Barbara cartland -_seu_reino_por_um_amor_(pdf)(rev)[1]

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Barbara cartland -_seu_reino_por_um_amor_(pdf)(rev)[1]

  1. 1. Barbara CartlandSeu reino por um amor
  2. 2. Título original: “A King in Love” Resumo da Capa: Zita percebeu, de repente, que não estava sozinha. Ouviu passos e avistou um vultono meio das árvores. Ficou aborrecida com aquela intromissão. Será que não tinha sequer odireito de sofrer em paz? Por que um estranho vinha perturbar a beleza daquele lugar queela só gostaria de compartilhar com uma única pessoa no mundo? Enquanto hesitava entreir embora ou fingir que não o via, o homem se aproximou. E Zita pensou que estavasonhando. Mas era o rei! Impulsivamente, sem pensar no que fazia, obedeceu ao coração.Correu para ele, esquecida de que Maximiliano só a desejava como amante. Esquecida deque ele era o homem destinado à sua irmã! http://groups.google.com/group/digitalsource
  3. 3. Capítulo 1 1865 Sua Majestade, o rei Maximiliano, levantou-se do divã onde estava deitado e largou ocopo. - Preciso ir embora. - Mais non, mon brave! O protesto veio dos lábios vermelhos da mulher que se olhava no espelho. Ela estava admirando, não seu rosto bonito, e sim, o colar de enormes rubis ebrilhantes que usava. - Não pode ir embora tão depressa - insistiu. O sotaque encantador transformava suavoz um tanto vulgar em algo muito atraente. Achando que seus protestos não eram suficientes, dirigiu-se para o rei, deixando queo néglige de gaze e de rendas se abrisse na frente. - Acha que seu presente fica bem em mim, mon cher? - perguntou, referindo-se aocolar e postando-se diante de Maximiliano. Os olhos do rei não pousaram no colar, e sim, no corpo da mulher que tinhaempolgado Paris. “La Belle”, pois era este o nome pelo qual era conhecida no teatro, sorriumaliciosamente e, com um leve movimento de ombros, fez com que o néglige caísse a seuspés. A pele da actriz era muito branca; a cintura, fina. Os seios e os quadris tinham ascurvas decretadas pela moda, mas só encontradas, com tal perfeição, em muito poucasmulheres. Ficou parada, dramaticamente, vendo os olhos do rei percorrerem seu corpo. Depois, com uma exclamação abafada, aproximou-se, passou os braços em volta dopescoço dele e beijou-o... Bem mais tarde, o rei se aproximou do espelho para atar o nó da gravata.
  4. 4. Agora era La Belle quem estava deitada no sofá, numa atitude de exaustão satisfeita,o colar de rubis ainda brilhando no pescoço. - Você me atrasou - disse o rei. - Mas o primeiro-ministro certamente vai aceitarminha explicação, isto é, que estive tratando de negócios importantes. - O que pode ser mais importante do que eu? - perguntou La Belle. - O primeiro-ministro teria muitas respostas para essa pergunta - disse ele, sorrindo. Feito o nó da gravata, olhou para seu reflexo no espelho, com ar zombeteiro, quasecomo se apreciasse as rugas cínicas que lhe marcavam o rosto. Observando-o, La Belle achou que, mesmo que não fosse um rei, era o amante maisardente e mais satisfatório que jamais tivera. E a actriz era muito experiente nisso! Seduzida aos doze anos, tinha atingido o estrelato graças à sua sucessão de amantes,até aparecer no Théâtre Imperial de Châtelet, onde Maximiliano a conhecera. Seus amantes haviam sido duques, marqueses e até um obscuro príncipe italiano; masum rei tinha um encanto que ela achava irresistível. O facto de Maximiliano ser muito rico e estar disposto a lhe dar uma vidaconfortável bastou para convencê-la a deixar Paris e ir para Valdastien, o país onde elereinava. No palácio havia um teatro particular, onde ela podia dançar para um públicodistinto, sempre que o desejasse. Mas achava mais excitante dançar só para o rei, na mansãoonde ele a instalou e que tinha sido construída um século antes, no jardim do palácio. Foi o avô do rei quem primeiro instalou ali uma amante, depois que ficou velhodemais para viajar para a capital e lá gozar os prazeres que somente uma mulher bonitapodia dar. Para facilitar ainda mais as coisas, a mansão comunicava com o palácio por meio deuma passagem subterrânea. Essa passagem tinha uma porta secreta dando para o escritóriodo rei e somente ele possuía a chave. - Quando vai voltar? - perguntou La Belle. Esperou ansiosamente pela resposta, sem ter certeza do que ele diria. Enquanto esperava, sabia que seria tolice tentar forçar o rei a marcar uma hora, oumesmo o dia em que poderia vê-la novamente. Omnipotente, só fazendo o que bem entendia, Maximiliano prezava sua liberdadeacima de tudo. A actriz sabia que, se fosse sensata, nada teria perguntado, apenas esperandoaté ele se dignar a voltar.
  5. 5. Em todos os casos amorosos anteriores, tinha dominado os homens que adesejavam, deixando-os de joelhos, podendo levá-los ao êxtase ou desprezá-los a ponto defazer com que ficassem desesperados. Mas o rei era diferente. Embora soubesse que o excitava, sendo muito bem recompensada pelo prazer quelhe dava, a actriz nunca sabia com certeza se no dia seguinte não se veria num trem,viajando de volta para Paris, sem nenhuma explicação da parte do rei por ter sido“despedida”. Quando Maximiliano se virou, ela se levantou do divã, fechando de novo o néglige.Com a sabedoria de sua profissão, sabia que só as mulheres tolas se viam abandonadasquando um homem se cansava delas. Ficou observando-o, enquanto ele vestia o paletó justo, que revelava os ombroslargos e seu porte atlético. Disse, suavemente: - Você é muito bonito. Vou ficar contando as horas, até eu poder lhe dizernovamente como anseio por sua presença. Falou em tom dramático, mas o rei sorriu com ironia, reconhecendo as frases da peçaque ela representava, pouco falando e obtendo sucesso apenas como dançarina. Foram justamente suas qualidades de dançarina, assim como seu corpo escultural,que atraíram o rei, em primeiro lugar. Quando ele se achava com La Belle, pensava que,assim como acontecia com a maioria das mulheres, quando menos ela falava, maisinteressante parecia. Olhou-a mais uma vez e dirigiu-se para a porta, dizendo: - Talvez eu organize um espectáculo no teatro, no próximo sábado. Vou pensar nistoe, se for possível, mandarei avisá-la, para que possa preparar uma dança que eu ainda nãoconheça. Antes que ela respondesse, saiu e fechou a porta. Desceu calmamente a escada,dirigindo-se para a porta da passagem secreta, que ficava na parte traseira do hall. Quando se viu só, La Belle atirou-se no sofá e ficou tamborilando com os dedos naparte curva da madeira. Sabia perfeitamente por que motivo o rei sugerira uma nova dança, que ainda nãotivesse visto. Era porque ela teria que ensaiar e planear um traje novo, ficando ocupadaenquanto Maximiliano não precisasse dela. Sentia-se furiosa por ver que ele dispunha de seu tempo, ao passo que ela mesma nãotinha o poder de prendê-lo.
  6. 6. Sabia, pois não faltou quem lhe dissesse isso, que não era a primeira mulher quetentava amarrá-lo e fracassava. Havia uma longa lista de amantes bonitas que tinham vindo para Valdastien e idoembora, se não em lágrimas, pelo menos humilhadas, percebendo que não eram tãoirresistíveis como pensavam. Antes de La Belle sair de Paris, uma de suas amigas avisou: - Vai ver que o rei é generoso, gentil e deliciosamente apaixonado. Mas é tambémesquivo, indiferente ao sofrimento feminino e, invariavelmente, inacessível. La Belle não acreditou. Tinha certeza de que, mesmo que todas as mulheres domundo não conseguissem conquistar o coração de Maximiliano, ela conseguiria. Agora sabia que, embora a cumulasse de jóias, embora despertasse o desejo dela,como a actriz despertava o dele, o rei continuava sendo dono absoluto de si mesmo. Tinha a desagradável sensação de que, se morresse no dia seguinte. o rei mandariaflores para o enterro e não pensaria mais nela. Foi até à janela, blasfemando baixinho na gíria da sarjeta. Olhou para fora, mas nãoviu as montanhas altas com os picos cobertos de pinheiros, nem o vale verde onde um rioprateado serpeava por entre campos floridos.Em vez disso, imaginou os bulevares cheiosde gente, os lampiões de gás nos cafés, o público entrando no teatro, pronto para aplaudi-laruidosamente, quando terminasse sua dança. “Sou uma tola! Não sei por que não o abandono e volto para lá.” Com receio da resposta, afastou-se da janela com ar petulante e postou-se diante doespelho, para admirar o colar de rubis. Temia, como tantas outras antes dela, se apaixonar por um homem para o qual sósignificava um belo corpo e uma dançarina sensacional. O rei andou pela passagem secreta, que tinha um tapete grosso e era decorada comlambris feitos com nogueira das florestas de Valdastien. Com uma chave de ouro, abriu aporta que dava para o seu escritório. Ao fechá-la, não pensava na actriz, como La Belle teria gostado, e sim, no primeiro-ministro, que devia estar esperando por ele com impaciência. Maximiliano estava mais de uma hora atrasado para a entrevista. Mas não pretendiase desculpar, pela simples razão de acreditar que reinava pela graça de Deus e que,portanto, seus súbditos, inclusive o primeiro-ministro, deviam aceitá-lo como era. Passou para o enorme hall barroco, um dos mais belos do país e famoso em toda aEuropa.
  7. 7. O palácio tinha sido reformado e aumentado no correr dos séculos, pouco restandoda construção original, que datava do século XVI. Cada monarca tinha feito o possível para torná-lo mais impressionante. Governantesde Outros países, quando vinham a Valdastien pela primeira vez, ficavam cheios de invejada beleza do palácio e da riqueza das peças que ali havia. Maximiliano subiu uma escada magnífica, decorada com ouro e marfim, indo até aantecâmara onde o primeiro-ministro devia estar à sua espera. Era ali que, por tradição, o rei recebia seus ministros. Como que para fazer com que compreendessem que eles eram apenas uma pequenaparte da história, as paredes estavam cobertas por tapeçarias representando as vitórias dosantigos governantes e o teto pintado era obra de um artesão local que se inspirara nosmestres italianos. Quando o rei entrou na antecâmara, esperando ali encontrar, não apenas o primeiro-ministro, mas pelo menos meia dúzia de membros do gabinete, ficou admirado por verapenas dois homens, perto da janela. Teve a impressão, embora não pudesse ouvir o quediziam, de que conversavam seriamente e até pareciam um pouco apreensivos. Estavam tão entretidos, que, por um momento, não perceberam a presença do rei. Maximiliano tinha uma aguda percepção das pessoas e soube que o pedido urgentedo primeiro-ministro para vê-lo não era uma visita de cortesia, e sim, para tratar de algumassunto muito grave. Dirigiu-se para os dois homens, que imediatamente ficaram atentos. - Boa tarde - disse ao primeiro-ministro. - Boa tarde, Majestade. É muita gentileza sua nos receber, a mim e ao chanceler, comtão curto aviso. O rei inclinou a cabeça para o chanceler, o conde Holé, de quem não gostava muito. O primeiro-ministro Continuou: - Temos um assunto a discutir com Vossa Majestade e esperamos que tenha abondade de nos ouvir, sem ficar contrariado. Maximiliano ergueu as sobrancelhas. - Acho que esta sala é muito grande para uma conversa íntima. Sugiro que passemospara a sala vizinha, onde certamente ficaremos mais bem acomodados. Muito à vontade, sentou-se numa cadeira de espaldar alto, onde se via o brasão realbordado em seda e ouro. Com um gesto, indicou que os dois homens deviam sentar-se. Eles escolheram duas cadeiras perto do rei, obviamente para não precisarem falaralto.
