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1228439217 medidas de_conservação

  1. 1. SISTEMAS DE MOBILIZAÇÃO DE CONSERVAÇÃO DO SOLOPor sistemas de mobilização de conservação do solo, e no caso dasculturas herbáceas, entende-se o conjunto de operações de mobilização dosolo, e de maneio dos resíduos das culturas, que permitam que pelo menos30% da superfície do solo estejam cobertos em permanência pelos resíduosdas culturas, e assim protegidos do impacto directo da chuva.Figura 1- Diferença no grau de cobertura proporcionado por um sistema demobilização reduzida (Esq.) e sementeira directa (Dta.).Da definição de sistemas de mobilização de conservação do solo, vem que ovalor mínimo admissível para a taxa de cobertura do solo é de 30%. Este valor,embora aparente alguma arbitrariedade, e tenha que ser considerado comespírito crítico, é o resultado de um grande número de experiências, levadas acabo em muitas partes do mundo, que mostram que, para taxas de coberturado solo superiores a este mínimo, há uma grande redução da degradação dosolo.A importância dos resíduos das culturas que ficam à superfície do solo após asoperações de mobilização, e sementeira, reside no facto de: protegerem o solodos processos de degradação; aumentarem a água disponível para a cultura;melhorarem a estrutura do solo; aumentarem a fertilidade do solo; contribuírempara o aumento da biodiversidade dos sistemas agrícolas.A protecção do solo contra os processos de degradação resulta,principalmente, da intercepção das gotas de água da chuva. O impacte dasgotas de água nos agregados da superfície do solo provoca a sua ruptura,produzindo partículas de solo, agregadas ou não, mais pequenas,transportáveis em suspensão no escorrimento superficial, é a erosão. Umoutro efeito da ruptura dos agregados é a redução da macroporosidade, cujoexemplo extremo é o da formação de crostas, que, diminuindo a infiltração,aumentam o volume de escorrimento superficial.
  2. 2. Figura 2- Para além da evidente perda de solo, há quebras na produção, tanto peloarrastamento de plantas e sementes, como por soterramento nas áreas de deposição.O aumento da água disponível para a cultura resulta, como se viu noparágrafo acima, de uma maior infiltração de água (menor formação de crosta),de uma maior quantidade de poros capazes de reter a água que infiltra atensões que as plantas a possam utilizar (diâmetros entre 0,2 e 50 µm), bemcomo de uma menor evaporação da água do solo, pela redução do fluxo deenergia solar que chega à superfície do solo.A melhoria da estrutura do solo, pelos resíduos das culturas, tem origem nassubstâncias a que dão origem por decomposição, genericamente chamadas dehúmus. O maior ou menor teor de húmus confere propriedades distintas doponto de vista físico, aos solos. É amplamente reconhecido o efeito destesmateriais orgânicos sobre a agregação das partículas de solo. Assim, temos: • Nos solos de textura grosseira, um maior teor em matéria orgânica conduza um maior poder de retenção da água por adsorção. À retenção da água poradsorção, devido à atracção electrostática que se forma entre as superfíciesdos colóides (partículas de diâmetro inferior a 2 µm) e as moléculas de água,segue-se o “engrossar” destas camadas de água por coesão com novasmoléculas de água, preenchendo os espaços intersticiais de dimensãocompatível com fenómenos de capilaridade. • Nos solos de textura mais fina, um maior teor de matéria orgânica conduz auma agregação maior, e mais estável, das partículas de solo. Como resultadode uma maior agregação, a infiltrabilidade do solo aumenta, o crescimento dasraízes é mais fácil, a transitabilidade é melhorada, nomeadamente emcondições de maior humidade, há um maior arejamento do solo, e aumento daactividade microbiana.Um outro efeito dos resíduos sobre a estrutura do solo, indirecto, é o defavorecer a presença e/ou o estabelecimento de diversos organismos que sealimentam dos resíduos, nomeadamente as minhocas (Lumbricus terrestris L.),que, ao construírem as suas galerias (luras) ao longo do perfil do solo,favorecem a rápida infiltração da água. Alguns investigadores relatam númerosde luras que atingem 150 por m². Importante também é o facto dosexcrementos das minhocas serem, eles próprios, agregados estáveis. 2
  3. 3. Figura 3- Aspecto do perfil de um solo, e do crescimento das raízes, em sementeiradirecta.O aumento da fertilidade do solo reside no facto de os resíduos serem umafonte de nutrientes para as culturas, principalmente de azoto. Durante adecomposição dos resíduos há a libertação de nutrientes, alguns prontamenteassimiláveis pelas plantas, no entanto, no cálculo das necessidades defertilização há que levar em conta as características dos resíduos da culturaanterior, nomeadamente no que concerne a relação C/N, uma vez que podehaver a imobilização de parte do azoto mineral do solo pelos micróbios,deixando de estar disponível para a cultura. Voltaremos a este assunto quandotratarmos os aspectos da fertilização. Dos resíduos que são transformados emhúmus, substâncias excepcionalmente estáveis, a libertação dos nutrientes élenta (taxas de mineralização na ordem de 1 a 2% ano, dependendo dascondições de temperatura e humidade), pelo que há uma acumulação no solo,principalmente em sistemas de mobilização reduzida e sementeira directa,libertando de ano para ano quantidades cada vez maiores de nutrientes.A matéria orgânica do solo também contribuí para o aumento da fertilidade dosolo pela sua elevada capacidade de troca catiónica (C.T.C.), i.e., a capacidadede reter, por adsorção, catiões e cedê-los às plantas pelo processo de trocacatiónica. Isto é tanto mais importante quanto menor o teor de argila do solo(em termos comparativos os minerais de argila do grupo da montmoriloniteapresentam uma C.T.C. de 80 a 150 m.e./100 g, enquanto a C.T.C. do húmuspode ser de 100 a 300 m.e./100 g).Ainda um outro aspecto do aumento da fertilidade do solo pelos resíduos,reside no poder tampão da matéria orgânica, nomeadamente em relação avariações bruscas de pH.No que concerne o aumento da biodiversidade dos sistemas agrícolas, apresença de resíduos, para além de ser fonte de alimento para inúmerasespécies, oferece protecção a muitas outras. 3
  4. 4. Figura 4- Ninho em resíduos de uma cultura.Relação entre o tipo de alfaia e a mobilização do solo.Com os sistemas de mobilização de conservação do solo, para além damanutenção de uma cobertura do solo pelos resíduos da cultura anterior, étambém objectivo, a redução da intensidade da mobilização, i.e., as alfaiasutilizadas, a sua regulação, e o número de passagens, devem ser ponderadaspor forma a que não haja uma pulverização excessiva dos agregados, nemuma compactação excessiva dos solos (função do peso das alfaias e tractores,e dos stresses a que os solos estão sujeitos pela passagem dos órgãos activosdas alfaias).A partir da definição proposta de mobilização de conservação do solo, é óbvioque a utilização de charruas está interdita, uma vez que, ao produzirem oreviramento da camada superficial (ao formarem a leiva), o grau de coberturada superfície do solo pelos resíduos, após a mobilização, é geralmente inferiora 2-3%. Também, em muitos solos, a lavoura com charrua de aivecas conduzao aparecimento, à profundidade de passagem da relha, de uma zonaextremamente compactada, o “calo de lavoura”, que diminui a passagem daágua e impede o crescimento das raízes.A utilização de cultivadores rotativos (frezas) está interdita em sistemas demobilização de conservação do solo. Este tipo de máquinas pulveriza muitofinamente o solo, deixando-o muito susceptível aos processos de degradação,e enterra a quase totalidade dos resíduos que se encontram à superfície dosolo.Figura 5- Tanto o uso da charrua como de cultivadores rotativos de eixo horizontalestão interditos em sistemas de mobilização de conservação do solo.Tradicionalmente, a grade de discos é utilizada após a lavoura, por forma anivelar o terreno e desterroar. Outros trabalhos em que geralmente se utiliza agrade de discos são: destroçar os resíduos das culturas; enterrar sementes, 4
  5. 5. adubos, etc., distribuídos a lanço; e mobilizações “ligeiras” do solo, com finsdiversos, tais como o controlo de infestantes, romper crostas superficiais, etc..A possibilidade de utilizar grades de discos em sistemas de mobilização deconservação do solo depende do objectivo que se pretende alcançar. Assim, ecomo instrumento de mobilização do solo, não deverá ser usado, exceptuandonos casos em que a massa de resíduos à superfície seja muito elevada,situação em que o agricultor deverá regular a grade por forma a manter umnível adequado de resíduos à superfície. Também, a sua utilização no maneiodos resíduos, trabalhando com a grade fechada, por exemplo para derrubar edestroçar caules de milho ou girassol, é uma opção a ter em conta.Figura 6- A utilização da grade de discos, em sistemas de mobilização deconservação, deve ser reservada unicamente para as situações em que a quantidadede resíduos à superfície seja muito elevada.Os escarificadores são, de um modo geral, as alfaias utilizadas em sistemasde mobilização de conservação do solo. Dentro deste grupo, existe umagrande variedade de alfaias que diferem entre si no que concerne à forma enúmero de braços, tipos de mola e bicos.Figura 7- Os escarificadores são as alfaias utilizadas em sistemas de mobilizaçãoreduzida e na zona.O grau de cobertura do solo pelos resíduos das culturas depende do tipo dealfaia utilizado mas também do número de passagens, da regulação, daprofundidade e da velocidade de trabalho.A definição de sistemas de mobilização de conservação do solo apresentada,permite formular um número bastante grande de sistemas de mobilização dosolo que podem receber o epíteto “de conservação”. Assim, e para melhor 5
  6. 6. perceber os vários tipos de sistemas, distinguem-se as seguintes categorias:mobilização reduzida, mobilização na zona e sementeira directa.Por mobilização reduzida, no contexto de sistema de mobilização deconservação do solo, entende-se normalmente um sistema que, emboraintervindo em toda a superfície do terreno, mantém uma quantidade apreciáveldos resíduos da cultura anterior na superfície do solo. Estes sistemas baseiam-se na utilização de alfaias de mobilização vertical (escarificadores), ficandointerdita a utilização da charrua e da fresa. A utilização da grade de discos sópoderá ser encarada de forma muito limitada e, apenas em situações em queuma quantidade muito elevada de resíduos o exija. No entanto, o seu uso deveficar sempre condicionado à manutenção da quantidade desejável de resíduosna superfície do terreno.Figura 8- Em sistemas de mobilização reduzida, a utilização de conjuntos de alfaiaspoderá resultar numa redução significativa do número de passagens (Esq.). Autilização de escarificadores é privilegiada (Dta.).O termo mobilização na zona é reservado a sistemas de mobilização do soloque intervenham apenas em parte da superfície do terreno. A área mobilizadacorresponde a faixas de largura variável sendo a sementeira da culturarealizada no interior destas. Esta intervenção tanto pode ser realizadaantecipadamente em relação à sementeira, como em simultâneo com esta. Orecurso a estes sistemas de mobilização conduz à utilização indispensável deherbicidas de pré-sementeira, como forma de controlar infestantes nas zonasnão mobilizadas. É também frequente, mas não indispensável, a utilização desemeadores especiais.Figura 9- Sementeira em sistema de mobilização na zona, com aplicação de herbicidaem simultâneo (Esq.); subsolador com disco corta-palha (Dta.). 6
