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EMPREENDEDORISMO EM COMUNIDADES RURAIS: UM ESTUDO DE CASO DO GRUPO DE BEIJUZEIRAS DA TAPERA MELÃO

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O estudo do empreendedorismo torna-se a cada dia mais falado e abordado no âmbito econômico, acadêmico e empresarial. São diversos, os grupos de professores, pesquisadores e profissionais de diferentes áreas que passaram a estudar o tema como também os indivíduos que enveredam pelos caminhos do empreendedorismo. A figura do empreendedor vem tomando bastante espaço no contexto social e econômico da sociedade atual. Diante desse cenário, a presente pesquisa objetivou mostrar as implicações da transformação do empreendedorismo por necessidade em empreendedorismo por oportunidade em um grupo de beijuzeiras de uma comunidade rural e quilombola da cidade de Irará-Bahia, a comunidade da Tapera Melão. No primeiro momento o tema empreendedorismo é historiado e conceituado, em seguida são discutidas duas motivações para empreender: necessidade e oportunidade. O estudo de caso realizado, por meio de pesquisa quali-quantitativa, no Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão, possibilitou a definição do perfil demográfico dos integrantes do grupo, e análises sobre as influências da comunidade no grupo e do grupo na comunidade.

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EMPREENDEDORISMO EM COMUNIDADES RURAIS: UM ESTUDO DE CASO DO GRUPO DE BEIJUZEIRAS DA TAPERA MELÃO

  1. 1. UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS CURSO DE ADMINISTRAÇÃO PATRÍCIA LIDIANE MARTINS DOS SANTOS EMPREENDEDORISMO EM COMUNIDADES RURAIS: UM ESTUDO DE CASO DO GRUPO DE BEIJUZEIRAS DA TAPERA MELÃO Feira de Santana 2014
  2. 2. PATRÍCIA LIDIANE MARTINS DOS SANTOS EMPREENDEDORISMO EM COMUNIDADES RURAIS: UM ESTUDO DE CASO DO GRUPO DE BEIJUZEIRAS DA TAPERA MELÃO Monografia apresentada ao curso de Administração da Universidade Estadual de Feira de Santana, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Administração. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Kil Hyang Park Feira de Santana 2014
  3. 3. FOLHA DE APROVAÇÃO PATRÍCIA LIDIANE MARTINS DOS SANTOS EMPREENDEDORISMO EM COMUNIDADES RURAIS: UM ESTUDO DE CASO DO GRUPO DE BEIJUZEIRAS DA TAPERA MELÃO Monografia aprovada como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Administração, Universidade Estadual de Feira de Santana, pela seguinte banca examinadora: _______________________________________________ Prof.ª Dr. ª Kil Hyang Park Universidade Estadual de Feira de Santana ______________________________________________ Prof.º Dr.º Joselito Viana de Souza Universidade Estadual de Feira de Santana ______________________________________________ Prof.º Dr.º Reinaldo Santos Andrade Universidade Estadual de Feira de Santana Feira de Santana, 06 de Janeiro de 2014.
  4. 4. Para aqueles que de alguma forma contribuíram para realização dessa pesquisa.
  5. 5. AGRADECIMENTOS Agradeço a Jeová por toda proteção e por me dar coragem de seguir em frente apesar da saudade; À base do meu viver. Meu pai, José Antônio, (pra sempre em minha memória) pelos conselhos e ensinamentos. Minha mãe, Lídia, por todo amor e preocupação. Meu irmão, Marcos Roberto, minha joinha, pelos risos e resenhas e por todo incentivo e ajuda; À minha família os Martins de Souza e os Ferreira dos Santos pelo apoio de sempre e pelos momentos de felicidade e confraternização; Aos meus amigos Bião, Isa, Jaque, Manu, Nai, Peu, e Rose por estarem presentes nas alegrias e nas dores; À Kellen e Liane por terem tornado os dez semestres dessa graduação mais leves e construtivos; Aos companheiros de espera e dificuldades na UEFS e no ônibus por tornarem esses momentos menos dolorosos. À Silvano pelas inúmeras conversas no trajeto Irará - Feira e por ter me levado a encontrar o objeto dessa pesquisa; À professora Kil Park por dar sentido à palavra orientadora e por me instigar a escrever o meu tema de uma forma mais direta e pessoal; Aos integrantes do Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão por serem tão receptivos e me permitirem contar um pouco da sua história. Infelizmente nesse breve texto não há espaço para agradecer a cada um que direta e indiretamente contribuiu para a realização dessa obra, mas mesmo sem dizer o nome eu lhes agradeço.
  6. 6. “Muitas coisas não ousamos empreender por parecerem difíceis; entretanto, são difíceis porque não ousamos empreendê-las.” Sêneca
  7. 7. RESUMO O estudo do empreendedorismo torna-se a cada dia mais falado e abordado no âmbito econômico, acadêmico e empresarial. São diversos, os grupos de professores, pesquisadores e profissionais de diferentes áreas que passaram a estudar o tema como também os indivíduos que enveredam pelos caminhos do empreendedorismo. A figura do empreendedor vem tomando bastante espaço no contexto social e econômico da sociedade atual. Diante desse cenário, a presente pesquisa objetivou mostrar as implicações da transformação do empreendedorismo por necessidade em empreendedorismo por oportunidade em um grupo de beijuzeiras de uma comunidade rural e quilombola da cidade de Irará-Bahia, a comunidade da Tapera Melão. No primeiro momento o tema empreendedorismo é historiado e conceituado, em seguida são discutidas duas motivações para empreender: necessidade e oportunidade. O estudo de caso realizado, por meio de pesquisa quali-quantitativa, no Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão, possibilitou a definição do perfil demográfico dos integrantes do grupo, e análises sobre as influências da comunidade no grupo e do grupo na comunidade. Palavras-Chave: Empreendedorismo; Necessidade; Oportunidade; Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão.
  8. 8. ABSTRACT The study of entrepreneurship becomes every day more spoken and addressed the economic, academic and business context. There are many groups of teachers, researchers and professionals from different fields who have studied the subject as well as individuals who go the ways of entrepreneurship. The figure of the entrepreneur has been taking a lot of space in the social and economic context of contemporary societ. Against this backdrop, the present study aimed to show the implications of the transformation of necessity entrepreneurship in entrepreneurship by chance in a group of rural and beijuzeiras a maroon community of the city of Irará - Bahia, community Tapera Melão. At first the subject conceptualized and historians entrepreneurship is then discussed are two motivations for undertaking: need and opportunity. The case study, through qualitative and quantitative research, the group beijuzeiras Tapera Melão, enabled the definition of the demographic profile of the group members, and analyzes the influences on the community in the group and the group in the community. Keywords: Entrepreneurship, Need, Opportunity, Group Beijuzeiras Tapera Melão.
  9. 9. LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Fluxograma da Pesquisa. 20 Figura 2 - Fluxograma etapas para transformação da mandioca em goma. 49
  10. 10. LISTA DE MAPAS Mapa 1 - Localização da Comunidade da Tapera Melão no Município de Irará. ...................39 Mapa 2 - Organização sócio territorial da Tapera Melão........................................................41
  11. 11. LISTA DE FOTOGRAFIAS Fotografia 1 - Produção de beiju de coco. 50 Fotografia 2 - Produção de beiju de goma no formato canoa. 51 Fotografia 3 - Limpeza do Forno para fazer farinha de tapioca. 51 Fotografia 4 - Imóvel comprado pelo Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão. 52 Fotografia 5 - Sede da Casa do Samba Dr. Deraldo Portela. 84
  12. 12. LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Evolução da taxa dos empreendedores iniciais (TEA) por oportunidade e necessidade: Brasil – 2002 à 2012. 32 Gráfico 2 - Percentual da População Rural. 37 Gráfico 3 - População com compromisso de venda de parte da produção principal (%) - 2001-2009. 38 Gráfico 4 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Distribuição por gênero – 2013. 57 Gráfico 5 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Faixa Etária – 2013. 57 Gráfico 6 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Escolaridade – 2013. 58 Gráfico 7 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Responsáveis pela criação – 2013. 59 Gráfico 8 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Quantidade de irmãos dos integrantes – 2013. 60 Gráfico 9 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Estado civil – 2013 60 Gráfico 10 - Grupo de beijuzeiras da Tapera Melão: Quantidade de filhos integrantes – 2013 61 Gráfico 11 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Quantidade de pessoas que moram na casa – 2013. 62 Gráfico 12 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Parentesco com os integrantes – 2013 63 Gráfico 13 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Avaliação sobre melhoria da renda 63 Gráfico 14 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Destinação do rendimento – 2013. 64 Gráfico 15 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Renda Familiar – 2013 65 Gráfico 16 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Responsável pela renda familiar. 65 Gráfico 17 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Atividades anteriores. 66 Gráfico 18 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Tempo de atividade – 2013. 66 Gráfico 19 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Responsáveis pelo aprendizado. 67 Gráfico 20 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Pretensões. 69 Gráfico 21 - Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão: Mudanças na vida. 70
  13. 13. LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Taxas ¹ de empreendedores em estágio inicial (TEA) segundo a motivação – Brasil e regiões – 2012. 33
  14. 14. LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Contribuições para o entendimento do empreendedorismo. 27 Quadro 2 - Tipos de Empreendedor. 29 Quadro 3 - Descrição dos produtos vendidos pelo grupo. 52
  15. 15. LISTA DE SIGLAS ASSEBA- Associação de Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia BNB- Banco do Nordeste do Brasil CDS- Compra com Doação Simultânea CEDITER- Comissão Ecumênica dos Direitos da Terra CNAE- Classificação Nacional de Atividades Econômicas CONAB- Companhia Nacional de Abastecimento COPRIL- Cooperativa dos Produtores Rurais de Irará DAP- Declaração de Aptidão ao Pronaf EBDA- Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrário EMPBRAPA- Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária EMPRETEC- Metodologia da Organização das Nações Unidas FENAFRA- Feira Nacional da Agricultura Familiar e Reforma Agrária GEM- Global Entrepreneurship Monitor GENESIS- Geração de Novas Empresas de Software Informação e Serviços IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBQP- Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade IEPS- Incubadora de Iniciativas da Economia Popular e Solidária IES- Instituição de Ensino Superior IPHAN- Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional MDA- Ministério do Desenvolvimento Agrário MOC- Manual de Operações da Conab
  16. 16. PAA- Programa de Aquisição de Alimentos PMI- Prefeitura Municipal de Irará PNAD- Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PNAE- Programa Nacional de Alimentação Escolar PRONAF- Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar SCDC – Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural SEBRAE- Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas SESI- Serviço Social da Indústria SOFTEX- Sociedade Brasileira de Apoio às Micro e Pequenas Empresas STRI-Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Irará TEA- Taxa de Empreendedores Iniciais UEFS- Universidade Estadual de Feira de Santana
  17. 17. SUMÁRIO INTRODUÇÃO 17 1. EMPREENDEDORISMO 22 1.1 ASPECTOS HISTÓRICOS 22 1.2 DEFINIÇÃO 25 1.3 TIPOS DE EMPREENDEDOR 28 1.4 EMPREENDEDORISMO E SETORES DE ATIVIDADE 29 1.5 MOTIVAÇÕES PARA EMPREENDER 31 1.6 EMPREENDEDORISMO RURAL 35 2. GRUPO DE BEIJUZEIRAS DA TAPERA MELÃO 39 2.1 HISTÓRICO DA COMUNIDADE DA TAPERA MELÃO 39 2.1.1 Organização Comunitária e Formas de Trabalho 41 2.1.2 Aspectos Culturais da Comunidade da Tapera Melão 44 2.2 FORMAÇÃO DO GRUPO DE BEIJUZEIRAS DA TAPERA MELÃO 45 2.2.1 Processo de Produção e Produtos Comercializados pelo Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão 47 2.3 ANÁLISE DOS DADOS COLETADOS 55 3. DO EMPREENDEDORISMO POR NECESSIDADE PARA O EMPREENDEDORISMO POR OPORTUNIDADE 72 3.1. FORMAS PARA CONSEGUIR ESSA TRANSFORMARÇÃO 72 3.2 CONSOLIDAÇÃO DO GRUPO 78 CONSIDERAÇÕES FINAIS 86 REFERÊNCIAS 90 APÊNDICE 95
  18. 18. 17 INTRODUÇÃO No ano de 2009, participamos como bolsista do Ponto de Cultura Cantando e Tocando Nossa Aldeia, da Filarmônica 25 de Dezembro de Irará-Bahia. As atividades desenvolvidas pelos bolsistas do Ponto de Cultura consistiam em visitar comunidades rurais do município de Irará que tinham manifestações culturais como samba de roda “bata” do feijão, entre outras. Nessas visitas, os bolsistas fizeram registros fotográficos e entrevistas com os moradores da comunidade. Uma dessas visitas (05/04/2009) foi na comunidade da Tapera Melão. Onde um dos moradores o senhor Eugênio de Jesus nos falou da história da comunidade e das manifestações culturais da mesma. Devido a problemas de conciliação das atividades desenvolvidas no ponto e os trabalhos acadêmicos ficamos somente um ano no Ponto de Cultura e dessa forma o contato com a comunidade só foi feito naquele domingo 05 de abril. Em 2012, fomos convidados por um colega que estava cursando os últimos semestres do curso de Administração, em outra IES, para escrever, em parceria, um artigo sobre a comercialização de beiju recheado na cidade de Irará-Bahia, e ao mapearmos as vendedoras de beiju recheado identificou-se o Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão. Estabelecemos contato com o grupo por meio de telefone, primeiro falamos com o presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais da Tapera Melão. Ao explicar do que se tratava, o presidente nos deu o número da senhora Maria de Fátima, que segundo o presidente da associação, poderia falar mais sobre o assunto. Ligamos para a senhora Maria de Fátima e marcamos uma entrevista para o dia 06 de maio de 2012. Para a entrevista foi criado um questionário com nove perguntas e todas estas foram respondidas pela senhora Maria de Fátima no dia marcado na Praça Pedro Nogueira no município de Irará-Bahia. A entrevista foi gravada e posteriormente fizemos a transcrição da mesma (transcrição no Apêndice 2). Durante a realização da entrevista descobriu-se que o grupo era composto por dezoito integrantes que além de beijus produziam outros derivados da mandioca lá na comunidade da Tapera Melão. No período de realização dessa entrevista estávamos cursando a disciplina CIS 338 Técnicas de Pesquisa em Administração (TPA) e já tínhamos definido que o tema a ser abordado no projeto de pesquisa seria o empreendedorismo. Dessa forma, o Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão passou a ser o objeto de pesquisa do nosso trabalho.