  8. 8. Maximiliano olhou de um para o outro. - Então, senhores? Estou curioso para saber qual o importante problema que metrouxeram e que, por um motivo com o qual ainda não atinei, não exige a presença de todoo gabinete. O primeiro-ministro respirou fundo. - O chanceler e eu estamos ansiosos, Majestade, para lhe falar sobre esse problema,antes que seja apresentado ao gabinete e, mais tarde, ao parlamento. - Fez uma pausa,olhou para o chanceler como pedindo confirmação, e continuou: - Devo ser franco, Majes-tade, e dizer imediatamente qual o motivo que nos trouxe aqui? - Certamente, prefiro que me digam logo qual o motivo. Como bem sabem, nãogosto de dissertações longas, que geralmente são desnecessárias. - Muito bem, Majestade. A opinião de muitos de meus colegas, partilhada por toda anação, é que a linha sucessória precisa ser garantida. Seria um erro encorajar certas naçõesvizinhas a pensarem que, caso alguma coisa acontecesse a Vossa Majestade, elas poderiamter alguma interferência nos negócios de Valdastien. Quando o ministro começou a falar, o rei se contraiu. Agora, com voz inexpressiva,mas com olhar duro, disse: - O que está insinuando, primeiro-ministro, é que devo casar. Como Vossa Majestade me pediu para ser franco, a resposta é... sim. - Sou relativamente moço. - Claro, Majestade. Ao mesmo tempo, não tem irmãos e, se não tiver um filho, alinha sucessória terminará. O rei ficou em silêncio, sabendo que era verdade. Como se temesse ter despertadosua cólera, o ministro continuou: e... - O povo do sul do país ficou muito abalado com a tentativa de morte contra o reiGustavo, há três semanas. Como Vossa Majestade não ignora, Sua Majestade escapou porum triz. E nada nos diz que não haja outra tentativa de assassinato. - O que os senhores estão dizendo é que há anarquistas por toda a parte. Na últimavez que estive em Paris, comentava-se que houve um atentado contra a rainha Vitória, naInglaterra. - É verdade, Majestade. E, aqui em Valdastien. o povo tem medo, não apenas de queum anarquista o ataque, como também porque sabem que Vossa Majestade está semprecorrendo perigo.
  9. 9. O rei percebeu que o primeiro-ministro se referia a seus passatempos predilectos.Gostava de alpinismo e orgulhava-se de, aos trinta e cinco anos, poder escalar montanhascom a força e a agilidade de quinze anos antes. Gostava também de domar cavalos selvagens, dos quais havia muitos em Valdastien.Eram capturados em distritos isolados e montanhosos. Quando os melhores eram trazidospara as cocheiras do palácio, o rei fazia questão de montar aqueles que seus cavalariçosmais temiam. Essas duas actividades aborreciam o primeiro-ministro. Mas, com um sorriso sarcástico, Maximiliano pensou que havia outro assunto que opreocupava; não o abordava, embora estivesse presente em seu pensamento. Em sua última viagem a Paris, o rei foi desafiado para um duelo por um francêsencolerizado que jurava que ele lhe havia seduzido a esposa. O facto de não ter sido necessário nenhum esforço por parte de Maximiliano e de ocaso estar longe de ser sedução, não o impediu de aceitar o desafio. Embora o aristocrata francês fosse um famoso duelista, que já tinha matado doisadversários, foi ferido por uma bala do rei, mas não antes de acertá-lo de raspão no braço. Todo o país ficou assombrado com o que aconteceu com seu rei e houve inúmerasespeculações a respeito. Maximiliano sabia que, para o primeiro-ministro e o resto do gabinete, era essetambém um motivo urgente para tentar convencê-lo a ter um herdeiro. O chanceler disse: - Creio ser desnecessário explicar a Vossa Majestade o quanto o povo se sente felizsob seu reinado, esperando que haja muitos anos de alegria e de prosperidade. - Ao mesmotempo. Seu olhar encontrou o do rei e ele se calou. Parecia ter medo de dizer mais algumacoisa e de receber uma resposta áspera. Maximiliano apertou os lábios. Ia dizer ao primeiro-ministro, ao chanceler e a todosque podiam ir para o inferno, antes de vê-lo casado, quando ele se lembrou de que haviauma ameaça muito maior para Valdastien. No ano anterior, em Paris, o imperador lhe havia dito francamente que temia asambições da Prússia e que tinha certeza de que Bismarck estava decidido a unir todos osEstados germânicos menores em uma Alemanha imperial que os engoliria a todos. um porum. Maximiliano, que não tinha em grande conta a inteligência de Napoleão MI, não lhedera ouvidos.
  10. 10. Agora, os avisos - uns dados por franceses, outros vindos em cartas de monarcas quereinavam em países pequenos como o dele - pareciam aumentar cada vez mais. Podia visualizar a Alemanha invadindo o mapa da Europa, engolindo um a um osprincipados até formar uma federação capaz de enfrentar a Inglaterra e a França em pé deigualdade. Com surpresa, o primeiro-ministro ouviu o rei dizer, em tom muito diferente doesperado: - Vou levar sua proposta em consideração. Compreendo que o que sugere é sensato.Embora não deseje casar, acho justo o desejo de meu povo de eu lhe dar um herdeiro. O primeiro-ministro respirou, aliviado. - Só posso agradecer a Vossa Majestade por se mostrar tão compreensivo. - Vou pensar nisso. Acho que o melhor seria eu visitar primeiro os países vizinhos,com os quais pudéssemos fazer uma aliança firme. O primeiro-ministro, que era um homem astuto, compreendeu exactamente o que orei queria dizer. Também ele tinha medo da Alemanha e da ambição de Bismarck, que,como toda a Europa sabia, manipulava o fraco rei Guilherme, que estava mais interessadoem sua saúde do que na grandeza da pátria. O rei levantou-se. - Obrigado, senhores, por sua visita. Eu lhes participarei meus planos, assim que tivertempo de fazê-los. Satisfeitos com o resultado da entrevista, o primeiro-ministro e o chanceler seretiraram. Depois que ficou sozinho, o rei sentou-se numa poltrona e ficou olhando, sem vê-lo,o belo quadro de Fragonard na parede oposta. Não viu a figura graciosa no jardimromântico, nem os cupidos acima dela, no céu. Pensou apenas na incrível caceteação de ter que tolerar a companhia de uma rainhacuja única qualidade, no que lhe dizia respeito, seria seu sangue real. Pensou nas cortes pretensiosas e aborrecidas que tinha visitado em suas viagens pelaEuropa; nos monarcas que conhecera. Eram todos iguais, muito cônscios de suaimportância, tendo pavor de serem depostos, não falando de outra coisa a não ser deassuntos familiares e de mexericos a respeito de outras cortes. Lembrou-se da comida sem graça, invariavelmente servida nesses lugares quedetestava, das camas pouco confortáveis, das intermináveis cerimónias oficiais ecompreendeu que uma rainha traria para o palácio de Valdastien todas essas coisas que oirritavam e que sempre procurava evitar.
  11. 11. Sendo solteiro, tinha conseguido reduzir essas cerimónias ao mínimo, podendodivertir-se livremente, quase como se fosse um cavalheiro inglês, em sua propriedade rural. Ia caçar quando bem entendia, só recebia as pessoas de quem gostava, deixandotodas as cerimónias solenes, a não ser uma ou duas por ano, a cargo do primeiro-ministro ede outros membros do governo. Pensando bem, achou que o povo de Valdastien via seu monarca menos do que o dequalquer país. Por isso, disse a si mesmo, com ironia, esse povo estava muito mais satisfeitodo que qualquer outro. Uma rainha mudaria tudo! Ia querer comparecer a inúmeras solenidades públicas,visitar hospitais, receber buques de flores e, sempre que possível, andar de carruagem parareceber os aplausos da multidão. Ia também querer interferir na direcção dos serviços domésticos do palácio, que o reiconsiderava perfeitos, porque tinha o dom da organização. Em vez de jantar com seus amigos íntimos, ou de gozar uma noite solitária, lendo ouindo visitar La Belle, ou a mulher que estivesse instalada na mansão na ocasião, teria queficar conversando com alguma Frau feiosa e maçante. As damas de honra seriam, sem dúvida, ainda mais feias e mais aborrecidas do que arainha. Que vida terrível! Mas sabia que não havia alternativa. O primeiro-ministro não falaria com ele daquele modo, a não ser que tivesse sidopressionado pelos outros membros do governo e também pelos cidadãos importantes, quequeriam evitar a ameaça germânica. Pior ainda era a perspectiva de terem que encontrar um governante estrangeiro paravir ocupar o lugar do rei, caso ele morresse sem deixar um herdeiro. Maximiliano sabia que os gregos tinham procurado desesperadamente por ummonarca, tendo recentemente eleito para o trono o segundo filho do rei da Dinamarca, quese tornou George I. Mas sabia também que, se alguma coisa lhe acontecesse, Valdastien era um paíspequeno demais para sobreviver. Um tanto desgostoso, pensou que era justo que fizesseum sacrifício por seu povo. Há oito anos que reinava e apreciara cada momento. Tinha sido pouco convencional,mas ninguém se queixou; era também totalmente egoísta, quando se tratava de seusinteresses particulares, e o povo o admirava por isso.
  12. 12. Agora, precisava pagar o preço da liberdade que gozava, mas considerava-o muitoalto. - Só Deus sabe onde poderei encontrar uma esposa que eu ache pelo menossuportável! - murmurou. Como se o diabo zombasse dele, viu passar diante de seus olhos uma procissão deprincesas, altas, baixas, gordas, magras, loiras, morenas, ruivas. Todas lhe pareciam muitopouco atraentes, e a idéia de tocá-las fez com que estremecesse. Mas uma seria a mãe de seus filhos e usaria a coroa de Valdastien. - Não suportarei isso! Depois, como se o diabo mudasse o cenário e erguesse o pano para um outro acto, orei viu as mulheres que tinha escolhido por seus encantos e que o prenderam durantealgum tempo. Todas tinham suas qualidades. Assim como os quadros que comprara para o palácio, assim como as jóias que dera atais mulheres, cada uma delas tinha sido perfeita. Mais do que qualquer outra coisa, ele detestava a feiúra. Sabia que tinha herdado dopai o amor à beleza, como também da mãe, que, com seu sangue húngaro, tinha sido umadas mulheres mais bonitas que jamais conhecera. Era uma magnífica amazona; tinha morrido muito moça, porque, assim como ele,gostava dos cavalos selvagens, em vez dos que poderia montar sem perigo. Se foi bonita em vida, também continuou sendo bonita depois de morta, O rei sabiaque sua beleza o inspirava, e era o que procurava em todas as mulheres, sem jamais aencontrar. Consternado com o futuro que o esperava, teve a impressão de que, de repente, umabismo se abria à sua frente. Não estava mais seguro, devia seguir um caminho estranho e traiçoeiro, com aconvicção de que sua paz e sua felicidade seriam destruídas, para sempre. Começou a andar de um lado para outro, inquieto. Como se não pudesse mais suportar os próprios pensamentos, desceu a escada e foipara o escritório. Procurou a chave que tinha guardado no bolso do colete. Sabia, embora isso fosseapenas um paliativo como o vinho, que só La Belle poderia fazer com que se esquecesse detudo, por um momento.
