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A Voz dos Ridículos

capítulo do livro El Humor en la Historia de la Comunicación, pp. 469-482

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A Voz dos Ridículos

  1. 1. capÍtulo 13 o humor dE a voz dos ridícuLos (1945-2013) roGério santos Universidade Católica Portuguesa rogerio.santos@fch.lisboa.ucp.pt rEsumo: O humor na rádio seguiu algumas características retiradas de jornais e revistas. Histórias curtas, sobre a atualidade e com personagens quase universais nasceram em Portugal a seguir à Segunda Guerra Mundial. O que se perdia em imagem ganhava-se em som, levando o ouvinte a imaginar pessoas e ambientes. O programa humorístico A Voz dos Ridículos foi emitido aos domingos entre as 12:00 e as 13:00 a partir de abril de 1947 numa estação de rádio no Porto (Portu gal). A equipa de A Voz dos Ridículos reunia às quintas-feiras ao fim da tarde para ensaiar e gravar os textos de três humoristas: João Manuel, B. Veludo e Castro Maia. Além do humor, o grupo tinha uma pequena orquestra privativa e cantava. Durante muitos anos, o grupo foi constituído apenas por homens, entre os quais um grande imitador (Mena Matos). Em cada programa havia um concurso de poesia (quadras), com prémios semanais. Nessa altura, o país vivia em ditadura (1926-1974) e o humor tinha de atender às condições políticas. Por algumas vezes, o diretor do programa foi à polícia política justificar temas irradiados. palavras-chave: Rádio, Humour, Portugal, Voz dos Ridículos. 469
  2. 2. Rogério SantoS abstract: The humour on the radio followed some features taken from newspapers and magazines. Short stories about the present days and almost universal characters were born in Portugal after the Second World War. What was lost in image it was earned in sound, leading the listener to imagine people and environment. The comedy program A Voz dos Ridículos (The Voice of the Ridiculous) was issued on Sundays between 12:00 and 13:00 from April 1947 at a radio station in Oporto (Portugal). The team’s Voice Ridiculous meeting on Thursdays in the evenings to rehearse and record the texts of three comedians: João Manuel, B. Veludo and Castro Maia. Besides the humor, the group had a small private orchestra and they sang. For many years, the group was limited to men, including a great imitator (Mena Matos). In each program, it had a poetry contest, with weekly prizes. At that time, the country was a dictatorship (1926-1974) and the humour had to attend the political conditions. Sometimes, the program director went to the political police to justify irradiated subjects. Keywords: Radio, Humour, Portugal, The Voice of the Ridiculous. sumario 1. o amadurecimento na ideal rádio 2. profissões dos membros do programa e estrutura do programa 3. Entre a solidariedade e o engenho de fugir à censura 4. conclusões A Voz dos Ridículos, programa de humor radiofónico, começou a ser transmitido na estação Portuense Rádio Clube a 17 de abril de 1945 e acabou na Rádio Festival a 25 de julho de 2013. Foram sessenta e oito anos de emissão, a que aparece ligado o nome de João ManuelAntão, um dos fundadores que acompanhou o programa até ao fim. Juntamente com programas infantis, variedades e desporto, o humor foi um tipo de programa que despertou, desde cedo, muito carinho junto do auditório da rádio. Nessa altura, o humor tinha de atender às condições políticas: o país vivia em ditadura (1926-1974). Por algumas vezes, o diretor do programa foi à polícia polí tica justificar temas irradiados, como se verá à frente. Havia ainda uma relação com um censor do governo nomeado pelo governo junto da estação emissora, que ouvia os programas e zelava pelo cumprimento de diretivas da ditadura. As metodologias empregues são análise documental e entrevistas em profundidade a elementos do programa. Como resultado previsto pretendo compreender o papel do humor na programação de uma rádio que servia uma cidade e a sua relação com a cultura e a sociedade local. 470
