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ISSN 1982 - 0283BIBLIOTECAESCOLAR: QUEESPAÇO É ESSE?Ano XXI Boletim 14 - Outubro 2011
SumárioBiblioteca escolar: que espaço é esse?Apresentação....................................................................
3Biblioteca escolar: que espaço é esse?Apresentação“Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca”.(Jorge ...
4Biblioteca escolar: que espaço é esse?IntroduçãoGlaúcia Mollo1Maria José Nóbrega2Dados do Censo Escolar 2010, realizado p...
5se dá apenas por esse meio, o estudante dei-xa de aprender a ler textos em profundidade,isto é, não desenvolve as habilid...
6tratado filosófico, análise sociológica,e assim por diante), que usam a formanormal de leitura, constituem o que euchamar...
7uma aprendizagem significativa dos conteú-dos por meio da pesquisa escolar é ainda umdesafio a ser enfrentado.Os sentidos...
8a qualidade do ensino, ao promover práticasde leitura e acesso à informação de qualida-de, integrando equipe técnica, pro...
9encontrá-las, apresentá-las, recomendá-lasa possíveis leitores, enfim, alguém capaz dedinamizar sua circulação entre os m...
10Textos da série Biblioteca Escolar: que espaço é esse?5A série tem por objetivo discutir a questão das bibliotecas escol...
11ReferênciasCAMPELLO, Bernadete Santos et al. A Biblio-teca escolar: temas para uma prática pedagó-gica. Belo Horizonte: ...
12Texto 1: A Lei e seus desdobramentosGraça Maria Fragoso1Definir as bibliotecas das instituições de en-sino constitui uma...
13camente a toda hora. No terreno da leitura,a Internet e os livros digitais – se assim sepode defini-los – parecem ameaça...
14A Promulgação da Lei nº 12.244, de 24 demaio de 2010, que dispõe sobre a universa-lização das bibliotecas nas instituiçõ...
15cendo o desenvolvimento da capacidadede selecionar e avaliar;•	 incentivar os educandos a pensar de for-ma crítica, refl...
16acervo, de noções pedagógicas e educacio-nais. Um exemplo: ao narrar histórias paracrianças do ensino infantil, ele esta...
17•	 oferecer elementos que promovam aapreciação literária, a avaliação estética eética, tanto quanto o conhecimento dosfa...
18Texto 2: O papel da biblioteca naformação do leitorLuiz Percival Leme Britto1IntroduçãoEsse texto tem como principal mot...
19Desde logo, essa definição de leitor supõemais que simplesmente saber ler, implican-do uma atitude diante das coisas do ...
20para dar sentido à literalidade da leitura dapalavra.Do que se expôs acima, depreende-se que“ler”, no âmbito da formação...
21dida como prática social circunstanciada,favorecendo o alargamento do espírito e daspossibilidades de atuação e interven...
22A compreensão equivocada da dimensãoformativa também se manifesta quando sesustenta que é o leitor quem dá sentido aotex...
23catalogadas diversas coleções de livros,periódicos e outros documentos, que opúblico, sob certas condições, pode con-sul...
24gente aprende criando vínculos, produzindoidentidades e reconhecimentos, indagando,criticando, criando.A biblioteca esco...
25Bibliotecas modernas – escolares ou não –não têm por que serem vetustas e severas,como são, na imaginação, as grandes bi...
26Texto 3: O papel da biblioteca na formação doleitor literárioNinfa Parreiras1Entendemos que a família, como núcleoinaugu...
27da leitura e da cultura, o local que recebe oleitor, que lhe oferece as novidades (livros eperiódicos). O local de prese...
28Exposições temáticas de obras, uma arruma-ção convidativa aos frequentadores e umaatualização permanente do acervo devem...
29Por sua vez, a poesia, para quem cria, re-presenta um universo de imagens, de brin-cadeiras, de representações. Ao escre...
30salas de leituras nas escolas); o acervo (a di-versidade de obras literárias); a mediação (aatuação dos mediadores de le...
31Presidência da RepúblicaMinistério da EducaçãoSecretaria de Educação BásicaTV ESCOLA/ SALTO PARA O FUTUROCoordenação-ger...
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Biblioteca escolar

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Biblioteca escolar

  1. 1. ISSN 1982 - 0283BIBLIOTECAESCOLAR: QUEESPAÇO É ESSE?Ano XXI Boletim 14 - Outubro 2011
  2. 2. SumárioBiblioteca escolar: que espaço é esse?Apresentação.......................................................................................................................... 3Rosa Helena MendonçaIntrodução.......................................................................................................................................................4Glaúcia Mollo e Maria José NóbregaTexto1: A Lei e seus desdobramentos.....................................................................................12Graça Maria FragosoTexto 2: O papel da biblioteca na formação do leitor............................................................18Luiz Percival Leme BrittoTexto 3: O papel da biblioteca na formação do leitor literário..............................................26Ninfa Parreiras
  3. 3. 3Biblioteca escolar: que espaço é esse?Apresentação“Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca”.(Jorge Luis Borges)1 Supervisora pedagógica do programa Salto para o Futuro/TV ESCOLA (MEC).Segundo o Dicionário Houaiss de LínguaPortuguesa, biblioteca é, entre outras acep-ções, um “edifício ou recinto onde ficamdepositadas, ordenadas e catalogadas diver-sas coleções de livros, periódicos e outrosdocumentos, que o público, sob certas con-dições, pode consultar no local ou levar deempréstimo para devolução posterior”.Entre o sentido literal e o figurado, podemospensar numa gama de noções e propostas.Afinal, mais do que definir a biblioteca, im-porta pensar qual o papel dessa instituiçãona promoção da leitura.No caso das bibliotecas escolares, finalmen-te a Lei nº 12.244, sancionada em 2010, prevêa universalização das bibliotecas escolaresno Brasil. Com o objetivo de discutir os de-safios decorrentes da legislação e, ainda, osmúltiplos aspectos que envolvem a leituranas escolas e nas bibliotecas, a TV Escola, pormeio do programa Salto para o Futuro, apre-senta a série Biblioteca escolar: que espaço éesse?, que conta com a consultoria de Gláu-cia Mollo (assessora da Secretaria Municipalde Educação de Campinas/SP) e de Maria JoséNóbrega (assessora da Secretaria Municipalde Educação de São Paulo/SP), ambas comvasta experiência na área.Nos programas televisivos e nos textos destapublicação eletrônica, por meio de reporta-gens em escolas e bibliotecas, além de entre-vistas com leitores, escritores e especialistas,temas como o papel das bibliotecas e a compo-sição dos acervos das bibliotecas escolares, ouso dos recursos multimidíáticos da cibercul-tura nas pesquisas dos alunos, a formação doleitor literário, entre outros, serão debatidos.O objetivo é contribuir para a formação deprofessores e bibliotecários na promoção daleitura entre os alunos da educação básica.Rosa Helena Mendonça1
  4. 4. 4Biblioteca escolar: que espaço é esse?IntroduçãoGlaúcia Mollo1Maria José Nóbrega2Dados do Censo Escolar 2010, realizado peloMinistério da Educação (MEC), revelam umasituação preocupante: a cada dez escolas,sete não têm um acervo de livros disponívelpara seus estudantes. Apenas 30,4% das es-colas brasileiras, nos anos iniciais do EnsinoFundamental, possuem bibliotecas. Um per-centual menor do que as 38,9% com acessoà internet.A situação fica ainda mais alarmante, quan-do cruzamos esses dados com os do CensoNacional das Bibliotecas Públicas Municipais2009. Essa iniciativa do Ministério da Cultu-ra, realizada pela Fundação Getúlio Vargas,apontou que 445 municípios do país não têmbiblioteca – o que representa 8% do total.Conhecer esse cenário permite compreender oenorme desafio que a sociedade brasileira tempela frente para fazer com que a Lei nº 12.244,aprovada em 2010, que prevê a universalizaçãodas bibliotecas escolares no Brasil saia do pa-pel e permita que os estudantes brasileiros, ex-cluídos da convivência com os livros, possamfinalmente ter acesso à cultura escrita.A promulgação da lei coloca em pauta a dis-cussão sobre o papel da biblioteca escolar emum momento em que a tecnologia, particu-larmente computadores conectados à Inter-net, permite o acesso a uma imensa varieda-de de fontes. Conectado, o leitor pode definiro fluxo de sua leitura interativamente, semestar preso à sequência de tópicos estabeleci-da pelo autor, já que pode saltar de um link aoutro em função de seus objetivos, compon-do um texto orientado pelo ato de ler.O acesso virtual a textos, bem como as no-vas práticas de leitura, produzem grandeimpacto na aprendizagem escolar em queo livro ocupa(va) posição central. Particu-larmente o livro didático, cujo conteúdo, aomenos em teoria, é tratado de modo a ir aoencontro das possibilidades dos estudantesde determinado nível de ensino. Embora nãose deva ignorar a internet, se o letramento1 Assessora da Secretaria Municipal de Educação de Campinas/SP. Consultora da série.2 Assessora da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo/SP. Consultora da série.