  13. 13. A porta da sala de estudos se abriu, mas a princesa Zita, que lia junto da janela, nãovirou a cabeça. Estava, na realidade, no mundo da fantasia, onde ficava, sempre que lia um livro, eonde se refugiava, à noite, ou mesmo durante o dia, quando não se interessava pelo que sepassava à sua volta. Só quando percebeu que havia alguém a seu lado, foi que olhou para a recém-chegada, sua irmã mais velha, Sophie. - Imagine o que aconteceu! - exclamou Sophie. A contragosto, porque estava muito mais interessada na leitura, Zita perguntou: - O que foi? Não esperava nada de excitante, mas sabia que devia ser alguma coisa inesperada; docontrário, Sophie não teria vindo interrompê-la. A irmã sentou-se no banco da janela, diante dela. - Mal posso acreditar, mas mamãe diz que deve ser por isso que ele vem aqui. - De quem está falando? Quem é que vem aqui? - O rei Maximiliano de Valdastien avisou o papai que está fazendo uma tournée pelospaíses vizinhos e que deseja passar uns dias aqui. Sophie falou no tom preciso, inexpressivo que lhe era peculiar, mas seus olhosestavam animados, e encarou a irmã, com apreensão. Zita ficou sem fala, por um momento. - O rei Maximiliano? Tem certeza? - Absoluta. E mamãe acha que ele vem pedir minha mão em casamento. - Não pode ser verdade! Sempre ouvimos dizer que o rei é um solteirão inveterado,que não pretende casar, embora haja muitas mulheres dispostas a partilhar o trono com ele. Zita parecia estar falando para si mesma. Como a irmã não respondesse, continuou: - Creio que sei por que motivo ele mudou de idéia. Uma noite destas, papai estavafalando com o barão Meyer sobre a determinação de Bismarck de expandir as fronteiras daAlemanha. - Fez uma pausa e acrescentou, em tom positivo: - Sim! é por isso que o rei quernão apenas ter certeza de que nosso país será seu aliado contra a Alemanha, como tambémter um herdeiro. Zita não esperava que a irmã respondesse, pois sabia que Sophie não se interessavapor política, nunca procurando ouvir a conversa quando o pai recebia algum membro dogoverno, nem, tampouco, lendo os jornais. Zita gostava tanto de jornais quanto de livros. Muitas vezes achava que seu cérebroestava dividido em dois compartimentos: um se interessava por política e pelos problemas
  14. 14. de todos os países da Europa; o outro estava repleto de fantasias que tornavam o mundobelo como um conto de fadas. Nesse último, não havia problemas, a não ser os que aconteciam com ninfas e sátiros,com gnomos e duendes, assim como com as sereias que atraíam marinheiros e navios comseu canto, levando-os à destruição. Era esse o assunto da história que estava lendo. Por um momento, teve dificuldadeem abandonar as sereias, com seus cabelos longos flutuando nas ondas, para concentrar-seem Maximiliano e na sua procura de uma esposa. Então achou que a diferença não era muito grande, afinal de contas. A mãe de Zita, a grã-duquesa, ficaria horrorizada, se soubesse que a filha tinhaconhecimento da reputação do rei, isto é, a de dar sua protecção às mais lindas mulheres doteatro. O professor de música, que ensinava piano a Zita, tinha sido concertista, em Paris.Assim sendo, conhecia o mundo do teatro, que fascinava a princesa, já que ela vivia naquietude de Aldross, o país de seu pai. - Conte-me mais alguma coisa, monsieur, conte tudo! - pedia Zita, quando a liçãoterminava. E o professor tinha prazer em falar para ouvidos tão atentos. Contava sobre as grandes personalidades do teatro. Como ia sempre a Paris, ondetinha dois filhos casados, Zita sabia quais eram as últimas peças em cartaz. Ele descrevia as prima- donas que atraíam multidões à ópera, as estrelas dos cafés-concertos, as mulheres que enfeitiçavam os homens, que gastavam fortunas com elas emvestidos, jóias, carruagens, cavalos e tudo o que desejassem. Sabendo o quanto a moça se interessava, ele lhe trazia jornais franceses, que nãoapenas descreviam o que acontecia no palco, como os escândalos sobre as pessoas da altasociedade. O nome de Maximiliano aparecia frequentemente nesses jornais. Zita se interessavapor ele, porque o rei era muito bonito, a julgar pelos retractos e desenhos, e exactamente oque Zita esperava que um monarca fosse. Com um ar dominador e autoritário, pareciamuito diferente dos homens comuns, assim como dos parentes de sangue real da princesa. Encorajado pelo interesse da aluna e levado por sua própria verbosidade, o professoràs vezes era indiscreto. A mocinha ficou sabendo dos casos do rei. Assim que La Belle foiinstalada em Valdastien, ela teve conhecimento do fato. - Diga-me como é essa actriz - pediu ao professor. - Linda, com o corpo de uma deusa! Quando anda pelo palco, usando um trajediáfano que revela a perfeição de suas formas, o público fica em silêncio. Não há maior
  15. 15. homenagem para uma actriz do que o silêncio de um público fascinado por sua beleza epelo papel que interpreta. Zita também ficava fascinada, mas não podia compreender que uma artista como LaBelle pudesse trocar os aplausos mesmo por um rei! - Será que ela não sente solidão, levando uma vida tão calma naquele país, que ouvidizer que é parecido com o nosso? O professor sorriu. - Ela tem o rei para aplaudi-la. - Quer dizer que dança para ele? A pergunta fez com que o professor percebesse que tinha falado demais com umacriatura jovem demais, que não deveria saber que mulheres como La Belle existiam. - A aula acabou, princesa. Amanhã vamos tratar das composições de Liszt, em vez deperdermos tempo com conversa fiada. Num tom muito sedutor, Zita disse: - Mas, professor, deve compreender que, quando conversamos, o senhor abre paramim novos horizontes. E a música, quando vem do coração tanto quanto da mente, nãopode ser abafada. Sabia que esse era o tipo de comentário que ele apreciava e compreendia. - Vossa Alteza Real é muito inteligente. Por outro lado, eu não devia falar nessasmulheres. - Se essas mulheres dançam tão bem, como o senhor disse, então elas dão beleza aomundo, e é isso que todos nós buscamos. - É verdade, bem verdade. Mas devo falar-lhe, Alteza, de Raquel, que foi uma actrizbrilhante e uma das maiores prima- donas de óperas, e que ainda não estudamoscompletamente. - Sim, é claro. Se o senhor puder arranjar um retracto dela, numa das suas revistas, euficaria muito satisfeita. Sabia perfeitamente que não estava interessada nas qualidades artísticas de La Belle, esim, em seu relacionamento com o rei Maximiliano. “Por que será que ele a acha tão atraente?”, pensou. Resolveu continuar insistindo com o professor para que lhe arranjasse um retracto deLa Belle. Queria satisfazer sua curiosidade quanto aos encantos da actriz que tinham feitocom que o rei a tirasse de Paris e a conservasse em Valdastien. Agora, inesperadamente, ficava sabendo que o rei vinha a Aldross para casar comSophie.
  16. 16. Ao compreender o significado disso, Zita soltou uma exclamação de alegria. - Sophie, você é a criatura mais feliz do mundo! Já pensou como é excitante? Papaidisse que não há no mundo nenhum monarca que se compare a ele em beleza e emqualidades atléticas. Ele galgou o Matterhorn, em certa ocasião. E você vai ter, emValdastien, os cavalos mais soberbos e mais fogosos. Ao dizer isso, lembrou-se de que a irmã não gostava de cavalos que não fossemmuito mansos. Zita é que tinha herdado as qualidades de amazona da avó, que havia sido aclamadapor sua habilidade, assim como por sua beleza, em seu país, a Hungria. - Não me interessam os cavalos, e sim, o povo de Valdastien - respondeu Sophie. -Vou querer que todos me respeitem e me admirem. Sei que darei uma boa rainha, Zita. - Tenho certeza disto, querida. Mas, muito mais importante do que ser rainha, é ser aesposa do rei Maximiliano. Sophie ficou em silêncio por um momento, antes de dizer: - Não creio que mamãe aprove realmente o rei, mas é claro que deseja que eu tenhauma posição importante. Não fosse por isso, penso que ela estaria considerando meucasamento com o margrave de Baden-Baden. Zita fez uma careta. - Oh, não! Ele é tão maçante! Nunca diz uma coisa da qual a gente se lembre depois. - Acho - O um bom homem. Zita olhou para a irmã, pensativa. Pelo que tinha ouvido falar, seria impossível descrever o rei como “um bomhomem”. Não era apenas o professor de música que falava dele, como também madameGoutier, que vinha ao palácio dar aula de francês para as duas princesas. Era parisiense, mas casara com um cidadão de Aldross. Depois em viúva, continuouvivendo ali, mas nunca perdeu contato com seu país de origem. Ia regularmente a Paris,onde tinha numerosos parentes que a punham a par das últimas novidades e mexericos. Sophie achava difícil aprender francês. Por isso, não ficava para conversar, depois daaula, escapando assim que terminava. Zita ficava sozinha com a francesa. - Conte as últimas novidades de Paris, madame. Levando uma vida solitária, madame Goutier tinha muito prazer em responder. Falava sobre o imperador e a imperatriz, sobre os vestidos que Frederick Worthfazia, não apenas para as aristocratas, como para as mulheres do demi-monde, que tinhamjóias e trajes mais bonitos do que os das senhoras recebidas no Palácio das Tulherias.
  17. 17. Por intermédio da professora, Zita ficou conhecendo um mundo que, supostamente,ela não devia conhecer e que certamente não era comentado por princesas reais. Ficou sabendo das loucas extravagâncias de mulheres que atraíam os homens comsua beleza, levando-os a perder fortunas só pelo prazer de estar com elas. A moça erainteligente e não tinha dificuldade em preencher os vazios que a professora deixava em suasnarrativas. Como o imperador não fazia segredos de seus casos amorosos, a filha de madameGoutier escrevia à mãe sobre as aventuras dele. Também o príncipe Napoleão exibia suasamantes. Zita soube que o barão Haussmann, que havia reconstruído Paris, tinha sido vistopasseando, sem a menor cerimónia, com a actriz Francine Cellier. Soube também que o rei holandês estava apaixonado por madame Mustard, tendogastado com ela uma quantia astronómica. Conversando sem pensar, assim como o professor de música, madame Goutier nãofazia a mínima idéia de quanto a aluna guardava de cor, sobre tudo que lhe contava. “Ah, se eu pudesse conhecer Paris! Zita achava que teria que se contentar em sonhar com isso. Agora, de repente, comoum meteoro que caísse do céu, o homem mais bonito, mais audaz e certamente o maisfalado em Paris, o rei Maximiliano, seria hóspede do castelo de Aldross! - Não posso acreditar que seja verdade! - disse novamente. - Se casar com ele,Sophie, vai ser excitante, não apenas para você, como para mim. Prometa que meconvidará para ir passar uns tempos em Valdastien, se não quiser que eu fique desolada. Zita falou em tom de súplica, tão grande a intensidade de seus sentimentos. MasSophie respondeu devagar, com o tom inexpressivo de sempre: - Não, Zita! Não vou convidá-la para ficar uns tempos comigo em Valdastien, nemquero que fique muito perto de mim. Você é bonita demais!
  18. 18. Capítulo 2 - Como pode ser tão injusta, mamãe? - perguntou Zita, indignada. A grã-duquesa ficou em silêncio, como que pesando as palavras. - Esta é a oportunidade de Sophie fazer um bom casamento e não quero que vocêinterfira ou estrague tudo para ela. - Como eu poderia fazer isso? A grã-duquesa não respondeu à pergunta. Disse, apenas: - Não vou discutir o assunto. Você ficará no andar de cima e não tomará parte emnenhum dos festejos preparados para o rei Maximiliano. Se me desobedecer, será mandadapara a casa de um de nossos parentes. Zita ficou quieta. Se achava o palácio um lugar sombrio, isso nada era emcomparação com a monotonia e a depressão da casa de tios que viviam em lugares aindamais isolados do país. Levantou-se e saiu da sala, fechando a porta com ruído. A mãe suspirou. Sempre achara Zita difícil, porque se parecia com o pai, ao passoque Sophie era quieta e obediente, exactamente como a grã-duquesa. Zita caminhou ligeira pelo corredor, indo à procura do pai. lrrompeu no escritório,encontrando-o sozinho. Aproximou-se e disse, zangada: - Papai, não posso acreditar que seja com seu consentimento que me proibiram dejantar com o rei Maximiliano ou de comparecer ao baile. Para dizer a verdade, parece quenem mesmo lhe serei apresentada! O grão-duque ergueu o olhar do jornal e notou o brilho encolerizado dos olhosverdes da filha. Com voz afectuosa e olhar bondoso, disse: - Sinto muito, querida. Achei mesmo que você ia ficar aborrecida. - Então o senhor sabia! - disse Zita, em tom acusador. - Oh, papai, como pôde sertão cruel? O grão-duque estendeu a mão. Zita pegou-a e ajoelhou-se ao lado dele, com arsúplice.