  19. 19. 18 A conexão entre a vontade de falar sobre empreendedorismo e a experiência de fazer pesquisa em comunidades rurais, proporcionada pelo tempo em que fomos bolsistas do ponto de cultura, culminaram na elaboração desta pesquisa. A pretensão de falar sobre empreendedorismo veio do interesse de fazer um estudo sobre um tema que apesar de ser recente vem tomando bastante espaço no contexto social e econômico da sociedade atual. Assim, a partir das leituras de referencial teórico e da entrevista realizada no dia 06 de maio de 2012 pode-se elaborar o problema e os objetivos dessa pesquisa. O problema a ser respondido a partir dessa pesquisa é: Quais são as implicações que a transformação do empreendedorismo por necessidade em empreendedorismo por oportunidade pode trazer para o Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão? A resposta a essa problemática mostrará maneiras para os integrantes do Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão transformar o empreendedorismo baseado em necessidade em empreendedorismo por oportunidade e as consequências dessa transformação. Para responder a problemática definida para esta monografia foram estabelecidos um objetivo geral e quatro objetivos específicos. O objetivo geral dessa pesquisa é conhecer e caracterizar o Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão para traçar o perfil demográfico do grupo e mostrar o que motivou o comportamento empreendedor dos integrantes do grupo. As definições do perfil demográfico dos integrantes do grupo através dos dados sobre idade escolaridade e renda permitiram fazer análises sobre as motivações para empreender se por necessidade ou por oportunidade. Os quatro objetivos específicos: identificar o perfil demográfico dos integrantes do grupo de beijuzeiras; apresentar como estão constituídas as famílias dos integrantes do grupo; identificar como a formação familiar influenciou os integrantes do grupo; mostrar se a renda foi o fator determinante para a constituição do grupo, servem como base para as discursões sobre os efeitos da transformação do empreendedorismo por necessidade em empreendedorismo por oportunidade. Quanto aos aspectos metodológicos, o método de pesquisa utilizado foi o estudo de caso. . “A monografia representativa de um estudo de caso deve ser desenvolvida a partir da análise de uma determinada organização” (TACHIZAWA, 2006, p. 60). Este trabalho realizou análises no Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão usando-se a pesquisa survey e a pesquisa bibliográfica.
  20. 20. 19 A técnica de pesquisa survey diferencia do censo pelo tamanho do grupo a ser pesquisado: “enquanto os censos trabalham com toda a população os surveys analisam uma amostra da população” (BABBIE, 1999, p.78). De acordo com Freitas (2000, p.105) a pesquisa survey é descrita: Como a obtenção de dados ou informações sobre características, ações ou opiniões de determinado grupo de pessoas indicado como representante de uma população alvo, por meio de um instrumento de pesquisa normalmente um questionário. A pesquisa survey aplicada nessa monografia teve propósito descritivo. Quanto ao número de momentos ou pontos no tempo foi feito um corte-transversal, ou seja, a coleta de dados foi feita em um só momento. Não houve amostra, pois o questionário (Apêndice 1) foi aplicado com todos os integrantes do Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão. O instrumento de coleta de dados, utilizado, foi o questionário, elaborado com base nas leituras dos referenciais teóricos. Com o objetivo de aplicar o questionário, entramos em contato, por telefone, com a senhora Maria de Fátima no dia 11 de setembro de 2013. Explicamos sobre o trabalho e sobre a necessidade de aplicar um questionário com todos os integrantes do Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão. A senhora Maria de Fátima mostrou interesse em participar, mas disse que precisava falar com os integrantes do grupo. Ligamos para a senhora Maria de Fátima no dia 15 de setembro de 2013 e nesta ligação ficou estabelecido que iriamos à comunidade da Tapera Melão no dia 16 de setembro de 2013 para explicar para todos os integrantes do grupo como seria feita a pesquisa. A técnica de pesquisa bibliográfica, também utilizada nesta pesquisa, é definida da seguinte forma: “a pesquisa bibliográfica, ou de fontes secundárias, abrange toda bibliografia já tornada pública em relação ao tema de estudo” (MARCONI e LAKATOS, 1999, p.73). As leituras de livros, periódicos, artigos, teses, dissertações e trabalhos de conclusão de curso sobre a temática abordada nesta pesquisa possibilitou a elaboração das análises e discursões feitas neste trabalho. Com relação à abordagem do problema de pesquisa, aplicou-se a pesquisa quali-quantitativa, devido à necessidade de análise dos processos sociais e identitários que envolvem os integrantes do Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão, como também o exame das variáveis encontradas a partir das respostas ao questionário. A Figura 1 mostra em forma de fluxograma as etapas da pesquisa desde a definição do problema e objetivos até chegar à monografia.
  21. 21. 20 Figura 1 - Fluxograma da Pesquisa. Fonte: Patrícia Santos. O Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão, universo de realização da pesquisa, é composto por dezoito integrantes. O grupo foi formado no ano de 2009, a partir da proposta feita por duas beijuzeiras, integrantes do grupo, em uma reunião na Associação dos Trabalhadores Rurais da Tapera Melão. A comunidade é uma comunidade rural reconhecida em 2010, pela Fundação Palmares, como remanescente quilombola e está situada a seis quilômetros da cidade de Irará. Em relação à estrutura este trabalho está dividido em três capítulos, além desta Introdução e das Considerações Finais. O primeiro capítulo refere-se ao referencial teórico que traz um enfoque histórico e conceitual do termo empreendedorismo e apresenta informações sobre os tipos de empreendedor e do empreendedorismo e os setores de atividade, além das motivações para empreender (a necessidade ou a oportunidade) e por fim o empreendedorismo rural. O segundo capítulo descreve o histórico da comunidade da Tapera Melão mostrando como foi formada a comunidade e os aspectos culturais da mesma, dos processos e eventos que levaram a formação do Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão e os procedimentos de produção do grupo, além da análise dos dados coletados durante a pesquisa.
  22. 22. 21 O terceiro capítulo foi destinado há um embate entre os conceitos teóricos e os dados coletados do Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão. Desta forma, o capítulo divide-se em duas seções: a primeira falando na transformação de empreendedorismo por necessidade em empreendedorismo por oportunidade onde são feitas sugestões para que o grupo consiga fazer essa transformação. A outra seção aborda os aspectos que podem levar a consolidação do grupo. Assim são discutidas três dimensões de suporte ao grupo: a econômica, a sociocultural e a política.