  5. 5. 5se dá apenas por esse meio, o estudante dei-xa de aprender a ler textos em profundidade,isto é, não desenvolve as habilidades neces-sárias para depreender o assunto, a ideiaprincipal, reconhecer a articulação hierár-quica entre os tópicos abordados, reconhe-cer o ponto de vista sustentado, avaliar oconteúdo tratado. Realizar pesquisas exten-sas, de fôlego, exige leitores capazes de lerde modo reflexivo. Essa é uma importantediscussão a ser feita, para não se esmorecerna luta por bibliotecas, quando parece tãomais fácil acessar informações pela internet.Em seu artigo terceiro, o texto legal, ao de-terminar que os sistemas de ensino do Paísempreendam esforços progressivos para quea universalização das bibliotecas escolaresocorra em um prazo máximo de dez anos,lembra-nos de que, em pleno século XXI, oacesso à biblioteca ainda não está assegura-do a muitos brasileiros. Boa parte dos edu-cadores – a quem cabe a tarefa de formarleitores – certamente também não vivenciouas possibilidades que uma biblioteca pode re-presentar na vida de uma pessoa e, portanto,na vida da comunidade. Para muitos, biblio-teca ainda é o “coletivo de livros”, um espaçopouco representativo na instituição escolar.Para ainda cumprir seu ideal, a bibliotecaprecisa ser essencial à vida acadêmica e cul-tural da escola, inscrever-se em seu projetopedagógico, nos planejamentos dos profes-sores. Para ainda cumprir seu ideal, a biblio-teca precisa ser sensível às necessidades dacomunidade em que se insere, estabelecerdiálogo com as bibliotecas municipais ecom as manifestações culturais do municí-pio. Como criar esse espaço pulsante com amemória das bibliotecas invisíveis?Bibliotecas: livros para ler epara consultarOs livros ainda são os instrumentos maisusados nas escolas para a formação acadê-mica, entretanto, o conceito de alfabetiza-ção hoje implica não só construir familiari-dade com os textos impressos, mas tambémaprender a interagir com diferentes mídias,acessar informações que podem estar arma-zenadas em diversos suportes informacio-nais, discriminar fontes confiáveis.O texto impresso no suporte livro orientaos modos de ler: em nossa cultura, da es-querda para a direita, de cima para baixo,linearmente. No computador, os hipertextospermitem conectar uma rede fabulosa, jáque cada link pode, potencialmente, ligar-sea outro. Qual o impacto desses novos meiosnas práticas de leitura?Umberto Eco, em conferência apresentada naThe Italian Academy for Advanced Studies inAmerica, em novembro de 1996, defendeu aexistência de dois tipos de livros: aqueles paraserem lidos e aqueles para serem consultados:Livros-para-ler (podendo ser romance,
  6. 6. 6tratado filosófico, análise sociológica,e assim por diante), que usam a formanormal de leitura, constituem o que euchamaria de estória de detetive.Você começa na página 1, onde o autorlhe diz que um crime foi cometido, vocêsegue todo o caminho da investigaçãoaté o final e, finalmente, você descobreque o culpado é o mordomo. É o fim dolivro e o fim de sua experiência de leitura.(...)Depois há os livros para serem consulta-dos, como manuais e enciclopédias.(...)As enciclopédias são concebidas de sor-te a serem sempre consultadas e nuncapara serem lidas da primeira a últimapágina. Geralmente, pega-se um dadovolume de uma enciclopédia para saber-se, ou lembrar-se, quando Napoleãomorreu ou qual é a fórmula do ácido sul-fúrico (ECO, 1996).O Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Mu-nicipais revela que 65% dos frequentadores dasbibliotecas municipais vão aos estabelecimen-tos para fazer pesquisas escolares. “Livros-pa-ra-consultar”, como as enciclopédias. Apenas8% dos frequentadores das bibliotecas munici-pais declaram ler como lazer. “Livros-para-ler”como romances, contos, poemas ou aquelesque demandam leitura atenta e não simplesvarredura para localizar uma informação.Como as crianças, jovens e adultos, alunosda educação básica, leem “livros-para-con-sultar” e “livros-para-ler”?Sabe-se que os “livros-para-consultar” fo-ram os que mais fortemente sofreram oimpacto da internet: a tarefa, que antes sefazia consultando vários volumes de umaenciclopédia, para depois copiar com letracaprichada em folhas de papel almaço, hojeé realizada com alguns cliques. Encontradaa informação, é só selecionar o trecho e apli-car os comandos: “Control C” copiar e “Con-trol V” colar. Se a universalização do acessoe o estímulo à permanência no Ensino Fun-damental já estão garantidos aos estudantesde 7 a 14 anos, ainda estamos distantes deoferecer a todos uma escolarização de qua-lidade que crie condições de aprendizagemdas capacidades necessárias para inserir-senas práticas letradas3. Criar condições para3 Os números do IDEB/2009 (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), indicador criado pelo Ministérioda Educação para aferir qualidade de ensino, são: ensino fundamental – da 1ª a 4ª série – 4,6; da 5ª a 8ª série – 4,0;ensino médio – 3,6 pontos. Os índices, com variação entre zero e dez, são inferiores aos dos países desenvolvidos queparticipam da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) que é 6. O IDEB é compostopor duas variáveis: fluxo e desempenho nas provas nacionais. O fluxo indica o grau de aprovação e a relação idade/série escolar. O desempenho indica o grau de acerto dos alunos nas avaliações do SAEB e Prova Brasil em LínguaPortuguesa e Matemática.
  7. 7. 7uma aprendizagem significativa dos conteú-dos por meio da pesquisa escolar é ainda umdesafio a ser enfrentado.Os sentidos não repousam serenamente so-bre as linhas do texto à espera de leitoresaptos a decifrar os sinais gráficos e a colherinformações (copiando seja lá de que modofor). Leitores procuram entender do quetratam os textos, acompanhando o enca-deamento dos tópicos abordados, reconhe-cendo os pontos de vista sustentados, ade-rindo ou não ao que propõem seus autores,deixando-se ou não tocar pelas palavras. Leré dialogar com o outro por meio dos textos.Dessa experiência o leitor pode sair transfor-mado, pois, como bem ensinou Paulo Freire,a leitura “é um processo que se antecipa e sealonga na inteligência do mundo”.É pelas mãos de professores ou bibliotecáriosque os leitores-iniciantes podem realizar suasprimeiras aproximações com os textos. Comose refletissem sobre o que leem em voz alta,auxiliam os alunos a reconhecer as vozes quepermeiam os textos, a trazer à tona as ênfa-ses singulares dadas pelo grupo, a estabelecercontrapontos entre o que o que está escrito e oque cada leitor acha que o texto diz. Progressi-vamente, o leitor-iniciante internaliza o diálo-go com o texto, solta a mão dos mediadores ea leitura se torna autônoma.Mas, para superar a dependência da leituracompartilhada, é preciso construir a educa-ção para a autonomia, isto é, não ignorar adimensão individual que assinala as práticasde leitura em nossa sociedade. Trata-se dodifícil equilíbrio entre tutela e autonomia.Se não educamos para a liberdade de ler,produzimos leitores adestrados que, tãologo se veem livres das coerções escolares,abandonam a leitura; se não desenvolvemosas capacidades necessárias para ler reflexi-vamente, interditamos o acesso aos textosde maior complexidade.Didaticamente, é preciso desenvolver ativi-dades de leitura que auxiliem os alunos a de-preender o sentido global do texto, estabele-cer relações, inferir, avaliar criticamente olido, além de outras que os estimulem a lerextensivamente autores, gêneros e assuntospreferidos, desenvolver o gosto estético etc.A receita pode ser simples: realizar a leituralúdica da obra, compartilhar impressões pro-vocadas pela vivência com o texto, promoveruma releitura reflexiva para apreciar o trata-mento dado ao tema e os recursos expressivosselecionados pelo autor. A prática de leitura as-sim orientada permite alargar os horizontes deexpectativa do leitor, transformando-o.Bibliotecas: espaços etratamento do acervoAinda que não seja a salvação da escola e daeducação pública, a biblioteca escolar podeser um lugar privilegiado que contribua para
  8. 8. 8a qualidade do ensino, ao promover práticasde leitura e acesso à informação de qualida-de, integrando equipe técnica, professores ealunos à sua comunidade.Como qualquer outro equipamento esco-lar, a biblioteca precisa estar enraizada noprojeto pedagógico da escola, já que é peçarelevante para a formação de usuários com-petentes da linguagem escrita, que se cons-titui como uma dimensão capacitadora dasaprendizagens em todas as áreas. Mas, paraque possa atuar como centro de informa-ção, além do diálogo entre os profissionaisque atuam na instituição, a biblioteca pre-cisa estar equipada e organizada para fun-cionar bem. Essa demanda se traduz em umespaço agradável, além de um acervo comtítulos impressos e digitais que atenda àsdemandas da pesquisa escolar e da leituraliterária.Não se pode ignorar que, se o acesso a li-vros e à internet amplia para uma parcelada população as oportunidades para que seaproprie de informação, cria também, paraoutra maior ainda, mais um abismo – o daexclusão do impresso e do digital. Cabe àsbibliotecas a tarefa de promover a inclusãoa essas mídias, armazenando material rele-vante para os que as frequentam.O acervo de uma biblioteca revela muito arespeito do tipo de serviço que presta a seususuários e, por isso, é fundamental dar aten-ção à diversidade, à qualidade e à quantida-de do material oferecido. Em geral, o acervoque se encontra nas bibliotecas escolarespúblicas resulta de doações, feitas por pro-gramas de governo, como o PNBE (Progra-ma Nacional de Biblioteca da Escola)4, ououtros com recursos estaduais ou munici-pais. O problema é que, às vezes, os livrosse perdem no caminho entre a diretoria, asala do coordenador, o almoxarifado; ou sãotrancados a sete chaves para não serem da-nificados.Como lembra o poeta Antonio Cícero, “Guar-dar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. [...] Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la,mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ouser por ela iluminado.” Guardar um livro éiluminá-lo com a leitura de seus leitores.Assim, são pouco úteis estantes repletas deobras-primas se não estiverem organizadaspor um profissional que, no mínimo, saiba4 O Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), desenvolvido desde 1997, distribui acervos de obras deliteratura, de pesquisa e de referência. O atendimento é feito em anos alternados: em um ano são contempladasas escolas de Educação Infantil, de Ensino Fundamental (anos iniciais) e de Educação de Jovens e Adultos. Já noano seguinte são atendidas as escolas de Ensino Fundamental (anos finais) e de Ensino Médio. Há também o PNBEPeriódicos, que avalia e distribui revistas de conteúdo didático e metodológico e o PNBE do Professor, que tem porobjetivo apoiar a prática pedagógica dos docentes. Atualmente, o programa atende a todas as escolas públicascadastradas no Censo Escolar.
