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Digitalização exclusivamente para fins didáticos, e pessoas que de uma
forma ou outra não podem ter acesso ao livro impres...
2 | Rogério Prego
ROGÉRIO PREGO
PRÍNCIPE
DOS LOBOS
Uma aventura dantesca
2ª edição
revisada e ampliada
©2015 by Rogério Pr...
Príncipe dos Lobos | 3
Para Pollyanna Rodrigues, minha esposa amiga, sempre presente e incentivadora. Agradeço
aos meus pa...
4 | Rogério Prego
O PESADELO ANGUSTIANTE
Felicidade foi se embora
E a saudade no meu peito ainda mora
E é por isso que eu ...
Príncipe dos Lobos | 5
Numa manhã, Edileusa estava ao portão de casa, recebia alguém muito impaciente. Robin-
son ouviu de...
6 | Rogério Prego
............................................................. Não voam nem se pode flutuar!
Como sempre,...
Príncipe dos Lobos | 7
Petúnia, a filhinha, a princesinha, o dodói. Marco, mais velho que a princesa, e um pouco mais
velh...
8 | Rogério Prego
Edileusa lavava, passava, limpava, escovava, fazia almoço. Jandira lixava as unhas, engordava, e
ria com...
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De repente a luz foi ligada, Marco soltou Robinson, era Jandira ainda ressonando, nem nota-
ra os m...
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ra invadida pelo demônio gemia em transe louco. Aurélio grunhia como um porco, e saciava-se
sobre a car...
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— Eu acho que podemos fazer as coisas juntos, num sabe? — Geraldo rebateu rubro.
Ele usa camisa ab...
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zer em sua casa, que tinha visto uma piscina de plástico na promoção, de plástico, mas bem
grande, most...
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Edileusa assustada apanhava sem reação, pois sua intenção era ajudar a irmã. Aurélio, sem
camisa, ...
14 | Rogério Prego
Edileusa proferiu qualquer coisa inaudível, e continuou sua tarefa de cabeça baixa, evitan-
do olhar pa...
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— Entra logo nesse carro, Geraldo! E vamos embora...! — ordenou Glorinha.
— Liga pra isso não, seu...
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No dia seguinte, os rapazes sumiram cedinho pra escola, Geraldo e Glorinha saíam para o tra-
balho. Edi...
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— Ó gente..., mas eu não sei fazer nada, seu Geraldo!
— É pra faxina..., e que mulher não sabe faz...
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nhecem, sabe que ela não é dessas. É muito esforçada! Além do quê: temos filhos que amamos
muito!
Geova...
Príncipe dos Lobos | 19
sem jeito, tinha que ir trabalhar, passou a mão no rosto, repreendia Robinson. Glorinha foi fa-
ze...
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colegas em volta tentavam imitar. Do robô, o rapaz chacoalhou-se todo no ritmo da batida, imi-
tando Ro...
Príncipe dos Lobos | 21
— Falousss... Róbin!... Massa te conhecer! — Marcelo exclamou com um sorriso de um canto
só, e foi...
22 | Rogério Prego
A confusão é geral. Alguns se desentendem com outro, não concordam com frases termina-
das com Lênin. Q...
Príncipe dos Lobos | 23
No espreme-empurra para dentro do ônibus, reclamam: "tá ruim, tá cheio, não presta, já fui
roubado...
24 | Rogério Prego
— Os cidadãos de bem deveriam ser mais humanos e educados ao colocar seu lixo para a co-
leta. Consciên...
Príncipe dos Lobos | 25
As lágrimas desceram queimando as bochechas de Robinson — escorreram em linha ao can-
to da boca, ...
26 | Rogério Prego
guir, que pareciam sebosas e desfazendo-se, aqui e ali em meio a latinhas de alumínio queima-
das com f...
Príncipe dos Lobos | 27
A luz acinzentada da lua atingia o interior da casa por um facho, e na linha do olhar perdido
de R...
28 | Rogério Prego
encontrado um melhor, onde visitava seu deus, o Dragão! E sabia onde o encontrar. Robinson
queria ouvir...
Príncipe dos Lobos | 29
Vigiam carros por uma moeda, somadas e disputadas. Porém, Robinson não ganhava nada,
porque se lim...
30 | Rogério Prego
— Ora!... Se prestasse mais atenção nas propagandas entenderia melhor o homem do topete
branco do telej...
Príncipe dos Lobos | 31
so, e faz Robinson se estremecer, observa-o. Certa vez, Boca o pegou com seus olhos de gado
magro....
PRINCIPE DOS LOBOS - 2ª ED. - ROGERIO PREGO
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Príncipe dos Lobos é uma fábula baseada nas tragédias diárias estampadas nos jornais, e telejornais. Narra às aventuras de Róbin, um garoto pobre, que vive um pesadelo angustiante em família. Na escola, aprendeu uma dança mágica, que não o impedirá de morar nas ruas e consumir a “pedra encantada”, mas o salvará da morte. Quando conhece uma prostituta chamada Beatriz, que o tira das ruas e do vício, descobriu nas pedras o precioso caminho que o conduz ao lucrativo comércio da “branca de neve”, e ao lado de Draco, um traficante e cafetão, vive o sonho de ser o dono do mundo. O autor retira das entranhas da cidade o retrato do homem vazio, e a disputa entre os mercadores, que fazem das tripas um coração feito de sal, que vendem a este homem vazio para ele se preencher. A última questão dessa aventura é: afinal, Róbin terá sorte?

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PRINCIPE DOS LOBOS - 2ª ED. - ROGERIO PREGO

  1. 1. Digitalização exclusivamente para fins didáticos, e pessoas que de uma forma ou outra não podem ter acesso ao livro impresso. É proibido qual- quer tipo de comercialização desse arquivo. Prefira sempre comprar o livro original, e apoie o autor a escrever novos livros. http://clubedeautores.com.br/book/182815--PRINCIPE_DOS_LOBOS
  2. 2. 2 | Rogério Prego ROGÉRIO PREGO PRÍNCIPE DOS LOBOS Uma aventura dantesca 2ª edição revisada e ampliada ©2015 by Rogério Prego Direitos reservados desta edição à Rogério Prego. Todos os direitos reservados. Proibida a tradução ou adaptação para todos os países e reprodução total ou parcial. (Sanções previstas na Lei 9.610 de 20/06/98). CIP – Brasil – Catalogação na Fonte BIBLIOTECA PÚBLICA ESTADUAL PIO VARGAS PRE Prego, Rogério pri Príncipe dos lobos: uma aventura dantesca/ Rogério Prego. 2.ed., rev. e ampliada. Goiânia: edição do autor, 2015 197 p. 1. Literatura brasileira ― Romance. I. Título ISBN 978-14-959-4004-0 CDU: 821.134.3(81)-31 Impresso no Brasil Índice para catálogo sistemático: Printed in Brazil ― 2015 CDU: 821.134.3(81)-31
  3. 3. Príncipe dos Lobos | 3 Para Pollyanna Rodrigues, minha esposa amiga, sempre presente e incentivadora. Agradeço aos meus pais Orlando e Milena Nunes pelo apoio e confiança incondicional. A Daniela Nunes de Souza, minha irmã. E aos amigos: Cristiano Rodrigues de Souza, e Henrique Martins da Silva. Nota de Edição A primeira edição deste romance foi publicada em 14/02/2014 através da Amazon.com (publicação por demanda). Posteriormente em 14/03/2014 através do Clubedeautores.com (também publicação por demanda). O que justificou esta segunda edição, foi o fato de termos aplicado uma revisão mais apura- da, a inclusão de um prefácio, a separação de capítulos com títulos, e ampliação do texto. SUMÁRIO O PESADELO ANGUSTIANTE A FLORESTA ESCURA O PARAÍSO E O CÍRCULO DOS SANTOS O POÇO HORRÍVEL Por um lado, não se sabe nada, e por outro, não se compreende aquilo que se sabe... “O Espião” (Máximo Gorki)
  4. 4. 4 | Rogério Prego O PESADELO ANGUSTIANTE Felicidade foi se embora E a saudade no meu peito ainda mora E é por isso que eu gosto lá de fora Porque sei que a falsidade não vigora. A minha casa fica lá de traz do mundo... “Felicidade” (Caetano Veloso) FRIO CLARÃO da lua veio pálido luzir, por contrastes acinzentados, um rapaz sentado aos modos e aspecto de um mendigo. Escorado numa porta de aço, vestindo uma blusa velha de moletom preto com capuz, segura um pequeno cachimbo na boca e quando risca o isqueiro, lembra que sua mãe o usa para acender a chama do fogão. Sob o efeito da mordaz fumaça nos pulmões, sua memória faz resvalar a imagem da mãe no lacrimejar dos seus olhos: na cozinha ela canta com sua voz triste enquanto lava as vasilhas. Atrás dela, à mesa, está o pequeno Ro- binson, cujos olhos se alongam com pena da mãe. Edileusa só queria estar longe deste deserto árido em que se encontra; laçar um cavalo e ser pior que limpa trilhos correndo na frente do trem, como na letra da caetana música que canta. Mas, seu caminho é longo e penoso através do deserto. Às vezes Edileusa se pergunta por qual razão lava aquelas vasilhas, se mal tem o que comer! A cozinha parece fornalha de um trem, além de quente, a panela de pressão está no fogo — o feijão cozinha com mais água do que grãos —, a chaleira apita forte, ela percebe o filho. “O trem não pode parar! Definitivamente não!” Coloca o restante do pó no coador; ajeita a garrafa; despeja a água quente... Enxuga a frigi- deira; os ovos fritam; e o garoto observa. Leva à mesa o pão murcho que guarda numa vasilha de plástico. Os olhos de Robinson parecem duas jabuticabas incrustadas em bolinhas de gude branco, grandes e infantis, de visão alongada, tocam o rosto de sua mãe. E a menina dos olhos é como uma lua cheia no canto de um céu preto atento as palavras da mãe: — Seu pai dizia que o café foi descoberto na Etiópia. Quando pastores se atinaram que seus rebanhos ficavam acordados a noite inteira, depois de comer folhas e frutos do cafezal... O Bra- sil teve até uma economia chamada café com leite... Edileusa tenta se lembrar de mais coisas que seu falecido marido dizia, mas é inútil. Para ela o rebanho são os trabalhadores, que ao invés da noite, ficam acordados o dia todo. Edileusa não comerá o ovo no pão, é para o filho, apenas o “chafé” esquentará a barriga magra, até a hora de comer o feijão que tilinta na panela. Pelo menos Robinson tem a merenda da creche. — Que estejam vivos e despertos pra trabalhar, não é isso que o governo fornece pras indústrias & comércio?... Edileusa ia arrumar um lugar para mudar naquela semana, pois já tem dias que o dono da casa bate à porta e ela não tem dinheiro. Seus móveis já são poucos, bem velhos, o que quer dizer: mal conservados. Com tantas mudanças só ficavam mais feios. Já estava desempregada há tempos. — Tem coisa pior prum burro de indústria & comércio do que ficar sem carregar carga, que já é tão acostumado?... O
  5. 5. Príncipe dos Lobos | 5 Numa manhã, Edileusa estava ao portão de casa, recebia alguém muito impaciente. Robin- son ouviu de longe a voz envergonhada da mãe, dizendo: — Ô seu Nogueira, fico até com vergonha, mas não tenho dinheiro... — Fico até com dó da senhora. Sem marido, sem os filhos que trabalhavam, mas não tenho o que fazer... Não posso fazer caridade... Já procurou se pega o bolsa família? A senhora não têm irmãs?... Às vistas de Robinson, Seu Nogueira é um senhor alto, de topo calvo, sem camisa com tufos de pelo branco amostra, de bermudinha e chinelos. Empunhando com a esquerda viril uma corrente que termina enroscada no pescoço de um pastor alemão de orelhas rijas. Estranhando a chegada de Robinson, o cão paralisado perscrutou o pequeno humanoide. Latiu avançando e se Seu Nogueira não segura o cão, arrancava o nariz de Robinson, que correu com olhos arrega- lados quase caindo da cara, indo se refugiar debaixo do tanque de lavar roupas. — Olha Dona Edileusa, como eu disse não posso fazer caridade! Infelizmente peço-lhe gen- tilmente que desocupe o imóvel! — o homem exclamou e foi embora quase arrastando o ira- cundo cão que latia. Dona Edileusa fechou o portão, entrou segurando choro forte na garganta pensando: “Sou mulher, e vou dar jeito!...” Em seguida, gritou: — Robinson larga de ser medroso, menino!... O rapaz aos modos e aspecto de um mendigo, sentado no interior de uma manilha, com me- do, vestindo moletom preto velho com capuz cobrindo a cabeça, olhava a chuva lá fora, atra- vessada pelo clarão da lua que espiava a terra entre nuvens escuras. Ao redor, uma obra públi- ca já desgastada pelo tempo. Parecia um campo de guerra a muito esquecido, e do alto o lugar parecia um esboço medonho do que seria um espaço destinado a programações culturais, es- portivas e de lazer. Mas em sua dignidade restringida, o rapaz olhava a água cair do céu, atra- vessada pela tétrica luz. As marcas do passado revelam de suas reminiscências outros dias de chu- va... Quando Edileusa viu mais uma semana passar, como uma imensa máquina locomotiva pa- rando na estação. Viu o céu acinzentado como se intumescido pela densa fumaça da fornalha da máquina. Viu os trilhos que eram minutos, e segundos angustiantes — vendo que além de tor- nar-se poeira, os segundos esfriavam nas veias. — Enfim, o apito anunciava o final de semana retumbando no peito que arfava cansado. Ela imaginou o céu abrindo colorido como o algodão doce da infância, mas o céu abriu medonho como as asas de um morcego. Triste! Derramando chuva grossa, parecia chorar em desespero, gritava trovões, cuspia raios! E assim, a preguiça era incomodada quando os pelos da coberta pinicavam a pele, um ronco seco mugia na barriga murcha, e o filho pequeno com seus olhos de gado magro; sempre procurando algo nos olhos da mãe — estaria doente? — Teria que levantar e preparar o café, pegar o pão murcho da vasi- lha de plástico, e ao menos o café esquentaria seu estômago sedicioso. — As máquinas de tra- balho, as loucas movedoras do progresso humano funcionam assim... E ao final do domingo ouvia-se a segunda-feira chegando, o batuque frenético do ligar da máquina... O apito febril corta as cabeças como se atravessando nuvens em bolinhas, sem cor, triste algodão doce branco, mas era açúcar? Creio que amargo, pois ninguém parecia estar feliz. Parecendo crianças birrentas, estressadas, foram acordadas justamente quando o sono ficou gostoso — como se estivessem voando e um marginal cortasse suas asas! E a louca emotiva semana iniciou sua mastigação de minutos, segundos e pessoas. Cedinho, entre cinco e seis da manhã, despeja levas e mais levas de trabalhadores na cidade, como reba- nho marcado fazendo de tudo para sorrir no fim de mês, e conseguem... Ora!... Essa é a felicida- de de comprar as coisas, só não pode é ficar doente ou precisar da Justiça, não é isso que o go- verno fornece pras indústrias & comércio?...