  3. 3. Capítulo 13. O humor de A Voz dos Ridículos (1945-2013) Programa de maior duração na história da rádio portuguesa, A Voz dos Ridículos foi o resultado da confluência de diversos fatores. Um deles foi a longevidade do seu criador principal, João Manuel Antão, mais conhecido simplesmente como João Manuel. Outro dos fatores essenciais para o longo êxito foi a sua popularidade junto de camadas sociais médias e baixas da sociedade do Porto. Um terceiro elemento a realçar do programa foi o de ser feito por amadores, com ocupação de tempos livres dedicada à rádio e que ilustra um modo particular de estar nos media. Como quarto, o programa reuniu à sua volta duas gerações, pais e filhos, permitindo a entrada de mulheres na segunda geração. Os pioneiros foram todos do sexo masculino. Pos sivelmente, as condições de protocolo social inibiram o ingresso de mulheres na geração inicial, o que levou a uma escolha de papéis femininos atribuidos a alguns elementos. Além de Portuense Rádio Clube, o programa esteve sucessivamente em Ideal Rádio, onde se manteve durante décadas, Rádio Placard, Rádio Comercial, Rádio Clube de Matosinhos e Rádio Festival, sempre na cidade portuense e refle tindo questões e problemas da região. Como quinto e último elemento, o programa foi sempre feito por um produtor independente, comprando o tempo de antena e vivendo da publicidade explorada diretamente1. Com o decorrer dos anos, a programação ficava mais variada, caso do popular programa de humor A Voz dos Ridículos e uma expressão aí utilizada. Transmitido aos domingos às 13:00 na Ideal Rádio, dos Emissores do Norte Reunidos, a partir também de 1953, o programa criou uma espécie de folhetim humorístico, onde um dos maiores imitadores da época, Mena Matos, criou a expressão pincha, Mala quias, pincha2. Podemos atribuir à expressão o presente valor de «desenrasca-te», tão popularizada nas décadas de 1950 e 1960 e usada a propósito e a despropósito (equivalente ao mais recente «não havia nexexidade», de Herman José, na perso nagem do provedor Diácono Remédios). Assim como o trabalha dedo, não tenhas medo, a expressão «refrão» de um dos intervenientes quando «usava» o telefone para fazer queixas de teor social, para a Câmara, a caixa de previdência, um hospi tal ou qualquer serviço público que estivesse ao alcance da crítica popular. Algumas expressões que se tornaram populares foram «afinfa-lhe», «olha o boneco», «esca cha pessegueiro» e «rebimba o malho»3. Mena Matos era uma das figuras maiores (o linotipista) e como autores sobres saíam João Manuel, o diretor do programa, Bê Veludo e Antero Nunes (posterior mente aproveitados pelos Parodiantes de Lisboa), António Santos (o Bigodes de 1 Jornal da Rádio, julho-agosto 1998. 2 Com base em email de Rui de Melo (locutor, realizador de rádio e docente universitário), por solicitação minha sobre a expressão pincha, Malaquias, pincha (3 de julho de 2012). Na linguagem popular do Porto, pinchar significa saltar. 3 O Comércio do Porto, 1 de novembro de 1998. 471
  4. 4. Rogério SantoS Arame) e Alberto Caldeira (o homem dos discos). Também havia cantigas, ao jeito de revista, com o maestro José Quelhas ao piano, a orquestra Vou Ali e Já Venho e o locutor Ferreira da Cunha (o repórter) a cantar com letras trabalhadas sobre músicas populares mas de temas de incindência crítica diversificada. Todos funcio navam como um grupo de amigos e a receita publicitária era distribuída ao estilo «cooperativa». O programa A Voz dos Ridículos, criado no Portuense Rádio Clube, manteve-se na Ideal Rádio, passou incólume à compra dos Emissores do Norte Reunidos pela Emissora Nacional e à nacionalização de dezembro de 1975. Só saíu daquela antena, a emitir da rua Alferes Malheiro, no Porto, porque a estação fechou. Na década de 1980, passou para a Rádio Festival. Os programas de variedades tinham regularidade, como noticiou um dos jornais da rádio: por exemplo, em maio de 1946, apresentaram-se três programas4. A rádio distribuia convites e o público assistente era incitado a tornar-se associado. Nos programas de música, uma das rubricas mais apreciadas era contar histórias leves, a que chamavam anedotas, apresentadas por António Raimundo. Como testemunha uma carta enviada a este colaborador da estação e fundador de A Voz dos Ridículos: «Como grandes apreciadores de Portuense Rádio Clube, enviamos estas anedotas para serem ditas nas Variedades pelo exmº sr. António Raimundo, caso acharem aproveitáveis»5. Um ouvinte, Sérgio Lima, enviou ao «exmº senhor que costuma contar as anedotas na Hora das Variedades»6. Numa terceira, de António Júlio, datada de 9 de fevereiro de 1945, lia-se: «Se achar que lhe serve para o seu arquivo humorístico, permita-nos que lhe contemos uma anedota». Numa sessão de variedades, João Manuel Antão, representante do jornal Os Ridículos no Porto, lembrou-se de incluir versos humorísticos e diálogos e quis integrá-los em programa próprio de Portuense Rádio Clube, transmitido em direto. À colaboração espontânea e quase anónima, A Voz dos Ridículos ia constituir uma equipa fixa. Como pertencia ao grupo de correspondentes do jornal Os Ridículos, sedeado em Lisboa, lembrou-se do nome Vozes dos Ridículos. Vivia-se no final da II Guerra Mundial e o locutor Fernando Peça nas suas reportagens de Londres dizia: «A BBC fala e o mundo acredita». O programa de João Manuel aproveitou a ideia e dizia «A Voz dos Ridículos fala e o mundo acredita e ri», mote que se man teve até ao fim do programa. Para João Manuel, a verdadeira função do programa era fazer rir, dar e fazer. Dito pelo próprio: «dávamos o que podíamos e fazíamos o que sabiámos». João Manuel Antão fazia parte da direção do Portuense Rádio Clube em 1946, ao lado de outros nomes de que destaco Manuel Correia de Brito 4 Portuense Rádio Clube, nº 3, abril de 1946. 