  9. 9. 9encontrá-las, apresentá-las, recomendá-lasa possíveis leitores, enfim, alguém capaz dedinamizar sua circulação entre os membrosda comunidade escolar. Um espaço bem de-corado e um bom acervo, portanto, não sãosuficientes para o funcionamento efetivo dabiblioteca sem a figura do educador, seja eleprofessor ou bibliotecário, que promova oencontro entre a palavra escrita e os leito-res, que ajude a desvendar os sentidos guar-dados nos textos.Infelizmente, ainda é muito recorrente quea biblioteca escolar, quando ela existe, sejagerenciada por funcionário não especializa-do, às vezes, afastado do contato direto comos alunos por motivos de saúde. Ser apaixo-nado pela leitura e manter acesa a curiosi-dade são requisitos essenciais para o exer-cício dessa tarefa que promove o encontroamoroso entre o texto e o leitor. Esse profis-sional não pode ser apenas o arquivista res-ponsável por catalogar e armazenar livros,mas, principalmente, precisa ser o mediadorque aproxima os estudantes da informaçãodesejada, auxilia na compreensão dos tex-tos e na avaliação crítica das fontes, divulgaas novas aquisições, desenvolve estratégiaspara dar a conhecer o acervo, promove ativi-dades culturais referentes ao mundo da cul-tura escrita, articula as ações escolares comas da comunidade, enfim, tece uma rede deinformação e de negociação de sentidos.O bom funcionamento da biblioteca escolardepende de ações estratégicas. É o trabalhoconjunto de professores e bibliotecário quefará com que os serviços prestados por elasejam relevantes para todos: funcionários,professores, alunos. Um trabalho dessa na-tureza torna a biblioteca necessária à comu-nidade escolar, que sente falta do que lá seexperimenta, dos materiais disponíveis, dasinformações desejadas.Se fechassem a biblioteca da escola em quevocê trabalha para abrir novas salas de aula,o que aconteceria? Protestos indignados ouresignação?Somente quando as vivências que aconte-cem na biblioteca forem essenciais à vidaescolar é que ela deixará de ser um lugarde esconder livros (às vezes, até mesmo dedepositar o “entulho” que não se sabe ondepôr). Somente quando as experiências vivi-das na biblioteca forem essenciais à vida es-colar ela se tornará um local tão importantequanto a quadra de esportes, o refeitório, obanheiro.
  10. 10. 10Textos da série Biblioteca Escolar: que espaço é esse?5A série tem por objetivo discutir a questão das bibliotecas escolares a partir da promulgação daLei nº 12.244, de 24 de maio de 2010, que dispõe sobre a universalização das bibliotecas nas ins-tituições de ensino do País, colocando em pauta a discussão sobre o seu papel em um momentoem que a tecnologia, particularmente computadores conectados à Internet, permite o acessoa uma imensa variedade de fontes. Este tema será discutido nos textos e programas da série.Texto1/PGM 1: A Lei e seus desdobramentosNo primeiro texto da série, serão apresentados o texto legal e as orientações a respeito do quevem a ser uma biblioteca escolar: o espaço físico, o acervo e sua organização, o acesso à inter-net, os serviços e atividades e a qualificação do pessoal.Texto 2/PGM 2: O papel da biblioteca na formação do leitorNo segundo texto, discute-se o papel da biblioteca na formação do leitor de textos da esferaacadêmica e escolar. E também o desenvolvimento das habilidades para a leitura de textos ex-positivos, cuja finalidade é ler para aprender no âmbito da pesquisa escolar: localização e sele-ção de informação relevante, compreensão do conteúdo proposicional do texto, avaliação crí-tica do material lido. Apoio à busca autônoma de conteúdo que responda a interesses pessoais.Texto 3/PGM 3: O papel da biblioteca na formação do leitorliterárioO terceiro texto discute o papel da biblioteca na formação do leitor de textos da esfera literária,o que pode favorecer a construção da própria subjetividade, a ampliação de seus horizontes dereferências, a abertura para círculos de pertencimento mais amplos.Os textos 1, 2 e 3 também são referenciais para as entrevistas e debates do PGM 4 – Outrosolhares sobre a Biblioteca Escolar e do PGM 5: Biblioteca Escolar em debate.5 Estes textos são complementares à série Biblioteca Escolar: que espaço é esse?, com veiculação no programaSalto para o Futuro/TV Escola (MEC) de 24/10/2011 a 28/10/2011.
  11. 11. 11ReferênciasCAMPELLO, Bernadete Santos et al. A Biblio-teca escolar: temas para uma prática pedagó-gica. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.CICERO, Antonio. Guardar. Rio de Janeiro:Record, 1996.ECO, Umberto. Da Internet a Gutenberg. Dis-ponível em: http://www.inf.ufsc.br/~jbosco/InternetPort.html Acesso em 05/09/2011.FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler.São Paulo: Cortez Editora, 1992.INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pes-quisas Educacionais Anísio Teixeira. ResumoTécnico – Censo Escolar 2010. http://www.google.com/search?q=RESUMO+T%C3%89CNICO+%E2%80%93+CENSO+ESCOLAR+2010&hl=pt-BR&sourceid=gd&rlz=1D1GGLD_pt-BRBR431BR432 Acesso em 05/09/2011.JOUVE, Vincent. A Leitura. São Paulo: EditoraUNESP, 2002.KLEIMAN, Angela B. Texto e Leitor. Campinas:Pontes, 2005.KUHLTHAU, Carol C. Como orientar a pesqui-sa escolar. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.KUHLTHAU, Carol C. Como usar a bibliotecana escola. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.Ministério da Cultura, Fundação BibliotecaNacional, Fundação Getúlio Vargas. CensoNacional das Bibliotecas Públicas Municipais.Disponível em: http://www.cultura.gov.br/site/2010/04/30/primeiro-censo-nacional-das-bibliotecas-publicas-municipais/ Acessoem 05/09/2011.NEVES, Conceição Bitencourt e outros(orgs.). Ler e escrever: compromisso de todasas áreas. Porto Alegre: Editora da Universida-de/UFRGS, 1999.Presidência da República, Casa Civil, Sub-chefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 12.244De 24 de maio de 2010 – Dispõe sobre a univer-salização das bibliotecas nas instituições de en-sino do País. Disponível em: http://www.pla-nalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/L12244.htm Acesso em 05/09/2011.SOARES, Magda. Letramento: um tema emtrês gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.São Paulo: SME/DOT – Diretoria de Orien-tação Técnica. Referencial de expectativaspara o desenvolvimento da competência lei-tora e escritora no ciclo II do ensino funda-mental, 2006.SOLÉ, Isabel. Estratégias de leitura. Porto Ale-gre: ARTMED, 1998.