  7. 7. Por sementeira directa entende-se o sistema em que não existe mobilizaçãodo terreno previamente ao acto de sementeira. É o próprio semeador e, apenasna linha de sementeira, que provoca a mobilização do solo mínima necessáriapara a introdução e o enterramento da semente. Assim, estes sistemasexigem, normalmente, não só a aplicação de herbicidas de pré-sementeira,como também a utilização de semeadores especiais, designados porsemeadores de sementeira directa.Figura 10- A utilização de semeadores especialmente desenhados para trabalhar sema mobilização prévia do solo permite a realização da chamada sementeira directa.A adopção dos sistemas de mobilização de conservação: uma aposta demédio prazo.A adopção de sistemas de mobilização de conservação do solo, em solosanteriormente lavrados, implica, normalmente, uma fase de transição de 3 a 5anos em que as condições de estrutura e fertilidade do solo vão melhorandoaté atingirem o patamar de estabilidade próprio do sistema de mobilizaçãoadoptado. Do ponto de vista do escorrimento superficial e erosão, os benefíciospodem ser visíveis logo a partir do ano de adopção. Em termos daprodutividade potencial dos solos, esta vai aumentando de ano para ano. Deum modo geral, nunca deverá realizar uma das operações interditas emsistemas de mobilização de conservação (lavoura com charrua, ou freza) apósa adopção de um sistema de conservação, isto será desperdiçar todo oinvestimento realizado na recuperação da estrutura e fertilidade do solo(primeiros anos da adopção do sistema), remetendo-o ao estado inicial. 7
  8. 8. Módulo: Introdução à Mobilização de Conservação Texto de apoio e consulta 2. AGRICULTURA DE CONSERVAÇÃOUma definição para agricultura de conservação pode ser conseguida poroposição aos efeitos nefastos da agricultura tradicional sobre o ambiente.Assim, entende-se por agricultura de conservação o conjunto de práticasagrícolas que, permitindo uma agricultura sustentável e competitiva, “alteram omenos possível a composição e estrutura do solo, protegendo-o da erosão edegradação, e aumentam a biodiversidade do espaço rural”.Figura 1- Colza em sementeira directa. A manutenção dos restolhos e a nãomobilização do solo contribuem para uma melhor estrutura e fertilidade do solo.Os objectivos da agricultura de conservação são, num sentido lato, aconservação dos recursos naturais (solo, água, e ar) e a sustentabilidade daactividade agrícola. Estes dois objectivos, ao contrário do que por vezes sepensa, não são incompatíveis: • Do ponto de vista da conservação dos recursos naturais, a prática desistemas de mobilização de conservação do solo (mobilização reduzida, nazona e sementeira directa), a realização de culturas de cobertura, a nãoqueima de palhas e restolhos, entre outros, todos contribuem para a melhoriae/ou manutenção da estrutura e fertilidade do solo. A manutenção dos resíduosdas culturas anteriores, e as culturas de cobertura, protegem o solo do impactodirecto das gotas de água da chuva, defendendo-o assim da erosão e daformação de crostas. Contribuem também para aumentar o nível de matériaorgânica do solo, e assim a fertilidade, a estabilidade dos agregados, etc.. Adiminuição da erosão tem um impacto muito grande em termos da conservaçãoda água, ao diminuir a carga de sedimentos, nutrientes, pesticidas, metaispesados, e outros, em suspensão na água dos rios, ribeira, barragens, etc..Outro efeito importante da manutenção dos resíduos, e da não queima daspalhas e restolhos, é a diminuição da emissão de dióxido de carbono (CO2)para a atmosfera a partir dos terrenos agrícolas. O CO2 é, de entre os gasesresponsáveis pelo efeito de estufa, o mais importante. 8
  9. 9. Figura 2- A queima de palhas e restolhos é uma prática totalmente desaconselhada,deixando o solo desprotegido, susceptível à erosão, e é responsável pelo aumento dasemissões de CO2 para a atmosfera. • Do ponto de vista da sustentabilidade da actividade agrícola, esta podeser considerada tanto em termos económicos como da possibilidade “material”de a realizar.Em termos económicos, a adopção de sistemas de mobilização deconservação do solo permite: diminuir os custos de investimento emmaquinaria diversa (especialmente o sistema de sementeira directa); pouparem mão-de-obra (menos horas de trabalho por ha); poupar na manutenção dosequipamentos; menor potência de tracção; a poupança de combustível; umperíodo mais largo para a realização das sementeiras; etc.. Os custosacrescidos com alguns sistemas (e.g. semeadores de sementeira directa, ouainda a aplicação de herbicidas de pré-sementeira) são, salvo raras excepções,mais que compensados pelas poupanças já referidas, resultando num saldolargamente positivo. Se tomarmos em linha de conta que, em muitos solos epara muitas culturas, a produção praticamente não se ressente com a transiçãode um sistema de mobilização tradicional para um de conservação (e.g. milho,ou ainda o trigo), o interesse económico é ainda maior.Em termos “materiais”, i.e. a possibilidade física de poder continuar a produzirnum determinado solo, só poderá ser possível, num futuro não muito distante,se adoptarmos desde já as práticas da agricultura de conservação. A erosãodos solo conduz não só a uma perda directa da produção, observável pelospróprios agricultores, na forma de manchas sem vegetação originadas tantopela erosão como pela deposição de sedimentos, como a uma perdaacumulada de solo, ano após ano, que conduz a solos esqueléticos e defertilidade quase nula. Para aqueles que vêm no regadio, e na aplicação dedoses maciças de nutrientes, uma forma de restaurar o potencial produtivo dossolos, sem atenderem aos aspectos de conservação do solo e da águaassociados aos diferentes sistemas de mobilização de conservação, mais nãofazem que antecipar ainda mais a destruição do potencial produtivo dos solos.Uma vez um solo completamente erodido, a sua recuperação poderá levarséculos. 9
  10. 10. Figura 3- A erosão é responsável pela diminuição da produção dos solos agrícolas,tanto pelo arrastamento de plantas e sementes, e por soterramento nas áreas dedeposição, como pela perda de solo, substrato de crescimento das plantas.Diferença no maneio dos resíduos das culturas.Salvo raras excepções, os resíduos das culturas sempre foram enterrados, nãotanto devido a uma necessidade identificada para o fazer mas como oresultado das práticas utilizadas para atingir outros fins, como o controlo dasinfestantes, facilitar as operações de sementeira, etc.. Com o advento damecanização da agricultura, e principalmente a rápida vulgarização do tractor eda charrua, cedo o homem se apercebeu da importância de manter o soloresguardado dos agentes da erosão (a água e o vento), pela manutenção deum coberto. No entanto, a impossibilidade técnica de conciliar o controlo deinfestantes, e a sementeira da cultura, com a manutenção de um coberto deresíduos, devido à inexistência de semeadores robustos e de herbicidasapropriados, adiou a resolução do problema da cobertura do solo até ao iníciodos anos 70, altura em que apareceram no mercado os herbicidas paraquato eglifosato.Com a mobilização tradicional, os resíduos das culturas são enterradosaquando da realização das operações de mobilização que provocam oreviramento da camada superficial do solo, normalmente com charruas ouainda com grades de discos. A razão porque essas operações eramefectuadas são: o controle de infestantes; permitir o trabalho das alfaias esemeadores convencionais, sem o seu empapamento pelos resíduos dasculturas; o enterramento de fertilizantes, restolhos, etc.; a criação de umamelhor estrutura do solo para o desenvolvimento das culturas, que é apenasaparente e temporário, desaparecendo rapidamente; entre outros. As razõesporque ainda se praticam o enterramento dos resíduos da cultura anterior são:o desconhecimento da existência de meios alternativos para alcançar osmesmos objectivos, a relutância em abandonar sistemas que, bem ou mal, vãofuncionando; a falta de conhecimentos técnicos, etc..A instalação de culturas de cobertura.Uma das práticas de agricultura de conservação é a realização de culturas decobertura. Estas realizam-se no período Outono/Inverno, sempre que o solo vápassar este período sem nenhuma cultura. Com o fim do Inverno, a cultura écontrolada com um herbicida (não residual, e de baixa toxicidade).A razão de ser das culturas de cobertura reside no facto de no períodoOutono/Inverno concentrarem-se as chuvas, sendo o perigo da erosãobastante grande. Convém, no entanto, não esquecer que esta prática nãosubstitui os resíduos da cultura anterior. Assim, não é de todo recomendado o 10
  11. 11. pastoreio intensivo dos restolhos, por exemplo de um cereal de Inverno,durante o Verão, na expectativa que a cultura de cobertura proporcione aprotecção do solo desejado no período Outono/Inverno.Outros efeitos das culturas de cobertura são: o aumento do teor de matériaorgânica do solo; um melhor controlo das infestantes; retenção pela cultura denutrientes mineralizados, que de outra forma seriam lavados (nitrato); trazerpara a superfície nutrientes de camadas mais baixas; manter e/ou melhorar aestrutura do solo; etc..As culturas de cobertura podem ser constituídas por vegetação espontâneaou serem semeadas. Quando naturais, poder-se-á utilizar, após aemergência, herbicidas selectivos por forma a manter apenas as infestantesde folha estreita, muito mais fáceis de controlar no final do Inverno. Quandosemeadas, as culturas como a aveia e a cevada prestam-se particularmentebem para esse papel.Com a agricultura tradicional não há nenhuma prática equivalente. Por vezesrecorre-se à realização de culturas, principalmente tremocilha, para posteriorsideração. Embora isto mostre uma preocupação com a manutenção dafertilidade do solo, não ataca o problema uma vez que: quando a tremocilha éenterrada apresenta um valor C/N bastante baixo (aproximadamente 13), peloque é rapidamente mineralizada, acrescendo o facto de, sendo enterrada,aumentar ainda mais a taxa de mineralização e não contribuir para a protecçãoda superfície do solo contra a erosão.Figura 4- Cultura de cobertura (aveia) após o corte.Mobilização dos solos e formação de crosta. Suas implicações.A mobilização dos solos, principalmente com os sistemas tradicionais queenterram os resíduos das culturas na totalidade, dá muitas vezes origem aoaparecimento, após as primeiras chuvas, de crostas. As crostas são muito finas(da ordem de 1-2 mm), extremamente compactadas, e com valores decondutividade hidráulica extremamente baixos quando comparados com osvalores do solo sem crosta. 11
