Anais Jornada 2013

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Anais Jornada 2013

  1. 1. Anais XII Jornada Médico-Literária Paulista VII Jornada Nacional da Sobrames Organização: Sociedade Brasileira de Médicos Escritores SOBRAMES - Regional do Estado de São Paulo Botucatu - São Paulo - Brasil 26 a 29 de setembro de 2013
  2. 2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE MÉDICOS ESCRITORES Regional do Estado de São Paulo SOBRAMES - SP Diretoria Gestão 2013/2014 Cargos Eletivos Presidente: Josyanne Rita de Arruda Franco Vice-presidente: Carlos Augusto Ferreira Galvão Primeiro secretário: Márcia Etelli Coelho Segundo secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã Primeiro tesoureiro: Jorge Alberto Vieira Segundo tesoureiro: Aída Lúcia Pullin Del Sasso Begliomini Conselho Fiscal Efetivos: Helio Begliomini Luiz Jorge Ferreira Marcos Gimenes Salun Suplentes: José Jucovsky Rodolpho Civile José Rodrigues Louzã A XII Jornada Médico-Literária Paulista é uma realização da SOBRAMES - SP Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Estado de São Paulo Endereço para correspondência (SOBRAMES-SP): Rua Francisco Pereira Coutinho 290, 121 A Vila Municipal Jundiaí, SP. - CEP 13201-100 josyannerita@gmail.com Copyright 2013 © dos Autores Comissão Organizadora da XII Jornada Médico-Literária Paulista Os integrantes da Diretoria da Regional São Paulo Os conceitos emitidos nos textos literários deste evento representam exclusivamente a opinião de seus autores, não sendo de responsabilidade da SOBRAMES-SP. Projeto Gráfico e Diagramação: Marcos Gimenes Salun Produção: Rumo Editorial Produções e Edições Ltda. E-mail: rumoeditorial@uol.com.br (11) 2331-1351 / 99182-4815 II
  3. 3. Apresentação III A XII Jornada Médico-Literária Paulista está mais rica e fresca com os ares interioranos de Botucatu. Em pleno início de primavera, não somente desabrocham flores, mas também exultam e se regozijam os sons e as palavras, polinizados pelo cálido vento que traz verso e prosa talentosos dos vários cantos da amada terra brasileira. O acontecimento bienal mais aguardado da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Regional São Paulo (Sobrames SP), nesta edição oferece o abraço que acolhe a arte de escrever que vem de outras paragens, trazida na bagagem de médicos escritores de variados estados do nosso imenso país, irmanados em uma jornada de abrangência nacional. Um paraíso particular que por alguns dias se descola do mundo globalizado de conversas e encontros virtuais, onde não existe o calor do contato, o aperto de mãos, o abraço fraterno. Confraternização, amizade e talento literário, eis o convite! Ouçamos a voz e o eco das tantas belas palavras que reverberam -cordiais e indeléveis- em coletânea de extraordinárias e memoráveis composições nas páginas que se descortinam a seguir: uma aventura para compartilhar e nunca mais esquecer! Dra. Josyanne Rita de Arruda Franco Presidente da SOBRAMES-SP (2013-2014)
  4. 4. Queridas amigas e amigos, confrades e confreiras da SOBRAMES e ABRAMES, Sempre vivemos intensamente a poesia de todos os momentos que passamos juntos. E essa nova oportunidade não será diferente. Todos nós estamos empenhados em manter viva a chama que nos une, o amor à palavra e o amor ao caminho rumo à sabedoria. Atualmente experimentamos um período totalmente inacreditável como médicos. Há uma inversão de valores nos quais sempre acreditamos. Servir, atender, curar, aliviar com o melhor de nosso conhecimento. Estes preceitos tem sido motivo de “ajustes” políticos, contrários ao que temos proferido desde os nossos bancos frios do anfiteatro de anatomia, no começo de nosso curso de Medicina. É uma “nova ordem” que infelizmente nivela por níveis muito baixos os padrões de excelência que buscamos no dia-a-dia de nossa profissão. De fato, perseveramos com aquele ideal inato de “ser”. Poetas, cronistas, contistas, ensaístas e outros artistas que compõem estas nossas egrégoras são uma força necessária, porém, às vezes, ausentes na construção de um pensamento consistente para o país. Divergências há e são necessárias para que se possa encontrar um Norte, uma solução e um bem comum. Nestes dias do começo da Primavera, florescerão momentos de renovação das amizades e de aprendizado e reflexão. Botucatu nos receberá com carinho nos dias 26 à 29 de Setembro. Foram meses de dedicação e empenho, junto à Diretoria da Regional SP, sob a batuta da Presidente Josyanne Rita de Arruda Franco. Hoje temos certeza que a decisão durante o XXIV Congresso Nacional em Curitiba foi acertada. Realizar a XII Jornada Médico-Literária Paulista em conjunto com a VII Jornada Nacional da SOBRAMES e com a participação da Academia Brasileira de Médicos Escritores. Somamos. Multiplicamos. Este é o caminho. Dr.Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki Presidente Nacional SOBRAMES Acadêmico Titular da Cadeira no. 21 - ABRAMES Mensagem do Presidente V
  5. 5. VII Índice Geral Programa Sessões Literárias Autores Participantes Textos Literários Letra de Estudante A cidade de Botucatu Conheça a Sobrames I II III IV V VI VII 9 13 17 21 95 105 109
  6. 6. 9 I Programa XII Jornada Médico Literária Paulista VII Jornada Nacional Sobrames Os organizadores reservam-se o direito de efetuar eventuais alterações nesta programação, sempre visando o bom andamento do evento, e desde que estas sejam absolutamente necessárias ou convinientes aos participantes. Qualquer alteração será informada a todos com a devida antecedência. Botucatu - São Paulo 25 a 29 de setembro de 2013 Primar Plaza Hotel
  7. 7. Dia 26/09/2013 (Quinta-Feira) 14h00 – Check-in no Primar Plaza Hotel (à partir de 14h00) 19h00 - Recepção aos participantes e convidados 19h30 – Abertura oficial (Teatro Municipal de Botucatu) Presidente da Sobrames - Dr.Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki Presidente Sobrames São Paulo - Dra.Josyanne Rita de Arruda Franco Apresentação de Autoridades 20h15 – Apresentação do Coral da Prefeitura 21h00 - Coquetel no hall do Teatro Dia 27/09/2013 (Sexta-Feira) 06h30 – Café da Manhã 08h15 – Primeira Sessão literária - Sala de Eventos do Hotel – Prosa e Verso de autores da Sobrames 10h15 – Coffe-Break Lançamento da IX Antologia Paulista 11h00 – Segunda Sessão Literária - Sala de Eventos do Hotel - – Prosa e Verso de autores da Sobrames 12h30 – Almoço no Restaurante do Primar Plaza Hotel 13h45 – Terceira Sessão Literária - Sala de Eventos do Hotel – Prosa e Verso de autores da Sobrames 15h15 - Coffee Break 16h00 - Quarta Sessão Literária - Sala de Eventos do Hotel - Prosa e Verso de autores da Sobrames 17h30 - Encerramento das sessões literárias 19h15 - Saída para o Teatro Municipal de Botucatu 20h00 - Apresentação de Camerata de Botucatu 21h15 - Saída para o Restaurante Celeiro 21h30 - Jantar no Restaurante Celeiro 23h00 - Retorno para Primar Plaza Hotel 10
  8. 8. Dia 28/09/2013 (Sábado) 06h30 – Café da Manhã 08h15 – Fórum da Academia Brasileira de Médicos Escritores (ABRAMES) – Prosa e Verso de autores da ABRAMES - Homenagem ao Acadêmico Emérito Dr.Evanil Pires de Campos 10h00 – Coffe-Break 10h30 – Saída para Barra Bonita - Passeio no Navio Ciudad de Cuesta até eclusa de Barra Bonita no Rio Tietê - Almoço a bordo do navio 17h00 - Retorno ao Primar Plaza Hotel 19h45 - Saída para o restaurante Sinhô Sinhá 20h15 - Apresentação de Grupo Folclórico Regional - Premiação dos concursos literários com entrega do “Troféu O Bandeirante” 21h00 - Jantar de confraternização e Encerramento 23h00 - Retorno ao Primar Plaza Hotel Dia 29/09/2013 (Domingo) 06h15 - Café da manhã – Manhã Livre para os que viajaram de automóvel - Check-out e translado de Botucatu para aeroporto Viracopos (Campinas) após o café da manhã para aqueles que tiverem interesse. 11
  9. 9. 13 II Sessões Literárias XII Jornada Médico-Literária Paulista VII Jornada Nacional da Sobrames Para o bom andamento dos trabalhos recomenda-se que os autores cumpram rigorosamente os horários de apresentação de seus textos nas sessões literárias programadas. Solicita-se que não haja explicações preliminares sobre o texto a ser apresentado, visando um melhor aproveitamento do tempo para a leitura do texto. Se houver manifestações da plateia após a apresentação dos textos caberá ao presidente da mesa determinar a quantidade de intervenções e sua duração, visando manter os horários previstos na programação. Botucatu - São Paulo 25 a 29 de setembro de 2013 Primar Plaza Hotel
  10. 10. Primeira Sessão Literária Dia 27/09/2013 (Sexta-feira) 8h15 às 10h00 1- Alcione Alcântara Gonçalves / Poesia: “Ode a Botucatu” 2- Josemar Otaviano Alvarenga / Prosa: “Significados da palavra” 3- Aida Lucia Pullin Dal Sasso Begliomini / Prosa: “Vida interrompida” 4- Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki / Poesia: “Azul” 5- José Warmuth Teixeira / Poesia: “Amando e poetando” 6- Jacyra da Costa Funfas / Prosa: “Balada no Céu” 7- Marcos Gimenes Salun / Prosa: “Viver é fazer opções” 8- Carlos Augusto Ferreira Galvão / Poesia: “Companhia” 9- Sônia Andruskevicius de Castro / Poesia: “Crianças” 10- Rodolpho Civile / Prosa: “A presença daquele homem” 11- Arquimedes Viegas Vale / Prosa: “A vingança dos inocentes” 12- Helena Natalícia Rocha de Alvarenga / Prosa: “Esperança” 13- Evanil Pires de Campos / Prosa: “A medicina e a educação” Segunda Sessão Literária Dia 27/09/2011 (Sexta-feira) 10h30 às 12h00 1- Nelson Jacintho / Prosa: “Noite de inverno” 2- Celina Corte Pinheiro de Sousa / Prosa: “Renascimento” 3- Luiz Jorge Ferreira / Poesia: “My name” 4- José Arlindo Gomes de Sá / Poesia: Amargo regresso” 5- Josyanne Rita de Arruda Franco / Prosa: “Plano de voo” 6- José Maria Chaves / Prosa: “O aviso do vento” 7- Ligia Terezinha Pezzuto / Poesia: “Sublime amor” 8- Márcia Etelli Coelho / Poesia: “Começar de novo” 9- Helio Moreira / Prosa: “Caminhar pelas ruas de Paris no verão” 10- Roberto Antonio Aniche / Prosa: “Meu marido foi para a guerra” 11- Juçara Regina Viegas Valverde / Poesia: “Apelo” 12- José Carlos Serufo / Poesia: “Perla fina” 13- Helio Begliomini / Prosa: “Ciranda da vida” 14
  11. 11. Terceira Sessão Literária Dia 27/09/2013 (Sábado) 13h45 às 15h15 1- Marcos Gimenes Salun / Poesia: “Aldravias improvisadas” 2- Josemar Otaviano Alvarenga / Poesia: “Despedère” 3- Márcia Etelli Coelho / Prosa: “A moça de cinza” 4- Carlos Augusto Ferreira Galvão / Prosa: “Momento delicado” 5- Jacyra da Costa Funfas / Poesia: “Brasil” 6- Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki / Poesia: “Conselho” 7- Rodolpho Civile / Prosa: “O Papai-noel ladrão” 8- José Maria Chaves / Prosa: “Lauro Maia, um poeta que também é rua” 9- Aida Lúcia Pulin Dal Sasso Begliomini / Poesia: “Andanças” 10- José Arlindo Gomes de Sá / Poesia: “Inventário sertanejo” 11- José Warmuth Teixeira / Prosa: “A mitologia greco-romana e a obstetrícia” 12- Celina Corte Pinheiro de Sousa / Prosa: “Solidão” 13- José Jucovsky / Poesia: “Tropicalismo-concretismo” Quarta Sessão Literária Dia 27/09/2013 (Sexta-feira) 16h00 às 17h30 1- Luiz Jorge Ferreira / Prosa: “Pintassilgo Mariadocarmo” 2- Helio Moreira / Prosa: “Ver não é o mesmo que enxergar” 3- Juçara Regina Viegas Valverde / Poesia: “Demarcações” 4- Nelson Jacintho / Poesia: “Se não é verdade” 5- Ligia Terezinha Pezzuto / Prosa: “Bodas de Diamente - uma história real” 6- Roberto Antonio Aniche / Poesia: “Feche a porta” 7- Arquimedes Viegas Vale / Poesia: “Eu e você” 8- Sônia Andruskevicius de Castro / Poesia: “Pescador” 9- Helio Begliomini / Prosa: “Se não fosse a minha fé” 10- José Carlos Serufo / Prosa: “Por quê” 11- Josyanne Rita de Arruda Franco / Poesia “Fogueira celestial” 12- Alcione Alcântara Gonçalves / Poesia “Gratidão, o que é?” 15
  12. 12. 17 III Autores Participantes XII Jornada Médico Literária Paulista VII Jornada Nacional da Sobrames Botucatu - São Paulo 25 a 29 de setembro de 2013 Primar Plaza Hotel Os organizadores dão as boas vindas aos autores das várias regionais da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e agradecem a participação nestes eventos.
