É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela.                                     Friedrich Nietzsche
Este é um conto simples, que dedico a todas as estrelas mortas.Elas foram esquecidas, já que não brilham mais para lembrar...
Querida estrelinha,Às vezes, quando vou atravessar a rua, olho para os dois lados e estendo a mão buscandoagarrar a sua pa...
... daí, quando eu estava tentando me soltar e gritando para que ele me soltasse, ela entrou...Ei, você está me ouvindo?Ah...
Querida estrelinha...Ontem eu encontrei o Sérgio a caminho da ponte. Ele me deu um “oi” bem sem graça e eucomecei a rir le...
Quem é que faz piqueniques no terceiro encontro? Por favor, né?!Eu gosto de piqueniques...Você não é referencia...Por que ...
Querida estrelinha...Recuperei alguns de nossos brinquedos da faxina de verão da mamãe. Ela atacou o porão desta vez, each...
Estou de saída.Tudo bem. Coloque o lixo para fora, por favor.Por que o baralho da tia Elga está no lixo?Porque, graças a D...
Querida estrelinha...Desculpe pela última carta, eu estava chateada com você. Esperava receber algumaresposta, qualquer co...
Eu nunca saí do estado...Que papo é esse?Sério, eu nunca saí do estado.E por que está me dizendo isso agora?Porque eu nunc...
Querida estrelinha...Esta é minha última carta. Não a última do mês ou do ano, mas a última para sempre.Neste meio tempo, ...
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Cartas de Estrelas - Conto

  1. 1. É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela. Friedrich Nietzsche
  2. 2. Este é um conto simples, que dedico a todas as estrelas mortas.Elas foram esquecidas, já que não brilham mais para lembrar-nos de olhá-las com carinho.
  3. 3. Querida estrelinha,Às vezes, quando vou atravessar a rua, olho para os dois lados e estendo a mão buscandoagarrar a sua para correr até o outro lado, como fazíamos quando éramos crianças. Acredita? Éengraçado como eu sinto que meus instintos ainda não entenderam que você não está aquiconosco. Sentimos muito a sua falta e queremos que venha nos visitar às vezes.Ontem eu senti o cheiro daquela sua torta de banana enquanto digitava alguns documentos notrabalho. Senti tanta vontade de comê-la que fui até a padaria aqui ao lado e pedi uma. Nãoera, nem de longe, parecida com a sua.Aliás, ontem foi um dia muito curioso. Lembrei-me de você diversas vezes.Mamãe sente muito sua falta, apesar de se fazer durona para nós. Mateus continua jogandofutebol e parece ter muito futuro, agora que está sendo agenciado por um cara legal. Papai ligoupara mim tempos atrás, e disse que também sentia sua falta. Ao que parece ele está no Méxicocom a nova esposa rica e peituda.As coisas estão como sempre, exceto por você estar tão longe. Amo você! Sua estrelinha... Rafaela Pietra 4
  4. 4. ... daí, quando eu estava tentando me soltar e gritando para que ele me soltasse, ela entrou...Ei, você está me ouvindo?Ah, sim, estou... Mais ou menos. Eu sei lá...No que você está pensando?Que tenho de ir ao correio.O quê?Tenho de ir ao correio.Eu sei, entendi. Não foi o “O que” de “Não entendi”, foi o “O quê” de “Quem diabos aindaescreve cartas?”Eu escrevo cartas.Por quê?Porque não gosto de e-mails.Mas e o telefone?Nunca achei que as pessoas parecessem sinceras ao telefone.Como assim? Ali você está FALANDO com a pessoa, ao vivo...E daí?E daí o quê?Ué, e dai que se está falando ao vivo? Você já ouviu diversas vezes um alguém chamar outroalguém de “querido” ou “meu amor” ao telefone e, na verdade, se odeiam.Isso é verdade. Mas ainda não explica.Não explica o quê?O por que de escrever cartas.Porque é bom. Me faz sentir proximidade com as pessoas a quem destino as cartas.Você é maluca!Pois é. Mas eu sinto que, quando escolho o papel, a caneta e me sento para escrever, voltandotoda minha atenção e vontade, minhas lembranças e esperanças para aquele pedaço de papel ecomeço as primeiras letras, estou bem perto do meu destinatário. Bem pertinho, como se ela sesentasse ao meu lado e eu pudesse contar a ela tudo o que estou escrevendo e eu a sentisseali, comigo. Rafaela Pietra 5
