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Uma Aventura de Natal  Charles Dickens
Copyright © 2000, virtualbooks.com.brTodos os direitos reservados a Editora Virtual BooksOnline M&M Editores Ltda.É proibi...
Uma Aventura de Natal         Charles DickensPRIMEIRA ESTROFEO espectro de MarleyPara começar, digamos que Marley tinha mo...
tenhamos todo o cuidado em não profaná-la, ou, docontrário, o país estará perdido. Assim pois, vocêshão de permitir-me rep...
Scrooge & Marley, pois Scrooge & Marley continuavacomo a razão social da firma. As pessoas que nãoestavam bem a par das co...
benefícios; Scrooge, nunca!Ninguém, jamais, conseguiu pará-lo na rua para lhedizer em tom amável: “Como vai, meu caroScroo...
palpável do crepúsculo.O nevoeiro infiltrava-se por todas as fendas,invadindo o interior das casas pelo buraco dasfechadur...
O sobrinho de Scrooge, que havia caminhadoapressadamente no meio da bruma gélida, tinha orosto incendiado pela corrida. Se...
- Meu tio! exclamou o jovem.- Meu sobrinho, tornou o tio num tom severo, podefestejar o Natal a seu modo, mas deixa-me fes...
acabando por apagá-las.- Eu que o ouça mais uma vez, disse Scrooge, evocê irá festejar o Natal no olho da rua. Quanto avoc...
palavra de desagrado. Na porta, deteve-se paraapresentar as boas-festas ao empregado, que,mesmo tiritando como estava, se ...
ocasião, arrecadar algum dinheiro para aliviar ospobres e os deserdados da sorte, que sofremcruelmente os rigores do inver...
- Desejo que me deixem em paz; já que ossenhores querem saber, é isso que eu desejo. Eunão faço banquetes para mim próprio...
espiar Scrooge continuamente através de suajanelinha gótica, tornara-se invisível e pôs-se atocar as horas e os quartos de...
um pedaço de carne de vaca.O nevoeiro adensava-se cada vez mais, e o frio setornava cada vez mais áspero e penetrante. Umr...
O empregado prometeu-o, e Scrooge saiuresmungando.O escritório foi fechado num abrir e fechar de olhos,e o empregado també...
obstante conhecer de cor todos os seuspormenores, foi obrigado a atravessá-lo àsapalpadelas. O nevoeiro e o granizo envolv...
olhos, embora bem abertos, estavam perfeitamenteimóveis.A aparição, com aquela tez lívida e aquele olharfixo, era horrível...
porta, atravessou o vestíbulo e subiu a escadacalmamente, protegendo a vela.Costuma-se falar algumas vezes das escadasanti...
suspeita. No quarto de despejo, não havia senão,como habitualmente, um velho guarda-fogo,sapatos usados, duas cestas, um p...
uma cópia da cabeça de Marley.- Idiotices! . . . disse Scrooge, levantando-se epondo-se a passear de um lado para outro.De...
- Idiotices! . . . disse Scrooge. Não acredito nisso,não!Mas imediatamente mudou de cor, quando, semdeter-se um só instant...
próprio tecido de que era feito o lenço que lheenvolvia a cabeça e o queixo - minúcia que não lhehavia chamado a atenção n...
- Pela simples razão, respondeu Scrooge, de quenão precisa muita coisa para perturbá-los. Nãoprecisa mais que uma ligeira ...
- Pois bem! continuou Scrooge, basta que eu oengula para ser perseguido, até o fim dos meusdias, por uma legião de espírit...
tempo que agitava as cadeias e retorcia as mãostransparentes.- Você está acorrentado! disse Scrooge com voztrêmula. Diga-m...
me compreendendo? Nunca, durante minha vida,meu espírito se resolveu a afastar-se dos estreitoslimites do nosso covil de n...
pequena que seja, sempre achará que sua vidamortal é demasiado breve para realizar todo o bemque ela vê por fazer-se em re...
— Seria difícil dizer por que é que estou aparecendodiante de ti sob forma visível. Aliás, por mais deuma vez já me sentei...
nós.Dito isto, o espectro apanhou seu lenço sobre amesa e o amarrou, como antes, em torno dacabeça. Scrooge só o notou, qu...
corrente, como o espectro de Marley. Alguns destesfantasmas, talvez os membros de algum maugoverno, estavam amarrados junt...