  13. 13. CEARÁ Celina Corte Pinheiro de Sousa José Maria Chaves GOIÁS Hélio Moreira MARANHÃO Arquimedes Viegas Vale MINAS GERAIS Helena Natalícia Rocha de Alvarenga José Carlos Serufo Josemar Otaviano de Alvarenga PARANÁ Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki 18
  14. 14. SÃO PAULO Aída Lúcia Pullin Dal Sasso Begliomini Alcione Alcântara Gonçalves Carlos Augusto Ferreira Galvão Evanil Pires de Campos Helio Begliomini Jacyra da Costa Funfas José Jucovsky Josyanne Rita de Arruda Franco Ligia Terezinha Pezzuto Luiz Jorge Ferreira Márcia Etelli Coelho Marcos Gimenes Salun Nelson Jacintho Roberto Antonio Aniche Rodolpho Civile Sônia Regina Andruskevicius de Castro PERNAMBUCO José Arlindo Gomes de Sá RIO DE JANEIRO Juçara ReginaViegas Valverde SANTA CATARINA José Warmuth Teixeira 19
  15. 15. 21 IV Textos Literários XII Jornada Médico Literária Paulista VII Jornada Nacional da Sobrames Botucatu - São Paulo 25 a 29 de setembro de 2013 Primar Plaza Hotel A autoria dos textos a seguir publicados e apresentados durante as sessões literárias deste evento, bem como as opiniões emanadas são de exclusiva responsabilidade dos autores, não representando a opinião dos organizadores.
  16. 16. Arquimedes Viegas Vale A vingança dos inocentes / Eu e você 32 Alcione Alcântara Gonçalves Gratidão, o que é? / Ode a Botucatu 28 Celina Corte Pinheiro de Sousa Solidão / Renascimento 38 Carlos Augusto Ferreira Galvão Companhia / Delicado momento 35 Aida Lucia Pullin Dal Sasso Begliomini Andanças / A vida interrompida 25 Helena Natalícia Rocha de Alvarenga Esperança 42 Helio Begliomini Ciranda da vida / Se não fosse a minha fé 43 Hélio Moreira Caminhar pelas ruas de Paris no verão / Ver não é o mesmo que enxergar 47 Evanil Pires de Campos A medicina e a educação 40 Jacyra da Costa Funfas Balada no céu / Brasil 51 José Carlos Serufo Perla fina / Por quê 54 José Arlindo Gomes de Sá Inventário sertanejo / Amargo regresso 52 56José Jucovsky Tropocalismo - Concretismo / Centenário do nascimento de Jorge Amado - Nó górdio brasileiro José Maria Chaves O aviso do vento / Lauro Maia - um poeta que também é rua 61 22
  17. 17. José Warmuth Teixeira A mitologia greco-romana e a obstetrícia / Amando e poetando 65 Josemar Otaviano de Alvarenga Significados da palavra / Despedere 67 Josyanne Rita de Arruda Franco Plano de voo / Fogueira celestial 68 Juçara Regina Viegas Valverde Demarcações / Apelo 71 Ligia Terezinha Pezzuto Bodas de Diamante - uma história real / Sublime amor 73 Luiz Jorge Ferreira Pintassilgo Mariadocarmo / My name 75 Márcia Etelli Coelho A moça de cinza / Começar de novo 78 Marcos Gimenes Salun Aldravias improvisadas / Viver é fazer opções 81 Nelson Jacintho Noite de inverno / Se não é verdade 85 Roberto Antonio Aniche Feche a porta / Meu marido foi para a guerra 87 Rodolpho Civile O Papai-Noel ladrão / A presença daquele homem 89 Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki Azul / Conselho 92 Sônia Regina Andruskevicius de Castro Crianças / Pescador 93 23
  18. 18. 25 VIDA INTERROMPIDA Minha alma de tão pequenina quase desapareceu nesse imenso mundo em que fui conduzida. Tudo é tão grande, luminoso, cheio de sons e cores. Nada vejo, mas tudo sinto como se visse e ouvisse. Como estou feliz, alias nunca estive tão feliz como hoje. Um imenso amor transborda e inunda totalmente o meu ser. Eu faço parte de tudo isso, dessa grandeza toda. Sou tão leve, flutuo no plasma. Integro-me a ele de forma continua. Sei que não estou sozinha, mas ao mesmo tempo tudo é muito confuso, isso me deixa completamente perdida. Estou sem referencias, não sei o que fazer, nem para onde ir. Deixo-me levar novamente. Quando me formaram e pela primeira vez tive consciência de minha existência a minha forma era diferente, solida, apesar de infinitamente menor do que agora. Estava em um local diferente deste, mas muito grande também. Puxa, era grande demais. Rapidamente eu fui aumentando de tamanho e adquirindo formas distintas. Que divertido. La eu estava quentinha e protegida. Nadava, virava cambalhotas, dava piruetas e escutava uns ruídos estranhos, que a principio não me incomodavam, pois tudo era novo e eu estava impressionada com o que estava acontecendo comigo. Conforme eu fui crescendo, meu espaço e minha mobilidade começaram a diminuir. De vez em quando sentia sensações diferentes, não sei o que eram. De repente tudo estremecia, eu me sentia jogada de um lado para outro de forma muito agressiva. Sentia baques cada vez mais fortes. Já não era tão feliz e não me divertia tanto, como no inicio. Alguma coisa muito seria estava acontecendo e eu não sabia o que era. Estava muito assustada. Comecei a me sentir culpada sem saber o por que. Eu estava com muito medo e muito triste. Cada vez mais eu percebia que tudo estava se transformando e ficando bem difícil. Ao mesmo tempo eu já podia brincar com meus dedinhos das mãos e dos pés, minhas orelhinhas, narizinho, boquinha e olhinhos. Corpo perfeito, maravilhoso e eu adorava tudo isso. De repente fui sugada e brutalmente arrancada através de um túnel grande e muito escuro. Meu corpinho nu foi molestado, rasgado, mutilado e a dor que senti foi extremamente cruel. Fui arrebatada daquele mundo quentinho, agradável e atirada sem piedade em uma lata de lixo imunda e gelada. Tossi, esperneei, tentei respirar, gritar, chorar, mas ninguém me viu ou escutou. Eu estava só, definitivamente só e abandonada. Completamente indefesa. Assim permaneci por um curto espaço de tempo ate chegar aqui. Estou começando a entender o que aconteceu comigo e isso me deixou extremamente magoada e ofendida. Ao meu redor já começo a observar outros serezinhos que compartilham comigo iguais emoções. A minha vida material foi interrompida, mas ela esta viva no plano infinito e isso será para sempre. Compartilho com meus novos amiguinhos novas emoções, brincadeiras e neste paraíso sentimos o amor incondicional a que teríamos direito caso tivessem nos permitido o direito a vida. *** Aida Lucia Pullin Dal Sasso Begliomini São Paulo - SP
  19. 19. 26 ANDANÇAS Nasci no topo do Maranhão, Na pequena Atins, beirando o mar. Quando criança lá vivi, Vagando solitária pelas dunas áridas Do alto observando sonhadora, o vasto oceano. Pensando, ate aonde vai? Em tenra idade para o Delta me mudei meus pais passivamente segui. Vaguei ate não mais poder. Cresci ao sabor do vento e do mar. Das dunas e dos rios me fartei Já adolescente me transferi. Em Jericoacoara por um tempo me fixei. Nas areias brancas, descalça caminhei, Encantei-me com belos pôr de sois. A cada dia, mais alto eu pensava Nada mais me satisfazia. Queria a grande cidade alcançar, Perto do mar, mas com outros encantos. Já adulta e sozinha fui então para Fortaleza. Nela conheci os prazeres e os desprazeres, O anonimato e o desconhecido. Gostei e me deixei seduzir E por outros caminhos quis seguir. Outra vez mais pelo mar, enfeitiçada fiquei. Um dia, um mapa enorme encontrei. Nele maravilhada, percebi O real tamanho da minha terra. Convencida resolvi, Que tinha muito que conhecer. Meu objetivo então seria, Para o Rio me dirigir. Conhecer o Cristo e o Pão de açúcar, Copacabana e Ipanema. Quando cheguei Por tudo me encantei. Nas areias do Arpoador me estiquei Lá me abandonei. Ao anoitecer dormi com as estrelas, Embalada pelas ondas do mar. Aida Lucia Pullin Dal Sasso Begliomini
  20. 20. 27 De repente percebi que o mar que via Era exatamente o mesmo que la de cima eu enxergara. Descobri que precisava a São Paulo chegar. Sem praia, com rios poluídos e transito ruim, Mas com uma pujante vitalidade. Uma vez mais, me mudei. Vivi por algum tempo E a tudo me acostumei. Apaixonei-me e uma família formei. Por anos a fio me apascentei, Deixando adormecidos antigos sonhos. Um dia percebi que deveria, Para as minhas origens retornar. Descalça caminhar nas areias quentes E as altas dunas escalar. E o que fiz? Juntei o pouco que conseguira, Nas malas empilhei também alguns sonhos, Ainda não realizados E para minha Atins voltei. *** Aida Lucia Pullin Dal Sasso Begliomini
  21. 21. 28 GRATIDÃO, O QUE É? Gratidão é virtude, que precisa ser cultivada, E desenvolvida diariamente, num eterno agradecer. É mudança de atitude, substituindo as reclamações, Por agradecimentos; os lamentos por ungüentos, Olhando com o coração e superando a vitimização, Buscando o atendimento e descobrindo as bênçãos, Disponíveis, para o seu uso no dia a dia. Perceba, as graças invisíveis que não tinhas notado. Sinta a proteção, o amparo e ajuda que lhe foi dado. Acalme e liberte-se da preocupação através da gratidão. Relaxe-se, descanse seu coração, aquiete sua mente. Sinta-se livre das tensões diuturnas e durma melhor. A gratidão serve como terapia, Para nossas doenças psicossomáticas; E cura depressão, tristeza, solidão E ansiedade: nossas dores da alma. Seja grato e demonstre sua gratidão aos que lhe ajudam. A gratidão é atributo da mente, Força poderosa voltada para a prosperidade. Habituando-se em agradecer, Estará mobilizando o fluido curativo, Esta energia cósmica, que muda o ambiente E circunstâncias em sua volta. As graças recebidas, deverão serem lembradas, Com sincero agradecimento. Purifique sua mente, limpe seu coração, Com a prática da meditação, Eliminando sentimentos e emoções negativas Que lhe impedem de sentir gratidão. Agradeça à natureza por toda sua beleza, Esplendor e maravilhas. Não polua o nosso planeta e agradeça pela morada Que ele nos dá, sem nada exigir de nós. Agradeça a vida, dádiva divina, Que permite a nossa evolução espiritual. Agradeça até as dores, doenças e maledicências Que nos atingem e fustiga, Como lições e remédios amargos, Para nos purificar e desenvolver nossas virtudes. Alcione Alcântara Gonçalves Tupã - SP
  22. 22. 29 Faça o bem! e a luz emanada deste bem, Atinge o teu coração, como gratidão Daquele que foi beneficiado. As energias boas e positivas devem ser usadas E distribuídas a quem necessita. A prece, a oração, pode ser feita Para ajudar os necessitados, Os doentes do corpo e, ou da alma. Ajudando ao próximo, é você, o maior beneficiado. Não o faça, contudo, esperando recompensas. Porque assim agindo, a recompensa já é o seu pagamento. No entanto, se o faz desinteressadamente, Sem visar recompensa para você, Ai sim, você será merecedor da gratidão de Deus. Servir desinteressadamente é um ato perfeito, Porque ajuda a quem necessita e, O reconhecimento espiritual, você receberá. A boa vontade e o amor, deverá prevalecer, Quando você tiver oportunidade de servir. Há uma frase usada pelo Rotary Internacional que diz: “ Mais se beneficia quem melhor serve”. Isto é o espelho do que acabamos de falar. O Lema Rotário: “ Dar de si sem pensar em si”, Mostra muito bem o exercício da bondade desinteressada. Complementa São Francisco de Assis dizendo: “ É dando que se recebe”. Vejam, portanto, que a Gratidão, É o reconhecimento por aquilo que fazes desinteressadamente. Gratidão é isto! ... Gratidão é virtude, que precisa ser cultivada! *** AlcioneAlcântara Gonçalves
  23. 23. 30 ODE A BOTUCATU Em Botucatu, pela segunda vez, Os médicos Escritores vieram se reunir, Na décima segunda Jornada Médico-Literária, Da Sobrames de São Paulo. Botucatu significa: bons ares, bom clima, Ou bom vento; de origem Tupi-Guarani, Ybitu-Katu indica terra em ponta, montanha, Vento bom, saudável e clima agradável. Frei Fidélis Maria de Primiero, Frade Capuchinho, Afirmava: Botucatu em Sumério significa: “Templo da Serpente entre as Pedras”, E as Tres Pedras: o Gigante deitado, Era antigo Templo de Adoração à Satã. Região Mística e lendária é Botucatu, Rota de passagem para os Incas, Conhecido como caminho do Peabiru, Lugar de Rituais e Retiros Espirituais. O Saci: Lenda Clássica do Folclore brasileiro, Em Botucatu encontrou o seu Lar; Sede Da Associação Nacional de Criadores de Saci, E conhecida como: Capital Nacional do Saci. Para valorizar mais o folclore nacional, O “Dia do Saci” foi criado, Em caráter nacional, no ano 2005, E “31 de outubro” lhe foi consagrado. O Saci-Pererê surgiu no sul do país, Como menino indígena, com rabo e travesso; Transformou-se num negrinho, no norte do país, Com uma perna, cachimbo e gorro vermelho. AlcioneAlcântara Gonçalves