  19. 19. - Sabe como a vida aqui tem sido monótona, ultimamente, papai. Seria bom dançarcom alguém, principalmente com o rei Maximiliano, que sempre desejei conhecer. O pai apertou-lhe a mão. - Infelizmente, querida, creio que a decisão de sua mãe, de não permitir quecompareça aos festejos em honra do rei, é por você ser tão bonita! Zita fitou-o, como se não acreditasse em tais palavras. Depois disse, serenamente: - Oh, sei que Sophie finge que tem ciúme de mim e que mamãe não aprova meucomportamento com o senhor. Mas, francamente, o que elas sentem não deve sersuficientemente sério para eu ficar isolada na sala de aula, como se tivesse uma moléstiainfecciosa! O grão-duque sorriu, mas foi em voz triste que respondeu: - Quando eu soube o que havia sido decidido, compreendi que você ficariaaborrecida. Mas não há nada que eu possa fazer. - Por que não? O pai explicou, pacientemente: - Porque é muito importante, como você deve compreender, que países pequenoscomo o nosso se unam contra a cobiça da Alemanha. Se o rei Maximiliano casar comSophie, nossos dois países ficarão muito mais fortes do que são actualmente. Sabia que Zita compreenderia exactamente o que ele dizia, porque muitas vezes osdois tinham discutido os problemas políticos da Europa. - Pensei que a Alemanha estivesse de olho na Áustria - disse ela, dali a um momento. - Primeiro, a Áustria; depois, a Bavária e talvez nós. Em seguida... por que não?... aFrança. Zita respirou fundo. Sabia que ele não estava falando levianamente. Era o que ela também achava, casoBismarck transformasse suas palavras em acções. Encostou a face na mão do pai e disse: - Mesmo assim, gostaria de ir ao baile oficial. Se me deixar ir, prometo não dançarcom o rei. - Mas ele pode querer dançar com você, meu bem. E é exactamente disso que suamãe e Sophie têm receio. Zita não se moveu. Ainda com a face encostada na mão do pai, pensou que era aprimeira vez que alguém na família dizia que ela era bonita. Mas seria muito estúpida, se não tivesse percebido que se parecia muito com afamosa avó húngara.
  20. 20. A antiga grã-duquesa fez sucesso em toda a Europa e, pelo que Zita sempre ouviudizer, poderia ter feito um casamento muito mais brilhante, em vez de aceitar o pedido dogrão-duque de Aldross. - Sua avó se apaixonou assim que viu seu avô, - disse o pai a Zita, quando ela erapequena e admirava o retracto da avó, pendurado - na sala do trono. - Se vovô era como o senhor, papai, então isso não me surpreende. Deve ter sidomuito bonito. - Obrigado, querida - respondeu o grão-duque, na ocasião. - Mas estou satisfeito porpoder dizer que, embora me pareça com meu pai, herdei muitas das características deminha linda mãe, principalmente seu amor por cavalos e sua habilidade em montar osanimais mais fogosos. E fui bastante inteligente para criar uma réplica dela em você. Talvez pelo facto de ter amado e admirado a mãe, o grão-duque adorava Zita.Quando ela nasceu, já tinha um filho, Henrich, e uma filha, Sophie. Embora nada dissesse,esperava que a terceira criança fosse um menino. Mas, assim que viu Zita, soube, de maneira inexplicável, que ela significava mais paraele do que os outros dois filhos. À medida que a menina crescia e se tornava cada vez mais bonita, com seus cabelosruivos e olhos verdes, o pai passava mais tempo na saleta das crianças. Quando ela estava com oito anos, o pai a levou numa de suas viagens, apesar dosprotestos da grã-duquesa. Ele ia sempre para as montanhas, o que enfurecia a esposa. - Quero conhecer meu povo. A melhor maneira de fazer isso é viver um pouco nomeio dele - disse o grão-duque, com firmeza. Usando calça curta de couro, jaqueta verde e chapéu tirolês, o que era quase umuniforme entre o povo de Aldross, tanto quanto entre os bávaros, o grão-duque costumavafazer essas viagens sozinho. Hospedava-se em estalagens pequenas, tomava o vinho da localidade, cantava comseus súbditos as canções regionais que, de certo modo, expressavam melhor do quepalavras o que sentiam. O povo de Aldross o adorava, achando que ele compreendia seus problemas. O facto de o grão-duque ter outro motivo para fazer essas excursões ocasionais àsmontanhas fazia com que seus súbditos lhe sorrissem e dissessem, uns para os outros: “Eleé um homem de verdade”.
  21. 21. Para Zita, viajar sozinha com o pai era a coisa mais excitante do mundo, O grão-duque tomava conta dela, sem repreendê-la, sem lhe dar ordens o tempo todo, comoacontecia com as babás, com as governantas e, naturalmente, com sua mãe. Ela e o pai iam a cavalo até a metade do caminho, na subida para uma montanha.Apeavam e depois seguiam a pé, atravessando os pinheirais e indo até os rochedos nus,enquanto as pernas da menina aguentassem. Embora procurasse não se queixar, às vezes Zita tinha que confessar que estavacansada. Aí, então, procuravam um lago. e o grão-Duque sugeria que ela nadasse, até sentir-se revigorada com a água fria. Depois da primeira viagem com o pai, Zita aprendeu a nadar e acabou sabendo nadarcomo um peixe. Mas era uma aptidão que ela jamais mencionava no palácio, pois a mãe não aprovariaque nadasse nua, mesmo não havendo ninguém por perto, a não ser o pai. Todos os anos, Zita e o grão-duque iam juntos a algum lugar. Nada do que a grã-duquesa pudesse dizer ou fazer os impedia de escapulir por uma semana ou dez dias. Voltavam queimados de sol, cheios de saúde e de bom humor, mas pouco diziamsobre o lugar para onde tinham ido ou sobre o que haviam feito. Quando Zita estava com quinze anos, a grã-duquesa a proibiu de fazer essasexcursões. Por mais que suplicasse ao pai, não conseguiu convencê-lo a levá-la. Não compreendia o motivo dessa proibição repentina, a respeito de uma coisa que atornava tão feliz e que também dava prazer ao pai. Só quando começou a ouvir falar dos homens que gastavam tanto dinheiro, em Paris,com as mulheres bonitas do derni-monde, foi que Zita teve a vaga idéia do que o grão-duquefazia, quando dava essas fugidinhas sozinho. Então, palavras semi-esquecidas lhe voltavam à memória, palavras que no passadonão tinham sentido para ela. - Não quero saber de ver uma filha minha se associando com essas mulheres! - disse,certa vez, calando-se subitamente, ao perceber que a menina entrava no quarto. Em outra ocasião, ouviu a grã-duquesa perguntar, furiosa: - Que espécie de reputação você acha que tem, andando com essas mulheres queencontra em... Também dessa vez, a frase não foi terminada. Gradualmente, voltaram outrasrecordações que fizeram com que Zita compreendesse por que motivo agora era deixadaem casa.
  22. 22. Certa vez, estava dormindo numa estalagem, num quarto pequeno e de tecto baixo,com uma vista linda das montanhas ao longe. O luar, entrando pela janela, bateu em seurosto e Zita despertou de um sono profundo. Ela e o pai tinham caminhado o dia inteiro, nadado num lago frio e depois ido para aestalagem encantadora no alto da montanha. Quando lá chegaram, uma moça loira, de pelerosada e olhos azuis como miosótis, correu para eles, com uma exclamação de alegria. - Você voltou! - disse, ao grão-duque. - Pensei que nunca mais o veria. Ele sorriu, passou a mão no rosto da moça e respondeu: - Sempre cumpro minhas promessas. Névia. Desta vez, trouxe minha filha paraconhecer a mulher mais bonita de Aldross! O jantar foi delicioso, e Zita teve licença de tomar um pouquinho do vinho dodistrito. Depois, não podendo mais ficar em pé, foi para a cama e pegou no sono assim quese deitou. Ao acordar por causa do luar em seu rosto, achou que era muito feliz. Estava quaseadormecendo novamente, quando ouviu uma risadinha suave e depois a voz do pai, grave eprofunda, como nunca tinha ouvido antes. Pareceu-lhe estranho, mas Zita estava com muito sono para se preocupar com isso eno dia seguinte já se esquecera. Mais tarde, quando se lembrava deste episódio, achava que combinava com a cóleraque a mãe sentia quando o marido partia numa de suas viagens. Embora Zita não tivessemais permissão para acompanhá-lo, ele continuava a fazer essas excursões sozinho,despertando a ira da esposa. Lentamente, a garota começou a ver os pais sob um novo ângulo. Compreendeu queo casamento deles tinha sido arranjado e que, para Aldross, fora uma vantagem o grão-duque casar com uma moça da família real britânica, pois o país poderia contar com umcerto apoio da Inglaterra, caso isso se tornasse necessário. A grã-duquesa, de aparência muito inglesa, era severa e tímida. E, à medida queenvelhecia, tornava-se mais fria e pouco emotiva, muito diferente do povo alegre eextrovertido de Aldross. Ali, todos riam, porque eram felizes, e cantavam enquanto trabalhavam. Aoanoitecer, as vozes dos trabalhadores, voltando para casa, ecoavam pelos campos comosinos, parecendo subir até os morros de cumes brancos de neve, como que levadas porasas.
  23. 23. Só naquele ano, quando tinha quase dezoito anos, Zita percebeu que a mãe amava ogrão-duque, não porque era sua esposa, e sim, como mulher. Levou um choque, ao compreender, quase como se o pai lhe tivesse dito isso, que,embora ele tratasse a mulher com respeito e consideração, não estava apaixonado por ela. “Pobre mamãe!” Decidiu que, quando chegasse a ocasião, se recusaria a casar com um homem a quemnão amasse e que não a amasse, por mais importante que ele fosse. O grão-duque, tão bonito e tão atraente para as mulheres, devia sentir-se realmentefrustrado, O país sobre o qual reinava era pequeno; o casamento o impedia de perambularpelo mundo, como gostaria de fazer. Muitas vezes tinha falado a Zita de suas viagens quando moço, tendo ido ao Egipto,à Rússia e, embora se mostrasse reservado a esse respeito, a Paris. Quando Zita o interrogava sobre o que havia feito em Paris, o pai falava de Roma;quando ela, astutamente, tentava fazê-lo falar dos quadros do Palácio das Tulherias, o grão-duque falava dos que tinha visto em Florença e em Madrid. Pouco a pouco, à medida que o professor de música e madame Goutier faziam comque Paris criasse vida para ela, como uma cidade cheia de encantos e de mulheres bonitas,Zita começou a compreender por que o pai ia para lá, em solteiro. Depois de casado, a única maneira de escapar e ser livre por alguns dias era ir para asmontanhas. Amava seu país e amava seu povo, mas, quando os olhares das mulheres seiluminavam, ao vê-lo, e elas lhe estendiam os braços, não era homem de lhes dar as costas. Zita também tinha pena do pai. E de si mesma, porque não lhe permitiam maisacompanhá-lo. Agora, era obrigada a ficar no palácio, com a mãe. Nessas ocasiões, a grã-duquesa se mostrava mais exigente do que de costume e todaa corte parecia envolta numa névoa sombria, até o grão-duque voltar. Como se seguisse os pensamentos de Zita e soubesse que sua caçula estava tãofrustrada como ele, o pai disse: - Escute aqui, meu bem. Vou concordar com sua mãe, que não quer que vocêapareça nos festejos em honra do rei, mas com uma condição: depois que ele for embora,você e eu faremos uma excursão pelas montanhas. Zita ergueu para ele os olhos, onde agora havia um brilho de entusiasmo. - É verdade, papai? Seria maravilhoso. Não sabe como senti falta de nossos passeios. - Também Senti falta, querida. Mas sua mãe diz que você não é mais criança para meacompanhar, e reconheço que tem razão.