  6. 6. 6 | Rogério Prego ............................................................. Não voam nem se pode flutuar! Como sempre, Edileusa deixa o pequeno na creche, etecétera e tal... Revoava em sua cabeça a voz do Seu Nogueira: “Já procurou se pega o bolsa família? A senhora não têm irmãs?” — “A senhora não têm irmãs?” — ela balbuciou entre lábios. — Deus do céu dê-me forças! Hoje falo com Jandira! — Mãe! Ainda vou ganhar o suficiente pra dar pra senhora uma vida melhor! — exclamou o pequeno Robinson na porta da creche... Tão pequeno... Edileusa tomou-se surpresa, impotente, não encontrou palavras. Mulher de triste sina. Per- dera o marido e os filhos grandes que trabalhavam. Só lhe restava um peso extra, criança inap- ta ao trabalho, mas era bom menino — seria louca em por todas as suas esperanças nele? — Queria-lhe bem, isso já era o suficiente para si. Logo vieram encaminhá-lo para o interior da creche, e ela não precisou inventar palavra. Despediram-se de longe com pequenas lágrimas. Robinson decerto, sentindo que sua mãe nun- ca mais voltaria, livrara-se do peso. Enquanto Edileusa, decerto, sentindo que daquele fardo nunca poderia se livrar. Vocês que fazem parte dessa massa Que passa nos projetos do futuro É duro tanto ter que caminhar E dar muito mais do que receber... “Admirável Gado Novo” (Zé Ramalho) >> << Dois rapazes esquálidos desciam a rua em bairro de trabalhadores, mesmo ainda cedo, não se via movimento. Um vestido de moletom preto velho, com capuz cobria a cabeça, mãos enfiadas nos bolsos do moletom na altura da barriga. O outro também vestido de moletom, só que bege camuflado, mantinha o capuz nas costas, de cabelos castanhos e bochechas murchas. Ambos de bermuda tactel e chinelos, mas estampas diferentes. Param diante o portão de uma casa, olham ao redor, o de moletom bege camuflado exclama: — Junta as mãos aí!... — Vê se num demora, Marco! — disse o outro dando apoio com as mãos. Marco, do muro sumiu para dentro da casa, o de moletom preto enfiou as mãos no bolso da blusa e olhou ao redor, ficou na vigília, aflito. Um bom tempo depois, Marco reapareceu. — Psiu... — fez. — Porra véio, cê demorou! — o outro resmungou pegando a sacola grande que Marco trazia, este pulou pra calçada. A sacola estava abarrotada de coisas, os rapazes riam e sorriam, e se repreendiam quando o outro fazia um tom mais alto. — O velho ainda tava com grana môcada, pira? Saca só! — Marco mostrou um bolo de di- nheiro, o outro fez barulho de risadas na garganta. E se foram subindo a rua. — Seu Aurélio vai te matar quando te pegar! >> << Aurélio, marido de Jandira a irmã mais velha de Edileusa. Baixo e gordinho, de cabelos ralos arrepiados, olhos arregalados, sorria e ria como um lunático mostrando os incisivos centrais separados e grandes. Motivo de piadas, chistes e chacotas na rua e no emprego, mas em casa era enérgico e potente em todos os sentidos. Além de Jandira tem em casa um casal de filhos.
  7. 7. Príncipe dos Lobos | 7 Petúnia, a filhinha, a princesinha, o dodói. Marco, mais velho que a princesa, e um pouco mais velho que Robinson, é o mau criado, obsceno e perverso — o capeta em pele de criança. Aurélio passou as mãos nas coisas de Edileusa, vendeu o que prestava e tacou no lixo o que não dava pra vender. Enfiou as trouxas da cunhada no porta-malas do Monza GLS ’96; largou a chave da casa com uma vizinha; e chisparam antes de ouvir o arrastar dos chinelos do Seu No- gueira e a respiração molhada do pastor alemão. Aurélio não queria saber e não deixou Edileu- sa expressar qualquer opinião, ou desejo. Durante a semana levou-a para fazer o cadastro do bolsa família, pegar cesta básica do município, e tudo o que ela tinha direito como mãe pobre, desempregada e viúva. Disse pra mulher Jandira: — Queria uma empregada? Agora tem uma de graça, então desfaz essa cara de bosta! — sol- tou uma gargalhada depravada e apertou a bunda da mulher. Edileusa enrubesceu envergo- nhada num canto com o filho. Depois que Aurélio saiu remedando a própria gargalhada, ela se aproximou da irmã carran- cuda. — Se preocupa não, o incômodo será por pouco tempo, irmã! — disse em tom de suplica. — Por pouco tempo? — tornou Jandira. — Do jeito que o Aurélio ta empolgado? Só do muni- cípio tu arrancou duas cestas básicas pra ele... Larga de ser fingida, Edileusa! Foi a primeira a casar, se achando superior às irmãs, de mim principalmente, a mais velha encalhada né? Agora, olha aí a viuvinha safada de olho no marido da irmã mais velha! — exclamou e riu como uma gralha matraqueira. — Que isso, Jandira? Deus-me-livre... Misericórdia!... Jandira ainda ria como uma gralha matraqueira, enquanto Edileusa enrubesceu envergo- nhada, retirou-se com o filho para o quartinho de empregada. Cama de campanha forrada com sapeca-negrim, um armário e suas trouxas. Edileusa sentou na cama de campanha desconsola- da arfando no peito a tristeza, e a saudade do marido. Robinson permaneceu no canto quase escondido atrás do armário. — Sai daí, menino! Ele saiu e veio para perto da mãe: — Mãe! Ainda vou ganhar o suficiente pra dar pra senhora uma vida melhor! — exclamou Robinson. — Eia... Agora só sabe falar isso? E o que vai fazer menino?... — Vou comprar coisas pra vender... E vou ganhar o suficiente pra dar pra senhora uma vida melhor... Foram interrompidos pelo bater violento na porta, e Jandira gritando: — Hei viuvinha passista de escola de samba, tem muito que fazer aqui!... Vê se não me enro- la! Edileusa levantou e antes de abrir a porta, olhou para o filho, tomada de estranheza. — Eu, hein?!... “Dinheiro não se acha na rua!”. Fique aqui!... — abriu a porta e saiu fechando- a atrás de si. — Passista de escola de samba?... — Edileusa perguntou para escárnio da irmã: — É!... tá fazendo regime né, safadinha, querendo ser passista de escola de samba! Edileusa olhou-se surpresa, sabia que era fome, e não regime, mas sentiu-se orgulhosa. Re- cebeu o cabo do esfregão das mãos da irmã e quase saiu se exibindo, sambando. Mas enfim, enrubesceu envergonhada. >> <<
  8. 8. 8 | Rogério Prego Edileusa lavava, passava, limpava, escovava, fazia almoço. Jandira lixava as unhas, engordava, e ria como uma gralha matraqueira e monitorando a irmã, dava ordens e depois inspecionava. Eram assim todos os dias de Edileusa. Enquanto Robinson passava a maior parte do tempo no quartinho. Ele sentia o cheirinho do almoço repercutindo no ronronar de sua barriga, mas às vezes sua mãe o esquecia, pensava: “Coitada, trabalhando muito!”. Marco abriu a porta do quartinho e ficou olhando Robinson, depois perguntou: — Por que não sai daí? Penso que você é doente. Será que é surdo? ...Ou mudo? O que há com você?... Você é retardado? >> << Edileusa limpava a casa da irmã envolvendo o filho, o rodo, a vassoura, os calos, enquanto sua alma esvaia-se pelos olhos... Seca e vazia! Sem valor objetivo na vida padecia entre interroga- ções amargas e angustiantes. “Já que se morre nada tem importância, a resignação se torna le- gítima, e todo empreendimento se reveste de um caráter provisório e relativo”. Edileusa percebia os olhos de Robinson sobre ela — e como a incomodava aquele olhar de gado doméstico, magro, faminto. — Por sua vez, Robinson preocupava-se com a mãe, mas era pequeno e se sentia um idiota, o que faria? Edileusa deu-lhe um sopapo forte no pé do ouvido, e um beliscão doído no ombro. Robinson, com medo das pancadas, voltou-se para sua vida furtiva, sem chamar atenção. Não falava com ninguém e ajudava a mãe cansando-se ao máximo possível para não ter forças para pensamentos. Edileusa ia dormir cedo. Às vezes Robinson ficava parado perto do portal entre a cozinha e a sala, observando os modos de Aurélio. Aurélio esparramado no sofá, no canto da sala, assistia a sua novela. Jandira mais para o lado da porta que dava para garagem dormia numa cadeira de fio de nylon. Quando chegou Petúnia, que foi logo sentando ao lado do pai, ele a abraçou com a direita acariciando o joelhinho da fi- lha com voz de mimar. Petúnia, uma boneca segurando outra, a princesinha do papai. Brincando como se a filha fosse boneca, colocou-a no colo, levantou sua saia, acariciava com voz de mimar. E ocupado no brincar com o corpo da filha, nem poderia notar, que era Robinson diante do portal, impassível no escuro da cozinha, observava as carícias, escutava a voz de mi- mar de Aurélio, o arfar ressonante de Jandira. De repente, de frente com Robinson, surgiu Marco, na cozinha a meia luz que vinha da sala, suas bochechas estavam ligeiramente estufadas, cenho duro, franzido. Os meninos se olharam. — O que está xeretando? — Marco perguntou cochichando ao primo, o qual indiferente não respondeu. Olhou de relance o que Robinson observava, depois fixou seu olhar no pai dizendo ao primo: — Bem que você poderia me ajudar a matar ele! — voltou a fitar Robinson, o qual permane- cia silencioso. — Você é doente? — Marco objetou. — Penso que você é mudo... Você fica excitado? — aproximou e deu tapinhas nas partes íntimas do primo. — Hei!... — Robinson reagiu. — Xip!... — sussurrou Marco fazendo sinal de silêncio para o primo e sorriu dizendo: — Então você fala?... — riu baixinho e agarrou Robinson pelo braço. — Vamos ficar ali no cantinho, só nós dois! Robinson empurrou o primo, mas Marco o segurava forte pelo braço, quase cravando as u- nhas. — Vem!... Vem!... — fazia Marco arrastando Robinson para o canto mais escuro da cozinha.