  12. 12. A formação de crosta depende da textura e teor de matéria orgânica do solo.De um modo geral, pode-se dizer que os solos francos e franco-arenosos sãoos mais susceptíveis, e que a tendência a formar crosta diminui com o aumentodo teor de argila e matéria orgânica. A formação da crosta é devida a doismecanismos complementares: (i) a desintegração física dos agregados e a suacompactação pelo impacto das gotas de água; (ii) a dispersão química e omovimento de partículas de argila para a camada de 0,1 a 0,5 mm deprofundidade. Assim, é obvio que qualquer sistema que promova a coberturada superfície do solo com resíduos diminui, em maior ou menor extensão, aformação de crosta, uma vez que a superfície está protegida do impacto directodas gotas de água da chuva.Se, com a sementeira directa, e a partir da definição, o solo está relativamentebem protegido, não é possível eleger, a priori, entre os sistemas demobilização reduzida e na zona, qual oferece uma melhor protecção ao solo,em virtude das grandes diferenças que pode existir dentro de cada sistema,sendo, no entanto, em grande medida, função do grau de cobertura do solo. Noentanto, e para as mesmas condições de solo e cultura, a mobilização na zonaoferece mais protecção que a reduzida.Figura 5- A formação de crostas tem implicações fundamentalmente ao nível dainfiltração de água, e da emergência das culturas quando secam.A estrutura do solo e a retenção de água. Factores a contribuir para umamaior infiltração e retenção.Embora os sistemas de mobilização tradicional resultem em camadassuperficiais relativamente soltas e com grande porosidade, este efeito é poucoduradouro, diminuindo ao longo do ciclo da cultura, havendo casos em que,passado algum tempo sobre a realização das operações de mobilização, aporosidade é menor que a inicial. O facto de após as operações demobilização, na camada mobilizada, a porosidade ser normalmente superior aoverificado com o sistema de sementeira directa (em relação aos sistemas demobilização reduzida e na zona depende de muitos factores), isto não significaque o volume de água infiltrado com os sistemas de mobilização tradicionalseja superior. Como vimos no ponto anterior, a formação de crosta pode levara uma redução importante da infiltração, e são numerosos os estudosrealizados, inclusive em Portugal, que mostram que embora possa haver ummaior volume infiltrado logo na 1ª chuvada após as mobilizações, nas 12
  13. 13. seguintes, os sistemas de sementeira directa e reduzida normalmenteapresentam um maior volume infiltrado.Convém aqui referir que, do ponto de vista físico, sempre que há ruptura de umagregado, há diminuição da microporosidade, embora possa aumentar amacroporosidade.Outro factor importante a ter em conta com os sistemas de mobilizaçãotradicional é o aparecimento, na base do perfil mobilizado, de uma camadaextremamente compactada, o calo de lavoura, que para além de dificultar, oumesmo impedir, o crescimento das raízes, é muito pouco permeável à água. Oprincipal efeito do calo de lavoura é provocar o encharcamento da camadasuperficial, o que equivale a problemas de arejamento e à asfixia das raízes, oque pode ter reflexos graves sobre a produção. Este problema não se põe comos sistemas de mobilização de conservação do solo.Os sistemas de mobilização de conservação do solo, e em especial asementeira directa, conduzem, geralmente, ao aparecimento de uma camadasuperficial com agregados mais estáveis, e nos solos de textura fina e média,favorece o desenvolvimento de uma rede estável de macroporos que promoveuma maior continuidade entre as matrizes da superfície e do sub-solo. Estarede de macroporos, que tem origem na actividade da macrofauna (minhocas,etc.), na decomposição das raízes das plantas, e nas fendas que surgem coma secagem do solo, é desfeita na camada atingida pela mobilização. Aimportância desta rede de macroporos é que consegue transmitir umaquantidade de água considerável através do perfil.Figura 6- Com os sistemas em que não há mobilização do solo, os poros criados pelo crescimento das raízes da cultura anterior não são destruídos, permitindo um aumento da infiltração.Com os sistemas de mobilização de conservação do solo, os resíduos dasculturas diminuem o fluxo de radiação solar que incide sobre o solo, diminuindoa temperatura do solo, e assim, a evaporação. Apenas a título comparativo, oalbedo, ou coeficiente de reflexão (radiação recebida/ radiação reflectida ×100), é de 7 a 10 % com os solos cultivados escuros (sem resíduos), podendoatingir os 30 %, ou mais, em solos cobertos com restolhos e palhas. Restaacrescentar que a condutividade térmica dos resíduos é baixa, pelo que aenergia disponível para o aquecimento do solo é ainda menor que a simplesdiferença entre a energia recebida e a reflectida.Em termos da retenção da água, para posterior utilização pelas plantas, estaocorre nos espaços intersticiais de reduzida dimensão, os mesoporos (entre0,2 e 50 µm). Como já vimos no 1º texto de apoio, o maior teor de matériaorgânica com os sistemas de mobilização de conservação do solo conduz, nos 13
  14. 14. solos de textura grosseira, a um maior poder de retenção da água poradsorção, devido à atracção electrostática que se forma entre as superfíciesdos colóides (partículas de diâmetro inferior a 2 µm) e as moléculas de água,seguindo-se o “engrossar” destas camadas de água por coesão com novasmoléculas de água, preenchendo os espaços intersticiais de dimensãocompatível com fenómenos de capilaridade. Nos solos de textura mais fina, ummaior teor de matéria orgânica conduz a uma agregação maior, e mais estável,das partículas de solo. Como resultado de uma maior agregação, ainfiltrabilidade do solo aumenta, o crescimento das raízes é mais fácil, atransitabilidade é melhorada, nomeadamente em condições de maiorhumidade, há um maior arejamento do solo, e aumento da actividademicrobiana.Os sistemas de mobilização de conservação do solo, e especialmente asementeira directa, conduzem a uma mudança na proporção relativa de cadaclasse de tamanho de poros, com aumento da mesoporosidade (ver gráfico).Tabela 1- Distribuição da porosidade. Profundi- Água > 50 µm 50 -10 10-0. 2 PorosidadeMobilização dade < 2µm utilizável (%) µm (%) µm (%) Total (%) (cm) (%) 10 3.2 2.22 2.7 38.37 46.52 4.92 SD 20 0.86 3.91 5.22 36.16 46.15 9.13 30 1.86 2.63 11.48 29.44 45.4 14.11 10 15.08 2.34 4.36 29.95 51.73 6.71 Lav 20 2.67 1.32 2.31 35.95 42.25 3.63 30 1.47 1.56 3.29 35.62 41.94 4.85O controlo de infestantes: mobilização vs. monda química. Custos,cumprimento de objectivos. A necessidade do saber técnico.Com os sistemas de mobilização tradicional, o controlo das infestantespresentes nas parcelas antes da sementeira, é realizado mecanicamente coma preparação da “cama” para a sementeira. Com os sistemas de mobilizaçãode conservação, e à excepção dos sistemas de mobilização reduzida, estecontrolo é realizado com herbicidas de pré-sementeira. No que respeita ocontrolo das infestantes após a sementeira, não há diferenças formais entre ossistemas de mobilização tradicional e de conservação.Se o objectivo das mobilizações for apenas o controlo de infestantes, não sãoprecisos grandes cálculos para verificarmos que o controlo com herbicidas éuma opção muito mais barata.Em termos do cumprimento dos objectivos, o controlo eficaz das infestantes,ambos os sistemas são eficazes se forem cumpridas todos os requisitospróprios de cada um.Em termos dos conhecimentos técnicos, seria desonesto afirmar que ambos ossistemas requerem o mesmo nível de conhecimentos. Para o controlo dasinfestantes com herbicidas de pré-sementeira torna-se necessário que oagricultor, ou o seu consultor, conheça os herbicidas, e as características da 14
  15. 15. aplicação dos herbicidas em sistemas de mobilização de conservação, saiba oque é um programa de controle de infestantes, e a flexibilidade que deve ter,que faça o reconhecimento da flora, e do grau de infestação em cada parcela,que promova uma rotação de culturas conveniente, que proceda a um maneioconveniente do resíduo das culturas, etc..Voltaremos a este assunto no módulo “A produção vegetal com sistemas deMobilização de Conservação”, onde faremos uma análise exaustiva.Figura 8- A mobilização dos solos para o controlo de infestantes pode ser substituídapela aplicação de herbicidas apropriados.Os sistemas de mobilização e as pragas. A necessidade do sabertécnico.Há quem aponte as culturas realizadas com sistemas de mobilização deconservação como estando particularmente expostas às pragas, e assim,levarem a um consumo maior de pesticidas, devido à menor ou nãomobilização dos solos, e aos resíduos das culturas. No entanto, muitos estudosmostram que em várias regiões do mundo, onde houve uma extensaconversão dos sistemas tradicionais para formas de agricultura deconservação, o consumo de pesticidas não sofreu um acréscimo significativo.Para estes resultados, por certo não foi alheio o esforço por parte dosagricultores e seus consultores em conhecer as pragas a que estão sujeitas asdiferentes culturas, a sua maior ou menor presença em resultado dosdiferentes sistemas de mobilização, e a uma utilização mais racional dospesticidas quando adoptaram os sistemas de mobilização de conservação faceà utilização que faziam anteriormente.Para um controlo eficaz e correcto das pragas, torna-se necessário conhecerquais as pragas a que as culturas estão sujeitas, qual a relação entre a biologiada praga e as condições criadas pelos diferentes sistemas de mobilização, noque concerne às condições de sobrevivência da praga, os pesticidas que ascontrolam e modos de aplicação, os cuidados a ter quando em sistemas demobilização de conservação, quais os níveis económicos de ataque, isto é, apartir de que número de organismos presentes os prejuízos são superiores aocusto de aplicação de um determinado pesticida, etc.. 15