  23. 23. 22 1. EMPREENDEDORISMO 1.1 ASPECTOS HISTÓRICOS A análise histórica, da origem de um pensamento ou de uma teoria, nós leva a compreender de forma mais clara o assunto abordado. Sendo assim, torna-se relevante um resumo de como o termo empreendedorismo surgiu e como os autores percebiam o assunto, para entender o desenvolvimento do termo empreendedorismo ao longo dos anos. O termo empreendedorismo é uma forma derivada da palavra francesa entrepenur tendo como tradução literal aquele que está entre ou intermediário. As primeiras referências ao empreendedor ligadas à função de intermediário foram feitas na Idade Média. De acordo com Hisrich, Peters, Sheperd (2009), um exemplo de intermediário é o viajante e explorador, Marco Pólo, que na tentativa de estabelecer rotas comerciais para o Extremo Oriente atuava como intermediário, assinando um contrato com uma pessoa de recursos para vender suas mercadorias. A palavra empreendedorismo também foi utilizada entre os séculos XVI a XVIII na França. Nesta época, o empreendedor vinha a ser o empresário, e as atividades deste empresário estavam ligadas à área militar. Conforme Martinelli (1994, p. 476 apud LEITE, 2008, p. 36), “empreendedor era o nome dado ao capitão que contratava soldados mercenários para servir ao rei”. Depois, o termo passa a ser utilizado para designar aqueles que introduziam novas técnicas agrícolas ou arriscavam seu capital na indústria no século XVIII. O economista Richard Cantillon no século XVIII desenvolve umas das primeiras teorias referentes ao empreendedor. Chegando ao ponto de alguns pesquisadores, considerarem Cantillon como o criador do termo. Para Cantillon, o empreendedor era “alguém que corria riscos, observando que os comerciantes, fazendeiros, artesãos e outros proprietários individuais ‘compram a um preço certo e vendem a um preço incerto’, portanto operam com risco” (HISRICH; PETERS; SHEPERD, 2009, p.28). As definições feitas por Cantillon para caracterizar o empreendedor foram aceitas durante um determinado tempo. Até que, no ano de 1803, ano da primeira edição da obra, “Tratado de Economia Política”, do pensador e economista clássico Jean Baptiste Say são feitas novas definições para o empreendedor. De acordo com Say (1983, p.16), o empresário é um “agente econômico racional e dinâmico que age num universo de certezas”. Este empresário
  24. 24. 23 procura alcançar não só equilíbrio financeiro da sua empresa, como também o máximo de lucro e de vendas. O empresário definido por Say é um indivíduo mais consciente e racional. Com a obra “A Teoria do Desenvolvimento Econômico”, o economista Joseph Alois Schumpeter consegue dar projeção ao tema empreendedorismo. Através, dos pressupostos, definidos na obra, fica claro que o empreendedor contribui para o desenvolvimento econômico como também para as mudanças socioeconômicas. De acordo com Schumpeter a combinação do crédito bancário e das inovações pensadas pelos empresários levaria a esse desenvolvimento. Desta forma, o autor define “chamamos ‘empreendimento’ à realização de combinações novas, chamamos ‘empresários’ aos indivíduos cuja função é realizá-las” (SCHUMPETER, 1988, p. 54). Os conceitos e pressupostos sobre o empreendedorismo levaram muitos estudiosos e pensadores, da área de administração, a confundirem o empreendedor com os gerentes/ administradores. Ao analisar o empreendedor e o gerente/administrador somente do ponto de vista econômico, alguns teóricos, não conseguiam fazer a distinção entre os dois. Durante o final do século XIX início do século XX essa confusão, entre os dois, foi frequente. No final do século XIX e início do século XX, os empreendedores foram frequentemente confundidos com os gerentes ou administradores (o que ocorre até os dias atuais), sendo analisados meramente de um ponto de vista econômico, como aqueles que organizam a empresa, pagam os empregados, planejam, dirigem e controlam ações desenvolvidas na organização, mas sempre a serviço do capitalista (DORNELAS, 2005, p. 30). Segundo Filion (2000), com o intuito de acabarem com as confusões entre a figura do empreendedor e a do gerente alguns pesquisadores como Mintzberg, Boyatzis, Kotter e Hill passaram a analisar o trabalho desenvolvido pelos gerentes. De acordo com Filion (2000), os estudos realizados com os empreendedores e os gerentes revelam consideráveis diferenças nos métodos operacionais dos mesmos. Os gerentes perseguem os objetivos fazendo uso efetivo e eficiente dos recursos. Eles normalmente trabalham dentro de estruturas previamente definidas por outra pessoa. As organizações criadas por empreendedores, no entanto, são, na realidade, uma extrapolação de seus mundos subjetivos. O que os empreendedores fazem está intimamente ligado à maneira como interpretam o que está ocorrendo em um setor em particular do meio (FILION, 2000. p.3). Assim, pode-se perceber que as ideias relacionadas ao empreendedorismo e a figura do empreendedor foram evoluindo ao longo dos anos. Primeiro, o empreendedor estava ligado a um indivíduo que exerce funções de intermediação, depois a figura do empreendedor passa a ser relacionada com a inovação. Porém os estudos relacionados à área do
  25. 25. 24 empreendedorismo são incipientes. Segundo Santos e Acosta (2011, p.86), “a investigação sistemática e continuada desse fenômeno [empreendedorismo] tem uma vida de pouco mais de 50 anos”. E “o desenvolvimento da teoria do empreendedorismo é paralelo, em grande parte, ao próprio desenvolvimento do termo” (HISRICH; PETERS; SHEPERD, 2009, p.27). Na esfera nacional, o empreendedorismo, começa a se constituir mais forte e consolidado na década de noventa. De acordo Dornelas (2005), a criação de entidades como SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e SOFTEX (Sociedade Brasileira para Exportação de Software) trouxeram à tona questões relacionadas ao empreendedorismo e a criação de pequenas empresas. Essas entidades auxiliam as pessoas que pretendiam abrir seu próprio negócio. Ainda segundo Dornelas (2005, p. 26) “os ambientes político e econômico do país não eram propícios, e o empreendedor praticamente não encontrava informações para auxiliá-lo na jornada empreendedora”. Tais entidades têm como principal função o apoio aos empreendedores. Dornelas (2005, p.26), comenta sobre o SEBRAE e o SOFTEX: O Sebrae é um dos órgãos mais conhecidos do pequeno empresário brasileiro, que busca junto a essa entidade todo suporte de que precisa para iniciar sua empresa, bem como consultorias para resolver pequenos problemas pontuais de seu negócio. [...]. [O Softex foi criado] com o intuito de levar as empresas de software do país ao mercado externo, por meio de várias ações que proporcionavam ao empresário de informática a capacitação em gestão e tecnologia. Com intuito de aumentar o número de empreendedores como também de informar a população, sobre assuntos relacionados ao empreendedorismo, diversos programas passaram a ser criados. Dornelas (2005, p.27) cita alguns programas como: O GENESIS (Geração de Novas Empresas de Software, Informação e Serviços) criado na década de 1990 que estimulava o ensino do empreendedorismo em universidades e a geração de novas empresas de software. O programa Brasil Empreendedor do Governo Federal que visava a capacitação de mais de 6 milhões de empreendedores. O EMPRETEC e o Jovem Empreendedor, ambos, do SEBRAE que também objetiva a capacitação dos empreendedores. No final do século XX e início do século XXI, o empreendedorismo passa a ser visto como a força que irá impulsionar a economia e garantir o desenvolvimento socioeconômico dos países pelo mundo. Com a crescente automação e avanço da tecnologia, a oferta de empregos tem reduzido e os empregos oferecidos requerem um profissional criativo e inovador. Sendo assim, a figura do empreendedor passa a ser valorizada, seja ele, o dono do seu próprio negócio ou um profissional que empreende no seu ambiente de trabalho. O conceito de empreendedorismo – bem como seus desdobramentos teóricos e práticos – vem sendo valorizado por governos, entidades de classe e organizações como a principal base para o crescimento econômico e para a geração de emprego e
  26. 26. 25 renda na atualidade (Barros & Passos, 2000; Barros & Pereira, 2008). Considerando a iniciativa empreendedora como veículo ideal para inovar, aumentar a produtividade e melhorar modelos de negócios (Drucker, 1970), alguns autores arriscam-se a afirmar que estamos vivendo a era do empreendedorismo (Aidar, 2007; Dornelas, 2008), a substituição do homo economicus pelo homo attentaturus (Boava & Macedo, 2009) ou testemunhando o alvorecer de um capitalismo empreendedor (Schramm & Litan, 2008) (COSTA; BARROS; CARVALHO, 2011, p.182). Com base nessa perspectiva do empreendedorismo como sustentáculo da economia e do desenvolvimento, os estudos, em relação à área, passaram a se intensificar. No ano de 1999 uma parceria entre a London Business School e Babson College, criou o GEM (Global Entrepreneurship Monitor) que é uma avaliação anual da atividade empreendedora em uma ampla gama de países. De acordo com Aidar (2010, p.56), “o Brasil participa do GEM desde 2000, com dados coletados pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP) e com acompanhamento do SEBRAE”. Para Timmons, o impacto do empreendedorismo sobre o século XXI será igual ou maior ao impacto da revolução industrial sobre os séculos XIX e XX (TIMMONS, 1989 apud DEGEN, 2009, p.402). Os empreendedores serão os indivíduos que atenderão as necessidades de novas combinações e novas formas de atuar na sociedade tanto no âmbito econômico como social. De acordo com Chiavenato (2012, p.3) o empreendedor “proporciona a energia que move toda a economia, alavanca as mudanças e transformações, produz a dinâmica de novas ideias, cria empregos e impulsiona talentos e competências”. 1.2 DEFINIÇÃO Os estudos sobre empreendedorismo, em sua maioria, buscam mostrar e identificar quem é o empreendedor e o que faz o empreendedor, assim, são muitos os teóricos e estudiosos que falam sobre o assunto conceituando o empreendedorismo e o empreendedor. Pode-se citar alguns autores como Louis Jaques Filion, José Carlos Dornelas, Fernando Dolabela, Joseph Schumpeter, David MCclelland e Jeffry Timmons que de acordo com sua abordagem e perspectiva tecem sobre o assunto. As definições para os termos empreendedor e empreendedorismo são diversas. Estas definições vão depender da área de conhecimento abordada, pelo pesquisador que se propõe a definir os termos. Estes pesquisadores, por vezes, utilizam-se dos princípios dos seus campos de interesse para estabelecer o conceito. Dentre as áreas que abordam o tema
  27. 27. 26 empreendedorismo, duas se destacam: a dos economistas e a dos psicólogos, pois contêm elementos comuns a maioria das outras áreas. Os economistas relacionaram o empreendedor à inovação. E os psicólogos enfatizaram características de atitude comportamentais e estímulos motivacionais. Conforme Dolabela (2008), o termo empreendedorismo não é novo nem se trata de um modismo. “O empreendedor existe desde o momento em que este pensou em realizar uma inovação que trouxesse novas formas de combinação e convivência entre homem e natureza” (DOLABELA, 2008, p.23). Para Schumpeter (1988), o empreendedor é alguém que combina os meios de produção já existentes de novas maneiras. Para Dolabela e Schumpeter o empreendedor é marcado por essa característica de inovação e inquietude, procurando sempre maneiras diferentes de realizar atividades. Segundo Schumpeter (1988), o empreendedorismo seria a realização de algo novo, ou seja, uma inovação. De acordo com o autor não seria preciso que o empreendedor inventasse um novo produto/serviço bastava, que este, ofertasse o produto/serviço de uma maneira diferente de uma forma inovadora. Ou seja, “as inovações, cuja realização é a função dos empresários, não precisam necessariamente ser invenções” (SCHUMPETER, 1988, p. 62). Alguns autores relacionam o perfil do empreendedor com sua formação familiar e com o ambiente no qual vivem. De acordo com esses autores, essas estruturas sociais influenciam na formação do empreendedor. Conforme, citação de Cassol (2006, p. 27), McClelland diz que “o ser humano é um produto social e o empreendedorismo pode ser visto como um fenômeno cultural, fruto dos hábitos, práticas e valores dos grupos sociais”. Dolabela (2008) faz citação à obra de Filion para pontuar a influência da família e do ambiente social na formação do caráter empreendedor do indivíduo. Sabe-se que o empreendedorismo é um fenômeno cultural, ou seja, é fruto de hábitos, práticas e valores das pessoas. Existem famílias (assim como cidades, regiões, países) mais empreendedoras do que outras. Na verdade, a pessoa aprende a ser empreendedora no convívio com outros empreendedores, num clima em que ser dono do próprio nariz, ter um negócio é considerado algo muito positivo. Pesquisas indicam que as famílias de empreendedores têm maior chance de gerar novos empreendedores e que os empreendedores de sucesso quase sempre têm um modelo, alguém que admiram e imitam (FILION, 1991 apud DOLABELA, 2008, p. 29). Um dos conceitos de empreendedorismo na sua forma mais simples e reveladora é trazido por Dolabela. Para ele, “o empreendedor é alguém que sonha e busca transformar seu sonho em realidade” (DOLABELA, 2010, p.27). Esse conceito traz a reflexão da necessidade de ver o empreendedorismo como uma ferramenta de realização e construção de sonhos e não apenas como caminho para abrir uma empresa.