5 Coleção particular de António Raimundo (pai de Zulmiro Raimundo, a quem agradeço o ter me dado a conhecer estas cartas e muitos recortes de imprensa sobre o programa). 6 Coleção particular de António Raimundo. 472
  5. 5. Capítulo 13. O humor de A Voz dos Ridículos (1945-2013) e Alberto Ferraz Carneiro, os três responsáveis pelo jornal da estação. Correia de Brito, além de hoquista de renome, fez o papel da série do menino Quim, aluno cábula diante do professor, interpretado por Júlio Guimarães, espécie de resposta ao lisboeta menino Tonecas, criado por José Oliveira Cosme. Além de João Manuel Antão e António Raimundo, os outros fundadores do programa seriam Gomes de Oliveira, Eduardo Augusto, Castro Silva (maestro da orquestra «Trunfo de Copas») e Peixoto Alves7. 1. o amadurEcimEnto na idEal rádio A estação Portuense Rádio Clube deixou de emitir em 1954. Das pequenas estações existentes na cidade, o dono da Ideal Rádio, Júlio Silva, telefonou a João Manuel Antão: «já sei que vocês ficaram sem emissor. Querem vir para aqui»? O humorista reuniu com os seus colegas e aceitou. Na Ideal Rádio, estação a funcio nar na rua de Alferes Malheiro, dentro do grupo dos Emissores do Norte Reunidos, o programa foi para o ar ainda em 1953 e aí permaneceu mais de três décadas, no horário dominical das 13:00 às 14:00. A emissão era em ondas médias e, com alguma rapidez, o programa passou a ser gravado e transmitido ao domingo com repetição durante a semana. Uma nova função e profissão nasciam, a de sonoplas ta. Alguns ficaram conhecidos pelo seu trabalho, caso de Octávio Frias, na Rádio Graça. Em A Voz dos Ridículos, Alberto Caldeira tinha a missão de colocar os dis cos8, o que equivale a dizer que era ele o responsável pelos sons. Outros programas e, em especial a publicidade, beneficiariam muito com o registo magnético. Na publicidade, seria usada uma tecnologia intermédia entre o disco e a fita magnética, o cartucho9. O estúdio da Ideal Rádio funcionava no fundo da loja de rádios e artigos elétri cos, a principal atividade do seu proprietário. Na época, Júlio Silva tinha bastante peso no setor, pois ele era vice-presidente do Grémio Concelhio dos Comerciantes de Artigos Musicais e de Rádio-Electricidade do Porto, ao lado do presidente Janu ário Trindade, pai de Arnaldo Trindade (que se notabilizaria como um dos mais importantes editores discográficos do país). A Voz dos Ridículos fazia festas de confraternização, muitas delas em casa do Júlio Silva, que tinha uma propriedade em Vila do Conde além da casa onde habitava no Porto, na rua de Alferes Malheiro. No período mais áureo, nas décadas de 1950 e 1960, os autores dos textos foram João Manuel, Bê Veludo e Castro Maia. Bê Veludo era o nome artístico de Ben jamin Veludo, depois consagrado como co-autor da peça Um Cálice de Vinho do 7 Jornal da Rádio, julho-agosto 1998. 8 A Voz dos Ridículos, nº 1, junho de 1956. 9 Entrevista a António Rêgo feita pelo autor, 28 de maio de 2012. 473
  6. 6. Rogério SantoS Porto do grupo de teatro Seiva Troupe (escrita conjuntamente com Manuel Dias e Norberto Barroca, a peças esteve dois anos em cena e recebeu o prémio de melhor peça em 1982)10. Bê Veludo entrou para A Voz dos Ridículos quando o programa já emitia na Ideal Rádio. Num dos concursos de perguntas do Armazém Popular, ele ficou em quarto lugar, com João Manuel Antão a ver grandes potencialidades pelo que o convidou para colaborador. Ele seria considerado o melhor humorista ao serviço do programa. Semanalmente, Bê Veludo e Castro Maia davam os seus textos a João Manuel Antão que os passava à máquina de escrever, num total de dez a onze páginas semanais. Muitas vezes, com quadras e textos dedicados a um motivo ou acontecimento específico, como o S. João ou outra festa de realce. João Manuel Antão tinha também a condução de outro programa na Ideal Rádio: A Voz do Futebol Clube do Porto, à terça-feira, às 19:3011, ele que fora o