  16. 16. Figura 9- O conhecimento da biologia das pragas é essencial para desenvolver umaestratégia de protecção eficaz das culturas.Voltaremos a este assunto no módulo “A produção vegetal com sistemas deMobilização de Conservação”, onde faremos uma análise exaustiva.Sofismas.Muitos agricultores que adoptam os sistemas de mobilização de conservação,entusiasmam-se com os excelentes resultados, nomeadamente no queconcerne a redução de custos, que podem ter desde o início mas mantêm umcerto receio sobre a evolução da produtividade dos solos. Este receio éfundamentado não em razões objectivas mas na incerteza e desconhecimentode quais as necessidades em termos de solos para obter boas produções, deforma continuada e sustentada, e de qual a evolução do solo, do ponto de vistada estrutura, da fertilidade, das pragas, das infestantes, etc., com os sistemasde mobilização de conservação. Como veremos nos outros módulos, grandeparte destes receios não tem fundamento, e que é com o tempo que osbenefícios que advêm desses sistemas, a todos os níveis, mais se fazemsentir.Os argumentos utilizados pelos detractores dos sistemas de mobilização deconservação são: • Trabalho medíocre dos semeadores, com um mau contacto da semente com o solo, tendo como resultado más emergências. • As culturas terem problemas com o crescimento das raízes, por causa da maior densidade do solo não mobilizado. • Um controlo deficiente das infestantes. • Uma maior incidência de pragas, com o argumento que a mobilização dos solos ajuda a destruir as pragas, e que os resíduos são alojamento das formas de hibernação, ovos e larvas das pragas. • Menos água disponível para as plantas, com o argumento que a mobilização do solo cria uma descontinuidade com a matriz sub-superficial, o que diminui a evaporação, e que promove também uma maior infiltração. • Etc..Embora alguns desses argumentos possam ter uma aparente validade comohipótese, outros são falsos, mas o que é um facto é que tanto os agricultoresque adoptaram sistemas de mobilização de conservação, como osinvestigadores que têm os sistemas de mobilização do solo como objecto deestudo, ou não sentiram estes problemas, ou quando os sentiram, verificaramque a sua resolução não acarretava mais meios que com os sistemas demobilização tradicional, não comprometendo o sucesso das culturas. 16
  17. 17. Módulo: Introdução à Mobilização de Conservação Texto de apoio e consulta 3. DESENVOLVIMENTO RURAL SUSTENTÁVELConceito de desenvolvimento rural sustentável.Não há uma definição para desenvolvimento rural sustentável que sejauniversalmente aceite. Uma definição para desenvolvimento sustentável é “odesenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometera capacidade das gerações futuras para fazer face às suas necessidades”,proposto pela World Commission on Environment and Development (ComissãoMundial para o Desenvolvimento e o Ambiente). No entanto, há que manter oespírito crítico em relação à adopção de modelos de desenvolvimento, e nãoesquecer que aquilo que é sustentável para um país, região ou sociedade,pode não ser para outro.Quando falamos em desenvolvimento rural sustentável, os sistemas demobilização de conservação do solo já surgem, não como os sistemas dofuturo, mas como os sistemas que urge implementar, devido às vantagensinequívocas em termos ambientais e económicos. No entanto, do ponto devista social, as menores necessidades de mão-de-obra que resultam destessistemas de mobilização lançam o espectro de uma ainda maior diminuição doemprego na agricultura. Isto levanta a questão da existência de uma verdadeirapolítica de desenvolvimento rural sustentável, que antecipe e dê respostasatempadas aos problemas.“O desenvolvimento sustentável tem uma natureza tri-partida: a ambiental, aeconómica e a social. O desafio em que consiste o desenvolvimento ruralsustentável é conciliar estes 3 componentes, com cedências de parte-a-parte,por forma a manter um equilíbrio dinâmico entre eles. São poucas assituações em que todos lucram com o desenvolvimento, invariavelmente,alguém ou alguns grupos ficam em desvantagem com a mudança depolíticas, e resistem à mudança.”(Este parágrafo é uma adaptação livre, de um texto da FAO, Use of Indicators in SustainableAgriculture and Rural Development, de Jeff Tschirley).A conservação do solo e da água. A população em crescimento e agarantia alimentar.(Os números apresentados neste texto seguidos de (*), foram colhidos napublicação “Agricultura de Conservação na Europa: Aspectos Ambientais,Económicos e Políticos da UE", uma edição conjunta da APOSOLO e daECAF.)Recentemente, a FAO anunciou que a Terra contava aproximadamente 6 milmilhões de pessoas. A evolução da população nas ultimas décadas (ver 17
  18. 18. gráfico), só foi possível devido aos avanços registados no âmbito domelhoramento de plantas e animais, da mecanização, da expansão do regadioe na melhoria das técnicas de rega, e na utilização de fertilizantes e produtosfitofarmacêuticos, que permitiram um aumento substancial da produtividadedos solos agrícolas (ver gráficos de produções). No entanto, cedo começarama aparecer os sinais de degradação dos solos e da qualidade das águas, e danão sustentabilidade a longo prazo de certas práticas como a utilizaçãoexcessiva de fertilizantes, de produtos fitofarmacêuticos de elevadapersistência e ecotoxicidade, da mobilização intensiva dos solos, deixando-ossem resíduos de culturas à superfície, etc.. Por outras palavras, osconhecimentos que possibilitaram o crescimento da população conduziramtambém a uma pressão sobre os recursos naturais que, a não seremcorrigidos, acarretarão um futuro sombrio para a humanidade.A conservação do solo e da água é uma preocupação que atinge a dimensãoda Terra. Com efeito, formas graves de erosão dos solos estão presentes emtodos os continentes. Estimativas apontam para a perda de aproximadamente10 milhões de ha por ano(*) de solo com aptidão agrícola devido à erosão. Ora,sabendo que apenas aproximadamente 20 % da superfície das terras emersas,3000 milhões de ha, são verdadeiramente cultiváveis, e que a grande maioriadestes está sujeito a condicionalismos que limitam a sua exploração, então omotivo para preocupação aumenta. Na Europa, calcula-se queaproximadamente 157 milhões de ha(*) são afectados em maior ou menor graupela erosão, adquirindo proporções particularmente graves nos países da orlamediterrânea.Os quadros políticos para operar as mudanças necessária para umdesenvolvimento rural sustentável existem, e devem ser usados. Assim, e porexemplo, Portugal é signatário da Convenção das Nações Unidas de Combateà Desertificação desde Outubro de 1994. O significado que este facto tem é dereconhecer que vastas regiões do país estão sujeitas a uma degradaçãoacelerada das terras, principalmente a sul do rio Tejo, e da necessidade da“implementação de programas de acção, a nível local, nas áreas afectadas”.Nos termos da convenção, o desenvolvimento sustentável das áreas afectadaspassa por “(Artigo 2º, ponto 2) – A consecução deste objectivo (odesenvolvimento sustentável nas zonas afectadas) exigirá a aplicação, naszonas afectadas, de estratégias integradas de longo prazo que se centrem,simultaneamente, no aumento de produtividade da terra e na reabilitação,conservação e gestão sustentada dos recursos em terra e hídricos, tendo emvista melhorar as condições de vida, particularmente ao nível das comunidadeslocais.”. A mobilização de conservação é, neste contexto, parte óbvia dequalquer estratégia integrada de longo prazo, tanto em Portugal como emoutras regiões do globo, pelos benefícios que proporciona tanto em termos daconservação do solo como da água.A biodiversidade e os sistemas de MC.(Dentro das molduras, adaptação livre do texto “Agricultura de Conservação naEuropa: Aspectos Ambientais, Económicos e Políticos da UE", edição conjuntada APOSOLO e da ECAF.) 18
  19. 19. A agricultura não deverá ter apenas como objectivo a produção de alimentos apreços competitivos mas também cumprir um papel na preservação danatureza. Os espaços agrícolas são habitat de diversas espécies animais que,quando em equilíbrio, não representam um grande perigo para as culturas,podendo estas beneficiarem até da manutenção do nível das pragas abaixodos níveis económicos de ataque – ver o texto de apoio do módulocorrespondente. Para o efeito dos sistemas de mobilização de conservação dosolo sobre a fauna, ver moldura:Mais fauna - Os sistemas de mobilização convencional deixam o solodescoberto durante longos períodos de tempo. Este habitat não é o apropriadopara muitas espécies de aves que procuram solos suficientemente cobertospara nidificar. Ao contrário, sistemas de produção agrícola que deixam grandesquantidades de resíduos fornecem alimentos e protecção para muitas espéciesanimais em fases críticas do seu ciclo de vida. É por isto que nos solos emsistema de mobilização de conservação prospera um grande número deespécies animais (aves, pequenos mamíferos, répteis e outros). Váriosestudos demonstraram que campos não mobilizados apresentam densidademaiores de aves (e ninhos) e que há uma maior diversidade de aves queprocuram estas condições para nidificar, em comparação com terrenosmobilizados. De facto, a agricultura de conservação fornece condições maisfavoráveis para a alimentação de aves (insectos, sementes) durante umperíodo mais longo, o que resulta numa população maior e mais diversificada.O solo é um meio onde vive uma grande comunidade de microorganismos,microartrópodes, nemátodos, moluscos, etc.. Esta massa viva desempenha umpapel muito importante na decomposição e transformação dos resíduos dasculturas em matéria orgânica estável, e na formação e manutenção de umaestrutura do solo favorável ao desenvolvimento das plantas. A manutenção dotamanho das populações de pragas potenciais nos solos em sistemas demobilização de conservação, contrariando o que se conhece da biologia dealgumas espécies (é suposto algumas espécies de pragas beneficiarem, porexemplo, da não mobilização dos solos), é explicada pela quantidade ediversidade de organismos que alberga, e pelas relações tróficas que seestabelecem (por exemplo, pragas controladas por outras espécies que nãoestariam presentes no solo, ou estariam em baixo número, se este fossemobilizado).Figura 3- O solo sob mobilização de conservação é mais rico e equilibrado. 19