  24. 24. - Mas, desta vez, ela vai ter que concordar. Prometa que cumprirá sua promessa, quenão deixará que mamãe o faça mudar de idéia! - Prometo. Quero escalar a montanha num ponto aonde não vou há, no mínimo, dezanos. Será muito emocionante mostrá-lo a você. - Vou adorar, papai. E ficaremos bastante tempo, não é? Porque será maravilhoso tero senhor só para mim. O grão-duque inclinou-se e beijou-a. - Eu a amo, Zita, e quero que tenha tudo na vida para ser feliz. Mas nem sempre ascoisas são fáceis para mim. Você sabe disso. - Sim, eu sei, papai. E esperemos que o rei case com Sophie, para que o senhor nãose preocupe mais com ela nem tenha receio de que Aldross seja engolido por aquelemonstro, Bismarck. O grão-duque riu. - Amém! E agora, querida, não faça mais barulho sobre o que acontecer até o rei irembora. A vida fica muito mais fácil para mim quando sua mãe está de bom humor. - Vou procurar não aborrecer mamãe. Parece que eu sempre a perturbo, embora nãoatine com o motivo disso! O grão-duque poderia ter respondido com uma única palavra: ciúme. Mas sabia queseria deslealdade dizer isso e calou-se. Depois que Zita o beijou e saiu, ele ficou durante muito tempo pensando nela. Devido à vida calma que levava no palácio, e sendo sempre repreendida pela mãe,Zita não tinha idéia do quanto era bonita nem de que os homens iriam achá-la fascinante. Lembrava-se dos olhares que, quando ele era menino, os homens lançavam à suamãe; homens de todas as idades, de todas as classes. E, agora, tinha a impressão de ver essemesmo tipo de olhar nos cortesãos, quando Zita aparecia. Tinha certeza de que, se o rei Maximiliano estava mesmo querendo uma esposa, iriapreferir Zita a Sophie. Mas era mais do que justo que a mais velha casasse antes. Como Sophie estava comvinte anos, já era tempo de arranjar um marido. O problema era que, com exceção do margrave de Baden-Baden, muito poucosrapazes de sangue real vinham a Aldross ou eram convidados para visitar seus países. A grã-duquesa já havia dito, desesperada, que Sophie ia ficar solteirona, se ela nãotomasse uma providência urgente. - Que posso eu fazer? - perguntou o grão-duque. - Não posso fazer com que reis oupríncipes disponíveis surjam como coelhos tirados da cartola de um mágico. E você sabe
  25. 25. tão bem quanto eu que, com excepção de Valdastien, os países vizinhos são governadospor monarcas casados, com filhos ainda pequenos. - Não adianta pensarmos no rei Maximiliano - comentou a duquesa, secamente. - Eleperde seu tempo com o tipo de mulher que você acha atraente e de quem não se fala nasala de visitas de uma dama! - Ouvi dizer que a mulher que está agora com ele tem um corpo escultural! -observou o grão-duque. Imediatamente, percebeu que cometera um erro, pois a esposa ergueu o queixo e saiuda sala, sem nem mais uma palavra. Isso significava, como ele bem sabia, que ela ia ficar emburrada durante as próximasvinte e quatro horas e que a atmosfera, às refeições, se tornaria insuportável. Pegou o jornal que tinha largado quando Zita entrara e disse a si mesmo: “Pobre Maximiliano! Depois de casado, vai ver que as mulheres que o divertiram nopassado, assim como La Belle, estarão em Paris e ele estará preso em Valdastien, para obem ou para o mal, até que a morte os separe”. Embora Zita procurasse não aborrecer a mãe, como havia prometido ao pai, achouintolerável ver a excitação dos preparativos no palácio e saber que não tomaria parte dosfestejos em homenagem ao rei. Sophie precisava de vestidos novos, e as costureiras iam e vinham. As capas foramtiradas da mobília do salão de baile, e o chão, encerado. As paredes brancas e douradasforam limpas, ficando brilhantes como se tivessem sido pintadas na véspera. Trouxeram flores das estufas, que foram arranjadas em vasos. Eram em tão grandeprofusão, que o salão e toda a casa pareceram um jardim. - Não compreendo, papai, por que nossa casa não pode ficar sempre assim bonita -observou Zita, ao almoço. - seria melhor do que fazer isso apenas para um visitante depassagem, que provavelmente não vai apreciar essa decoração tanto quanto nós. - Você não deixa de ter razão, querida. O grão-duque gostava de discutir com a filha caçula; achava estimulante tanto paraele quanto para ela. às vezes, tomavam posições opostas, só por graça, e isso era uma coisaque a grã-duquesa não compreendia. - Por outro lado, se o incomum se tornasse comum e corriqueiro, você não oapreciaria tanto - continuou o pai. Os olhos de Zita brilharam. Ia responder, quando a mãe interferiu:
  26. 26. - Basta de suas idéias ridículas, Zita. E procure não aborrecer seu pai com perguntastolas. Temos muito que fazer, antes que Sua Majestade chegue, amanhã. - A que horas ele deve chegar, mamãe? - perguntou Sophie. Como a pergunta foifeita pela filha predilecta, a grã-duquesa respondeu, de boa vontade: - Você vai encontrar o programa dos festejos em minha escrivaninha. O rei já deveter saído, para a primeira parte da viagem. Passará a noite em casa de um amigo, não muitolonge de nossa fronteira. - E quando vou vê-lo? - perguntou Sophie, ansiosa. - Seu pai vai encontrá-lo na estalagem Golden Cross, amanhã, às onze da manhã, e otrará para cá, com uma escolta de cavalaria. - E onde estaremos nós? - Estaremos aqui, esperando. Você deve usar aquele bonito vestido cor-de-rosa.Tenho certeza de que o rei a achará parecida com uma rosa. Como Sophie tinha cabelos castanhos opacos e uma expressão emburrada, era difícilcompará-la a uma flor. Zita conteve o desejo de rir da comparação da mãe, poética e pouco costumeira.Nisso, seu olhar encontrou o do pai. Achando que ajudaria a irmã, aconselhou: - Diga à cabeleireira para lhe fazer um penteado mais leve. Se ela fizer uns cachos emvolta do rosto, em vez de puxar os cabelos para trás, você vai ficar mais bonita e, como dizmamãe, parecendo uma flor. - Não estou pedindo sua opinião, Zita - interrompeu a grã-duquesa, secamente.Levantou-se e estendeu a mão para a filha mais velha. - Venha, Sophie. Temos uma porçãode coisas para fazer e não quero que você ouça a opinião de ninguém, a não ser a minha. As duas saíram. Zita suspirou e olhou para o pai. Nada disseram. Cada qual sabia oque o outro pensava. O grão-duque colocou a mão sobre a da filha. - Pense como vamos nos divertir nas montanhas - disse, meigamente. Em seu quarto, o único lugar onde não sentia irritação com os preparativos, Zita foipara a janela, imaginando se poderia ver o pai, de relance, enquanto ele estivesse no palácio. Mas a mãe lhe havia dito inúmeras vezes que ela devia ficar no andar de cima, na salade estudos, que antes tinha sido o quarto das crianças e, mais tarde, a saleta das duasprincesas. O quarto havia sido redecorado, mas, para Zita, parecia que ali ainda estava a casa deboneca que tinha pertencido a ela e a Sophie, assim como o cavalo de balanço de Henrich,a fortaleza de brinquedo dele, na qual as irmãs não tinham licença de tocar, e também as
  27. 27. numerosas bonecas que o irmão costumava esconder, para aborrecê-las. Quando ele estavade mau humor, podia até quebrar uma delas! “Creio que, quando sairmos daqui e formos viver em nosso próprio palácio, nóssentiremos adultas”, disse Zita a si mesma. Ficou imaginando se Sophie seria feliz em Valdastien, com o fantasma de La Belle ede tantas outras mulheres. Depois, achou que não era Sophie que ia ver esses fantasmas(porque provavelmente nem saberia de sua existência), e sim, o rei. Será que ele se sentiria frustrado, como seu pai, e teria que recorrer ao consolo degalgar suas montanhas e desaparecer em suas florestas, em vez de ir divertir-se em Paris,como provavelmente fazia agora? Era difícil imaginar seus pensamentos e sentimentos, pois só o conhecia pelashistórias contadas pelo professor de música e por madame Goutier, assim como pelosretractos de revistas e de jornais. E estava certa de que esses não lhe faziam justiça. Foi então que resolveu ver o rei. “Mesmo que eu tenha que ficar na beira da estrada, quando ele passar, vou vê-lo!” De repente, lhe ocorreu uma idéia que ela sabia ser uma afronta às convenções, masque não deixava de ser muito excitante. Ninguém deu muita atenção a Zita, na noite anterior à chegada do rei. Se tivessemdado, veriam que ela estava silenciosa e imersa em pensamentos. Ao mesmo tempo, havia em seu olhar um brilho que o grão-duque poderia terreconhecido como o mesmo que aparecia nos olhos de sua mãe, quando ela planeavaalguma travessura. A princesa Ilena, como era chamada antes do casamento, tinha escandalizado assenhoras idosas da corte do pai, mas o povo a admirava por sua coragem tanto quanto porsua beleza. O que Zita pretendia fazer agora era uma coisa que a avó teria tido coragem de fazer,pois era valente e indomável. Para grande alívio da grã-duquesa, a moça foi se deitar cedo, dizendo que estava comuma ligeira dor de cabeça. Lá em cima, quando ninguém podia vê-la, tirou do armário seu traje de montaria.Arrumou também uma trouxa de roupas que levaria do mesmo jeito que fazia quando saíasó com o pai, isto é, presa na sela do cavalo. Excitada demais para dormir, Zita apenas cochilou. Quando acordava, olhava para océu, através da janela aberta.
  28. 28. Assim que as estrelas começaram a se apagar e surgiram os primeiros sinais damadrugada, ela se levantou e se vestiu apressadamente. Levando a trouxa, desceu por umaescada de serviço, que dava para o caminho das cocheiras. Andava silenciosamente e não foi vista pelas duas sentinelas sonolentas queguardavam as portas mais importantes da casa. Sabia que, a essa hora da madrugada, nãohaveria ninguém ali. Foi até o depósito dos arreios e pegou sua sela. Em seguida, dirigiu-separa a baia de seu cavalo favorito. Assobiou de mansinho. Pegasus se aproximou dela, satisfeito. Zita colocou-lhe oarreio e passou a rédea pelo pescoço do animal. Se havia uma coisa que aprendera em suas viagens com o pai, era confiar em seucavalo e ser auto- suficiente. - Como é que você pode dar conta de seu cavalo, sem um cavalariço? - Sophie lheperguntara, um dia, com desprezo. Mas Zita achava muito mais excitante estar a sós com o pai, nessas viagens, do queserem acompanhados por criados, que, não só atrapalhariam seus momentos de intimidade,como criticariam o desconforto a que todos se veriam expostos. Apertou a barrigueira do cavalo, que ficou quieto. Depois, como não havia ninguémpara ajudá-la a montar, Zita pareceu voar para a sela. Seguindo cautelosamente por entre as árvores, até saírem do jardim do palácio, Zitapôs o cavalo a galope no campo, evitando casas e estradas. Andaram sobre uma grama alta e luxuriante, cheia de flores de vários tons de rosa,lilás e vermelho, que se tornavam mais vivos à medida que o dia clareava e os primeirosraios de sol douravam os picos das montanhas, cobertos de neve. A estalagem Golden Cross, para onde Zita se dirigia, não ficava longe. Quando amoça chegou, ainda era muito cedo. No pátio havia apenas um cavalariço sonolento. Comoa jovem parecia conhecer o caminho, ele não lhe deu atenção. Zita levou Pegasus para umabaia e pegou sua trouxa. Entrou na estalagem por uma porta lateral, que felizmente estava aberta, e subiu umaescada estreita que levava aos fundos da hospedaria, onde ficavam os aposentos doproprietário. Seguiu por um corredor não atapetado. Bateu de leve na última porta e, não ouvindoresposta, virou o trinco. Viu dentro do quarto uma jovem sentada na cama, de camisola, esfregando os olhos,de sono. Zita entrou.
