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EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE: UMA QUESTÃO FUNDAMENTAL?

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Artigo publicado no livro: BenchMais. Instituto Mais: São Paulo, 2015.
ISBN: 9788590745501

Published in: Education
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EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE: UMA QUESTÃO FUNDAMENTAL?

  1. 1. 1 VIVIAN APARECIDA BLASO SOUZA SOARES CESAR - Docente na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Universidade Presbiteriana Mackenzie. Doutoranda e Mestre em Ciências Sociais. Pesquisadora do Complexus Núcleo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo(PUC/SP). Habilitação Relações Públicas pelo Centro Universitário Newton Paiva. Especialista em Gestão Responsável para Sustentabilidade pela FDC – Fundação Dom Cabral. Diretora da Agência Conversa Sustentável. Especialista em Comunicação para Sustentabilidade, Engajamento de Stakeholders, Smart Cities e Responsabilidade Social. Blogueira em Sustentabilidade. vivianblaso@uol.com.br EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE: UMA QUESTÃO FUNDAMENTAL? “O canteiro de obras da governança mundial presta-se hoje mais do que nunca a uma reflexão existencial, profunda e urgente”. Stéphane Hessel A crise ecológica do presente não existe separadamente das crises políticas, econômicas, sociais e éticas que atravessamos. Em um contexto policrísico os conflitos tendem a se acentuar num movimento crescente, da mesma forma que a incompreensão sobre suas possíveis causas e soluções. O mundo necessita de uma governança mundial mas para superarmos a crise atual é preciso uma reflexão existencial como apontado por Stephane Hessel (2012) no livro: O mundo não tem mais tempo a perder: apelo por uma governança mundial solidária e responsável, organizado por Sacha Goldman. O livro é um “Apelo” assinado por 18 membros do “Collegium Internacional”, endereçado ao Secretário-Geral da ONU na expectativa de contribuir com as discussões que serão realizadas durante a COP21. O “Collegium Internacional” é uma instituição multidisciplinar que tem o objetivo de debater e oferecer novas abordagens para lidarmos com as crises que ameaçam o planeta e a sociedade. MORIN (2013) ressalta que, a hiperespecialização avança compartimentalizando ainda mais os saberes, fragmentando a visão das relações de interdependências entre homem, natureza e cultura. Essa fragmentação dos saberes promoveu a separação entre disciplinas, que por sua vez, oculta as conexões complexas que existem entre as partes e suas correlações com o ambiente.
  2. 2. 2 Precisamos de uma reforma na forma do pensar, em religar o que foi desligado, contextualizar e recontextualizar as relações entre os saberes fragmentados. Essa é uma proposta ousada, mas não é impossível, uma vez que a reforma do pensamento nos sugere reaprender a pensar, a religar todos os continentes que foram separados pela visão cartesiana e que percorre a ciência contemporânea até os dias de hoje. Para reverter este processo, deveríamos apostar na solidariedade, na via regeneradora das ideias capazes de produzir uma política de civilização e essa política já proposta por MORIN (2012), nos levaria para outra direção: A Ética. A Ética propõe retomada de valores porque a crise moral que atravessamos é resultado da crise de fundamentos que tentam fundar uma ética sem fundamentos. Isso deve a um conjunto de fatores que desarticulam a relação trinitária: individuo/espécie/sociedade: - aumento da deterioração do tecido social - enfraquecimento do espirito de coletividade - hiperdesenvolvimento do egocentrismo - a desarticulação trinitária (individuo/espécie/ sociedade) - supervalorização monetária Por isso é preciso refundar a ética e regenerar as fontes de responsabilidade- solidariedade e essa regeneração partiria do despertar interior da crise moral que atravessamos. “Todo ato ético é um ato de religação com o outro, com os seus, com a comunidade, com a humanidade e o cosmo”. (CARVALHO, 2011) As fontes de religação estão relacionadas ao tetragrama dialógico Ordem desordem interações organizações “O tetragrama dialógico combina simultaneamente relações antagônica e complementares produzindo o efeito da ética da religação”. (MORIN, 2005: 29). Para compreender a força da agitação dentro do circuito é preciso considerar a ecologia da ação:
  3. 3. 3 “Em função das múltiplas interações e retroações no meio em que se desenrola a ação, uma vez desencadeada, escapa, com frequência, ao controle do ator, provoca os efeitos inesperados e até mesmo contrários ao esperado.1º princípio da ação: a ação não depende mais das ações do ator, mas também das condições do meio em que se desenrola;2º os efeitos a longo prazo da ação são imprevisíveis”. (MORIN, 2005: 206) Em 15 de junho de 2012, ás vésperas da realização da Rio + 20 foi publicado no DOU – Diário Oficial da União as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Ambiental que reconhecem a relevância e obrigatoriedade da Educação Ambiental no âmbito dos direitos humanos onde a educação para cidadania compreende a dimensão política do cuidado com o meio ambiente local, regional e global. Reconhecer a importância da Educação Ambiental como fonte para reestruturar a mudança no modelo atual de pensamento é um grande desafio das instituições responsáveis pela educação do país e por isso requer lidar com a complexidade e conjunturas político, econômica, cultural, social e ecológica que enfrentamos. Reaprender a pensar é a aposta de Edgar Morin para ultrapassarmos o nosso modo fragmentado de conhecer. Entrelaçar saberes e práticas religando-os ao seu contexto é a via necessária para metamorfosearmos a sociedade. Tais reformas poderão vir a fortalecer as redes de conhecimento a fim de que os mesmos sejam compartilhados, ampliados, retroalimentados e transformados. Incluem-se aí as empresas, porque elas também são geradoras de conhecimento, formadoras de opinião e influenciam os nossos comportamentos. É uma possível entrada do homem na era noética, onde ele aceitaria sua condição em cooperar com a natureza em vez de subjugá-la como tem feito. “A noologia põe ordem na casa, atua como operador organizacional do material gerado na noosfera”. (CARVALHO, 2011) A revolução ecológica - que está apenas começando - constitui uma inversão para baixo: não é mais a natureza que está a serviço do homem, é o homem que está a serviço da vida. A revolução noética - no sentido estrito do termo - constitui uma inversão para cima: não é mais o pensamento que está a serviço do homem, mas o homem que está a serviço do espírito. (HALÉVY, 2010: 84) A grande crise planetária está atrelada a crise cognitiva uma vez que não conseguimos atingir o estado de humanidade apontada por MORIN (2011). Frijot Capra chamou-a de crise de percepção devido a visão mecanicista da vida e a incapacidade da ciência enxergar a vida como sistemas. No caso das mudanças
  4. 4. 4 climáticas, por exemplo, a falta de informações levou a sociedade cientifica e os tomadores de decisões globais à concorrência entre diferentes interpretações sobre o fenômeno, como aponta MLODINOW (2009). Resultado: ainda nos dias de hoje existem certos grupos que acreditam que os estudos sobre as mudanças climáticas são exagerados ou mesmo que o fenômeno não existe. Isso acontece por alguns motivos: o nosso imprintg cultural1, a normatização excessiva, a visão de mundo ocidentalizada que analisa as crises apenas sob os aspectos econômicos, reflexo da visão fragmentada entre natureza e cultura. Por isso, é tão difícil abandonarmos certos padrões mentais e comportamentos repetitivos e até mesmo perversos – pessoas que persistem no erro, na teimosia, que ignoram as evidências, que se desviam do certo e do verdadeiro, como apontou PARKIN (2014). Sofremos o efeito recursivo de como agimos. Isso se espelha na sociedade e talvez seja por isso que não consigamos alcançar novas formas de agir e pensar que promovam a sustentabilidade na sua complexidade. Frente às degradações-contaminações-explorações que persistem devemos nos perguntar: a tomada de consciência ecológica é ainda superficial, fraca, inconsistente para lidarmos com as graves ameaças à biosfera? É possível que não tenhamos apreendido o seu significado na sua complexidade? Se não, o que seria ela então? A reforma da educação proposta por Edgar Morin pressupõe a complexidade e para isso requer olhar para as incertezas e destinos comuns dos homens e mulheres na terra pátria, retomar a ética, manter um diálogo aberto, nutrir a nooesfera não abdicando das artes, literatura, filosofia em detrimento a racionalidade, lutar pela refundação de uma política de civilização capaz de nos colocar em outra direção. A educação para sustentabilidade será capaz de refundar a ética com ênfase na tríade perdida individuo/espécie/sociedade buscando princípios que possam assegurar: os direitos fundamentais das pessoas valorizando as integrações regionais sem esquecer da nossa condição global e interdependente que nos encontramos. SERRES (2005), em O Incandescente sugere um tronco pedagógico comum a todas as universidades que poderia sugerir o avanço da paz inspirado na mestiçagem entre saberes. 1 Imprinting cultural inscreve-se cerebralmente desde a mais tenra infância pela estabilização seletiva das sinapses, inscrições que marcarão irreversivelmente o espirito individual no seu modo de conhecer e de agir. O imprinting manifesta os seus efeitos mesmo em nossa percepção visual. Morin, Edgar. Método 4: as ideias: habitat, vida, costumes, organização; trad. Juremir Machado da Silva. eds. – Porto Alegre: Sulina, 2011. p.30.