  20. 20. Fauna do solo - Esta é composta por numerosas espécies em quantidadesconsideráveis, desde microorganismos (bactérias e fungos) que podem chegaraos 3 mil milhões de indivíduos por grama de solo, até às minhocas emquantidades que podem atingir 9.5 milhões por hectare. Os sistemas demobilização de conservação do solo permitem que se desenvolva umaestrutura do solo estratificada, favorável à quantidade e diversidade dosorganismos do solo como, por exemplo, microorganísmos, nemátodos,minhocas e microartrópodos (p. ex. insectos).Contributo dos sistemas de MC para a diminuição do aquecimento global.(CO2, maior eficiência energética, etc.).(Dentro das molduras, adaptação livre do texto “Agricultura de Conservação naEuropa: Aspectos Ambientais, Económicos e Políticos da UE", edição conjuntada APOSOLO e da ECAF.)Quando falamos em “aquecimento global” estamos geralmente a falar doaumento da temperatura média do planeta, em resultado do aumento daconcentração na atmosfera dos chamados gases com efeito de estufa,principalmente o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4), com origem nasactividades humanas. O CO2 é o gás com efeito de estufa mais importante, etem origem na queima dos combustíveis fósseis e de outras substânciasorgânicas, no metabolismo dos seres vivos, e noutras fontes que, para o efeitodeste texto, não são relevantes.Antes de vermos em que medida os sistemas de mobilização de conservaçãopodem contribuir para a diminuição do aquecimento global, convémperspectivar o problema:O aquecimento global é, hoje em dia, dos problemas mais graves que oHomem enfrenta. Estudos recentes mostram que, embora a temperatura doplaneta apenas tenha subido 0,6 °C desde 1900, o aumento de temperaturadurante a década de 90 indicia um aumento durável da temperatura do planetaa uma taxa de 2 a 3 °C por século (para P=0,05) (Centro Nacional de DadosClimáticos de Asheville (E.U.A.)). Embora não haja uma resposta sobre aorigem do aumento da temperatura, se se trata de uma flutuação natural, ouconsequência do efeito de estufa dos gases que emitimos para a atmosfera, osefeitos serão forçosamente graves num futuro próximo, exigindo a adopçãoimediata de medidas que contrariem esse aquecimento. Um aumentosignificativo da temperatura, a concretizar-se, significará transtornos tãograndes a nível do clima (devido ao degelo dos pólos, que já é uma realidade,à paragem do Gulf Stream, etc.) que ainda ninguém se aventurou a traçar umcenário que não fosse de desastre para o Homem.Figura 4- O aumento da temperatura da Terra tem como efeito o degelo dos pólos,com consequências devastadoras para todo o planeta. 20
  21. 21. Com os sistemas de mobilização de conservação conseguimos uma diminuição das emissões de CO2 para a atmosfera, basicamente, de 2 formas: mantendo os resíduos das culturas à superfície do solo, diminuindo assim a rápida metabolização dos resíduos pelos microorganismos, com a respectiva libertação de CO2; diminuindo o consumo de combustíveis fósseis, devido à menor mobilização dos solos, menor número de passagens, etc. (por exemplo, a poupança em gasóleo, em culturas anuais com o sistema de sementeira directa, é calculado em mais de 30 litros por ha e por ano).A temperatura média anual da Europa aumentou entre 0.3 e 0.6 °C desde 1990, esperando-se,segundo modelos climáticos, a continuação deste aumento. Está bem documentado que aqueima dos combustíveis fósseis, devido às emissões de CO2, é a causa principal para oaumento do aquecimento global. De uma forma geral, o factor chave para este problema é aestabilização da concentração do CO2 na atmosfera.A agricultura é responsabilizada por contribuir, ao nível mundial, em cerca de 20% para oaumento de origem antropogénica do efeito de estufa, produzindo cerca de 50 a 75% dasemissões de metano e de óxidos nitrosos e cerca de 5% do CO2. O desflorestamento, aqueima de biomassa e outras alterações na exploração da terra provocam um aumentoadicional de 14%.Sem dúvida, a agricultura convencional é um dos factores que mais contribuem para amudança do clima. A lavoura ou inversão do solo representam a causa principal para asemissões de CO2 a partir das terras cultivadas. Foi comprovado cientificamente que amobilização do solo tem contribuído significativamente para o aumento do teor de CO2 naatmosfera ocorrido durante as últimas décadas.Historicamente, a mobilização intensiva do solo tem provocado uma perda substancial decarbono do solo, atingindo entre 30 a 50%. Estas perdas de CO2 estão relacionadas com afragmentação do solo, que facilita o movimento do CO2 para fora do mesmo e, ao mesmotempo, a entrada de oxigénio. Operações culturais convencionais como a lavoura com charruade aivecas, enterram quase na totalidade os resíduos e deixam a superfície do solo rugosa esolta; isto resulta numa perda máxima de CO2 e numa redução substancial do efeito sumidordo solo. Da mesma forma, a intensificação da agricultura é um factor importante para aemissão de gases que produzem o efeito estufa (CHG); estima-se que as actividades agrícolasprovocam 20% do referido efeito de estufa. Tudo isto contribui para o aquecimento global.Ao contrário, na agricultura de conservação (sementeira directa/não mobilização) o teor dematéria orgânica no solo aumenta em 1 tonelada ou mais por hectare e ano. Daí, estima-seque os 17 milhões de hectares incluídos no Programa de Conservação dos EUA (áreas comum elevado risco de erosão que foram reconvertidos em pastagens permanentes nãomobilizadas) contribuirão para uma redução em 45% das emissões de CO2 provenientes daszonas agrícolas deste país. Consequentemente, e baseado em estudos científicos, existeactualmente uma forte tendência a favor da adopção das técnicas de conservação a fim deprevenir as perdas de carbono do solo e as emissões adicionais de CO2 para a atmosfera, e,simultaneamente, aumentar o teor de carbono no solo.Quanto menos se mobiliza o solo, tanto mais carbono o solo consegue capturar e armazenar,elevando o teor em matéria orgânica e a produtividade do solo a longo prazo, diminuindo, aomesmo tempo, a quantidade de CO2 libertado para a atmosfera. Solos com altos teores emmatéria orgânica mantêm a produtividade e reduzem a poluição das águas por resistiremmelhor à erosão, por reterem uma maior quantidade de água no solo, e, através dadecomposição e imobilização de agro-químicos e outras substâncias poluentes. Há estimativasde que a conversão total para a agricultura de conservação na Europa poderia compensar atotalidade das emissões de carbono a partir de combustíveis fósseis por parte da agriculturaeuropeia, correspondendo isto a apenas 4.1% do carbono sob a forma de CO2 produzido pelohomem na Europa e a 0.8% das emissões totais ao nível mundial. 21
  22. 22. Módulo: Introdução à Mobilização de Conservação Texto de apoio e consulta 4. A POLUIÇÃO DE ORIGEM AGRÍCOLA E A SOCIEDADEA erosão dos solos e o assoreamento das estruturas de armazenamentode água e dos cursos de água. Custos de manutenção.(Dentro das molduras, adaptação livre do texto “Agricultura de Conservação na Europa:Aspectos Ambientais, Económicos e Políticos da UE", edição conjunta da APOSOLO e daECAF.)Os sedimentos provêm dos solos erodidos e são transportados nas águas deescorrimento para fora da área na qual se deu a erosão. Os danos provocados sãodiversos: danificação de estradas, canais e esgotos, depósitos de sedimentos,obstrução de redes de drenagem, aluimento de fundações e pavimentos, diminuiçãoda capacidade de armazenamento de água das barragens, destruição de sistemasecológicos aquáticos, perigos para a saúde pública e maiores custos no tratamentodas águas. Além disso, a elevação dos leitos e a sedimentação nas margens húmidasdos rios podem aumentar a probabilidade e a gravidade de inundações. Estima-seque cerca de 40% dos custos da erosão devem-se ao prejuízo causado pelossedimentos nas infra-estruturas públicas anteriormente referidas. Desta maneira,estima-se também que levando a cabo as técnicas de conservação, a sociedadebeneficiaria com a diminuição dos danos provocados fora dos locais de erosão emcerca de 32 Euros/ha de superfície agrícola e ano. Os prejuízos causados pela erosãono seu conjunto, isto é, nas zonas agrícolas afectadas e, fora destas, nas infra-estruturas públicas referidas, foram estimados nos EUA em cerca de 85.5 Euros porha de superfície agrícola e ano.Figura 1- Os sedimentos estão na origem de diversos custos para a sociedade- naimagem, o assoreamento de uma barragem.A mobilização de conservação reduz a erosão do solo até 90% na sementeira directae em mais de 60% na mobilização reduzida, em comparação com a mobilizaçãoconvencional. Desta maneira, melhora-se consideravelmente a qualidade das águassuperficiais devido à redução dos sedimentos. 22
  23. 23. O transporte de pesticidas e fertilizantes. Pesticidas e fertilizantes emsolução. A fauna aquática e a eutrofização de lagos, barragens, etc...(Dentro das molduras, adaptação livre do texto “Agricultura de Conservação na Europa:Aspectos Ambientais, Económicos e Políticos da UE", edição conjunta da APOSOLO e daECAF.)Figura 2- Os pesticidas em solução na água de escorrimento superficial, emborainvisíveis, constituem uma grave ameaça aos ecossistemas aquáticos e à saúdepública.O tratamento de águas para consumo humano. Outras utilizações daágua.A saúde das populações depende em grande medida da qualidade da águaque consomem. A qualidade da água para consumo humano obedece a umconjunto de normas no que concerne as suas características químicas, físicase bacteriológicas. Assim, e quando as fontes de água que abastecem aspopulações não obedecem às normas estabelecidas, torna-se necessário, àfalta de fontes alternativas, construir e operar instalações para o tratamentodas águas que são dispendiosas e muitas vezes incapazes de tratardeterminados poluentes. Estas estações de tratamento constituem um custopara a sociedade, que poderia ser evitado se fossem adoptadas um conjuntode medidas eficazes na protecção das fontes de água.A agricultura tem a sua quota parte de responsabilidade na poluição da água, aque não pode e não deve fugir. Neste contexto, longe de acusar, os governosda União Europeia apoiam os agricultores que adoptam medidas de protecçãodos recursos, nomeadamente através das medidas agro-ambientais, em sinalde reconhecimento do papel positivo que os agricultores podem ter naprotecção do ambiente. A adopção de algumas medidas, como os sistemas demobilização de conservação do solo, contribui, significativamente, como temosvindo a ver, na redução da carga de poluentes de origem agrícolatransportados pelas águas que drenam os campos agrícolas, diminuindo oscustos de manutenção e operação das estações de tratamento de água.Outras utilizações da água têm exigências de qualidade que são, comexcepção de algumas utilizações industriais e outras, menores que asrequeridas para consumo humano; falamos da água para a rega, paradeterminadas lavagens, para o combate a incêndios, etc.. 23
