. Na verdade, as Escritura...
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Invadindo o desesperotrasta com o desespero do mundo, destaca-se e incomoda comoum jorro de luz no interior de uma caverna...
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Invadindo o desespero      Nem todos provaremos a glória do martírio, mas todosdevemos cobiçá-la! Ninguém, que um dia tenh...
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Invadindo o desespero(2Co 4.4; 11.3,14-15; Jd 8-9) perdeu sua glória e o ambienteonde desenvolvia a sua autoridade. Tornou...
A esperança que temosdade de Deus (Tg 4.7; 1Co 11.3, 7). Para obter a sujeição dohomem com todo o seu domínio, Satanás pre...
Invadindo o desesperoo que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8.34). Agora,Satã até se permitiu o luxo de oferecer a J...
A esperança que temos     juízo sobre todos os homens para condenação…     Por que… pela desobediência de um só homem     ...
A esperança que temos
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  1. 1. aESPERANÇA que temosevangevaldo farias de sousa 2004 1
  2. 2. A esperança que temosA Esperança que temos© 1996, Evangevaldo Farias de Souzae-mail: vanjo_s@yahoo.com.brImpressão de Primavera de 2004O Texto deste trabalho pode ser citado ou reimpresso sem permissão porescrito do autor.Todos os textos bíblicos citados serão da Edição Revista e Atualizada daSociedade Bíblica do Brasil, salvo citação ao contrário.www.fazendodiscipulos.com.br 2
  3. 3. ConteúdoPrefácio 5Introdução 71. A dor que exige explicação 92. Os motivos de Deus 153. Unidos, em esperança, ao coração de Deus 314. Olhando, com esperança, pela lente de Deus 535. Invadindo o desespero 656. A esperança que temos 877. Experimentando a esperança 99 3
  4. 4. A esperança que temos 4
  5. 5. Prefácio As tribulações, as perplexidades, os abatimentos, asdores e as aflições geram no homem uma necessidade únicade respostas. O que está acontecendo comigo? O que Deusestá querendo me ensinar? Por onde devo trilhar? Estas per-guntas, entre outras, são discutidas neste trabalho. O livro “A esperança que temos” é impactante ao mes-mo tempo em que é cheio de consolo. De Jó – homem íntegroe reto, a Jesus – o modelo perfeito, o leitor é confrontado coma verdade e com a postura que deve tomar. Cabe a cada um permitir ser conduzido pelo escritor aum aprofundamento na leitura da Palavra de Deus. Assim,sempre buscando uma maior revelação do que o Senhor tempara si, as perguntas serão respondidas. Descobre-se que tudoque Deus faz e permite na vida do homem aponta para o eter-no. É “ver” como Deus “vê”, pois todas as coisas cooperam 5
  6. 6. A esperança que temospara o bem e para a eternidade daqueles que amam ao Senhor(Rm 8.28). Este trabalho é o resultado da vivência, da experiênciae do profundo amor apaixonado que o autor nutre pelo Se-nhor Jesus Cristo e toda a sua obra. Começou com a compila-ção de alguns sermões ministrados desde 1993. Com muitameditação e debate sobre o tema revíamos os manuscritos,quando em março de 1996, ocorreu o grave acidente quetestificou a todos como Evangevaldo vive para Deus e comoem todo tempo busca olhar as circunstâncias da mesma for-ma que o Pai as observa. Este livro não é um mero escrito. É um testemunhovivo e ardente da vida de um homem. Mergulhe de coraçãona leitura destas palavras. Leia e medite nos textos bíblicos,pois, com toda certeza, Deus lhe falará. Que o Pai da eterni-dade possa, em sua misericórdia, encher de graça, alegria epaz a cada um para uma viva esperança. Salvador, outubro de 2004 Sérgio de Avillez 6
  7. 7. Introdução “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cris- to que, segundo a sua muita misericórdia, nos re- generou para uma viva esperança mediante a res- surreição de Jesus Cristo dentre os mortos…” (1Pe 1.3-9). “E o Deus da esperança vos encha de todo gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de espe- rança no poder do Espírito Santo.” (Rm 15.13) A esperança é uma dádiva do céu que faz com que anossa fé sempre aponte para o alvo, como a bússola apontapara o norte, enchendo de consolo e alegria o nosso crer. Nãopretendo defini-la nesse estudo, mas demonstrar sua possibi-lidade prática em meio à turbulência em que vivemos. As Escrituras falam muito de esperança. Suas páginasestão cheias de graciosa esperança. E isto não é mera coinci- 7
  8. 8. A esperança que temosdência, mas manifesta a intenção de Deus de nos comunicar,encher e enriquecer com ela, porque Ele mesmo é o Deus daesperança. “Pois tudo quanto outrora foi escrito, para o nossoensino foi escrito, a fim de que, pela paciência, e pela consola-ção das Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15.4). Crendo nisto, quero considerar um pouco do muito queoutrora foi escrito para o nosso ensino (2Tm 3.16, 17), a par-tir de uma pequena análise da história de Jó. A minha expec-tativa é que, inspirados nesta pequena amostra do todo deDeus, busquemos ver todos os nossos caminhos do ponto devista d’Ele. 8
  9. 9. 1 A dor que exige explicação Jó era homem fiel e temente a Deus, de tal maneira que,segundo o próprio Deus, não havia ninguém semelhante a eleem toda a terra. Não apenas era íntegro e reto, como tam-bém, muito rico e honrado. O homem mais rico do Oriente.Vejamos alguns aspectos da sua vida: • Sua integridade e temor a Deus: Jó 1.1-22; 2.1-10; 29.12-17, 21-25; 30.25; 31.1-40. • Sua honra: Jó 29.1-11. • Sua prosperidade: Jó 1.3; 31.24-25. Jó era como um modelo que Deus podia apresentar aomundo como exemplo e ao inferno como um trunfo. Era oSeu servo Jó: “Observaste meu servo Jó? Porque ninguém hána terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente aDeus, e que se desvia do mal”. Este testemunho de Deus a 9
  10. 10. A esperança que temosrespeito de um homem suscita a ira de Satanás que faz daqueda de Jó um desafio para si. Ainda hoje é assim: a vida queé uma honra para Deus é um ultraje para o inferno. Por isso“todos quantos querem viver piedosamente em Cristo serãoperseguidos” (2Tm 3.12). A confiança de Deus estava em que Jó O preferia poraquilo que Ele era, e não pelas bênçãos com que lhe agracia-ra. Deste modo, quando se refere ao seu servo, o Senhor ochama de homem íntegro e reto, temente a Deus, e que sedesvia do mal (Jó 1.8). Nenhuma referência faz à riqueza ehonra que Jó possuía. O esforço de Satanás é demonstrar o oposto, lançandona face do Senhor que todos os homens e, mesmo o melhordeles, preferem o pecado, vivendo para si mesmo e fazendosua própria vontade. É como dizer a Deus: os homens te se-guem, apenas, porque Tu os abençoas e proteges. Deixa-ossofrer e verás como te rejeitarão. Eles não te preferem. Amama si mesmos mais do que a Ti. É esta a acusação com que, dedia e de noite, ele acusa os irmãos diante de Deus (Ap 112.10). Assim, quando Deus lança o desafio ao diabo apre-sentando Jó como um modelo de fidelidade, segue-se umgrande duelo entre os valores sobre os quais o Senhor es-tabelece seu relacionamento com o homem e os valoresmesquinhos do inferno. 10
  11. 11. A dor que exige explicação O conflito, portanto, não é entre Jó e Satanás, mas entreDeus e Satanás. Por um lado, o Senhor dizendo: “Observastea meu servo Jó?…homem íntegro e reto, temente a Deus eque se desvia do mal”, por outro Satanás que diz: “…Jó emvão teme a Deus? Acaso não o cercaste com sebe, a ele, a suacasa e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste, eos seus bens se multiplicaram na terra. Estende, porém, a tuamão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfemacontra ti na tua face.” Deus libera a ação de Satanás para dar seguimento aoseu propósito. Deus tinha planos para a posteridade da fé,tinha lições a ensinar que envolviam Jó (Satanás foi só uminstrumento de Deus para cumprir os intentos do próprioDeus). Satã investe contra Jó com toda ferocidade, provocan-do uma destruição cruel: em um só dia Jó perde toda a suariqueza e todos os seus filhos são mortos violentamente. Asnotícias chegam uma após outra, sem tempo, sequer, parapensar no que se sucedia: “Falava este ainda quando veio ou-tro e disse:…” (Jó 1.12-19). Diante deste golpe terrível, Jóreage com humilhação e confiança, adorando ao Senhor e di-zendo: “Nu saí do ventre… E nu voltarei; o Senhor deu e oSenhor tomou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1.20-22). Jó não sabia, mas a sua tribulação estava apenas come-çando. Seu sofrimento seria intensificado e prolongado por 11
  12. 12. A esperança que temosmuitos meses. Diante da perseverança de Jó e do repetidotestemunho de Deus: “Observaste meu servo Jó?…ele con-serva a sua integridade, embora me incitaste contra ele parao consumir sem causa” (Jó 2.3), Satanás apela para o sofri-mento físico, argumentando: “Pele por pele e tudo quanto ohomem tem dará pela sua vida” (Jó 2.4). Em outras palavras:o que o homem mais ama é a sua própria vida; pode toleraroutras provações, mas não suportará ver a sua própria vidadestruída – ele é egoísta! Mais uma vez o Senhor expõe o seu testemunho ao ris-co: “…Eis que ele está em teu poder…” e o diabo vai e fere aJó com tumores malignos em todo o seu corpo. Jó sentava-seem cinzas e raspava seu corpo chagado com um caco. De talmodo era deprimente o seu estado e tamanha a sua dor, quesua esposa o aconselha a blasfemar contra Deus e depois sematar. A isto Jó responde: “falas como qualquer doida: temosrecebido o bem de Deus, e não receberíamos também o mal?Em todas estas coisas Jó não pecou com a sua boca” (Jó 2.7-10). Mas o mal de Jó não era um mal qualquer. Ele transfor-mara-se em uma figura repugnante, apodrecendo vivo. Veja-mos algumas conseqüências de sua enfermidade. a) Teve que se sentar no monturo, fora da cidade (2.8); b) As chagas criaram vermes (7.5); 12
  13. 13. A dor que exige explicação c) Tinha pesadelos horríveis (7.13-16); d) Sentia-se como uma coisa podre (13.28); e) O secar e supurar das chagas lhe encheram o corpo de rugas (16.8); f) Tornou-se esquelético (16.8; 19.20); g) Homens lhe desprezavam e lhe esbofeteavam o ros- to (16.10); h) Seus amigos lhe zombavam (16.20); i) Seu mau hálito afastava sua própria esposa (19.17); j) Seu mau cheiro causava nojo aos seus irmãos (19.17); k) Só as suas gengivas escaparam das chagas (19.20); l) As crianças lhe desprezavam (19.18); m) Sentia os ossos deslocados e queimando em fe- bre (30.17, 30); n) Antes, à sua chegada, os jovens se retiravam, os anciãos se levantavam e os príncipes se calavam (29.7-10). Agora os filhos dos loucos zombavam dele e lhe cuspiam no rosto (30.1-16). A notícia do nobre que caíra em desgraça espalhara-semuito e três amigos de Jó vieram de longe para consolá-lo.Avistando-o não o reconheceram, tal era o seu estado. Então,choraram em voz alta e por sete dias e sete noites não conse-guiram falar uma palavra, assentados com ele na terra (Jó2.11-13). 13