letrista da mar cha daquele clube. Inicialmente, José Pinto da Costa também escreveu. Mas, por pertencer ao Sindicato dos Ferroviários (estação de Campanhã), a censura proibiu a sua colabo ração. A partir daí, ficou com a designação de Poeta sem Destino. Pinto da Costa escreveria uma crítica de teatro à revista Feira do Porto, de Manuel Gustavo de Abreu e Sousa (capitão de artilharia) e Athaíde Perry, que os autores não apre ciaram e apresentaram queixa12. Num dos programas de A Voz dos Ridículos, o locutor diria: «D. Luísa [Satanela?] e senhor Costinha [atores] estão bem? Ah, não vieram. Já se sabe. Há dias fizeram uma crítica à revista e não gostaram. Por isso não vieram ao posto. Damos um louvor à D. Luísa e ao Costinha e à empresa do Sá da Bandeira os sentimentos» Apesar do peso da classe trabalhadora no grupo do programa, os elementos mais ativistas do operariado eram acompanhados de muito perto pela censura, que temia a propagação de influências marxistas. O programa teve ainda outro grande humorista, Eduardo Augusto, autor da marcha da Voz dos Ridículos13: «A nossa Voz / De «Os Ridículos» chamada, / É uma voz endiabrada / mas de perfeito otimismo; / e somos nós, /Dando graças ao manifesto /Que quando alguém sai do texto /Lhe pomos o sinapismo»14. Aos ele mentos idos do Portuense Rádio Clube, juntaram-se na Ideal Rádio estrelas como Alberto Caldeira (o homem dos discos), Ferreira da Cunha (locutor e repórter), a cantar com letras trabalhadas sobre músicas populares ao jeito de revista mas de temas de incidência crítica diversificada15, António Santos (o Bigodes de Arame), 10 Entrevista a Benjamim Veludo feita pelo autor, 24 de agosto de 2013. 11 Jornal de Notícias, 1 de janeiro de 1957. 12 SNI, Caixa 1395, 22 de novembro de 1946. 13 Entrevista a João Manuel Antão feita pelo autor, 22 de junho de 2013. 14 O Comércio do Porto, 1 de novembro de 1998. 15 E-mail de Rui de Melo ao autor, 3 de julho de 2012. 474
  7. 7. Capítulo 13. O humor de A Voz dos Ridículos (1945-2013) José Carneiro, Castro Maia, Silva Campos, José Moreira, Mena Matos16, o maes tro José Quelhas, ao piano e com a orquestra Vou Ali e Já Venho17. Algumas das personagens seriam o Finfas, que casara com a Micas da Calçada, o Tirone, o senhor Perfeito, o Sebastião Come Tudo. No tempo da censura, uma das figuras foi o Saraiva, que andava sempre rouco, preso da garganta, como dizia o texto de 4 de janeiro de 196818. Nas primeiras décadas, os tipos ridículos eram produzidos nos fados de Neca Rafael, nas revistas de Arnaldo Leite e de Carvalho Barbosa e nos trocadilhos de João Manuel e Bê Veludo19. Após 1974, temas como a liberdade, a Expo 98 e o euro entrariam no humor de A Voz dos Ridículos: «O euro / Uma moeda bem diferente… / A moeda, enfim, que é europeia… /Que andará nas mãos de toda a gente / Fidalga ou até plebeia»20. Manuel Ramos, o Raminhos do Notícias (Jornal de Notícias), estaria com João Manuel Antão no apoio às Cruzadas de Bem Fazer da década de 195021. A Voz dos Ridículos manteve-se na Ideal Rádio e passou incólume à compra dos Emissores do Norte Reunidos pela Emissora Nacional no princípio da década de 1970 e à nacionalização de dezembro de 1975. Só saíu daquela antena, a emitir da rua Alferes Malheiro, no Porto, quando a estação fechou, sendo integrado na Rádio Comercial, ainda no tempo da rádio nacionalizada. Na década de 1980, passou para a Rádio Clube de Matosinhos e, após o encerramento desta por compra de Luís Montez, entrou na grelha de programas da Rádio Festival, onde permaneceu até 2013. Por falecimento dos restantes membros do programa e desinteresse de Bê Veludo, apenas contaria com João Manuel do grupo fundador. Tirando o período da emissão de Rádio Comercial, uma estação de âmbito nacional, o programa esteve sempre em estações locais do Porto, o que significa uma ligação forte à cidade e região. Daí se poder afirmar com clareza que A Voz dos Ridículos foi, e teve orgulho nisso, um programa regional. A imagem de marca, um locutor sentado em cima de um microfone à pesca de piadas «arrolhadas», manteve-se ao longo do tempo22. Do começo em 1945 até ao começo da década de 1980, a emissão fez-se em ondas médias e em rádios locais, com grande audiência local. A partir da passa gem para a onda da Rádio Comercial e das outras estações, a transmissão passou a efetuar-se em frequência modulada, no momento de transição da audição de ondas médias para a frequência modulada, com mais concorrência entre estações 16 Jornal de Notícias, 17 de abril de 1997. 17 Ao longo dos programas, a designação mudava, prova da plasticidade de personagens e ideias. 18 Jornal de Notícias, 18 de abril de 1998. 19 O Comércio do Porto, 1 de novembro de 1998. 20 Helder Pacheco, Jornal de Notícias, 30 de maio de 2002. 21 Jornal de Notícias, 17 de abril de 1997. 22 Jornal de Notícias, 11 de julho de 1997. 475