  24. 24. Os fertilizantes e pesticidas provenientes de zonas agrícolas podem chegar acontaminar as águas superficiais, ao serem arrastados pelas águas de escorrimentopara fora das zonas agrícolas onde se aplicaram. Por vezes, os nitratos e pesticidastransportados para as águas superficiais podem, inclusivamente, ultrapassar asconcentrações limites das águas potáveis. Concentrações relativamente elevadas depesticidas podem ser prejudiciais para os peixes, plantas e outros organismosaquáticos. O azoto em forma de amónia pode ser tóxico para os peixes e os nitratos efosfatos intensificam o crescimento de plantas e algas, levando a uma eutrofizaçãoacelerada de lagos e barragens. O restolho, ou restos vegetais da colheita anterior sobre o solo, que caracterizaa agricultura de conservação, retêm em grande parte os fertilizantes e pesticidas nazona agrícola onde foram aplicados, até serem utilizados pela cultura ou decompostosnoutros componentes menos prejudiciais. Assim, as técnicas de conservação não sóreduzem, consideravelmente, o escorrimento mas também proporcionam uma forteredução de sedimentos que, por sua vez, transportam pesticidas, amónia e fosfatosadsorvidos. Em consequência disto, a mobilização de não-inversão do solo conseguereduzir substancialmente a perda de herbicidas na água de drenagem e, de formasemelhante, os óxidos de azoto (>85%) e fosfatos solúveis (>65%). A este respeito,uma comparação abrangente dos diversos métodos de mobilização, mostra queatravés da sementeira directa/não mobilização se reduz o transporte de herbicidas em70%, dos sedimentos em 93% e o escorrimento superficial em 69%, em comparaçãocom a mobilização convencional de inversão. Conclui-se, assim, que as técnicas deconservação melhoram, substancialmente, a qualidade da água. Na agricultura de conservação usam-se diferentes métodos de aplicação deagro-químicos e, em termos gerais, pode-se reduzir a quantidade total dos mesmos.Assim, por exemplo, em vez de se aplicar os fertilizantes a lanço, podem-se localizarem bandas ou sulcos, a uma certa distância da semente, ou ser injectadosdirectamente no solo, minimizando, desta forma, o risco de serem dispersados pelachuva ou pelo vento para fora da zona onde se aplicaram. Da mesma maneira, ocontrolo de infestantes pode não necessitar em muitas situações de uma quantidademaior de herbicidas que na agricultura convencional. Para além disso, os herbicidasmais apropriados para aplicação nas infestantes emergidas, têm um período de vidacurto, não são activos no solo e exibem uma ecotoxicidade extremamente baixa.Outros métodos de maneio de infestantes, tais como a utilização de entrelinhasmenores e/ou o aumento de densidade de plantas por unidade de superfície e oestabelecimento de culturas intercalares fazem parte das técnicas de conservação.Figura 3- A rega é das actividades que consome mais água. No entanto, a qualidadeda água que drena os campos agrícolas não deve ter como referência a qualidade daágua para a rega mas sim a conservação dos ecossistemas dos cursos de água. 24
  25. 25. Mesmo na eventualidade da água que drena dos campos agrícolas não teruma utilização humana posterior, seguindo o seu curso em direcção ao mar, háo dever de garantir que estas águas sejam isentas de poluentes, por forma apreservar tanto os ecossistemas que se estabelecem nos cursos de água e emseu redor, bem como os aquíferos (a água que circula nos cursos de águatambém infiltra).Figura 4- A preservação dos cursos de água é uma prioridade. 25
  26. 26. Módulo: Introdução à Mobilização de Conservação Texto de apoio e consulta 5. A POLÍTICA AGRÍCOLA COMUMOs desafios da agricultura europeia.A Política Agrícola Comum (PAC) é o instrumento que serve de referência àagricultura europeia, e ao seu desenvolvimento futuro. Num mundo empermanente mudança, a PAC tem sofrido reformas por forma a acompanhar asnovas tendências com o objectivo último de preservar o sector agrícola,tornando-o mais competitivo, tanto a nível dos países que constituem a UniãoEuropeia (UE), como a nível internacional.Os desafios que são postos à PAC a nível interno são: o desenvolvimento dosmercados internos; repensar a gestão dos mecanismos de apoio. A nívelexterno: o alargamento da UE a novos países; as conversações sobre astrocas comerciais.Figura 1- O desenvolvimento dos mercados internos da U.E., as conversações sobreo alargamento a novos países, e a regulamentação das trocas comerciais a nívelmundial, constituem os desafios na origem da nova PAC.As propostas da Comissão europeia. O sector dos cereais.(Dentro das molduras, adaptação livre do texto “Agricultura de Conservação na Europa:Aspectos Ambientais, Económicos e Políticos da UE", edição conjunta da APOSOLO e daECAF.)Propostas para a reforma da PAC: • Redução dos preços de intervenção- visa beneficiar o consumidor, obrigar o sector agrícola da comunidade a explorar novos mercados, facilitar a integração dos novos candidatos à UE, e preparar as bases para a nova ronda de conversações sobre as trocas comerciais. Só no sector dos cereais, em 2001/2002 é esperado um excesso de produção em relação às necessidades dos países da EU superior a 26 milhões de toneladas, com a agravante da exportação com preços subsidiados estar limitada, o que 26
  27. 27. originará gastos enormes com a intervenção no mercado, para garantir os preços, e com a armazenagem. • Aumento das ajudas directas aos agricultores para compensar a diminuição de preços- visa a estabilidade do rendimento dos agricultores. • Pacote de medidas visando o desenvolvimento rural- este pacote permite que os diferentes estados membros criem um pacote de medidas que se adapte às necessidade específicas de cada um.Propostas para o sector dos cereais: • Redução dos preços de intervenção e aumento das ajudas directas ao rendimento dos produtores- ao deixar que os preços internos se aproximem dos preços mundiais, deixa de haver necessidade de limitar a produção (não há limites para exportação quando a produção não é subsidiada), e também de constituir set-aside. • As ajudas directas aos produtores não serão proporcionais ao corte nos preços de intervenção- a Comissão acredita que os preços de mercado manter-se-ão acima dos preços de intervenção. • Existirão valores máximos para todas as ajudas directas recebidas de todas as Organizações do Mercado Comum. Os estados membros terão também as ferramentas legais para dirigir a ajuda directa àqueles que mais dela necessitam. No que respeita a protecção ambiental, os estados membros poderão associar, à sua própria descrição, pagamentos directos pelo respeito pelo ambiente.Figura 2- Com a nova reforma da PAC, deixa de haver a necessidade de diminuir aprodução na EU, logo da realização do chamado set-aside.Destas propostas, a que tem maior alcance é sem dúvida a redução do preçode intervenção, apesar do aumento das ajudas directas ao rendimento dosagricultores. Esta proposta traz a necessidade de uma maior competitividadepara o sector. Como temos vindo a ver, os sistemas de mobilização deconservação do solo trazem vantagens económicas inegáveis, podendosignificar a sobrevivência do sector.Subsídios à produção vs. ajudas ao rendimento do produtor.A redução dos preços de intervenção, para valores próximos dos preços dosmercados internacionais, faz com que este instrumento volte ao seu papeloriginal, funcionando como uma rede de segurança para os agricultores.Assim, os preços de intervenção sofrem um corte de 20%, passando de 119,19para 95,35 Euros/t para os cereais, oleaginosas e proteaginosas. As 27
  28. 28. proteaginosas, terão direito a um prémio adicional de 6,5 Euros/t. A perda derendimento é compensada pelo aumento das ajudas directas ao rendimentodos agricultores (passando de 54 para 66 Euros/t).A compensação pelo set-aside é fixada nos 66 Euros/t.As modulações. O financiamento das medidas agro-ambientais.Devido às diferenças no rendimento dos agricultores, e como já vimos atrás, osestados membros da UE terão ferramentas legais para dirigir a ajuda directaàqueles que mais dela necessitam, i.e. o montante das ajudas directas aorendimento pagas serão função da área semeada, sendo as ajudas tantomenores quanto maiores forem as áreas semeadas- são as modulações.A inclusão de questões ambientais na reforma da PAC não é novidade. Noentanto, as novas propostas dão uma resposta mais sistemática e alargadaaos problemas ambientais. De acordo com as propostas, cabe aos estadosmembros da UE, associar o pagamento das ajudas directas aos produtores aocumprimento de regras ambientais que estes considerem apropriados. Ofinanciamento destas medidas agro-ambientais, para além de um orçamentopróprio, contarão com o dinheiro poupado pelos estados membros que optarempela modulação do pagamento das ajudas directas, bem como aquele dinheiroque não for despendido devido ao desrespeito das condições ambientais.As medidas agro-ambientais que constam do Plano de Desenvolvimento Rural2000-2006, respeitantes aos sistemas de mobilização de conservação do soloencontram-se em anexo.Do ponto de vista global, as diferentes modalidades da agricultura de conservação cresceramde uma forma drástica durante os últimos 15 anos. Relativamente a culturas anuais, em 1996foram utilizadas as técnicas de conservação em 78 milhões de hectares, com uma tendênciaa aumentar. Ao nível mundial, a sementeira directa/não mobilização aumentou de 6 para 47.5milhões de hectares nos últimos dez anos.Os EUA têm sido o país pioneiro neste domínio e continuam a liderar a agricultura deconservação em termos da sua adopção. Este desenvolvimento deve-se, em grande parte,aos apoios recebidos por parte de sucessivas administrações dos EUA sob a forma daimplementação dos chamados “Farm Bills” de 1985, 1990 e 1996. Em 1997, 37% dos 120milhões de hectares foram cultivadas utilizando as técnicas de conservação, mantendo pelomenos 30% do solo coberto com resíduos, enquanto a agricultura convencional (com menosde 15% de cobertura do solo) diminuiu em 36.5%. Mais de 18 milhões de hectares foramsemeados em sementeira directa/não mobilização.Outros países pioneiros na agricultura de conservação são a Austrália, Canadá, Brasil e Argentina. É derealçar que nestes últimos dois países, onde a agricultura não recebe subsídios governamentais, asementeira directa aumentou de poucos milhares de hectares em 1992 para mais de 12 e 7 milhões dehectares, respectivamente, em 1998.Lamentavelmente, neste momento, a agricultura de conservação está muito poucodesenvolvida na Europa (estimativas variam entre <1% até 2%), estando muito longe dospaíses atrás referidos. Actualmente, a França e a Espanha são os dois países europeusonde se encontram mais divulgadas estas técnicas de conservação, com cerca de 1 e 0.6milhões de hectares de culturas anuais, respectivamente, em 1998. Todavia deve-semencionar que a aplicabilidade das técnicas de conservação foi amplamente demonstrada namaior parte dos ambientes agrícolas na Europa. 28