  24. 24. 31 Seu comportamento divertido, brincalhão e profundo conhecedor Das ervas: medicamentos da Floresta que é o controlador. Retratado brilhantemente por Lobato em dois livros Da literatura infantil e Histórias em Quadrinhos, Saltou para a televisão, espalhando-se pelo Brasil. Fato curioso em Botucatu, é a passagem por aqui, Do maior manancial de água doce subterrânea do mundo, Estendendo-se pelo Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina, Este gigantesco reservatório: O Aquífero Guarani; Protegido na sua superfície pela Rocha Sedimentar, O Arenito Botucatu, onde aflora, serve para sua água o recarregar. Na educação, Botucatu se destaca no ensino superior, Com excelente Faculdade de Medicina da UNESP; Do Instituto de Biociências; Veterinária; Zootecnia e Agronomia; Com ênfase também, no ensino tecnológico, pela FATEC. Botucatu da lenda do Saci, Tu és servida pelo Aquífero Guarani, E pelo caminho do Peabiru Passagem dos incas do Peru Oh! Cidade dos bons ares, Tu tens um gigante deitado, Símbolo místico da tua proteção, Contra Satã e seu Templo de Adoração. *** AlcioneAlcântara Gonçalves
  25. 25. 32 A VINGANÇA DOS INOCENTES Ali, na porta da quitanda, dois frondosos pés de azeitona preta faziam a amenidade de uma sombra ventilada, que acolhia toscos bancos feitos com um tronco fino, de madeira ordinária, enganchado por suas extremidades, sobre duas forquilhas fincadas no chão. Rodeavam as azeitoneiras gêmeas e estavam sempre ocupados por vizinhos que convergiam para trocas sociais. Acontecia tudo, sabia-se tudo, planejava-se tudo. Era o passado, o presente e o futuro daquele povo periférico. Era o ponto luminoso na escuridão material daquele povoado perdido no meio do mundo dos matagais, onde o lombo das montarias ainda era a condução obrigatória. Havia promessa de estrada vicinal que era o mote de todo candidato que dali queria votos, mas os igapós das invernadas tornavam essa ligação com a sede muito difícil. Martinha fazia poeira varrendo o terreiro com um cacho seco de juçara e espantava as galinhas que comiam o catarro despregado da bronquite dos fumadores de cigarro de maço ou dos charutos intoleráveis. Na lucidez da manhã as palavras eram escassas e comedidas, contando um caso, quase sempre sobre roça invadida por porco ou gado, moça solteira, assombração ou homem traído pela mulher. Mais tarde quando a cachaça escorria pela língua e cortava a censura da consciência, corria solto um palavreado chulo, dissensões de ideias e cobranças de atos e ocorrências. Mas, tudo terminava sempre ali mesmo. Se tinha alguma alteração, Dona Silvéria, que era a dona da quitanda, falava grosso e punha tudo de novo no caminho do entendimento. Só que uma vez não conseguiu controlar dois brigões que terminaram no Posto de Saúde, riscados de faca. — Ela foi na Vila e vai demorar. Martinha respondia para Joca Pé de Galho que veio decretado para falar com a comerciante. — Mas hoje? Domingo? — É seu Joca, Veveca foi ver o filho que se furou num espinho de tucum e não pode nem encostar o pé no chão. O Doutor de lá fez de tudo pra tirar o espinho mas não conseguiu . Deixou um buraco na sola do pé dele. Ela me deixou tomando conta da quitanda, mas eu não gosto porque eu não sei fazer conta assim direitinho. As vezes sai tudo errado e dou troco demais. Ela briga comigo com toda razão. Gosto de estar é lá na cozinha que é onde eu sei fazer de tudo. Desolação marcou aquele rosto já marcado por tantas dificuldades que, como campônio, vivia delas. Saiu de casa logo cedo para ultimar com D. Silvéria o negócio de uns porcos que queria vender-lhe para com o dinheiro preparar um pedaço de terra para plantar a sua roça, pois já estava atrasado. Já estavam aparecendo nuvens pesadas e já tinha dado uns chuviscos. Pé de Galho com o dedo indicador da mão direita apontando para o céu empurrou a aba do chapéu pra cima, franziu o cenho na claridade do meio dia e decidiu esperar. — Me dá uma cachaça aí! Arquimedes Viegas Vale São Luiz - MA
  26. 26. 33 Do jeito que jogou a cachaça na garganta parecia que estava lavando suas contrariedades. Entrou no papo coletivo falando baixo com a sensação de fracasso. Vivia de roça. Mulher, filhos, mãe, tudo comia no calo das suas mãos. Já estava atrasado! Bateu forte com o fundo do copo no balcão e pediu: — Me dá outra! — Mais outra! A ameaça de falhar lhe assustava e nesses momentos procurava refúgio na cachaça que o tirava da seriedade das responsabilidades. Considerava-se injustiçado pois mesmo com seus defeitos nunca deixara a família em falta. — Mais uma! Seu Joca, o senhor já bebeu muito e ainda vai esperar um bocado. O senhor não quer comer um sarrabulho, que sobrou de ontem? Forrou-se de sarrabulho vencido, com farinha seca. Estava até na tampa de comida e de bebida e nada de Dona Silvéria. — Lá vem sua mulher! Escutou ainda no cochilo, recostado no tronco da azeitoneira. — Valha-me Deus! Tatinha vai me esganar. Ajeitou-se , limpou a boca, abotoou a camisa, e encomendou um sorriso logo que percebeu o seu humor desagradável. — Tatinha do meu coração estou só esperando a comadre para ir pra casa. A mulher, com a ira em borbotões tirava os adjetivos de todos os malandros, infiéis, estelionatário, ladrões, assassinos, traficantes, psicopatas, e tudo que ela se lembrou, jogou sobre ele num discurso lança-chamas que o queimou por uns dez minutos. Enquanto ele se contraia para tornar-se surdo, veio-lhe a repulsa na forma de náuseas. cólicas e vômitos. Ali mesmo, na frondosidade sombria daquele terreiro, lançou um jato de sarrabulho mastigado misturado na farinha seca inchada, embalado pelo azedume das secreções estomacais, seguido de um repugnante bolo de lombrigas, que desorientadas, faziam uma dança nojenta naquele palco de terra. Tatinha reforçou a sua munição dialética, destacando a vergonha diante daquele insólito espetáculo. Para municiar-se de argumento em futuras contendas maritais pegou um graveto e começou a contar as lombrigas: — Meu Deus, esse homem me mata de vergonha! Uma, duas, três,.......... nove.......... treze......... quinze! Quinze lombrigas! Que criação sebosa para quem só quer ser o que não marca na folhinha. Enquanto Tatinha remexia o bolo de lombrigas com o graveto começou a sentir nojo que se manifestou em engulhos e por fim em um vômito franco de pouco conteúdo alimentar mas também com um respeitável bolo de lombrigas. Joca Pé de Galho, até então cabisbaixo pelo massacre em curso, levantou-se meio cambaleante, pega o mesmo graveto e começa a contagem: — Um, dois, três, ........nove,........treze,.........quinze,.........dezenove.........vinte e cinco.... *** Arquimedes Viegas Vale
  27. 27. 34 Arquimedes Viegas Vale EU E VOCÊ Eu sou feliz a ponto de ser tão feliz. Tudo o que eu vejo está sorrindo. Tudo o que eu ouço está cantando. Tudo o que eu toco está vibrando. Tudo o que eu abraço aconchega-se. Tudo o que eu beijo são teus lábios. Tudo o que eu amo meu coração decide: Você. ***
  28. 28. 35 COMPANHIA Sigo minha vida bem acompanhado Às vezes tento trocar, saio, me revolto Procuro outro alguém, um outro lado, Mas sempre muito me arrependo e volto. Ela é assim, em nada me atormenta, Fica ao meu lado silente e quieta; Monotonia ninguém quer nem aguenta. Mas o que fazer se não há mais meta? Ela sempre inspira o pensamento, Agonia que estimula meu coração; Tão forte que repito todo momento: Não vivo senti, minha amada solidão. *** Carlos Augusto Ferreira Galvão São Paulo - SP
  29. 29. 36 Carlos Augusto Ferreira Galvão MOMENTO DELICADO O Brasil enfrenta, talvez, o mais delicado momento de sua história. Há pelo menos três décadas, o povo brasileiro vem demonstrando insatisfação, enchendo ruas, derrubando ditaduras, derrubando presidentes, mas de maneira comportada, sempre dirigido por partidos políticos e grupos sociais distintos: igrejas, sindicatos e por aí. Acontece, que de uma forma irritante, embora tenha aprendido a gritar nas ruas, a nação não consegue sentir progressos naquilo que a ONU chama de Índice de Desenvolvimento Humano, em escala suficiente para ser notado. Em todos estes movimentos, os líderes que assumiam o poder, decepcionavam o cidadão; logo praticavam exatamente o que propunham combater. Foi uma constante. Após as “Diretas Já”, o governo, então “democrático”, decepcionou bastante e levou o país ao caos financeiro com hiperinflação e estagnação econômica, então surgiu um salvador, o primeiro presidente eleito após a ditadura militar. Collor de Mello, um político jovem e desconhecido, apresentava-se como caçador de marajás (termo na moda da época, que designava funcionários públicos com altíssimos salários) e prometia combater a corrupção e a inflação; não conseguiu coisa alguma. Dois anos depois, manipulado por vários partidos, e no bojo de uma profunda briga familiar presidencial, o povo apontou a porta da rua para ele e, vencendo o poder, o pôs para fora. O novo governo teve o mérito de extinguir a inflação, mas não se moveu (pelo menos na percepção do povo) em direção a melhorias na saúde, na educação; surfando na esteira do combate a inflação conseguiu se manter durante oito anos, mas no final, os cidadãos não percebendo as melhoras prometidas e ouvindo insistentes rumores de corrupção, mandou-o embora , dessa vez pelas urnas, elegendo o Partido dos Trabalhadores. O PT, o único partido criado “de baixo para cima” durante a agonia final da ditadura, tinha a fama de honestíssimo, popular, e apresentou para o jogo político um homem do povo; um humilde operário. Este governo pegou o Brasil estabilizado economicamente, sem dúvida que procurou diminuir a miséria com amplos problemas sociais, beneficiando muitas famílias e trazendo-as para a linha de consumo. Desde cedo porém, viu-se que os antigos humildes dirigentes tornaram-se milionários, pipocaram denuncias de corrupção, e um deputado que também fazia parte do esquema,denunciou à nação um sistema político no congresso em que o governo comprava apoio dos parlamentares com dinheiro público e privado, conseguindo assim uma coalizão de partidos dispares e antagônicos, mas se engrandecia sua bancada parlamentar, apequenava tanto os partidos quanto o próprio parlamento.. Mas por ineficiência política da oposição e anestesia da nação promovida pelos inúmeros programas sociais, este partido consegue segurar-se até hoje no poder, mas o cenário político vem mudando rapidamente nos últimos dois anos. Esgarçaram demais a paciência da população e, com uma insignificante gota d’água promovido pelo governo estadual de São Paulo (agredir um pequeno grupo de pessoas que clamava por transportes mais baratos) a coisa explodiu. O povo foi em massa para as ruas numa intensidade nunca dantes vista. Parece que o PT foi a última dose de decepção que o povo brasileiro aturou. O povo nas ruas, e sem nenhuma liderança política ou partido que tivesse coordenado tal fenômeno. Entrou em cena na política brasileira as redes sociais, onde a população se autoconvocou de maneira maciça. O povo foi para as ruas sem nenhuma organização, mas portando em seus cartazes exigências profundas, pertinentes e altamente perturbadoras para o poder. Há uma diferença dos eventos similares: não há bandeiras de partidos, e os que tentaram tirar uma “casquinha” das manifestações foram vigorosamente expulsos dela, demonstrando-se assim o vácuo existente entre a vida política nacional e o povo brasileiro, que já não se sentia representado pelos políticos. O movimento pegou de surpresa o PT, partido que se julgava dono das ruas e de manifestações de massas, e viu que perdeu este domínio ao se acostumar em viver em palácios que ainda