  9. 9. Príncipe dos Lobos | 9 De repente a luz foi ligada, Marco soltou Robinson, era Jandira ainda ressonando, nem nota- ra os meninos, foi direto à geladeira. Robinson correu para o quartinho da mãe Edileusa. Marco ficou fitando os movimentos da mãe Jandira, com ódio nos olhos. >> << As cenas eram repetidas, se repetiam quase diariamente, com acréscimo ou decréscimo de um ato. Quando Aurélio não estava acariciando a filha no colo com voz de mimar, estava sur- rando Marco no colo com voz de fuzilar: — Chora cão!... Chora cão!... — Aurélio gritava, Marco endurecia as nádegas e o cenho, não chorava e nem pedia ao pai que parasse. — Chora cão!... Chora cão!... — Aurélio gritava. Jandira lixava as unhas e ria se divertindo toda, tremelicava de prazer. E as surras que Marco levava, para Robinson, não pareciam ser muito diferentes do que ele fazia para merecê-las. Traseiro esfolado, Marco suspendia as calças e corria para o fundo da casa. E a falta de pai não tem nada que remedeie. O carrasco, esse sim se fazia sempre presente, o que era pai, senão car- rasco? Noutros dias era um silêncio absoluto de gente, salvo o som da TV. Edileusa e Robinson fica- vam no quartinho de olhos fitos no escuro, na mesma cama de campanha; quatro fracas luzi- nhas perscrutando o escuro. Remoendo imagens lacrimejadas... O sorriso do marido aparecia- lhe nítido, bonito, pura alegria e arte de viver. O resto da imagem lacrimejada pelo tempo desli- zava salgada marcando vincos no rosto, diluindo-se evanescia. Podia ver os vultos dos filhos mais velhos, se arrumando para o trabalho com o pai, na cozinha tomavam o café, beijavam a mãe graciosa. Chegou a trágica notícia que todos estavam mortos. Seu pranto apagava-se la- crimejado, entre sulcos, nos vincos envelhecia na memória, embranquecida evanescia. E a fraquinha luz que cintilava nos olhos de Robinson, bem que poderia ser o sol de uma re- mota tarde ou manhã, não se lembrava dos irmãos nem do rosto do pai. Lembrava-se apenas dos dedos do pai batucando samba no balcão do boteco, que talvez ficasse entre sua casa e a padaria. Imitando bateria de escola de samba esperava ansioso o gole da pinga. Nós grossos, tendões enérgicos, flexionavam em passos marcando tempo como baqueta, batia o polegar. Imagens lacrimejadas, mãos calejadas e vincadas de rachaduras, mãos de trabalhador bra- çal. De pobre lavrador que preparou a terra, para pobre servente que preparou o cimento. Sem saber que ele mesmo era a argamassa, parte da massa de manobra política. Expropriado de sua alcova sonhou em ser o próximo felizardo ganhador da loteria. Aí sim, ele seria rei e legislador da própria vida. O pobre garoto que acompanhava o pai seria doutor! Na gaveta ainda estava o envelope de plástico, com seus jogos da loteria, sonho que se apagou lacrimejado com ele, entre sulcos e vincos envelhecia na memória, embranquecida evanescia entre fendas de labirinto. E a falta de pai não tem nada que remedeie — aquele que guardava o futuro do filho, mesmo que por ventura marionete dos seus sonhos —, teria o seu direito de viver em paz, acolhido decer- to. A novela escandalosa da TV rompia o silêncio, exemplo mau feito de convivência conjugal e familiar, preenchia os desejos. Por isso os dias eram os mesmos, e as semanas eram as mesmas. Por conseguinte, os meses esvaiam-se, a vida inteira jogada no sofá — naquela coisa chamada vida, Edileusa e Robinson sobreviviam. Enquanto, os lobos uivavam pra lua. Os anos engoliam gente, vomitava indigentes, remexia feridas. Eram azuis, pois o ano composto de ar é muito, muito azul claro. Seu jorro vibrante tira o fôlego do céu pintado durante o nascer e o pôr do sol. Aurélio chegava frustrado do trabalho. Bêbado e com raiva dos amigos que viviam fazendo de si a piada do dia. Não se contentava com sua bonequinha, ou em espancar o filho, ia pra cima da esposa e surrava-a como um animal endemoniado. Levava-a pro quarto e a estuprava. Jandi-
  10. 10. 10 | Rogério Prego ra invadida pelo demônio gemia em transe louco. Aurélio grunhia como um porco, e saciava-se sobre a carne que espancava. Edileusa e Robinson refugiados no quartinho eram quatro brasas no escuro perscrutando a gritaria lá de fora. Robinson escutava as gargalhadas de Marco no fundo da casa. O que era pai, senão carrasco? No outro dia, Edileusa objetou a irmã: — Até quando vai aguentar isso, minha irmã?... — Ah, viuvinha perva! Então fica ouvindo de trás da porta né, com inveja do pau grande, e pesado do meu marido! Você tem muito que fazer aqui!... Olha as roupas sujas! — e ria como uma gralha matraqueira enervada de luxúria louca. — Que isso, Jandira? Deus-me-livre... Misericórdia!... >> << Glorinha, a irmã mais nova, apareceu num fim de semana com o marido Geraldo. Baixa, cabelos tingidos de loiro com raízes pretas, biotipo entre a gordura de Jandira e a magreza de Edileusa, de sorriso contido, mas alegre e desenvolta. Aurélio encheu-se de indiretas e brincadeiras para envergonhar a cunhada e principalmente o concunhado Geraldo, gari como a esposa, não ligava para os abusos de Aurélio. Geraldo é magro, e perto dos demais parecia ser alto. De voz fanho- sa, que tentava disfarçar prendendo o ar na garganta ao falar. Aurélio não gostava das visitas, e fazia de tudo para demonstrar indiretamente. Edileusa, só carinhos com a irmã mais nova, o que para Aurélio não passava de bajulação. — Por que não vai morar com ela? — ele indagou subitamente Edileusa, e ao ver as irmãs enrubescerem completou: — É só pocrizia! — E você deixa Aurélio? — contrapôs Jandira rindo, trazendo cerveja. — E por que não?! — ele replicou irritado. Jandira se calou, um minuto de silêncio constrangedor. Geraldo tomou um gole da cerveja, e tentou tirar uma nota de suas cordas vocais, para quebrar o silêncio, mas sem argumento en- gasgou-se prendendo o ar na garganta reproduzindo apenas um “é” sustenido. Glorinha tor- nando a nota natural tomou para si um argumento bequadro: — Estamos pensando em trocar nosso carro por outro mais novo! ...Agora que estou traba- lhando na Prefeitura, está muito fácil de abrir crediário, sabe? A melhor coisa que eu fiz foi fa- zer esse concurso. É uma profissão digna como outra qualquer. Mas ainda tem gente com muito preconceito, que prefere ganhar menos em outro trabalho! — Você varre rua? — perguntou Jandira. — Sim, e foi varrendo a rua na porta da cessonára, quer dizer, como diz mesmo, Geraldo? — Glorinha riu alto. — Concess. ... — Concessionária isso! — riu. — Foi varrendo a calçada da concessionária, que eu encantei nesse aí que temos, o vendedor me chamou pra entrar... Nossa, eu nem sabia que varredor de rua podia comprar um carro, mesmo sem experiência profissional — continuou rindo. — Es- tamos pagando juntos, eu e o Geraldo. Geraldo ficou sem graça, Aurélio riu da cara dele, mas antes que fizesse uma piada, Geraldo passou na frente: — É... mas agora tou pagando sozinho, né Glória? — Glorinha confirmou com a cabeça. — É... a Glorinha tava achando que o que eu tinha era sem jeito, mas tava mesmo, sabe?... — Também quero trocar os móveis, mas já fiz primeiro crediário pra comprar os eletros de casa... tamo com TV grande de LCD. Trocamos geladeira... E o carro, né gente! tamo fazendo plano pra trocar o carro!
  11. 11. Príncipe dos Lobos | 11 — Eu acho que podemos fazer as coisas juntos, num sabe? — Geraldo rebateu rubro. Ele usa camisa aberta no peito, e jura que ali se encontra um tufo de pelos, que fica cofiando. Mas na verdade tem o peito pelado e franzino. E ainda rubro, completou: — Sou eu que pago o aluguel, energia, água e essas coisas! O casal falou de mais feitos em conjunto, mas em conjunto não engrandecia os feitos. Todos começaram achar que Geraldo não dava conta de sustentar a casa sozinho e precisava da mu- lher. E ainda, acharam que Glorinha estava trabalhan- do de mais por conta da “frouxidão” do marido. Edileusa achava graça, olhou as horas, e correu para cozinha para preparar o almoço. — Eia Geraldo, mas você está frouxo hein! — afirmou Jandira. — É a mulher que tá fazendo as coisa tudo... Olha aí Aurélio! Aqui é assim não, Glorinha! Geraldo engoliu o machismo que a cunhada lhe atirou na cara, seco pela goela, pois tremeli- cando tacou um gole da cerveja goela abaixo pra ajudar a descer a injúria sofrida. Enquanto Aurélio deu de ombros, perguntando a cunhada: — Quanto está ganhando, Glorinha? — Ué, chega ao final das contas uns R$ 1,200 mil... — E eu recebo mais, ó gente! — insistiu Geraldo. — É que vocês não sabem o que é crescer juntos... Não que estava feio sem a Glória trabalhando. Mas com ela trabalhando só nós dois conseguimos quase R$ 5 mil, poxa. Fora os menino que não dão despesa, o mais novo mesmo tá trabalhando de aprendiz, olha hein...! O mais velho já está se preparando pro próximo concurso da Prefeitura...! — Quanto vai custar a nossa piscina, Aurélio? — Perguntou Jandira ao marido, ignorando Geraldo. — Minha piscina? — Aurélio retornou a pergunta, mexia nos dedos do pé, averiguando algo. Todos repararam Aurélio mexer nos dedos, e este sentiu necessidade de se explicar: — Eu estava com umas frieiras entre os dedos, mas nossa...! como tava ruim. Agora tá bele- za! Ontem no banheiro pedi pra Jandira fazer xixi no meu pé, me falaram disso. E olha só! — Aurélio mexeu com os dedos para todos verem: — Novo em folha! Geraldo chegou a se aproximar pra averiguar, achou interessante. Glorinha riu olhando para irmã. — Ora gente! — disse Jandira envergonhada. — Disseram que urina de mulher é bom...! — se explicou irritada. — Até o xixi tem serventia, né mesmo?! — disse Geraldo rindo, e ao ver a cunhada doída, sentiu-se vingado. — Então, só a minha piscina é o salário de vocês! — Aurélio explicou e riu grave. — Hum... Piscina? — Glorinha encantou-se. — Piscina...! — Geraldo prolongou o encantamento. — O senhor ainda está lá na oficina com o Janjão? — Que Janjão?! Aquele ali é um zero, rapaz! Estou na oficina da Vôksí, trabalhando com ca- minhão grande, entende? Só com a hora extra eu pago o pedreiro e o oreia pra fazer minha pis- cina! E então, Edileusa? Já tá saindo o almoço?! Aurélio regulava a cerveja, a visita ficava com copo vazio tempão. Jandira abria mais uma garrafa, Aurélio fazia cara feia, fazia piada com a cara da mulher que estava ficando tonta, gri- tava pra Edileusa trazer alguma coisa. Os meninos espiavam, passavam na frente. Petúnia era elogiada daqui e dali, enquanto pai ficava orgulhoso. Robinson deslocado se movimentava pe- los cantos, Marco ora fingia que ia chutá-lo ora que ia socá-lo, e tentando fugir do primo, Robin- son esbarrou na mãe, levou um beliscão doído no ombro de lacrimejar os olhos. Marco correu atrás do cachorro. Geraldo cofiava seus pelos imaginários, e Glorinha contava o que queria fa-
  12. 12. 12 | Rogério Prego zer em sua casa, que tinha visto uma piscina de plástico na promoção, de plástico, mas bem grande, mostrou o tamanho. “Bem grande mesmo!” — dizia, e Edileusa por fim serviu o almoço. O cachorro gritou no fundo da casa, Jandira gritou de volta que ia esfolar Marco se ele não pa- rasse de atazanar o pobre do cão. Depois de almoçar, Aurélio saiu pra ver TV, e dormiu no sofá, enquanto Jandira foi pra cama. Edileusa ressonava sentada na cadeira, então Geraldo e Glori- nha viram no relógio imaginário a hora de ir embora. >> << No sábado, Robinson estava de cócoras, próximo ao tanque de lavar roupas, na área de serviço contígua à cozinha. Quando o cachorro o viu, rosnou mostrando os dentinhos, porém tornando- se dócil, veio receber os carinhos dele. Nas primeiras escovadelas de seus dedos no pelo curto do cão, foi surpreendido pelo chutão que Marco deu no meio do cão, que saiu ganindo. Assus- tado, Robinson caiu para trás sentado olhando Marco, que ria morbidamente apontando o dedo na sua cara — mostrando decerto, que este estava assustado. Levantava as sobrancelhas e a- pertava a gargalhada na garganta, quando sua mãe veio da cozinha espavorida dando-lhe socos e tapas na cara e onde mais acertava, Marco foi parar caído perto do muro do corredor que da- va pra frente da casa e pros fundos. — Seu moleque! — gritou Jandira. — Quer matar o cachorro?! — e foi atrás do cãozinho es- ganiçado, e ouviu-se o som carinhoso da voz da mulher lá no fundo da casa. Marco escorou no muro, uma perna esticada, a outra dobrada, cotovelo apoiado no chão, ria segurando a voz rouquenha na garganta. Com os dedos acariciava os lábios, decerto doíam por causa das pancadas da mãe, mas ria da cara do Robinson, mais assustada ainda. Uma voz de menina cortou a loucura da manhã, Robinson levantou as vistas e viu a prima Petúnia, segu- rando a boneca, vestidas iguais, perguntou ao irmão: — O que aconteceu? — Ele chutou o cachorro! — disse apontando o Robinson. Antes que Robinson dissesse uma palavra, foi atingindo pela boneca na cabeça, quatro vezes, a mãozinha de plástico da boneca cortou-lhe o lábio, Marco caiu na gargalhada socando o chão, e não viu sua mãe voltando com uma vassoura. — Do que tá rindo?!... — ela gritou dando vassouradas no menino, ele levantou sob as vas- souradas e correu pra rua. Na passagem pra cozinha, Jandira deu vassourada em Robinson, como se o varresse para debaixo da cuba do tanque. Petúnia correu da mãe gritando: — Se me tocar, conto pro papai!... — Ah sua vadiazinha!... Naquele sábado, Aurélio trabalhou até tardinha. Quando o papai chegou, a menina correu e contou-lhe que a mãe havia batido nela com a vassoura, mentira é claro, que a mãe tentou ex- plicar ao papai. Não adiantou nada, nesse fim de dia quem acabou apanhando feio de cinto foi Jandira. Enquanto Robinson escutava as gargalhadas de Marco no fundo da casa. Agora era Marco quem tremelicava vingado de prazer. Mas, dessa vez, Edileusa levantou da cama, deu um tapão e um beliscão em Robinson exclamando: — Fica quietinho aqui hein! Se sair do quarto quem vai apanhar de peia é você! Ouviu?! — e saiu fechando a porta atrás de si. Robinson ouviu o grito da mãe na sala onde Jandira apanhava de cinto do marido. — Para com isso, homem! Isso não é coisa de Deus...! Jandira, com a blusa rasgada, livrou-se do marido e pulou na irmã segurando-a pelos cabe- los, dando-lhe joelhadas, puxando os cabelos dela gritou: — Viuvinha sem vergonha!... Vai morrer com inveja?!...