SEGUNDA ESTROFEO primeiro dos três espíritosQuando Scrooge despertou, a escuridão era tãoprofunda que, de seu leito, mal p...
Acaso terá acontecido alguma coisa ao sol e sejaagora meio-dia em vez de meia-noite?Bastante alarmado com esta idéia, ergu...
em que o carrilhão bateu os três quartos. Foi entãoque se lembrou, subitamente, de que o espectro lhehavia prenunciado a v...
cabeceira do leito de Scrooge, mas as que estavamdiante de seus olhos, aquelas para as quais seusolhares estavam voltados....
Scrooge notou que a aparição apresentava umaparticularidade ainda mais extraordinária. Domesmo modo que sua cintura respla...
que me forçam tantas e tantas vezes a enterrá-loaté aos olhos?Scrooge declarou respeitosamente não ter tido amenor intençã...
- Oh, senhor! Sou apenas um mortal e posso cair!- Deixa-me apenas segurar-te por aqui, disse oespírito pondo a mão sobre o...
anos, observou o espírito. Vamos adiante.Ambos prosseguiram, e Scrooge ia reconhecendo àcada casa, cada árvore, cada poste...
Deixando a estrada principal, entraram por umavereda, que Scrooge bem conhecia. Ao cabo depoucos instantes, chegaram a uma...
o pobre menino abandonado, que era ele próprio,Scrooge sentou-se e pôs-se a chorar. Os maisinsignificantes ecos desta mans...
pudessem ver seu rosto incendido e seu arexcitado!- Olha! exclamou ele, lá está o papagaio, com ocorpo verde, a cauda amar...
representação da realidade, que tudo se tinhapassado exatamente assim, e que só ele lá ficaraainda uma vez, quando todos o...
acariciar-lhe a cabeça, mas, pequenina como era,teve de pôr-se na ponta dos pés, o que a fez rir.Depois, com pueril impaci...
Tendes razão, Espírito. Não serei eu quem vos diráo contrário.- Morreu casadinha de novo, disse o espírito, edeixou filhos...
uma gargalhada que o sacudiu da cabeça aos pés, eberrou com voz sonora, plena, rica, grossa e jovial:- Olá, Ebenezer! Dick...
da face da terra. O soalho foi varrido e encerado, oscandelabros espanados, a lareira reabastecida.Dentro em breve, o arma...
nenhum na traseira para substituí-los.Obtido este resultado, o velho Fezziwig exclamou:“Está ótimo!” e bateu palmas para f...
particular, fulgurando como meteoros em todos ospontos da dança ao mesmo tempo. Seria impossívelprever onde iriam eles apa...
O espírito fez-lhe sinal com o dedo para escutar osdois aprendizes que cantavam os louvores deFeziwig. Depois, continuou- ...
ninguém que ele pudesse ver, mas seu efeito foiimediato. O antigo Scrooge reapareceu, com algunsanos a mais, sob a forma d...
- E depois? Quando mesmo eu me tornasse maisprudente com o decorrer dos anos, que poderia issosignificar? Não teria eu fic...
desta hipótese. Entretanto, respondeu com esforço:- Não pensas o que dizes.- Eu gostaria de pensar de outro modo, se fosse...
sentada em frente de sua filha.Fazia-se um grande barulho naquela sala, poishavia nela mais crianças do que Scrooge poderi...
brinquedos e presentes de Natal.Imaginem, agora, os gritos, as lutas, os assaltostravados contra o pobre homem indefeso.Ca...
- Isabel, disse o marido, voltando-se para suamulher com um sorriso, encontrei hoje à tarde umvelho amigo teu.- Sim? E que...
chapéu extintor com um imprevisto e rápido gesto elhe enterrou na cabeça. O espírito desvaneceu-seimediatamente, ficando i...
pelo novo espírito, sentiu um arrepio tãodesagradável, que resolveu puxar todas as cortinascom as próprias mãos.Feito isto...
começara a brilhar no momento em que o relógiosoava uma hora.Esta simples claridade parecia a Scrooge maisinquietante que ...
de porco, leitoas, verdadeiras guirlandas desalsichas, ostras, castanhas ainda quentes, rubrasmaçãs, laranjas apetitosas, ...
maneiras cativantes. Pendia-lhe da cintura umavelha bainha, já bastante enferrujada e sem arespectiva espada.- Já viste, e...
ao raspar a neve que se acumulava nos seus portaise nos rebordos dos telhados. As criançasregalavam-se ao ver a neve, que ...
abertas, mas as casas de frutas ostentavam todo oseu esplendor. Ali, grandes cestas de castanhas,repletas até aos bordos, ...
estas lindas coisas; era também a alegria dosfregueses, tão possuídos da grandeza daqueleesperançoso dia, que se apertavam...