  12. 12. 12Texto 1: A Lei e seus desdobramentosGraça Maria Fragoso1Definir as bibliotecas das instituições de en-sino constitui uma missão complexa. Comodefinir um local que raramente faz parte dasinstituições de ensino brasileiras? A visãoque se tem de uma biblioteca é muitas ve-zes distorcida. Muitas vezes é conceituadacomo um lugar sagrado, onde se guardamobjetos também sagrados, para desfrute dealguns eleitos. Ora, sob uma ótica menos ro-mântica, é apenas uma instituição burocra-tizada, que serve para consulta e pesquisa,assim como para armazenar bolor, cupins etraças. Para poucos, aqueles que a frequen-tam assiduamente, ela constitui o local doencontro com o prazer de ler, de conhecer,de informar-se. Com o advento da socieda-de da informação, novos conceitos para asbibliotecas são construídos ampliando seuhorizonte e expandindo seus serviços. Servi-ços estes ainda distantes da grande maioriade nossas escolas.O fato é que, quando se trata de Brasil, amaioria das pessoas desconhece o verda-deiro papel de uma biblioteca em suas vi-das e, portanto, na vida da comunidade. Eesta afirmação se aplica tanto aos leitoresem potencial quanto àqueles que, de ummodo ou outro, têm responsabilidade peloseu funcionamento. Como, por exemplo, asescolas. Por inúmeras razões, as bibliotecasnas escolas brasileiras estão ainda longe decumprir sua importantíssima função no sis-tema educacional. Poucas instituições dis-põem dos recursos e da visão necessários(duas condições que nem sempre andamjuntas…) para manter uma biblioteca dignadesse nome. Ainda são poucos os profissio-nais empenhados em prestar serviços querealmente deem suporte ao aprendizado e àvida cultural da escola.Neste século, as mudanças têm sido pro-fundas e muito mais velozes, em relação aoritmo de desenvolvimento da vida humanana Terra até cem anos atrás. Os meios decomunicação se aperfeiçoaram e continu-am a se transformar numa progressão cadavez mais vertiginosa, já que, em matéria detecnologia, o novo torna-se obsoleto prati-1 Consultora em instituições de ensino para Leitura.
  13. 13. 13camente a toda hora. No terreno da leitura,a Internet e os livros digitais – se assim sepode defini-los – parecem ameaçar o futurodo livro convencional.A questão não é apenas o quê se lê atualmente,mas quantos estão lendo. A pouca leitura podeser efeito da concorrência com outros meiosde comunicação, porém, entre nós, ela é prin-cipalmente o reflexo de um sistema educacio-nal que há várias décadas vem se deteriorando.Por isso, costumamos dizer que com a introdu-ção do livro gerou um número quase ilimitadode leitores: sem planos e ações educacionaissolidamente estruturados, ainda que se façamgrandes esforços ao longo dos anos para redu-zir o analfabetismo – e, no caso brasileiro, comresultado – ainda assim não se constata umapopulação leitora. E nem, é óbvio, cidadãosconscientes e atuantes.Consequência direta ou indireta desse qua-dro, na grande maioria das escolas brasi-leiras de Ensino Fundamental e de EnsinoMédio, como citação anterior, quando hábibliotecas, prevalece um sistema arcaicode utilização e aproveitamento do acervo enão apenas por indigência material. Mesmoaquelas que podem se dar o luxo de algumaparato tecnológico e de práticas mais mo-dernas relutam em investir nos recursos hu-manos, deixando que alguns velhos cacoe-tes culturais perdurem. Por exemplo, o deimprovisar um guardião que terá como mis-são, de fato, guardar o geralmente precáriomaterial bibliográfico. E o fará, geralmente,objetivando apenas a preservação e não acirculação do acervo e o fará com rabugicede burocrata. Os leitores da assim chamadabiblioteca – crianças e adolescentes, em suamaioria – irão frequentá-la com igual despre-paro e desinteresse, subutilizando sempreos possíveis recursos. E o contato prazero-so com a leitura – já de si tão problemáticonestes tempos de cultura visual – este sim,passa por metamorfose definitiva: ler se tor-na mais um entre os deveres escolares.Acervo... espaço físico...incentivo para a leituraA situação da biblioteca nas instituições deensino no Brasil é reflexo do contexto emque ela tem existência, qual seja o da edu-cação. Portanto, não é grande surpresa a di-ficuldade em se obterem dados atualizadossobre essa situação: quantas escolas pos-suem bibliotecas, o porte de seus acervos,quais têm profissionais especializados emseu comando e daí por diante.Com isso, os alunos do Ensino Fundamentale do Ensino Médio ainda ficam privados dematerial de pesquisa, leitura e de outras fon-tes de informação, além do próprio profes-sor e do material didático. Em última aná-lise, então como agora, os estudantes semacesso a uma biblioteca em sua própria es-cola correm mais o risco de ficar à margemde um ensino democratizado.
  14. 14. 14A Promulgação da Lei nº 12.244, de 24 demaio de 2010, que dispõe sobre a universa-lização das bibliotecas nas instituições deensino do País, possibilita a revisão dos pa-radigmas, amplia o horizonte das bibliote-cas e estabelece amparo legal para criaçãode bibliotecas com espaço físico adequado,acervo selecionado e adquirido, levando emconta as prioridades da comunidade esco-lar e a especificidade regional. E concretizaa presença profissional especializada paragerenciar esse local, dinamizando seus ser-viços e produtos em sintonia com o corpotécnico e docente.FunçõesEmbora muitas vezes marginalizada de nos-so sistema educacional, a biblioteca escolar,aqui adjetivada, tem funções fundamentaisa desempenhar e que aqui foram agrupadasem duas categorias: a educativa e a cultural.Na função educativa, ela representa amplia-ção à ação do corpo docente e discente daescola. Quanto ao primeiro, desenvolvendohabilidades de estudo independente, agindocomo instrumento de autoeducação, moti-vando uma busca do conhecimento, incre-mentando o gosto pela leitura e, ainda, auxi-liando na formação de hábitos e atitudes demanuseio, consulta e utilização do acervo,da biblioteca e da informação. Quanto à atu-ação do educador e da instituição, a biblio-teca complementa as informações básicas eoferece seus recursos e serviços à comuni-dade escolar de maneira a atender às neces-sidades do planejamento curricular. No quediz respeito ao planejamento escolar, ressal-to que o bibliotecário deve ter sua atuaçãoprojetada junto aos educadores e técnicosda instituição de ensino da qual faz parte.Especificando, nessa função o profissionalque atua na biblioteca poderá contar comuma série de recursos tecnológicos para am-pliar a sua atuação.Em sua função cultural, a biblioteca de umaescola torna-se complemento da educaçãoformal, ao oferecer múltiplas possibilida-des de leitura e, com isso, levar os alunosa ampliar seus conhecimentos e suas ideiasacerca do mundo. Pode contribuir para aformação de uma atitude positiva, praze-rosa, frente à leitura e, em certa medida,participar das ações da comunidade escolar,servindo-lhes de suporte.Nessas funções, por assim dizer, “ideais” deuma biblioteca escolar, estariam implícitosseus objetivos como instituição, que relacio-namos a seguir:• integrar-se ao projeto pedagógico e coo-perar com o currículo da instituição deensino no atendimento às necessidadesda comunidade escolar;• estimular e orientar a comunidade esco-lar em suas consultas e leituras, favore-
  15. 15. 15cendo o desenvolvimento da capacidadede selecionar e avaliar;• incentivar os educandos a pensar de for-ma crítica, reflexiva, analítica e criadora,orientados por equipes inter-relacionadas(educadores + bibliotecários);• proporcionar aos leitores materiais diver-sos e serviços bibliotecários adequados aoseu aperfeiçoamento e desenvolvimentoindividual e coletivo;• promover a interação do trinômio – pro-fessor-bibliotecário-aluno – facilitando oprocesso ensino-aprendizagem;• oferecer um mecanismo para a democra-tização da educação, permitindo o acessode um maior número de crianças e jovensa materiais educativos, seja eles impres-sos, virtuais ou digitais e, através disso,dar oportunidade ao desenvolvimento decada aluno a partir de suas atitudes indi-viduais;• contribuir para que o corpo docente am-plie sua percepção dos problemas educa-cionais, oferecendo-lhe informações queo ajudem a tomar decisões no sentido desolucioná-los, tendo como ponto de parti-da valores éticos e cidadãos.O papel do bibliotecárioDe nada serviria uma bela biblioteca escolar,com espaço físico e acervo suficiente às ne-cessidades da comunidade escolar se, paraexercer as funções e cumprir seus objetivos,ela não contar com a presença de um profis-sional consciente, com sensibilidade e habi-litações especificas para manter esse espaçode educação, cultura e informação revestidode importância, atraente e oportunizandoaos leitores o questionamento, a descobertae as aprendizagens significativas.Entre as habilitações se incluem, claro,aque­les conhecimentos técnicos essenciaisde organização do acervo, bem como dosmecanismos cotidianos para utilizá-lo: em-préstimos e devoluções, dentre outros. Éverdade que a maior parte das bibliotecasnas escolas brasileiras não conta com umbibliotecário à sua frente. Para atuar comobibliotecário, nesse segmento, o profissio-nal deve ter noções precisas de seu papel.Deve saber, por exemplo, que lhe competeoferecer oportunidades, materiais e ativi-dades específicas, visando despertar o in-teresse da comunidade escolar pela biblio-teca para, a partir daí, poder trabalhar nodesenvolvimento da leitura. Na escola, o bi-bliotecário se reveste de suma importânciaquando se comporta e atua como membrode um trabalho integrado, dinâmico, capazde mobilizar alunos e educadores à leiturapara aprender a aprender, aprender para sa-ber e para ter conhecimento da sociedadeque os cerca.A promoção de certas atividades requer, porparte dos bibliotecários, conhecimentos darealidade educacional, da especificidade do