  8. 8. Rogério SantoS de rádio e também com a emissão de televisão à hora do programa. O impacto de A Voz dos Ridículos diminuia. A equipa mais recente mantinha João Manuel Antão, Júlio Couto, Salazar Ribeiro, Virgílio Cervantes, Manuel Morais23, Alberto Mourão, Alfredo Lucas e Manuel Baptista e alguns filhos de fundadores como Elisabete Moreira e Zulmiro Raimundo24. Era já o tempo de consagrar o programa como «Património Mundial de Hilariedade», com um «desfile de «rusgas da laracha» e cimeiras como uma visita à Torre dos Clérigos25! Para João Manuel, A Voz dos Ridículos nunca teve um partido, pois foi «sempre pelas coisas inteiras» e «somos todos muito católicos. Por causa dos buracos na rua, andamos sempre com o credo na boca»26. Aqui, juntar-se-iam «non sense», burlesco e surrealismo. 2. proFissõEs dos mEmbros do proGrama E Estrutura do proGrama O programa foi sempre feito na perspetiva de trabalho amador, articulando interesses pelo humor e pelas causas de solidariedade, como abaixo se indica. Os elementos de A Voz dos Ridículos não ganhavam dinheiro com o programa, mas o saldo positivo com a publicidade era aplicado pragmaticamente em almoços e jan tares dos colaboradores, bem como deslocações que faziam fora da cidade. Outra parte do dinheiro servia para apoio a atividades sociais. Cada elemento do programa tinha a sua atividade profissional, bastante diversi ficada entre si. A sua ligação à rádio era dentro da qualidade de amador. O tipo de profissões dos colaboradores do programa talvez justifique as raizes populares de A Voz dos Ridículos e a sua adesão por parte dos ouvintes. João Manuel Antão era vendedor representante de produtos e empresas, e vendia estes em lojas e feiras, profissão que o obrigava a contactar com muita gente e a conhecer muitas histó rias. Bê Veludo era tipógrafo na tipografia do pai, o que lhe deu um lado letrado útil para a escrita regular do programa. O terceiro elemento escritor do programa, Castro Maia, era representante dos relógios da marca Zephyr, então muito concei tuada e que a classe média ambicionava possuir. António Santos, ferrageiro na rua do Almada, organizou um Carnaval dos Fenianos no Porto e arranjou um carro alegórico de A Voz dos Ridículos, contribuindo para o reconhecimento público do programa junto dos seus ouvintes. De outros elementos do programa, José Moreira trabalhava como funcionário superior dos Correios, Ferreira da Cunha numa fábrica de explosivos para minas e pedreiras, Feliz dos Santos numa empresa de metalo mecânica em S. Mamede de Infesta, Silva Campos na Companhia de Seguros A 23 Jornal de Notícias, 18 de abril de 1998. 24 Jornal de Notícias, 17 de abril de 1997. 25 Jornal de Notícias, 17 de abril de 1998. 26 Jornal de Notícias, 17 de abril de 1997. 476
  9. 9. Capítulo 13. O humor de A Voz dos Ridículos (1945-2013) Garantia e José Carneiro era sócio da firma Tamegão, na rua Sá da Bandeira27. António Raimundo (1908-1946), empregado de balcão no Armazém do Anjo, na rua dos Carmelitas, Porto, além de grande contador de histórias e de anedotas era exímio tocador de guitarra28. A grande maioria dos colaboradores do programa pertencia à classe trabalhadora, pelo que veiculava valores e aspirações das classes populares da cidade do Porto. A estrutura do programa era constituida por diálogos e cantigas humorísticas. Os textos versavam a atualidade, muitos deles a partir de ideias de leitura dos jornais (e, depois, dos noticiários da televisão)29 na forma de poesia. As letras das cantigas apropriavam-se às situações. Por exemplo, o tango À Média Luz, com letra ade quada, era interpretado quando havia problemas com a eletricidade, caso de um aumento de tarifas30. A receita para a forte recetividade era a existência de diálogos curtos, incisivos e de fácil compreensão31. Os autores e outros colaboradores diziam os diálogos e depois cantavam. Dos cantores, destacaram-se José Moreira, exce lente cantor do tango, e Ferreira da Cunha, «capaz de cantar qualquer género»32. Mena Matos foi o grande imitador do grupo. Por exemplo, ele imitava na perfeição o ditador Salazar. Os vários elementos do programa cantavam afinadinhos com o apoio de uma pequena orquestra constituida por amadores e alguns profissionais que apoiavam graciosamente o programa. A veia humorística de João Manuel Antão ficou gravada