Depois, os sinos silenciaram e as padariasfecharam-se. Nos subsolos, porém, as carnesassavam, e, sobre o fornos, na rua, a...
Bob Cratchit, levantando o seu facho.Então, apareceu a senhora Cratchit, esposa de Bob,vestida muito modestamente com um v...
Cratchits. Urra! Veja, Marta! Temos pato hoje!- Louvado seja Deus, minha querida! Como estásatrasada hoje! observou a senh...
atirou-seaos braços do pai, enquanto os dois pequeninosCratchits levavam Tinzinho para a cozinha, ondeestavam cozinhando o...
o pato era, naquele instante, a mais rara das aves,um fenômeno emplumado, e que perto dele umcisne negro não passava de um...
sobrou”, observou a senhora Cratchit comsatisfação, olhando alguns ossos relegados noprato.Entretanto, todos comeram à von...
Uma aventura de natal
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  2. 2. Uma Aventura de Natal Charles Dickens
  3. 3. Copyright © 2000, virtualbooks.com.brTodos os direitos reservados a Editora Virtual BooksOnline M&M Editores Ltda.É proibida a reprodução doconteúdo deste livro em qualquer meio de comunica-ção, eletrônico ou impresso, sem autorização escritada Editora.
  4. 4. Uma Aventura de Natal Charles DickensPRIMEIRA ESTROFEO espectro de MarleyPara começar, digamos que Marley tinha morrido.Neste particular, não pode haver absolutamente amenor dúvida; a ata dos seus funerais havia sidoassinada pelo vigário, pelo sacristão, pelo homemda empresa funerária e pelas pessoas que haviamconduzido o féretro.Scrooge também a tinha assinado. Ora, Scrooge eraum nome bastante conhecido na Bolsa, e suaassinatura era um documento valioso, onde querque ele a colocasse. O velho Marley estava tãomorto como um prego de porta.Perdão! Não quero dizer com isto que saiba porexperiência pessoal o que possa haver departicularmente morto num prego de porta. Pormim, eu estaria mais inclinado a considerar umprego de ataúde como a coisa mais morta quepossa haver no comércio. Mas, como devemos estacomparação à sabedoria dos nossos antepassados,
  5. 5. tenhamos todo o cuidado em não profaná-la, ou, docontrário, o país estará perdido. Assim pois, vocêshão de permitir-me repetir, com insistência, queMarley estava tão morto como um prego de porta.Acaso Scrooge sabia que Marley estava morto?Evidentemente, sim. Como poderia ser de outromodo? Marley fora seu sócio durante não seiquantos anos; Scrooge era seu único executortestamentário, o único administrador dos seusbens, seu único herdeiro, seu único amigo.De resto, este triste acontecimento, mais quesuficiente para perturbar qualquer outro, não oabatera a ponto de fazê-lo perder suas notáveisqualidades de homem de negócios, pois haviaassinalado o dia dos seus funerais precisamente poruma especulação das mais felizes.A menção dos funerais de Marley leva-menovamente ao ponto de partida. É absolutamentecerto que Marley estava morto. Este ponto tem deficar rigorosamente assentado, sem o que, ahistória que vou contar não apresentaria nada deextraordinário. Se nós não estivéssemosperfeitamente convencidos de que o pai de Hamletse achava morto antes de levantar o pano do palco,o fato de vê-lo passear sobre suas própriasmuralhas, por uma noite de tempestade, nos teriasurpreendido tanto quanto se tal fato se tivessedado com um fidalgo qualquer, que altas horas danoite se levantasse e temerariamente fosse errarem pleno descampado.Scrooge não havia apagado jamais o nome de seuantigo sócio. Depois de tantos anos, ainda se liasobre a porta de sua casa comercial o nome de