  16. 16. 16acervo, de noções pedagógicas e educacio-nais. Um exemplo: ao narrar histórias paracrianças do ensino infantil, ele estará parti-cipando ativamente do processo de alfabeti-zação e possibilitando a esse futuro leitor avisão positiva do ato de ler.Ler poemas, para despertar emoções e senti-dos; realizar exposições, entrevistas; promo-ver a leitura de textos teatrais; oferecer ati-vidades em diversos campos da arte, comoa mímica, a dramatização, a pintura; fazeruso das novas tecnologias da informação eda comunicação como agentes motivadoresde ações de leitura e ampliação do conhe-cimento. Eis algumas das ações que biblio-tecários podem e devem empreender no re-cinto da biblioteca ou fora dela, mas sempreem consonância com o currículo e coadju-vando o trabalho do corpo docente.Em síntese, sua grande tarefa é tornar a bi-blioteca da escola um lugar agradável, dinâ-mico, onde prevaleça um clima de harmoniaentre ele e o público, seja qual for a faixaetária ou a posição deste na hierarquia daescola. A principal barreira a ser vencidanesse convívio parece ser a que tacitamentese ergue entre o educador e o bibliotecário.Este, por nem sempre estar bem entrosadocom os problemas educacionais, costumafechar-se em seus “domínios”, tornando-seapenas mero entregador de livros.O professor, por não saber desenvolver, namaioria dos casos, outro tipo de aula quenão o discursivo, acha que prescinde do bi-bliotecário e não o procura. E assim se têmperdido ótimas oportunidades de um tra-balho entrosado que propiciaria a aprendi-zagem baseada na indagação e na busca deconhecimentos mais amplos.Apresentamos as principais funções e atri-buições que deveriam fazer parte do cotidia-no do bibliotecário que gerencia uma biblio-teca de escola:• participar ativamente do processo edu-cacional, planejando junto ao quadropedagógico as atividades curriculares. Eisso deve ser feito para todas as discipli-nas, acompanhando o desenvolvimentodo programa, colocando à disposição dacomunidade escolar materiais e serviçosque complementem a informação trans-mitida em classe;• participar do processo de alfabetização;• fazer do espaço físico da biblioteca ummotivador de leitura, um local harmonio-so, de modo a que os leitores se sintamatraídos por ela;• estimular os alunos, através de atividadessimples, desde o maternal, a desenvolve-rem o “gostar de ler”;• proporcionar informações básicas quepermitam ao aluno formular juízos inte-ligentes na vida cotidiana;
  17. 17. 17• oferecer elementos que promovam aapreciação literária, a avaliação estética eética, tanto quanto o conhecimento dosfatos;• favorecer o contato entre alunos de faixasetárias diferenciadas.Os bibliotecários são imprescindíveis nestanova etapa das bibliotecas nas instituiçõesde ensino e torna-se necessária a movi-mentação do antigo guardião do acervo, nosentido de difundir as ações educacionais eculturais de maneira dinâmica e prazerosa,dentro e fora do ambiente em que o leitor-bi-bliotecário e o leitor-interlocutor transitame dialogam. Só através dessa mudança, asações bibliotecárias poderão adquirir pers-pectiva de reflexão/ação e crença no mundoonde a comunicação quer se estabelecer.BibliografiaBLATTMANN, Ursula; CIPRIANO, Aline deSouza. Os diferentes públicos e espaços dabiblioteca escolar: da pré-escola a universi-dade. In: Congresso Brasileiro de Bibliote-conomia, Documentação e Ciência da In-formação, 21, Anais... 2005, Curitiba, 2005.CD-ROM.FRAGOSO, Graça Maria. Formando o Leitor –livro, biblioteca e a primeira infância consti-tuem a trilogia do afeto. Revista do professor,Porto Alegre, 18(71): 5-8, jul./set. 2002.FRAGOSO, Graça Maria. Integração planeja-da. Caderno Amae – Biblioteca na escola. BeloHorizonte, 23-16, jul. 1997.NEVES, Iara Conceição B. e outros. Ler e es-crever compromisso de todas as áreas. 3. ed.Ed. Universidade/UFRGS, 2000.SILVA, Ezequiel Theodoro da. Leitura na esco-la e na biblioteca. Campinas: Papirus, 1995.
  18. 18. 18Texto 2: O papel da biblioteca naformação do leitorLuiz Percival Leme Britto1IntroduçãoEsse texto tem como principal motivação in-dagar sobre o papel da biblioteca escolar naformação do leitor, em especial na leitura eno estudo de textos da esfera acadêmica eescolar. Indaga, ainda: é possível pensar a bi-blioteca escolar – na era do texto eletrônicoe das comunicações multimidiáticas – comoespaço de atividade de pesquisa e de estudo?Inicia-se, porém, com uma pergunta muitomais básica: pode a biblioteca escolar for-mar um leitor ou, pelo menos, fazer partedessa formação?A resposta, imediata, é: “Claro que, sim; quepergunta mais óbvia, essa aí!”Sim. Afinal, essa parece ser a vocação dasbibliotecas: formar leitores, oferecendo aosque ali vão os livros e um ambiente apro-priado para a leitura.Sim, essa é uma boa resposta. Mas boas res-postas, porque logo encerram a questão, anu-lam, muitas vezes, perguntas interessantes.Tem-se, então, para avançar a ideia, queindagar à própria pergunta, pondo em evi-dência o que nela é opaco, porque óbvio. E,nessa atitude, encontram-se três outras per-guntas:• Que é leitor?• Que é formação de leitor? e• Que é biblioteca escolar?O leitor e seus sentidosDe fato, há muitas formas de “compreenderser leitor”, dependendo da perspectiva queoferecermos à pergunta e à resposta, masuma definição primeira, da qual não se podeescapar, é a de que leitor é aquele que sabeler e que lê com certa frequência, para estu-dar, para informar-se, para conhecer, experi-mentar vida, fazer coisas...1 Mestre e Doutor em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas. Pesquisador do Grupo de EstudosLinguísticos do Oeste do Pará – UFOPA, no Instituto de Ciências da Educação.
  19. 19. 19Desde logo, essa definição de leitor supõemais que simplesmente saber ler, implican-do uma atitude diante das coisas do mundo.O leitor não é leitor porque pode ler (aindaque isso seja condição determinante): ele seconstitui quando, para além do texto, faz aleitura do mundo, para usar a consagradaexpressão de Paulo Freire.Leitura do mundo: aí está uma ideia muitointeressante, porque amplia e dá sentido ànoção de leitor. Mas uma ideia que precisaser usada com cuidado, para que não se in-corra no erro de supor que ler correspondea qualquer ação intelectiva.Ao propor o conceito de leitura do mundoem uma palestra no 2° Congresso de Leiturado Brasil, em 1979, Freire refletia sobre umaquestão bastante específica: a importânciado ato de ler. Em seu argumento, baseado naconcepção de uma pedagogia participativae dialógica (Pedagogia do Oprimido e, maistarde: Pedagogia da Autonomia), o educadorbuscava relacionar a aprendizagem da pala-vra escrita com as maneiras como as pes-soas estão e se veem e atuam no mundo,bem como com os processos pelos quais serealiza a educação de adultos.Recusando a educação instrumental de ca-ráter autoritário e denunciando o jogo dedominação e alienação impregnado na edu-cação bancária, Paulo Freire tratou de vin-cular, de forma estrita, aprender a escrevercom afirmar-se enquanto pessoa política,fenomenológica e epistemológica: a razão eo sentido de aprender a escrever estavam napossibilidade de cada pessoa e da coletivida-de dizerem aquilo que eram e, ainda, de pro-jetarem o futuro, intervindo na sociedade emodificando as formas de poder ser.A leitura do mundo significa, assim, ummodo de percepção do (re)conhecimentoe da “vida-vivida” (a expressão é de Freire),no que se incluem desde as experiênciassubjetivas íntimas até as relações histórico-sociais complexas. A consciência delas apa-rece como condição fundamental para quea aprendizagem dos saberes formais sejainstrumento de participação e de transfor-mação da ordem social. Em palavras diretas,só tem sentido aprender a leitura do textose for para ampliar as formas de perceber omundo e perceber-se nele.Observe-se que “leitura de mundo” não éleitura no sentido de realização de uma in-teração com texto (escrito), mas uma me-táfora que quer valorizar o gesto interpre-tante e significante que o sujeito tem diantedo mundo. Como, ao ler, trabalhamos comsentidos e valores estabelecidos no texto, ovalor da leitura estará na ação criativa e pro-positiva do sujeito que, considerando aquiloque é e o que sabe, toma o texto como umenunciado a ser considerado e não comoum dado em si. E, nessa linha de raciocínio,a metáfora leitura do mundo é necessária