  5. 5. Querida estrelinha...Ontem eu encontrei o Sérgio a caminho da ponte. Ele me deu um “oi” bem sem graça e eucomecei a rir lembrando de você, de quando éramos pequenas e brincávamos os três no quintal eo enganávamos nos escondendo em lugares que ele nunca acharia. E lembrei também do beijoque ele me deu aos 13 anos e de quando ele disse estar apaixonado por você aos 16...Ah, mamãe conseguiu desfazer as últimas caixas da mudança, finalmente. Demorou 15 meses,mas ela finalmente conseguiu.O Mateus rompeu os ligamentos do tendão e está em casa, de molho. Lembra quando ele quebrouo braço e nós pintamos o cabelo dele de verde enquanto os analgésicos o faziam dormir?Lembrei-me disso hoje também...Papai ligou novamente. Já não aguento mais os suvenires do México. Parece que agora ele estáindo para a Tailândia. Essa nova esposa dele é meio estranha e gosta de países exóticos, oucoisa que o valha.Há algumas noites reencontrei o Daniel. Ele me jogou uma cantada velha, pediu para tomarmosum café e eu aceitei. Perguntou como estava a vida, disse que sentia a sua falta e a minhatambém. Eu mudei de assunto e ainda consegui levar o papo por mais meia hora. Quando ele meconvidou para ir à sua casa e ver um filme Iraniano, eu peguei a bolsa e fui embora. Amo você! Sua estrelinha... Rafaela Pietra 6
  6. 6. Quem é que faz piqueniques no terceiro encontro? Por favor, né?!Eu gosto de piqueniques...Você não é referencia...Por que não?Porque você gosta de salada de macarrão, livros o Isaac Asimov...Parai, deixe o Isaac fora disso!... cds do Luiz Miguel...(uma gargalhada bem alta) É verdade...É por estas e por outras que você gosta de piqueniques e escreve cartas.Ah, lá vem você com essa implicância louca pelo meu hábito de escrever cartas.Não é implicância, é um fato. Você é antiquada...Obrigada!(uma gargalhada ainda mais alta) Vai levar como um elogio?E não era para ser um?Não exatamente... Rafaela Pietra 7
  7. 7. Querida estrelinha...Recuperei alguns de nossos brinquedos da faxina de verão da mamãe. Ela atacou o porão desta vez, eachou uma caixa com as nossas coisas. Eu reconheci aquela sua boneca de vestido florido e tranças nocabelo. Ela ainda tem aquelas flores vermelhas que amarrou nas pontas das tranças.Achei também aquele frasco de perfume que fizemos para o papai de presente de Natal. Aquela porcariaestá com cheiro de flor morta e mel velho. O que é que colocamos lá dentro?Tia Elga voltou a colocar o Tarô. Consultei-me com ela e, apesar de todos estes anos, ela continua tãocharlatã quanto antes. Agora eu me perco olhando as bolsinhas que há embaixo de seus olhos que,conforme ela fala e se anima tremem, e parece que posso ouvir o barulho de água mexendo dentro delas.Eu penso que ouvi de verdade o barulho da água se agitando naquelas bolsinhas amarronzadas epintadinhas, e me assusto com isso. Só ai é que volto a ouvir a ladainha mole que ela diz enquanto virauma de suas cartas velhas.Hoje à tarde me sentei em uma cafeteria e, enquanto esperava meu café, notei um homem velho sentadodiante de mim. Ele olhava diretamente para o meu rosto como se buscasse, entre meus olhos, a imagem dolocal onde me conheceu. Acho que buscava puxar pela memória quem eu era.Quando notei que ele me encarava, tentei desviar o olhar, mas não pude. Ele continuava a me encarar eeu, sem conseguir evitar, passei a encará-lo também. A olhar as rugas e pequenas verruguinhas negrasque lhe cresciam ao lado do nariz vermelho e meio torto, até alcançar aqueles olhos amarelados pelaidade, um tanto enuviados, concentrados. E só depois lhe fitei a boca murcha, de dentes falsos e brancosdemais até para alguém bem jovem.Ele balbuciava alguma coisa enquanto pousava a xícara de café bem lentamente. Eu me inclinei em suadireção para tentar ouvi-lo, tentar decifrar o movimento de seus lábios. Aos poucos fui olhando seuslábios se moverem como em câmera lenta, e eles me lembravam do movimento estranho que as lesmasfazem quando jogamos sal sobre elas, e elas se contorcem, queimando, como se não quisessem abandonara vida. Eram suas lesmas movendo-se lentamente, contorcendo-se pelo sal que as cobria, como se o salfosse a palavra que ele sussurrava. E a palavra era o seu nome. Amo você! Sua estrelinha... Rafaela Pietra 8
  8. 8. Estou de saída.Tudo bem. Coloque o lixo para fora, por favor.Por que o baralho da tia Elga está no lixo?Porque, graças a Deus, ela desistiu de uma vez disso.Mas ela tinha tanto talento.Talento para charlatanagem, meu bem.Mas ela é toda esotérica...Ah, sim. Isso é mesmo. Eu me lembro de quando ela contava a vocês o nome das estrelas todasdo céu e apontava algumas. Apesar de eu nunca saber se as que ela apontava eram exatamenteaquelas de que estava falando.Mas isso não tem a ver com esoterismo, tem?Não sei, só lembrei... Foi a partir dai que passaram a se chamar de estrelinha.É verdade. Foi ai que nós viramos estrelinhas... Rafaela Pietra 9
  9. 9. Querida estrelinha...Desculpe pela última carta, eu estava chateada com você. Esperava receber algumaresposta, qualquer coisa. A verdade é que aquele velho me assustou quando disse seu nome nocafé e eu me irritei muito. Fiquei chocada e só tive tempo de sair correndo e chorando. Não seiquem ele era, ou o que queria com aquilo, mas conseguiu me deixar muito assustada.Estou com saudades. Amo você! Sua estrelinha... Rafaela Pietra 10