  6. 6. Scrooge & Marley, pois Scrooge & Marley continuavacomo a razão social da firma. As pessoas que nãoestavam bem a par das coisas chamavam Scroogeora por Scrooge, ora por Marley, mas Scroogeatendia pelos dois nomesindiferentemente.Ah! Scrooge! Com que firmeza ele empunhava asrédeas dos negócios! Como este negociante sabiapegar e espremer, agarrar e tosquiar o cliente e,sobretudo, não irritar ninguém. Duro e cortantecomo uma pedra-de-fogo, da qual jamais aço algumconseguiu arrancar uma única centelha generosa,Scrooge mostrava-se taciturno, arredio e isoladocomo uma ostra. Uma frieza interior enregelava-lheos traços decrépitos, ressumbrava em seu narizadunco, sulcava-lhe as faces, endurecia-lhe o andar,avermelhava-lhe os olhos, azulava-lhe os lábiosfinos e fazia sentir-se até mesmo em sua vozestridente. Uma espécie de neblina cobria-lhe acabeça, os supercílios e o queixo pontiagudo. Estafrieza inóspita Scrooge a levava consigo aonde querque fosse, de modo que seu escritório continuavagélido durante o mais intenso calor e nãomelhorava um grau nem mesmo pelo Natal.Quanto à temperatura exterior, pouca influênciaexercia sobre ele. Nenhum calor poderia aquecê-lo,assim como o mais rigoroso inverno não conseguiriatranspassá-lo. Não havia rajada mais áspera queele, tempestade de neve mais implacável, chuvafina mais torturante. O mau tempo não sabia poronde pegá-lo. Chuva e granizo, neve e frio levavamsobre ele apenas uma vantagem: todos semostravam, uma vez ou outra, pródigos de seus
  7. 7. benefícios; Scrooge, nunca!Ninguém, jamais, conseguiu pará-lo na rua para lhedizer em tom amável: “Como vai, meu caroScrooge? Quando terei o prazer de sua visita?”Mendigo algum animava-se a implorar-lhe acaridade, nem nenhuma criança se atreveria aperguntar-lhe as horas. Nem uma única vez, emtoda a sua existência, homem ou mulher havia-lheperguntado sobre um caminho. Os próprios cães decegos pareciam conhecê-lo, pois desde que oavistavam procuravam desviar seu pobre amo parajunto de uma porta ou a um quintal qualquer, e ali,agitando a cauda, pareciam dizer: “É preferível nãoter olhos a ter tão má catadura, meu pobre amo!”Mas, que importava a Scrooge? Pois era justamenteo que ele queria. Sua maior felicidade era abrircaminho através das estradas atravancadas da vida,tendo sempre a distância toda e qualquer simpatiahumana. **Um dia, um dos melhores do ano, e véspera deNatal, o velho Scrooge achava-se em seu escritório,a trabalhar. O frio era acre e penetrante,acompanhado de nevoeiro. Scrooge ouvia aspessoas que iam e vinham na pequena viela,esfregando as mãos e caminhando rapidamentepara se aquecerem. Os relógios da cidade acabavamde soar três horas, mas já começava a escurecer, eas luzes principiavam a brilhar no interior dosescritórios vizinhos, pontilhando de manchasavermelhadas a atmosfera cinzenta e quase
  8. 8. palpável do crepúsculo.O nevoeiro infiltrava-se por todas as fendas,invadindo o interior das casas pelo buraco dasfechaduras; fora, era tão denso, que, não obstantea estreiteza da viela, as casas fronteiriças setinham tornado imprecisos fantasmas. Diante destaonda cinzenta que descia progressivamente,ameaçando envolver tudo em sua obscuridade,poder-se-ia crer que a natureza inteira se haviaposto ali a fabricar a chuva e a neve.A porta de Scrooge estava aberta de modo apermitir-lhe observar seu empregado, que se achavacopiando cartas no compartimento contíguo, lúgubrecubículo que mais parecia uma cisterna. O fogo deScrooge era bem insignificante, mas o de seuempregado era tão miserável que parecia nãopassar de uma única brasa. E tornava-se impossívelalimentá-lo, pois que Scrooge conservava junto desi a lata de carvão, e quando o pobre rapaz entrava,com a pá na mão, Scrooge declarava que eraobrigado a dispensar os serviços de um homem tãogastador. Diante disso, o pobre homem, enrolando-se em seu cachecol branco, procurava aquecer-se nachama da lamparina, o que não conseguia, por nãoser dotado de uma imaginação suficientementeviva.- Bom Natal, meu tio, e que Deus o ajude!exclamou uma voz jovial.Era a voz do sobrinho de Scrooge, cuja entrada noescritório fora tão imprevista, que este cordialcumprimento foi o único aviso com que o rapaz sefizera anunciar.- Tolice! Tudo isso são bobagens!
