Sociedade e indivíduo na Ilíada de Homero

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Sociedade e indivíduo na Ilíada de Homero

  1. 1. SOCIEDADE EINDIVÍDUO NA ILÍADA DE HOMERO Bacharel Renata Cardoso de Sousa Universidade Federal do Rio de Janeiro Centro de Filosofia e Ciências Humanas Instituto de História Laboratório de História AntigaConselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq -PIBIC)
  2. 2. Introdução A proposta de nossa apresentação é verificar como a noção de indivíduo e sociedade, elaborada por Norbert Elias e trabalhada porJean-Pierre Vernant, nos ajudam a compreender o modo pelo qual os heróis se relacionam com a sua sociedade e vice-versa na Ilíada, de Homero. Embora elaborados nos anos 1920, esses conceitos sãofundamentais para entender as relações entre as pessoas, que, desde que o homem existe, são o que possibilitam a convivência de unscom os outros e da constituição de nómoi, leis, normas que viabilizam essas relações.
  3. 3. Apresentação Geral da Pesquisa• Problema: por que Páris é representado desse determinado modo por Homero?• Fontes: HOMERO. Ilíada. Tradução, Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Ediouro, 2009. HOMERO. Odisséia. Tradução, Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Ediouro, 2009.• Método: CARDOSO, Ciro Flamarion. Narrativa, Sentido, História. Campinas: Papirus, 1997.
  4. 4. Sociedade ou Indivíduo• Sociedade em foco: “o herói da epopeia nunca é, a rigor, um indivíduo. [...] seu objeto não é um destino pessoal, mas o de uma comunidade” (LUKÁCS, 2007, p. 67).• Indivíduo em foco: “[...] a honra do herói era puramente individual, pois vivia por ela e por ela lutava tão só em defesa dela e no interesse próprio” (FINLEY, 1982, p. 111).
  5. 5. Sociedade e Indivíduo – Norbert Elias “As pessoas vivenciam o ‘indivíduo’ e a ‘sociedade’ como coisasdistintas e frequentemente opostas – não porque possam realmente ser observadas como entidades distintas e opostas, mas porque aspessoas associam essas palavras a sentimentos e valores emocionais diferentes e, muitas vezes, contrários (...). A lente da atenção podeser regulada num foco mais amplo ou mais restrito; pode concentrar- se naquilo que distingue uma pessoa de todas as demais como umacoisa única; ou naquilo que a vincula às outras, em suas relações comelas e sua dependência delas; e por fim pode enfocar as mudanças e estruturas específicas da rede de relações de que ela faz parte” (ELIAS, 1994, p. 75-6).
  6. 6. Sociedade e Indivíduo – Norbert Elias• “Uma das condições fundamentais da existência humana é a presença simultânea de diversas pessoas interrelacionadas. [...] Não existe um grau zero de vinculabilidade social do indivíduo, um ‘começo’ ou ruptura nítida em que ele ingresse na sociedade como que vindo de fora, como um ser não afetado pela rede, e então comece a se vincular a outros seres humanos. [...] o indivíduo sempre existe, no nível mais fundamental, na relação com os outros” (ELIAS, 1994, p. 27 e 31).
  7. 7. Sociedade e Indivíduo – Norbert Elias “‘Individualidade’ é uma expressão que se refere à maneira e àmedida especiais em que a qualidade estrutural do controle psíquico de uma pessoa difere do de outra. (...) Somente através de umprocesso social de moldagem, no contexto de características sociais específicas, é que a pessoa desenvolve as características e estiloscomportamentais que a distinguem de todos os demais membros da sociedade. A sociedade não apenas produz o semelhante e o típico, mas também o individual’ (ELIAS, 1994, p. 54-6 – grifos do autor).