  14. 14. A esperança que temos Jó, que tinha esperança de ser consolado por seus ami-gos (Jó 6.14) , logo descobriu que, ao invés de consoladores,eles se tornaram molestadores, quebrantando-o com palavrasde acusação e aumentando-lhe a aflição (Jó 16.1-7; 19.1-6).Mesmo quando clama por compaixão: “compadecei-vos de mim,amigos meus, compadecei-vos de mim…” (Jó 19.21), não é aten-dido. Sem esperança de ser consolado por seus amigos, Jósuplica que pelo menos eles lhe ouçam, e isto lhe seria porconsolo (Jó 21.1-3). Mas nem isso ele conseguiu, pelo contrá-rio, recebeu mais acusações e até injúrias (Jó 22.5-11). Deste modo, desprovido do apoio de seus amigos, sen-tindo-se desamparado por Deus e sofrendo as mais terríveisaflições na carne, Jó passa a queixar-se amargurado e triste,questionando a Deus por seus sofrimentos: “Por isso não reprimirei a minha boca, falarei na angústia do meu espírito, queixar-me-ei na amar- gura de minh’alma…’ ‘Se pequei, que mal te fiz a Ti, ò Espreitador dos homens? Por que fizeste de mim um alvo…?’ ‘A minha alma tem tédio à mi- nha vida…’ ‘Por que, pois, me tiraste da madre…?”(Jó 7.11,20; 10.1,18). Por quê? Esta é a pergunta que persiste. 14
  15. 15. 2 Os motivos de Deus Podemos até pensar que se houve alguém na terra commotivos para queixar-se, este alguém foi Jó (Jó 6.1-10). Deus,porém, pensa diferente. Depois de ouvir todas as queixas deJó, o Senhor passa a mostrar-lhe toda a sua insensatez e ig-norância: “Quem é este que obscurece meus desígnios compalavras sem entendimento?… Acaso quem usa de censurascontenderá com o Todo-Poderoso? Quem assim argüi a Deusque responda. Acaso anularás, de fato, o meu conselho? Oume condenarás para te justificares?”. Depois de assim falar,Deus passa a argüir Jó, exigindo-lhe explicação sobre a cria-ção de um modo geral, sem que este lhe pudesse dar resposta(Jó 38 a 41). Mas por que Deus se preocupou tanto em mostrar aignorância de Jó? Por que humilhá-lo mais? Em uma avalia-ção superficial, os argumentos de Deus parecem completa- 15
  16. 16. A esperança que temosmente despropositados e sem nexo. Qual a relação entre osofrimento de um homem íntegro e o hipopótamo, o aves-truz, o crocodilo? Ou a neve, o mar, as estrelas? Realmentenão é razoável, não faz sentido. Uma observação mais apurada pode revelar-nos algunsdos motivos de Deus que podemos aplicar em nossa vida hoje. Deus quer mostrar-nos que a nossa ignorância nos im-possibilita de exercer qualquer julgamento (Rm 11.33-36).Jó nos serve de exemplo. Ora, se ele não entendia as coisassimples da natureza, como a vida animal, o clima, enfim, osfenômenos naturais de um modo geral, como entender o pro-pósito de Deus nas coisas que lhe sucediam? “Os passos dohomem são dirigidos pelo Senhor; Como, pois, poderá o ho-mem entender o seu caminho?” (Pv 20.24). A ignorância de Jó quanto ao propósito de Deus era tal,que quando Deus o tinha por motivo de alegria, uma espécie detesouro pessoal Seu: “Meu servo Jó”, ele considerava Deus comoseu inimigo e perseguidor: “Deus, tu me lançaste na lama… Tufoste cruel contra mim” (Jó 30.11, 19-21; 19.6-12, 21, 22). Jórealmente ignorava os pensamentos de Deus a seu respeito e oSenhor queria e precisava mostrar-lhe que: “assim como os céussão mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos maisaltos que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altosque os vossos pensamentos” (Is 55.8, 9). 16
  17. 17. Os motivos de Deus Deus tem conhecimento completo do antes, do agora edo após. “…pois para o Senhor um dia é como mil anos e mil anoscomo um dia” (2Pe 3.8). O Senhor se detém e vive intensa-mente cada situação e momento nosso. O nosso dia não passarápido e desapercebido ao Senhor: • Nas tribulações, ele nos conta os passos, nos recolhe as lágrimas em seu odre e as registra no Seu livro (Sl 56.8). Deste modo, um dia, poderá enxugá-las todas (Ap 21.4). Ele sabe exatamente quantas são! • Angustia-se na nossa angústia (Is 63.9). • Nos carrega em seus braços (Is 46.3, 4). • Ele detém-se, tendo tempo e cuidado suficientes para nos contar os fios todos de cabelos de nossa cabeça (Mt 10.30). Aleluia! Que belo é o cuidado de nosso bondoso Pai! O Senhor não se exaspera com o tempo como se fosseperder alguma chance irrecuperável. Ele nunca é surpreen-dido pelas situações. Ele nunca dirá: Passou-se tanto tempo eeu não consegui! Nada disso! Para o Senhor, passou-se só umdia, ainda que tenham sido mil anos. O Eterno Deus não está atrasado em seu propósito.“Nenhum dos seus planos será frustrado” (Is 46.10; Jó42.2). Aleluia! 17
  18. 18. A esperança que temos Ele é Alfa e Ômega, Princípio e Fim. Tudo está retidon’Ele, encerrado n’Ele – Ele é os limites da eternidade, o Paida Eternidade (Is 9.6; 44.6; Ap 1.8; 21.6). Deste modo, Elesabe por que as coisas acontecem e para que acontecem; co-nhece os motivos e sabe os resultados. Ele é o Senhor! Aleluia!Davi diz: “Tal conhecimento é elevado demais para mim” (Sl139.6). Verdadeiramente, Deus tinha uma importantíssima li-ção a ensinar ao seu servo Jó e à posteridade da fé. Ali estavaa oportunidade: Jó não sabia da conversa de Deus com Sata-nás, nem do grande conflito que se configurava nas regiõescelestiais. Não sabia do desafio de Satanás e do quanto Deus“apostou” nele, o seu servo Jó. Ao “apostar” em Jó, Deus estava expondo a sua própriareputação. Como a igreja hoje é o “bom perfume de Cristo,exalando em todo lugar a fragrância do seu conhecimento”,assim também, Jó era o que Ele tinha de melhor. Embriagado por sua dor, Jó não sabia a causa da suaprovação. Não apenas isso, mas Jó também não sabia que seuexemplo perduraria por séculos: “Quem me dera agora, queas minhas palavras se escrevessem! Quem me dera, que segravassem num livro! E que, com pena de ferro, e com chum-bo, para sempre fossem esculpidas na rocha!” (Jó 19.23-24).Era este o seu anseio. Não sabia ele que este seu desejo se 18
  19. 19. Os motivos de Deuscumpriria. Não sabia que mil anos depois Deus daria teste-munho dele (Ez 14.14) e que três mil e quinhentos anos de-pois, nós estaríamos aqui, sendo inspirados e desafiados porsua vida. Jó não sabia o resultado da sua aflição, o fruto da suador. E aqui está a lição a ser aprendida: os homens são sem-pre inclinados a relacionar a aprovação e benção de Deus como seu próprio bem-estar. Se estão bem, Deus está com eles. Seestão com problemas, Deus está ausente. Não conseguemenxergar além das circunstâncias. Importa confiar na soberania de Deus e na autoridadeque Ele tem sobre estas circunstâncias. “O governo está so-bre os Seus ombros” (Is 9.6). Ele obriga e ordena que todas ascoisas, todas as circunstâncias e tribulações, toda dor ou ale-gria, toda lágrima e riso cooperem para nossa santidade eedificação, para o nosso bem: “Sabemos que todas as coisascooperam para o bem daqueles que amam a Deus… porquan-to… os predestinou para serem conformes à imagem do seuFilho, a fim de que Ele seja o primogênito dentre muitos ir-mãos” (Rm. 8.28, 29). Importante notar que não é para o nosso “bem-estar”,como pensam e esperam muitos, mas para o nosso “bem”. E onosso “bem” é sermos apresentados diante da Sua glória san-tos e irrepreensíveis (Ef 1.3-5; Cl 1.21-23; 2Pe 3.14; Jd 24). 19
  20. 20. A esperança que temos Uma vez o nosso bem significou o abandono do Ama-do, a morte do Filho Unigênito do Pai. E por que ele foi abandonado e morto? Deus olhava para este mundo e nada via que o agradas-se. Toda a criação estava corrompida e gemia, inclusive o ho-mem (Rm 8.19-22). Na visão do Apocalipse, o apóstolo João“chorava muito porque ninguém havia, nem nos céus, nem naterra, digno de abrir o livro selado, nem mesmo de olhar paraele” (Ap 5.1-4). A dignidade requerida não era apenas pelo livro, maspor Aquele que o escrevera e segurava em sua mão direita.Quem ousaria se aproximar do Senhor Deus Todo-Poderosoe tomar das Suas mãos qualquer coisa? “… Pois quem de simesmo ousaria aproximar-se de Mim? Diz o Senhor” (Jr30.21b). Nem os céus, em todo o seu esplendor e glória, e pure-za, e santidade, são dignos de Deus. Nada havia em toda acriação que enchesse o coração do Pai. Em toda a extensão douniverso, em todas as dimensões físicas e espirituais, nadahavia que lhe desse prazer. “Até aos anjos Ele atribui imper-feições’; ‘nem os céus são perfeitos aos seus olhos”. (Jó 4.17-19; 15.15-16). O homem tornara-se “geração perversa e de-formada” (Dt 32.5, 6; Fp 2.15; Rm 3.10-23; 2Pe 2.14). 20
  21. 21. Os motivos de Deus Então, Ele olha para o Seu Filho e sorri. Sim, Ele sealegra mais em Seu Filho do que Abraão poderia alegrar-seem seu Isaque. É o Seu único Filho; o Filho que gerou (Hb1.5; Lc 1.31-32). Ele diz: “Este é o meu filho amado em quemtenho o meu prazer” (Mt 3.17). Sim, porque “Ele é o resplen-dor da glória, a expressão exata do Seu ser” (Hb 1.3) e “…n’Ele habita corporalmente toda a plenitude da divindade.”(Cl2.9). “Mas ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar…”(Is 53.10) – Para o nosso bem! N’Ele estava a vida, disse João (Jo 1.4). “EU sou a Vida”,Ele disse (Jo 14.6). Mas a Vida morreu, expirou – para o nos-so bem! Aqui convém deter-se e pensar: Jesus, o Deus criadordo homem, tornado humano. O Verbo Eterno, feito carne (Fp2.5-8; Jo 1.1-4, 14). O Senhor dos céus estava só, fraco e de-samparado na maldição da cruz (Gl 3.13; Mt 27.46). Aquele que sustenta todas as coisas pela palavra do seupoder (Hb 1.3), sendo sustentado por pregos sobre o madeiromaldito. Tomando a maldição e fazendo-me bênção. Sofrendoo veneno e tornando-se o antídoto. Aquele que teve a forma de Deus, Espírito Eterno, (Fp2.6; Jo 4.24) tendo a sua carne (forma de homem e figura hu-mana) sendo rasgada qual véu perecível e frágil, abrindo ca- 21
  22. 22. A esperança que temosminho à santidade do Pai. Caminho para mim, “geração defor-mada”. Seu sangue escorrendo – Sua vida derramada sobremim, a purificar-me das culpas e pecados que me separavamdaquele que é Santo (Hb 10.19-23). Aquele que disse: “Eu e o Pai somos um”, definhava noabandono e agonia da cruz. Estava só! Nem homens – seusamigos, tontos e assustados, não entendiam a grandeza dahora. Nem anjos – separados, pela morte, daquele que oscriou. Nem o Pai – virando as costas para o Santo que Elemesmo tornou pecado por nós (Rm 8.3; 2Co 5.21; Hb 9.26;1Pe 2.24). Ele estava só! Era mais, muito mais do que a solidão de uma separa-ção momentânea e voluntária. Era mais, até, que a separaçãoprovocada pela morte de uma pessoa querida. Era o afasta-mento da rejeição por Deus. A separação da condenação. Asolidão do desamparo. O espectro do inferno: ausência deDeus. Oh! Tão amado Jesus! Como te compreender? Oh! Je-sus! Tão bendito Senhor Jesus! Quando um dia, Tu, comexultação me apresentares imaculado diante da tua glória (Jd24), quero olhar dentro da tua face e, enquanto enxugas mi-nhas lágrimas, reclinar-me em teu peito e sorrir, e bendizer-te, e louvar-te, e dar-te graças por me dares toda uma eterni- 22