  9. 9. O sobrinho de Scrooge, que havia caminhadoapressadamente no meio da bruma gélida, tinha orosto incendiado pela corrida. Seu rosto simpáticoestava vermelho, os olhos brilhavam, e, quandofalava, seu hálito quente transformava-se numanuvem de vapor.- Natal, uma bobagem, meu tio? Parece que osenhor não refletiu bem!- Ora! disse Scrooge. Feliz Natal! Que direito temvocê, diga lá, de estar alegre? Que razão tem vocêde estar alegre, pobre como é?- E o senhor, respondeu alegre e zombeteiramente osobrinho, que direito tem de estar triste? Que razãotem o senhor de estar acabrunhado, rico como é?Não encontrando no momento melhor resposta,Scrooge repetiu novamente:- Tolice! Tudo isso são bobagens!- Vamos, meu tio! Não se amofine! disse o jovem.- Como não me amofinar, replicou o tio, quandovivemos num mundo cheio de gente ordinária? FelizNatal! . . . Que vá para o diabo o seu feliz Natal!Que representa para você o Natal, a não ser umaépoca em que você é obrigado a abrir o cordão dabolsa já magra? Uma época em que você se fazmais velho um ano e nem uma hora mais rico? Emque você, fazendo um balanço, verifica que ativo epassivo equilibram, sem deixar nenhum resultado?Se fosse eu quem mandasse, continuou Scroogeindignado, cada idiota que percorre as ruas com um“feliz Natal” na ponta da língua seria condenado aferver em sua marmita, em companhia de seu “bolode Natal”, e a ser enterrado com um galho deazevinho espetado no coração. Pronto!
  10. 10. - Meu tio! exclamou o jovem.- Meu sobrinho, tornou o tio num tom severo, podefestejar o Natal a seu modo, mas deixa-me festejá-lo como me aprouver.- Como lhe aprouver? Mas o senhor não o festejaabsolutamente!- Perfeitamente! disse Scrooge; então, dê-me aliberdade de não o festejar. Quanto a você, que lhefaça bom proveito! O proveito que você tem tido atéhoje...- Há muita coisa de que eu não soube tirar oproveito que poderia ter tirado, é certo, e o Natal éuma delas, replicou o sobrinho. Mas, pelo menos,estou certo de ter sempre considerado o Natal -fora a veneração que inspiram sua origem e seucaráter sagrados - como uma das mais felizesépocas do ano, como um tempo de bondade eperdão, de caridade e alegria; o único tempo, queeu saiba, no decorrer de todo um ano, em quetodos, homens e mulheres, parecem irmanados nomesmo comum acordo para abrir seus coraçõesfechados e reconhecer, naqueles que estão abaixodeles, verdadeiros companheiros no caminho davida e não criaturas diferentes, votadas a outrosdestinos. Assim, pois, meu tio, embora o Natal nãome tenha posto nos bolsos uma única moeda deouro ou de prata, estou convencido de que ele mefez e me fará muito bem, e é por isso que eurepito: Deus abençoe o Natal!O empregado não pôde deixar de aplaudir, de seucubículo, o sobrinho de Scrooge, mas, logo a seguir,caindo em si e notando sua inoportuna intromissão,pôs-se a remexer as brasas vigorosamente,
  11. 11. acabando por apagá-las.- Eu que o ouça mais uma vez, disse Scrooge, evocê irá festejar o Natal no olho da rua. Quanto avocê, meu amigo, continuou ele voltando-se para osobrinho, você é de fato eloqüente; estou mesmoadmirado de que ainda não tenha conseguido umlugar no Parlamento.- Não se aborreça, tio, e venha almoçar conoscoamanhã.Scrooge respondeu mandando-o para o diabo, e ofez de cara a cara.- Mas, por quê? exclamou o sobrinho. Por quê?- Por que foi que você casou? perguntou Scrooge.- Porque eu amava.- Porque amava! resmungou Scrooge. Como se issonão fosse outra tolice maior ainda que festejar oNatal! Passe bem!- Mas, meu tio! O senhor nunca vinha à minha casaantes do meu casamento. Por que arranja essepretexto para não vir hoje?- Boa noite! disse Scrooge.- Eu não espero nada do senhor; eu nada lhe peço.Por que não seremos bons amigos?- Boa noite! disse Scrooge.- Lamento de todo o coração vê-lo assim tãoobstinado. Não temos, que eu saiba, nenhummotivo de ressentimento. Foi em homenagem aoNatal que vim até aqui, e no espírito de Natal queroficar até o fim.- Boa noite! disse Scrooge.- E feliz Ano Novo!- Boa noite! replicou Scrooge.O sobrinho, entretanto, saiu do escritório sem uma