  10. 10. Eu nunca saí do estado...Que papo é esse?Sério, eu nunca saí do estado.E por que está me dizendo isso agora?Porque eu nunca saí do estado.Eu sei, mas como se lembrou disso agora?Sei lá, estava pensando nas estrelas e cheguei à conclusão de que eu nunca viajaria para o espaço,porque nunca nem saí do estado.Ah sim. Mas como é que você viajaria para o espaço?Eu sei lá, foi só uma conjectura.Fica ai conjecturando sobre viajar para o espaço...Eu gosto de viver na Terra. Gosto da Terra.E como é que você pode gostar de viver na Terra? Você não sabe como é viver em outro lugar. Éo mesmo de você dizer que gosta de viver neste estado. Você nunca saiu daqui.E dai que eu nunca saí do estado ou da Terra? Porque eu não posso construir essa opinião?Porque você não tem parâmetros de comparação.E eu preciso de parâmetros para gostar de algo?Não, para gostar não. Mas para ter preferencias, sim.Eu preferiria morar na Terra, de qualquer modo.Como assim?A Terra, vista do espaço, é azul. Eu gosto de azul. Dos planetas que conhecemos a Terra é o azul.Não o vermelho, ou o marrom, ou o branco de gelo, é o azul. E eu gosto muito de azul.Mas quem te disse isso, aliás, que conversa de doido é essa?Como assim?Isso aqui tá parecendo conversa de hospício.Mas as conversas de louco é que não boas.Ora essa, como assim?Os loucos só falam de coisas interessantes. Nunca falam do clima, do tempo, da chuva ou dosfilhos na faculdade. Nunca reclamam da artrite ou amaldiçoam as indústrias do cigarro ou ogoverno. Os loucos só falam daquilo que os instiga, que os deixa curiosos ou os faz pensar, esempre é interessante saber o que se passa na cabeça de alguém que não tem a cabeça exatamenteno lugar. Os loucos nunca reclamam dos maridos ou falam de filhos que mataram os pais ou estãovendendo drogas ou estão viciados em vídeo game e gordos demais para brincar na rua. Loucossó falam de coisas legais.Você diz isso porque é louca.Não, digo isso porque sou você! Rafaela Pietra 11
  11. 11. Querida estrelinha...Esta é minha última carta. Não a última do mês ou do ano, mas a última para sempre.Neste meio tempo, entre uma carta e outra, notei que essa saudade estava me matando, e que eurespirava menos a cada vez que colocava uma carta para você no correio.Além do que, se continuarmos assim, eu nunca vou conseguir me livrar desta saudade e nem detodas as cartas que voltam.Eu comecei a escrever para me sentir mais próxima de você, porém, colocá-la novamente emminha vida, participando dela e contando como andam as coisas está me matando.Sei que, às vezes, vou sentir tanta saudade que não conseguirei respirar por alguns minutos, eque meus dedos vão formigar e eu vou chorar e me debater tentando fazer a saudade sedesprender das paredes do meu coração e da minha cabeça e das minhas roupas, mas vai passar.Uma vez eu passeava em um parque e achei um passarinho curioso fazendo ninho no alto de umaárvore. Isso me lembrou da história que inventamos quando não conseguimos explicar como éque se formavam as estrelas.Lembra-se que dizíamos que estrelas eram pequenos pássaros coloridos, de todas as cores, que jáhaviam visto e feito tudo o que poderia haver de legal para se fazer naquele lugar, e partiamvoando pelo céu?E nós dizíamos que eles partiam para achar um lugar mais interessante, mas ficavam tristes dedeixar àqueles que amavam. Eles estavam cansados de todo o planeta, pois já tinham visto tudoo que havia de bom para ver, e que eles partiam para uma viagem longa, mesmo tristes,procurando um planeta mais interessante e diferente, cheio de coisas novas e pássaros novos aconhecer e comidas novas a provar.Durante a viagem, que era muito longa e muito solitária, eles se cansavam muito, e que cansadosdemais já não podiam voar. Quando chegavam a certa altura no céu, eles paravam e decidiamque ali já estava muito bom, que dali eles poderiam ver a Terra e todos aqueles que amavam e,ainda sim, poderiam ver e estar perto de planetas desconhecidos e cheios de novidades.Então, eles ficavam tão felizes por terem resolvido o problema e estarem sem medo de abandonaràqueles que amavam que se tornavam luz. Uma luz branca, linda e limpa, que brilharia fortepara que nós, da Terra, pudéssemos vê-los e amá-los e saber que estão bem e felizes.Você sempre foi uma estrelinha. Muito mais do que eu, pois você sempre teve o espirito livre ecolorido dos pássaros. Você era um pássaro colorido e pequeno, curioso, que partiu para virarestrela e me olhar dai de cima. E eu ainda gosto muito de viver na Terra. Amo você, para sempre! Sua passarinha. Rafaela Pietra 12

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