  13. 13. Príncipe dos Lobos | 13 Edileusa assustada apanhava sem reação, pois sua intenção era ajudar a irmã. Aurélio, sem camisa, jogou-se entre as irmãs, separando-as empurrou a mulher para trás. Jandira caiu no sofá gritando, enquanto Aurélio agarrou a cunhada. — Ah...! Cunhadinha...! — E lambeu o rosto de Edileusa, ele fedia a álcool. Aurélio arrastou a cunhada pro quarto. Jandira levantou do sofá e tentou tirar Edileusa das mãos de Aurélio com tapas e pontapés. Aurélio continuava a arrastar Edileusa pro quarto, quando chegou à porta empurrou Jandira para trás novamente. Trancou-se com a cunhada no quarto, esta gritava de desespero, e Jandira de raiva surrava a porta, rosnava como um cão xin- gando a irmã. Robinson no quartinho escutava tudo, chorando, em desespero tentou abrir a porta, mas descobriu que a mãe havia trancado. Ouvia as gargalhadas de Marco no fundo da casa, e o outro como um animal endemoniado grunhindo como um porco. O animal se cevava sobre a carne que espancava. Edileusa, invadida pelo demônio parecia gemer em transe entre pavor e prazer. Robinson lembrou-se do tapão, do beliscão e ordem da mãe, e se escondeu atrás do armário com medo dos lobos. Jandira chorava, urrando surrava a porta, e xingava a irmã. Os gritos e gemidos se mistura- vam na cabeça de Robinson, até que achou dentro de si, um canto escuro e silencioso. De re- pente estava na cozinha da velha casa, onde morava com a mãe Edileusa. Uma sombra perto da pia fazia movimentos de lavar pratos, e à sua esquerda, o cão de Seu Nogueira, de orelhas em- pinadas parecia um lobo parado olhando Robinson. A porta do quarto abriu, Robinson viu sua mãe nua e machucada. Ela fechou a porta atrás de si, e o escuro tragou os sons e qualquer coisa que pudesse identificar o sábado. No domingo, perto do meio-dia, Glorinha e Geraldo apareceram. Jandira e Aurélio estavam na garagem. Jandira lixava as unhas do pé de Aurélio, e Geraldo encontrou-se num estranha- mento, ao mesmo tempo inveja. Glorinha reparou nos hematomas da irmã, e marcas de unha- das no cunhado que estava sem camisa. Jandira passou os olhos em Glorinha e Geraldo, mas voltou sua atenção aos pés do marido, serviço que realizava com toda cerimônia, e, dedicação. — Vieram filar a boia? — indagou rindo Aurélio. — Nada, uma visitinha... — replicou Geraldo, também sorrindo, e nem reparou em hemato- mas ou marcas de unhadas. — Ê vidão hein, quem dera eu... — Isso não está pra gari, rapaz! — Aurélio riu como um burguês, uma risada com escárnio intento. Geraldo riu envergonhado por sua posição social, enquanto a esposa passou na frente, preo- cupada: — E Edileusa?... — Ora, fazendo o almoço! — respondeu rispidamente Jandira, sem olhar no rosto da irmã. — O que ela estaria fazendo? — Licença! — falou Glorinha constrangida e foi entrando. Geraldo ficou parado lá na entrada da garagem admirando o casal em sua toalete, enquanto cofiava seus pelos imaginários do peito. Não sabia por qual razão, mas achava aquela cena bo- nita por demais. “Coisa de gente que tem dinheiro!” — passou pela sua cabeça. Glorinha encontrou Edileusa na cozinha preparando o frango para por no forno. Com hema- tomas no rosto e braços, parecia um zumbi, se assustou quando viu Glorinha. Baixou a cabeça e disfarçou-se com um sorriso constrangido. — Ah, minha irmã. Eu imaginei mesmo que você viria! ...Que bom! — disse ela. — O que aconteceu, Edileusa?
  14. 14. 14 | Rogério Prego Edileusa proferiu qualquer coisa inaudível, e continuou sua tarefa de cabeça baixa, evitan- do olhar para irmã mais nova. — Você e Jandira com hematomas, Aurélio com ranhões no peito, no rosto... O que está con- tecendo nessa casa? Fale pelo amor de Deus! — Vocês são muito invejosas! — Jandira pronunciou em voz alta entrando na cozinha. — Is- so sim! INVEJOSAS! Só porque casaram primeiro do que eu, a irmã mais velha encalhada né! — Calma Jandira... Antes que Edileusa terminasse a frase, Jandira lhe deu uma bofetada na cara. — Cala a boca! Ainda tem coragem de me dar ordens?...! Depois de se atracar com meu ma- rido ontem!...? Glorinha arregalou os olhos. Jandira continuou: — É...! maninha. Essa viuvinha perva atracou no meu marido ontem...! Edileusa encolheu-se no canto e começou a chorar. — Não...! eu quis te ajudar... mas ele me arrastou pro quarto e... — articulou chorando, en- gasgada, não conseguiu terminar. Glorinha arregalou ainda mais os olhos e entendeu tudo: — DEUS DO CÉU! MISERICÓRDIA DEUS PAI! Os meninos apareceram assustados, e Jandira ficou vermelha como uma pimenta, tinindo de raiva: — Hei...! — exclamou virulenta. — Quem você acha que é pra gritar dentro da minha casa, li- xeira! Já disse...! é invejosas sim, meu marido pode ser baixo mas tem um pinto enorme e pesa- do, pergunta pressa safada aqui...! — e apontou pra Edileusa que estava em prantos. Indignada Glorinha urrou: — Misericórdia...! Essa mulher é doida! Essa mulher é doida!...! Glorinha puxou Edileusa pelo braço, enquanto Jandira ainda falava em voz alta os dotes des- comunais do marido, insistia que eram invejosas por isso. No caminho para o quartinho de Edi- leusa, Glorinha agarrou Robinson pelos cabelos, escorregou rápido a mão pelo rosto do meni- no, arranhando-o com as unhas, segurou-o pela nuca e arrastou mãe e filho para o quartinho e saiu pegando suas coisas e enfiando nas sacolas, armando trouxas. Jandira atrás xingando, e enxotando as irmãs, e Glorinha gritando pelo marido: — Geraldo! Geraldo! Geraldo...oô!...! — e depois urrava: — Misericórdia...! Essa mulher é doida! Essa mulher é doida...! — Seu marido nem deve dar conta de levantar uma lata de lixo... O outro coitado, já virou pó no caixão... — Jandira ria como uma gralha matraqueira enervada de luxúria. Geraldo apareceu com olhos arregalados: — O que foi mulher?...! Que escândalo é esse na casa dos outros...? Hã...! O que seu Aurélio e dona Jandira vão pensar...? Hã...! Jandira riu ainda mais alto. — O que foi mulher?...! — Geraldo indagava Glorinha, com olhos ainda mais assustados. — Vamo levar eles pra nossa casa, agora...! — ela gritou, e Geraldo não objetou, saiu arras- tando as trouxas e sacolas, enquanto Glorinha arrastava mãe e filho como se tirasse bonecas sem expressão da casinha que não lhes serviam mais. — Seu Aurélio tava me mostrando — ia dizendo Geraldo com satisfação a mulher — onde vão fazer a piscina. Os peão já até demarcaram... Aurélio ajudou Geraldo a enfiar as coisas no porta-malas do Gol “bola” vermelho, enquanto Glorinha batia a porta do carro. Edileusa e Robinson estavam no banco de trás como bonecas inanimadas recém-retiradas da menina má. — No final do mês a piscina já deve estar cheia d’água! — Aurélio falou pra Geraldo.
  15. 15. Príncipe dos Lobos | 15 — Entra logo nesse carro, Geraldo! E vamos embora...! — ordenou Glorinha. — Liga pra isso não, seu Aurélio! É coisa de mulher, logo elas se acertam. No final a família sempre permanece unida! — E quem disse que eu ligo pra isso, rapaz?! — tornou Aurélio. Geraldo desconversou desconsertado, sem estranhamento despediu-se da cunhada, do con- cunhado, entrou no carro e partiram. No banco de trás Edileusa sentia o balançar do carro, es- correu uma lágrima de seus olhos. Robinson em choque escorou a cabeça no ombro da mãe. >> << A casa de Glorinha e Geraldo, em bairro afastado do epicentro citadino, tinha telhas Eternit. Fincada num lote grande cercada por muro sem reboco, de tijolos amarelo avermelhado. O mo- fo parecia levantar-se da terra escalando o pé do muro. Uma parte do lote, coberta por grama alta, e plantas tipo praga, tem na frente uma mangueira alta, de folhas grossas e verdes escuro. O carro atravessou o portão azul desbotado arreganhado para sua passagem. Os pneus rolaram na entrada de cimento batido que se estendia e ainda formava uma rampa e a varanda cercada por mureta. O carro fica na entrada de cimento, descoberto, o que justifica o desbotado no teto. A varanda é sombreada, têm cadeiras de fio de nylon, de onde levantou um rapaz aparen- tando uns 14/15 anos, ele veio ao encontro dos que chegavam acompanhado por um cachorro de pelagem branca lustrosa malhada de preto, com uma “máscara” marrom em torno dos o- lhos. O cão despreguiçou e fazendo charme com seu olhar dócil atingiu Glorinha e os demais que desciam do carro. Robinson reparou que o cão não parecia um lobo e também parecia ter a barriguinha satisfeita, e bem alimentada. Pequeno, porém maior que o cachorro da casa da tia Jandira. Geraldo abriu o porta-malas, e o rapaz foi até ele depois de cumprimentar a tia Edileusa com um lustroso: “BENÇA TIA!” — Ajuda aqui, Cláudio! E você também, Robso! — ordenou Geraldo. Robinson já estava acompanhando a mãe e a tia para o interior da casa. Assustou-se com seu nome mal falado na boca de Geraldo, mas voltou pra pegar as sacolas, enquanto Cláudio se a- garrou à trouxa. Quando subia a rampa seguindo Cláudio, viu um rapagão surgir do interior da casa, aparentava uns 17/18 anos. Sem camisa, de bermuda e chinelos, coçava o peito, articulou uma confusão de notas agudas e graves: — Ué, voltaram rápido! Mãe e filho juntos ficaram sentados no sofá de capa alaranjada desbotada, aliás, na sala a TV grande de LCD, o DVD, e o microssystem destoavam chamando a atenção nos móveis desbota- dos e desgastados. Mãe e filho estavam cercados por Glorinha, Geraldo e os seus dois filhos. O silêncio junto com o olhar de Robinson percorreu a sala. Edileusa permaneceu de cabeça baixa o tempo todo. “Será que é uma nova vida?” Ora, quem sabe, não é isso que o seio familiar sempre promete? A família é uma associação de ordem na- tural, e religiosa, e essa se parecia com um lar. Geraldo é modesto, porém confiante e trabalha- dor, seus filhos seguem o mesmo caminho, assim como Glorinha, que mostrava um sorriso en- corajador à irmã. Até seu pesinho extra, parecia confortável, com aqueles olhos de gado magro investigando a casa, com medo de que um lobo surgisse de um canto e pulasse nele, mesmo assim parecia estar confortável, mesmo assim! O que viria depois? Ora, dias e noites, semanas e meses, minutos e horas... A vida. >> <<
  16. 16. 16 | Rogério Prego No dia seguinte, os rapazes sumiram cedinho pra escola, Geraldo e Glorinha saíam para o tra- balho. Edileusa admirou a irmã no alto da vassoura, enquanto lhe dava as recomendações da casa, hora da chegada dos filhos, que não se preocupasse. Glorinha estava com cabelos bem amarrados para trás, de bandana dobrada e amarrada em torno da testa, uma enorme pochete na cintura, o uniforme e tudo o mais, o motivo da admiração de Edileusa. A irmã mais nova pa- recia algo bonito de se ver, saindo para trabalhar com o marido. Lembrou-se de tempos perdi- dos e fugidios. Ressentiu-se por achar graça do casal, em outra ocasião. Pois, a casa da irmã mais velha ainda era um emaranhado de sentimentos opressores que se enroscavam e escava- vam abismo sem fundo em sua alma, e por fim queria tampar a boca desse abismo. “Era vida nova!” — dizia para si. Robinson foi acordado pelo cascudo da mãe e com a voz dela trovejando em seus ouvidos: — É feio dormir até tarde na casa dos outros! “Na casa dos outros? Mas não era um lar?” — Robinson guardou a questão para si, pra não tomar mais cascudos. Por volta do meio-dia, os dois filhos de Glorinha voltaram da escola. César o mais velho pas- sou a mão na enxada e foi capinar, Edileusa surpreendida ficou admirando o sobrinho, e vendo Cláudio agarrado nos livros da escola, ficou mais encantada com aquele lar. Quando deram du- as horas, Cláudio saiu para o trabalho de aprendiz. Enquanto, César agarrou-se numa barra de ferro que tinha chumbado com cimento latas de tinta nas extremidades. Preparava-se para o concurso da Prefeitura, que além de prova escrita e exame médico, os garis precisavam provar força física. Queria trabalhar de coletor no caminhão equipado com prensa. — É trabalho pesado! — César dizia para tia Edileusa, numa confusão de notas agudas e graves, em ritmo frenético. Mais tarde, ele empilhou um monte de entulhos no carrinho de mão e correu pra lá e pra cá, em zigue-zague, em linha reta. Organizou os pedaços de telhas, canos, cabos de vassoura, tran- queira toda escorada no muro. No final da tarde, Geraldo e Glorinha voltaram do trabalho. Edileusa quis correr pra fazer a janta, se desculpando pela folga. Mas Glorinha riu, disse que não precisava que sempre trazia marmitas pra cada um. Geraldo elogiou César, notando o mato capinado e ensacado. Logo che- gou Cláudio, e a família se reuniu pra jantar. — Ué! — Glorinha exclamou, vendo que faltou uma marmita pro Robinson. — Eia, preocupa não, irmã! — Edileusa replicou. — Eu como pouco, divido com ele! Dá até gosto de ver essa família reunida! — disse em tom de alegria, em voz alta, vendo todos senta- dos com suas respectivas marmitas. Glorinha e Geraldo sorriram orgulhosos. Depois que terminaram a janta, veio a barulheira de amassar marmitas. Ranger de cadeiras sendo organizadas em torno da mesa. Edileusa e Robinson saíam do caminho de um, do outro. Deslocados foram parar na varanda. Glorinha, marido e filhos revezaram no banheiro, lavaram a boca e afins. Por fim, Geraldo sentou na sua cadeira de balanço na varanda, abriu a camisa e cofiou seus pelos imaginários: — Esse Governo atual é muito bom, dona Edileusa! Não precisamos viver de caridade dos outros. Temos o que é por direito nosso. Entende essas coisas? Uma vez me disseram que cari- dade e solidariedade são coisas diferentes, e acredito que seja! Ora, pense: caridade é quando alguém rico te dá um troco no natal, enquanto solidariedade é quando alguém igual a você em- presta a própria ferramenta pra você trabalhar. Mas num adianta de nada se você num tem o que comer em casa, vai ter força? E outra, e se o imposto está caro... Entende? Por isso quero ser solidário com a senhora, dona Edileusa! Conheço gente que trabalha para uma empresa terceirizada que presta serviços pra Prefeitura. E podem arrumar um emprego! E olha, tem uma vaga, o que acha?