  29. 29. Módulo: A produção vegetal com sistemas de Mobilização de Conservação Texto de apoio e consulta 1. DESENVOLVIMENTO VEGETALA sementeira, o contacto da semente com o solo e a germinação.O sucesso de uma cultura é muitas vezes determinado aquando dasementeira. Com os sistemas de mobilização de conservação do solo, eapesar dos semeadores especiais utilizados com alguns sistemas, todos oscuidados têm de ser tomados por forma a garantir um bom contacto dasemente com o solo. Assim, torna-se necessário o conhecimento dascaracterísticas do solo, a quantidade, tipo e tamanho dos resíduos de culturasà superfície do solo, e as características e tipo de trabalho produzido pelasalfaias e semeadores em cada solo.O conhecimento dos solos é essencial por forma a relacionar o teor dehumidade dos solos, e outras características, com o trabalho do semeador.Com um teor de humidade não adequado, a largura e/ou a profundidade dosulco criado pelo semeador podem não servir para alojar convenientemente asemente, bem como conduzir a um enterramento deficiente, o que poderáoriginar um mau contacto da semente com o solo, e uma emergência irregular.A este respeito, as dificuldades aumentam com o teor de argila do solo, poisnão só a resistência à penetração do semeador é maior em condições de soloseco, como também a sua plasticidade em condições húmidas dificulta o fechodo rego de sementeira, havendo o risco da semente ficar exposta. Para estetipo de solos é necessário a utilização de semeadores mais pesados e quetenham órgãos de abertura que apresentem um bom desempenho emcondições plásticas.Figura 1- Emergência heterogénea de um cereal por deficiente controlo daprofundidade de sementeira.No que concerne os resíduos das culturas à superfície do solo, os cuidadosdividem-se entre o funcionamento correcto dos semeadores e os problemas deemergência que podem resultar do excesso de resíduos. Com os semeadoresconvencionais, o problema mais comum é o arrastamento e envolvimento pelosórgãos activos do semeador de resíduos, que causam problemas vários,inclusive podem impedir a deposição da semente. Com os semeadores de 29
  30. 30. sementeira directa, e em condições de excesso de resíduos (por exemplo,cordões de palha da cultura anterior), os problemas mais comuns são o corte eafastamento deficientes dos resíduos, ficando parte dos resíduos embutidos nosulco, o que origina um contacto directo da semente com os resíduos e/ou ummau contacto da semente com o solo. O bom funcionamento deste tipo deagricultura exige assim que as palhas estejam uniformemente distribuídas nasuperfície do terreno. Em função do tipo de semeador e do tipo de palha,poderá haver ainda a necessidade de esta se encontrar traçada.Figura 2- Resíduos da cultura anterior embutidos nos sulcos podem dar origem a umamá germinação.Por vezes, os resíduos de algumas culturas, quando em excesso, podemoriginar a inibição da germinação das sementes da cultura seguinte. Estefenómeno (efeitos alelopáticos dos resíduos) fica-se a dever à libertação,aquando da degradação dos resíduos, de substância neles contidos e/ou desubstâncias do metabolismo dos micróbios que os degradam, que são tóxicospara as sementes, inibindo a sua germinação. Voltaremos a este assuntoquando discutirmos as rotações.Em relação ao trabalho do semeador, e levando em conta as característicasdo solo, dos resíduos à superfície, e da sementeira, ter-se-á que garantir tantoa homogeneidade da distribuição da semente, como a profundidade e oenterramento adequado. Assim, para realizar uma boa sementeira, a selecçãodo semeador deverá ter em conta o tipo de elementos de corte e/ouafastamento na linha dos resíduos que melhor se adapta ao sistema demobilização e a quantidade e forma dos resíduos deixados pelas culturas darotação, ao tipo de órgãos que fazem a abertura do sulco, que é em grandemedida função do tipo de solo, e ao tipo de órgãos que fazem o enterramentodas sementes. Saber regular os semeadores é fundamental.A retenção de água e a germinação.A mobilização dos solos conduz a uma secagem rápida da camada superficial.Esta secagem fica-se a dever ao grande arejamento do solo, aliado ao maioraquecimento a que ficam sujeitos por não estarem protegidos da radiação solarpelos resíduos. Assim, e em sequeiro, quanto maior for o intervalo de tempoque decorrer entre a mobilização do solo e a sementeira, maior será o risco 30
  31. 31. das sementes não germinarem ou a cultura emergir de forma heterogénea poro teor de água da camada superficial do solo ser insuficiente.Com os sistemas de mobilização de conservação do solo em geral, e com ossistemas de sementeira directa em particular, tanto a presença de resíduos dasculturas como um menor arejamento contribuem para a manutenção de umteor de humidade mais elevado da camada superficial do solo. Salvo rarasexcepções, e nas nossas condições climáticas, um menor arejamento etemperatura da camada superficial do solo não modificam de forma notável agerminação. O efeito do teor de humidade mais elevado da camada superficialsobre a germinação com os sistemas de mobilização de conservação tem sidoatestado por vários agricultores e especialistas.Figura 3- Perda de água da camada superficial após rega em sementeira directa emobilização tradicional.A formação de crostas.Em solos mobilizados, sem resíduos à superfície, o impacto das gotas de águada chuva ou da rega leva, em alguns solos, à ruptura dos agregados dasuperfície e à formação de crostas. As crostas tem um efeito negativo tanto aonível da infiltração de água no solo como na emergência das culturas. Quandoocorre a formação de uma crosta bem desenvolvida, logo após a sementeira, eesta endurece por secagem, a emergência da cultura pode ser bastanteafectada porque as plântulas podem não conseguir exercer a pressãonecessária para romper.Existem grandes diferenças entre os solos no que respeita a susceptibilidade àformação de crosta. Estas diferenças são devidas principalmente ao teor e tipode argila. Regra geral, solos com pouca ou com muita argila dão geralmentelugar a crostas pouco desenvolvidas, as primeiras por não terem argilasuficiente para formar uma crosta coesa, as segundas pela estabilidade,normalmente grande, dos agregados. Assim, grosso modo, são os solos comuma textura franca a franco-arenosa os mais susceptíveis à formação decrosta, logo aqueles que requer um cuidado maior no maneio dos resíduos. 31
  32. 32. Figura 4- As crostas, para além de diminuírem a infiltrabilidade dos solos, podemcausar problemas na emergência da cultura.Compactação da camada superficial e desenvolvimento das raízes. Osbioporos (minhocas, raízes, etc.) e a sua destruição pela mobilização.Com os sistemas de não mobilização dos solos, sistemas de sementeiradirecta, a superfície do solo apresenta-se compacta, por vezes com umadensidade aparente de 20%, ou mais, superior aos sistemas em que hámobilização do solo. Esta maior densidade, ver a tabela, leva a que osagricultores que adaptam estes sistemas temam que o crescimento das raízesseja menor, e que a produção diminua.Figura 5- Densidade aparente em 2 solos após vários anos de mobilizaçãodiferenciada (SD – sementeira directa, Lav – Lavoura). 32
  33. 33. De um modo geral, e nos primeiros 2 a 3 anos do uso de sistemas desementeira directa num determinado solo, é natural que haja um menorcrescimento das raízes com estes sistemas. No entanto, o que resta saber é seeste menor crescimento tem algum significado em termos da produção. Tantoas experiências científicas realizadas em Portugal e no estrangeiro, como aexperiência prática dos agricultores, mostram que, à excepção de algumasculturas de Primavera em sequeiro, a diminuição da produção não é notáveldurante os primeiros anos da adopção destes sistemas.Figura 6- Crescimento de raízes de uma cultura num solo em sementeira directa.O facto de o solo não ser mobilizado permite que os poros criados pela faunado solo (minhocas, etc.), e os resultantes da decomposição das raízes dasculturas anteriores, se conservem, aumentando de ano para ano. Esteaumento da porosidade por onde as raízes possam crescer, aliado ao aumentoda fertilidade e água disponível, permitem que a produtividade dos solos comos sistemas de sementeira directa, com o passar dos anos, seja igual oumesmo superior ao verificado com os sistemas de mobilização tradicional.Assim se compreende que é contraproducente a mobilização dos solosmantidos em sistemas de sementeira directa, seja qual for o número de anosem que o sistema venha a ser aplicado a um solo, uma vez que a mobilizaçãodos solos destrói esta rede de poros. 33
  34. 34. Figura 7- Bioporosidade em 2 sistemas de mobilização do solo.Tabela 1- Caracterização dos poros após vários anos de mobilização diferenciada (SD– sementeira directa, Lav – Lavoura) Profundi- Água > 50 µm 50 -10 10-0. 2 PorosidadeMobilização dade < 2µm utilizável (%) µm (%) µm (%) Total (%) (cm) (%) 10 3.2 2.22 2.7 38.37 46.52 4.92 SD 20 0.86 3.91 5.22 36.16 46.15 9.13 30 1.86 2.63 11.48 29.44 45.4 14.11 10 15.08 2.34 4.36 29.95 51.73 6.71 Lav 20 2.67 1.32 2.31 35.95 42.25 3.63 30 1.47 1.56 3.29 35.62 41.94 4.85Culturas outonais. Culturas primaveris. A rega.Ensaios levados a cabo em Portugal continental com culturas outonais eprimaveris permitiram estabelecer os valores da tabela abaixo. São valoresmédios, obtidos em ensaios de curta a média duração, pelo que podem nãoreflectir todo o potencial produtivo associados aos sistemas de mobilização deconservação estudados. 34
  35. 35. Figura 8- Ensaio de mobilizações conduzido na Herdade da Revilheira (DirecçãoRegional de Agricultura do Alentejo).De acordo com o que temos vindo a expor, as culturas de Primavera emsequeiro (e.g. girassol) poderão apresentar produções mais baixas com ossistemas de mobilização de conservação devido à resistência do solo àpenetração das raízes (ver figura)- há uma maior resistência à penetração dosolo com a diminuição da humidade- principalmente nos primeiros anos após oinício da utilização destes sistemas. Ainda assim, é necessário ter em menteque os problemas postos às culturas por uma maior resistência do solo àpenetração, em termos do crescimento das raízes, varia bastante, havendoculturas mais susceptíveis que outras. No entanto, em termos económicos, adiferença nas produções é, mesmo assim, largamente compensada peladiferença de custos a favor dos sistemas de mobilização de conservação.Figura 9- Resistência à penetração do solo sob 4 sistemas de mobilização diferentesQuando a cultura de Primavera é regada (e.g. milho), vemos que a produção ésensivelmente igual entre os sistemas de mobilização tradicional e deconservação. Nestes casos, a diminuição da evaporação por causa dosresíduos, a maior capacidade de retenção de água do solo, e um mais fácil 35
  36. 36. crescimento das raízes devido à menor resistência do solo, são os factoresdeterminantes. A experiência mostra, inclusive, que nas culturas de Primaveraregadas, os sistemas de mobilização de conservação podem gerar umaimportante poupança de água o que constitui por si só uma redução noscustos (custos com a água e energia (funcionamentos das bombas)).Tabela 2- Média das produções de vários anos e em diferentes solos – valoresexpressos em % do sistema tradicional (valores de ensaios de projectos deinvestigação da Universidade de Évora, coordenados pelos Professores MárioCarvalho e/ou Gottlieb Basch). Mobilização de Conservação Sementeira Directa Mobilização Mobilização Tradicional ReduzidaCevada 113 104 100Trigo 97 99 100Aveia 96 88 100Forragem 109 114 100Milho regado 107 90 100Girassol 74 88 100Grão-de-bico 79 88 100Ervilha 86 91 100 36