  20. 20. 20para dar sentido à literalidade da leitura dapalavra.Do que se expôs acima, depreende-se que“ler”, no âmbito da formação do leitor,corresponde a mais que o “ato de decifrarsignos gráficos que traduzem a linguagemoral” – acepção primeira e denotativa de lerconstante dos dicionários. De um modo ge-ral, pode-se postular que o que se deseja éque a pessoa adquira “o hábito de ler”, en-tendido como o gesto deliberado de tomar,com relativa frequência, determinados tiposde textos para ler, assim como incorporarcompetências, estratégias e referências quelhe habilitem a produção de sentido a partirdo ato leitor.É pertinente observar que, quando a pessoase põe a ler, isso pode se dar tanto por movi-mento espontâneo, devido a um desejo pes-soal, como por uma obrigação, em função deum compromisso – de trabalho, de estudo,de participação em uma esfera social. E am-bas as possibilidades são significativas. É umequívoco grave imaginar que a leitura queresulta do gesto voluntário é mais legítimaou criativa. Ao contrário, podem-se criar erealizar muitas coisas em situações em queo leitor não tem o que escolher, assim comoem muitas situações a leitura descompro-missada não implica criação, descoberta ouaprendizagem. O que interessa é que a pes-soa, quando se põe a ler, saiba o que e porque faz, sendo senhora da ação intelectual.Cabe perguntar, para que o óbvio não per-maneça implícito, por que valorizar essehábito (prática, costume). A resposta, aindaóbvia, é a de que a leitura frequente permitesituações positivas de ampliação da subje-tividade e da capacidade de agir com pro-priedade na sociedade. Seria, portanto, umhábito humanizador.É certo que há, especialmente na sociedademoderna tecnológica, outras possibilidadesde realização desse processo. A convivên-cia com pessoas de diferentes formações ea interação com produtos diversos da cul-tura em ambientes em que circulam infor-mações, compreensões e representações nomundo e da vida, assim como a audiência dorádio e da TV e a utilização de mídias eletrô-nicas, também possibilitam o alargamentodos horizontes intelectuais e culturais. Con-tudo, essas possibilidades parecem não ter amesma densidade formativa e, quando têm,isto pressupõe um modelo de intelectuali-dade que desemboca, de alguma forma, naleitura frequente.A especificidade da leitura está na conden-sação de conteúdos, na atitude reflexiva/ in-trospectiva de exame de si e das coisas comque se interage, no autocontrole da ação in-telectual. E, vale a pena repetir, na inclusãodo sujeito num determinado “modo de cul-tura” e na disseminação de hábitos, práticase formas de cultura mais densas e elabora-das. Nesse sentido, leitura passa a ser enten-
  21. 21. 21dida como prática social circunstanciada,favorecendo o alargamento do espírito e daspossibilidades de atuação e intervenção nasociedade.Disso se infere que ensinar a leitura é valorizaruma forma de pertencimento crítico ao mun-do. Um valor, portanto. Um valor que carregaum princípio de humanidade e que implica,mais que o simples hábito, uma atitude.A formação de leitor –razões e perspectivasA formação do leitor, no âmbito da educaçãoescolar, corresponde aos processos pedagó-gicos que fazem com que o aluno alcance acondição de leitor, isto é, que seja alguémque, com crítica e autonomia, realize as ati-vidades que caracterizam o leitor. Isso impli-ca não apenas aprender o sistema da escrita,mas também, e principalmente, incorporarum conjunto de atitudes e de referenciaisque tornem significativo e pertinente o atode ler: saber, portanto, compreender o con-teúdo de um texto em seu sentido, compará-lo com outros elementos, realizar associa-ções, tirar conclusões etc.Tal perspectiva corre o risco de nulidade,caso se perca a dimensão de que o perten-cimento ao mundo é tenso e conflituoso, eque a ordem social é marcada pela desigual-dade e pela disputa de valores e de fazerespolíticos. Somente no momento em que sereconhece e se vive o conflito é que, em al-guma medida, a experiência de ler ganha di-mensão humanizadora.O simples hábito de ler de forma descom-prometida, sem a reflexão aguda do sentidodas coisas, numa situação em que a pessoaé levada pelas circunstâncias e motivadapor interesses pragmáticos, caracteriza-secomo uma alienação. O que é alienado éautomatizado, é feito mecanicamente, semconsciência ou domínio dos processos designificação e, portanto, sem capacidade deampliação de horizontes. Em termos claros,a pessoa não tem controle ou consciêncianem da atitude nem das coisas nela implica-das; não compreende o alcance e as conse-quências dos fatos e dos gestos.Essa última consideração obriga perceberque a simples propaganda da leitura e suaassociação a atitudes descomprometidas deentretenimento – sob o pressuposto de que,como subproduto desse gesto, estaria a po-tencialização do interesse por outros assun-tos e novas e mais instigantes leituras, algoimprevisível e sem evidência objetiva – nãosignifica propor um valor nem estimular ocompromisso desimpedido com a humani-dade. E, da mesma forma, vincular a práticada leitura aos ganhos materiais ou de posi-cionamento social, em função da ampliaçãoda capacidade de ação, não é mais que redu-zir essa prática à dimensão pragmática dacompetitividade.
  22. 22. 22A compreensão equivocada da dimensãoformativa também se manifesta quando sesustenta que é o leitor quem dá sentido aotexto e que suas escolhas são sempre legíti-mas. O ser humano é histórico, e não bioló-gico. Cada indivíduo é a realização de umasingularidade irredutível que se faz na expe-riência íntima do corpo na dimensão histó-rica, a um tempo particular e geral.A escolha será, assim, sempre sobredeter-minada por fatores históricos, sociais e cul-turais de diversas dimensões, nunca sendosimplesmente “livre”. O gosto não é a mani-festação de determinações biológicas ou ge-néticas, nem é fruto de uma aprendizagemautodirigida e imanente; gosto se aprende,se muda, se cria, se ensina. Gosto se apren-de, se critica, se renova.Trata-se de uma questão delicada e tensa,uma vez que ninguém tem a verdade dogosto e do bom, as escolhas e as avaliaçõessão processos conflituosos, com múltiplasdimensões. Mas é certo que, na sociedademassificada, a afirmação pura e simples dalegitimidade do gosto espontâneo é, objeti-vamente, submissão à ordem da produçãocultural alienada e alienante.Igual raciocínio se aplica ao conceito deautonomia. Se a autonomia supõe discerni-mento e compreensão dos processos envol-vidos, é imperativo reconhecer que ela não éum parâmetro do tipo sim ou não, mas umamedida relativa, com base na experiência enas dimensões estruturantes da ordem so-cial. Parafraseando Sartre, há que se reco-nhecer que, do mesmo modo que a liber-dade, a autonomia não é, ela se conquistanuma situação histórica.O desafio pedagógico está, precisamente,em respeitar o gosto conhecido (admitindo,portanto, sua leitura de mundo) e, ao mes-mo tempo, estimular a autonomia (recusan-do o autoritarismo da referência absoluta),sem perder a dimensão política da formaçãodo leitor. Em outras palavras, ao propor umaleitura aos alunos, o professor deve consi-derar seu potencial de transcendência, deinstigação de novas experiências e reflexões.Inevitável, contudo, é viver a contradição:estimular a livre escolha é necessário paraquem investe na autonomia, mas tampoucoé a totalidade e não se faz sem contradições.Certamente, errado é dizer que aquilo que oleitor escolhe, porque é escolha dele, é bome basta. A leitura crítica não se submete aomimetismo do imediato, devolvendo a cadaum o que já lhe é conhecido: ela precisabuscar um diferencial – a potencialidade deabrigar o conhecimento humano.A biblioteca e a formação doleitorBiblioteca (séc. XVII): edifício ou recin-to onde ficam depositadas, ordenadas e
  23. 23. 23catalogadas diversas coleções de livros,periódicos e outros documentos, que opúblico, sob certas condições, pode con-sultar no local ou levar de empréstimopara devolução posterior (DicionárioHouaiss – acepção 2).Sim, a biblioteca é lugar de livros. Lugar emque se reúnem livros, organizados segundocritérios de classificação, dentre os quais sedestacam, mais frequentemente, o tema e oautor. O leitor, em função de suas necessida-des e interesses, encontra lá textos para ler,fazer pesquisas e consultas, estudar.Na imaginação, a biblioteca é mais que isso:é um lugar grande, vetusto, com paredesde estantes cobertas de livros e um recin-to com mesas de estudo, em que reina osilêncio. Lugar de todo o saber, a catedraldo conhecimento. Espera-se do consulenteatitude adequada ao ambiente e à atividade:compenetração e sisudez.Felizmente, os tempos mudaram. Multi-plicaram-se as produções intelectuais e osimpressos em tal quantidade que já não hácomo imaginar uma biblioteca total, umabiblioteca que reunisse toda a produção in-telectual humana – a grande ‘biblioteca debabel’ de Borges. Hoje, as modernas biblio-tecas se organizam de muitas formas, emfunção de sua finalidade, do lugar que ocu-pam, do público a que pretendem atender. E,além dos impressos, dispõem de textos emoutros meios e outros recursos de estudo – acibercultura. Aliás, bibliotecas estão já intei-ramente no hiperespaço da WEB.Sim, são muitas as bibliotecas, e com carase jeitos diferentes: a biblioteca universitáriaserá distinta da biblioteca corporativa, quenão terá as mesmas características que a bi-blioteca comunitária, que pouco terá de co-mum com a biblioteca central, com a qualnão se comparará a biblioteca privada, quenão terá a mesma ordenação, acervo e fun-cionamento que a biblioteca escolar... Cadauma se fará conforme as demandas, as ne-cessidades de estudo, de produção, de lazer,de vivência do público.De todo modo, todas são perpassadas pelaideia de um espaço em que se pode encon-trar conhecimento e fazer indagação dascoisas da vida. E quanto mais a biblioteca –qualquer que seja – conseguir prever o tipode leitura que importa a seus usuários e or-ganizar-se em função disso, mais apropriadaela será.No caso da biblioteca escolar, não há de serdiferente: ela existe porque a escola existe, ea escola existe porque há crianças e jovense adultos para ensinar e aprender. A escolaé o lugar de aprender, e de aprender coisasdiferentes daquelas que é possível aprenderfora da escola. Isso não quer dizer que eladeva ser lugar de sofrimento e alienação, deautoritarismo e repetição; ao contrário, a