  28. 28. 27 As definições e discursões acerca do empreendedorismo vêm aumentando com o passar dos anos. Cada pesquisador, de acordo com sua linha de pesquisa, vai contribuindo para a compreensão do tema. De acordo com Hisrich, Peters e Sheperd (2009, p.27), “ainda não surgiu uma definição concisa e universalmente aceita para o assunto”. O Quadro 1 elaborado por Chiavenato (2012) ilustra, de forma resumida, algumas contribuições para o entendimento do empreendedorismo. Quadro 1 - Contribuições para o entendimento do empreendedorismo. Ano Autor Contribuição 1961 McClellend Identifica três necessidades do empreendedor: poder afiliação e sucesso (sentir que se é reconhecido). Afirma que: “o empreendedor manifesta necessidade de sucesso”. 1966 Rotter Identifica o locus de controle interno e externo: “o empreendedor manifesta locus de controle interno.” 1970 Drucker O comportamento do empreendedor reflete uma espécie de desejo de colocar sua carreira e sua segurança financeira na linha de frente e correr riscos em nome de uma ideia, investindo muito tempo e capital em algo incerto. 1973 Kirsner "Empresário é alguém que identifica e explora desequilíbrios existentes na economia e está atento ao aparecimento de oportunidades.” 1982 Casson “O empreendedor toma decisões criteriosas e coordena recursos escassos”. 1985 Sexton e Bowman “O empreendedor consegue ter uma grande tolerância à ambiguidade.” 1986 Bandura “O empreendedor procura a auto eficácia: controle da ação humana através de convicções que cada indivíduo tem para prosseguir autonomamente na procura de influenciar a sua envolvente para produzir os resultados desejados”. 2002 William Baumol “O empreendedor é a máquina de inovação do livre mercado”. Fonte: Chiavenato (2012, p.7). O empreendedorismo não possui um conceito ou definição universal. Nos diversos conceitos e definições trazidas pelos estudiosos e teóricos das áreas como economia, administração e psicologia é possível encontrar aspectos e características comuns. Assim, os conceitos e definições de empreendedorismo, apesar de serem múltiplos e distintos, possuem traços semelhantes. Em quase todas as definições de empreendedorismo, há um consenso de que estamos falando de um tipo de comportamento que abrange: (1) tomar iniciativa, (2) organizar e reorganizar mecanismos sociais e econômicos a fim de transformar
  29. 29. 28 recursos e situações para proveito prático e (3) aceitar o risco ou fracasso (HISRICH; PETERS; SHEPERD, 2009, p.29). As definições e conceitos do empreendedorismo, quase sempre, estão ligadas a determinados comportamentos. Segundo Drucker (1994) “o empreendedorismo é um comportamento e não um traço de personalidade”; ser empreendedor está ligado a aprender a se comportar de forma empreendedora e não está ligado a destino ou mistérios. Deste modo, Drucker deixa claro que qualquer indivíduo pode ser um empreendedor, basta, que aquele indivíduo, seja estimulado a desenvolver o comportamento empreendedor. O empreendedor possui a característica de desenvolver e criar novas formas e novas combinações recriando o que já está pronto e/ou inventado algo. Segundo Dolabela (2010) apesar do conceito de empreendedor ter nascido na empresa é possível que o empreendedorismo possa ser encontrado em todas as atividades humanas. Para Dolabela, o indivíduo pode ser empreendedor nas suas relações pessoais, no seu trabalho, na sua comunidade. Em consonância com DrucKer (1994), o autor defende que empreendedorismo é um comportamento e não um traço de personalidade. 1.3 TIPOS DE EMPREENDEDOR Sendo o empreendedorismo próprio da espécie humana toda e qualquer pessoa poderá desenvolver formas de empreender. Como, cada pessoa possui traços e características que os tornam únicos cada empreendedor desenvolverá uma forma para gerir os seus negócios. Conforme Dornelas (2007, p. 11) “não existe um único tipo de empreendedor ou um modelo- padrão que possa ser identificado”. De tal modo que existem vários tipos de empreendedor. A tipologia criada para identificar o empreendedor é baseada em fatores como família, cultura e ambiente social. José Dornelas realizou uma pesquisa com 399 empreendedores para escrever o livro “Empreendedorismo na prática”. Baseando-se nesta pesquisa ele definiu alguns tipos de empreendedor. O Quadro 2 traz oito tipos de empreendedor de acordo com Dornelas (2007). Os oito tipos de empreendedores descritos abaixo são bastante diversos. Uns empreendem porque já nascem com as características empreendedoras, outros desenvolvem essas características com a convivência, alguns empreendem por falta de alternativa, outros recebem a missão de empreender. De acordo com Dolabela (2010, p. 37) “libertar o empreendedor que existe dentro de nós implica aceitar que empreender é uma capacidade da
  30. 30. 29 espécie humana”. Independente do tipo, o fato é que alguns indivíduos estão sempre empreendendo. 1.4 EMPREENDEDORISMO E SETORES DE ATIVIDADE A Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) tem a finalidade de unificar os códigos de identificação das unidades produtivas do país. A CNAE é oficialmente adotada “pelo Sistema Estatístico Nacional na produção de estatísticas por tipo de atividade econômica, e pela Administração Pública, na identificação da atividade econômica em Quadro 2 - Tipos de Empreendedor. Tipo Descrição O Empreendedor Nato (Mitológico) Suas histórias são brilhantes e, muitas vezes, começaram do nada e criam grandes impérios. Começam a trabalhar muito jovens e adquirem habilidade de negociação e vendas. O Empreendedor que Aprende (Inesperado) É normalmente uma pessoa que, quando menos esperava, se deparou com uma oportunidade de negócio e tomou a decisão de mudar o que fazia na vida para se dedicar ao negócio próprio. O Empreendedor Serial (Cria Novos Negócios) O empreendedor serial é aquele apaixonado não apenas pelas empresas que cria, mas principalmente pelo ato de empreender. É uma pessoa que não se contenta em criar um negócio e ficar à frente dele até que se torne uma grande corporação. O Empreendedor Corporativo São geralmente executivos muito competentes, com capacidade gerencial e conhecimento de ferramentas administrativas. Trabalham de olho nos resultados para crescer no mundo corporativo. O Empreendedor Social O empreendedor social tem como missão de vida construir um mundo melhor para as pessoas. Envolve-se em causas humanitárias com comprometimento singular. O Empreendedor por Necessidade O empreendedor por necessidade cria o próprio negócio porque não tem alternativa. Geralmente não tem acesso ao mercado de trabalho ou foi demitido. Não resta outra opção a não ser trabalhar por conta própria. O Empreendedor Herdeiro (Sucessão Familiar) O empreendedor herdeiro recebe logo cedo a missão de levar à frente o legado de sua família. O empreendedor herdeiro aprende a arte de empreender com exemplos da família, e geralmente segue seus passos. O “Normal” (Planejado) O empreendedor que “faz a lição de casa”, que busca minimizar riscos, que se preocupa com os próximos passos do negócio, que tem uma visão de futuro clara e que trabalha em função de metas é o empreendedor aqui definido como o “normal” ou planejado. Fonte: Adaptada Dornelas (2007, p. 11- 16).
  31. 31. 30 cadastros e registros de pessoa jurídica.” (IBGE 2007, p.11). Utiliza uma hierarquia para estruturar sua classificação estando dividida em: cinco níveis, com 21 seções, 87 divisões, 285 grupos, 673 classes e 1301 subclasses. O Global Entrenuship Monitor (GEM) utiliza os padrões de classificação da CNAE para mostrar os índices de empreendedorismo por setor de atividade. De acordo com os dados do GEM de 2012, por exemplo: No caso dos empreendedores iniciais, a atividade relativa a “Restaurantes e outros estabelecimentos de serviços de alimentação e bebidas” apresenta a maior proporção dentre os empreendedores iniciais (8,1%), seguida de “Cabeleireiros e outras atividades de tratamento de beleza” (6,9%), “Comércio varejista de artigos de vestuário e acessórios” (6,6%) e “Comércio varejista de cosméticos, produtos de perfumaria e de higiene pessoal” (6,0%). Além do “setor alimentação” (restaurantes, bares, ambulantes, bufês e comida preparada, minimercados, mercearias, panificação, etc.), é interessante notar a alta participação do “setor de beleza” (cabeleireiros e comércio de cosméticos) (GEM, 2012, p. 42). Estas atividades pertencem, respectivamente, às seções (I - alojamento e alimentação, S - outras atividades de serviços e G - comércio; reparação de veículos automotores e motocicletas) da CNAE. Ainda de acordo com os dados do GEM 2012 (1,4%) dos empreendedores em estágio inicial trabalham com fabricação de produtos de panificação essa atividade corresponde à seção C da CNAE, indústrias de transformação. De acordo com a classificação da CNAE: É também considerada como atividade industrial a produção manual e artesanal, inclusive quando desenvolvida em domicílios, assim como a venda direta ao consumidor de produtos de produção própria, como, por exemplo, os ateliês de costura. Além da transformação, a renovação e a reconstituição de produtos são, geralmente, consideradas como atividades da indústria (IBGE 2007, p.93). Dessa forma, as atividades que consistem em transformar (física, química e biologicamente) materiais e substâncias para obter novos produtos são consideradas atividades da indústria de transformação. Estas atividades estão ligadas a transformação de insumos produzidos em atividades agrícolas, florestais, minerais e de pesca. Como por exemplo, a transformação de frutas e raízes em bolos e biscoitos. Os dados do GEM revelam que os setores de atividade que possuem as maiores taxas de empreendedores iniciais são o de alimentação e o de beleza. Este fato é um reflexo de diversos fatores. A forte tendência, dos empreendedores em estágio inicial, em abrir estabelecimentos que fornecem alimentos como bares e restaurantes e o aumento do consumo de produtos de higiene pessoal e beleza. Este último devido principalmente ao aumento do poder de compra da classe C.