em múltiplas peças e revistas que ele e outros colaboradores apresentaram em teatros do Porto. Exem plos: Grelos à Provinciana, em parceria com Aníbal Nazaré e Nélson de Barros. Ela Está Aqui, Toma lá Piadas, esta sempre com lotação esgotada, e Serviço à Lista, entre 1962 e 1965, foram peças que contaram com a colaboração do humo rista Bê Veludo. Se, geralmente, iniciavam as representações das peças no teatro Sá da Bandeira, atuações posteriores ocorriam em salas do norte do país, como Vila Nova de Gaia, Penafiel, Braga (Teatro Circo), Aveiro (Aveirense), Ovar e Póvoa do Varzim. Também houve peças transmitidas através da rádio, como no final de 1942 no Portuense Rádio Clube, Ao Preço da Casa, peça em dois atos e dez quadros, e 6 de abril de 1945, Haja Alegria, original de João Manuel e Manuel João e música de Castro e Silva. Manuel João era diretor do teatro Sá da Bandeira e também diretor de cena. O cartaz do nono programa oficial das Variedades da estação anunciava a 27 Entrevista a João Manuel Antão feita pelo autor, 22 de junho de 2013. 28 Informação pessoal dada pelo filho Zulmiro Raimundo, 26 de agosto de 2013. 29 Tal & Qual, 3 de outubro de 2003. 30 Entrevista a Benjamin Veludo feita pelo autor, 24 de agosto de 2013. 31 Jornal da Rádio, julho-agosto 1998. 32 Entrevista a João Manuel Antão feita pelo autor, 22 de junho de 2013. 477
  10. 10. Rogério SantoS interpretação de António Raimundo, Maria Augusta, Mali Socorro, Beatriz Socorro, António Santos, Jaime Rodrigues, Feliz dos Santos, Júlio Guimarães, Rolando Ver dial e José Carneiro, com apresentação pelo locutor Gomes de Oliveira, montagem técnica de Ernesto Dolgner e direção de orquestra de Castro e Silva. No intervalo da última peça, António Raimundo lia anedotas no intervalo. O programa teve um folhetim humorístico chamado Pincha Malaquias Pincha, de João de Queirós, espécie de rubrica dentro do programa. Os participantes do programa começaram a interpretar apenas com homens porque então o programa não tinha participação de mulheres. António Santos era um dos intérpretes que representava vozes femininas33. João de Queirós faleceria pouco tempo depois, pelo que não houve continuidade do género dentro do programa. Ao longo da década de 1950 foi introduzida a gravação magnética, o que permi tiu a repetição do programa além da emissão ao domingo. Regularmente, o trabalho de ensaio e de gravação de A Voz dos Ridículos decorria às quintas-feiras, entre as 20:00/20:30 e as 23:00/23:30, a que se seguia um lanche de confraternização. João Manuel distribuia os papéis e o ensaio era rápido. Para ele, «já estavam tão calha dos que praticamente a gente não fazia os ensaios. «Oh, Zé Carneiro, oh, Santos, faz de parolo». «Tu fazes aqui de Visconde: oh, senhora minha»». O programa tinha um concurso semanal muito popular e que servia para aferir a sua audiência. Concurso mantido durante muitos anos, nele era formulada uma pergunta, com as respostas enviadas em postais dos correios para o programa. Um exemplo de pergunta e resposta: «O que é um pedreiro? É aquele que volta e meia dá um tiro no trabalho» (Gracinda Gomes Teixeira, Mariz)34. Outro exemplo: «O que é um pescador? É um tipo tão fraco que precisa de um pau para meter os peixes na linha» (Eneida Carvalho, Porto). Enquanto os críticos escreviam que os mais graciosos larachistas da região do Porto eram premiados com um par de soquetes do Armazém Popular35, para João Manuel Antão, o diretor do programa, «algumas das respostas eram de antologia, algumas marotas, outras políticas», destacando: «Havia lá uma, malandra, estou-me a lembrar agora. Dizia: «o noivo para onde vai na noite de núpcias»? Era a pergunta. E a resposta era: «Umas vezes julga que vai para o Furadouro e outras vezes vai para a Afurada». Escolhia se e davam-se prémios. Uma peça de malha do Armazém Popular, um relógio ou bolsinha de prata da ourivesaria do Bolhão e ainda artigos para senhora da casa Tito Cunha, que era a casa de noivos e noivas. […] Uma vez fizemos «o que era a cadeia de Custóias»? Telefonaram muito zangados, de Custóias. 33 Entrevista a Zulmiro Raimundo e Elisabete Moreira feita pelo autor, 21 de agosto de 2013. 34 A Voz dos Ridículos, nº 1, junho de 1956. 35 O Comércio do Porto, 1 de novembro de 1998. 478