  30. 30. 37 Carlos Augusto Ferreira Galvão exalam odores odiados pelo povo. O que se vê são autoridades atônitas e temerosas, porque, diferentemente de outrora, não há clima de paz e amor nas ruas e sim paz e raiva. A reação do governo não tardou. A presidente veio à televisão, disparou promessas requentadas, e pouco acrescentou além das promessas de acabar com a baderna ( que minorias praticavam, solidarizou-se com os movimentos... Falou quase nada, mas nada tinha mesmo a falar. A militância deste partido, com a insuficiência psíquica que lhe é peculiar, e irritadíssima pela saia justa que passou quando foi expulsa das ruas, tratou de procurar quem estava por trás do “golpe de direita” numa visão arcaica e extemporânea nunca abandonada pela turma da mente curta. Então acusaram a Rede Globo, a revista Veja, jornais, coincidentemente os que mais revelaram falcatruas petistas. Um ministro chegou até a dizer que a culpa da convulsão social é da imprensa por ser “moralista” demais, mostrando que alguns tentam fazer a nação conformar-se com imoralidades. O governo, sob pressão, tratou de anunciar o desmonte de vários projetos desde os feitos para perpetuarem-se no poder até à irresponsabilidade de projetos de leis visando proibir investigações na cúpula da república; logo logo veremos também o abandono dos corruptos que, condenados, estão ameaçando a nação, junto com o governo, de desmoralizar a já nossa pouca acreditada justiça. O povo brasileiro jogou a primeira carta; que o estado “pise em ovos” porque o jogo é muito delicado. Sem partido, dizem todos, o país cairá na anarquia e gerará nova ditadura. O termo é este. Aos beócios recomendo prestarem muita atenção no momento político e parem de ver o Brasil e o mundo como no tempo da guerra fria. Se houver outra ditadura, enganam-se os que acham que será ditadura de direita, de generais. O mundo, neste aspecto, depois da guerra fria, involuiu de novo para a equação povo/governo, sem ideologias. Se houver outra revolução, o povo não vai querer ditadura de generais; já experimentou e não gostou. Não há líderes, mas eles podem surgir sim. Procuremos na história da humanidade como se saíram as revoluções humanas antes da guerra fria, vejamos a revolução do México e nos acautelemos... Lá quem venceu a revolução, foram quadrilhas de malfeitores. Aqui temos quadrilhas organizadas que o estado não dá conta de desarticular (CV no Rio e PCC em São Paulo, como exemplos); o surgimento de um Zapata ou de um Pancho Vila nestas organizações poderia nos jogar no mais sinistro dos pesadelos. Que o estado procure crescer em decência e dignidade e se adaptar ao povo brasileiro que é muito maior que ele, e abandone a visão rasteira de querer que este gigantesco povo se adapte a um estado doente desde sua criação há 500 anos. ***
  31. 31. 38 SOLIDÃO Vida solitária, inundada por lembranças do passado. Depressão. Quem sabe devesse se casar novamente... Celeste, a esposa, morrera jovem. Em seu lugar, apenas um enorme vazio. Não haviam tido filhos e não fosse a velha empregada que permanecera na casa, Afrânio estaria completamente só. Nenhum vizinho ou amigo, sequer um animal de estimação... Naquela noite, foi impelido a se arrumar um pouco. Vestiu o terno mofado pelo tempo de guardado, escolheu uma entre as poucas gravatas, retirou o chapéu de massa da caixa e se encaminhou até o pequeno espelho do banheiro. Penteou-se, perfumou o rosto e o pescoço com colônia de aroma já despedido, ajeitou o chapéu na cabeça e saiu. A empregada estranhou que o patrão partisse sem jantar. “Deixa pra lá... Coisa de velho! Mais tarde, ele come...” – pensou. Era discreta. Não se intrometia na vida de patrão. Na rua, Afrânio olhou para o céu e viu a lua muito redonda, brilhante. Pensando bem, há tanto tempo não olhava para outra direção. Nem para dentro de si mesmo... Encantou-se com a esplendorosa lua parecendo solta no espaço. Sentiu-se seduzido pelo brilho e a liberdade. Tentou aproximar-se dela e caminhou em sua direção, desatento ao resto do mundo. Por mais que tentasse, a distância entre os dois parecia não mudar. Mas ele insistia, insistia... Subiu ruas, desceu ladeiras, atravessou montanhas e rios. Interrompeu sua busca apenas no dia seguinte quando a lua desapareceu. Mas já se apaixonara e ali permaneceu até a noite quando ela voltou para brincar com ele. Brincaram tanto que ele, cansado, virou estrela... *** Celina Corte Pinheiro de Sousa Fortaleza - CE
  32. 32. 39 Celina Corte Pinheiro de Sousa RENASCIMENTO Cansada por dentro e por fora. A alma padecia de uma terrível solidão e o corpo revelava seu desconforto diante da vida. Olhar opaco, unhas quebradiças, sem viço, passos pesados, ombros arreados para frente. Vida em branco e preto, sem sonho, nem fantasia. Real demais para satisfazer. Sob a percepção dos demais, considerada uma pessoa de sucesso. Mas não se sentia assim, face à agrura íntima que a devorava. Pregado na face, um eterno sorriso, embora o olhar fugidio denunciasse o que ela não verbalizava. Em seu espírito, habitava uma vontade de acabar com tudo de vez. Há anos acompanhava o companheiro em sua saga. Paralisado, não deixava o leito e não via o sol nascer todas as manhãs, pois o paredão de um prédio, construído ao lado da casa, impedia até a visão do céu. Mas tanto fazia, pois ele se ausentara do mundo há bastante tempo. A tez alva e fina se assemelhava a um papel de seda enrugado pelas mãos. Um molambo humano, sem graça, sem ternura. Apenas um vivente. “Meu Deus, por que a vida não o leva à morte?” – pensava e se arrependia. Não queria ter remorso quando ele morresse. Mas, sinceramente desejava ver o sofrimento de ambos chegar ao fim. Sentiria falta daquela presença após tantos anos de convívio. Quase quarenta... Quase uma vida! Mas não suportava mais a ausência de compartilhamento. O amor se perdera. Em seu lugar, a compaixão... Às vezes, nem isso! A raiva, a desesperança e a frustração tomavam conta dela e a afogavam. Ele não percebeu. Impossível! Mas os amigos perceberam que o sorriso de sempre mudara. Agora, Artemísia parecia sorrir de verdade. Não era mais uma máscara de cera. O olhar se tornara menos enrijecido. Além do sorriso diferente, brincadeiras com o cachorro, coisa que não fazia há muito tempo. O animal se sentia igualmente depressivo, pois era apenas mais um elemento dentro da casa tão desiluminada. Artemísia teve a impressão de que quando se olhava no espelho, ele sorria para ela. Sentia-se bonita, atraente e o espelho concordava. A vida sempre solicitara dela um dispêndio de energia muito grande e o tempo se encarregara do resto. Mente brilhante, capaz de comandar o império construído pela família, secara por dentro de si. Os filhos não conseguiam vê-la frágil, pois ela mantinha seu jeito forte mesmo nas situações em que suas emoções eram mais exigidas. Mas, dentro de si, desmoronara pouco a pouco, sem que percebessem... Seu renascimento se dera de uma maneira estranha, meio por acaso. Por força de sua profissão, tivera contatos com ele através da internet. Uma única vez por telefone. Nem se recordava da voz... A princípio, contatos nada agradáveis. Melhor defini-los como hostis, mas ela, habituada a lidar com diferentes humores, conseguira contornar tão bem a situação que ele se tornara menos agressivo, demonstrando progressiva admiração e simpatia por Artemísia. Ela, por sua vez, apreciou os galanteios que ele lhe fazia através da internet. Sentiu-se desejada fêmea no cio. Trocaram fotos e mensagens, restauradoras de um desejo incontido, que seu corpo pensara já ter esquecido. Tudo aquilo superava o corriqueiro e mexia com ela. Uma nova energia percorria seu corpo provocando uma excitação inaudita. Voltou à sua juventude, quando sentia aquela pulsação agradável e inconfessável... Ele também sentia os arroubos de uma paixão desenfreada e virtual. Homem maduro, experiente, delineava o imaginário através das fotos virtuais trocadas entre si... Dirigia palavras meigas e doces à Artemísia que, se as ouvira algum dia, há muito esquecera. Ela leu diversas vezes a mensagem em que ele confessava sua paixão: “Você me encanta, me inebria, agita minha mente e me dá forças para continuar a viver...”. Sentiu um leve arrepio. Sorriu sensual. Amaram-se profundamente. E sem qualquer culpa! Eram ambos profundamente solitários e sonhavam com o dia do encontro. Trocaram beijos e mais beijos na rigidez da tela. Amaram- se e repetiram orgasmos imaginários nunca pensados. O amor mais bonito de toda uma vida. Estendiam as mãos e, na virtualidade, chegavam a sentir o toque na pele, um do outro. Um maravilhoso jogo de faz de conta que valia à pena... Até que um dia... Até que um dia, ambos mergulharam na rede e sonharam o sonho mais lindo, em outra dimensão... ***
  33. 33. 40 A MEDICINA E A EDUCAÇÃO Na antiguidade, a lenda trata de Apolo que se apaixonou, doentio, por Dafne e era conhecido como deus da medicina e das plantas medicinais. No entanto Dafne, cautelosa, não desejava se entregar de chofre ao impetuoso perseguidor e apela ofegante ao seu pai. Dessa maneira um torpor envolveu seu corpo e de imediato ganha uma delicada casca, seus cabelos transformam-se em folhas, os braços em galhos e os pés cravam-se no chão como raízes. Apolo abraçou e beijou os ramos da árvore, mas estes afastaram os seus lábios.O poeta assim se referiu: “O sofrimento a música alenta. Os priscos sábios adoravam, assim, A medicina, o canto e a melodia.” No entanto Platão e Aristóteles propuseram uma educação sistemática e gradual às crianças desde o início do nascimento, inclusive com amas de leite para que pudessem desenvolver num hedonismo peculiar, ginástica dentro de um ginásio apropriado aos ginastas infantis com gineceu e androceu. Outras atividades como a música, literatura, equitação etc. seriam gradualmente ensinadas e implantadas em seu benefício até a juventude. O melhor exemplo são Atenas e os espartanos; Leônidas e a batalha de Termópilas e o discípulo Alexandre Magno, de Aristóteles que discorreu sobre os regimes políticos e a vera democracia floriu e se consolidou. A educação flutuou ora denigrida pelos bárbaros ora pela falta de formação moral nas cidades. A medicina hipocrática enlevou e enobreceu digna carreira que se consolidou nas nações. As escolas médicas se expandiram e se espalharam pelos países europeus a partir do ano mil de nossa era. Anterior a elas, a de Alexandria era a mais respeitada e venerada. No Brasil a pioneira foi a da Bahia, seguida pelo Rio de Janeiro e, assim sucessivamente até as atuais existentes no nosso amável solo. Portanto o número de formandos anuais seria ou é suficiente para atender de modo adequado e ético profissional a toda população presente. No entanto citarei a fim de esclarecer que nossa imprópria distribuição de médico pelo nosso extenso e belo país recai ou repousa na falta de educação e saneamento básico, mínimos desejáveis às cidades de uma nação. J.J. Rousseau em o Emilio ou da Educação sugeriu de maneira inteligente e perspicaz que o aluno, o professor e a natureza constituem a tríade indissolúvel do aprendizado, a saber: o professor interage com o aluno no ensino e no seio da natureza de tal sorte que o reino animal e o vegetal sejam, dignamente, cultuados e estudados. Desse modo o aluno se diferencia na percepção cognitiva enquanto o professor se aprimora e se aprofunda em sua formação. A educação diferencia uma nação visto que o povo saberá escolher e saberá separar o joio do trigo. Evanil Pires de Campos Botucatu - SP