  32. 32. 31 Geralmente as atividades ligadas ao setor de alimentação são consideradas atividades com menor número de barreiras para os entrantes, pois exige menos conhecimento técnico para o início do desenvolvimento da atividade. Muitos empreendimentos do setor alimentício começam pelo fato do empreendedor saber fazer algum tipo de alimento. O consumo de produtos do setor de beleza e higiene pessoal cresceu, pois com mais dinheiro no bolso os consumidores puderam passar a comprar itens que eram considerados supérfluos. O aumento do consumo implica no aumento das vendas e na abertura de empreendimentos ligados a aquele setor. 1.5 MOTIVAÇÕES PARA EMPREENDER Os indivíduos que decidem empreender são motivados por diversos fatores. Estes fatores podem ser pessoais, demográficos, econômicos e sociais. Com base nesse caráter motivacional, destacaremos dos relatórios anuais do GEM, análises de dois motivos que levam o indivíduo a empreender: a oportunidade e a necessidade. Os empreendedores por necessidade são aqueles que iniciam um empreendimento autônomo por não possuírem melhores opções de trabalho, abrindo um negócio a fim de gerar renda para si e suas famílias. Os empreendedores por oportunidade optam por iniciar um novo negócio mesmo quando possuem alternativas de emprego e renda, ou ainda, para manter ou aumentar sua renda ou pelo desejo de independência no trabalho (GEM, 2012, p.89). De acordo com a definição do GEM, os empreendedores podem ser motivados por fatores que configuram uma necessidade, ou seja, por falta ou carência de fonte de renda. Esses indivíduos, por não terem alternativas de trabalho, resolvem abrir um negócio, como opção para gerar renda para a sua família. “Esses negócios costumam ser criados informalmente, não são planejados de forma adequada e muitos fracassam bastante rápido.” (DORNELAS, 2005 p. 28). A maioria dos empreendedores por necessidade não tem conhecimento sobre planejamento e análise de mercado esta falta de conhecimento dificulta a sobrevivência do negócio. Os empreendedores motivados por oportunidade aproveitam-se de ocasiões adequadas para abrirem o seu negócio. “No empreendedorismo por oportunidade o empreendedor visionário sabe onde quer chegar, cria uma empresa com planejamento prévio, tem em mente o crescimento que quer buscar para a empresa e visa a geração de lucros empregos e riqueza” (DORNELAS, 2005 p. 28) . Os empreendedores por oportunidade detêm maior conhecimento
  33. 33. 32 sobre o negócio que estão abrindo, como também, fazem análises das possibilidades e viabilidade do negócio. Desta forma, estes empreendimentos, tendem a sobreviver por mais tempo. Segundo Degen (2009), os empreendedores por oportunidade trazem impulsos positivos para o país onde empreendem. Os empreendedores motivados por oportunidade tem maior impacto sobre o crescimento econômico de um país, porque esses empreendedores, mais bem preparados, desenvolvem mais negócios baseados em inovações e novas tecnologias, e muitos desses negócios têm grande potencial de ‘crescimento sustentado’(DEGEN, 2009, p.406). Segundo as pesquisas do GEM, os graus de empreendedorismo por necessidade e por oportunidade, estão intimamente ligados ao desenvolvimento econômico do país onde os empreendedores abrem os negócios. De acordo com o GEM “[...] a oportunidade como motivação do empreendedor individual é relativamente maior conforme é mais avançado o estágio ou fase do desenvolvimento dos diferentes países [...]” (GEM, 2012, p.89). Por isso, quanto maior o desenvolvimento econômico do país, maior será suas taxas de empreendedorismo por oportunidade. No Brasil, as taxas de empreendedorismo por oportunidade têm crescido ao longo dos anos, e a taxa de empreendedorismo por necessidade ainda é alta. Conforme o GEM (2012 p.89): “[...] desde o início da participação do País na Pesquisa GEM em 2000, uma das características que mais apresentou alterações ao longo desses últimos 12 anos foi o empreendedorismo por oportunidade em relação ao empreendedorismo por necessidade”. A partir da análise do Gráfico 1, pode-se avaliar o comportamento das Taxas dos Empreendedores Iniciais (TEA) por oportunidade e por necessidade no Brasil, no período de 2002 a 2012. Gráfico 1 - Evolução da taxa dos empreendedores iniciais (TEA) por oportunidade e necessidade: Brasil – 2002 à 2012. Fonte: GEM (2012, p.90). Os dados do Gráfico 1 mostram que o percentual de empreendedorismo por oportunidade foi crescendo ao longo dos anos, e o percentual de empreendedorismo por necessidade foi
  34. 34. 33 decrescendo. E, o único ano no qual o empreendedorismo por necessidade foi maior que o empreendedorismo por oportunidade foi em 2002, quando apresentavam taxas de (7,5%) e (5,8%) respectivamente. É possível perceber que as maiores diferenças entre as taxas de empreendedorismo acontecem no período entre os anos de 2008 e 2012. No ano de 2012, o GEM começou a avaliar as taxas de empreendedorismo por necessidade e por oportunidade nas cinco regiões brasileiras. Ou seja, a partir de 2012 o GEM passou a analisar as taxas de empreendedorismo em cada região: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Assim, como nos países, as regiões mais desenvolvidas apresentam maiores taxas de empreendedorismo por oportunidade e as regiões menos desenvolvidas apresentam maiores taxas de empreendedorismo por necessidade. Os percentuais podem ser analisados na Tabela 1. Tabela 1 - Taxas ¹ de empreendedores em estágio inicial (TEA) segundo a motivação – Brasil e regiões – 2012. Motivação Brasil Região Norte Região Nordeste Região Centro-Oeste Região Sudeste Região Sul Taxa (%) Taxa (%) Taxa (%) Taxa (%) Taxa (%) Taxa (%) Oportunidade 10,7 10,1 10,3 13,9 10,4 11,2 Necessidade 4,7 7,7 6,6 2,5 3,6 3,8 Oportunidade como percentual da TEA 69,2 56,0 60,4 84,0 73,9 74,1 Razão oportunidade/ necessidade 2,3 1,3 1,6 5,5 2,9 3,0 ¹ As taxas significam o percentual de empreendedores estabelecidos em cada classe, por região, em relação a população da mesma classe. Fonte: Adaptada GEM (2012, p.91). As macro regiões brasileiras apresentam taxas de empreendedorismo por oportunidade, maiores do que as taxas de empreendedorismo por necessidade (Tabela 1). Porém, as regiões Norte e Nordeste possuem as maiores taxas de empreendedorismo por necessidade (7,7%) e (6,6%) respectivamente. As regiões Norte e Nordeste são marcadas pela falta de desenvolvimento socioeconômico, e este fato pode estar refletindo diretamente no aumento do número de empreendedores que abrem um negócio por não terem opções de emprego. Os estudos realizados pelos pesquisadores do GEM trazem dados que relacionam aspectos demográficos com a motivação para empreender. No GEM (2012), as características demográficas (gênero, faixa etária, escolaridade e faixa de renda) dos empreendedores em estágio inicial são apresentadas em uma tabela com as taxas para o país e para as cinco regiões brasileiras.
  35. 35. 34 De acordo com o relatório do GEM (2012), os empreendedores do gênero masculino são os que mais empreendem por oportunidade. Este fato pode ser observado em todas as regiões brasileiras. A região Centro-Oeste possui a maior taxa de empreendedores inicias (TEA) do gênero masculino (15,5%). A faixa etária com maior quantidade de empreendedores por oportunidade são as de 25-34 anos e 35-44 anos. Nota-se que na região sul a uma taxa de (10,9%) de empreendedores por oportunidade na faixa de 45-54 anos. Os empreendedores na faixa de 55-64 anos são os que menos empreendem por oportunidade. Conforme o GEM (2012, p.92): [...] essa taxa é bem menor no caso dos empreendedores de idade mais avançada, o que parece indicar que coortes de gerações passadas apresentam maiores dificuldades de encontrar oportunidades de mercado e empreender, restando a alternativa de auferir ou complementar renda (p. ex., pensões de aposentadoria) abrindo negócios motivados principalmente por necessidade. Em relação ao grau de escolaridade, o relatório do GEM (2012) mostra que quanto maior o grau de escolaridade, maiores serão as taxas de empreendedorismo por oportunidade. Sendo assim, escolaridade e empreendedorismo por oportunidade são diretamente proporcionais. Cabe dizer, que o Brasil possui uma taxa de (3,1%) de empreendedores por oportunidade que não possuem educação formal. A análise da faixa de renda dos empreendedores por oportunidade, no GEM (2012), mostra conclusões interessantes. Existe uma taxa significativa de empreendedores com renda menor que três salários mínimos empreendendo em todas as cinco regiões do país. E os empreendedores com faixa de renda maior que nove salários mínimos estão entre as menores taxas de empreendedorismo por oportunidade, com exceção da região Norte onde a taxa de empreendedores com renda de mais de nove salários mínimos é de 9,4%. Uma pesquisa realizada pelo Instituto empreender ENDEAVOR Brasil mostra o perfil e as percepções do empreendedor em 2013. A pesquisa segmentou os empreendedores em formais, informais e potenciais. A partir dessa segmentação foi feita a pesquisa dos dados sócio demográficos dos empreendedores pesquisados. A pesquisa revela que: A idade média do empreendedor é de 36 anos e a maioria se concentra na faixa etária entre 25 e 55 anos. Todavia, o empreendedor com CNPJ possui, em média, 5 anos a mais que o empresário informal, o que é em parte explicado pelo maior agrupamento de indivíduos na faixa entre 46 e 55 anos nesse grupo. A diferença de escolaridade entre os dois segmentos [formais e informais] é alarmante e caracteriza um dos gargalos de crescimento dos empreendimentos informais mais importantes, algo que se reflete em sua liderança menos produtiva. Entre os donos de negócios formais, 31% possui ensino superior completo, com destaque para as empresas de médio porte – ou seja, as mais desenvolvidas – em que 41% possuem tal grau de instrução. Entre informais, este percentual não chega nem a 10%. Há uma
  36. 36. 35 dessemelhança enorme entre os segmentos, de 22%, tanto para a educação formal quanto sobre o ensino superior (ENDEAVOR, 2013, p.50-51). O empreendedorismo por oportunidade é mais valorizado, pois leva os empreendedores a desenvolverem negócios mais consolidados com grandes chances de se estabelecer no mercado. Consequentemente, o empreendedorismo por oportunidade gera desenvolvimento econômico. Já o empreendedorismo por necessidade não é visto com bons olhos, devido à falta de planejamento e conhecimento os empreendedores por necessidade estão fadados ao fracasso e fechamento do negócio. Segundo Ricca (2004, p.70): [...] grande parte do empreendedorismo desenvolvido no Brasil resulta de uma questão de sobrevivência, uma vez que não há trabalho para todos e há necessidade de geração de renda. Isso reflete uma outra questão muito complicada. No Estado de São Paulo, 99% das empresas instaladas são classificadas como micro e pequenas. Nesta última categoria, contam-se 1,3 milhão de empresas, as quais respondem por mais de 60% dos postos de trabalho da iniciativa privada no Estado. O aspecto perverso destes dados é que apenas 40% das MPE recém-abertas permanecem no mercado após cinco anos de vida. Na tentativa de evitar a falência dos empreendimentos criados por necessidade torna-se imprescindível transformar o empreendedorismo por necessidade em empreendedorismo por oportunidade. Buscando a melhor maneira para aprimorar aquele negócio que foi aberto por uma necessidade em algo rentável e duradouro. O GEM (2012), aponta o grau de escolaridade como fator preponderante para a transformação do empreendedorismo por necessidade em empreendedorismo por oportunidade, pois através do conhecimento e do estudo o empreendedor estará mais apto a enxergar as oportunidades de negócio. De acordo com Ricca (2004, p.71) “[...] transformar o empreendedorismo por necessidade de sobrevivência em oportunidades de negócios é o grande desafio que se coloca para os governos e as instituições como o SEBRAE”. Os governos e as instituições de fomento devem desenvolver políticas públicas e programas voltados para ajudar os indivíduos que empreendem por necessidade transformando esses negócios em oportunidades. O país que tem maior percentual de empreendedorismo por oportunidade é considerado mais desenvolvido economicamente e socialmente (DORNELAS, 2005); (DEGEN, 2009). 1.6 EMPREENDEDORISMO RURAL. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) classifica as áreas rurais como aquelas fora dos perímetros definidos como urbanos. O perímetro urbano compreende as sedes municipais (cidades) e as sedes distritais (vilas), cujos perímetros são definidos por lei municipal. “A literatura internacional não está de acordo com essa definição, brasileira, de
  37. 37. 36 urbano e rural porque na maior parte dos países a definição do rural nos limites intra- municipais levaria a fortes distorções” (FAVARETO, 2010, p.3). As discussões e debates sobre a definição do território rural e do território urbano estão longe de chegar a um consenso. Os pesquisadores levantam questões como densidade populacional, presença de instituições públicas, características territoriais entre outros fatores como condicionantes ou não da ruralidade ou urbanidade. Na tentativa de tornar os conceitos de rural e urbano, mais próximos da realidade brasileira, alguns pesquisadores definem as características desses territórios: A rigor, três características permitem definir o que é o rural: a proximidade com a natureza, os laços interpessoais, e as relações que estas áreas estabelecem com as áreas urbanas próximas (Abramovay, 2003; Favareto, 2007). Por isso é correto falar em “regiões de características rurais”, que, portanto, compreendem pequenas vilas, povoados ou cidades que são oficialmente classificados como urbanos. Veiga (2003) oferece uma tipologia das regiões brasileiras dividindo-as em três categorias: aquelas inequivocamente urbanas (onde estão as regiões metropolitanas ou regiões com alta densidade populacional), aquelas predominantemente urbanas (que contam com ao menos um centro com mais de cem mil habitantes ou que têm densidade populacional intermediária), e aquelas regiões essencialmente rurais (onde só há pequenos municípios e uma presença populacional bastante rarefeita) (FAVARETO, 2010, p.4). Os territórios rurais passaram a ser vistos como fonte de novos negócios e renda. Tanto para populações que moram nesses territórios quanto para as cidades que estão no entorno desses territórios. É o que alguns autores como Veiga (2006) e Abramovay (2003) chamam de “nova ruralidade” o desenvolvimento de novas formas de trabalho e sobrevivência nos territórios rurais. Para Veiga (2006, p.333) podem ser apontados três vetores que condicionaram esta “nova ruralidade”: A ideia de que são três os vetores fundamentais dessa nova ruralidade: aproveitamento econômico das amenidades naturais por meio de um leque de atividades que costumam ser tratadas no âmbito do turismo; desdobramento paisagístico dos esforços de conservação da biodiversidade; crescente necessidade de buscar a utilização de fontes renováveis de energia disponíveis nos espaços rurais. As comunidades e regiões rurais passam a exercer novos papeis dentro da dinâmica econômica e social exercidas com o meio urbano. De acordo com Favareto (2010) a nova relação entre os territórios rurais e as cidades estão levando a inversão do êxodo e da renda, ou seja, a população está permanecendo no campo. Quanto à relação com as cidades, os espaços rurais deixam de ser meros exportadores de bens primários para dar lugar a uma maior diversificação e integração intersetorial de suas economias, com isso arrefecendo, e em alguns casos mesmo invertendo, o sentido demográfico e de transferência de rendas que vigorava no momento anterior (FAVARETO, 2010, p. 5).