  11. 11. Capítulo 13. O humor de A Voz dos Ridículos (1945-2013) Eu disse: «não se preocupe. Preocupe-se com a resposta». E então vem uma resposta daquelas de se lhe tirar o chapéu. «O que é a cadeia de Custóias»? «É um móvel com muitas gavetas e todas elas cheias de artigo com defeito». […] A gente tira os postais: «oh, pá, escolhe aí». «Oh, esta está formidável». Primeiro, segundo e terceiro prémio. E dizíamos: «fulano de tal da rua tal, vai ter a peça de malha do «Armazém Popular, que tem malhas até fartar». Ourivesaria do Bolhão, segundo prémio. E depois lá iam receber à casa. Não era nada com a gente. Já sabiam. A gente enviava o postal com a quadra premiada e iam lá receber»36. 3. EntrE a solidariEdadE E o EnGEnho dE FuGir à cEnsura A Voz dos Ridículos também se caracterizou por fazer obras de bem estar. O padre Américo, famoso pela sua obra de apoio a rapazes sem família, começou em A Voz dos Ridículos a fazer peditórios. Depois, os elementos do programa realiza ram espetáculos na Casa do Gaiato e no Coliseu do Porto a favor dessa obra. O padre Américo falava diretamente no programa. Houve ainda excursões à Casa do Gaiato e ao Lar do Comércio, organizadas através do microfone do programa. João Manuel Antão, então diretor do Lar do Comércio e do hospital Maria Pia, promoveu o aspeto filantrópico que se julga associado à rádio. Júlio Silva, o dono da estação, também colaborou de modo ativo na campanha. Espetáculos de beneficiência feitos por A Voz dos Ridículos seriam as revistas citadas acima, no teatro Sá da Bandeira. Em especial durante as décadas de 1950 e 1960, o programa humorístico teve uma pequena orquestra de boa qualidade. Durante a longa ditadura, o programa enfrentou semanalmente a censura. Todos os textos tinham de passar pelo censor do SNI antes de gravados e emitidos. Quan do o tema era delicado, o grupo votava e decidia: «quando a tesoura da censura cortava, ficávamos aborrecidos, claro, mas quando passava alguma coisa, era uma festa»37. Um número que teve muito êxito foi «Pipa Velha, Pipa Nova», de Castro Maia, em que a primeira representava a União Nacional, o partido único do Estado Novo, e a segunda a oposição38. Apesar da bonomia relativa na relação entre humo ristas e censura, dada a popularidade e o modo burlesco como os acontecimentos eram observados, o programa teve vários casos de índole política, contornados com o riso e o pagamento de multas mas nunca a suspensão do programa. Num dos textos do programa, os autores escreveram «o sol estava a dar no Zé que estava na praia, e coitado do Zé nem podia falar cada vez mais mirrado. Porquê? Por causa do 36 Entrevista a João Manuel Antão feita pelo autor, 22 de junho de 2013. 37 Jornal de Notícias, 4 de maio de 1999. 38 Jornal de Notícias, 4 de maio de 1999. 479
  12. 12. Rogério SantoS sol a dar, do sol a dar, o sol a dar»39. «Sol a dar» aproximava-se do som da palavra Salazar, o nome do ditador. Chamaram João Manuel às instalações da PIDE, na rua do Heroísmo, no Porto: «Eram sete e tal da tarde, estive lá até às duas e meia da manhã, no gabinete. Vá lá que não me tocaram. Depois é que me disseram: «o senhor inspetor não chegou e diz para você se ir embora». Vim-me embora. Mas, de outra vez… tivemos… quando foi daquela coisa do Solnado «podia-o chamá-lo». Veio cá o presidente da República e nós dissemos: «Podia-o empurrá-lo»? Uma multa. […] tínhamos uns amigos, os anunciantes, cem paus aqui, tre zentos acolá. Lá pagávamos a multa e safávamo-nos. Era muito forte A Voz dos Ridículos naquela altura em que não havia televisão. A malta esperava, que sabia… Eu ia no elétrico e às vezes aconteciam coisas […] e diziam… Eu ouvia: «vamos a ver o que eles dizem no domingo». […] E depois: «olha, ouviste no domingo»? «Oh, pá, eles falaram assim assim»». O programa teve um colaborador chamado Gastão Mineiro, dono de uma pada ria, na ocasião em que houve um problema com mineiros de S. Pedro da Cova. Durante a gravação falaram da «pouca massa do mineiro e do pão que o diabo amassou», o que levou os humoristas à censura40. Explicada a coincidência, o assunto morreu ali. Num caso particular, o das eleições presidenciais em que Hum berto Delgado foi o candidato da oposição (1958), João Manuel esteve presente na receção popular a este general dissidente do Estado Novo, na estação ferroviária de S. Bento. Cruzou-se com o inspetor da PIDE, a polícia política. Este chegou-se ao ouvido do humorista e disse: «o senhor também aqui»? João Manuel olhou para ele e disse: «Por causa deste regime, estou farto de ver gordos. Vim ver um delgado». Era a reação rápida do fazer humor em qualquer situação, mais normal ou mais difí cil. No período a seguir a 1974, quando emitiam no canal que seria depois a Rádio Comercial, a relação com os militares foi controversa. Um oficial entendia que o programa trabalhava para o patronato, ao que João Manuel respondeu: «o senhor acha que são os operários que nos pagam a publicidade»41? 4. conclusõEs A Voz dos Ridículos foi um dos programas de maior duração ao longo do tempo da rádio portuguesa, entre 1945 e 2013, sempre ao domingo entre as 13:00 e as 39 Entrevista a João Manuel Antão feita pelo autor, 22 de junho de 2013. 40 O Primeiro de Janeiro, 12 de setembro de 2003. 41 O Primeiro de Janeiro, 12 de setembro de 2003. 480