  34. 34. 41 Como consequência a grande maioria optaria pelas atividades primitivas ou as diversas técnicas ou tecnologia sem se preocupar com a universidade a exemplo do que ocorre atualmente nas nações desenvolvidas. Algumas delas abrem ou oferecem a entrada nas cadeiras básicas a quem desejar, no entanto de mil alunos que ingressam restam, apenas 70 a 90 deles nas de aplicação. Outras selecionam, criteriosamente. Claro que a medicina é uma carreira eletiva e, naturalmente seletiva. Logo, não se criam escolas a bel prazer, inclusive os países europeus reduziram-nas. Restam atualmente apenas as melhores. Deve-se querer e amar toda nobre atividade humana desde as rurais, toda a extensa gama das profissionalizantes e inclusive a carreira universitária. No entanto, a distorção visual dos chefes das nações, em desenvolvimento ou não desenvolvidas visa e, vislumbram sonhos, devaneios inerentes a um débil oportunista ou talvez perniciosa visão. Só a educação privilegia, enobrece e engrandece uma nação. Graças a ela o mal definha ou muito reduz; os governos se qualificam para e pela nação, pois o povo aprendeu a selecionar e escolher; o saneamento básico será primoroso, inclusive com a produção nutriente à espécie humana. As prisões tendem a se esvaziar enquanto a escola enraizada se expande, se dignifica visto que ensina, cultua, ao enobrecer o ser humano nas espécies existentes na natureza. *** Evanil Pires de Campos
  35. 35. 42 ESPERANÇA “E agora José, a festa acabou...” Dizia Carlos Drummond de Andrade em seu poema. Céu cinzento, fumarento, cerúleo, águas penduradas no firmamento, prenúncio de tempestade. Terras do norte de Minas e do Brasil, natureza pródiga, clima quente e de muita chuva em solo fértil, calcário, onde se escuta o capim crescer, comida farta, reses multiplicando e engordando, abarrotando frigoríficos e exportando produtos de excelência. Foi assim durante décadas, propalada prosperidade correu Brasil afora, homens em busca de fortuna, chegaram aos montes à região, terras ainda baratas. Solo e subsolo de riquezas minerais, em abundância. Homens espoliando o Éden. A avareza, um dos pecados do “capital”, riqueza rápida sem agradecer a terra e aos trabalhadores, sugando do solo a seiva, matando árvores, vidas, exploração sem ética. De terras prósperas, promissoras formando um bioma rico, o que vemos: só desolação. Quase tudo em derrocada... Briga do homem com Deus. A natureza chora convulsivamente... Homem animal, homem Deus... Homem físico, homem metafísico, como conviver? Nesta luta entre o lobo e o cordeiro. Qual ganhará mais recompensa? Eis o desafio, eis a opção. Escolham. Penso, nem tudo estará perdido, pois tenho a esperança do homem fazer as pazes com seu Criador... *** Helena Natalícia Rocha de Alvarenga Belo Horizonte - MG
  36. 36. 43 CIRANDA DA VIDA Lembram-se das cantigas de ninar e dos meus cochilos no chão, ao lado do berço, tentando fazê-los dormir? Das roupinhas dos super-heróis ou dos vestidos típicos das nações que a mamãe carinhosamente vestia-os? Das mamadeiras e das musiquinhas feitas sob medida que cantávamos para que pudéssemos chantageá-los a comer, como a do marinheiro Popey? Das noites que passávamos em claro quando a doença vinha ou de nossa ansiedade quando estavam internados nos hospitais se preparando para cirurgias? Recordam-se dos primeiros passos... das primeiras palavras... dos primeiros dias na escola... dos primeiros professores e amiguinhos... da catequese... da primeira eucaristia... da crisma...? Lembram-se quando brincávamos fazendo castelos de areia ou jogávamos futebol? Enriquinho “supregente” faça uma careta de bravo! E você sempre fazia; dificilmente explicável com palavras, mas jamais esquecível na lembrança. Onde está o “Brunichelo papá”? E você, que era um toquinho de gente, uma “batatinha voadora”, vinha sorrateiramente me abraçar nos joelhos, como se eu não soubesse onde estava escondido.E a “madame Jô” dos laçarotes?! Sempre impecavelmente enfeitada pela mamãe. Onde estão nossos anjinhos que vieram do céu que por muito tempo quiseram dividir nossa cama por terem medo da escuridão da noite? Lembram-se da musiquinha!?: “Vou-lhe contar um segredo papai... sou ‘crioncinha’ também... sou ‘crioncinha’ também... “. E do grito de guerra!?: “auah! auah! auah”!? Recordam-se que choravam e disputavam o colo durante o tempo todo que participávamos das missas? E dos xixis que extravasavam as fraldas e molhavam nossas roupas? E dos banhos na banheira... juntos no chuveiro... das fraldas trocadas... das mamadeiras carinhosamente preparadas... !? Lembram-se quando eu tinha energia para erguer vocês três juntos!? Quando medíamos força em cima da cama!? Quando saíam correndo para atender ao telefone!? Recordam-se das nossas orações ao Papai do Céu quando viajávamos... quando deitávamos... quando fazíamos as refeições... quando íamos para a escola ou em algum momento especial!? Lembram-se das manhãs de domingo quando íamos junto aos hospitais... !? Enquanto eu visitava os pacientes, vocês assistiam desenhos animados no conforto médico... Recordam-se dos cachorros que tivemos!?: Task, Taba, Babucha, Tobi, Catita, Budge, dentre outros. Eles fizeram de certa forma parte de nossa família e acompanharam os seus crescimentos, instruindo-os a respeitarem os animais e a natureza. Lembram-se por ocasião do Advento, quando rezávamos em família, contritos, em frente do Presépio montado na lareira, e em seguida, vocês depositavam as cartinhas para o Papai Noel!? Foram tantos e tão diversos os momentos felizes que tivemos juntos, que escapam em plenitude da nossa memória. Entretanto, tornam-se inapagáveis pelo saldo positivo que fizeram em nossas vidas. *** Era tudo como se fosse um sonho que jamais iria terminar. Mas veio subitamente o momento mágico e trágico da adolescência, onde em poucos anos deixaram de ser crianças para se tornarem adultos e, para nossa tristeza, passaram de dependentes para senhores do mundo, conquistando braçalmente a alforria filial. Essa é inexoravelmente a lei da vida. Entretanto, nessa etapa talvez seja mais fácil lembrarem-se dos amigos... dos acampamentos... das viagens que fazíamos juntos... das nossas preocupações com relação às Helio Begliomini São Paulo - SP
  37. 37. 44 drogas e das más companhias... do nosso estímulo e torcida pelos esportes que faziam... dos estágios e intercâmbios no exterior... da nossa partilha, não somente pelos insucessos dos vestibulares, mas também pelo ingresso nas universidades... ou dos estágios e empregos conseguidos! Inapagável na lembrança foi a primeira vez que estivemos na paradisíaca cidade de Bariloche. Lá, particularmente no Cerro Otto, nos jogávamos no chão e atirávamos bolas de neve uns nos outros, todos com euforia e irradiante candura infantil! A adolescência foi um momento em que tivemos plena consciência de que eram seres diferentes e com vida própria. Cada vez mais ausentes fisicamente e, paradoxalmente mais presentes em nossos pensamentos e orações. As suas independências se consolidaram e, com ela, experimentamos diversos matizes dos dissabores da rebeldia e do desrespeito, contrariamente à educação fornecida. Achávamos que éramos os mesmos no intelecto e no físico, mas nos decepcionávamos quando não conseguíamos mais competir de igual para igual num jogo de futebol... na subida de uma escada... na compreensão de um pensamento... na agilidade e na vivacidade de um raciocínio. Tivemos a certeza de que tudo começou a acontecer quando começamos a ser chamados educadamente de “tios”, “velhos” ou “coroas”. As rugas emolduradas pelos cabelos grisalhos e os achaques que sofremos depunham contra nós. Paradoxalmente, na nossa juventude, reclamávamos que nossos pais não queriam dialogar conosco, mas com vocês, queridos filhos, era exatamente o contrário. Apesar do nosso empenho em conversar, quantos e quantos segredos esconderam de nós?! *** Aproxima-se uma nova etapa onde constituirão outras famílias e protagonizarão o milagre da multiplicação da vida. Com certeza, vocês continuarão sendo nossa preocupação, mas devotaremos maior atenção aos seus filhos que serão nossa alavanca e motivação na alcunha carinhosa de terceira idade. Com eles seremos possivelmente mais esbanjadores, não porque quereremos compensar possíveis erros cometidos na educação de vocês, mas porque começamos a perder com os anos, a força para puxar o precioso e imprescindível “freio de mão” que tivemos com vocês. Teremos a sensação da plenitude em decorrência da experiência acumulada pelo rio de existência que passou em nossas vidas. Entretanto, ainda aprenderemos e nos alegraremos muito, pois o mundo não parará como tampouco sumirão nossas decepções e temeridades. *** Mas se Deus permitir (!) haverá outro e derradeiro momento quando vierem os filhos de seus filhos, consolidando assim suas famílias e suas descendências. Quando a trajetória da existência cruzar, lá no horizonte, com as ávidas garras do tempo, seremos os mesmos, porém quase que irreconhecivelmente metamorfoseados pelas intempéries vividas. Nessa ocasião, seremos uma vela consumida que se esforçará, agonizando em manter sua chama acesa. Personificaremos o anacronismo e poderemos ser embalados como crianças, com ternura e afago, assim como fazíamos com vocês. *** Quando o tempo implacavelmente passar... seremos simplesmente um marco histórico lembrado apenas por vocês e seus filhos. Deixaremos de existir, pois a ciranda da vida deverá continuar. Certamente seremos tão somente fotografias descoloridas dentro de álbuns embolorados, constituindo-se lembranças cada vez mais fugazes. A nossa ausência será testemunha de um futuro que engoliu o passado e o fez muito vorazmente. Quando eventualmente se recordarem de nós, rendam graças a Deus, pois fomos um diminutíssimo ponto de partida de onde germinou e multiplicou uma linda história de amor. Com muito carinho... seus “eternos” pais. *** Helio Beglionimi
  38. 38. 45 SE NÃO FOSSE A MINHA FÉ! Após dois anos de matérias básicas, estava muito ansioso para o curso voltado à prática da medicina, profissão que me apaixonei desde a minha infância. Dentre elas sobressaía o estudo da semiologia, disciplina que ensina como abordar e examinar os pacientes; inquirir-lhes sobre seus sintomas e detectar sinais que, em conjunto, cooperam para a elaboração de hipóteses diagnósticas de suas doenças. As aulas teóricas e práticas eram ministradas no vetusto hospital-escola São Vicente de Paulo, na região central da cidade de Jundiaí. A ala velha continha enfermarias masculina e feminina que albergavam cada qual cerca de vinte pacientes, dispostos em leitos que ficavam lado a lado, em duas fileiras, uma em frente a outra. As camas antigas eram por vezes mais altas e pouco versáteis. As modificações de seu formato eram obtidas através de alavancas e manivelas que se moviam pela força braçal. Não era incomum observar sob cada leito a presença de comadre ou urinol respectivo a cada paciente. Havia também quartos distribuídos em seus corredores sinuosos que acomodavam duas camas. O pé direito era alto e o piso de madeira preenchido por longas tábuas contíguas de brilho opaco, que rangiam ao se caminhar sobre elas, ruído característico e facilmente perceptível, particularmente no silêncio da noite. As dependências velhas, mas bem conservadas, eram emolduradas com janelas e portas enormes, que acompanhavam a grande altura do teto. Foi nesse ambiente aparentemente tétrico para a época atual, mas repleto de humanismo e de amor que iniciei meu conhecimento prático da milenar arte de curar. Era sequioso por conhecimentos e sempre almejava saber mais do que era ministrado nas aulas regulares, quer teóricas quer práticas. Foram incontáveis as horas extracurriculares que me dediquei nesse hospital acompanhando professores e assistentes; bisbilhotando e auxiliando cirurgias; além de frequentar a rotina do pronto-socorro, apenas com a finalidade singela de aprender mais e mais. São inúmeros e inesquecíveis os momentos que guardo desse período mágico de quatro anos em minha formação acadêmica. Dentre eles recordo-me de um episódio que aconteceu no meu terceiro ano, exatamente durante o curso de semiologia. Corria o ano de 1975. A quantidade de matéria para estudar e absorver era imensa, porém mais prazerosa, pois se correlacionava à parte clínica, ou mais à prática da medicina propriamente dita. Era comum entre os assistentes, avisarem os alunos quando havia algum paciente que apresentava sinais específicos para aprendizado através dos quatro pontos cardeais da semiologia: inspeção, palpação, percussão e ausculta. Havia um verdadeiro cruzamento de informações orais entre os alunos para o devido aprendizado. Ademais, nem sempre nas aulas práticas todos os alunos dos subgrupos didaticamente formados tinham condições de examinar os pacientes apresentados. Daí, não ser incomum que os interessados procurassem fora das aulas, licença e oportunidade para avaliar individualmente os doentes. Foi numa dessas trocas de informações que fiquei sabendo haver uma senhora idosa, alojada num determinado quarto, que apresentava um sinal que deveria ser visto. Procurei-a sozinho, num período que não havia estudantes e que a agitada rotina hospitalar encontrava-se aquietada. Bati mansamente na porta de seu quarto e adentrei-me lentamente no recinto que estava ocupado por apenas um único leito, coisa rara num hospital-escola. Tratava-se de uma senhora sexagenária que aparentava ser bem mais idosa. Tinha cabelos encanecidos e fácies sulcada de rugas. Sua aparência era de uma mulher desgastada não somente pela idade, mas também pelas poucas condições financeiras e pela doença. Ela estava deitada – sozinha – olhando dispersivamente o teto e as paredes do quarto. Havia pouca luz no recinto, mas o ambiente era iluminado pelo seu olhar e serenidade. Chamei-a delicadamente pelo nome – como era nosso costume – e perguntei-lhe se poderia examiná-la. Ela assentiu meneando a cabeça e esboçando um leve sorriso. Durante o exame fui- lhe perguntando sobre sua vida e sua doença, ao que ela respondia-me prontamente com seu Helio Beglionimi