  24. 24. 24gente aprende criando vínculos, produzindoidentidades e reconhecimentos, indagando,criticando, criando.A biblioteca escolar deve funcionar comoum espaço – na verdade o espaço privile-giado – em que estas coisas aconteçam,organizando-se para que os estudantes, soba orientação e com a participação de seusprofessores, encontrem possibilidades deestudo, de pesquisa, de descoberta, de ques-tionamento dos temas e conteúdos que es-tão aprendendo. E não para que reproduzammecanicamente o que lhes foi apresentadono espaço da aula, mas para que amplieme tornem vivos e significativos estes apren-dizados.Objetivamente, contudo, isso não dependeapenas da simples organização da bibliote-ca, de sua atualidade ou da dimensão de seuacervo. Depende, principalmente, de comose compreende e se realiza a educação es-colar.A cultura escolar tem, tradicionalmente, umperfil marcadamente disciplinar, que se sus-tenta em um conjunto de conteúdos fixos,o que tem sido um dos aspectos que maisdificulta o avanço da reflexão pedagógicana educação. Tal modelo de escola cumprefunções sociais definidas e é ideologica-mente sustentado. Na prática convencio-nal, tais conteúdos, apesar de remeterempara campos importantes do conhecimen-to, tornaram-se informações fragmentadaspara serem fixadas na memória, perdendo areferencialidade e o sentido formativo quedeviam ter.Para desmontar essa armadilha, as ativida-des escolares devem se organizar com baseem questões que permitam compreendercriticamente a realidade e construir umarelação criativa com o conhecimento, rea-lizando esforço redobrado para tornar pos-sível o diálogo entre o saber sensível-prático(aquilo que as pessoas trazem de sua expe-riência imediata) e o patrimônio científicoproduzido pela humanidade.Com base nessa concepção, a bibliotecaescolar ganha destaque como espaço deestudo e de acesso ao conhecimento ela-borado. Estudar é uma ação reflexiva pelaqual se quer conhecer e explicar fatos domundo material, da vida humana, das sin-gularidades pessoais. Estudar é um trabalhointelectual, pressupondo finalidade e com-promisso e exigindo condições apropriadas,que incluem ambiente de estudo (espaço,silêncio), disposição de materiais (bibliogra-fia, material de pesquisa e experimentação)e tempo. O acervo de uma biblioteca esco-lar (considerando o nível de autonomia e dedesenvoltura intelectual dos usuários) deveincluir obras de ciência, história, geografia,psicologia, literatura, artes e organizar-se deforma a permitir percursos formativos am-plos e densos.
  25. 25. 25Bibliotecas modernas – escolares ou não –não têm por que serem vetustas e severas,como são, na imaginação, as grandes biblio-tecas da história. Nem precisam ser locaisonde são proibidas ou desaconselhadas asatividades formativas mais soltas e descom-prometidas. Mas não será competindo coma superficialidade e investindo na formaçãoligeira que se formarão mais leitores.A biblioteca escolar, considerada dessa ma-neira, incorpora sem nenhum problema asnovas tecnologias – que implicam maior dis-ponibilidade de textos e maneiras mais ágeisde encontrar a informação.A eficiência da biblioteca escolar dependenão da forma de oferta de texto, mas doquanto a comunidade escolar aprofundao projeto de formação e o transforma emações e espaços que o tornem viável, doquanto prevê ações de estudo e de partilhade conhecimento e de experiências intelec-tuais e existenciais a partir da atividade or-gânica de estudar, de ler e de procurar orga-nizar informação para pensar e intervir nomundo.A biblioteca deve e pode continuar a ser lu-gar privilegiado de uma educação formati-va.
  26. 26. 26Texto 3: O papel da biblioteca na formação doleitor literárioNinfa Parreiras1Entendemos que a família, como núcleoinaugural da vida social de uma criança, de-veria ser a primeira mediadora da leitura navida dos bebês e das crianças. Com tantasconfigurações familiares, modelos em que ofilho é criado pelo casal, pela mãe, pelo pai,pelos avós, pelos tios, pelos padrinhos, pelosparentes, pelos vizinhos da comunidade, oque importa é que estes grupos ofereçam àcriança o acolhimento e o acesso à leituraliterária.Por que na família? É lá que o pequeno sercria seus primeiros contatos e aproximaçõesao mundo da cultura. A leitura começa noespaço da intimidade (em casa) e depois al-cança o espaço público (a escola, a bibliote-ca). Posteriormente, cabe à escola dar pros-seguimento ao processo de mediação daleitura, tão necessário para o aluno. Logo, éa soma de esforços das famílias, das escolase de outros organismos sociais que contri-buirá para a formação leitora das crianças.Portanto, essa mediação não deveria se res-tringir ao uso pedagógico da literatura naescola e na sala de aula, com a interpretaçãode textos, a aplicação de testes de avaliaçãode compreensão da leitura e a realização deexercícios gramaticais a partir dos textos li-terários lidos. A escola é uma instituição quese apropriou do uso da literatura, como umadisciplina, como um conteúdo, como um ve-ículo de transmissão de valores. Com isso, aleitura costuma ficar relegada a um trabalhodidático, que não penetra na face subjetivae subversiva da literatura. O contato com aliteratura pode dar voz ao leitor, contribuirpara a sua formação cidadã, criar atmosfe-ras de expressão estética e de constituiçãode um olhar crítico sobre a vida. O trabalhoque objetiva a verificação de conteúdos e aaplicação de exercícios vem engessado, fe-chado. A leitura literária abre portas para ossentimentos e as experiências várias.Por sua vez, devemos conceber a bibliotecaescolar como um espaço de congregação1 Mestre em Literatura Comparada (Universidade de São Paulo), especialista da Fundação Nacional do LivroInfantil e Juvenil, escritora e psicanalista.
  27. 27. 27da leitura e da cultura, o local que recebe oleitor, que lhe oferece as novidades (livros eperiódicos). O local de presença constantede educadores, de professores, de alunos,de funcionários e de famílias, ou seja, todaa comunidade escolar. Um lugar de troca ede apropriação, de fato, do conhecimento:daquele subjetivo, que é só nosso. Será quea biblioteca escolar tem funcionado comoesse espaço de comunhão de ideias e de tro-ca de saberes? Será que ela recebe a comu-nidade escolar?Com a promulgação da Lei nº 12.244, de 24de maio de 2010, que dispõe sobre a univer-salização das bibliotecas nas instituições deensino do País, as escolas têm se mobilizadopara fazerem as mudanças necessárias emsuas bibliotecas existentes ou têm planeja-do a criação e a dinamização da bibliotecaescolar. Frente à necessidade da lei, há asdificuldades de articulação dos profissionaisda escola e, por sua vez, uma tecnologia ga-lopante de e sobre informação que ofereceao consumidor uma gama de ofertas de ser-viços da informação (internet, jogos, redessociais, aparelhos eletrônicos etc.). Comoficam os livros em meio a esse universo deprodutos e facilidades? Qual a concepção debiblioteca escolar que tem norteado o movi-mento das escolas para a criação ou adapta-ção de um espaço para a biblioteca?O que a escola poderia fazer frente à insti-tuição de uma lei e à concorrência tecnoló-gica? Talvez seja esse o momento oportunode se criar uma biblioteca escolar que façafrente às necessidades de consulta e de lei-tura da comunidade escolar. Mas uma bi-blioteca que crie demandas, que atraia osnão leitores e os leitores. Para isso, a biblio-teca deve ter um trabalho independente doque é desenvolvido na sala de aula. O que oaluno aprende, lê, estuda e pesquisa na salade aula poderá ser complementado e enri-quecido com visitas constantes à biblioteca.Porém, a biblioteca não é um espaço paraservir ao professor e à sala de aula para odesenvolvimento de atividades recreativasnem para o exercício de tarefas didatizantes.Certamente, tocamos em um ponto bastantedelicado, justamente o da autonomia da bi-blioteca escolar. Ela pode e deve estabelecerparcerias com o professor e demais educado-res, mas ela não está a serviço da execuçãode trabalhos pedagógicos nem de animaçãode leitura. Mais que tudo, a biblioteca deveser agradável, arejada, confortável e segurapara as consultas, leituras, pesquisas e em-préstimos. Os livros devem estar registrados,catalogados, de preferência num programade computador. Devem estar dispostos emprateleiras, estantes, mesas, cestas, caixas,com algum critério de separação e identifi-cação pelo usuário. O serviço de um profis-sional de biblioteconomia, o bibliotecário,pode garantir à biblioteca escolar um traba-lho diferenciado e acessível às necessidadesde consultas, de empréstimos e de pesquisas.