  17. 17. Príncipe dos Lobos | 17 — Ó gente..., mas eu não sei fazer nada, seu Geraldo! — É pra faxina..., e que mulher não sabe fazer alguma coisa, hein? — Geraldo disse e riu com Edileusa. Robinson deslocado andava pra lá e pra cá, até que veio se escorar na mãe. Edileusa afastou o filho: — Eia, o que o seu tio vai pensar?! Que não consegue se sustentar nas próprias pernas...?! — Quantos anos têm? — Geraldo perguntou pra Robinson. Robinson proferiu coisa ininteligível balançando a cabeça, dando a entender que não sabia. Edileusa supôs umas datas, ano tal, por fim confirmou o ano de nascimento do menino com muita certeza. Geraldo balbuciou números, e contou os dedos, e espantado chegou numa con- clusão: — Já tá beirando os 11 anos! Está passado da hora de frequentar a Escola. Tirar registro! Vou pedir pro César ver isso, numa hora que tiver disponível. Menino em casa num presta não..., dona Edileusa! Estando na escola num dá despesas em casa! Em casa fica comendo, es- traga as coisas... Quando é pequeno é uma distração boa, depois vão crescendo e desandam a comer demais. Graças a Deus, os meus já estão grandes e trabalhando! — Eu vi! Coisa bonita de se ver, seu Geraldo! — ela falou e voltou-se para Robinson em tom zangado: — Vai vendo isso, peste! — VAI COMEÇAR A NOVELA PAI...! — César gritou da sala. Geraldo pulou da cadeira de ba- lanço e correu pra lá. A semana escorreu pelos dias, pontuada pelos minutos, e no final cada dia parecia com o ou- tro. A rodinha do carrinho de mão chiou todas as tardes, até que veio o dia da prova, e César não decepcionou ninguém. A comemoração foi festa em casa. Edileusa começou a trabalhar e voltava feliz. César conseguiu vaga na escola para Robinson, e começou a trabalhar no noturno como queria: pegar o lixo deixado nas portas das casas e comércio e jogar no caminhão equi- pado com prensa. — É trabalho pesado! — disse com emoção em tom grave sem desafinar. — Trabalho ma- drugada afora... E ainda faço cursinho pré-vestibular pela manhã! — E dorme como uma pedra até as 18hrs. Depois pula da cama, engole qualquer coisa e cor- re pra não perder a partida do caminhão equipado com prensa. — Cláudio completou orgulho- so com o irmão. César tem como inspiração o tio Geovane, irmão mais novo de Geraldo que encontrou no trabalho duro de gari, a oportunidade para ter uma vida melhor: — Trabalhando num período e estudando em outro consegui ser aprovado no vestibular para Educação Musical. Recentemente consegui ser transferido para uma função administrati- va para poder estudar... — É motivo de alegria ver um irmão crescendo na vida — explicou Gerson, o irmão do meio de Geraldo e Geovane. — A ordem lá em casa sempre foi lutar por aquilo que queríamos. Era um domingo quando os irmãos de Geraldo apareceram para celebrar a conquista do so- brinho César. Geovane de cabelo bem curto, e colado na cabeça trazia um violão preto a tira colo, acompanhado de namorada bonita e muito paparicada por Glorinha. Gerson justificou a falta da sua mulher, que ela estava estudando muito. Sentou-se ao lado de Edileusa. — Você também trabalha com Geraldo? — Edileusa lhe perguntou. — Sim, somos a turma do GARY! — Gerson respondeu e riu, Edileusa acompanhou o riso sem entender. — Com o meu salário eu invisto na educação da minha mulher, que estuda contabilidade — Gerson continuou. — O nosso sonho, meu e da Regiane, é ter mais conforto, pra nós e pra nos- sos filhos. Temos um casal, e um rapa de taxo! O pessoal do serviço estranha, sabe? Acha que a Regiane pode me dar um pé na bunda, enquanto eu fico com o prejuízo, mas depois que a co-
  18. 18. 18 | Rogério Prego nhecem, sabe que ela não é dessas. É muito esforçada! Além do quê: temos filhos que amamos muito! Geovane tocou todo tipo de música naquela tarde. E mesmo a cerveja não sendo regulada, como na casa de Jandira e Aurélio, ninguém ficou bêbado para dar vexame. Comeram bastante carne assada. Divertiam-se muito. Cada um contando uma história engraçada, outra de fundo moral que todos paravam para pensar, outras de cálculo que dava nó na cabeça de Edileusa. Robinson observava, às vezes de longe, outras vezes bem de perto, mas não entendia. Os pri- mos eram maiores que Marco, nenhum ficava fingindo que ia lhe bater. Pelo contrário, César te incomodava oferecendo refrigerante e carne. Não entendia aquilo. Na casa não tinha lugar pra se esconder, sempre César o achava em algum lugar e vinha oferecer alguma coisa pra comer, ou chamá-lo pra ver algum programa na TV, que era muito grande e deixava os olhos de Robin- son magoados. Na escola era diferente, ninguém o via, senão quando a professora lhe fazia alguma pergunta e não sabia responder, então a classe toda ria e fazia troça dele. A professora reclamava que ele era desatento, e às vezes que ele não tinha jeito. No recreio ficava isolado, um dia reconheceu Marco vindo em sua direção, fugiu dele, em todas as ocasiões que via o primo fugia. Mas um dia, uma turma se reuniu para bater em Robinson e, foi o primo Marco que o tirou da surra. O que não resolveu, pois quando chegou ao lar apanhou da mãe Edileusa, levando surra dupla: por ter arranjado briga no pátio, e pelo recado da professora que insistia em ver Edileusa. Robinson tornou-se “o caso perdido”, tirava notas baixas, mas nunca eram suficientes para reprová-lo. E Edileusa nunca tinha tempo para atender os recados da escola que chegavam. A Instituição Escolar caía como uma armadura enclausuradora de movimentos e sentimen- tos sobre Robinson. Parecia reforçar sua vontade de fuga. Imaginava-se socando a professora, mas tinha medo de fazê-lo. Pois, achava que era uma falha sua. Nem César, muito menos o i- nexpressivo Cláudio eram assim. Robinson pensava: “Isso é coisa de Marco que não presta!” E sentia muita dor de cabeça, as letras eram miúdas, a lousa ainda maior que a televisão, bem velha, com manchas de pichação, talvez por isso não conseguisse despertar dentro de si vontade de compreender aquilo. Às vezes a professora parecia um pastor alemão. Robinson tinha medo de encontrar Marco no recreio. Um dia acabou fazendo xixi na calça, lembrou-se do tio Aurélio, e de seus dedos, por conseguinte do sangue vermelho de sua mãe. Chorou! Foi liberado mais cedo nesse dia. Mais um recado enviado, mais uma surra dupla. Edileusa pelo contrário, chegava muito feliz, falando bem do seu ambiente de trabalho, e às vezes até arriscava contar algumas bobagens cabeludas que escutava por lá, e todos riam. Esta- va cheia de solidariedades com o cunhado, ajudava nas despesas da casa, até ajudou a irmã a trocar de carro por um mais novo. “Só estou retribuindo!” — dizia quase cantando em tom feliz e jovial. Estava adorando a nova vida, única coisa que chateava o dia era o filho sem jeito, “o caso perdido”. Robinson não reconhecia para si um lugar nessa nova vida. Até o tanque desse tal lar guar- dava coisas super bem organizadas, não dava pra se esconder ali. No quarto puseram um beli- che que Robinson dividia com Cláudio ocupando a cama de baixo. O guarda-roupa colado na parede, cheio de coisas, como no tanque organizado, não oferecia esconderijo. Além do quê, seu corpo crescia e não correspondia ao que pensava de si. Na escola, as garotas faziam-lhe lem- brar das caricias de Aurélio com Petúnia. Um dia, uma dessas garotas veio lhe falar, mas ele vomitou e acordou com febre na outra manhã. — Zzzzshaahh... — fazia Robinson na cama de baixo do beliche com febre alta. Cláudio ouviu ainda deitado na cama de cima, desceu e percebeu que o primo passava mal. Chamou a tia Edileusa e os pais, que vieram ver Robinson. Cláudio sentou-se na cama do irmão, que fica ao lado do beliche. O sol ainda dormia, aguardava hora para acordar. Edileusa ficou
  19. 19. Príncipe dos Lobos | 19 sem jeito, tinha que ir trabalhar, passou a mão no rosto, repreendia Robinson. Glorinha foi fa- zer café, enquanto Geraldo deu solução apaziguadora: — Não é culpa do garoto, ó gente! Cláudio ajuda seu primo a trocar de roupa!... Deixo a se- nhora com o garoto no CAS, é o jeito. É só a senhora pegar atestado de acompanhante com o médico, que não tem problema no emprego, dona Edileusa. — Ah! mas é que hoje é aniversário da Eliane... — Edileusa lamentou entre seus botões. — As menina lá té-ia comprar bolo! >> << A recepção do Centro de Atendimento à Saúde da Prefeitura estava cheia e barulhenta. As pes- soas reclamavam, doentes e acompanhantes. Quando um homem revoltou-se junto às recep- cionistas, muito alterado tonteou, uma delas se estressou e ameaçou chamar o Guarda. A guer- ra de nervos piorou o quadro do homem, que acabou despencando no chão em cima de sua mochila. A recepcionista gritou pelo Guarda, que veio pedir para o homem levantar-se e voltar para seu lugar, tentou levantá-lo pela camisa, o homem debateu-se, o Guarda deu um chute de leve nas pernas do homem. O homem vomitou. O Guarda saiu. Voltou usando luvas cirúrgicas e máscara, pegou o homem pelos braços e saiu o arrastando. Fraco, o homem se debate mais uma vez, mas é arrastado pelos corredores até ser jogado numa sala. — Ele foi tratado como um porco! — alguém exclamou indignado. Outro gritou para que as pessoas reagissem, mas ninguém tomou uma atitude, e muito me- nos ele. — Ninguém filmou? — uma mulher replicou. Assistiam a barbárie, através de suas ilhas individuais de febres, de dores, e nervo. Edileusa esticava-se toda para ver o que estava acontecendo lá na frente. A paciência desaparece... Eram generalizadas as reclamações por melhoria, se queixam do péssimo atendimento: da dificuldade de marcar consulta médica, da falta de especialistas e das longas horas de espera. — Há meses, estou tentando me consultar e não consigo. Faltam especialistas! — diz uma moça atrás de Edileusa. — Já cheguei há esperar cinco horas para ser atendida — completou outra moça. — Tudo aumenta de preço. Enquanto isso, os homens tornam-se mais baratos! — um ho- mem carrancudo disse irado. Angustiada, Edileusa não teve outra saída, senão esperar cerca de três horas e meia para ser atendida, para ouvir a médica mandá-la levar o filho para casa, porque segundo ela, Robinson estava bem. Robinson olhou na mesa da médica, vazia, não tinha pirulitos. Ganhou uma injeção na bunda, e uma cartela de comprimidos. >> << Voltou para a escola quase uma semana depois. Na entrada achou uma moeda. Quando saiu para o recreio desembrulhou o pirulito, que comprara com a moeda achada. E saiu no pátio, exibindo a haste branca. Notou que os colegas de escola corriam para uma parte do pátio, cor- reu também em direção da muvuca, acreditando que fosse briga, mas soava de lá musica hip- hop. Esgueirou-se entre os colegas até chegar à frente e ver o grupo de hip-hop fazendo seus malabares dançantes. Cruzando pernas se jogavam no chão rodopiando ao ritmo da batida hip- hop que vinha de um aparelho de som. Um rapaz esfregava os dedos no vinil. Todos usando roupas características do movimento. Robinson se encantou à primeira vista, viu um deles imitando robô no ritmo break dance. Os
  20. 20. 20 | Rogério Prego colegas em volta tentavam imitar. Do robô, o rapaz chacoalhou-se todo no ritmo da batida, imi- tando Robinson passando mal, decerto. Robinson riu, e tentou imitar. Rolou até Michael Jack- son remixado, cheio de squashes. O Moonwalk fez Robinson se apaixonar em definitivo. Quando a apresentação foi encerrada, e repercutiu no pátio a última batida de hip-hop, a professora de Ed. Física anunciou que as notas daquele semestre seriam baseadas no desem- penho dos alunos nas aulas de hip-hop ministradas pelo líder do grupo, sob sua supervisão. Os alunos foram ao delírio. Robinson estranhou o ar raspando na garganta e formando sílabas na boca. Não teve pra ninguém. Robinson acompanhava todos os passos e trejeitos ensinados pelo lí- der do grupo hip-hop. Acompanhava sem ouvir vozes, só a batida e os squashes. Não parava enquanto outros eram ensinados. Parecia comunicar-se com a vida como portador da própria energia. Suas pulsões subjetivas estavam postas no ritmo, nas coreografias. Com sua mente em ligação direta com o corpo, a semana foi de muito top rock, foot work, e os freezes e power mo- ves. Moinho de vento: os giros tendo a cabeça como apoio. Dominou tudo, mas gostava mesmo do top rock e os freezes. Pediu várias vezes música do Michael Jackson, o “professor” atendia sempre, pois via que Robinson estava dominando o Moonwalk. O semestre como moinho de vento foi de muito top rock, foot work, freezes, Power moves. E MOONWALK!... Robinson foi com 10 em Ed. Física, porém ameaçado pelos números, raízes, le- tras e alelos... As demais notas eram vermelhas. Quando o grupo de hip-hop se despediu, Robinson quase chorou em público. E ficou sentido porque o tanque de lavar roupas no lar não oferecia refúgio. Sentiu que a partir daquele mo- mento, voltaria a ser um idiota retardado, surdo e mudo. Afinal, era isso que as autoridades competentes, em sua vida como um todo, fazia-lhe sentir. Despreparado para o exercício da cidadania, que essas mesmas autoridades diziam ser inerentes à pessoa. Não se via no direito de contestar critérios avaliativos, sem sequer conhecer as instâncias escolares superiores. O que faria?... Descobriu maneira de cabular aula, se escondendo no banheiro na hora do recreio; quando a aula retornava: Robinson ficava treinando o top rock, os freezes e o Moonwalk! Mas logo foi descoberto pelo Guarda que guardava a escola. No sábado pela manhã houve a despedida oficial, quando conheceu Marcelo. Um rapaz de estatura mediana, na mesma faixa etária de César, porém aparentando mais velho. Os cabelos bem pretos brilhavam penteados à lá John Travolta nos Embalos de Sábado à Noite, uma mexa caia sobre a testa, e Marcelo falava balançando essa mexa especial. Robinson tinha executado seu top rock, os freezes e encerrou com Moonwalk. — Véio, tu manda hein...! — exclamou Marcelo. Robinson gesticulou um obrigado com pouca voz. — Meu nome é Marcelo, e o seu? Robinson gesticulou seu nome com pouca voz. — Robson?! — RÓBIN-som! — RÓBIN! Vou te chamar de Róbin!... Como o companheiro do Batman... E aí, como ele você quer vingar os pais com muito tripsrropssx...? — Marcelo falou e riu imitando os freezes de Ro- binson. Um dos integrantes do grupo de hip-hop veio e puxou Marcelo abraçando-o pelo pescoço. Falou no ouvido dele, Robinson entendeu que o B. Boy repreendia Marcelo, e que fosse embora; que iria “sujar” para eles; pediu compreensão. Marcelo disse que compreendia, na moral; tam- bém falando no ouvido do B. Boy que os respeitava, e concordava em ir embora. Ambos tensos foram diplomáticos; e não chamaram atenção.