  29. 29. - Bom dia, Gretel! A moça fitou-a, atónita. - Princesa! O que está fazendo aqui? Zita fechou a porta e pôs o dedo nos lábios. - Silêncio! Nesse momento, não sou princesa, e sim, sua amiga da cidade que veiovisitá-la. Gretel era uma moça bonita, gorduchinha, um pouco mais velha do que Zita, comolhos azuis e faces rosadas. - Pensei que nunca mais a veria! Achei que seu pai viria aqui, mas não esperava vê-la. - Não me dão mais licença para vir. - Zita sentou-se na beira da cama e continuou: -Escute. Gretel, preciso da sua ajuda. - Farei o que me pedir. Como cresceu! às vezes a vejo de longe quando passa pelasruas, mas de perto é ainda mais bonita. - Obrigada, Gretel. Mas, justamente porque sou bonita, não tenho licença paraconhecer o rei, quando ele for ao palácio, hoje. - Não tem licença? Por quê? - Meus pais estão com a esperança de que ele case com minha irmã. Gretel riu. - Não precisa dizer mais nada. Você é muito mais bonita do que sua irmã, como bemsabe. Quando Zita saía com o pai, estava subentendido que viajavam “incógnitos”, e todosse dirigiam a eles como se fossem iguais, tratando-os sem cerimónia. às vezes, o grão-duqueaté fingia para si mesmo que os súbditos não o reconheciam. Claro que sabiam quem ele era, porque era bonito, amado e admirado demais paraque não o reconhecessem. Mas, como gostava desse mistério, era apenas mein Herr, e a filha, apenas Zita, umamenina bonita em que os homens davam afectuosos tapinhas na cabeça e para quemfaziam brinquedos de madeira entalhada. - O que deseja que eu faça? - perguntou Gretel. - Li o programa preparado para o rei e sei que ele vem passar uma hora aqui. - É verdade. Temos um quarto pronto para ele. - Calculei que deve vir para cá a cavalo, com roupas comuns - continuou Zita. - Mas,como depois vai seguir com papai numa carruagem aberta, terá que vestir o uniforme. - Não estou sabendo dos detalhes. Só nos disseram que preparássemos o melhorquarto para ele.
  30. 30. - É aquele onde papai sempre fica? Gretel fez que sim. - Depois que o rei subir sozinho, quero que você lhe ofereça um café, ou um copo devinho - disse Zita. - Mas eu é que vou levar a bandeja para ele. Gretel olhou-a, atónita. - Por que quer fazer isso? - Porque é a única oportunidade que terei de vê-lo direito. Oh, Gretel, precisa meajudar! Desejo tanto vê-lo! Seria muito triste se o rei fosse embora sem que eu visse outracoisa a não ser o alto de sua cabeça, da janela de meu quarto. - Se ele estiver usando um capacete com plumas, você não vai ver nem mesmo isso -observou a outra, sorrindo. - Creio que não, mesmo. Entende por que preciso que me ajude? Trouxe comigo umvestido como aquele que eu usava quando ia excursionar com papai. Na realidade, não é omesmo, porque não entro mais nele, mas consegui convencer uma das criadas a comprarum novo para mim, na cidade, sem que mamãe soubesse. E escute aqui, Gretel, acho quelogo viremos visitá-la, porque papai prometeu me levar para as montanhas, assim que o reipartir. - Que bom! Vocês precisam mesmo vir. Sabem como gostamos, quando aparecem! - Era tão divertido! Você deve estar lembrada de que eu dançava para seusconvidados. Depois, eles não só me aplaudiam, como me atiravam flores! - Achavam que você era maravilhosa! - disse Gretel. - E eu também. - Eu devia ter nove anos, naquela época. A garota riu. - Lembro-me de que, certa noite, um homem que não sabia quem você era tentoubeijá-la, e você despejou cerveja na cabeça dele! Todo o mundo riu e zombou do infeliz,que foi embora feito uma bala! - Felizmente, papai não estava, no momento, e não viu o que aconteceu. Docontrário, não teria permitido que eu falasse com tanta liberdade com desconhecidos, comoeu fazia. - O mal é que você sempre foi muito bonita. - Sim, é esse o mal. E o mesmo está acontecendo agora. Nunca o rei, a não ser quevocê me ajude. - E se ele souber quem é você? - Por que haveria de saber? Garanto-lhe que, lá em casa, não vão mencionar queexisto, com receio de que ele peça para me conhecer. Sophie quer o rei para ela, e vai tê-lo,
  31. 31. mas eu só quero dar uma espiadinha nele, antes que esteja com papai, com todo mundoaplaudindo-o, menos eu. - Zita reflectiu por um minuto. - Não vejo mal nisso. E ninguém,na estalagem, saberá que vim aqui, a não ser você. - Quem a viu entrar? - Apenas um cavalariço. Não o conheço nem de vista. E ele não me deu a mínimaatenção. - Deve ser Carl. Levanta-se muito cedo e é um tanto estúpido. - Se alguém perguntar de quem é o cavalo que está na cocheira, diga que uma suaamiga veio visitá-la, Gretel. Mas não creio que façam perguntas. - Não, claro que não. Vamos ver seu vestido. E é melhor que eu também me vista,ou vai haver encrenca. Zita abriu a trouxa, enquanto Gretel se vestia depressa, usando um traje semelhanteao que a princesa tinha trazido. Era o traje nacional de Aldross, quase idêntico aos dosoutros países daquela parte da Europa. Tinha uma saia rodada vermelha, sobre várias saias muito engomadas, uma blusabranca com bonitos bordados, um corpete de veludo preto, amarrado na frente, e umafaixa de seda. Só o que faltava ao traje de Zita era o avental branco que Gretel usava, quandotrabalhava. - Não pude pedir à criada que comprasse um avental. Ela poderia estranhar. - Garanto que sim - respondeu Gretel. - Não iria esperar que uma princesa realandasse de um lado para outro servindo café ou vinho! Dito isso, foi até uma cómoda e tirou da gaveta um avental igual ao seu, só que comrenda na beirada. - É meu melhor avental. Pretendia usá-lo para servir o rei, mas sua necessidade, Zita,é maior do que a minha. - Obrigada, Gretel. E qualquer gorjeta que ele me der será sua. A outra riu. - Não espero grandes gorjetas. Descobri que os personagens importantes que vêmaqui acham que sua presença já é bastante para aqueles que os servem. - Pois bem, quando conhecermos o rei, vamos descobrir se ele é generoso, avarento,amável ou seco. Aproximar-se dele como criada é muito diferente do que se eu oencontrasse em igualdade de condições. - Vai se ver em apuros, se for descoberta - comentou Gretel. - E eu também.
  32. 32. - Você pode pôr toda a culpa em mim. Mas, se formos inteligentes, não há razão paraque descubram coisa alguma. E eu terei visto Sua Majestade, o rei Maximiliano. o que creio,será muito revelador!
  33. 33. Capítulo 3 Depois de vestida, Gretel desceu e foi buscar para Zita um café e croissants quentes,recém-saídos do forno. - Está tudo certo, princesa. Ninguém vai aborrecê-la. Estão todos muito excitadoscom os preparativos para receber o rei. Levou Zita para um quarto, no outro lado do corredor, de onde ela poderia ver acomitiva real chegar. A estalagem Golden Cross estava situada, pelo que dizia o proprietário, exactamentena fronteira. - Estou montado em duas nações - ele costumava comentar. Um dos motivos de aestalagem ser procurada por cidadãos tanto e Aldross como de Valdastien era estar situadaao pé de uma das montanhas mais altas e mais conhecidas de Aldross. Por isso também, o grão-duque parava ali frequentemente, quando ia fazer suasescaladas. Era um lugar alegre, onde todos pareciam rir e cantar. E a comida, sem dúvida,melhor do que a da maioria das estalagens do mesmo tipo. Depois de tomar o café, Zita tirou o traje de montaria e vestiu o traje nacional, quelhe ficava muito bem. Felizmente, a criada do palácio que o comprara tinha trazido exactamente o que amoça queria e estava pronta a guardar segredo. - Quando acabarem as festividades, Maria, vou fazer uma excursão com papai nasmontanhas - explicara então Zita. - Você sabe que ele não gosta de que sejamosreconhecidos, de modo que preciso ir vestida de camponesa. Maria riu. - É a última coisa que poderia parecer. Alteza. E todos reconhecem o grão-duque,embora finjam que não. - Sei disso. Mas só o que me interessa, no momento, é ficar com ele, longe daqui,onde sou repreendida sempre que abro a boca. - É uma pena que Vossa Alteza não tenha licença para ir ao baile. Todos, aqui nopalácio, dizem que seria a moça mais linda da festa. é um absurdo ter que perder tudo!
  34. 34. Zita concordou, com um suspiro. - Pelo menos, se a princesa Sophie casar com o rei, teremos um casamento real, eserá muito excitante! Ao dizer isso, notou a expressão de Maria e pensou que a empregada achava poucoprovável que tal acontecesse. Sabendo que não devia discutir as esperanças da irmã com uma criada, Zita mudoulogo de assunto. Agora, já pronta, olhou-se no espelho do quarto de Gretel e penteou os cabelos noestilo das camponesas, com fitas caindo-lhe até os ombros. Tinha tido o cuidado de encomendar fitas verdes, amarelas e azuis, para combinaremcom a cor de seus cabelos. Depois que o arranjo ficou pronto, Zita achou que estava muitobonito. Agora, lá embaixo, havia barulho e movimento, o que indicava que todo mundocuidava dos últimos preparativos para a recepção ao rei. Zita tinha lido, no programa que estava na escrivaninha da mãe, que os doisgovernantes deveriam se encontrar a sós dentro da estalagem. Depois de trocarem os cumprimentos e tomarem um copo de vinho, a comitiva dorei Maximiliano voltaria para casa e os dois governantes seguiriam numa carruagem abertapara a capital, por um caminho todo decorado. O rei seria recebido pelo primeiro-ministro e pelos membros do gabinete, e depois,pelo prefeito e pelos vereadores, iria então para o palácio, onde a grã-duquesa e Sophieestariam à espera. Reflectindo sobre o protocolo, Zita pensou que o rei, sem dúvida, ia achar tudomuito maçante. “Garanto que já fez isso milhares de vezes. E, com certeza, preferiria estar passeandono Bois de Boulogne, com uma bela mulher a seu lado na carruagem, sabendo que á noiteiria encontrá-la em tête-à-tête. Ou, talvez, a levaria a um dos restaurantes elegantes de Paris,ou a um café-concerto.” Eram esses os divertimentos que o professor de música e madame Goutier lhehaviam descrito. Como estava ficando tarde, Zita saiu do quarto de Gretel e foi para o aposentodesocupado, cuja janela dava para o lado de Valdastien. O país do rei não era muito diferente de Aldross: tinha também montanhas altas,com os picos cobertos de neve, e um vale onde os cavalos podiam galopar livremente nagrama verde e florida.
  35. 35. A grande diferença era que Valdastien era cortado por um rio largo, que não apenastornava a terra fértil, como permitia que por ele navegassem barcaças, levando mercadoriasdirectamente para um porto marítimo. Isso fazia o país muito mais próspero do que seus vizinhos, o que causava uma certainveja. Não havia dúvida de que seria vantajoso, para Aldross. se houvesse uma união entreos dois países. E Zita sabia que, se Sophie casasse com o rei, Aldross ficaria muito maisforte, em relação à Alemanha. Levou uma cadeira dura para perto da janela, sentou-se e apoiou os cotovelos nopeitoril. Ficou olhando para a estrada estreita e poeirenta que descia para o vale, por onde orei viria. Considerou que, a essa altura, a criada que a chamava de manhã, no palácio, devia terdado por sua falta. Talvez tivesse sido mais prudente ter contado a verdade a Maria. Mas,assim que também desse pela falta de seu traje de montaria e de suas botas, certamentededuziria que a patroa tinha saído a cavalo. A dama de honra das duas irmãs, a baronesa Nekszath, estaria muito ocupada,enfeitando-se para a chegada do rei, e não se preocuparia com a ausência de Zita. “Quando eu voltar para casa, vou dizer apenas que saí para galopar. Ninguém mepode culpar por fazer uma coisa de que gosto, quando me excluíram de todos os festejos.” Pensou de novo, com certo ressentimento, na maneira como estava sendo tratada.Nesse momento, viu uma nuvem de pó ao longe, e seu coração pulou de alegria e deexcitação. Durante algum tempo, foi difícil ver com clareza. Depois compreendeu que não havia apenas uma carruagem, mas várias. Quando acomitiva chegou mais perto, Zita viu, como esperava, que o rei cavalgava na frente. Atrás vinham as carruagens com os dignitários de Valdastien, que se despediriam nafronteira. Mais atrás, a bagagem, os criados e os lacaios de Sua Majestade. Vendo tantas malas, Zita pensou que era muito mais agradável viajar como o pai e elaiam fazer depois que tudo terminasse. O que os dois levavam cabia em duas trouxas,amarradas em suas selas, além de mais alguns pequenos objectos nos alforjes. “Estaremos livres! Livres de todo aquele protocolo e de Sim, Majestade e Não,alteza.” A comitiva estava próxima, e agora Zita via bem o rei.