  39. 39. 46 linguajar modesto, mas repleto de vivência e sabedoria. Minha presença parecia que amainava um pouco sua triste solidão. Era portadora de uma extensa carcinomatose peritoneal que provocava nódulos endurecidos de diversos tamanhos no abdômen, quadro que jamais observaria ao largo de minhas atividades profissionais com a mesma exuberância de tristes detalhes. Devido ao seu emagrecimento, os nódulos eram mais fáceis de serem apalpados. Em nosso diálogo houve uma pergunta que lhe fiz, cuja resposta veio-me de forma indireta – A senhora não tem dor? Ela, um pouco mais descontraída pela minha presença, arfou levemente os pulmões; olhou-me de soslaio, mas de forma penetrante, e num discreto suspiro confidenciou- me: Ah! Meu filho, se não fosse a minha fé! Sua singela resposta desarmou-me e calou fundo em minha mente, pois constatei que sintetizava uma filosofia de vida, toda pautada na coerência dos que amam e buscam a verdade. Naquela singular tarde tive um dos mais eloquentes aprendizados. Estava à busca de sinais clínicos num corpo doente e frágil e encontrei evidências de uma fé inabalável. Foi procurar informações imediatas e encontrei a transcendência. Minhas mãos examinaram uma enferma com prognóstico sombrio, mas meu intelecto sentiu que a vida não pode ter um fim inexorável impingido pela morte. Fui à procura de um paciente condenado e nele encontrei a presença imarcescível de Deus! *** Helio Beglionimi
  40. 40. 47 CAMINHAR PELAS RUAS DE PARIS NO VERÃO Em Paris, alguns anos atrás, não me lembro com certeza da data, só sei que era uma época em que eu vivia a procura de ilusões e era verão; caminhava, imitando um “flâneur” (caminhar por diversão) na companhia de Marília pelo Boulevard Saint-Germain; suas ruas largas e cheias de luminosidade nesta época do ano transformam o caminhar em verdadeiro prazer. Normalmente o turista ao caminhar por Paris define com antecedência a rota a ser seguida; o “flâneur” não se submete a esta orientação, sua caminhada não depende de destino, às vezes, durante esta jornada, resolve parar em um café e fica observando o que ocorre na rua à sua frente. Sabíamos que a Rua L’Odeon deveria estar naquelas imediações, dobramos a esquerda e entramos à procura do local onde existiu, até o inicio da segunda guerra mundial, a livraria “Shakespeare and Company” de propriedade da norte-americana Sylvia Beach. Não tínhamos pressa; o compasso das nossas passadas era ditado pela nossa ociosidade, discutíamos os acontecimentos ocorridos naquela livraria nas décadas de 1930 e 1940, principalmente a presença constante de incontável número de escritores e pintores, tais como Hemingway, James Joyce, Gertrude Stein, Sherwood Anderson, Picasso, e muitos outros; ao passarmos em frente ao número 12, ecoou, vinda da eternidade da existência a voz de Hemingway: “Em um frio vento de rua, este era um lugar quente e alegre com um grande fogão no inverno. Mesas e prateleiras de livros, livros novos na janela, e fotografias na parede de famosos escritores mortos e vivos – Paris, Uma Festa móvel”. A temperatura estava começando a diminuir, pois o sol já se escondera por detrás dos prédios; continuamos nossa caminhada e entramos na rue St. Sulpice e, instintivamente, sentamos a uma mesa colocada na calçada de um “café”; sentimos que estávamos em porto seguro, pois o tempo não conta naquelas paragens, desde que o freguês consuma alguma coisa, às vezes um simples café será o suficiente para se ocupar uma mesa por quantas horas se deseje. Pedimos uma garrafa de champanha! Ficamos durante algum tempo em silêncio observando as pessoas que subiam e desciam a rua, do outro lado da calçada, encostados em uma mureta, um casal de namorados trocavam carícias, davam risadas e, de vez em quando se beijavam, indiferentes ao mundo que continuava, para eles, multicolorido; um pouco mais distante, uma pequena praça toda arborizada , onde coseguimos ver várias senhoras idosas que caminhavam a passos lentos em sua direção, o sino da igreja de St. Sulpice começou a badalar chamando-as para as preces das 18 horas. Um homem magro, alto, portando um chapéu de aba estreita, porém, com a copa muito alta, bigode espesso que tentava entrar nas suas narinas, trajando um terno surrado, porém, bem alinhado, sentou-se a uma mesa bem do nosso lado; tenho “quase que certeza” de que foi ele a figura pintada por Paul Cézanne (Os jogadores de Cartas, 1839-1906) que vi ontem no Louvre; ao Helio Moreira Goiânia - GO
  41. 41. 48 retirar o chapéu expôs a calvície que tomava conta de todo o topo da sua cabeça; ao acender o cachimbo, inexplicavelmente de cor branca, não tive mais dúvida, era ele, realmente, o modelo pintado por aquele artista. Colocou sobre a mesa sua pasta “démodé” (fora de moda) modelo James Bond, pediu um café, abriu a dita cuja, retirou um livro e começou a lê-lo; o seu título, que consegui ver de onde estávamos “The Greater Journey – David McCullough” traiu-o, se ainda me restava alguma dúvida quanto àquela minha suspeita, esta se dissipou; provavelmente ele procurava naquela leitura, o seu criador, Cézanne, pois o livro conta algumas curiosidades de Paris e de seus moradores nos anos de 1830-1900. Um vento frio, porém suave, varria com delicadeza, como se fosse a vassoura conduzida pelas mãos suaves e bondosas da minha mãe limpando o terreiro de frente a nossa casa em Gaspar Lopes, as folhas da calçada. Ficamos ali por algum tempo, quanto tempo? Não sei! Porém este detalhe não tem importância dentro da circunstância do momento vivido; quando resolvemos ir embora, o personagem de Cézanne continuava “bebendo” a mesma xícara de café, completamente absorto na leitura do seu livro. Será que ele nos viu? A vida, repetindo Hemingway (Paris é uma Festa) “me tinha parecido tão simples naquela tarde! Mas Paris era uma cidade muito antiga, éramos jovens e nada ali era simples”. Só aquele momento foi simples e não mais se repetirá, pois o minuto que passou não volta mais! *** Hélio Moreira
  42. 42. 49 VER NÃO É O MESMO QUE ENXERGAR João Severino, apesar de pouco erado na idade, era bem informado: caboclinha igual à Rita da Donana não havia nas redondezas, dizia ele. Acho que ela sabia disso, era só o sol começar a se esconder, surgia a Rita toda enfeitada, andar delicado e até com certo gingado na cintura, semelhante a uma garça vista de longe. O vestido era de chita, cor rosa, com alguns enfeites na barra da saia, o ombro era encoberto pelo modelo fofo das mangas; sapatos rasos, parecendo que os pés, que não eram mostrados, tocavam o chão; usava, costumeiramente, meias cor de rosa que se aproximavam dos joelhos. Não era somente o João Severino que, ao vê-la, suspirava fundo e se punha a imaginar aquela criatura, aquele corpo, sem as vestimentas; toda a rapaziada do lugar tinha o mesmo pensar. João Severino, no entanto, era diferente do restante da turma, ele sabia, certinho, a hora que ela aparecia na rua, justamente quando os sinos davam as primeiras badaladas para iniciar a contagem de seis, ele já estava sentado no costumeiro banco da pracinha; lugar privilegiado, pois, como ele percebera, ela dobrava a esquina e já entrava na rua principal e passava a poucos metros de distância. Seus olhos a acompanhavam até o final da rua, até que ela entrasse na igreja. Depois de algum tempo ela voltava, na mesma toada como foi; não é fácil saber se era mais admirada na ida ou na volta; vista quando ia, parecia à silhueta de um violão a procura de violeiro, quando vinha, bambeava o quadril de tal maneira que dava parecença que ia deslocar do corpo; dava lembrança, na gostosura, de rapadura com queijo; os braços eram sacudidos no mesmo compasso que ela fazia com a cabeça: sereno, porém, transmissor de pensamentos que nem é bom lembrar! João Severino nunca contou isto para ninguém, porém, é quase certo que ele pensou, muitas vezes, na possibilidade de ver aquele corpo do jeito que Deus colocou no mundo, ou melhor, ele daria uma ajuda ao Criador; tiraria primeiro, seus sapatinhos, e depois suas meias e ia subindo no mesmo galeio (no pensamento) até o pescoço. Que ele se lembre, somente uma vez ele teve certeza que ela jogou seus olhos tiranos para cima dele, porém, de um jeito de quem não “tava pondo atenção”; não faz mal, pensava ele, vou persegui-la com os óios, sem parada, um dia ela vai descobrir que João Severino está ansiado, enrabichado que não tem mais conta, prá móde dela. Mais ou menos na metade do caminho que ela percorria, moravam Da. Zina e Sr. Tiburcio, os dois já bem maduros na idade; como tinham pouca ou coisa alguma para fazerem, passavam a maior parte do tempo debruçados na janela, olhando o movimento, se é que se pode chamar de movimento o que viam na rua e, principalmente, matraqueando a vida dos outros. Como estavam ali todos os dias, não poderia passar despercebido o passeio vespertino da Rita da Donana; era só ela apontar lá em baixo, Da. Zina já se manifestava: — Já vem aquela sirigaita regateira e reboladeira, toda embonecada, acho que ela não tem o que fazer; parece-me que ela coloca algum enchimento prá aumentar o peito; a saia quase deixa de fora o joelho, só prá provocar os bestas dos homes. Senhor Tiburcio, escolado pela vida a dois, não se manifestava, apenas consentia com a cabeça; quando falava, não dizia nem tique nem taque, porém, era o primeiro a cumprimentar a sirigaita quando ela passava debaixo da janela, como a lembrar de seu tempo de treme-treme. Quando ela voltava, Da. Zina recomeçava a colocar defeitos na Rita da Donana, agora “por trás” da pobre coitada: — Seio não, mas acho que ela coloca, também, um enchimento no traseiro, pois, não acredito que alguém tenha a poupança deste tamanho e ainda por cima tão bem aprumada; Hélio Moreira
  43. 43. 50 deve arrochar a cintura até perder o fôlego, porque não é possível alguém ter o pé da barriga com tanta estreitura. Prá dizer a verdade, num acredito que o empreito diário dela é rezar! Senhor Tibúrcio, por força das circunstâncias, não falava nada por saber das arengas da Dona Zina, porém, utilizava o poder da mente para conversar consigo mesmo: — Estou meio desguaritado, num sei o que é melhor pros óios: as suas duas mangas rosa, coladas por debaixo da blusa, quando ela vem ou a sua poupança quando ela vai. Não vou desdenhar, mesmo porque, não está na minha condição, mas, se acaso tivesse alguma sobra, acho que daria um adjutório para aumentar o rendimento da sua caderneta; tem outro porém, eu tinha vontade de enxergar e apalpar aquelas mangas, prá ver se já estão maduras. Não vou cair no exagero de querer morder, porque meus fiapos de dentes não tem consistência nem para banana ainda mais para manga rosa, tão grandota e desajeitada prá segurar. *** Hélio Moreira