  23. 23. Os motivos de Deusdade para te amar e seguir te amando e crescendo neste amor.E ainda assim saberei que não será suficiente o meu amor! Também o Pai estava só. Aquele em quem seu coraçãose deleitava (Mt 17.5) era agora o alvo da ira de Sua justiça.Seu agrado já não estava em contemplá-lo, mas em moê-lo,fazendo-o enfermar (Is 53.10). Como nunca antes, nem como jamais um dia, o Pai estava só. Por um instante, seu eterno propósito de ter uma grandefamília pareceu destruído – um sonho vago, dissipado na mortedo seu Unigênito. O momento singular, glorioso e terrível em que o grãode trigo morrendo, racha-se liberando a vida, produzindomuito fruto. “O grande mistério da piedade: Aquele que foimanifestado na carne, foi justificado em espírito…” (1Tm3.16). E isto tudo, para o nosso bem. Um dia, o bem da igreja e do eterno propósito de nossoPai pode significar a tua dor, tua lágrima, teu abandono esolidão - tua morte. Um dia, em ti “operará a morte” para que em outrosfilhos do Pai “opere a vida”. Um dia poderás ser “lixo do mundo, escória de todos” paraque teus irmãos se façam preciosos. Poderás ser louco paraque eles sejam sábios. Desprezado para que eles sejam torna-dos nobres. 23
  24. 24. A esperança que temos Um dia, precisarás ser humilhado (Jó 16.15), ter a tua“coroa lançada por terra” (Jó 19.9), para que teus irmãos sejamvestidos de honra. Neste dia será preciso que entendas e ames profunda-mente o propósito eterno de Deus para que possas sercooperador com Ele. Precisarás andar nos passos de Jesus:“… que andou em trevas sem nenhuma luz, e ainda assimconfiou em o nome do Senhor e se firmou sobre o seu Deus”(Is 50.10). Nem sempre haverá alguma manifestação ou evidênciada presença ou socorro de Deus. Tudo será deserto, escuro esilencioso. Parecerá que os céus são de bronze e Deus estádistante e inacessível. Quero, então, dizer-te algo muito im-portante: às vezes Deus não responde, não porque não queiraou porque não possa, mas porque precisa ficar em silencio.Nestes momentos, Ele está confiando naquilo que já fez emnós, e nos possibilitando conhecer o nosso próprio coração,ao nos dar a chance de escolher entre a nossa e a Sua vontade. O apóstolo podia dizer: “… porque andamos por fé enão pelo que vemos…” (2Co 5.7). Nosso ânimo não pode de-pender das circunstâncias que nos cercam ou da dor que so-fremos, mas daquilo que sabemos e cremos a respeito do nos-so grande Senhor e da sua santa vontade: boa, agradável eperfeita (Rm 12.1, 2). 24
  25. 25. Os motivos de Deus Foi assim com Jesus em Getsêmani, quando Ele sentia“pavor até a morte” e de angustia cambaleava, suando sangueem plena madrugada. Antes da agonia do Jardim das Olivei-ras, quando entrou em Jerusalém na semana da Páscoa, já naiminência de sua crucificação, Ele orou ao Pai buscando umconforto: “Agora está angustiada a minha alma, e que direi Eu?Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente com este propósitovim para esta hora (Ele sabia a vontade do Pai). Pai, glorifica oteu nome” (Jo 12.27, 28). Não buscou livramento, mas a glória doPai. Então, o bondoso Pai deu um testemunho público e so-brenatural do seu Filho. Fez-se ouvir como um trovão, a vozde Deus: “Eu já O glorifiquei e ainda O glorificarei” (Jo 12.28).Era como se o Pai dissesse: “Filho, fica firme! Eu estou conti-go! Vamos até ao fim, nosso propósito se cumprirá : muitosfilhos iguais a Ti!”. Contudo, lá em Getsêmani, quando as trevas eram maisdensas e seu Filho agonizava de pavor, “andando em trevas semnenhuma luz”, e o inferno, com todas as suas hostes, o ator-mentava, o Pai silenciou. Precisava calar. Não devia influen-ciar ou intervir. Era decisão do Filho, ser ou não, obedienteaté a morte, e morte de cruz… A cruz seria o extremo da obediência. Nela tudo seriaconsumado; o plano eterno retomado – a vitória de Deus! 25
  26. 26. A esperança que temosDepois dela nada deteria o Autor da vida, nem mesmo a mor-te (At 2.24; 3.15). Ele seria exaltado e o Pai glorificado (Fp2.9-11; At 2.32-36). Mas entre o Getsêmani e a exaltação do Filho e glória doPai havia a cruz - e ela poderia ser evitada, se o Filho assim oquisesse. A cruz não lhe foi imposta. Ele a escolheu e preferiupor saber ser esta a vontade do Pai. Se, contudo, a tivesse recusa-do não seria reprovado ou punido - tinha a escolha. Mas, então, aglória do Pai seria subtraída e seus pensamentos eternos frus-trados (Is 46.10; Jó 42.2). Com o gemido do filho – “ Aba, Pai, Tudo te é possível: passade mim este cálice…” – posso saber do soluço do Pai, imolando oseu Isaque por não ter cordeiro que o substituísse. Então o Seu Cordeiro entrega-se: “…contudo, não sejao que eu quero, e sim, o que Tu queres” (Mc 14.36). O nosso bem é o cumprimento da Sua vontade. Aleluia! Deus nos quer filhos que se multipliquem à sua ima-gem. Esta é a sua vontade. A ordem de Jesus em Mt 28.18-20 não é um ingredien-te novo, uma ordem que se acrescenta depois do pecado. É oeco do Éden: o “multiplicai-vos e enchei a terra” é reafirmadocom o “ide por toda a terra e fazei discípulos”. 26
  27. 27. Os motivos de Deus A nossa vocação, então, é a mesma de Adão: multipli-car a imagem e a vida de Deus. Encher a terra de filhos paraDeus. O Senhor Deus não é míope ou vesgo. Sua visão é clarae inalterada. Seus olhos não se desviam do alvo. Ele sabe, emverdade, o que é melhor. Ele não se deixa embaraçar ou cons-tranger pelas circunstâncias. Deus não é manipulado pelonosso choro, nem se deixa impressionar pelos gemidos dohomem – Ele conhece isso desde o Éden. Se a dor e o sofrimento cooperam para que o homem seassemelhe a Jesus, Deus os permitirá. Se for o riso, Ele pro-duzirá este riso. E assim o é com a riqueza ou pobreza, abun-dância ou escassez, bonança ou tormenta, sucesso ou fracas-so, honra ou desprezo (Fp 4.9-13). “Todas as coisas cooperam para o bem daqueles queamam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu pro-pósito” (Rm 8.28). Este propósito envolve muitos irmãos, umafamília – toda a grande família de Deus. Por isso é precisolembrar que as coisas que nos acontecem não dizem respeitoapenas a nós mesmos (1Co 12.12-14, 25-27). Nunca podemosesquecer que somos corpo, membros interdependentes, res-ponsáveis uns pelos outros. A nossa atitude diante das cir-cunstâncias traz reflexos diretos sobre muitos e por muitotempo. Jó não atentava para este efeito, Deus sim. 27
  28. 28. A esperança que temos Nunca sofremos apenas por nós mesmos e para nósmesmos: “Mas, se somos atribulados é para o vosso confortoe salvação; se somos confortados, é também para o vosso con-forto, o qual se torna eficaz, suportando com paciência osmesmos sofrimentos que nós também padecemos” (2Co 1.6). Quando Paulo sofria ele estava aprendendo, como Je-sus, a experimentar o consolo do Pai, para consolar a outrosque também sofressem (Hb 2.17, 18; 4.14-16), ensinando-osa sofrer em fé e ações de graça (Rm 12.12; Fp 1.29; 1Pe 1.5).Deste modo, ele podia dizer: “Bendito seja o Deus e Pai denosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus detoda consolação! É Ele que nos conforta em toda a nossa tri-bulação, para podermos consolar aos que estiverem em qual-quer angustia, com a consolação com que nós mesmos somoscontemplados por Deus. Porque, assim como os sofrimentosde Cristo se manifestam em grande medida em nosso favor,assim também a nossa consolação transborda por meio deCristo” (2Co 1.3,5). Jesus entendia que precisava santificar-se não só por si,mas também por seus discípulos, para que “eles fossem aper-feiçoados na verdade” (Jo 17.19), pois Ele os tinha enviado domodo como o Pai O enviara. Ele orava por eles e pelo frutoque eles produziriam, para que todos fossem um com ele e oPai, a fim de que o mundo cresse (Jo 17.20-21). Que tremenda 28
  29. 29. Os motivos de Deusresponsabilidade! Assim foi a existência de Jesus na terra:plena de um senso santo de conseqüência. Assim devemos ser (Jo 17.18-21 x Jo 13.15-17). A nos-sa postura pode nos fazer “cidade sobre o monte”, “candeiano velador”, “luzeiros no mundo”, trazendo grande glória aonome do Senhor (Fp 2.14, 15; Mt 5.14-16). Ou fontes amar-gas, poços de murmuração, “contaminando a muitos” (Hb12.15), sendo tropeço para muitos (1Co 10.32) e trazendo blas-fêmia ao nome do Senhor (Rm 2.24). Não nos esqueçamosque o nosso bem é o cumprimento da Sua vontade. “Nessavontade é que temos sido santificados, mediante a oferta docorpo de Jesus Cristo…” (Hb 10.10). Por isso, “… não seja aminha, mas a Tua vontade”, ainda que com sangue e até amorte (Hb 12.4; Fp 1.20; 2.17; At 20.24). Orando ao Pai quanto aos seus discípulos, o Senhor Je-sus disse: “Eu lhes fiz conhecer o teu nome e ainda o fareiconhecer, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e Euneles esteja” (Jo 17.26). Essa é a sua vontade: que o seu amoresteja em nós. Quando isso acontecer plenamente, será notó-ria e inconfundível a sua presença em nós, porque então, to-dos os nossos atos serão feitos em amor (1Co 16.14). Deus é amor! Nunca conheceremos o seu coração e nun-ca seremos parecidos com Ele se não pudermos amar comoEle ama. Por isso Ele derrama do seu próprio e grande amor 29
  30. 30. A esperança que temosem nosso coração pelo Espírito Santo (Rm 5.5). Ó Espíritodá-me mais desse amor! Para amarmos a Deus é necessário que O conheçamos.Por isso Jesus disse: “Eu lhes fiz conhecer o teu nome… paraque o amor com que me amaste esteja neles…” Deus usarátodas as circunstâncias para se dar a conhecer a nós, a fim deque possamos imitá-lo (Ef 5.1 x Jo 5.19) e nos assemelhar aEle. Deste modo cumpriremos a sua vontade: “…que vos ameisuns aos outros assim como eu vos amei…” (Jo 13.34-35). Toda ação de Deus em nossa vida deriva do Seu esforçoem cumprir o Seu propósito: fazer-nos filhos semelhantes aoSeu Filho. Ele quer nos trazer para perto de Si, a fim de sen-tirmos como Ele sente, e vermos como Ele vê e sermos Seuscooperadores. 30
  31. 31. 3 Unidos em esperança ao coração de Deus Para a maioria dos homens, é mais fácil sentir do quecrer. As situações que nos cercam atingem diretamente osnossos sentidos, ofuscando o brilho e a glória da realidadeespiritual contida no propósito eterno de Deus. Por isso, Eleage nas circunstâncias adversas de modo que elas produzamem nós aquele elemento que nos faz viver na terra, pensandonas coisas lá do alto (Cl 3.1-4), esperando com confiança aquiloque não se vê. Este elemento é a esperança, a filha da tribula-ção: “… E gloriemo-nos na esperança da glória de Deus. Enão somente isto, mas também nos gloriemos nas próprias tri-bulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perse-verança, experiência; e a experiência, esperança” (Rm 5.1-4). 31