  36. 36. Era uma figura imponente e dominadora, embora usasse um traje de montariasimples, que não o diferenciava dos companheiros. A moça achou que, mesmo queestivesse no meio de uma multidão, ela saberia que ele era um homem importante. O cavalo vinha a passo vivo. Só quando avistou a estalagem e o grupo preparadopara recebê-lo, foi que o rei se virou para um dos companheiros e diminuiu a marcha. Zita não podia ver a porta principal da estalagem, pois esta havia sido construída bemna fronteira, de modo que uma parte ficava num e a Outra parte no outro. Assim, o rei desapareceu de vista. antes que ela pudesse examiná-lo bem. . Zita ficou observando a nuvem de poeira por um ou dois minutos. Depois, excitada,seguiu as instruções de Gretel e se dirigiu para a frente da casa, ao longo do corredor. Sabia para que quarto o rei seria levado. Ao lado havia um aposento menor,geralmente ocupado por um criado ou por um viajante que não pudesse gastar muito.Agora, estava vazio. Zita foi para lá, deixando a porta aberta, para poder ouvir as vozes lá embaixo. àmedida que o barulho aumentava, ficou sabendo que o rei estava sendo levado peloestalajadeiro para dentro da casa. Devia estar tomando uma bebida com seus acompanhantes, antes que estes odeixassem, porque ouviu o tilintar de copos e o ruído de rolhas que saltavam. Brindes, comcerteza, desejando-lhe felicidade na viagem. Zita já tinha feito uma lista dos outros países aonde ele poderia ir, em busca deesposa, caso Sophie não correspondesse à sua expectativa. Não havia dúvida de que seriavantajoso, para Maximiliano, casar com uma moça de um reino vizinho, de modo quepoderia visitar a Bósnia, a Sérvia, a Bulgária e talvez até a Roménia. embora este país fossemuito mais distante de Valdastien. A Hungria era outra possibilidade. Zita tinha certeza de que lá ele poderia encontraruma princesa que, no mínimo, apreciaria os cavalos de Valdastien. Quando perguntou ao pai se havia moças casadouras nesses países, o grão-duque semostrou um tanto vago. - Francamente, não sei, querida. Só sei que há poucos países com rapazes solteirosadequados para você e sua irmã. - Isso torna ainda mais importante Sophie conquistar o rei - observou Zita. - Pelomenos, é um bom partido e, pelo que ouvi dizer, um homem muito atraente. O grão-duque ficou em silêncio durante alguns momentos. - Os homens atraentes nem sempre dão bons maridos.
  37. 37. Zita ia fazer-lhe um elogio, mas depois achou que, se fosse sincera, devia reconhecerque o pai, embora se mostrasse um marido atencioso, tinha fracassado aos olhos da esposa,porque nunca lhe dera seu coração. “Mas isso é uma coisa que ninguém pode dar, sem amor. E o coração não obedece aordens de ninguém, nem mesmo quando se trata do coração de um rei ou de uma rainha.” Zita riu de sua imaginação. Como se compreendesse que estavam em terreno perigoso, o pai tinha mudado deassunto. Agora, ali na estalagem, Zita percebeu que alguém subia a escada de madeira sempassadeira. Fechou a porta, deixando apenas uma fresta para poder espiar. Viu aparecer um criado, seguido por um carregador que trazia uma maleta. - Vou tirar o uniforme de Sua Majestade da maleta - disse o criado, entrando noquarto reservado para o rei. - Depois que eu tiver guardado as roupas que ele está usandoagora, você as pode levar de volta para a carruagem que seguirá Sua Majestade à capital. Ouviu-se o ruído da mala sendo colocada no chão, e dos trincos que se abriam. Zitaficou imaginando o uniforme do rei sendo tirado da mala e colocado na cama. O carregador desceu; agora, no quarto, só estava o criado. Foi então que, pela primeira vez, ocorreu a Zita que não ia ver o rei a sós. Tinha seesquecido de que ele não se vestiria sozinho. Teve receio de que o criado pegasse a bandejade café, quando ela a trouxesse, não permitindo que entrasse no quarto. Estava imaginando o que faria, se tal acontecesse, quando ouviu na escada o som depassos muito mais leves, mas firmes, e teve certeza de que era o rei. Viu de relance seus ombros largos, ao entrar no quarto. Quando a porta se fechava,Gretel apareceu no alto da escada. - Majestade! Maximiliano parou e olhou para ela. - Quero lhe perguntar uma coisa - disse Grelei, quase sem fôlego. - Deseja um café,ou um copo de vinho? - Um café seria bem-vindo. - Vou buscá-lo imediatamente, Majestade! Gretel fez uma reverência e desceu a escada correndo. O rei fechou a porta. Zita teve a impressão de que a amiga levou muito tempo para aparecer com abandeja, mas na realidade isso aconteceu poucos minutos depois. - Esqueci que o criado estaria com ele - sussurrou. Gretel levantou os olhos.
  38. 38. - Nunca pensei que quisesse falar com o rei a sós! - Talvez eu não tenha oportunidade de falar com ele de jeito nenhum, se o criado metomar a bandeja! A outra deu um sorrizinho maroto e bateu à porta do quarto do rei. O criado abriu-a. - Desculpe-me, mas um cavalheiro, numa das carruagens, deseja falar com você. - Comigo? - perguntou o homem, atónito. - Sim. Encontrou uma coisa que talvez tenha sido esquecida e que Sua Majestadepode querer levar. - Perdoe-me, Majestade, mas preciso descer. Passou por Gretel, sem nada dizer. A moça piscou para Zita, antes de ir atrás dele. A princesa respirou fundo. Carregando a bandeja com cuidado, foi até à porta abertae bateu. - O café de Vossa Majestade - disse, em tom suave. - Pode entrar. Ela obedeceu e viu o rei de pé, diante do espelho da cómoda, escovando os cabeloscom duas escovas de marfim. Usava uma calça comprida preta, com uma listra vermelha nacostura, que fazia parte de seu uniforme, e uma camisa branca de linho. Zita tinha visto várias vezes o pai escovar os cabelos desse modo, antes de acabar dese vestir, e sempre achara que isso o tornava muito atraente. Colocou a bandeja numa mesinha redonda, perto da janela. O rei continuava de costas. Decidida a falar com ele, Zita perguntou: - Quer que eu sirva o café, Majestade? Sem pensar, falou na língua dele. Sempre tivera facilidade para línguas e falava perfeitamente, não apenas inglês,francês, alemão e italiano, como os idiomas dos países vizinhos. O pai lhe ensinara estesúltimos, dizendo que faziam parte do sangue deles. Eram todos baseados numa mistura dealemão e de húngaro, mas cada qual tinha uma variação e uma entonação características. O rei largou as escovas. - Você é, sem dúvida, um de meus súbditos, não é? - disse, sorrindo. Virou-se para ela e ficou imóvel. O sol que entrava pela janela iluminava os cabelos de Zita. dando-lhe um brilhochamejante. E a pele da moça era de uma brancura perfeita. Como estava excitada, seus olhos cintilavam como esmeraldas. Para Zita, também, o rei foi uma surpresa, muito diferente do que imaginava.
  39. 39. Em primeiro lugar, era mais bonito e muito mais moço do que parecia nos retratos.Mas não foi apenas sua aparência física que a surpreendeu. Muito intuitiva a respeito daspessoas, sentiu que ele era especial, mas não pelo facto de ser rei. Havia nele um estranhomagnetismo. Sem querer, ficou encarando-o, e percebeu que a olhava exactamente do mesmomodo. Maximiliano foi o primeiro a falar: - Você não respondeu à minha pergunta. No primeiro momento, Zita não se lembrou do que era. - Não, não sou de seu país, Majestade, sou de Aldross. - Mas fala a minha língua. - Não é muito diferente da nossa. - Sei que há uma semelhança, mas você a fala como se tivesse vivido em Valdastien avida inteira. Se bem que não possa ser muito tempo - acrescentou, com um sorriso. - Nunca visitei seu país, Majestade, mas gostaria de conhecê-lo. - Quando for lá, espero que não fique decepcionada. Zita achou que estavam conversando de um modo muito estranho. Era como se aspalavras lhes viessem aos lábios, quando os pensamentos estavam longe. Não conseguia parar de olhar para o rosto do rei. Temendo que ele a despedisse, quando queria continuar, disse, rapidamente: - Vossa Majestade deve tomar o café enquanto está quente. Espero que goste doscroissants. São deliciosos. - Garanto que sim. E o gosto por boa comida e boa bebida é uma coisa que nossosdois países têm em comum. - Então, plagiando o que Vossa Majestade me disse, espero que não fiquedecepcionado. Pegou o bule pesado e serviu o café na xícara grande. Percebeu que o rei a observavae ficou um tanto intimidada. Ao mesmo tempo, estava excitada porque conversava comele. Mesmo que nunca mais o visse, sempre teria essa recordação. - Como se chama? - perguntou Maximiliano. Apanhada de surpresa, ela disse a verdade: - Zita. Depois, pensou, apavorada, que talvez tivesse sido indiscreta. Lembrou-se, então, deque oficialmente sempre se referiam a ela como “princesa Tereza”, que era seu primeiro
  40. 40. nome. “Zita” era usado apenas em família e pelas pessoas que viviam perto do palácio,sendo um tratamento afectuoso. - Um nome bonito, para uma criatura bonita - disse o rei. Ela o olhou surpresa. Mal podia acreditar que Maximiliano de Valdastien flertasse com a garçonete de umaestalagem. Mas por que não? Era o tipo de observação que seu pai faria, com seu modo jovial eamistoso, para qualquer mulher bonita que encontrasse em suas excursões, quando pensavaestar viajando incógnito. O rei aproximou-se da mesa. - Sempre julguei que cabelos ruivos fossem privilégios das húngaras. Zita sorriu. - Minha avó era húngara, Majestade. - Isso explica tudo - disse ele, satisfeito por ter acertado. - E suponho que tambémtinha olhos verdes. Zita tornou a sorrir, mas não respondeu. Dali a um momento, o rei perguntou: - Gosta de trabalhar aqui? - Não estou aqui há muito tempo. - Pensei que, com sua beleza. Interrompeu-se, como achando que estava exagerando a intimidade, e pegou a xícarade café. Tomou um gole, sempre olhando para a moça. Zita ficou à espera, achando que o comportamento correcto seria ela se retirar, masquerendo, desesperadamente, continuar ali. - Que idade você tem? - Quase dezoito, Majestade. - E é a primeira vez que sai de casa para trabalhar? É muita bondade sua demonstrarinteresse. O rei largou a xícara. - Estou interessado, porque aprecio a beleza e me parece que está desperdiçando asua num lugar como este, quando poderia... Interrompeu-se novamente. - Poderia o quê, Majestade? - Poderia fazer muitas outras coisas. Mas talvez isso a estragasse, seria uma pena. - Que outras coisas Vossa Majestade acha que eu poderia fazer?