  38. 38. 37 De acordo com os dados do Censo 2010, 85% da população brasileira reside em cidades e 15% mora no campo. A população rural brasileira é bem menor que à população urbana, mas uma análise dos dois últimos censos permitiu fazer uma importante constatação. A distribuição etária da população em áreas rurais em diferentes pontos no tempo, entre 1950 e 2010 o processo de migração rural- urbana foi interrompido (Gráfico 2). Gráfico 2 - Percentual da População Rural. Fonte: Neri (2012, p.110). As curvas dos censos de 2000 e 2010 “a proximidade das curvas dos dois últimos censos, indicando que o processo de migração rural-urbana foi interrompido” (NERI 2012, p. 110). Dessa informação infere-se que o contingente da população rural tende a manter-se ou a aumentar. O empreendedor rural é o indivíduo que desenvolve atividades ligadas ao espaço rural. Podendo ser um empreendedor de negócios de grande porte ligados ao agronegócio ou de pequeno porte ligados à agricultura familiar. Segundo Neri (2012, p.173) “a área rural continua sendo o setor do nanoempresário, incluindo principalmente autônomos, aos quais devem ser priorizadas políticas públicas de apoio e fomento”. A dinâmica da produção rural vem mudando ao longo dos anos. Os produtores rurais estão passando a produzir cada vez mais voltados a comercialização do que somente para a subsistência. O Gráfico 3 mostra no período de 2001 a 2009 o percentual da população que assumiu o compromisso de vender parte da sua produção . Esses dados foram levantados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e mostra o crescimento do número de produtores rurais destinando seus produtos a venda.
  39. 39. 38 Gráfico 3 - População com compromisso de venda de parte da produção principal (%) - 2001-2009. Fonte: Adaptado Neri (2012, p.178). Os moradores de comunidades rurais que sobrevivem do cultivo de suas terras, os agricultores familiares, podem tornam-se empreendedores. Através do desenvolvimento e aperfeiçoamento das técnicas e formas de realizar o trabalho, no campo, como também na maneira de vender os seus produtos. Segundo Abramovay (2000, p.13), O próprio crescimento urbano recente aumenta a demanda por novos produtos e novos serviços vindos do meio rural. O desafio consiste em dotar as populações vivendo nas áreas rurais das prerrogativas necessárias a que sejam elas as protagonistas centrais da construção dos novos territórios. Desta forma, os empreendedores rurais precisam de ajuda e suporte para poder aprimorar suas formas de produção e venda. Para que eles mesmos consigam desenvolver seus próprios métodos e técnicas de produção, para que possam perceber as necessidades e desejos do mercado consumidor. Assim, serão precisos projetos e politicas públicas que possam dar apoio e incentivos aos empreendedores rurais. Os agricultores familiares, moradores de comunidades rurais, que empreende por necessidade, ou seja, apenas para garantir o sustento da sua família. Precisam ser estimulados a criar mecanismos para transformar esse empreendedorismo por necessidade em empreendedorismo por oportunidade para que esses negócios consigam crescer e consolidar-se, trazendo assim desenvolvimento e sustentabilidade para o local onde estão instalados.
  40. 40. 39 2. GRUPO DE BEIJUZEIRAS DA TAPERA MELÃO 2.1 HISTÓRICO DA COMUNIDADE DA TAPERA MELÃO A comunidade da Tapera Melão está localizada a 6 km de distância da sede do município de Irará que está localizado na faixa de transição entre o Recôncavo e o Sertão da Bahia a 128 km de Salvador. Sua área territorial de 279 km² faz limites com os municípios de Água Fria, Ouriçangas, Pedrão, Coração de Maria e Santanópolis (SANTOS, 2009). Conforme localização no Mapa 1. Mapa 1 - Localização da Comunidade da Tapera Melão no Município de Irará. Fonte: Santos (2009, p. 149). No ano de 2010, a comunidade da Tapera Melão foi reconhecida pela Fundação Palmares como remanescente quilombola. De acordo com a Portaria nº 162 de 21 dezembro de 2010 da Fundação Palmares “[...] as Comunidades a seguir, SE AUTO DEFINEM COMO
  41. 41. 40 REMANESCENTES DE QUILOMBO - Comunidade de Tapera Melão, localizada no município de Irará/BA. Registrada no Livro de Cadastro Geral n.º 013, Registro n.1.421 fl. 37” (BRASIL, 2010, p.50). A Tapera Melão é uma comunidade quilombola com uma história de formação marcada por união e vanguardismo. As terras da comunidade da Tapera Melão pertenciam, até o século 18, à Igreja Católica. No início do século XIX, as terras foram ocupadas por João Costa Melão que, segundo registros, possuía alguns escravos e destinou toda área para o plantio de cana de açúcar e fumo (SANTOS, 2009). João Costa Melão era casado, mas não teve filhos. Ele tinha um afilhado, José Martins de Lima (Zezé Martins de Lima). Que, ainda jovem, foi enviado, para um seminário, em Salvador. Quando de sua ordenação o futuro padre celebrou uma missa na fazenda do seu padrinho, mas no caminho se enamorou por uma moça e depois abandonou a batina e casou- se com aquela moça, Romana Petronilha de Jesus, que era uma escrava de Costa Melão. Conforme “livro de casamento da paróquia de Nossa Senhora da Purificação dos Campos o casamento aconteceu no dia 25 de abril de 1858” (SANTOS, 2009, p.153). O destino dado, por Zezé Martins, às terras e aos escravos, de João Costa Melão determinou a formação da comunidade da Tapera Melão. Destinando parte das terras para os escravos de seu padrinho e também para os libertos procedentes de outras fazendas foi possível que as terras começassem a serem ocupadas. A denominação, Tapera, originou-se da libertação dos escravos quando Zezé Martins abriu as portas da senzala de Costa Melão. “Pois ‘Tapera’ significa casa abandonada em ruínas; a Comunidade passou a ter esta denominação depois que a casa do Costa Melão foi demolida, e por isso a Comunidade ficou conhecida como Tapera Melão” (SANTOS, 2009, p.154). As terras doadas por Zezé Martins aos ex-escravos deram a estes uma espécie de poder. Confiando-lhes condições de sustento através do cultivo da terra que lhes pertencia. Zezé Martins fez reforma agrária, dividiu suas terras com os ex-escravos que se tornaram proprietários de terras tal doação possui caráter legal. [...] conforme testamento localizado no Arquivo Público de Irará e nos registros de escrituras no livro três do Cartório de Registro de Imóveis. Foi possível identificar, 40 títulos de doação oficializada por Zezé Martins. No entanto, segundo os moradores mais antigos e os netos do próprio Zezé, o total de terras doadas chegou a 48 frações, sendo oito destas por doação verbal. Entretanto, com a morte do Zezé, os filhos oficializaram a doação, tornando os oito que ainda não tinham suas terras oficializadas, herdeiros do Zezé (SANTOS, 2009, p.156).
  42. 42. 41 A população da Tapera Melão constituiu-se pelos herdeiros de Zezé Martins e ex-escravos. As terras foram sendo subdivididas entre as famílias e hoje, na Tapera, já possuem terras ocupadas pela quarta geração de herdeiros. O crescimento das famílias a subsequente subdivisões das terras fazem com que as propriedades sejam pequenas, o que dificulta o sustento das famílias baseado na agricultura familiar. A redução do tamanho da propriedade implica na redução da produtividade por família. 2.1.1 Organização Comunitária e Formas de Trabalho. A principal fonte de renda da população da Comunidade é a agricultura familiar focada no cultivo de feijão, milho e mandioca, a qual ocupa maior extensão. O Mapa 2 mostra como está organizada a comunidade da Tapera Melão. Mapa 2 - Organização sócio territorial da Tapera Melão. Fonte: Santos (2009, p. 151).
  43. 43. 42 A comunidade da Tapera Melão possui uma igreja católica, uma igreja evangélica, um prédio escolar, a sede da associação rural e as casas dos moradores, além das ruínas da Casa de Costa Melão. Toda extensão territorial é ocupada por plantações de mandioca com casas caraterizadas pela proximidade. O terreno destinado à plantação da mandioca é compartilhado com as plantações de milho e feijão, de colheita mais rápida que a mandioca são plantadas nos espaços entre os pés de mandioca. Cabe ressaltar, a presença de árvores frutíferas (caju, cajá, manga, tamarindo, jaca, ciriguela, etc). A população da Tapera sobrevivia no começo da sua formação a partir dos produtos colhidos da terra. A agricultura de subsistência era a principal fonte de renda do povo taperense. Tudo que era plantado, colhido e beneficiado era usado na alimentação da família. Cada família possuía seu pedaço de terra e fazia o cultivo da mesma. Fato relevante é que apesar da produção ser feita por cada família existia cooperação entre as famílias. Algumas partes das tarefas são feitas por todas as famílias, uma espécie de ajuda conjunta. Onde todos se juntam para realizar atividades na lavoura de outro os chamados dijitórios: [...] Cada dia o grupo trabaiava fazendo a roça de um; no final, todas tinha sua roça plantada. Ia homem, mulher e criança. Os homens cavava cova, as mulheres plantava a maniva1 , e as crianças semeava a maniva; na época de plantação de fumo, era a mesma coisa, só mudava o tipo de cova: pra fumo se faz cova de bico, e semente, que é pranta de fumo. Isso era chamado de dijitórios . Os dijitório era muito bom, a gente trabaiva cantando, tirando verso. Os homens cantava e as mulheres respondia. O dono da maiada2 oferecia bebida e comida, geralmente matava criação, boi e galinha. Era muitos dias de festa. Isto pra plantar (SANTOS, 2009, p. 163). O trabalho desenvolvido na comunidade da Tapera era para subsistência e não possuía visão comercial. As atividades de cultivo da terra tinham um caráter, muitas vezes, recreativo, pois reunia todos da comunidade que cantavam e mantinham suas tradições culturais no momento do trabalho. Ao longo dos anos, com a morte dos mais velhos, esse costume de cantar e tirar versos durante o trabalho foi deixado para trás. Acredita-se que fatores como a subdivisão das terras, entre as famílias, e as imigrações levaram a perda de certos traços culturais característicos da comunidade. Com o crescimento das famílias, as propriedades foram diminuindo. Menos terra pra plantar, significa menos produtos e mais dificuldades para o sustento. As famílias passaram a vender sua produção agrícola, nos dias de sábado, na feira livre de Irará. A produção passa a ter um 1 Maniva: semente da mandioca 2 Malhada: nome que eles dão às plantações reunidas, o que muitos também chamam de roça.
  44. 44. 43 caráter mercadológico e torna-se a principal fonte de renda das famílias da Tapera Melão. De acordo com Santos (2009, p.167) há anos que o povo taperense vem vendendo seus produtos na feira livre de Irará: Toda a produção é comercializada na feira livre da cidade de Irará, que acontece nos sábados. Os moradores da Tapera monopolizam secularmente alguns segmentos da feira livre, com destaque para: os derivados da mandioca (exceto a farinha que é produto de todos trabalhadores rurais do Município) – tapioca fresca, farinha de tapioca e uma diversidade de beijus; grãos verdes que são debulhados no decorrer da feira e comercializados em frente ao Mercado Municipal – feijão de corda, mangalô, andu e fava; e, tomatinho, pimenta, jiló, maxixe, castanha e maturí. A produção agrícola da comunidade da Tapera Melão, apesar de ser vendida na feira-livre, mantém o caráter de subsistência. A população continua vivendo do que colhe da terra. Em épocas de estiagem, como a que aconteceu no ano passado (2012), as famílias são prejudicadas, pois colheita não é boa. Não existe mão de obra assalariada, algumas funções são feitas em coletivo (todos da comunidade) cavar cova, plantar as sementes, colher, raspar a mandioca. Outras atividades são realizadas pela família (dona da terra) limpar a terra, limpar as plantações, arrancar a mandioca, caçar lenha, torrar a farinha, fazer o beiju, mesmo de forma diferente, pois não há mais o costume de cantar e tirar versos durante o trabalho. Atualmente, na Tapera Melão, a tradição do trabalho coletivo em algumas atividades é mantido. Existem tarefas que são realizadas pela família e existem tarefas que são feitas com a ajuda dos moradores. A comunidade se sente orgulhosa, dessa união e coletividade, existente entre os taperenses. De acordo com depoimento: Aqui ninguém nunca pagou ninguém pra fazer nada, é um ajudando o outro. Agente faz isso com orgulho e amor. O povo da Tapera é o único que faz isso nas redondezas. Se você for, ali do lado, no Santo Antônio e pedir pra uma pessoa arrancar um pé de mato ele vai te cobrar (SANTOS, 2009, p. 167). O trabalho em grupo é um traço característico que diferencia a comunidade da Tapera Melão das outras comunidades próximas. Muito embora alguns membros da comunidade não desenvolvam mais os trabalhos agrícolas, e busquem outras formas de trabalho no município de Irará ou nos grandes centros urbanos, exercendo as funções de empregadas domésticas, funcionários da construção civil ou trabalhadores informais, a agricultura coletiva é também uma forma de afirmação e preservação da ancestralidade daquele lugar.