  32. 32. A esperança que temos A esperança é fruto da experiência. Ninguém adquire ex-periência sem perseverar, e, ninguém precisa perseverar se não éatribulado. Ou seja, sem tribulação, para quê esperança? Como atribulação é inevitável, a esperança se faz indispensável. Esta esperança não nos deixa confundidos ou envergo-nhados porque, enquanto sofremos com esperança, o Espíri-to Santo nos enche o coração com o amor de Deus. “Ora, aesperança não confunde, porque o amor de Deus é derrama-do em nossos corações pelo espírito Santo que nos foi outor-gado” (Rm 5.5; 8.22-25). Este amor é aquele que “é paciente, benigno e não ardeem ciúmes. O amor que não se ufana nem se ensoberbece.Que não se conduz inconvenientemente, nem procura seuspróprios interesses. Não se exaspera nem se ressente do mal.Este amor não se alegra com a injustiça (mesmo quando pra-ticada contra um inimigo que já lhe fez o mal), mas alegra-secom a verdade. Este bendito amor, tudo sofre, tudo crê, tudoespera, tudo suporta. O amor nunca acaba!” (1Co 13.4-8). Quando sofremos o Senhor nos dá oportunidade de nosassemelhar a Ele; nos dá oportunidade de amar! Vale notar que a esperança, na bíblia, quase sempre vemacompanhada de adversidades, tribulações, provações e pro-messas. Aleluia! “Suas preciosas e mui ricas promessas…” (1Pe1.3-9; 2Pe 1.3-4; Rm 5.1-5; 8.23-25). E é assim porque a espe- 32
  33. 33. Unidos em esperança ao coração de Deusrança impede a amargura e o endurecimento. Anima e revi-gora a vontade e nos firma em fidelidade ao antecipar, por fé,a alegria da vitória, do desfecho glorioso que o Senhor nostrará, seja em uma circunstância temporal, seja na eternida-de. Portanto, “alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tri-bulação, perseverai na oração” (Rm 12.12). Consideremos, por exemplo, a galeria dos heróis da fé, apre-sentada em Hb 11.30-38: “…os quais, por meio da fé, subjuga-ram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas, fecha-ram bocas de leões, extinguiram a violência do fogo, escaparamao fio da espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-se podero-sos em guerra, puseram em fuga exércitos de estrangeiros. …outros, por sua vez, passaram pela prova de escárnios, açoites, al-gemas e prisões. Foram apedrejados, provados, serrados pelomeio, mortos ao fio da espada; andaram peregrinos, vestidos depeles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados(homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos de-sertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra.” Como podemos constatar, uns, já aqui, usufruíram ogosto da vitória e da glória, enquanto que outros, apenas pro-varam dor, e lágrimas, e morte, com os olhos postos em Deus.Todos, porém, igualmente participaram do propósito de Deuse cooperaram com Ele na execução da Sua vontade. Contudo,não lhes foi dado escolher como participariam. 33
  34. 34. A esperança que temos É preciso entender que além de cooperadores, somosmatéria-prima de Deus, pronta para ser consumida em suagrande obra. Isto me faz lembrar uma cena que eu pude admirarmuitas vezes na minha infância: o funcionamento de uma ola-ria (cerâmica artesanal). O lenho seco (madeira imprestávelpara edificação ou móveis) é lançado ao fogo para produzir a“cura” ou fortalecimento dos tijolos que depois serão utiliza-dos em várias construções, desde casas simples até mansões.Todos olham para estas construções e sabem que ali há tijo-los. É inegável e evidente sua participação. Todos lhe atribu-em o mérito devido. Então surge a pergunta: Quem, ao olharas construções, se lembra do lenho queimado? Suas cinzas, jáhá muito, foram sopradas, abrindo espaço para mais lenhoseco que se proponha ser consumido e esquecido. Sacrificadopara formar tijolos fortes e aparentes. “Que Ele cresça (e ao crescer seja visto, mesmo que emoutro) e que eu diminua” deve ser a nossa divisa. Fomos cria-dos, e devemos existir, para louvor da Sua glória (Ef 1.4-6). Muito do nosso sofrimento é fruto do conflito: paraquem a glória – Para Deus ou para mim? Quando estivermos em total esvaziamento, não sofre-remos tanto ao sermos humilhados. Deixaremos de serreivindicadores de bênçãos e direitos pessoais, para sermos 34
  35. 35. Unidos em esperança ao coração de Deusintercessores, sacerdotes fiéis, adoradores santos (Hb 5.1,2;1Pe 2.9; Jo 4.23,24). Quando o Espírito Santo nos exorta a ter “…o mesmosentimento que houve também em Cristo Jesus…”, busca lembrar-nos a vocação de vivermos para a glória d’Aquele por cujacausa todas as cousas existem (Hb 2.10). As Escrituras afirmam que Cristo nos deixou exemplopara seguirmos os seus passos (1Pe 2.21) e que “aquele que dizque está n’Ele deve andar como Ele andou” (1Jo 2.6) Como épossível isso? Por onde começamos? O Espírito Santo nos dáuma direção: “Tende em vós o mesmo sentimento que houvetambém em Cristo Jesus, pois Ele… a si mesmo se esvaziou…” Consideremos um pouco a trajetória de Jesus para po-dermos, então, desenvolver o mesmo sentimento que havian’Ele. Se prestarmos atenção, veremos que o Verbo Eterno, apartir de uma atitude básica, uma disposição interior de esva-ziamento, vai avançando para baixo, crescendo em humilha-ção. Vejamos Fp 2.5-11: “Cristo Jesus subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar…” Isto significa que Ele não exigiu o privilégio. Não ape-nas não se esforçou para manter, como recusou a posição que 35
  36. 36. A esperança que temosera sua por direito. Não lhe pesava nenhuma obrigação. Nin-guém lhe deu ordem – nem poderia: não havia ninguém aci-ma d’Ele. Seu relacionamento com Deus era como de doisiguais. Como dois gêmeos, onde tanto o primeiro se parececom o segundo e vice-versa, nenhum era referencial exclusi-vo para o outro. Não havia uma matriz e uma cópia. Esta expressão subsistindo indica que Jesus, antes daencarnação, era Deus. Tinha a forma de Deus. Forma é a ex-pressão permanente de existência. Assim como existe a for-ma dos animais (a aparência muda de um animal para outro,mas a forma indica este tipo de criatura), existe a forma dohomem, de anjo e de Deus. O Verbo Eterno tinha a forma deDeus. Isto não lhe foi dado. Ele sempre existiu, assim como oPai, na forma de Deus. Ele era Deus (Jo 1.1). Aquele a quem hoje chamamos de Deus Pai, não eramaior que o Verbo Eterno. Aquele a quem hoje chamamos deFilho de Deus, não era menor que Deus Pai – era o próprioDeus. O Verbo Eterno foi tornado filho ao ser gerado no ven-tre de Maria. Se aceitarmos que de algum modo Ele tenhasido gerado antes deste momento histórico, estaremos ne-gando a Sua eternidade (Is 9.6). Se Ele é o Pai da eternidade,como a Escritura pode dizer: “… hoje te gerei”? (Hb 1.5). Emais, as expressões: “Eu lhe serei Pai, e Ele me será Filho” 36
  37. 37. Unidos em esperança ao coração de Deus(Hb 1.5) indicam um tempo futuro. Isto significa que, até en-tão, a relação entre Eles não era de Pai e Filho. Considerando Hb 1.8, 9: “…Mas, acerca do Filho: OTeu trono, ó Deus, é para todo o sempre, …por isso Deus, oteu Deus, Te ungiu…”, como pode Deus ter sido gerado oucriado? Só se pode conceber o Deus Filho sendo gerado, emsua humanidade e encarnação. Antes disso Eles eram iguais.Mas Ele, o Filho, não se aferrou a isto, “… Antes (pelo contrário) a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo...” Ainda lá na glória, o Verbo Eterno aceitou e decidiu serservo. Servo de Deus. Era como se Ele dissesse a Deus: daquipara frente Tu dás as ordens e Eu me submeto. Não temos maisque entrar em conselho – Tu serás Pai e Eu, Teu Filho. Esta foisua atitude básica: assumiu a forma de servo, “… Tornando-se em semelhança de homens…” O fazer-se semelhança de homens significa que Elelevou a efeito a sua decisão de ser servo. Mas, como ser umsubmisso servo sendo Deus? Despiu-se, então, de toda asua glória e vestiu-se de carne e sangue. Carne frágil e tãolimitada! 37
  38. 38. A esperança que temos Trocou a adoração e o louvor dos habitantes celestes –seres santos e poderosos – para enfrentar a dura cerviz e arejeição de homens pecadores e desprezíveis. Ele, contudo,não apenas tornou-se semelhança de homens (aparência ex-terior de homem), mas foi “… Reconhecido em figura (forma) humana,” Isto é, homem de fato e de verdade. Gente, de carne eosso. Aquele que foi tentado à nossa semelhança (Hb 2.18;4.15), não foi Deus – Este não pode ser tentado pelo mal (Tg1.13) – mas o homem Jesus, o carpinteiro galileu. É muito difícil pensar neste texto sem sentir grandetristeza, quase uma angústia. Ao chegar neste ponto em queEle é reconhecido em forma humana, fico imaginando Deussubmetendo-se a este aleijão indescritível e sou impelido adizer como Pedro: “Senhor, não te faças tal”. Chega, basta!Deixa-me ir para o inferno, mas, poupa-Te! Mas, então, des-cubro que não foi só para me livrar do inferno que o SenhorJesus foi até a cruz. Ele foi movido por um motivo tão maiselevado: A glória do Pai. Costuma-se dizer que a glória de Deus é o melhor paranós, e que a felicidade do homem é fruto da santidade que estealcança. Isto é uma verdade, mas eu quero dizer que ainda que asantidade produzisse amargura e dor, e a glória de Deus trou- 38
  39. 39. Unidos em esperança ao coração de Deusxesse condenação, é para sua glória que devemos viver. Para istofomos criados e para isto existimos. Este elemento estava pre-sente no sentimento que houve em Cristo Jesus. Nesta disposição Ele continua crescendo em humilha-ção, crescendo para baixo, pois uma vez reconhecido em figu-ra humana… “A si mesmo se humilhou” Mesmo na condição de homem, continuou se esvazian-do até tornar-se o menor e mais desprezível dentre os ho-mens. O texto de Isaías 52.13 a 53.10 fala d’Aquele que eraigual a Deus e do que Ele fez a si mesmo. Fala da sua trajetó-ria humana. O Profeta dos milagres e prodígios grandiosos, o Rabide palavras graciosas e olhos de sacerdote não foi despreza-do, ao contrário, foi sempre aclamado ou odiado, mas nuncaignorado – foi elevado e mui sublime. Mas, sublimidade nãocabe a um servo, por isso Ele se humilhou e tornou-se vil edesprezível aos olhos de todo homem. “…Um de quem os ho-mens escondem o rosto…” A senda do Calvário fez d’Ele “O mais rejeitado entreos homens, reputado por aflito, ferido de Deus e oprimido” –d’Ele não se fez caso. 39
  40. 40. A esperança que temos “O resplendor da glória”, Aquele para quem os céus seinclinam, foi humilhado pela ralé da terra e atingido pelosinsultos dos infames habitantes do inferno. Para suportar tamanha humilhação, era preciso cum-prir um pré-requisito, e Ele o fez: “Tornando-se obediente…” Antes dos “dias da sua carne” (Hb 5.7), Ele não pre-cisava obedecer (Jo 1.1-3; Rm 11.34-36). Não havia nin-guém sobre Ele, ninguém a quem devesse explicação: “Noprincípio era o Verbo… e o Verbo era Deus… e o Verbo sefez carne…”. A obediência, então, era algo novo e alheio asua natureza divina, agressivo a sua realeza eterna. Porisso, Ele precisou tornar-se obediente. Teve que aprendera obediência (Hb 5.8). Não como nós que somos rebeldespor natureza, mas porque nunca esteve sob a autoridadede alguém – era Deus! Mas até que ponto deveria Ele obedecer? “… Até a morte…” Permaneceu em obediência até o fim. Não é que Eleestivesse progredindo em obedecer e, de repente, como Es-tevão (At 7.59-60) ou Tiago (At 12,1-2), fosse alcançado 40