  44. 44. 51 BALADA NO CÉU No crepúsculo sonolento o sol recolheu suas madeixas douradas para, gentilmente, dar lugar à lua que já apontava sorridente. Vaidosa, por ser muito admirada, sentiu-se no direito de usar o luar e pratear o que o sol, antes, havia dourado. Amante da noite, convocou as estrelas para abrilhantar sua trajetória entre as nuvens. Musa, inspiradora dos poetas, apartava com frequência o empurra-empurra das estrelas que ficavam ao seu redor. Já não sabia mais o que fazer para colocar harmonia no espaço celestial. Ficou a pensar numa alternativa, quando ouviu bem distante um galo cantar: cocorocó... Assustada pelo adiantado do tempo e com o pouco que lhe restava para imperar, pensou: “Vou me retirar sozinha, saindo à francesa, estou farta dessa balada! E o sol, também, já está ajeitando suas madeixas douradas para entrar. Tenha um bom dia, sol, vou para o outro lado!” *** BRASIL Terra Cosmopolita Gigante na extensão, Tem sua história escrita Sempre em forma de canção. O índio ao som dos tambores, O negro com seus gemidos, Foram as notas de dores, Nos compassos tão sentidos! Vem para cá o imigrante, Tem seu filho brasileiro, Chora sua terra distante Mas, canta o samba fagueiro! No esplendor das suas florestas Os pássaros se unem cantando A sinfonia das festas, E o coro chegam em bando! As folhagens batem palmas Quando o vento leve aparece E a beleza doce das almas, Agradece a Deus numa Prece! *** Jacyra da Costa Funfas São Paulo - SP
  45. 45. 52 INVENTÁRIO SERTANEJO Tenho um coro de gestos Que rasgam os ares da caartinga O aboio que viceja os restos Do mandacaru que ainda vinga Tenho um chão sagrado E muitas pedras ocres do rio Cinco gerações do reinado Que ainda vivem do estio Tenho a beleza da gente De caminhada sofrida Com um punhado de semente Um canto de luz, um fio de vida Por isso nunca estou só Conservo plantas do carrascal Um casaca-de-couro e um curió Que cantam no meu quintal *** José Arlindo Gomes de Sá Recife - PE
  46. 46. 53 AMARGO REGRESSO Quem me devolve a goiabeira do meu pião Meu banho no poço do rio, minha candeia Meu pífano de ouro, meu jogo de botão Meu galo de campina, minha bola de meia? Hoje em dia, que é do sol da minha Inhotim? Cansado das mágoas de rotas desatinadas, Que é da luz da vida da caatinga carmesim, Que é da canoa do rio que navega calçadas? Amigo, deixa-me contar-te queixas represadas, O canto turvo, quase esquivo, de sangue e dor. Não queiras saber da face magra, alma-danada, Não perguntes pelo fel e o fado de negro estertor. Atravessei a serra verde para rever a branca flor Puxando soluços que o mundo abrasado vai se acabar, O vento norte levando a estrada de amado cultor, Sonhos devastados pelo enigma de cor e de luar. Ainda ontem inquiri seixos miudos do meu andar Como a gente do rio me ensinou o canto melhor, Por entre gestos vestidos de lendas do verdear Limpando a vida do chão de sangue e suor. Quem me devolve a terra de favos castiços, Aquela vida ao léu , sem hora, nunca esquecida, Uma concha de néctar do rio, os rebuliços, O que falha a memória, o estar, a despedida? Antes que a terra dos mares me desfolha a vida Deixo que cante o céu da estrela e da água sonora. A quem me queixarei, ó céus, dessa alma-perdida, Se o rio seco da cantoria leva meu silencio agora? Além das serestas e assustados das musas da aurora Deixo que escorra das mãos o pó da ventania. A quem me queixarei, ó musas, da minha flora, Que povoa o crepúsculo, encanto do fim do dia? Quem me devolve neste regresso o meu pião, Minha carrapateira colorida, minha candeia, Meu violão afinado, meu jogo de botão, Meu canário da terra, minha bola de meia? *** José Arlindo Gomes de Sá
  47. 47. 54 PERLA FINA Brama. As carnes fremem. O esqueleto clama. Gládio de amor urde véus de volúpia. Rubra trama. Quero perpetrar-me neste desmame, doce ama, nesta empiria que de tudo, a verve ruge e flama. Meu soluço ardente a moira crica arranha. Bruma um langor sob a fímbria de Vênus... Acenos. Encordoam um naco flexível, Retonho, úmido, e nervoso. Chinchado, volve ao luau dos sonhos, amainado. Perla fina, eu te amo. É chama que chama, Não sei onde começo, onde terminas... Se escuto ou se falo, Falo... entre o regalo de teus seios, entre abraços que prendem o vento no entre-pelos, e aulidos que afloram a nudeza do silêncio. A noite desmaia a raiva dos músculos, o enigma da paixão aflora, mas abranda, e se ainda te amo? E se tanto? Encanto..., no sangue da madrugada, deitei o olhar, lançei desejos e fiz juras que muito aprecio... teu encaixe e tua redoma Fremente. Os primeiros raios da manhã sempre escondem os vampiros! Não, não sou, mas fui... *** José Carlos Serufo Belo Horizonte - MG
  48. 48. 55 POR QUÊ... Esta não é uma manifestação político-eleitoreira ou um texto fóbico, é um Voto... Porque a distribuição de dinheiro via bolsas, não é de renda, nem sequer é garantia de comida e não traz dignidade, mas aprofunda o “jeca-tatu” do pouco favorecido. Voto. Porque enquanto o povo recebe 300 para se calar, os “Régios Saltimbancos” embolsam milhões. O enriquecer da canalha... Porque quando alguém recebe sem trabalhar, alguém está trabalhando e sendo expropriado para esse custeio. Outra coisa é a melhor distribuição da renda do trabalho, entre os trabalhadores. Dissimulação. Porque, a cada dia, o trabalhador produtivo sente a mão dos impostos com mais dedos em seus bolsos e os políticos decidindo quanto devem ganhar/ dividir o extorquido do tido poviléu adormecido. O quarto, ex-quinto, já caminhando para terço... Porque a infra-estrutura do país contracena com sua riqueza e impostos extremamente elevados, entre os primeiros do mundo, enquanto portos, aeroportos, transporte, saúde, educação e indústria nativa reluzem no nadir da humanidade, com pedido de vaga na UTI do caos. O caos é o paraíso do esperto. Obra-dinheiro-corrupção. Porque políticos e partidos, amorais e acima dos princípios, se abraçam ou se ombreiam, face ao toma-lá-dá-cá com o nosso patrimônio. Aos amigos tudo, aos demais a lei e o fogo. Anuviar a corrupção. Garantismo! Porque a mídia paga mostra apenas o vídeo mais bem pago, alimentando a ignorância e acobertando os parasitas do Estado. A informação/desinformação como instrumento de Poder e gerador de Voto. Porque os direitos humanos não são pela gente de bem! Porque tudo é usado descaradamente como pretexto para afarfalhar, enquanto enchem as burras, amordaçam/cooptam a concorrência e perpetuam as tetas. Conluiando/violando os Três Poderes. Enfraquecer as atalaias indormidas da democracia. Assim, importam médicos para resolver as graves deficiências da saúde, como se este fosse seu principal componente, ofuscando a intenção de montar células da petralha entre os menos favorecidos/vulneráveis. Voto certo, encabrestado. Assim, criam cotas para entrada no ensino superior, esquivando-se ao problema da qualificação de professores e do ensino fundamental e médio. Voto. Assim, instigam as minorias criando a distensão do nosso povo e aparelham/desmontam as instituições. Dividir para governar. Poder e Voto Porque há muitos porquês... Então, Voto pela inspiração, voto pelo despertar do nosso povo, e que cada vez mais brasileiros captem o espírito das ruas, com febre e indignação, mas também com lucidez e harmonia, tanto quanto com revolução. Então, de fato, Voto e ouço “do Ipiranga as margens plácidas...” *** José Carlos Serufo
  49. 49. 56 TROPICALISMO - CONCRETISMO O filme “Tempos Modernos” chapliniano arte e roteiro do operário estressado revela o ambiente do viver cotidiano humor satírico do século passado. Entre simbólicos sonoros devaneios orquestrados ritos em paradoxais tons festivos cortejos em musicais anseios afinam inéditas radicais emoções. Em infinitas expressões estéticas românticas artes pop a desabrochar visões éticas em variações poéticas quem sabe faz a hora transformar. Sintáxicos mitos a dardejar belezas com régua e compasso e aquele abraço ricos trocadilhos sobrepondo proezas desfilam sociais semióticos traços. É a Tropicália caminhando contra o vento porque não, porque não, é José é João no sol de dezembro sem lenço sem documento, é pau é pedra, é o resto do toco fechando o verão. Estilos e símbolos em cognitivas imagens valorizam figuras como forma de expressão, vanguardas culturais em virtuais linguagens incorporam o Concretismo em temática abstração. José Jucovsky São Paulo - SP ***
  50. 50. 57 CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE JORGE AMADO NÓ GÓRDIO BRASILEIRO Ao relembrar o panorama da minha juventude na cidade de Salvador na primeira metade do século passado, fico cada vez mais confortavelmente gratificado diante da moderada e simples vida marcada pelas retóricas políticas e poéticas daquela época. Hoje, olhando pela janela do passado sinto-me inquieto como um espectador ansioso por poder relembrar a romântica lírica natureza invadida de sonhos ultrapassados além dos limites do cotidiano viver. Em explicito transcender muito além do significado do verbo, podíamos sempre alcançar agradáveis amenas noites estreladas que nunca serão pelo tempo apagadas. Ver com novos olhos, descobrir a vida aberta com novas ideias entre simbólicas pontes imperativas de vanguardas tentávamos romper os grilhões do conformismo. Ao mesmo tempo a tropical Salvador entre louvações, devoções e ladainhas tocando música e recitando poesia ia se destacando como um grande centro urbano cultural do nordeste. Entre convulsões e guerras tento colocar no papel alguns momentos da vida de personagens revolucionárias que, por fortuitos acasos tive a felicidade de conhecer sem intimidade, de longe, em reuniões acadêmicas e sociais. A grande mobilidade sociocultural com a marca vinculada à rebeldia estudantil, inteligente e talentosa constituiu um fértil caminho para planejar significativa mudança em busca de uma nota só: a liberdade. Apesar de não ter a menor noção do mundo kafkiano, vivia transtornado com o desespero diário de meus pais que deixaram de receber notícias da imensa família durante a segunda guerra mundial. Passei a sentir premente necessidade de buscar entender tudo e de possuir ou inventar outro mundo em que todos pudessem viver em paz sem ser vítimas de qualquer tipo de agressão. Só depois do término da guerra que infelizmente aos poucos ficamos sabendo da morte de todos com exceção de uma irmã de minha mãe que, sendo cega foi retirada para a Sibéria num comboio com inúmeros outros deficientes. No início do ano letivo de 1941 na primeira aula de Física do Ginásio da Bahia o professor Clemente Guimarães procurando angariar a atenção dos alunos contou um fato ocorrido citando o nome do estudante poeta Carlos Marighella que respondeu à pergunta sobre as leis da reflexão da luz, em versos. Os alunos do Ginásio conheciam a história política de Marighella que tinha sido preso em 1932 por ter escrito um poema criticando o interventor Juracy Magalhães e que terminou por abandonar o curso de Engenharia Civil da escola Politécnica da Bahia no terceiro ano, para ingressar no PCB. Ficaram na memória acadêmica ecos proféticos declamados em versos de ousar lutar e ousar vencer, escritos sob o impacto de cotidianos existenciais conflitos simbolicamente mágicos como em: “O Amor é meu companheiro de viagem, junto com a Indignação.” Marighella escreveu muito ao longo de sua vida. Aos 21 anos divertia os professores e colegas durante as aulas na Politécnica fazendo as provas em versos. Essa beleza poética claramente transformou-se em intensa luta pela democracia, registrada em dramáticos versos de uma estrofe: “O país de uma nota só” A passagem subiu, o leite acabou, a criança morreu, o deputado cedeu, a linha dura vetou.