  37. 37. Módulo: A produção vegetal com sistemas de Mobilização de Conservação Texto de apoio e consulta 2. O CONTROLO DE INFESTANTESInfestantes anuais/pluri-anuais.Antes de iniciar, convém definir planta infestante. Neste texto adoptaremos adefinição do British Crop Protection Council (Comissão Britânica para aProtecção das Culturas), que é “qualquer planta a crescer onde não édesejada”. Assim, uma planta no campo não é forçosamente uma infestante, euma espécie agrícola pode ser uma infestante importante, por exemplo para acultura que a sucede numa rotação.As infestantes podem influenciar a produção de uma determinada cultura tantodo ponto de vista da qualidade como da quantidade. O seu controlo exige oconhecimento tanto da biologia das espécies como das culturas, e a suarelação com os aspectos agronómicos dos sistemas de produção (rotações,sistemas de mobilização dos solos, qualidades físicas e químicas dos solos,etc.).Pode-se distinguir entre as chamadas infestantes anuais, bi-anuais e pluri-anuais. As infestantes anuais, como o nome indica, germinam, crescem epassam as várias etapas do desenvolvimento em menos de 1 ano, morrendoapós a formação e maturação das sementes. As infestantes pluri-anuais, comoo nome indica, crescem e/ou passam as várias etapas do desenvolvimento emmais de 1 ano, podendo as sementes formadas serem férteis ou não, epodendo ter ou não, órgãos vegetativos que permitam a sua propagação e asobrevivência da planta em condições adversas (por exemplo, tubérculos,rizomas, etc.). A importância de fazer esta distinção reside no facto dosdiferentes sistemas de mobilização do solo influenciarem o tipo e a proporçãode infestantes que se encontram nos solos sujeitos aos diferentes sistemas.Figura 1- Exemplos de infestantes anuais (papoila, à dta.) e perenes (malvas, à esq.).Tipo de infestantes em função do sistema de Mobilização.Há que distinguir entre os sistemas em que há mobilização do solo dossistemas de sementeira directa. Nos sistemas em que há mobilização dossolos verifica-se um controlo efectivo das infestantes (anuais e pluri-anuais)mas criando as condições óptimas de germinação das sementes dasinfestantes, tanto pelo enterramento das suas sementes que se encontravam à 37
  38. 38. superfície do solo antes das mobilizações, como trazendo para a superfíciesementes que se encontravam em latência (sem condições para germinar) emprofundidade. Com os sistemas de sementeira directa, a não mobilização dossolos tem como consequência: o não enterramento das sementes dasinfestantes, o que favorece apenas as sementes das espécies infestantespouco exigentes em termos do enterramento da semente, e não haver umcontrolo mecânico das infestantes presentes aquando da sementeira, o queobriga a utilização de herbicidas de pré-sementeira.Figura 2- Embora haja um controlo efectivo das infestantes, a mobilização dos soloscria condições óptimas para a germinação de sementes das plantas infestantes.As sementes das espécies infestantes apresentam condições óptimas degerminação diferentes. Uma característica importante, quando tentamosperceber o efeito dos diferentes sistemas de mobilização do solo sobre aspopulações de infestantes, é a profundidade máxima a que uma semente podegerminar e dar lugar a uma nova planta. Como vemos na figura 3, o peso dassementes das infestantes, i.e. a quantidade de reservas que a sementecontém, determina a profundidade máxima a que uma semente pode germinare dar lugar a uma nova planta. A grande maioria das espécies anuais germinaa profundidades menores que 5 cm (peso da semente entre 0,1 e 5 mg).Figura 3- Relação entre o peso da semente e a profundidade de germinação.(Adaptado de “Weed Control Handbook”) 38
  39. 39. A mobilização frequente dos solos faz com que essa camada superficial dosolo contenha sempre uma quantidade razoável de sementes prontas agerminar: a lavoura enterra as sementes formadas recentemente,desenterrando as sementes que foram enterradas na lavoura anterior. Com ossistemas de sementeira directa, o controlo contínuo e eficaz das infestantescom herbicidas reduz, de ano para ano, o número de sementes de infestantesno solo uma vez que a renovação das sementes é menor tanto pelo menorgrau de enterramento das sementes (as sementes não enterradas ficam maissujeitas à morte e/ou destruição pelos organismos do solo, etc.), como pelofacto de não haver transporte de sementes de posições mais baixas no perfilpara a camada superficial.Tabela 1- Infestantes comuns em sementeira directa, após 3 a 5 anos de produçãocom este sistema. (Adaptado de “Guía de Agricultura de Conservación en CultivosAnuales”, Publicação conjunta da AELC/SV e CTIC) Anuais (Inverno e Primavera) Perenes e bi-anuaisNome científico Nome vulgar Nome científico Nome vulgarAlopecurus myosuroides rabo-de-raposa Cirsium arvense cardo-das-vinhasHudson.Amaranthus spp. bredos Convolvulus arvensis corriolaBrassicas spp. mostarda-negra, Cynodon dactylon grama saramagos, etc.Bromus spp. bromus Cyperus rotundus junçaCapsella rubella Reuter bolsa-de-pastor Ecbalium elaterium Pepino-de-são- gregórioChenopodium spp. quenopódios Malva spp. malvasDigitaria sanguinalis milhã-digitada Sorghum halepense sorgo bravoKochia scoparia ValverdeLactuca spp. alface brava, virosa, etc.Panicum spp. escalracho, milho míudo, etc.Solanum nigrum erva moiraStellaria media morugem-brancaSetaria spp. milhã amarelada, milhã verde, etc.O controlo mecânico das infestantes.Como vimos, a não mobilização dos solos (sistemas de sementeira directa)pode apresentar mais vantagens que os sistemas em que há mobilização dossolos no que concerne à redução do grau de infestação por espécies depropagação seminal. Que dizer em relação às espécies com mecanismosvegetativos de multiplicação?Com os sistemas em que há uma mobilização regular e mais ou menos intensados solos, salvo raras excepções, são poucas as espécies de infestantesperenes realmente problemáticas. A mobilização dos solos, embora numaprimeira fase possa conduzir à divisão dos órgão que permitem a propagaçãodos indivíduos, e assim aumentar o número de infestantes, quando repetida(no quadro de um programa de controlo de infestantes perenes) conduzgeralmente ao consumo das reservas presentes nos órgãos de propagação e àsua morte. 39
  40. 40. Com os sistemas de não mobilização (sementeira directa), e naqueles em quea mobilização dos solos compreende apenas parte da área (mobilização nazona) ou a intensidade de mobilização é baixa, não há uma destruição físicados órgãos de propagação das infestantes (separação e morte por dissecaçãoou esgotamento das reservas). Assim, o controlo de infestantes perenes comestes sistemas, e principalmente com os de não mobilização, exige a aplicaçãooportuna dos herbicidas certos, o que poderá implicar mexidas nas rotaçõestradicionais. Por exemplo, em parcelas onde os cereais sejam privilegiados narotação, é muito provável que não haja controlo das espécies infestantes cujosórgãos de propagação vegetativa permaneçam dormentes no períodoOutono/Inverno e em que os lançamentos apareçam apenas na Primavera(e.g. Convolvulus arvensis (corriola)).Os herbicidas: classificação dos tratamentos.Para além dos aspectos de natureza química, efeitos sobre os diferentesmecanismos fisiológicos das plantas, etc., os herbicidas podem serclassificados segundo uma perspectiva funcional . Assim, distinguem-se: • Tratamentos herbicidas totais ou não selectivos, e selectivos. Com os primeiros, a intenção é matar todas as plantas presentes, enquanto que com os tratamentos selectivos pretende-se matar as plantas infestantes poupando a cultura (há uma selecção). • Herbicidas de contacto e sistémicos. Os herbicidas de contacto afectam apenas as partes das plantas que recebem o herbicida, enquanto os sistémicos são absorvidos e transportados no interior das plantas afectando outros locais da planta para além dos locais onde ocorreu a absorção. Aqueles herbicidas aplicados ao solo que, após aplicação mantêm efeito herbicida, são ainda ditos residuais ou com efeito residual. • Aplicações de pré-sementeira, de pré-emergência e de pós- emergência, em relação à cultura. Como o nome indica, estes tratamentos realizam-se antes da sementeira, antes da emergência da cultura e após a emergência da cultura.Características da aplicação dos herbicidas em sistemas de MC. Os resíduosdas culturas e a intercepção dos herbicidas. O tamanho e distribuição dosresíduos à superfície do solo.Os tratamentos em pré e pós-emergência nos sistemas de mobilização deconservação não diferem, nos aspectos formais, daqueles realizados com ossistemas de mobilização tradicionais. No entanto, convém ter presente quecom os tratamentos herbicidas de aplicação ao solo (herbicidas residuais), umagrande parte pode ficar retido pelos resíduos, pelo que, se não chover e/ouregar nos dias após a aplicação, a sua eficácia diminui bastante. Nestes casos,é preferível utilizar tratamentos em pós-emergência. 40
  41. 41. Figura 4- Com os tratamentos herbicidas de aplicação ao solo, herbicidas de efeitoresidual, uma proporção variável dos herbicidas aplicados pode ficar retido pelosresíduos da cultura anterior.Com os sistemas de mobilização reduzida e tradicional, não se fazemnormalmente tratamentos de pré-sementeira uma vez que as mobilizaçõeseliminam só por si a quase totalidade das infestantes presentes.A realização de tratamentos de pré-sementeira com os sistemas de sementeiradirecta e de mobilização na zona é essencial uma vez que as plantasinfestantes presentes competirão agressivamente com a cultura logo após asua emergência. De uma forma geral utilizam-se herbicidas não selectivos (e.g.glifosato), sem efeito residual, permitindo assim a sementeira logo após aaplicação, sem risco para a cultura. A utilização de herbicidas residuais, queexijam a sua incorporação no solo devido a uma elevada volatilidade, comoherbicidas de pré-sementeira, não é geralmente possível com os sistemas demobilização de conservação uma vez que a maioria dessas substâncias só éeficiente se misturado vigorosamente no solo, situação não admissível comsistemas de mobilização de conservação. Assim, em situações em que asinfestantes ainda não tenham emergido (situações estas em que a aplicaçãode um herbicida de contacto, não residual, não faz sentido), o controlo dasinfestantes deve ser feito em pré e pós-emergência.Figura 5– Após o controlo das infestantes com um herbicida total, sementeira directade milho sobre um manto vegetal espesso.Os programas de controlo de infestantes. A sua flexibilidade. A importância doreconhecimento da flora, e grau de infestação, em cada parcela. 41

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