  41. 41. Unidos em esperança ao coração de Deuspela morte. Não! Ao contrário, a morte foi o limite da obe-diência. Como não havia mais qualquer prova para testarsua obediência, então, já podia intervir a morte. E como foi sua morte? O Espírito Santo faz questão dedestacar: Não bastava morrer, tinha que ser… “… Morte de cruz” Morte de malditos, morte dos párias da sociedade.Mas não um pária ou excluído qualquer, tinha que ser es-cravo. Só escravos morriam na cruz. Deste modo, como um reles escravo, o Senhor doscéus, o adorado das incontáveis miríades celestiais, “des-ceu às regiões inferiores da terra” (Ef 4.9). Imagino que, assim como eu, os demais filhos de Deusao ler em Fp 2.5-8, o fazem com rapidez e desconforto. Háuma expectativa, um anseio por desaguar no cântico triun-fal dos versos de 9 a 11: A exaltação do Servo sofredor! Oscéus, em festa, recebem o seu Amado, ajoelham-se e O ado-ram. Abrem-se-lhe os portais eternos. O Pai Lhe oferece otrono à sua destra. Os poderosos e príncipes da terra sear rojarão aos seus pés. As potestades do mal, osdominadores deste mundo tenebroso, humilhados, se do-brarão ante o Rei da Glória. 41
  42. 42. A esperança que temos “Pelo que também Deus O exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo o nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor para glória de Deus Pai.” Ele recebeu o nome supremo: Senhor. A palavra gregautilizada para designar Jesus neste texto – Kyrius – é a mes-ma utilizada na Septuaginta (versão grega do Velho Testa-mento) para traduzir Yahweh do hebraico. Esta é a posição deextrema honra e autoridade que foi conferida Àquele que so-freu extrema humilhação. E, então, uma vez mais minha débil percepção me confun-de e embaraça, pois vejo que mesmo na sua exaltação, quando secomemora a sua vitória, quando tocam as trombetas celestiais ese levantam os portais eternos para a sua passagem, quando todapopulação celestial comemora sua autoridade e majestade, não épara Si, mas para Seu Deus e Pai, a glória que recebe. Como entender Jesus, o Cristo? Na sua exaltação Eleestava vazio de Si mesmo! Oh! Jesus! Como ter este teu sentimento se nem mes-mo posso compreendê-lo? Por mais que me esforce não con-sigo atinar em nada que pudesse fazer ou sofrer para sequerme aproximar de tal esvaziamento. 42
  43. 43. Unidos em esperança ao coração de Deus Senhor meu, que Te posso dar como demonstração degratidão e reconhecimento? Como Te presentear? Como Tesurpreender com uma oferta que Tu não esperas? Nada te-nho ou sou que já não me tenhas exigido. Tudo é teu pordireito. Nenhuma dádiva nova tenho para Te oferecer! Como é feliz a pecadora que, na casa de Simão, Te un-giu os pés com precioso ungüento e, chorando sobre teus pésempoeirados, os beijava e enxugava com os próprios cabelos!(Lc 7.36-50). Como eu a invejo! Sou pobre e miserável! Deixa-me, pois, consumir emteu serviço ou me consumirá a desventura dos ingratos! “Tende em vós o mesmo sentimento que houve tam-bém em Cristo Jesus”. É esta a exortação do Espírito Santo.Esta expressão pode também ser traduzida como “o mesmoespírito que houve em Cristo Jesus”. Deus nos quer treinar para desenvolvermos este espí-rito, este sentimento, como aconteceu com o Seu Primogênito.E do modo como Ele, a partir de um posicionamento assumi-do, foi crescendo nas suas ações em esvaziamento e humilha-ção, assim também, deve ser conosco. Nesta perspectiva, podemos entender por que Jesusao anunciar o Evangelho do Reino de Deus (governo e au-toridade de Deus), fazia quatro exigências básicas (Mc 8.34-36; Lc 14.25-33): 43
  44. 44. A esperança que temos a. Negar-se a si mesmo – Ele o fez ao abdicar de suaforma e igualdade com Deus, fazendo-se servo e homem. b. Tomar a Cruz – Ele o fez ao renunciar a própriavontade, abraçando a do Pai, mesmo sob a inigualável tenta-ção do Getsêmani. Além disso, tomou-a, literalmente, sobreos ombros humanos. c. Perder a vida – Ele o fez, literalmente, obedecendoaté a morte. d. Renunciar a tudo – Ele o fez ao tornar-se homempara sempre, dando ao seu Deus e Pai toda a glória e autori-dade (Mt 24.36; Jo 14.28; 1.7; 1Co 8.6; 15.27-28; Fp 1.11; 2.11;Ap 1.1). Meu coração se constrange ao pensar que o Verbo Eter-no nunca mais terá a forma de Deus. Para sempre e por todaa eternidade haverá um homem, o homem Jesus, assentado àdireita do Pai (1Tm 2.5). Que mente humana, por mais brilhante e imaginativaque seja, pode conceber o que significou para o Senhor Jesusperder a forma de Deus?! Deixou de ser como o Pai para que pudéssemos ser comoEle: “… Aguardamos o Senhor Jesus Cristo, O qual transfor-mará o nosso corpo de humilhação para ser igual ao corpo deSua glória” (Fp 3.21). “…Sabemos que, quando Ele se mani- 44
  45. 45. Unidos em esperança ao coração de Deusfestar, seremos semelhantes a Ele, porque havemos de vê-Locomo Ele é” (1Jo 3.2). Se Ele pôde abrir mão da sua forma de Deus, para sem-pre, há alguma renúncia que seja grande demais para nós,por amor a Ele?! Tudo que nos exige Ele próprio experimentou em muitomaior escala. Ele é o nosso modelo. Foi feito o nosso irmãomais velho. O Pai quer que sejamos semelhantes a Ele (Rm8.15-17, 29; Hb 2.11-15): filhos amados que Lhe tragam con-tentamento (Mt 3.17; 17.5). Para tanto, o Pai nos irá exerci-tar, ao longo da vida, através de todas as circunstâncias, atésermos perfeitos (Ef 4.13). Consideremos como exemplo a história de Davi. Na suavelhice, ele escreve um dos seus últimos poemas. Em sua mentese desdobram as lembranças, desde o urso e leão que matou,defendendo o rebanho de seu pai até a rebelião de Absalão,seu filho. Passando por Golias, pelos dez anos, aproximada-mente, de perseguição de Saul, o exílio entre os filisteus, amorte de Saul e Jônatas, a coroação, a tomada de Jebus (forta-leza dos jebuseus bem no centro do território de Israel, quenem Josué, nem os juízes, nem Saul conquistou e que Davitransformou em Sião ou Jerusalém, a cidade do Grande Rei),a vitória sobre os filisteus, o retorno da Arca de Deus à Jeru-salém, a aliança com Deus – a promessa do Messias, as mui- 45
  46. 46. A esperança que temostas guerras, o horror contra Urias, a repreensão de Natã, oincesto de Amnom, o homicídio entre os filhos, revolta e mortede Absalão. Ao final de sua vida podia dizer: “O Senhor adestrou asminhas mãos para o combate, de tal maneira que os meusbraços vergaram um arco de bronze” (2Sm 22.35). É certoque Davi está utilizando uma metáfora para demonstrar comoDeus o capacitou em seu espírito, para enfrentar as maioresadversidades da vida. Mas até conseguir vergar este arco debronze, ele precisou ser exercitado com outros mais simplese fáceis de manejar. Vencer Golias, por exemplo, não passoude um arco de bambu: zelo por Deus. Mero e simples exercí-cio de fé – princípios elementares, rudimentos da vida emDeus. Ações como estas só nos trazem reconhecimento, hon-ra e até aclamação, como aconteceu com Davi. Mas de Davi procederia o Messias. Deus faria uma ali-ança com Davi e teria muito a realizar por meio dele. Deus,porém, não se agrada nem se utiliza de homens inteiros eorgulhosos, que só conhecem o louvor e abatem os que selhes opõem. Tais homens nunca estiveram no conselho deSeu Filho – o Servo sofredor. São incapazes de se conforma-rem com Seus sofrimentos. São inúteis para Deus. Só servemaos seus próprios ventres, à sua própria carne e cobiça. Sãoeternos filhos de Adão. 46
  47. 47. Unidos em esperança ao coração de Deus Deus precisava “quebrar” Davi. Como diz GeneEdwards em seu excelente livro Perfil de Três Reis: “Deusarrancou o Saul de dentro do coração de Davi”. Era precisodestruir o Saul que habitava em Davi. Para tanto as mãos de Davi foram treinadas na obscu-ridade das cavernas solitárias, “errante pelos desertos, pelos mon-tes, pelas covas, pelos antros da terra”, bebendo o cálice da in-gratidão, injustiça e ciúme daquele a quem serviu de coraçãointeiro. Quando Absalão, seu próprio filho, voltou-lhe o punhocerrado da revolta, ele já sabia e podia envergar o arco debronze: entregar-se completa, irrestrita e absolutamente“Àquele que julga retamente” (1Pe 2.23). Foi assim com Jesus, o Filho do homem. Por trinta anosconteve o seu ímpeto messiânico, vivendo na obscuridade einsignificância da carpintaria de José (mesmo que estivesseassentado sobre os reinos deste mundo, ainda seria obscuro einsignificante para Ele). Depois da carpintaria vieram os pro-dígios, os milagres, as multidões e as aclamações. Depois aresistência, a perseguição e os insultos: “tens demônio”. De-pois Getsêmani (agonia), o julgamento (desprezo), e a cruz(abandono de Deus) – arco de bronze. Para Davi, Absalão foi Getsêmani: “… não a minha, masa tua vontade” (2Sm 15.25, 26). Este foi seu arco de bronze. 47
  48. 48. A esperança que temos Somente homens quebrados, fracos em si mesmos, humi-lhados e vencidos por Deus, podem vergar este arco poderoso. E quando se evidencia que alguém está humilhado, que-brado? Como saber que alguém está vencido por Deus? Quan-do cessa a resistência. Então, o homem está completamentedisponível para Deus, para todo e qualquer serviço, em todoe qualquer lugar, sob quaisquer que forem as circunstâncias.Assim, fica evidente a glória de Deus – rompendo-se, portan-to, o vaso de barro. Não é humilde o que sofre humilhações e se ressenteamargurado. Este só não revida porque não pode, mas reageerradamente: fica triste pelos cantos, rancoroso ou assumeuma postura de herói injustiçado. Não sabe que quanto maisse protege e se defende, mais se torna vulnerável e é atingido.As pessoas defensivas, não raro, se tornam amargas, agressi-vas, tristes e/ou desconfiadas. Deus quer nos ensinar a bênção de perder e sorrir (mes-mo no futebol). De ser traído e amar. A confiança de entre-gar-se “Àquele que julga retamente”. Há quem, ao ser magoadoe ofendido, “entrega a Deus” os que lhe ofendem, com um ar“todo espiritual” que esconde o desejo carnal de vingança.Esquece-se, convenientemente, que é ele próprio quem temde entregar-se ao Senhor, enquanto padece nas mãos de ou-tros, sabendo que bem pode ser a mão de Deus (At 2.23). 48
  49. 49. Unidos em esperança ao coração de Deus Isto é a cruz! Se te perseguem, provocam ou insultam, não desce dacruz para mostrar a tua força e do que és capaz. Se te louvam, honram ou aclamam, não desce da cruzpara receber os aplausos. A cruz é bom lugar! Nela, os meus direitos estão nas mãos do meu Pai. Ele osfará valer se assim o quiser. Não tenho que lutar ou me esforçarpara que estes sejam reconhecidos. Meu direito é o cumprimen-to de Sua vontade. É Seu direito dispor de minha vida. Jesusentregou-se ao Pai, não lutou. Ele é o nosso modelo (Jo 5.41;7.18; 8.50). A cruz não era o Seu lugar, mas Ele, por nossa causae para fazer a vontade do Pai, permaneceu nela! Portanto, A cruz é nosso lugar! Longe de nós, qualquer glória que não seja aquela dacruz humilhante, das vaias e insultos, da coroa ferina e dospregos, pois foi lá que nós morremos para o mundo e o mun-do morreu para nós (Gl 6.14). Esta é a glória da cruz: nos liberta do mundo. 49