  5. 5. 5 I O programa comum da especialidade II A grande narrativa unitária de todas as ciências Elementos da física, e da astrofísica: a formação do Universo, do big bang ao resfriamento dos planetas. Elementos da geofísica, da química, e de biologia: do nascimento da Terra ao surgimento da vida e a evolução das espécies. Elementos da agronomia, de medicina de passagem à cultura: o relacionamento dos homens com a Terra, com a vida e com a própria humanidade. III O mosaico das culturas humanas Elementos de linguística geral, geografia e história das famílias das línguas. As linguagens de comunicação: sua evolução. Elementos da história das religiões: politeísmos, monoteísmos, panteísmos, ateísmos. Elementos de ciências políticas: os diversos tipos de governo. Elementos de economia: a divisão de riqueza do mundo. Obras primas recolhidas entre belas artes e as sabedorias. Sites: o patrimônio da humanidade segundo a Unesco. (SERRES, 2005: 306) A tomada de consciência ecológica exige uma compreensão profunda do significado de ecologia. É comum aprendermos que a ecologia é uma disciplina da área das ciências biológicas que estuda os ecossistemas como sendo as relações entre os seres vivos em seu habitat. Tal definição normalmente a vincula ao estudo do meio natural e a aparta do meio social, reduzindo-a e especializando-a. Ensinada dessa maneira somos incapazes de compreendê-la como uma ciência policompetente e transdisciplinar, que trata dos ecossistemas com seus constituintes, físicos, biológicos e antropossociológicos. Ter consciência dos problemas ambientais causados pela ação humana, separar os resíduos para reciclagem, ou mesmo produzir ou consumir produtos que reduzam a pegada ecológica é o que aprendemos com a educação ambiental, é o que entendemos por conscientização ecológica. Mas quando Morin (2008) trata da tomada de consciência ecológica, aponta para a necessidade de um pensamento ecologizado2, o qual a sociedade ocidentalizada desconhece ou ainda não se apropriou. 2 Pensamento Ecologizado: conceito apresentado durante o III SIRSO - Simpósio de Responsabilidad Social de las Organizaciones, realizado em outubro de 2014 em Lima, Peru. Artigo original elaborado por Vivian Aparecida Blaso Souza Soares César e Sydney Cincotto Junior. Título: Responsabilidade Social: ecologizar ideias e ações para as vias transformadoras do futuro da humanidade. Disponível em: http://www.uladech.edu.pe/sirso/ponencias-2
  6. 6. 6 Em princípio ecologizar o pensamento significa reaprender a pensar. Aprendemos a pensar fragmentando e reduzindo para conhecer; utilizamos uma metodologia disciplinarizadora, calcada nos princípios disjuntivos da lógica clássica de identidade, não contradição e terceiro excluído. Reduzimos aquilo que queremos conhecer à condição de objeto e isolando-o de seu meio verificamos o seu comportamento. O conhecimento ensinado e aprendido contribui para desecologizar as ideias e as ações. Ao contrário disso, o pensamento ecologizado relaciona os fatos e os fenômenos ao seu contexto e busca superar a fragmentação disciplinar do conhecimento que acomete a ciência e a filosofia contemporâneas. É um pensamento hologramático capaz de relacionar as partes ao todo e o todo às partes. É um pensamento complexo, capaz de tecer em conjunto os saberes e fazeres das sociedades humanas vinculando-os à realidade do mundo. É um pensamento que aspira à religação, tem na complexidade uma estratégia autocriativa e regeneradora do conhecimento. Um segundo ponto é compreender que todas as ações e ideias possuem vida própria, que são retroalimentadas pelo ecossistema onde se desenvolvem e que por isso são ecologizadas. Morin (s/d.a) denomina por ecologia da ação o jogo de inter- retroações a que está submetida uma ação ao ser iniciada. Sujeita às influencias do meio, bifurcam em outra direção daquela prevista em seu início. Toda ação traz consigo um princípio de incerteza, pois não sabemos com exatidão qual será o seu fim. Diante da ecologia da ação o pensamento ecologizado erige-se sobre o princípio da precaução, que deve zelar por nossas mínimas ações a fim de conter danos irreversíveis à vida. Morin (s/d.b), também aponta que, como as