  28. 28. 28Exposições temáticas de obras, uma arruma-ção convidativa aos frequentadores e umaatualização permanente do acervo devemfazer parte de um projeto de uma bibliotecaescolar comprometida com a leitura. Alémdisso, é necessário existir um diálogo cons-tante com os educadores e demais usuários,no sentido de escutar as necessidades da-queles que podem mediar a leitura em ou-tros ambientes.A biblioteca não é um templo fechado, res-trito ao silêncio, com as obras guardadas econservadas, mas também não é um parquede diversões. Trabalhos com desenhos, compinturas, com fantoches, com fantasias nãosão prioritários na promoção da leitura. Oumelhor, em que sentido eles promovem aleitura literária? Por que os professores cos-tumam fazer a leitura de uma obra literária,por exemplo, para uma criação de redaçãoou para criar uma encenação? A priori, nadadeveria ser amarrado, até porque a leituraliterária nos leva a mares nunca dantes na-vegados e nos possibilita o contato com oimprevisível e o desconhecido. Para que fa-zer desenhos da história que leu? Para quecolorir desenhos preparados pelo professor?Para que responder a perguntas escritas (deinterpretação) sobre o texto que foi lido? Oexercício da liberdade é o que deve ser feitoa partir da leitura de uma obra.A leitura formativa que pretendemos, quetraz o pensamento crítico, a associação deideias, a inter-relação de conteúdos, aconte-ce num processo de incentivo à leitura deobras literárias e ao debate que elas susci-tam. São conversas sobre a obra lida, discus-sões sobre temas presentes na história ouno poema, associações da ficção à vida co-tidiana, aos fatos que nos acontecem. Gru-pos de leitura, de discussão, que podem sercriados na biblioteca, inclusive com o uso deinternet: blogs, redes sociais etc.A ficção, uma das formas dos textos literá-rios, nos traz a possibilidade de nos subje-tivar: para quem escreve e para quem lê. Aocriar, dar novos sentidos às palavras e aosafetos, o escritor se subjetiva, se afirmacomo sujeito que simboliza, que faz repre-sentações, associações e inventa novas for-mas de viver. Ao criar ficção, o autor entraem contato com um mundo de sonhos, deinvenções, de coisas fantasiosas. Isso o co-loca próximo ao mundo interno povoado dedesejos, de interdições, de silêncios. O autorconfirma sua subjetividade quando escreve,quando cria.Quanto ao leitor, a leitura de uma obra lite-rária lhe traz a possibilidade de viver situ-ações imaginárias, de outras personagens,de outros cenários. Ao ler e estabelecer co-nexões com a sua própria vida, com outrasobras lidas, ele se subjetiva, se refaz. Ele serecria, reinventa a sua vida. A ficção nospermite nos reinventarmos e reinventarmosuma vida nova a cada dia.
  29. 29. 29Por sua vez, a poesia, para quem cria, re-presenta um universo de imagens, de brin-cadeiras, de representações. Ao escreverpoemas, o poeta também se subjetiva, deixasuas emoções metaforizadas nos versos. Epara quem a lê, a poesia acalanta, provoca,toca... Ela faz o leitor passear por sensações,por imagens carregadas de afetos. Por seaproximar à música (pelas sonoridades, peloritmo), a poesia está no território da ‘desra-zão’, da afetação.A biblioteca pode funcionar como um cen-tro de trocas culturais, de contato com asnovidades. A leitura de cada aluno, de cadaeducador, de cada funcionário que frequen-ta a biblioteca deve ser respeitada. O que aleitura da obra promove no leitor? Com oque ele a associa? É importante provocar noaluno a criação de questões para as obraslidas. Exercícios prontos empobrecem a lei-tura. Animações cabem bem nos locais in-dicados (pátios, sala de recreação), não nabiblioteca. Lemos e ponto. É suficiente. É obastante. Um turbilhão de coisas se passacom o leitor. É um processo dele que poderáser compartilhado com os colegas.Em relação ao bebê e à criança pequena, abiblioteca será o espaço inaugural do conta-to com as emoções e as sensações. Os bebêsprecisam tocar nos livros, cheirar, chupar,morder. Sua pele vai se aproximar desse ob-jeto tão atraente que é o livro em rodas decrianças monitoradas pelos adultos. Nessaetapa do desenvolvimento, o mais impor-tante é o toque e toda a estimulação dossentidos. Então, deve ser um ambiente tran-quilo, para cantar para os bebês, para lercontos, para declamar poemas... E deixar osbebês alcançarem livros apropriados a eles,com pontas arredondadas, em papel carto-nado, leves. Claro que poderá ter um cantocom livros de plástico, de borracha, de pano.Porém, o contato com o papel é superior eespecial. O livro de papel tem cheiro, textu-ra, provoca ruídos... Então, não podemosprivar os pequenos do contato com os livrosde papel.Em experiência recente do Instituto C&A, o1º Concurso Escola de Leitores, um desdo-bramento do Programa Prazer em Ler, pre-miou 22 escolas vencedoras nas cidades doRio de Janeiro (RJ), Paraty (RJ), São Paulo(SP) e Natal (RN). Além de um prêmio emdinheiro, as escolas vencedoras receberamum acompanhamento técnico para a reali-zação de seus projetos e uma viagem de doisprofissionais à Colômbia. Com a parceria daFundação Nacional do Livro Infantil e Juve-nil – FNLIJ e da Secretaria Municipal de Edu-cação do Rio de Janeiro, o Concurso Escolade Leitores premiou sete iniciativas desen-volvidas em salas de leitura das escolas mu-nicipais do Rio de Janeiro.O Programa Prazer em Ler considera quatroeixos que orientaram a escolha das iniciati-vas vencedoras: o espaço (as bibliotecas ou
  30. 30. 30salas de leituras nas escolas); o acervo (a di-versidade de obras literárias); a mediação (aatuação dos mediadores de leitura) e a ges-tão de projetos de leitura (o envolvimentodos educadores).Podemos, a partir desses quatro eixos, inves-tir num projeto de promoção da leitura paraas bibliotecas escolares que abarque todosos níveis do ensino escolar, da Educação In-fantil ao Ensino Médio. Iniciativas em queprevaleçam a mediação feita com cuidado(leitura em voz alta, em grupos) com obrasliterárias (variedade de gêneros, autores,editores) e a prática constante de leituras,de empréstimos, de rodas de leitura contri-buem para a formação do leitor literário.Desse modo, a biblioteca escolar congregaráprofessores de disciplinas diferentes, alunose educadores de segmentos variados, famí-lias e funcionários num movimento de fazerda biblioteca, de fato, o lugar sagrado da lei-tura e da literatura.BibliografiaABREU, Márcia (org.). Leitura, história e his-tória da leitura. Campinas: Mercado de Le-tras/Associação de Leitura do Brasil/Fapesp,1999. (Coleção Histórias da Leitura)BAJOUR, Cecília. Ouvir as entrelinhas: o va-lor de escutar nas práticas de leitura. Confe-rência para a Asolectura. Bogotá, 2008.BLOOM, Harold. Como e por que ler. Tradu-ção de José Roberto O’Shea. Rio de Janeiro:Objetiva, 2001.CASTRILLÓN, Silvia. O direito de ler e de escre-ver. Tradução Marcos Bagno. São Paulo: Pulodo Gato, 2011.MACHADO, Ana Maria. Como e por que ler osclássicos universais desde cedo. Rio de Janei-ro: Objetiva, 2002.LAJOLO, Marisa & ZILBERMAN, Regina. A lei-tura rarefeita. São Paulo: Ática, 2002.PARREIRAS, Ninfa. O brinquedo na literaturainfantil: uma leitura psicanalítica. São Paulo:Biruta, 2009.SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? Tradu-ção de Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Áti-ca, 1989.PETIT, Michèle. Lecturas del espacio íntimoal espacio público. México: Fondo de CulturaEconómica, 2001.SILVEIRA, Júlio & RIBAS, Martha (orgs). A pai-xão pelos livros. Tradução de Júlio Silveira etalii. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2004.ZILBERMAN, Regina. Fim do livro, fim dos lei-tores? Coordenação de Benjamin Abdala Ju-nior e Isabel Maria M. Alexandre. São Paulo:Editora SENAC São Paulo, 2001.
  31. 31. 31Presidência da RepúblicaMinistério da EducaçãoSecretaria de Educação BásicaTV ESCOLA/ SALTO PARA O FUTUROCoordenação-geral da TV EscolaÉrico da SilveiraCoordenação PedagógicaMaria Carolina Mello de SousaSupervisão PedagógicaRosa Helena MendonçaAcompanhamento PedagógicoSoraia BrunoCoordenação de Utilização e AvaliaçãoMônica MufarrejFernanda BragaCopidesque e RevisãoMagda Frediani MartinsDiagramação e EditoraçãoEquipe do Núcleo de Produção Gráfica de Mídia Impressa – TV BrasilGerência de Criação e Produção de ArteConsultoras especialmente convidadasGlaúcia Mollo e Maria José NóbregaE-mail: salto@mec.gov.brHome page: www.tvbrasil.org.br/saltoRua da Relação, 18, 4oandar – Centro.CEP: 20231-110 – Rio de Janeiro (RJ)Outubro 2011

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