  50. 50. A esperança que temos A cruz marca o limite entre o mundo e o Reino de Deus.Só por ela nós iremos conhecer o poder da ressurreição deJesus, porque, então, já conheceremos a comunhão dos seussofrimentos, tendo-nos conformado com Ele na sua morte(Fp 3.10; Rm 8.17). Foi na cruz que Jesus triunfou sobre Satanás e despre-zou seus príncipes (Cl 2.15), e não com milagres e sinais po-derosos. É certo que foi pelo poder do Espírito Santo que Eleo fez (Hb 9.14). Mas, nem sempre o poder do Espírito San-to se manifesta exteriormente por meio de prodígios e mi-lagres, capaz de curar corpos enfermos e ressuscitar mor-tos. Muitas vezes, este poder que é mais forte que a carne,se manifesta no sentido de nos capacitar a sofrer em açõesde graças, e, em esperança e fé permitir que “o pó volte aterra como o era, e o espírito volte a Deus que o deu” (Ec12.7). Foi assim com Jesus na solidão da cruz. A cruz é a maior manifestação do amor de Deus. Nacruz aconteceu a vitória de Deus. Lá, Ele nos reconciliou con-sigo mesmo pelo corpo de Cristo (Rm 7.4; 2Co 5.19). Na cruzse manifesta a glória de Deus na face de Cristo. Quando Moiséspediu para ver a glória de Deus, Este mostrou-lhe a Sua bon-dade (Ex 33.18-19). A cruz de Cristo é a manifestação maior 50
  51. 51. Unidos em esperança ao coração de Deusda bondade de Deus. Por isso, também, a expressão máximade Sua glória. Deste modo, a glória de Deus é vista na faceferida de Cristo (Is 52.14; 53.5, 10a x 2Co 4.6). “Aquele que é cheio de graça e de verdade há de impri-mir Seu caráter em mim. Preciso a graça que anseia em pres-tar favor; a verdade que se expressa também em sinceridadee honra, para a glória do Seu nome.” David Livingstone. É na Cruz que nos Unimos ao Bondoso Coração de Deus. 51
  52. 52. A esperança que temos 52
  53. 53. 4 Olhando com esperança pela lente de Deus A esperança nos faz ver e nos transporta ao “final feliz”,de tal modo que Paulo podia dizer: “Porque, para mim, tenhopor certo que os sofrimentos do tempo presente não são paracomparar com a glória por vir a ser revelada em nós” (Rm8.18). O apóstolo tinha os olhos na eternidade (Fp 3.20, 21)“Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vidasomos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19). Seenxergarmos a vida do mesmo modo que Paulo poderemos,de sã consciência, como ele proclamar: “Porque a nossa leve emomentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória,acima de toda comparação” (2Co 4.17). Paulo tinha uma lente especial para ver as circunstân-cias que o envolviam, mesmo as mais adversas. Tomemos osseus óculos e o nosso horizonte mudará. “Não atentando nós 53
  54. 54. A esperança que temosnas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque asque se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas.”(2Co 4.18). Nesta perspectiva, Paulo podia dizer: “leve e momentâ-nea tribulação”. Algum desavisado pode estar pensando que oapóstolo estava falando de teses teóricas. Quero preveni-lo emostrar-lhe que não é assim, ao contrário, o que Paulo cha-mou de “leve e momentânea”, foi uma tribulação tal, que o le-vou a “desesperar da própria vida” perder a esperança desobreviver – porquanto foi acima de suas forças. Ele e seuscompanheiros chegaram a ter sua sentença de morte decre-tada, para aprenderem a confiar em Deus que ressuscita osmortos e não em si mesmos (2Co 1.8-9). Na sua primeira carta aos coríntios, Paulo se refere a estasituação, quando diz que lutou com feras em Éfeso1 (1Co 15.30-32). Na segunda carta, ele fala da intensidade da tribulação quelhe sobreveio na Ásia (Éfeso). O Paulo que estava pronto a sofrere morrer (At 21.13; Fp 1.20; 2.17), certamente não se perturba-ria com qualquer coisa. Uma tribulação que foi acima de suasforças, provavelmente aniquilaria a maioria dos cristãos. Paulo,todavia, era tomado por um senso de destino: glorificar e en-grandecer a Cristo no seu corpo quer pela vida, quer pela morte.1 Provavelmente esta expressão “lutei com feras” não é literal, pois os cidadãosromanos não eram obrigados a este tipo de flagelo. A expressão “feras” deve seralegórica, referindo-se a crueldade e bestialidade dos homens (Tt 1.20,24). 54
  55. 55. Olhando com esperança pela lente de Deus O resultado de tal confiança de coração é uma perseve-rança inabalável. “Por isso não desanimamos: pelo contrário,mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo onosso homem interior se renova de dia em dia” (2Co 4.16).Quando vivemos assim, fica notório que “a excelência do po-der” é de Deus e não de nós, meros vasos de barro. E então… “…em tudo somos atribulados, porém, não angus- tiados, perplexos, porém não desanimados; per- seguidos, porém não desamparados; abatidos, po- rém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus para que também a Sua vida se manifeste em nosso corpo. Porque nós, que vive- mos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se ma- nifeste em nossa carne mortal” (2Co 4.7-11). Davi dizia confiante: “…Tu estás comigo…” (Sl 23.4), mes-mo ladeado pela morte. Quando conhecemos o Senhor Jesus comoo Pastor nosso de cada dia, descobrimos que já não importa tan-to se estamos sofrendo fome, nudez, enfermidades, calúnias, per-seguições e, se mesmo, estamos às portas da morte. Só uma coisaimporta: a bendita presença de Jesus. Não perguntamos: Por que?Só uma pergunta aquece nosso coração: Tu estás comigo? 55
  56. 56. A esperança que temos Quantas vezes na igreja, conversando com irmãos an-gustiados, aflitos e exaustos lembro-me das palavras de Je-sus: “…Como ovelhas que não têm pastor”. São pessoas que co-nhecem a doutrina, mas não conhecem o Mestre. Estão nafamília, mas não conhecem o Pai. Receberam a autoridade doreino, mas nunca se debruçaram sobre o peito do Rei. Sãonossas ovelhas, estão sob o nosso pastoreio, mas não conhe-cem o pastoreio de Cristo. Como me humilha e envergonhater sob os meus cuidados, ovelhas que não conhecem o conso-lo da presença de Jesus! Somos a noiva de Jesus, e é certo que ele não virá bus-car uma noiva amarrotada e cheia de manchas, “porém santa esem defeito”. Ele nos está aperfeiçoando. Ele próprio foi aper-feiçoado por meio de sofrimentos (Hb 2.10; 5.8, 9) e não pen-semos que será diferente conosco (Hb 12.11-13; 1Pe 1.6-9).Precisamos crer no cuidado que Ele tem para conosco e con-fiar nas Suas intenções. Ele nos há de apresentar imaculadosdiante de Sua glória (Jd 24). Às vezes somos como os bebês: estes costumam acor-dar no meio da noite com grande estardalhaço e pranto. Nor-malmente o quarto está escuro, os pais não estão à vista e elesestão molhados, sujos, com frio e com fome. O produto destesfatores é um grande desespero para os pequeninos, que sósabem o que experimentam, e o que experimentam é muito 56
  57. 57. Olhando com esperança pela lente de Deusdesconfortável. Cada minuto é uma eternidade. Onde estãoos pais que não aparecem? Será que não percebem a sua afli-ção? Os bebês, “pobres desamparados”, são também, grandesdesinformados. Não sabem, por exemplo, que esta sua “gran-de aflição”, não lhes trará grandes prejuízos. Na verdade éalgo simples, comum e passageiro (Não é assim tambémconosco? Não atribuímos a pequenos dissabores, desconfor-tos e dores o “status” de grande aflição?). Ignoram, ainda,que todos os recursos estão ao alcance dos pais: a luz, materi-al de higiene, fraldas e lençóis limpos, seios fartos e braçosaconchegantes (Não é assim também conosco? Quando nosangustiamos diante das dificuldades achando que Deus estáausente?). Não temos que estar ansiosos – Ele o sabe (Mt 6.25-34). Sabe o porquê e para que: “Não temais, ó pequenino rebanho; porque o vosso Pai seagradou em dar-vos o Seu Reino” (Lc 12.32). “E quanto a vósoutros, até os cabelos todos da cabeça estão contados” (Mt 10.30).“Temos, portanto, sempre bom ânimo… visto que andamos porfé, não por vista” (2Co 5.6,7). Não sejamos bebês! O homem é tendencioso a viver de momentos e não consi-derar o histórico nem o propósito dos acontecimentos. Temmemória curta e esquece de orar como Moisés: “Ensina-nos acontar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (Sl 57
  58. 58. A esperança que temos90.12). Ao contrário, passa a vida orando para se livrar dos pro-blemas. Esquece que Deus não tem dificuldades com as circuns-tâncias. O Deus que “chama a existência às coisas que não existem”(Rm 4.17) pode transformar tudo. Quando Ele quis, abriu o mare a terra (Ex 14.21-22; Nm 16.31-33), fez o sol parar (Js 10.12,13)e até voltar (Is 38.8). O problema de Deus não está com as situ-ações, mas com o nosso coração empedernido: transformar umcoração de pedra em coração de carne. O homem é o único serque ousa desafiar a Deus, não se submetendo a Ele. Vejamos o exemplo de Israel no deserto: Todos os prodí-gios e sinais maravilhosos eram esquecidos ao surgir uma novadificuldade. Não conseguiam entender o que Deus lhes explica: “Recordar-te-ás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teuDeus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar,para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guar-darias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou, e te dei-xou ter fome, e te sustentou com o maná que tu não conhecestes,nem teus pais o conheceram, para te dar a entender que não sóde pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca doSenhor, disso viverá o homem. Nunca envelheceu a tua vestesobre ti, nem se inchou o teu pé nestes quarenta anos. Sabe, pois,no teu coração que, como o homem disciplina a seu filho, assimte disciplina o Senhor teu Deus… para te humilhar, e para te pro-var, e afinal te fazer bem (Dt 8.2-5, 16). Deus tinha um propósito 58
  59. 59. Olhando com esperança pela lente de Deusdefinido e queria o bem do povo. Um bem permanente: “Eu éque sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o Senhor;pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais”(Jr 29.11). O povo, no entanto, só queria o seu próprio e imediatobem estar. Esta mesma dificuldade de crer e agir em Deus, a des-peito das circunstâncias (uma espécie de síndrome de imobi-lidade por incredulidade) acometeu os discípulos após a mor-te de Jesus. Não conseguiram lançar suas esperanças para alémda cruz, mesmo tendo a promessa do Senhor de que Ele res-suscitaria (Lc 18.31-33; 24.7). Detiveram-se na morte, nãoousando crer no sepulcro vazio, mesmo quando ouviram queo Senhor havia ressuscitado (ver os discípulos de Emaús, Tomée os outros – Lc 24.9-11, 21-25, 36-41; Jo 20.24-25). Além de imediatista, o homem é inclinado à auto-sufi-ciência. Quando um dia Pedro “arrotava” fidelidade ao Se-nhor, este lhe disse: “Simão, Simão, eis que Satanás vos recla-mou (todos) para vos peneirar (todos) como trigo. Eu, porém,roguei por ti, para que tua fé não desfaleça…” (Lc 22.31-32).Satanás reclamou todos, mas Jesus intercedeu por Pedro, omais ousado em falar da sua própria firmeza. Este, justamen-te, cairia se o Senhor Jesus não intercedesse por ele. No caso de Pedro, o Senhor lhe explicou a causa doseu livramento. Mas, quantos de nós, sem se dar conta, 59