ações, as ideias também possuem vida própria em seus ecossistemas, habitam a noosfera e retroagem sobre a sociedade. As ideias que possuímos acabam por nos possuir, essa dupla possessão coloca os sistemas filosóficos, mitológicos, científicos, ideológicos, teológicos, a serviço dos nossos interesses da mesma forma que nos põem a servi- los. A noosfera, quando nutrida por um ecossistema onde impera o pensamento simplificador, tende a enrijecer seus vasos comunicantes retroalimentadores, esclerosando e minando toda criatividade e capacidade de reinvenção; e alheia à sua natureza ecológica, alia-se à certeza, se dogmatiza. Ecologizar as ideias implica fazê- las entrar no circuito gerador e regenerador de si e das sociedades, misturando-as,
  7. 7. 7 mestiçando-as, colorindo-as. De natureza complexa, o pensamento ecologizado comporta a ecologia das ideias e ações. Outro fator fundamental para ecologizar o pensamento é o reconhecimento do nosso duplo enraizamento cósmico e biológico. Somos filhos do Cosmo, nossas partículas e nossos átomos de carbono se formaram nos primeiros instantes do Universo, os elementos físico-químicos que se associaram para dar forma ao planeta estão presentes em tudo que é vivo. A vida, por sua vez, é uma emergência terrestre, seu desenvolvimento e evolução multiforme deu origem a incontáveis formas de seres, dentre eles os humanos. Somos filhos de Gaia fertilizada por Cosmo, nosso código genético revela nossa descendência materna terrestre e paterna cósmica. O Cosmo e a Terra estão em nós, como nós estamos neles. Ecologizar o pensamento ao sistema político econômico, social e cultural em geral, as inter-retroações existentes nas relações de interdependência entre homem- natureza, entre ecologia-economia; contribuiria para a tomada de consciência planetária de que estamos todos no mesmo barco, que habitamos a Terra, e que o futuro da humanidade depende do futuro do planeta; chamaria todos a se responsabilizarem pelas decisões tomadas na direção daquilo que hoje é designado como sustentabilidade ambiental, econômica e social, complexificando-a; promoveria a regeneração e a transformação das trocas materiais e simbólicas; reformularia os conceitos de sustentabilidade e de responsabilidade social empresarial, que estão atualmente alicerçados na cosmovisão cartesiana. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HALÉVY, M. (2010) A Era do Conhecimento. Princípios e Reflexões Sobre a Revolução Noética no Século XXI, São Paulo: Unesp. MLODINOW, L. (2009). O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas, Rio de Janeiro: Zahar. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2000.
  8. 8. 8 ___________. O método 3: o conhecimento do conhecimento. Tradução Juremir Machado Silva. 4 ed. Porto Alegre: Sulina, 2012. ___________. O método 5: a humanidade da humanidade. Tradução Juremir Machado Silva. 5 ed. Porto Alegre: Sulina, 2007. ___________. O método 6: ética. Tradução Juremir Machado Silva. 5. ed. Porto Alegre: Sulina, 2005. ___________. Para onde vai o mundo? Petrópolis: Vozes, 2010. ___________. Rumo ao abismo? Ensaios sobre o destino da humanidade, Tradução Edgard de Assis Carvalho. São Paulo: Bertrand Brasil, 2010. ___________; Stephane Hessel. O caminho da esperança. Tradução Edgard de Assis Carvalho. São Paulo: Bertrand Brasil, 2012. ___________. A via para o futuro da humanidade. Tradução Edgard de Assis Carvalho e Marisa Perassi Bosco. 1. ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2013. PARKIN S. (2014) O divergente positivo. Liderança em sustentabilidade em um mundo perverso, São Paulo: Peirópolis. SACHA, Goldman/coordenação; O mundo não tem mais tempo a perder /Trad. Clóvis Marques. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. REGO, Teresa Cristina(org.); Currículo e política educacional. Petrópolis, Rio de Janeiro, Vozes; São Paulo, SP: Revista Educação; Editora Segmento, 2011. Coleção Contemporânea. SERRES, Michel. O incandescente. Tradução Edgard Assis Carvalho e Mariza Perassi Bosco. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005 ___________. O contrato natural, Lisboa: Instituto Piaget, 2000

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