  21. 21. Príncipe dos Lobos | 21 — Falousss... Róbin!... Massa te conhecer! — Marcelo exclamou com um sorriso de um canto só, e foi embora. E quando Robinson foi embora para o lar, viu numa esquina Marcelo com Marco. Marcelo encostado num carro parecia estar brigando com Marco. Marcelo deu um sopapo na cara de Marco, Robinson abaixou a cabeça assustado e acelerou os passos. Quase correu para virar ou- tra esquina e, torceu para não ser visto por nenhum dos dois, e não foi, chegou são e salvo em casa. Só faltava ganhar uma surra, mas como a mãe Edileusa saberia disso? Suspirou aliviado. >> << Não era só o Robinson que ia mal com as notas. A escola também ia de mal a pior, com notas vermelhas na Secretaria do Estado. Um colega de outra sala agrediu um dos professores, cha- maram a PM. Robinson pensou que fosse Marco, mas não era. A escola estava toda pichada, o Guarda pegou o pichador, mas depois foi repreendido à noite pelos comparsas do pichador. Estudava mais de 200 alunos ali. Às vezes de manhã a direção encontrava sala com carteiras quebradas, pichação em paredes e lousas. Sofria ação de vândalos sempre. Estes Roubavam TV, computadores, reatores, fios, as lâmpadas e até a escada. E por isso às vezes não tinha aula. Os professores reclamavam do salário, das agressões tanto de alunos e pais, quanto do Estado. Alguns dos professores, taxados de subversivos, eram transferidos, ou sumidos... E por tudo isso numa manhã declarou-se greve! ESTAMOS EM GREVE! Nós estamos parados no tempo Não sabemos para onde correr Estamos todos separados Nessa luta para sobreviver. Solte seu grito no ar E sentirás que tudo vai mudar Chegou a hora de tudo mudar Os submundos ão de se acabar!... “Ímpeto” (A Chave do Sol) O professor não quer ser mais um dispositivo alienador. Ora!... A Televisão já não cumpre es- te papel?... Então o Professor deve ser o oreia que prepara a argamassa do poder?!... Os Profes- sores não querem se calar, para eles chegou a hora de se juntar e gritar. E não terão medo do que enfrentar, pois não deixam se levar!... Um minuto além!... Então, num minuto além se en- contram! ............................................................................ Tudo aumenta de preço. Enquanto isso, os homens tornam- se mais baratos!
  22. 22. 22 | Rogério Prego A confusão é geral. Alguns se desentendem com outro, não concordam com frases termina- das com Lênin. Que o comunismo matou muita gente, que o muro de Berlin caiu! A manifesta- ção foi parar nas ruas, nos terminais e estações. Foram para Câmara carregando cartazes bem escritos, panfletos. Foram para Assembleia. Policiais militares cercam, reprimem, e por fim dispersam os professores civis com spray de pimenta, cassetetes e muita força bruta. Assim, como num passe de mágica, lideranças foram compradas, por isso revoltaram-se com o próprio sindicato, desfiliação em massa. Ocupam a Câmara, mais uma vez policiais militares cercam, reprimem, e por fim dispersam os professores civis com spray de pimenta, cassetetes e muita força bruta. Essa violência militar desnecessária, na rua ganha seu ápice, e só faz dar mais força: indig- nados, os manifestantes ficaram ainda mais revoltados contra o Estado. Receberam apoio da #frente contra o aumento da passagem de ônibus. Então, os policiais agiram de forma ainda mais truculenta. Com aparato de guerra de sítio. Parecia que o Estado havia declarado guerra contra o próprio povo, ou pelo menos contra uma parcela deste — que se descobriam como agentes políticos em luta, como se encontrassem na rua a Ágora ate- niense. Os policiais, articulados militarmente, mantiveram um estudante imobilizado com a cara no asfalto — era de tarde, horário mais quente. — O professor veio ao socorro do aluno imobiliza- do; alegou que estavam em seu direito de protesto. O policial militar disse que então, fossem para outro lugar, porque ali... imaginem, atrapalhava o trânsito, o direito de ir e vir dos cida- dãos de bem. São capazes de ferir gravemente vinte, trinta pessoas para salvar uma estátua, até matar. Ora! O monumento pode ser restaurado, uma vida não! A manifestação é justamente pelo di- reito de ir e vir do trabalhador, ora! Sem ser explorado! Ao que parece, não vale mais a pena agarrar ladrões! Começam a prender gente honesta...! A música do Gabriel, o pensador ecoou no terminal de ônibus: Até quando você vai levando porrada?! — Esquecem que o transporte urbano para todos é uma concessão pública paga por todos e, por isso pagam dobrado, quer dizer: o contribuinte, também é o consumidor?! — Chegamos ao ponto de pagar pra trabalhar, e não temos o direito de contestar?! A quem querem enganar?! — Ora! Os que paga dobrado! ............................................................... Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer! Ninguém levanta. Empurram-se como gado marcado, na engorda, na fila para o abate. É o medo de perder o emprego e para isso não acontecer preferem pagar dobrado! E ainda tem a prestação da TV, da geladeira, do microssystem, e etecétera tudo novo! Quem vai pagar se per- der o emprego?! Os senhores bancos comem nossas vísceras se isso acontecer... “Nossa...!” — uma mulher faz o sinal da cruz, “MISERICÓRDIA-ÓH-PAI!” [?]. — “Basta que um trabalhador se manifeste dentro de uma fábrica, basta que um trabalhador desperte nos companheiros espírito de liderança para ser mandado embora. Basta que um tra- balhador fale algumas palavras mais agressivas para ser dispensado. Basta que um trabalhador se defina ideologicamente para ser preso. Eis, aí, algumas dificuldades que os trabalhadores enfrentam.” — expõe o ex-presidente Lula. — “Somente perdendo o medo de perder o empre- go, somente perdendo o medo da repressão (militar), a classe trabalhadora conseguiria subir alguns degraus para chegar ao lugar que é dela dentro da sociedade...” — disse como dirigente sindical à Revista: Encontro com a Civilização Brasileira em 1979.
  23. 23. Príncipe dos Lobos | 23 No espreme-empurra para dentro do ônibus, reclamam: "tá ruim, tá cheio, não presta, já fui roubado, tá caro". — Mais uma semana! Besta cargueira enfurecida! Isso é a morte, a semana é uma foice! Odeio segundas-feiras, e todas as feiras são insuportáveis! — Que sentido tem isso?! Nem pastel, nem garapa?! O lucro é todo seu?! Nem pão de queijo, nem pão com montanha de presunto, nem tapioca, nada?! Nadica de nada?! — Aguente que a manhã passa rápido. Logo o apito anuncia o almoço, o final de tarde, o final da semana, o final do mês. Depois que pagarmos os senhores bancos, veremos o que sobra. Por 15 dias ao menos dá pra ter o luxo de um bom café da manhã, mas café simplesmente não! — E o manifesto passando por ali impedindo os ônibus de circularem, grita o rebanho: — "Protesto é coisa de vagabundo!" — O que querem então, viver como gado? — os manifestantes replicam em coro. E outro, mais exaltado: — "Vagabundo é você que não tem coragem de enfrentar o Governo, seu parado... Seu bos- ta!" A manifestação passa... Os burros-de-carga voltam a servir. Ora!... Tem coisa pior prum burro de indústria & comércio do que ficar sem carregar carga, que já é tão acostumado?... E os policiais até poderiam se juntar, pois também são servidores públicos, assim como os professo- res: pagos por todos nós. Mas, a diferença é militar... Ora!... Isso não é o que o governo fornece às indústrias & comércio?!... Enfim, todos nós pagamos por toda essa loucura. E mais louco é quem descobre a trapaça. E no meio disso, satisfazemos os nossos desejos; ligados pelo apetite: a sensual Eros, e o silencio- so Anúbis. ............................................................ Payback’s a bitch motherfucker! Desconsolados e apáticos. Porém, com o sangue ainda em processo de fermentação, que co- meçava a curtir revanche. Os professores conscienciosos convenceram a si em voltar sua aten- ção à escola; que a conscientização deveria ser em sala de aula; mostrar aos alunos os seus re- ais direitos. Sentiam que só assim poderiam romper a barreira de discursos entre manifestação e população. Deveriam saber lidar com os reaças, que sob ordens da imprensa marrom e Go- verno, com suas rosas brancas, deslocam e inviabilizam outros discursos. Robinson sentiu-se ainda mais perdido entre esses e outros discursos de mão única. A pro- fessora de História parecia compreender o que se passava com ele. Motivava-o, queria ajudá-lo. Ele gostava dela... Mas, para Robinson toda aquela Instituição aparecia-lhe como um pesadelo; como o pastor alemão de Seu Nogueira metendo medo... ................................................................ Just another brick in the wall!! As aulas voltaram no mesmo signo do caos. Dessa vez não teve mais como fugir. Enfim, che- gou a intimação da Instituição Escolar à Edileusa, pedindo comparecimento à escola, com pena- lidade de suspensão do aluno, caso o responsável não comparecesse. Robinson levou uma sur- ra. Edileusa em prantos levou as mãos ao alto pedindo clemência divina: — A falta de pai não tem nada que remedeie! — Me deixa ver essa intimação, dona Edileusa — Geraldo pediu com pena da cunhada. Geraldo leu tudo pontuando com a cabeça, balbuciando, cofiava seus pelos imaginários no peito, por fim espiou Robinson enfático, fazendo dobras no papo, e bico de pato: — Pode deixar que eu vou lá pra senhora, dona Edileusa. E esse rapazinho vai começar a tomar jeito sim!... — disse e ajeitou a calça na cintura. — Pena que César não tem tempo mais, para nos ajudar nesses problemas... Só que Geraldo não pôde ir à escola no dia seguinte. Ferido por um pedaço de vidro deixado em um saco de lixo, cujo resultado foi três pontos na mão e 15 dias de inatividade.