  60. 60. A esperança que temostêm sido livres pela intercessão d’Aquele que “vive parainterceder por nós?” (Rm 8.34; Hb 7.25). Como somos in-sensatos quando nos queixamos! Como afrontamos o amor,a sabedoria e a soberania de Deus quando reclamamos!Como somos contradizentes quando afirmamos que somoscooperadores de Deus e depois murmuramos! Quem, alguma vez, ouviu Jesus murmurar? Ele era o Filho Amado em quem o Pai tinha todo o seuprazer! A alegria do Pai pode, agora, ser multiplicada em muitosfilhos amados (Rm 8.28-29)! Aleluia! “Sede, pois, imitadores deDeus, como filhos amados… como também Cristo…” (Ef 5.1,2). A esperança é como o alongar da fé. Ter esperança éestender a fé para adiante. Se a “fé é a certeza das coisasque não se vêem e a convicção das coisas que se esperam”,a esperança é a firme e inabalável determinação de seguirem fé. A decisão de continuar crendo e esperando, mesmoquando os nossos sentidos atestam a nulidade dos nossosesforços. É esperar (confiar nas promessas) mesmo contraa esperança (possibilidades humanas). Assim fez Abraão, opai da fé: “O qual, em Esperança, creu contra a esperan-ça…” (Rm 4.17-21), 2 ou: “Abraão contra toda esperança,em esperança, creu” 3.2 Edição Revista e Corrigida Imprensa Bíblica Brasileira.3 Texto bíblico citado do Novo Testamento, Nova Versão Internacional, NVI,© 1993. 60
  61. 61. Olhando com esperança pela lente de Deus Possamos imitar aqueles que “…morreram na fé, semter obtido as promessas, vendo-as, porém, de longe, e sau-dando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinosna terra. Mas agora aspiram a uma pátria superior, isto é,celestial. por isso Deus não se envergonha deles, de ser cha-mado o seu Deus; porquanto lhes preparou uma cidade” (Hb11.13-16; Fp 3.20; Jo 15.18, 19; 17.14-18). Quando Paulo foi preso em Jerusalém (At 21.17-40), jáera um ancião. Certamente tinha mais de 60 anos, contudo, aexpectativa de aposentadoria do velho apóstolo era enfrentar“… cadeias e tribulações” (At 20.23). Tendo levado uma vidade lutas e perseguições, já chegando ao final da existênciaterrena podia dizer “… em nada considero a vida preciosapara mim mesmo…” (At 20.24). O que poderia levar um ho-mem a ter tal desapego pelo mundo e por sua própria vida?Não seria a inabalável convicção de que, assim como o seuSenhor, ele também não era deste mundo? (Jo 17.16). Há na igreja alguns, cujos pés ainda estão enraizadosna terra e cujos olhos ainda brilham para os prazeres fúteis ea glória vã deste mundo, sobre os quais Satanás pergunta,com sarcasmo, ao Senhor: — Tu és o Deus destes? É tão triste olhar nos olhos de tantos filhos de Deus enão ver a nostalgia dos céus! 61
  62. 62. A esperança que temos Mas há outros “… que, perseverando em fazer o bem,procuram glória, honra e incorruptibilidade” (Rm 2.7), “…aspirando por ser revestidos da habitação celestial” (2Co 5.2),sobre os quais Deus dá testemunho a Satanás: — Eu sou o Deus destes! Um destes foi Moisés, que mesmo contra a ira do rei, “per-maneceu firme como quem vê Aquele que é invisível” (Hb 11.27).Deste modo, pôde ser “fiel em toda a casa de Deus” (Hb 3.2). Mas não é só de homens famosos como Moisés que Deusdá testemunho. Identifiquemo-nos com os milhares de fiéis esantos que morreram na obscuridade (Ap 6.9-11), mas dosquais Jesus pode dizer: “…Minha testemunha, meu fiel…”, comofez com um tal de Antipas (Ap 2.13). Para a história, um talAntipas, mas para Jesus e por toda a eternidade, “minha teste-munha, meu fiel”. Pensemos por um pouco na situação de João Batista.Imagino que, quando a sua cabeça circulou pelo salão realonde Herodes dava sua festa profana, os convivas devem terpensado: “Pobre coitado! Mas, também, quem mandou desa-fiar o rei?” Depois devem ter continuado sua festa detestável. O maior homem nascido de mulher, aquele que veio“preparar o caminho do Senhor”, morto como um criminoso,decapitado, em um cárcere imundo, por um carrasco qual-quer, como mais um desgraçado qualquer. Executado para 62
  63. 63. Olhando com esperança pela lente de Deusatender as extravagâncias dos que pensam que governam.Quanta surpresa haverá no dia do juízo! Como será diferenteno dia em que o Rei Jesus voltar e se dirigir a João dizendo:“Venha, bendito de meu Pai…”. Onde estará e como ficaráHerodes e sua corte nesta hora? A lente de Deus enxerga além do tempo e do espaço –salta para eternidade. Deus não ignora nem despreza a nossatemporalidade (Os 11.3-4), mas é em uma perspectiva de eter-nidade que Ele nos vê. Jesus tinha saudade desta existência onde não existe otempo (Jo 17.22-24). Paulo também, a ponto de considerar queera “… incomparavelmente melhor partir…” (Fp 1.23; 3.20-21). Quem não enxerga a eternidade não consegue ver comoDeus. Não entende a ação de Deus. Não consegue amar a sa-bedoria de Deus e resiste à Sua ação: sofre as dores do mundosem provar as grandezas dos céus (1Co 15.19). Se uma eternidade com Cristo nos espera então tudo ésuportável. Pode-se sofrer tudo e perder tudo, neste mundode aparências tão passageiras (1Pe 1.23-25; 1Jo 2.17). Mas este estilo de vida é para aqueles cujos olhos estãonos céus. Lá, onde está o seu tesouro (Lc 12.34). São estes os que resplandecem como luzeiros no mun-do (Fp 2.15) e dos quais o mundo não é digno! (Hb 11.38). 63
  64. 64. A esperança que temos São estes, os santos que o mundo odeia (Jo 15.18,19) eque são amados pelo Pai! (Jo 14.21-23). São estes os piedosos que o mundo persegue (2Tm 3.12)e que Deus distingue para Si! (Sl 4.3). Que diferença estes fazem no mundo! São sal e luz! (Mt5.13-16). Que diferença farão estes na eternidade! Serão aesposa do Cordeiro! (Ap 21.9). Aleluia! E sobre a Sua noiva, disse Jesus: “Aquilo que o Pai medeu é maior do que tudo…” (Jo 10.29). “Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. Quan- do Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, en- tão vós também sereis manifestados com Ele, em glória!” (Cl 3.1-4). 64
  65. 65. 5 Invadindo o desespero Fala-se, no mundo, que “a esperança é a última quemorre”. Na verdade, as Escrituras dizem que a esperança nãomorre, ao contrário, permanece: “Agora, pois, permanecem afé, a esperança e o amor…” (1Co 13.13). Deus insiste em falarde esperança em Sua Palavra com o propósito de nos encherdesta disposição interior: esperar sempre, confiar sempre,mesmo quando ladeado pela morte. “Ainda que eu ande pelovale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque Tuestás comigo…” (Sl 23.4). Era esta a confiança do salmista.Foi esta a confiança do Senhor Jesus, considerando que esse éum salmo profético, juntamente com o Salmo 22 e 24, refe-rindo-se ao sofrimento, morte, ressurreição e exaltação doSenhor. Jó podia dizer: “Ainda que Ele me mate, n’Ele espera-rei…” (Jó 13.15 1).1 Edição Revista e Corrigida – Imprensa Bíblica Brasileira. 65
  66. 66. A esperança que temos Hoje, nestes tempos de desespero, é preciso lembrar doDeus da esperança. Foi isto que fez Jeremias, o profeta daslágrimas, nos dias terríveis da destruição de Jerusalém pelosbabilônicos: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperan-ça… a minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portantoesperarei n’Ele” (Lm 3.18-24). Literalmente, esta palavra sig-nifica: “Farei voltar ao coração O que me pode dar esperança…”(Lm 3.21) Naquele tempo, os judeus estavam completamente hu-milhados. Nabucodonosor, rei de Babilônia, invadira Jerusa-lém e levara cativo o rei Zedequias, (o ungido de Deus e sím-bolo da glória do povo), todos os seus filhos (que depois fo-ram mortos), além dos sábios da corte e dos sacerdotes. Otemplo sagrado que guardava a arca da aliança (símbolo dapresença e glória de Deus) foi saqueado e queimado junta-mente com toda a cidade. Os objetos sagrados foram profa-nados e levados para Babilônia. Com os muros derribados, acidade estava completamente desamparada. A fome e sede des-truíam a população. (Lm 1.8-12). Tal era o horror da fome,que as mulheres comiam os próprios filhos (Lm 2.20). No meio daquele inferno Jeremias decidiu fazer “voltarao coração Aquele que lhe podia dar esperança”. Ter espe-rança não é uma atitude passiva e conformista. Ao contrário,é um exercício de vontade. É decidir continuar crendo. Esco- 66
  67. 67. Invadindo o desesperolher não se encolher, não se amargurar. É preferir evitar aqueixa. O desespero, a queixa, o lamento é para “…aqueles quenão têm esperança” (1Ts 4.13). Aquele, porém, que crer que“…Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a sal-vação mediante o nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu pornós para que, quer durmamos quer vigiemos, vivamos emunião com Ele” (1Ts 5.9,10), este sabe transformar cada situ-ação de dor e sofrimento em “sacrifício de louvor” (Hb 13.5),porque já tomou “como capacete, a esperança da salvação”(1Ts 5.8). Ter esperança, portanto, é trazer ao coração, o DeusEterno. Deste modo, “alegrai-vos na esperança…” (Rm 12.12). Ter esperança é ter a disposição que havia em Sadraque,Mesaque e Abede-Nego: “Se o nosso Deus, a quem servimos,quer livrar-nos, Ele nos livrará da fornalha de fogo ardente, edas tuas mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não servi-remos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro quelevantaste” (Dn 3.16-18), ou seja, morreremos. Sabiam e con-fiavam que Deus poderia livrá-los, mas não exigiam e nemcondicionavam sua fidelidade a isso. Como isto é diferente daatitude reivindicadora e arrogante de tantos “cristãos” dosdias atuais! 67
  68. 68. A esperança que temos Que bendita esperança enche o coração dos legítimos filhosde Deus: Sem pavor de sofrer – “… ao contrário, alegrai-vos namedida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cris-to, para que também na revelação de Sua Glória vos alegreis,exultando” (1Pe 4.13). Sem pavor de morrer – “...para que, por Sua morte, des-truísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, elivrasse a todos que pelo pavor da morte, estavam sujeitos àescravidão por toda a vida” (Hb 2.14,15). Em outras palavras:“Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre parasi. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos,para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos,somos do Senhor” (Rm 14.7,8). Que contraste com o mundo! Que diferença em relaçãoaos filhos da desobediência! Como é diferente “o caminho dojusto” do caminho dos que andam “segundo o curso destemundo”! Pedro diz que devemos estar “... sempre preparados pararesponder a todo aquele que nos pedir razão da esperançaque há em nós” (1Pe 3.15). Esta esperança é notória e visível. Tão saliente que des-perta o questionamento dos incrédulos que não têm esperan-ça (Ef 2.12). É cidade sobre o monte, candeia no velador,luzeiro resplandecente, sal da terra e luz do mundo. Ela con- 68