  41. 41. Zita achou que era uma conversa fascinante para ter com um rei que não fazia amínima idéia de quem era ela.Era quase como se estivesse conversando com o pai, quandoos dois procuravam frases que pudessem confundir o outro, num interessante duelo depalavras. - Você sabe dançar? - Mas, claro! Sei dançar como uma cigana ou, se Vossa Majestade preferir, executar asdanças típicas de Aldross. as quais, creio eu, devem ser muito parecidas com as dançasregionais de Valdastien. Falou em tom brincalhão, quase como falava com o pai. - Você me deixa perplexo. Parece educada. Tanto sua gramática quanto a construçãodas frases indicam que tem um domínio de minha língua que eu não esperaria encontrarnuma... Interrompeu-se, procurando a palavra certa, mas Zita terminou a frase por ele: - ...numa camponesa! O rei deu uma risada. - Você não parece uma camponesa. Agora, fale comigo em sua língua. - O que Vossa Majestade gostaria que eu dissesse? - perguntou Zita, na língua deAldross. - Não importa. Vá falando, até eu pensar em alguma coisa. Zita deu uma risadinha. Depois, achando que ele ficaria ainda mais perplexo, disse,num francês perfeito, com sotaque parisiense: - Como parece que estamos participando de uma competição de idiomas, eu gostariade descobrir qual a fluência de Vossa Majestade na língua da capital mais alegre do mundo. O rei fitou-a com mal disfarçado espanto. Perguntou. asperamente: - Que brincadeira é essa? Quem é você? Uma actriz? Quem a mandou falar comigo? Zita não esperava tal reacção. - Não é nada disso, Majestade. Acontece que tenho aptidão para línguas e me dei aotrabalho de aprendê-las. - É verdade? - Garanto que... é. Olhou-o quase com ar súplice, não querendo aborrecê-lo, não querendo estragar osmomentos deliciosos que tivera, antes de Maximiliano desconfiar dela. De repente, como se lembrando de que o tempo estava passando, o rei disse: - Quero tornar a vê-la, Zita, e continuar esta conversa. Antes de partir de Aldross,vou lhe mandar um recado, dizendo onde deve ir me encontrar. - Fez uma pausa e
  42. 42. acrescentou: - Virei para cá ou providenciarei para que você vá ao meu encontro. Estádisposta a fazer isso? Ela ficou sem saber o que dizer. Depois, hesitando porque não podia raciocinardireito, respondeu: - Talvez seja... impossível. - Nada é impossível. Embora tenhamos que ser discretos, estou decidido, firmementedecidido, não apenas a me encontrar com você, como a fazer com que me explique trêsmistérios. - Quais são... eles? - A cor de seus cabelos, a expressão de seus olhos e sua aptidão para línguas. Havia uma nota zombeteira na voz dele, mas Zita sabia que estava falando sério. Antes que ela pudesse responder, ouviu-se um ruído de passos no corredor e ocriado de quarto do rei entrou apressadamente. - Não sei quem me mandou aquele recado, Majestade - disse ele. - As carruagens jápartiram e, se esqueceram alguma coisa, nada posso fazer. O rei não respondeu. Tinha pegado sua túnica, e o criado se apressou a ajudá-lo avesti-la. - Pediram-me que avisasse Vossa Majestade de que a carruagem do grão-duque jáestá à vista. - Então, preciso me apressar. Como se essas palavras despertassem Zita de um sonho, no qual era difícil pensarcom clareza ou compreender o que estava acontecendo, ela pegou a xícara de café,colocou-a na bandeja e se dirigiu para a porta. Já ia sair, quando o rei falou, secamente, como quem dá uma ordem: - Não se esqueça do que lhe disse, Zita. - Não me esquecerei, Majestade. Fez uma pequena reverência e saiu do quarto sem olhar para Maximiliano, massentindo que ele a observava. Só depois que fechou a porta, percebeu que seu coração batia descompassado e queestava meio tonta. Embora tivesse sido emocionante, excitante e perigoso, sentia-se exaustacom a dramaticidade do incidente. Enquanto cavalgava para casa, Zita se lembrou de todos os detalhes do encontro,mal podendo acreditar que aquilo não fosse imaginação sua. Tinha visto o rei, falara com ele, e, incrivelmente, ele dissera que queria tornar a vê-la.
  43. 43. Era uma coisa que Zita não esperava, mas agora sabia que precisava se esquecer detudo, nem que fosse por causa de Sophie. Não devia interferir nos sentimentos dele pelairmã nem no namoro dos dois, se é que Maximiliano pretendia cortejar a filha mais velhado grão-duque. Aos olhos dele, a posição de Zita seria a mesma de La Belle e de outras mulheres dodemi-monde com as quais se divertia, em Paris ou na mansão contígua ao palácio deValdastien. Sua mãe ficaria horrorizada, se soubesse não apenas do que Zita havia feito, mas damaneira como o rei a olhara e falara com ela. “Creio que todos os homens são iguais. Basta verem um palminho de rosto bonito,que já começam a falar com intimidade. E é uma coisa que uma princesa não deveriapermitir” Ao mesmo tempo, pensou que era mais fácil conversar com o rei como umagarçonete bonita do que num jantar de cerimónia. Lá haveria cortesãos à esquerda e àdireita, e a grã-duquesa observando tudo com olhos de águia. Depois, achou que seria fácil conversar com o rei, fossem quais fossem ascircunstâncias, O importante não era tanto o que diziam, e sim, o que deixavam de dizer,assim como as vibrações que iam de um ao outro. - Foi o que senti por ele - murmurou, enquanto cavalgava em direcção ao palácio. -Gostaria de saber se sentiu a mesma coisa por mim. Ele é fascinante! Pegasus levantou as orelhas, ao ouvir a voz dela. Zita se inclinou e deu umaspancadinhas no pescoço do cavalo. - Sim, ele é magnífico e, ao mesmo tempo, imprevisível. Naturalmente, sente-seatraído por qualquer rostinho bonito. Lembrou-se de todas as histórias que tinha ouvido a respeito de Maximiliano. Não era apenas La Belle. Havia as famosas beldades da sociedade parisiense, assimcomo as mulheres do demi-monde que lhe tinham sido descritas por madame Goutier. Etambém as actrizes, das quais o professor de música falava num tom que indicava que nãoestava velho demais para apreciá-las! “O rei está pouco ligando para que uma mulher seja uma actriz do Théâtre deVariétés ou uma garçonete da Estalagem Golden Cross.” Ficou imaginando o que ele pensaria quando, depois de lhe mandar um bilhete,recebesse a resposta de Gretel de que a moça não estava mais lá. Achou que seria bem- feito, se ele esperasse em vão por ela na estalagem, ou fossequal fosse o lugar que marcasse para o encontro.
  44. 44. Tinha contado a Gretel os detalhes do encontro e pedido que abrisse a qualquerbilhete que fosse entregue para ela. A amiga ouviu, de olhos arregalados. - Você conquistou o rei! Mas tenha cuidado, princesa, ou se verá em apuros. - Disso não há dúvida, se papai ou mamãe descobrirem o que andei fazendo. - Como poderiam descobrir? O rei tem fama de dom-juan, mas nunca se ouviu dizerque teve um caso com uma garçonete bonita. - Reflectiu sobre isso e continuou: - Vocênão parece uma garçonete, e não adianta fingir que é. - Então, o que pareço ser? - Uma princesa! - respondeu Gretel, e ambas riram. Chegando ao palácio, quando subia a escada para a sala de estudo, Zita pensou que,se antes tinha sido frustrante saber que não ia poder ver o rei, agora era mil vezes pior. Só pensava nele, lá embaixo, sentado à mesa, suportando um almoço longo emaçante, com discursos cujo teor já devia ter ouvido muitas vezes antes. Se ela estivessepresente, poderia ao menos observá-lo. Talvez os olhos deles se encontrassem, e umsaberia o que o outro estava pensando. Zita estremeceu. “Devo estar louca, imaginando que ele pensaria em mim, ou que, se me conhecessecomo realmente sou, me daria alguma atenção. A única coisa que despertou seu interessepor mim foi o facto de eu não parecer empregada de uma estalagem. Ficou perplexo por eufalar três línguas.” Lembrou-se depois do que o rei dissera a respeito de seus cabelos. Ocorreu-lhe que,se ele visse o retrato de sua avó, na sala do trono, poderia suspeitar. Mas não havia razão para isso, porque ir à sala do trono não fazia parte do programadele. E era apenas lá que havia um bom retracto da avó de Zita. “Isso está parecendo uma história de detective, onde o vilão deixa pistas por toda aparte e, cedo ou tarde, acaba sendo apanhado!” Estremeceu, ao pensar que sua mãe poderia um dia descobrir o que tinha feito. Eestava certa de que o castigo seria de acordo com o crime. Durante o resto da tarde, ficou deitada na cama, tentando ler um livro. Mas o tempotodo pensava no rei, imaginando se naquela noite, ou talvez no dia seguinte, ele mandariaum bilhete à estalagem, pedindo que Zita fosse a seu encontro. Por um momento, brincou com a idéia de atender ao pedido. Depois, achou que nãosó seria perigoso e complicado, como agora precisava ser leal à irmã e deixar queMaximiliano concentrasse suas atenções em Sophie.
  45. 45. Depois que os dois ficassem noivos, Zita faria com que ele jurasse jamais contar emque circunstâncias tinham se conhecido. “Tenho certeza de que ele é bastante desportivo para não me denunciar.” À noite, ia haver um baile no palácio. Era pouco provável que o rei tentasse seencontrar com ela, pois seria obrigado a dançar no salão repleto de flores, ondeprovavelmente ficaria até à uma da madrugada. Era a essa hora que a grã-duquesa gostava que suas festas acabassem. Depois quetocavam o hino nacional, os convidados não tinham outra coisa a fazer, a não ser ir paracasa. Trouxeram para Zita, no quarto, um jantar pouco apetitoso. A baronesa Makszath, que fazia tudo o que a grã-duquesa queria, tinha vindo aoquarto de Zita duas vezes, para saber se estava bem. Depois que a moça garantiu que sim, a baronesa correu para os festejos lá de baixo. Sua última visita foi pouco antes do jantar. Entrou no quarto de Zita usando omelhor vestido de baile, com uma tiara pequena na cabeça grisalha. Tinha uma expressãoexcitada, incomum nela. - Que está acontecendo? - perguntou Zita. - Oh, é emocionante! Sua Majestade é o homem mais bonito que já vi! - O que Sophie acha dele? A baronesa hesitou, antes de responder: - Tenho a impressão de que está um pouco intimidada. Sentou-se ao lado dele, aoalmoço, mas não pareciam ter muito o que conversar. E achei o rei um tanto preocupado. - De que maneira? A baronesa teve dificuldade em responder! - Para dizer a verdade, o rei não pareceu estar fazendo muito esforço. Minha mãesempre dizia que... A baronesa começou uma das intermináveis histórias de sua mocidade, mas Zita nãoa ouviu. Pensava que, se tivesse comparecido ao almoço, teria muito assunto para conversarcom o rei. O mais importante seria a atitude dele em relação à Alemanha. A seguir, falariamsobre cavalos. Obviamente, a baronesa não queria ficar no andar de cima, quando havia tanta coisainteressante lá embaixo. Logo saiu do quarto, recomendando a Zita que dormisse cedo. - Não tenho muita escolha! - respondeu a moça, secamente. Recusou o último pratoque o lacaio trouxe.
  46. 46. O que aconteceria, se descesse e fosse espiar o baile pela janela, do lado de fora? Sabia que, se fizesse isso e fosse descoberta, sua mãe ficaria furiosa. Depois, brincou com a idéia de colocar seu melhor vestido de baile, que era verde, dacor de seus olhos, e entrar no salão, dizendo que, afinal de contas, tinha resolvidocomparecer à festa. Podia imaginar a consternação que causaria, assim como a cólera da mãe e o ódio deSophie. “Até mesmo papai me olharia com repulsa. E com razão; seria pouco desportivo euagir assim.” Caso o rei não pedisse Sophie em casamento, Zita seria considerada culpada e ouviriafalar no assunto a vida inteira. Finalmente, atirou longe o romance, que era muito aborrecido, e apagou as velas. Teve a impressão de que ouvia o som de música. Não podendo tapar os ouvidos,imaginou que estava dançando com o rei. Enquanto ele a tinha em seus braços, Zita sentia que uma corrente os unia, de modoque a música parecia vir, não dos violinos, mas do coração dos dois.

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