  24. 24. 24 | Rogério Prego — Os cidadãos de bem deveriam ser mais humanos e educados ao colocar seu lixo para a co- leta. Consciência é uma demonstração de cidadania. Nós somos trabalhadores. Não seria mal recebermos, como agradecimento, consideração. — Geraldo desabafou. — Vai ter que ficar pra outro dia o problema do Robinson, dona Edileusa... — Ô Pai do Céu!... E ainda se preocupa com o filho dos outros, seu Geraldo? — Edileusa arre- feceu, e levantou as mãos agradecendo a Deus por ter um cunhado tão bondoso. >> << Um pombo pousou na calçada. Pata rosada quebrada, pendurada, mancava. Sujo e doente. Co- mo um mendigo ciscava ao tempo que perscrutava em volta desconfiado. Seu papo esverdeado reluzia como uma varejeira. O pombo perscrutava, cismado com um rapaz que te observava, deitado aos modos e aspecto de um mendigo, vestindo um moletom preto com capuz. O pássa- ro desconfiava se o rapaz estava vivo ou morto, deitado com outros iguais, e como o pombo, todos moradores de rua. O rapaz notou um fiapo de sacola plástica enroscada na pata do bi- cho... >> << Robinson reparava a mão enfaixada de tio Geraldo. Esperavam para falar com a diretora na pequena recepção da escola. A diretora apareceu e pediu para que apenas o tio Geraldo entras- se. A diretora explicou o que estava ocorrendo na escola, com Robinson, enfim, que teria sido melhor a mãe do garoto comparecer e não o tio, mas já era um progresso. Geraldo não compre- endia o problema de Robinson, então a diretora mandou Robinson entrar e lhe deu um papel. Pediu para o garoto ler em voz alta um trecho que apontou. Depois de vários “és” Robinson iniciou sua leitura: — E-escrevi por que-que quero tonto le fanar a minha três Teresas... pa-pa pra príncipe da condessa eu tenho que pegar teu bruto... a ti bruto... — Robinson foi interrompido por Geraldo que tomou o papel de suas mãos agoniado com sua leitura. Procurou com os olhos frenéticos o trecho... — “Escrevi porque quero tanto lhe falar de minhas tristezas. Para princípio de conversa, eu tenho que pagar tributo [!]...” — se tivesse um chapéu azul desbotado, Geraldo tinha arrancado da cabeça e amassado. — Que isso?! Moleque burro! — Acalme-se senhor Geraldo... — apaziguou a diretora. — Pode esperar lá fora Robinson! Robinson saiu, com o rosto quente de vergonha. E ficou com medo de voltar pra recitar ta- buada. Mais medo ainda quando chegasse ao lar, e o tio contasse para sua mãe. Ia ser esfolado como Marco, só que pelo tio Geraldo, senão por César, porque o tio tava mal da mão. Mas aca- bou sendo mesmo pela mãe Edileusa, que pontuava as pancadas recomendando que ele pedis- se desculpas à diretora da escola e que ia tirar 10 nas outras matérias... — Como fez naquelas danças de marginal! — ela exclamou enfurecida, e o grito ecoou tri- nando alto no ouvido de Robinson. A noite cobriu o céu e se confundiu com o dia seguinte. Edileusa levantou com corpo pesado, pesarosa. Acordou Robinson com o cascudo e tapas de costume: — Você está fazendo isso de propósito Robinson...! Não gosta de ver a minha felicidade, né?! — puxou Robinson da cama pelos cabelos e lhe deu um beliscão doído no braço, um sopapo na orelha, depois saiu do quarto batendo os calcanhares.
  25. 25. Príncipe dos Lobos | 25 As lágrimas desceram queimando as bochechas de Robinson — escorreram em linha ao can- to da boca, sentiu o sal amargo delas na língua. As piscadelas de não existência, como TV mu- dando de canal, faziam entrever seus sentimentos diluindo-se. Sentir sua cabeça como atraves- sada por uma broca, que rosnava. Procurou em torno de si o pastor alemão do Seu Nogueira... ...................................................................... Is there anybody out there? Cláudio entrou no quarto, saído do banho; ficou atônito em ver o primo chorando. Robinson enfiou-se numa bermuda tactel preta de estampa floral cinza. Vestiu camiseta velha, sem ver cor ou estampa, enfiou os pés no chinelo e saiu sem levar materiais escolares, nem documen- tos. Queria apenas sair pra rua. No desespero só marcou o rumo da escola. Pensou em entrar lá, e procurar a diretora, se ela negasse seu pedido: ia se ver com seus punhos! Mais tarde, Edileusa voltou ao lar na hora do almoço. Geraldo, na varanda, lia jornal balan- çando na cadeira. De inatividade por conta dos três pontos. Viu Edileusa entrar. A cunhada re- clamou dor de cabeça, por isso veio mais cedo. Então Geraldo disse que podia fazer uma mas- sagem, “com uma mão!” Disse, e completou: “Sou bom nisso!” Robinson não foi assistir à aula. Nem procurar a diretora, ficou sentado no meio fio próximo à escola, aborrecido. Viu Marco, seu primo, aproximar segurando uma latinha de alumínio vazi- a, sentou-se ao seu lado. Robinson afastou-se um pouco do primo, que havia se sentado muito próximo. Marco muito magro parecia ter o estômago colado nas costas, sujo, vestido de ber- muda tactel, blusa de frio de moletom bege camuflado, mantinha o capuz nas costas, de cabelos castanhos e bochechas murchas. — Você não quer sentir meu corpo, priminho? — perguntou Marco. — Parece que está abor- recido... Robinson olhou com reprovação o primo e lembrou-se do que este havia lhe dito na ocasião em que se conheceram: “Porque não sai daí? Penso que você é doente... surdo?... mudo? O que há com você?... retardado?” — e pela cara de dor que Robinson fez, decerto replicou a lembran- ça argumentando: — “Devo ser, nem sei ler, penso que sou mesmo um burro... retardado? Devo ser!”. Marco furando a lata de alumínio, com pedaço de ferro qualquer, continuou: — Quando estamos aborrecidos... — disse o primo sem o- lhar na cara do outro — é bom sentir o calor de outro corpo, sabia? Podemos nos abraçar... Se quiser! — Sai fora, qual é?... Por fim, curioso perguntou ao primo Marco: — O que está fazendo? — Um cachimbo, ora! — Cachimbo?... Pra quê?... Marco sacou quatro pedras brancas do bolso e mostrou para Robinson. — Te dou uma! — O que é isso? — perguntou Robinson olhando curioso à pedra na sua mão. — Vem comigo que te mostro. — Marco levantou. Robinson ressabiado com o primo, não levantou para acompanhá-lo. — Ah, anda logo! — Marco açodou, e não esperou pela decisão de Robinson, que acabou le- vantando e acompanhando o primo. Andaram para longe, e Marco não parecia ter um destino exato, até que voltou uma rua de- serta que haviam passado. Decerto da primeira vez que passaram, Marco averiguou o movi- mento. Nesta rua havia um lote tomado pelo mato, e uma casa semidemolida no fundo. Marco entrou rápido desaparecendo no mato, Robinson com medo logo atrás. No interior sujo do que um dia foi um lar, Robinson viu um colchão velho, sujo, outras coisas que não conseguiu distin-
  26. 26. 26 | Rogério Prego guir, que pareciam sebosas e desfazendo-se, aqui e ali em meio a latinhas de alumínio queima- das com furos, igual ao que o primo carregava. Num canto qualquer, viu camisinhas que pareci- am sujas de bosta, mosquitos acinzentados e grandes, e adiante um rato morto. Acompanhou o primo a outro cômodo, não muito diferente, mas menos sujo. Tinha alguns panos no chão, no canto, que pareciam estar limpos, donde Marco se sentou. Robinson sentou-se ao lado do pri- mo. — Me dá a pedra, deixa eu te mostrar como ela funciona. Robinson entregou a pedra que tinha ganhado há pouco. — Logo você vai entrar num mundo onde não existem aborrecimentos, priminho! Robinson nunca tinha andado para tão longe, sem o consentimento de sua mãe Edileusa, se- não uma vez... Edileusa corria pelas ruas desesperada gritando pelo filho pequeno, quando o viu subindo a rua, feliz como se trouxesse pedras preciosas embrulhadas na camiseta na altura do peito. Edi- leusa correu até ele, deu-lhe tapas com força, brigou e esbravejou contra o pequenino, que para se justificar, disse que tinha catado coisas valiosas que poderiam ser vendidas para pagar o aluguel, e para que ele não fosse comido pelo pastor alemão de Seu Nogueira. Com violência Edileusa bateu nas mãos do pequeno, desfazendo o embrulho da camiseta e dezenas de tampi- nhas de ferro caíram no chão. Edileusa em prantos levou as mãos ao alto pedindo clemência divina. O pequeno imaginou um trovoar cálido fabuloso... Refletia nos olhos de Robinson o fogo do isqueiro de Marco, ele esquentava o fundo da latinha e do buraco que tinha feito saía um vapor branco sinuoso que Marco aspirava. Com a boca em gesto de ósculo, o primo parecia bei- jar uma divindade. Enquanto a pedra, receptáculo desta divindade, sendo queimada, estalava: Crack! Crack! Crack!... Marco levou a lata à boca de Robinson que chegou para mais perto do primo e imitou o gesto oscular, aspirando a divindade, enquanto a pedra estalava: Crack! Crack! Crack!... Em segundos a divindade pálida atravessou seu cérebro, como uma bala rompendo os limi- tes enclausuradores ao qual foi submetido à vida inteira até aquele momento. Um efeito esti- mulante e, violento, tomou posse de seus sentidos, seguido por uma sensação de abandono do corpo, de elevação, de purificação. Então, alçando voo como uma fênix atravessou um relâmpa- go repentino. Minutos acima do relâmpago era noite sinistra, e úmida como numa caverna. Um imenso dragão tomou forma entre o vapor pálido. Feito do mesmo vapor, como uma enorme serpente com asas semelhantes às de um grande morcego, abraçou Robinson, que então flutu- ou em meio a um novo sentimento, com os olhos postos nos olhos terríveis do dragão. O mais antigo dos monstros vomitava fogo. Mais uma vez refletia nos olhos de Robinson o fogo do is- queiro de Marco, que esquentava o fundo da latinha e, do buraco que tinha feito, saía uma lín- gua sinuosa. A pedra estalava: Crack! Crack! Crack!... Robinson sentiu-se do tamanho do monstro, mau e destruidor, um emblema real do pecado, pois havia transgredido a lei, as regras, e as prescrições das autoridades soberanas que há mui- to lhe oprimiam, e, não lhe davam nenhuma chance de obter a querida dignidade. Então, agora, ele imaginava que a tomava para si, enquanto a pedra sendo queimada estalava: Crack! Crack! Crack!... Mais tarde, dentro da noite, no cômodo menos sujo, onde um dia foi um lar, hoje um arre- medo de casa sem teto e semidemolida, Robinson ressonava debruçado sobre os panos que pareciam estar limpos, com o rosto colado no chão sujo. Tremia de frio, e ressentido com a própria hostilidade inconsciente que experimentara a pouco, via a linha que o ligava a mãe Edi- leusa totalmente destruída e perdida. Decerto, sentia que o colo materno nunca representou amor ou segurança, sentia que sempre havia sido um peso extra, e em seu íntimo culpava as contingências da vida.
  27. 27. Príncipe dos Lobos | 27 A luz acinzentada da lua atingia o interior da casa por um facho, e na linha do olhar perdido de Robinson, colado ao chão, surgiu um ratinho esgueirando-se entre a sujeira, cheirando a luz acinzentada, levantou-se sobre as patas traseiras e com as dianteiras, que pareciam mãos de gente, tateava a fumaça do cigarro que o primo fumava. Vendo que Robinson tremia de frio, Marco levantou-se, o ratinho assustou-se e correu sumindo entre a sujeira. O primo enfiou a mão num monte de trapos velhos no canto do cômodo, e tirou uma blusa de frio velha de mole- tom preto, e entregou ao Robinson. Ajudou o primo a vestir a blusa, e Robinson dessa vez acei- tou o abraço do primo. E abraçados passaram a noite. E quando das entranhas da noite saiu o dia, Robinson puxou o capuz da blusa velha de mole- tom preto cobrindo a cabeça, vendo o dia se misturando com a noite. Enquanto, seu cérebro, a usina produtora de desejos, agora órfão em sua essência, clamava pela vinda da divindade para preenchê-lo novamente, e, o esquentar com seu terrível vômito de fogo. Suas lembranças coagularam como um cranco na parede neural — reminiscências doloridas, que lhe produziam noite profunda. — Seus sentimentos diluíam, e circulavam pesado em suas veias. Seu sistema nervoso tornou-se um circuito estremecido por corrente elétrica; como se houvesse tocado os fios de uma bateria galvânica. A FLORESTA ESCURA Did you see the frightened ones? Did you hear the falling bombs? Did you ever wonder? Why we had to run for shelter? When the promise of a brave new world Unfurled beneath a clear blue sky... “Goodbye blue sky” (Pink Floyd) S DIAS se confundiram com as noites. Robinson nem reparava a decadência de si perante as coisas. O dia e a noite confundidos somavam-se e o resultado eram semanas que se de- sembocavam em meses soturnos como uma noite profunda. Perambulava, gastando chinelos, e por fim gastos e arrebentados; ou simplesmente esquecidos em algum lugar, não lembrava mais o que foi feito deles. Era sempre noite dentro de si, mesmo que o sol brilhasse. Nessas noi- tes profundas em que punha seus olhos nos olhos do Dragão, santíssima divindade que preen- chia seus desejos obtusos. Quando estava fora do mundo encantado das pedras, Robinson sentia-se num colchão velho e não tinha coragem de se esticar sobre ele. Sentia-se uma persona non grata, um cão velho sem jeito, que se abandona na rua. O mundo não tinha lugar para ele — o mundo do Lar! Pois, havia O
  28. 28. 28 | Rogério Prego encontrado um melhor, onde visitava seu deus, o Dragão! E sabia onde o encontrar. Robinson queria ouvir o crack crack crack que o satisfazia... Quando se sentia grande e poderoso. O mundo real, repleto de perigos e cães mais assustadores que o pastor alemão de Seu No- gueira, abria-se em torno de Robinson que o sentia mais velho que si. E não podia deixá-lo des- confiado desse seu sentimento; — teria que enganar o mundo, se não quisesse ser devorado por ele. Mesmo assim, o aqui fora parecia ser libertador, diferente do enclausurador lá dentro que se parecia com os dedos do tio Aurélio. O aqui fora, dentro da noite, era como as asas do morcego se desfraldando e revelando dentro de si o Dragão, trazendo o poder concentrado que se acha- va dentro do seu peito. Então, poderoso, protegeria a si mesmo... A poeira de piche das ruas tomava seus pés e pernas. Estava em suas mãos e braços. Robin- son cobria os membros superiores com o moletom preto, parecia projetar-se do asfalto. Amon- toava-se entre outros como ele, projetados do asfalto, feitos da poeira de piche, parte obtusa da cidade cinza que cheira a gasolina. Um ou outro não veste moletom, e não cobre a cabeça. Um ou outro era diferente, vinha de seio abastado — são os mais encrenqueiros. — Enquanto Ra- fael, era de seio pobre... Robinson e Marco, acompanhando Rafael, esgueiravam entre as casas e os lotes baldios em ruas de terra. Pulavam os muros dos quintais. Roubavam caldeirões e bacias de alumínio. Vas- culhando a cata de fios ou placas de cobre, acreditando que o dono da casa não se encontrava. Porém, em uma casa, uma mulher robusta saiu espavorida rodopiando uma frigideira. Rosnava, mas tinha muito medo em seus olhos esbugalhados. Os rapazes correram dela, desistindo de roubar um botijão de gás, só carregando as coisas que já haviam ensacado. — A mulher ainda acertou a cabeça de Robinson e as costas de Rafael, que se virou rápido e tomou a frigideira das mãos dela. Ela imediatamente parou de rosnar, surpreendida, acreditou que o rapaz se vingari- a; — só que não... — Obrigado pela panela, minha senhora! — Rafael disse certificando-se do peso da frigidei- ra. Evadiram-se pulando muros e sumiram entre as casas e lotes baldios. Subiram correndo ruas de terra, e voltaram para o asfalto. — Panela boa, maninho — dizia Rafael a Robinson — é pesada, saca? Quanto mais pesada, mais troco rende! Depois a gente dá umas volta no centro. Esses letrero de prédio é de cobre, saca? Cobre vale uns troco massa! Venderam as coisas no ferro-velho. Ao saírem de lá, pegando o caminho da boca, Marco e Rafael perceberam o galo roxo avermelhado na testa de Robinson, e riram. Robinson também riu feliz por tudo ter sido uma aventura. Definitivamente, não queria voltar para o seio que o reprimia. Visto como as pedrinhas brancas o reconduziam ao calor de sua divindade, o Dragão! Trazia-lhe satisfação direta. E ali perto do seu Dragão, não seria um rato importunando a mãe, um peso na vida dela. Não estragava mais o dia dela, enfim, sumiu aliviando o peso de sua vi- da... ............................................................... Why we had to run for shelter? Entre a muvuca feita pela poeira de piche das ruas, camisas de time de futebol estrangeiro, moletons velhos e chinelos; — robinson, marco, rafael dividem as pedras encantadas. O peque- no empresário conta o dinheiro ao tempo que chegam mais dos seus lânguidos fiéis consumi- dores. Entre a muvuca rafael, marco, robinson se confundem com a poeira de piche das ruas e becos na cidade que cheira a gasolina. Conseguiram o que queriam e se afastam do plano geral. Seus olhos faíscam satisfeitos com a substância mágica, e com infusão de individualidade se afastam do plano coletivo preenchendo o vazio das ruas.