  45. 45. 44 2.1.2 Aspectos Culturais da Comunidade da Tapera Melão Os traços da ancestralidade do povo da comunidade da Tapera Melão deixaram marcas culturais que misturam a cultura negra e portuguesa. Essa mistura reflete as influências deixadas pelos “fundadores” da comunidade. As manifestações culturais da comunidade da Tapera Melão permeiam o cotidiano da comunidade e são expressas na hora do trabalho, no lazer e na fé. A palavra cultura é conceituada e definida pelos estudiosos de diversas áreas. Para os antropólogos a cultura é vista como o processo que mostra a evolução do homem através da transmissão do seu conhecimento por meio das gerações (MALAGODI, 2004). Os cientistas sociais também têm seu conceito de cultura: A cultura tal como os cientistas sociais a concebem refere-se ao modo de vida de um povo, em toda sua extensão e complexidade. Um conceito que procura designar uma estrutura social no campo das ideias, das crenças costumes, artes linguagem, moral, direito, etc e que se traduz nas formas de agir, sentir e pensar de uma coletividade que aprende, inova e renova seu próprio modo de criar e fazer as coisas, numa dinâmica de constantes transformações. (MALAGODI, 2004, p.29) O processo de transmissão da cultura entre as gerações é próprio da natureza humana. A população é influenciada pelos costumes e tradições dos seus antepassados. Um processo contínuo e sem interrupções que acontece desde os primórdios da humanidade. A cultura não é estática e imutável ela sofre influências e se adapta as características e especificidades dos povos e do local onde está inserida. Na comunidade da Tapera Melão, a cultura revela-se através das manifestações como: as pastorinhas, a “chegança” e as cantigas/versos. Ao longo dos anos algumas dessas manifestações foram se modificando e outras deixaram de ser feitas. A morte das pessoas mais velhas da comunidade e as inserções de outras culturas contribuíram para isto. Os novos sons (pagode, axé, funk, arrocha) passaram a fazer parte do cotidiano da Tapera Melão. Aos domingos os jovens se reúnem para ouvir esses sons nos bares da comunidade. De acordo com Cascudo (2001), o Pastoril é originário dos dramas litúrgicos representados nas igrejas católicas nos meses de dezembro por conta do nascimento do menino Jesus. Na Tapera Melão, esse Pastoril é conhecido como Pastorinhas. As Pastorinhas da Tapera Melão é um grupo de mulheres que entoam cantos e louvações e fazem coreografias, nas noites de natal, diante dos presépios. O grupo também se apresenta em outras ocasiões para mostrar a população como acontece essa manifestação. No ano de 2009, o grupo foi selecionado pelo
  46. 46. 45 Edital de Microprojetos do Banco do Nordeste (BNB) e realizou durante dois dias atividades de conscientização sobre o resgate da cultura da comunidade. A chegança, também chamada de barca ou chegança dos marujos, representa a saudade dos marinheiros (CASCUDO, 2001). Na tapera Melão essa manifestação é conhecida como chegança. Sendo feita por um grupo de homens vestidos de marinheiro liderados por um chefe marinheiro, chamado de mestre. Os marujos liderados pelo chefe ficam posicionados em duas filas paralelas e o chefe a frente comanda a marujada. Durante a apresentação são entoadas cantigas que são acompanhadas por pandeiros. O ato de tirar versos durante a realização das tarefas era uma forma de tornar o trabalho mais alegre e menos cansativo, os trabalhadores costumavam cantar sem instrumentos, acompanhados apenas por palmas. De acordo com Cascudo (2001, p. 726) verso é “poesia rimada e ritmada”. Geralmente esses versos são feitos na hora, de improviso, e utilizam como personagens as pessoas do lugar. As “batas” de feijão são embaladas por estes versos. Os sons das manifestações culturais da comunidade são expressos em pandeiros, violas e nas vozes dos moradores. As canções entoadas pelas pastorinhas, pelos marujos da chegança e os versos tirados nas lavouras estão na memória dos moradores da Tapera. Os moradores se orgulham de ter esse traço cultural forte e de conseguir mantê-lo até os dias de hoje. A cultura deixada pelos antepassados é vista como uma forma de autoafirmação, de pertencimento, de diferenciação entre as outras comunidades. 2.2 FORMAÇÃO DO GRUPO DE BEIJUZEIRAS DA TAPERA MELÃO O Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão foi formado no ano de 2009. Um dos motivos para a formação do grupo foi a participação, de duas beijuzeiras da comunidade, na Feira Nacional da Agricultura Familiar e Reforma Agrária (Fenafra), no Rio de Janeiro. Na época, o Secretário de Agricultura, da Prefeitura Municipal de Irará (PMI) foi um dos incentivadores para a formação do grupo. Conforme depoimentos dado em entrevista: Porque a gente não trabalhava no coletivo dentro da comunidade tá entendendo foi a partir dessa Feira que a gente viu que trabalhar em grupo coletivamente ia ser melhor do que todo mundo tá trabalhando fazendo o seu. E foi a partir dessa feira
  47. 47. 46 que eu trouxe a ideia e a gente trouxe a ideia pra comunidade, discutiu dentro da associação e a gente formou o grupo. (Maria de Fátima Bispo Pereira, entrevista Apêndice 2, concedida em 06/05/2012). A gente não trabalhava no grupo. Aí, depois das viagens que a gente pegou a ir. Aí, naquele tempo o secretário de Agricultura era Guilherme. Aí, ele incentivou a gente que trabalhasse no grupo. Porque as viagens que a gente ia era em grupo, e a gente não era grupo. Aí, depois disso, dessas viagens a gente incentivou todo mundo a continuar trabalhando em grupo. (Vanessa dos Santos Cerqueira, depoimento durante aplicação de questionário Apêndice 1, concedido em 20/09/2013). A partir dos depoimentos, podem-se fazer algumas considerações acerca do empreendedorismo. Anteriormente a produção do beiju era realizada individualmente cada beijuzeira produzia sozinha. O fato de ter identificado uma oportunidade de melhorar o trabalho desenvolvido, mostra a existência de uma visão empreendedora. “A maioria das boas oportunidades de negócio não aparece de repente, e sim, resulta da atenção de um empreendedor ás possibilidades [...]” (HISRICH; PETERS; SHEPERD, 2009, p.31). A participação na Fenafra levou a identificação das vantagens de trabalhar em grupo e consequente adoção da nova forma de trabalho. O depoimento deixa claro também a importância do incentivo do poder público. O contato e as relações que o empreendedor estabelece são de fundamental importância para a realização das atividades e criação do negócio. Dolabela (2008) diz que as pessoas que ajudam os empreendedores fazem parte dos “sistemas de suporte”. De acordo com o autor: Os sistemas de suporte são constituídos por todas as forças sociopolíticas e econômicas, atuando quer sob a forma de ações concretas – como consultoria, incubação, financiamento -, quer sob a forma de construção de arcabouço legal e ambiente propícios para que o empreendedor e a pequena empresa encontrem o tratamento e as condições necessárias a seu florescimento e consolidação (DOLABELA, 2008, p. 122). Desta forma, os “sistemas de suporte” ajudam no desenvolvimento das atividades empreendedoras. O Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão tem contato com diversos órgãos e entidades. A Prefeitura Municipal de Irará (PMI) através da sua Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Irará (STRI), a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) , o Serviço Social da Indústria (SESI) e a Comissão Ecumênica dos Direitos da Terra (Cediter) . Fazem parte do “sistema de suporte” do Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão. De acordo com depoimento dado em entrevista: E sobre os apoios a gente tem o apoio da Prefeitura, da EBDA, do Sindicato, do Sebrae , da Cediter. Foi através da Cediter que a gente ganhou os produtos do Consulado das Mulheres que é. É um trabalho da Consul que disponibiliza é aparelhos pra gente trabalhar, geladeira, fogão essas coisas. Tem poucos dias a gente também ganhou, pela Secretaria de Agricultura, também, um projeto da Sesi
  48. 48. 47 de Salvador compramos um fogão, um forno industrial uma batedeira industrial e essa chapa que a gente trabalha aqui também que é industrial a energia. (Maria de Fátima Bispo Pereira, entrevista Apêndice 2, concedida em 06/05/2012). O Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão recebe apoio material (equipamentos para ajudar na produção) como também treinamentos através dos cursos realizados pelo Sebrae. O grupo já fez cursos de formação de preço e de derivados da mandioca. De acordo com os depoimentos, os cursos são proveitosos e servem para ajudar na gestão dos recursos do grupo. Esses cursos são realizados tanto na comunidade como na sede do município de Irará. Esses apoios e cursos, dados ao Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão são amparados pela Associação dos Produtores Rurais da Tapera Melão. O grupo está atrelado à Associação Rural da Comunidade da Tapera Melão. Pois o mesmo ainda não possui uma marca registrada, não tem CNPJ, nem se formalizou como cooperativa. O sonho do grupo é poder vender para outras cidades. A expansão da produção é vista como uma forma de poder colocar mais pessoas da comunidade para trabalhar. Gerando assim mais renda para as famílias e consequentemente trazendo desenvolvimento econômico e social para a comunidade. De acordo com Franco (2000 apud SANTIAGO, 2008, p.91), “empreendedorismo significa protagonismo social, crença individual ou comunitária na perspectiva de formular o seu desenvolvimento pela cooperação entre os diversos âmbitos político-sociais”. O empreendimento formado pelo grupo é visto como meio para a transformação da realidade da comunidade. 2.2.1 Processo de Produção e Produtos Comercializados pelo Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão. De acordo com a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), a atividade desenvolvida pelo Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão, pertence a seção C – Indústrias de transformação que consiste, basicamente, na modificação física, química ou biológica dos materiais produzidos nas atividades agrícolas, florestais, de mineração, da pesca ou de produtos de outras atividades industriais (IBGE, 2007). A atividade do grupo consiste em transformar a mandioca em produtos alimentícios, chamados derivados da mandioca. De acordo com Cascudo (2001), o nome mandioca tem