  8. 8. Sociedade e Indivíduo – Jean-Pierre Vernant “Penso, com efeito, que não podemos falar dos homens fora do grupo nosquais esses homens estão inseridos, fora de seu contexto social preciso; mas, inversamente, não existe contexto social que não possua uma dimensão ‘humana’, ou seja, mental, não existe instituição que não implique, enquanto está ativa, em crenças, valores, emoções e paixões, todo um conjunto de representações e de sentimentos. Não encontramos, de umlado, indivíduos humanos isolados que poderiam ser submetidos a um estudo psicológico e, de outro, realidades sociais que seriam coisas inertes, submetidas em sua evolução a uma espécie de determinismo exterior, e quepoderíamos estudar como objetos. Uma sociedade é um sistema de relações entre os homens, atividades práticas que se organizam no plano da produção, da troca, do consumo, em primeiro lugar, e depois em todos os outros níveis e em todos os outros setores da vida coletiva. E, na concretude de sua existência, os homens definem-se também pela rede das práticas que os ligam uns aos outros e da qual eles aparecem, em cada momento da história, ao mesmo tempo como autores e como produtos” (VERNANT, 2009, p. 54 – grifos nossos).
  9. 9. Nossa Pesquisa• Sociedade: código de conduta (noções éticas básicas que se encontram nas epopeias).• Páris: epítetos/adjetivos, comentários acerca do personagem na epopeia.
  10. 10. Sociedade Homérica Areté (αρετή)Kalòs thánatos Alkḗ /andreía (καλòς (ἀλκή/ἀνδρεία) θάνατος) SOCIEDADE HOMÉRICAΑidṓs (αἰδώς) Némesis Timé (τιμή) (νέμεσις) Kléos (κλέος) Kŷdos (κῦδος)
  11. 11. Heróis “homem de aspecto imponente” (v. 166); “rei poderoso” (v. 178); “tão belo e de tal corpulência” (v. 167); “tão belo conspecto” (v. 169); “majestade tão grande” (v. 170); “de Atreu Agamemnon descendente” (v. 178); “tão grande rei, chefe de homens, quão forte e notável guerreiro” (v. 179); “venturoso” (v. 182); “filho dileto dos deuses” (v.182). “de espaldas mais largas de ver e de peito mais amplo” (v. 194); “guieiro veloso” (v. 197); “astucioso guerreiro” (v. 200); “em toda sorte de ardis entendido e varão prudentíssimo” (v. 203); Odisseu “o astucioso” (v. 216); “indivíduo bisonho que o cetro na mão mantivesse (...)/ imaginara, talvez, ser pessoa inexperta ou insensata” (vv. 218-220). Menelau “de Ares forte discípulo” (v. 206). “tão belo e de tal corpulência” (v. 226); “de bem maior estaturaÁjax Telamônio e de espaldas mais largas que os outros” (v. 227); “baluarte dos homens Aquivos” (v. 229); “gigante” (v. 229). Heitor “de penacho ondulante” (v. 83).
  12. 12. Heróis - Páris• “divo” (theoeidés), (vários versos);• “Páris funesto” (Dýsparis), (III, v. 39);• “de belas feições” (III, v. 39);• “sedutor de mulheres” (III, v. 39);• “careces de força e coragem” (III, v. 45);• “Esses cabelos, a cítara, os dons de Afrodite, a beleza” (III, v. 54);• “fautor desta guerra” (III, v. 87; VII, v. 374);• “fautor de desgraças” (VI, v. 282);• “Este, porém, nunca teve firmeza, nem nunca há de tê-la” (VI, v. 352);• “Mas, voluntário, te escusas; não queres lutar” (VI, v. 523);• “marido de Helena cacheada” (vários versos).
  13. 13. Conclusões• Os conceitos contemporâneos de sociedade e indivíduo são profícuos para nos debruçarmos sobre as epopeias homéricas à medida que nos auxilia a pensar o herói, não como um ser “desencarnado” da sua sociedade, mas como alguém que é constrangido por um código de conduta, embora tenha uma margem de manobra para manifestar sua singularidade de caráter.• Páris age de maneira incorreta e parece, a priori, um herói controverso; mas, ao longo da epopeia, ele procura consertar o que fez de errado a fim de reaver sua honra, seu prestígio na sociedade, corroborando para a afirmação do código de conduta helênico e, portanto, sendo sua representação um locus de paideía.

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