  13. 13. Capítulo 13. O humor de A Voz dos Ridículos (1945-2013) 14:00. Este horário de almoço, quando combinou com a época em que a televisão ainda não existia ou não era prevalecente, atingia um vasto auditório. De um humor claro e tranquilo sobre a realidade local do Porto, cidade onde emitiu sempre, mas também relevando acontecimentos nacionais, o programa combinava textos em poesia e cantigas de letras adaptadas a músicas populares ou em voga. Tal facilitava a aprendizagem dos ouvintes. Uma pequena orquestra permitia colorir musicalmen te os programas. Durante muitos anos, teve um concurso de perguntas, com prémios em objetos de vestuário e de ourivesaria, que as classes populares apreciavam bas tante, num momento em que a sociedade de consumo arrancava lentamente no país. Pela origem social da primeira geração de autores e colaboradores, houve uma presença grande da classe trabalhadora em A Voz dos Ridículos, com preo cupações sociais e culturais. Isso é constatado em outros elementos pioneiros da rádio local no Porto, como Carlos Silva, empregado em escritório de advogados e vendedor das máquinas de costura Oliva, profissionalizado como locutor da Rádio Porto42, e Américo da Graça Júnior, barbeiro e cabeleireiro e, depois, autor de folhetins na ORSEC43. A proveniência social aliada à ideia de riso e festa que cada indivíduo levou para o grupo moldou o programa num estilo popular, identificável numa cidade e região em que o trabalho fabril e artesanal era a marca de identidade forte. A irradiação num emissor local, os Emissores do Norte Reunidos, numa grande parte da vida de A Voz dos Ridículos, reforçou os laços com a comunidade ouvinte, como aliás o fundador João Manuel consideraria quando se referia às expectativas dos ouvintes, tornando o programa, pela sua proximidade, uma espécie de voz da cidade e da região. Como em toda a rádio comercial, a publicidade foi a segurança financeira do programa, sempre uma publicidade local e regional em épocas de afirmação eco nómica da cidade e da região. Quando adveio a crise financeira de 2008, associada ao desaparecimento e cansaço dos seus autores, o programa perderia a força do investimento publicitário que teve ao longo de muitas décadas de atividade. O programa fez grande parte da sua carreira em ondas médias, mudando-se para a frequência modulada quando a tecnologia de emissão e receção se popularizou nesta última. Porém, a audiência desceu dada a maior concorrência de estações de rádio empregando frequências diferentes, a somar à mudança de hábitos consumi dores agora mais voltados para a televisão. Um elemento a realçar é a do programa refletir um universo masculino. Devi do a questões culturais, a primeira geração de A Voz dos Ridículos não permitiu a entrada de mulheres. Isso obrigou à existência de um núcleo de colaboradores bem 42 Entrevista a Carlos Silva feita pelo autor, 13 de agosto de 2012. 43 A Defesa, 15 de fevereiro de 1955. 481
  14. 14. Rogério SantoS pequeno, com os papéis femininos distribuídos por apenas alguns elementos do grupo. Na segunda geração do programa, com o ingresso de filhas dos fundadores, foi possível ultrapassar a dificuldade. Pode considerar-se isso como um fator inicial de censura, parecendo ter a rádio demorado a abrir-se à colaboração feminina. Con tudo, na rádio já operavam locutoras e autoras de folhetins, por exemplo. À censura de vozes femininas juntar-se-ia a necessidade dos textos semanais passarem pela censura política, o que reduzia o impacto do dito ao microfone. Qualquer texto, e em especial o texto humorístico, pode ter interpretações variadas e, com tal, intro duzir perigo ao permitido pelo regime. Mas o humor acabou por ser um escape, com os responsáveis do programa a saberem ultrapassar os problemas. A Voz dos Ridículos acompanhou o progresso tecnológico, caso da gravação magnética, o que possibilitou o registo prévio, com ensaio e gravação, e transmis são e repetição da transmissão. Durante a década de 1950, foi possível introduzir essa vantagem, tal como outros programas na rádio portuguesa. Pelo facto, uma nova profissão emergia, a do montador ou sonoplasta. 482

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