  51. 51. 58 “Liberdade” Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma, que não exista força humana alguma que esta paixão embriagadora dome. E que eu por ti, se torturado for, possa feliz, indiferente à dor, morrer sorrindo a murmurar seu nome. Entre o período de 1942 e 1945 eu frequentava as sabatinas do grêmio recreativo da Sociedade Israelita da Bahia, ambiente juvenil com música e danças. Nas reuniões literárias por duas vezes tive a oportunidade de ver e ouvir o jovem escritor Jorge Amado. Apesar da minha tímida presença no salão de conferências hoje me parece ter sido de excepcional importância por vir a ler grande parte de seus livros. Na poeira do passado ligando os fios da memória creio que posso citar outros nomes com vozes tão altas quanto Jorge Amado. Com a aproximação entre Brasil e Estados Unidos, política que foi chamada na época da boa vizinhança resultou nas instalações de bases militares americanas no norte e nordeste do Brasil. A partir do ano de 1942 submarinos alemães começaram a afundar navios de passageiros na costa brasileira, levando o Brasil a declarar guerra aos países do eixo. Os estúpidos ataques aos navios de passageiros desarmados provocaram manifestações da população indignada e revoltada pelo enorme número de vidas inocentes perdidas. Foi em seguida formada a Força Expedicionária Brasileira disparando impressionante movimento estudantil e na mídia em geral. Residindo atualmente em S.P., Jacob Gorender marxista declarado, meu vizinho e amigo foi incorporado na campanha expedicionária na Itália como voluntário. No pós-guerra veemente crítico stalinista sempre focado na trajetória política do Brasil em idealística visão, abandonou a militância PCB. para participar da fundação do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Torturado durante o regime militar após 1964, é atualmente considerado o mais importante historiador “marxista brasileiro”, com imensa e importante produção literária. A pacata provinciana Salvador durante anos serviu de refúgio para militantes do partido comunista envoltos em labirínticas políticas que passaram a viver refugiados nos seguros e invioláveis abrigos nos terreiros de candomblé da cidade. Tentando compreender os desafios da mente, busco homenagear o centenário de nascimento de Jorge Amado falando através minhas nostálgicas lembranças de alguns dos pensamentos reveladores através sua genealogia sertaneja. Complexos conjuntos em variadas linguagens inventivas, interligadas e amarradas em intrigantes “causos”. Essa instigante literatura protagonizada pelos sertanejos e grapiúnas lidas e relidas marcaram de forma perene e indelével a vida real do século XX onde d’um copo de água se fazia um oceano. Na realidade o que seriamos sem a fascinante mistura da memória e da humana história? Quando Jorge Amado tinha apenas dez meses, seu pai sobreviveu a uma tocaia na região de Ferradas. Episódio acidentado e multifacetado no imaginário do “Menino Grapiúna” e que sem dúvida inspirou o livro “Tocaia Grande”. Esse romance escrito de déu em déu revela não só a face obscura dos personagens, como também o paraíso na terra virgem ainda intocada semeando folclórica política contra a ditadura militar. A origem não romanceada dos Amados (Amadeus) coloca o primeiro deles Bernabé Amado no começo do século XIX, proprietário e criador de gado estabelecido na cidade Estância do Estado de Sergipe. Um dos seus bisnetos, João Amado de Faria (1880- 1962), pioneiro no cultivo do cacau no sul da Bahia, aproveitou a nova fronteira de expansão geográfica fixando-se em Ferradas junto com outros sergipanos na região de Itabuna no Estado da Bahia. Fundou a fazenda Auricídia onde se casou com Eulália Leal (1884-1972), neta de uma índia preada(capturada a laço por homem branco) tendo quatro filhos deste casamento: Jorge, Jofre falecido aos três anos de idade, o médico Joelson e James também escritor e pai da historiadora Janaína
  52. 52. 59 Amado. Nestas informações genéticas pode-se concluir a existência de uma linhagem de escritores todos empenhados na tentativa entusiasmada para que sejam reconhecidos através seus escritos. Na verdadeira história acadêmica marcante da literatura no percurso visual dos Amados fica possível verificar outros escritores com laços afetivos de ancestralidade onde se inclui com destaque os irmãos Genolino e Gilberto, primos de Jorge, ambos eleitos para a Acadêmia Brasileira de Letras. E ai o fio do destino cria um inédito prelúdio brasileiro, atávica formação cultural de escritas com envolventes vidas em detalhadas linguagens criativas. Moldando minhas memórias durante o período estudantil, posso afirmar que esse foi marcado na quase totalidade pelo “Estado Novo” getulista de 1937 a 1945. Caracterizado por centralizador e autoritário foi criado o Deparamento de Imprensa e Propaganda o famoso “DIP”. Os prefeitos da época eram nomeados pelos interventores e estes, por sua vez, pelo presidente. Na inclinação esquerdista um novo mundo vivo de enfeitiçada identidade nacionalista imperava entre os jovens e intelectuais, correndo solto na cidade os mais indóceis epigramas com seus corrosivos chistes, envolvendo não só os políticos como também personagens e comerciantes corruptos. O interventor Landulfo Alves (1938-1942) determinou que a carne do boi tivesse reajuste de 2.200 reis. Epigrama em forma de folhetim distribuído durante a noite apesar de perigosamente comprometedor o epigrafista escreveu agressivos versos, clara alusão critica ao interventor ditos picantes sem assinatura, que eram sempre reconhecidos pelos intelectuais. Depois de tantas tormentas, Dia e noite, noite e dia, Carne de dois e duzentos Landulfo deu à Bahia. Do Renato Onofre Pinto Aleixo interventor no regime de exceção de 1942 a 1945, completamente desconhecido na cidade ao ser indicado, surgiram versos que fizeram logo grande sucesso: Renato é nome de gente, Onofre nome de santo é Pinto é nome de bicho. E Aleixo, que diabo é? O período da história republicana denominado Estado Novo durou de 1937 a 1945, quando Getúlio foi deposto pelas forças armadas. O salto de identidade no mundo da juventude baiana fez vários caminhos no final da segunda guerra mundial. Todos os fins de ano instalava-se num terreno baldio do Campo da Pólvora um parque de diversões, incluindo um amplo palco de teatro de revista onde imperava a principal atração, o apresentador Zé Coió. Era neste alegre ambiente conhecido como “Festa da Mocidade” ramagem abundante de íntima igualdade onde vagavam ideias e ideais políticos de inclinações esquerdistas claramente antifascista, visível na grande maioria dos estudantes, e entre eles dois personagens que viriam a se destacar na política nacional: Milton Santos e Mário Alves. A trajetória política do Brasil depois da ditadura Vargas, encaminhou-se com certa tranquilidade pelos governos Dutra, Juscelino, Jânio e Jango. Otávio Mangabeira foi o primeiro governador eleito na Bahia após os anos da Era Vargas, tomando posse em abril de 1947, exercendo com plenitude o governo até janeiro de 1951. Durante o seu governo em 1949 comemorou-se o quarto centenário da capital baiana com a inauguração do imponente Fórum Ruy Barbosa. Buscou resgatar as maiores inteligências da Bahia destacando-se o educador Anísio Spinola Teixeira na Secretaria de Educa,cão e Saúde. Época de expressivos movimentos sociais influindo no desenvolvimento brasileiro construía invisível e assustador pesadelo para cair novamente em 1964 num ciclo de violência e autoritarismo, em plena guerra fria mundial. Literalmente o Brasil iria passar a mais longa
  53. 53. 60 ditadura da sua história desaguando, entre altos e baixos, numa inventiva situação intermediaria com a eleição indireta do civil Tancredo Neves pelo Congresso Nacional em 1984. A diversidade política religiosa no mundo procura também responder às preocupantes perguntas vinculadas ao futuro da vida humana na Terra. Apesar da linguagem criativa em amplas históricas ambições, a instabilidade universal impõe não deixar para traz sonhos e símbolos na versão de tentar humanizar o mundo, protegendo com clareza a natureza não permitindo que as enormes queimadas continuem devastando a mata na Amazônia brasileira. O desaparecimento de Mário Alves entre outros companheiros e o assassinato de Anísio Espínola Teixeira jogado no poço do elevador do prédio após fazer uma visita ao amigo Aurélio Buarque de Holanda representou a conduta habitual do governo autoritário após 1964. Em 04 de novembro de 1969 Carlos Marighella foi assassinado em plena madrugada, com todo aparato bélico conhecido pelos agentes do DOPS próximo ao apartamento onde eu morava na época na cidade de S. P. Milton Santos sempre presente e criativo atuou intensamente com energia na política estudantil; em 1948 formou-se pela Faculdade de Direito da Bahia. Auto exilado, com o apoio de amigos, levou 13 anos para retornar do exterior, passando a ser considerado um dos maiores pensadores brasileiros na atualidade. Anísio Teixeira propõe e realiza um modelo de educação revolucionário original durante o período em que foi secretário de educação e Saúde na Bahia de 1947 a 1951. Modelo de educação brasileira baseado em ideias que ele reproduz no livro “Em marcha para a democracia”. Inquieto escreve projeta e realiza a inauguração da primeira escola de Educação de Tempo Integral para todas as crianças carentes no bairro da Liberdade em Salvador. Este projeto do Instituto de Educação de Tempo Integral Carneiro Ribeiro, sem dúvida uma das primeiras maiores revoluções vitoriosas da educação no Brasil, vem sendo copiado com sucesso até hoje. Com todo este labiríntico domínio da evolução técnica científica entramos num caminho ambíguo e desafiador da era nuclear. Atualmente em franco ritmo já na segunda década do século XXI vivenciamos um traçado de previsão singular, desenvolvendo além da imaginação íntima relação entre seres humanos e máquinas. Segundo Ray Kurzweil rapidamente as máquinas atingiram a mesma habilidade do cérebro humano adquirindo personalidade e sentimentos passando o seculo XXI a ser denominado de : A ERA DAS MÁQUINAS ESPIRITUAIS. Será possível que este tipo de transferência da mente humana para um suporte matemático optará sempre pelas melhores soluções? Estaríamos mesmo contando para os futuros recém-nascidos que estamos deixando para o futuro uma vida melhor? Historicamente Alexandre, o Grande resolveu desfazer o Nó Górdio cortando-o com a sua afiadíssima espada. Por sua vez Jorge Amado, Carlos Marighella, Jacob Gorender, Anísio Espínola Teixeira, Milton Santos e Mario Alves, entre outros, buscaram desenrolar o Nó Górdio brasileiro utilizando revolucionárias, marcantes, renovadoras linguagens criativas tentando, sob pressão, fazer sobreviver as conquistas democráticas através da intelectualidade política brasileira. S. P. janeiro de 2013. Jacob Gorender faleceu em S.P. em 11/junho/2013 aos 90 anos de idade. Entre seus trabalhos se destacam: Combate nas trevas, O Escravismo Colonial e A burguesia brasileira. ***

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