  29. 29. Príncipe dos Lobos | 29 Vigiam carros por uma moeda, somadas e disputadas. Porém, Robinson não ganhava nada, porque se limitava a se aproximar calado e ficar encarando as pessoas, que se amedrontavam e saiam às pressas com o carro. Em outra ocasião, um homem forte, de camisa polo branca, cabe- lo com corte militar e olhos injetados, gritou com ele: — Hei crackudo! Fica longe da minha namorada! Robinson estava ao lado do passageiro, o homem gritava por cima da capota, enquanto sua namorada abriu a porta rápido pulando para o interior do carro, e bateu a porta. Robinson se distanciou bastante, mas o homem ainda o encarava com fúria injetada nos olhos. — Calma doutor! — Marco exclamou se aproximando. — Ele só quer... O homem de súbito tirou uma pistola preta da cintura e apontou para Marco. — Encosta lá na parede! Encosta! Marco o obedeceu. O homem voltou-se para Robinson: — Você também, crackudo! Encosta lá! Robinson também o obedeceu. Então, o homem entrou no carro e saiu de arrancada. Rafael viu a situação de longe e soltou uma risada. Marco caiu no chão estacando do peito magro sua risada convulsiva, como tosse de cachorro. Robinson chutou as suas pernas e saiu bufando. E de repente, todos ficaram aturdidos com uma Kombi que passava na rua, em marcha lenta. Os ocupantes, uma mulher e três homens pararam a Kombi por um instante, pareciam trocar in- formações, discutir métodos de abordagem, um deles objetou os demais e por um momento não pareceram estar de acordo com alguma coisa. — É o pessoal da abordagem da Prefeitura — comentou Rafael. — Passam pedindo pra gen- te aceitar tratamento para dependência química e pra voltar pra nossa casa. Mas não fazem nenhum trabalho de convencimento. Muitas vezes passam e nem descem da Kombi. Robinson reparou o brasão da Prefeitura estampado na lata da Kombi, por um minuto se es- tremeceu, porque não queria voltar para o convívio familiar. Por fim, a Kombi dobrou a esqui- na. Enquanto, robinson, marco, rafael lavam carros e satisfazem seus desejos individuais; se afastam do plano geral entre a muvuca feita pela poeira de piche. São lânguidos consumidores disputados a facadas e tiros por pequenos empresários que atuam no varejo, afastados do pla- no geral, onde medem seu lucro... Enquanto robinson, marco, rafael têm seu vicio medido na decadência de seus corpos... Ensimesmados, temem qualquer barulho em redor... ........................................................... Did you see the frightened ones? >> << Quer preencher o vazio de quê? Não saiam para as ruas, fiquem em seus carros que na rua entra baratas nos sapatos, vão ao Shopping que inaugura hoje, lá não tem baratas que entram nos sapatos de gente civilizada... Parados e maravilhados, olham um grande aquário que não é nada mais que uma grande tela de plasma, e os peixes são animação gráfica... Cidadão de bem quer preencher o que a mídia esvazia... ................................................................................................... COM QUÊ?! — Ora!... Isso não é o que o governo oferece às indústrias & comércio?... Se a mídia é quem esvaziou. Ela é quem deve preencher! ................................................................................................... COM QUÊ?! — Ora!... Nunca viu as propagandas?!... Se prestasse mais atenção no homem do topete bran- co do telejornal, entenderia melhor as propagandas! — E os senhores bancos se alimentarão... COM QUÊ?!
  30. 30. 30 | Rogério Prego — Ora!... Se prestasse mais atenção nas propagandas entenderia melhor o homem do topete branco do telejornal! .................................................................................................... DE JUROS?! — Sim!... E só funcionam quando não conseguimos pagá-los e quando chegam as festas que- rem nos seduzir — com musiquetas alegres do velho barbudo — à pagar! Ora!... Fazendo em- préstimo noutro banco!... ............................................................ Payback’s a bitch motherfucker! E não se enganem eles podem tirar tudo de você, inclusive sua dignidade! E não se enganem pensando que eles são invisíveis! — Operam em bando! >> << No bairro em que Rafael mora, não possui asfalto, sequer tem rede de esgoto. Mas, insistem em fazer análise de esgoto na cidade para encontrar resíduos de drogas... pra quê?... Vá perguntar pra mãe da joana! A estrutura pra isso é cara, exige investimentos na ordem de R$ 2 milhões, e a técnica está sujeita a falhas. Enquanto, Rafael rá!... não anda, malandreia entre a muvuca feita pela poeira de piche das ruas... Rafael é esperto, Robinson o observa. Mesmo vindo de seio pobre, é ligado nos trocos, tem tino comercial. Sempre consegue uma forma de conseguir esses trocos. Inclusive, presta servi- ços para os pequenos empresários. Robinson ainda observa seu vigor: poderia facilmente ven- cer uma maratona em competição juvenil. Tem fôlego pra correr, e fumar 20 pedras por dia. Robinson observa seu sorriso: quando ele se satisfaz. Enquanto, Marco fica cada vez mais dis- tante e decadente. Porém, foi Rafael tentando passar o Boca para trás, que acabou morrendo baleado numa das ruas de terra do seu bairro. Mas insistem em fazer análise de esgoto para encontrar resíduos de drogas... pra quê?... Vá perguntar pra mãe da joana! Ao saber da morte de Rafael, Robinson temeu o Boca, é um lobo! Sua boca parece uma ferida aberta quando sorri. Boca é um sujeito tenebroso. Fica próximo ao rebanho feito pela poeira de piche das ruas, como um lobo! Implica com Marco sempre. Porque Marco parecia estar doente: “chama atenção das caridade!” — diz Boca com sua voz de serrote serrando madeira podre. A alma era uma usina produtora de desejos. Sob o efeito estimulante da droga, Robinson sentia viver mais vida do que poderia viver. Escutando os estalos característicos da aproxima- ção de sua divindade — Crack! Crack! Crack!... —, e as asas do Dragão desfraldavam-se dentro do seu peito. Afinal, ele havia rompido os limites enclausuradores que vivia em família. Quando abandonava seu corpo era como se livrasse daquele mundo opressivo, decadente e incestuoso. E o abandono dessas instâncias lhe possibilitava a solução apaziguadora de seus desejos. Po- rém, quando passava o efeito da droga, experimentava a dor de sentir que estava vivendo me- nos vida do que poderia viver. Precisava se mover, pois a usina não poderia parar de funcionar, sem seu combustível vinha o nervosismo acompanhado das lembranças, que ele queria evitar. Mas, sem Rafael ficou mais difícil arrumar os trocos. No entanto, misturado àquela muvuca feita pela poeira de piche, esta- va livre para viver toda sorte de experiências. Para Robinson, Boca é um lobo tenebroso que poria Nogueira e pastor alemão pra correr; e só com uma rosnada serrotando o ar. Ouvia-o rir, parecendo um serrote sincópico na madeira podre. Boca é um sujeito tenebroso; um lobo! Só a polícia andava o incomodando. Em seu terri- tório não aparecia outro pequeno empresário, senão seus dois funcionários que o ajudava nas demandas. Um ou outro de moto trazendo a mercadoria de longe... Boca é um sujeito tenebro-
  31. 31. Príncipe dos Lobos | 31 so, e faz Robinson se estremecer, observa-o. Certa vez, Boca o pegou com seus olhos de gado magro... Boca serrou o ar pútrido entorno de si: — Qual é? — Nada... — Robinson murchou estremecido. Boca não aliviava a barra dos garotos, cobrando as dividas que Rafael contraiu em nome dos três. — Cêis também tão querendo ser queimados feito o Rafael, né... — Boca serrou o ar pútrido. Robinson se estremecia com a lembrança de Rafael morto, traçando caminho frio pela sua espinha. Debalde, clamava pela vinda da divindade para preenchê-lo novamente e o esquentar com seu terrível vômito de fogo. Mas, Não eram aceitos para lavar carros, nem vigiar. Marco e Robinson perambulavam pelas ruas da cidade que cheira a gasolina. Robinson nervoso e tre- mulo pela abstinência, invadiu um salão de beleza gritando: — Eu preciso de dez mangos! Causando um grande alvoroço entre os clientes, correria dentro do estabelecimento. Robin- son continuava a gritar, enquanto Marco puxou a bolsa de uma das clientes, a dona do salão gritava de volta que ia chamar a polícia e que fulano estava vindo, e não sei o que lá mais. Mas, não era só ameaça, o fulano apareceu, usava um colete preto, com um cassetete de madeira, distribuindo pancadas entre os primos, gritava: — Vou moer esse lixo ne pancada se num raparem daqui! O fulano era aplaudido, os garotos gritavam sob as pancadas e tentavam escapar pra rua. Sem querer o fulano acertou o cassetete na boca de uma das clientes, aturdido foi acudi-la, en- quanto os garotos aproveitaram a situação pra fugir. Correram correndo até não conseguirem mais, até estarem bem longe dali. Mortificados caíram no chão, Robinson ainda tremulava, a- goniado com a abstinência. Deitado com outros iguais, Robinson viu um pombo pousando na calçada, e enfim, as lembranças surgiam como uma brasa incandescente queimando sua alma. — “Escrevi porque quero tanto lhe falar de minhas tristezas” — imaginou que agora saberia ler aquele pedaço de papel, porque acreditava ter entendido os significados daquelas palavras. Sentia aquela dor corroendo o peito, tosse seca. Sem aquela ilusão momentânea do bem vi- ver, que sentia ouvindo o estalo de sua divindade, que aquecia sua usina de desejos. Nada mu- daria, ele ficaria ali deitado com outros iguais, e como o pombo, todos moradores de rua. Em sua dignidade restringida, lamentou viver sua vida, sofrer calado naquele mundo triste e escu- ro, escondido no vazio — “Isso não é coisa de Deus!”. Acompanhando o primo Marco, preenchiam o vazio das ruas. Nem imaginavam que é dever de todos zelar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer trata- mento vexatório — mas, todos, que se encontravam na rua além da muvuca de piche, os enxer- gavam como um lixo que deviam suportar, e se desviar —, portanto, não imaginavam, porque caminhavam através da realidade constituída por olhares mortificadores. Queriam os trocos que essa gente poderia lhes dar — eram como uma espécie de imposto mínimo, porque não queriam mais do que isso. — “Um indivíduo que perde sua dignidade de indivíduo, uma digni- dade que somente a sociedade pode conferir-lhe, só lhe resta a marginalização” — Robinson puxou o capuz da blusa velha de moletom preto cobrindo a cabeça. Quando chegaram a um dos pontos de lavagem de carro, no bairro que concentrava maior número de prédios comerciais, portanto, onde havia mais carros, foram surpreendidos por um sujeito, aparentando uns 28 anos, de chinelões, colete amarelo velho e roupas sujas. Surgiu dentre os carros gritando: — Cai fora! — Calma aí chefia! — Marco quis acalmar o sujeito. — A gente é chegado do Rafael! O sujeito se aproximava agressivo, começou a berrar: — Cai fora! Num tão vendo que vão espantar a freguesia? — e continuava a se aproximar.

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