  69. 69. Invadindo o desesperotrasta com o desespero do mundo, destaca-se e incomoda comoum jorro de luz no interior de uma caverna. A esperança quetemos profetiza ao mundo em silêncio: a) Na alegria e ações de graças, diante das situações adversas do presente (Rm 5.1-5; 15.4, 13; Fp 1.29; Tg 1.2-3); b) Na expectativa de uma vida perfeita e irrepreensível a ser alcançada em Cristo, ainda aqui neste mundo (Ef 4.11-13; Fp 3.12-14; Cl 1.27-28); c) E, sobretudo, na confiança de uma eternidade por vir (Rm 8.18-25; Fp 3.20-21; 1Pe 1.3-9; 1Jo 3.2). Esta esperança na eternidade, contudo, deve ser, nãoapenas no sentido de se desejar os céus, mas também de pre-tender que os reinos deste mundo se tornem do Senhor Deuse do Seu Cristo (Ap 11.15-18). Este é o esforço de Deus! Devemos anelar a eternidade, não no sentido de esque-cer o mundo enquanto acariciamos a esperança dos céus, masde levar ao mundo esta esperança (Jr 20.9; Mt 9.35-38; Jo4.31-34). Que a esperança que temos na eternidade nos façaser tomados de um senso de destino. O mesmo que tomavacompletamente o coração do apóstolo Paulo: estabelecer oreino de Deus e glorificar seu nome em todas as circunstân-cias da vida (At 20.22-24; Fp 1.20,21). 69
  70. 70. A esperança que temos Esta é a comissão de cada discípulo (1Pe 2.9-10). Esta éa vocação da Igreja (Mt 28.28-20; At 1.8). Nesta perspectiva,a ignorância em que vive o mundo, a sua infelicidade, sua de-sesperança e condenação, tem que ferir a nossa felicidade (Mc3.5; At 17.16-17; 26.17-18) e nos impulsionar a alcançá-lo,ainda que o preço seja a nossa própria vida (At 21.13). Quando o jovem John Paton decidiu ir, com sua es-posa e filho, às Novas Hébridas (ilhas do Pacífico)evangelizar os antropófagos, um irmão muito estimadoexclamou: “Entre os canibais! Serás devorado por eles!” Aisto Paton respondeu: “Tu, irmão, és muito mais velho queeu; breve serás sepultado e comido por vermes. Declaro-teque, se eu conseguir viver e morrer servindo ao SenhorJesus e honrando o seu nome, não me importarei de sercomido por vermes ou antropófagos; no grande dia da res-surreição o meu corpo se levantará tão belo quanto o teu,na semelhança do Redentor ressuscitado”2. “Se Jesus Cristo é Deus e morreu por mim, nenhumsacrifício é grande demais que eu não possa fazer por Ele”(Charles Stud). Oh! Como ser feliz, se por Ele não puder sofrer? Comodesejar um dia vê-lo, se por Ele não quiser morrer?2 Citação tirada do Livro Heróis da Fé 70
  71. 71. Invadindo o desespero Nem todos provaremos a glória do martírio, mas todosdevemos cobiçá-la! Ninguém, que um dia tenha contempladoo Cordeiro que foi morto, consegue viver sem desejar dar suavida por Ele. Os apóstolos se regozijaram quando foram açoitadose sofreram afrontas pelo nome de Jesus (At 5.40,41). Paulose alegrava porque tinha a oportunidade de preencher, emsua própria carne, com seu próprio sofrimento, o que res-tava das aflições de Cristo em favor da igreja, que é o cor-po de Cristo (Cl 1.24). Nesta disposição, estava prontomesmo a morrer (At 21.13). Que amor incompreensível etão desconhecido da igreja atual! Este amor é próprio daqueles que, um dia, enxergaramseus próprios pecados e, da amargura de sua condenação, con-templaram o “Cordeiro como havia sido morto”, providenci-ando-lhes “tão grande salvação”. Todo o que se aproxima o suficiente para ouvir ocoração “d’Aquele que nem mesmo ao Seu próprio Filhopoupou, antes, por todos nós o entregou…” (Rm 8.32), con-siderará um crime terrível, qualquer reserva na dedicaçãoe serviço a Ele. O Deus que permite, e às vezes, exige o sacrifício de seusfilhos em função do Seu (nosso) grande propósito, sacrificou-Se 71
  72. 72. A esperança que temosprimeiro a Si mesmo em Cristo Jesus. “… A saber, que Deusestava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputan-do aos homens as suas transgressões…” (2Co 5.19). Este amor do Pai nos constrange. Torna-se obrigatórioque nos entreguemos a Ele sem reservas para que se quebreo cetro de Satanás e os homens cativos sejam trazidos para“… liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.21), “para oreino do Filho do Seu amor” (Cl 1.13). Lemos em Ap 11.15 que: “Os reinos desde mundo setornaram do Senhor Deus e do seu Cristo”. Ora, se estes rei-nos “se tornaram” é porque não eram do Senhor, ao contrá-rio, estavam sob o domínio daquele a quem Jesus chamou de“príncipe deste mundo” (Jo 12.31). Mas como o diabo veio atornar-se o “príncipe deste mundo”? No princípio, quando foi criado, ele era - o “querubimda guarda, ungido”, “sinete da perfeição” (Ez 28.12-14), “es-trela da manhã, filho da alva” (Is 14.12). Deus lhe havia con-ferido grande beleza, sabedoria e autoridade nos céus. Eraum ser glorioso. Todos os anjos lhe prestavam reverência.Era o primeiro dos anjos. Tão grande era sua glória e seupoder, que ele imaginou igualar-se ao seu criador. Quando,porém, se rebelou contra o Todo-poderoso, foi banido doscéus e lançado nos abismos de trevas (Is 14.9-15; Ez 28.12-19; 2Pe 2.4). Embora conservando seu poder e inteligência 72
  73. 73. Invadindo o desespero(2Co 4.4; 11.3,14-15; Jd 8-9) perdeu sua glória e o ambienteonde desenvolvia a sua autoridade. Tornou-se um ser toma-do de inveja e ódio, impotente diante da situação em que oSenhor o colocara. Quando Deus criou Adão, conferiu-lhe autoridade egoverno sobre toda a terra (Gn 1.26). Adão seria o primogênitode Deus. O primeiro de todos os filhos de Deus. O governantedo universo com o seu Deus e Pai. O Éden era só o laborató-rio para treiná-lo na administração e governo do mundo. Neste tempo, Satanás era apenas o “príncipe das trevas”,insignificante e desprezado. Não havia ambiente onde desen-volver seu grande poder e inteligência. A terra, tão bela, eradomínio de Adão. Sua autoridade no “reino das trevas” se li-mitava, provavelmente, em manifestações de ódio e amargu-ra contra seus anjos caídos e rebeldes. E, como Deus não lheconferira capacidade criadora, ele não podia criar seu próprioreino. Em Adão, o querubim caído viu a chance de governar,exercer autoridade, domínio e poder. Só teria que vencê-lo(2Pe 2.19). Mas, como vencer o homem a quem Deus incum-biu de guardar o jardim, capacitando-o para isso ao delegar-lhe autoridade sobre toda a terra? (Gn 1.26-31). Satã sabiaque não poderia medir forças com Adão. Só poderia vencê-lopela persuasão. Agredir Adão seria desafiar e ferir a autori- 73
  74. 74. A esperança que temosdade de Deus (Tg 4.7; 1Co 11.3, 7). Para obter a sujeição dohomem com todo o seu domínio, Satanás precisaria induzirAdão a, voluntariamente, rejeitar a Deus. O Senhor Deus nãopoderia interferir neste confronto: seria a escolha do homem. Nós conhecemos a triste história. Incitado por Satanás, ohomem rebela-se contra Deus. Ao buscar o conhecimento quelhe possibilitaria auto governar-se, Adão rejeita a autoridade deDeus negando-lhe o direito de governá-lo. Adão queria dirigir aprópria vida e não depender de Deus. Tomar as próprias deci-sões sem ter que consultar a Deus. Mas, isto só seria possívelcom o conhecimento do bem e do mal. O seu ato de desobediên-cia, então, foi fruto de sua intenção, vontade e decisão de serindependente de Deus. Comer do fruto proibido foi a busca cons-ciente do único meio de libertar-se da tutela de Deus: conheci-mento do bem e do mal. Foi a consumação do seu desejo. “Opecado foi consumado pela desobediência, mas foi gerado poruma atitude interior de rebelião.” 3. O homem não se tornourebelde porque comeu do fruto proibido, ao contrário, comeu dofruto porque se tornara rebelde. Adão, fazendo uso do seu livre-arbítrio, rebelou-se con-tra Deus. Em conseqüência, mesmo contra a sua vontade, tor-nou-se escravo do pecado e de Satanás, porque “… aquele queé vencido fica escravo do que é vencedor” (2Pe 2.19). E, “todo3 Princípios Elementares – Parte 3, Lição 11, página 48, Salvador, 2004. 74
  75. 75. Invadindo o desesperoo que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8.34). Agora,Satã até se permitiu o luxo de oferecer a Jesus – o criador douniverso – a glória e autoridade dos reinos deste mundo, afim de conseguir a sua submissão (Lc 4.5-7). Ele não estavablefando ou mentindo. Não era um “faz-de-conta”: o reinodeste mundo, de fato, é seu. O reino (governo, autoridade, domínio) do mundo ha-via sido confiado a Adão por Deus. Mas Adão foi vencido ecom ele toda a raça humana. Ele fez-se escravo, e com ele,todos os que sua carne e vontade geraram: toda a sua descen-dência, toda a humanidade. Adão, que seria o cabeça de umaraça santa e perfeita terminou sendo o primeiro de uma raçadecaída, degenerada e escravizada. Aquele a quem foi dadodominar estava, agora, dominado: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por- que todos pecaram… Entretanto reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança de Adão… por que… pela ofensa de um só morreram muitos… porque o julgamento derivou de uma só ofensa, para con- denação… Pela ofensa de um, e por meio de um só, reinou a morte… Pois… por uma só ofensa veio 75
  76. 76. A esperança que temos juízo sobre todos os homens para condenação… Por que… pela desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores…” (Rm 5.12-19). “Pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23). “Todos se extraviaram, a uma se fizeram inúteis” (Rm 3.12). Hoje, “sabemos que… o mundo inteiro jaz no maligno”(1Jo 5.19). O mundo está inerte, passivo e à disposição domaligno que o conduz para onde quer. Do mesmo modo também, “sabemos que somos deDeus” (1Jo 5.19). No meio desta raça de mortos espirituais,caminha uma raça eleita. Um reino de sacerdotes. Uma naçãosanta. Um povo de propriedade exclusiva de Deus, cujo pro-pósito é anunciar as virtudes d’Aquele que o tirou das trevase o trouxe para uma luz maravilhosa. D’Aquele que o com-prou com o seu próprio sangue, livrando-o de toda iniqüida-de, e purificando-o para Si mesmo (1Pe 2.9; Tt 2.13-14). Este povo especial é a geração de Jesus. É a Sua posteri-dade, o fruto do penoso trabalho de Sua alma. É a nova cria-ção de Deus. São os filhos que pela morte do Seu Unigênito oPai multiplicou para Si mesmo. Aquele, de cuja linhagem nin-guém cogitou, conseguiu, na sua morte, posteridade para SeuDeus e Pai: uma multidão inumerável de filhos santos e per- 76

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