  49. 49. 48 origem tupi, reza a lenda que uma menina, branca, foi enterrada dentro de uma oca e por costume da aldeia a sepultura era regada todos os dias, com o passar do tempo nasceu uma planta de caule longo e folhas largas. Os índios cavaram o lugar e encontraram uma raiz que eles julgaram ser o corpo da menina, e batizaram com o nome de Mani-óca, casa de Mani. De acordo com o site da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a mandioca é uma planta de origem sul-americana. A variedade de raízes é ampla, aqui no Brasil já foram catalogadas mais de 4mil variedades genéticas de mandioca. Os principais derivados da mandioca, destinados ao consumo humano, são: farinha de mandioca, fécula (ou amido de mandioca) e mandioca de mesa (macaxeira ou aipim). Os estados brasileiros que mais consomem farinha de mandioca são: Pará, Amazonas, Amapá e Bahia. Na comunidade da Tapera Melão, o plantio da mandioca é destinado à produção de farinha de mandioca e a produção da goma. Goma é o nome dado à fécula (amido de mandioca) na região e é a matéria prima para fazer o beiju. Os moradores da comunidade plantam a mandioca desde o início do povoamento do local, este costume foi sendo passado de geração para geração. Desde os primórdios o processo produtivo era realizado de forma individual e coletiva, algumas atividades eram feitas em grupo e outras individualmente. A produção do beiju sempre foi responsabilidade das mulheres da família. Cada família produzia seu beiju individualmente e o beiju produzido era vendido na feira livre de Irará nos dias de sábado. Conforme depoimento dado em entrevista: Acho que minha comunidade é uma das primeiras a vender o beiju aqui na cidade de Irará. Meus tataravôs pode-se dizer já vendiam beiju vinha pra rua com cesto na cabeça, naquele tempo não tinha transporte fazia aquele pouquinho, aqueles beijuzinhos não como a gente faz hoje, aquele negocinho rusticozinho, né. E vinham com cestinho na cabeça, eu me lembro, minha vó mesmo, ela vinha, saia de casa cedão pra chegar em Irará com o cesto na cabeça, minha mãe vinha com minha vó. E nisso passou minha bisavó, minha vó, minha mãe, hoje tem eu. Que é filha de minha mãe né, mas outra irmã minha e minha cunhada também já está fazendo beiju e assim vai. (Maria de Fátima Bispo Pereira, entrevista Apêndice 2, concedida em 06/05/2012). O depoimento deixa claro que o ensinamento foi sendo passado através dos anos de mãe para filha. Porém, com o passar dos anos o preparo do beiju foi sendo aperfeiçoado. Como consta no trecho do depoimento “aquele pouquinho, aqueles beijuzinhos não como a gente faz hoje”. As formas de fazer o beiju e as quantidades foram modificadas, as peneiras para cessar a goma são outras, os fornos para assar são maiores, as quantidades vendidas aumentaram e os tipos e formatos de beiju também se modificaram. Atualmente o grupo de beijuzeiras produz com base nos ensinamentos dos seus antepassados, mas de forma diferente. Pois as novas combinações realizadas pelos empresários “não criaram nenhum meio de produção original,
  50. 50. 49 mas empregaram os meios de produção existentes de modo diferente, mais apropriadamente, de maneira mais vantajosa” (SCHUMPETER, 1988, p.90). Do plantio da mandioca até a goma, matéria-prima, para produção do beiju existe um processo que envolve várias etapas. A Figura 3 mostra em forma de fluxograma as etapas que envolvem o processo produtivo do beneficiamento da mandioca. Da preparação da terra para o plantio até chegar à goma (fécula, amido de mandioca) são quinze etapas apresentadas no fluxograma da Figura 2. Figura 2 - Fluxograma etapas para transformação da mandioca em goma. Fonte: Patrícia Santos. O processo é realizado por todos do Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão. Ressaltando o fato de que somente a tarefa de plantar é feita individualmente, ou seja, cada componente do
  51. 51. 50 grupo planta em seu pedaço de terra. As demais tarefas são realizadas em grupo. A etapa oito é feita manualmente, utilizando-se uma faca para retirar a casca da mandioca. O processo efetuado na operação dez é mecânico, usa-se uma espécie de ralador movido por um motor elétrico que é chamado de bolinete. Ao chegar à última etapa, quinze, a goma está pronta para ser transformada em beiju. De acordo com Cascudo (2001), a palavra beiju vem do tupi mbeiú é um alimento característico da cultura indígena. A base para a produção do beiju é a goma. A goma ou fécula (amido da mandioca) é uma espécie de farinha branca, levinha, macia e um pouco úmida. O processo de fabricação da goma mostrado na figura 3 é realizado na casa de farinha quando a goma está pronta esta é levada para a casa onde ficam os fornos. O grupo utiliza dois espaços para fazer os beijus, ou seja, são duas casas. Em cada casa tem dois fornos. Estas casas, de fornos, estão localizadas no fundo das residências de Lúcia Cerqueira Lima dos Santos e Vanessa dos Santos Cerqueira, ambas, integrantes do grupo. Para atender a demanda de pedidos, e para comportar todos que participam do grupo, foi feita uma divisão. O grupo foi dividido em dois subgrupos: um subgrupo produz nos dois fornos na casa de Lúcia e o outro subgrupo produz nos dois fornos na casa de Vanessa. Entre uma casa e outra existe uma distância de cerca de 200 metros. As Fotografias 1, 2 e 3 mostram a produção nestas casas de fornos. Fotografia 1 - Produção de beiju de coco. Um dos dois fornos de pedra na casa de fornos que está localizada no fundo da residência da integrante Lúcia Cerqueira. A imagem mostra a integrante Maria de Fátima fazendo o corte do beiju de coco enquanto assa no forno. Ao lado um beiju já pronto para ser retirado do forno. Durante o processo de produção do beiju, os integrantes do Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão utilizam toca e guarda pó. Fonte: Patrícia Santos, 27/11/2013.
  52. 52. 51 Fotografia 2 - Produção de beiju de goma no formato canoa. O outro forno de pedra, na casa de fornos localizada no fundo na residência da integrante Lúcia Cerqueira. A imagem mostra a integrante Jocineide Bispo modelando a goma (fécula amido de mandioca) no forno para fazer o beiju no formato de canoa. A partir da imagem pode-se observar o revestimento cerâmico nas laterais do forno. A parede da casa de fornos é coberta por tinta, já desgastada pelo tempo. Fonte: Patrícia Santos, 27/11/2013. Fotografia 3 - Limpeza do Forno para fazer farinha de tapioca. Um dos fornos de pedra na casa de fornos, localizada no fundo da residência da integrante Vanessa dos Santos. Na imagem, Vanessa limpa o forno para fazer a farinha de tapioca. A limpeza é feita com um tipo de vassoura confeccionada pelos próprios integrantes do grupo com as folhas da pindoba3 . Os dois fornos e as paredes da segunda casa de fornos são completamente cobertos por revestimento cerâmico. Fonte: Patrícia Santos, 27/11/2013. O Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão adquiriu um imóvel na comunidade. O objetivo é reunir todos do grupo em um só lugar para que a produção seja feita em conjunto. Porém, o imóvel comprado necessita de reforma que envolve parte elétrica, hidráulica, além da construção dos fornos e revestimento cerâmico. O grupo está pleiteando a reforma do imóvel, através de um projeto a ser apoiado por uma empresa S/A. De acordo com depoimentos, o imóvel comprado tornará viável o trabalho de todos em um único espaço e tornará possível 3 Pindoba: Nome popular de uma espécie de palmeira da família das Arecáceas.
  53. 53. 52 convidar outras pessoas da comunidade da Tapera Melão para participar do grupo. Na Fotografia 4 é possível ver o imóvel comprado pelo grupo. Fotografia 4 - Imóvel comprado pelo Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão. Imagem do imóvel de laje adquirido com recursos do grupo, proveniente das economias feitas por todos os integrantes do grupo de beijuzeiras da Tapera Melão para investir no grupo. As paredes laterais não estão rebocadas. Atualmente está fechado aguardando a reforma. Fonte: Patrícia Santos, 27/11/2013. O portfólio dos produtos vendidos pelo Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão é variado. O grupo produz beijus, bolachinhas, bolos e tapioca. No Quadro 3 são descritos os produtos vendidos pelo grupo. Os produtos exigem a adição de materiais como sal, açúcar, manteiga, ovos, carnes, embutidos, queijos e outros. Para aquisição desses materiais o grupo faz uma pesquisa de preço nos supermercados e atacados de Irará e Feira de Santana e no local onde o preço estiver mais barato à compra é efetuada. Quadro 3 - Descrição dos produtos vendidos pelo grupo. PRODUTOS CARACTERÍSTICAS Beiju de Goma Possui dois formatos: canoa (feito com a colher) e cortado (posto no forno e separado com a faca). Feito no forno de pedra. (beiju crocante) Beiju de Coco Em forma de um quadrado grande divididos em quadrados menores com recheio de coco ralado e açúcar. Feito no forno de pedra. (beiju crocante) Beiju de Massa Utiliza a massa da mandioca e não a goma. Feito no forno de pedra. (beiju crocante) Beiju Nutritivo (colorido) No processo de tirar a goma, substitui a água por suco de frutas (manga, maracujá) ou verduras (cenoura, beterraba). Feito no forno de pedra. (beiju crocante) Beiju Recheado Conhecido também por tapioca recheada. No formato de semicírculo recheado com (queijos, carnes, doces). Preparado na hora de consumir feito na chapa. (beiju mole) Bolachinha de Goma A base de goma seca misturada com leite de coco, ovos, manteiga e açúcar. Enrolada manualmente e posta para assar no forno. Bolo de Aipim A base é o aipim ralado misturado com leite de coco, leite de gado, ovos, manteiga e açúcar. Suco de Aipim A base é o aipim ralado. Farinha de Tapioca A goma peneirada é posta para torrar no forno de pedra. Fonte: Patrícia Santos.
  54. 54. 53 A variedade de beijus é ampla e os nomes dados a estes variam entre as regiões do país. O processo produtivo foi sendo modificado com o passar dos anos. Os ensinamentos passados de mãe para filha foram sendo aprimorados, às técnicas foram evoluindo, buscando aumentar cada vez mais o volume de goma retirada. Dentre os produtos apresentados no Quadro 3 o beiju nutritivo ou colorido foi criado pelas beijuzeiras da Tapera Melão em parceria com as beijuzeiras de outras comunidades rurais de Irará. Esse beiju foi uma invenção das beijuzeiras: Ao participarmos da Primeira Feira da Mandioca de Irará, em 2005, resolvemos apresentar um produto diferente do que vendemos todos os sábados no mercado. Tivemos a ideia de fazer beijus coloridos pra ornamentar os stands. Assim, usamos as frutas que temos no quintal pra fazermos a coloração. Foi o maior sucesso e os beijus ornamentais foram todos vendidos e muitas encomendas vieram. Mas, o mais engraçado foi o interesse de um técnico da Embrapa que visitava a feira. Ele perguntou como nos fazia pra colori e a gente explicou tudo. Poucos dias depois a TV Subaé apresentou uma reportagem onde o tale técnico apresentou a técnica como criada por ele. A gente ficou muito triste, pois ele roubou a nossa criação e nem falou que foi a gente que fez. Ele só disse que viu em uma feira, sem citar qual feira, e que era colorido com anilina (SANTOS, 2009, p.179). O beiju nutritivo (colorido) foi levado ao laboratório de pesquisas da Embrapa e o seu valor nutricional foi comprovado. O beiju nutritivo já foi alvo de reportagens de nível nacional devido a sua importância na alimentação escolar. A venda dos produtos do Quadro 3 fabricados pelo Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão é realizada em feiras comemorativas tanto no estado da Bahia como em outros estados brasileiros. O contato e viabilização para a participação, do grupo, nessas feiras é feito pela Prefeitura Municipal de Irará (PMI) e pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Irará (STRI). A prefeitura e o sindicato fazem a intermediação entre os produtores das feiras e o grupo, e em algumas feiras disponibilizam o transporte para o deslocamento do grupo. Geralmente duas pessoas são escolhidas para participar das feiras representando o grupo. O Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão vende seus produtos para Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Os produtos vendidos a Conab fazem parte do Programa de Aquisição de alimentos (PAA). O Grupo de Beijuzeiras da Tapera Melão participa da modalidade Compra com Doação Simultânea (CDS) um dos instrumentos da Conab de apoio a agricultura familiar. De acordo com o Manual de Operações Conab (MOC) a CDS tem por finalidade o “atendimento às populações em situação de insegurança alimentar e nutricional por meio de doação de alimentos adquiridos de Agricultores Familiares” (CONAB, 2013, p.1).

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