  12. 12. palavra de desagrado. Na porta, deteve-se paraapresentar as boas-festas ao empregado, que,mesmo tiritando como estava, se mostrou maisamistoso que seu patrão, pois que respondeu aojovem com felicitações cheias de cordialidade.- Outro predestinado! resmungou Scrooge ao ouvi-lo. Imaginem meu empregado a falar de “FelizNatal” com apenas quinze xelins por semana, tendomulher e filhos!O tal “predestinado”, tendo acompanhado osobrinho de Scrooge até à porta, fez entrar doiscavalheiros de fisionomia simpática e aparênciadistinta, os quais penetraram no escritório, tendo àmão, além do chapéu, vários papéis e documentos.Na presença de Scrooge, inclinaram-se.- “Scrooge & Marley”, parece-nos? disse um deles,consultando os apontamentos. É ao senhor Scroogeou ao senhor Marley que temos a honra de falar?- O senhor Marley faleceu há cerca de sete anos.Morreu nesta mesma noite, fará seguramente seteanos.- Não temos a menor dúvida de que a generosidadedo sócio sobrevivente seja igual à dele, disse umdos cavalheiros, apresentando os papéis que oautorizavam a pedir.E não se enganava, pois que os dois sócios erambem dignos um do outro.Diante da inquietante palavra “generosidade”,Scrooge franziu o sobrolho, sacudiu a cabeça edevolveu os papéis.- Nesta festiva época do ano, senhor Scrooge,prosseguiu o cavalheiro, tomando uma pena, pareceainda mais oportuno do que em nenhuma outra
  13. 13. ocasião, arrecadar algum dinheiro para aliviar ospobres e os deserdados da sorte, que sofremcruelmente os rigores do inverno. A muitos milharesde infelizes falta mesmo o estritamente necessário,e muitas outras centenas de milhares nãoconhecem o mais insignificante conforto- Não há prisões? perguntou Scrooge.- Prisões não faltam, disse o cavalheiro largando apena.- E os asilos? Não fazem nada? Perguntou Scrooge.- Sim, de fato, embora eu preferisse dizer ocontrário.- Então, as casas de correção estão em plenaatividade?- Sim, estão em plena atividade, senhor.- Oh! Eu já estava receando, pelo que o senhor medisse há pouco, que alguma coisa tivesseinterrompido uma atividade tão salutar, disseScrooge. Estousatisfeitíssimo por saber que tal não aconteceu.- Persuadidos de que estas organizações nãopodem proporcionar ao povo o consolo cristão daalma e do corpo, de que ele tem tanta necessidade,tornou o cavalheiro, alguns dentre nós resolveramempreender uma coleta, cujo produto seriadistribuído aos pobres, em forma de alimento,combustível e roupa. Escolhemos esta época do anoporque, mais que nenhuma outra, é aquela em quemais cruelmente se faz sentir a penúria e em que oconforto se torna mais doce. Quanto posso pôr emseu nome?- Nada.- Desejaria guardar o anonimato?
  14. 14. - Desejo que me deixem em paz; já que ossenhores querem saber, é isso que eu desejo. Eunão faço banquetes para mim próprio pelo Natal,vou agora dar banquete aos vagabundos! Já façomuito em dar minha contribuição às organizaçõesde que falamos ainda há pouco, e elas não ficambarato! Aqueles que tiverem necessidade querecorram a elas.- Muitos não o podem fazer, outros preferem amorte.- Se preferem a morte, disse Scrooge, está ótimo!Que morram! Isso virá diminuir o excesso depopulação. De resto, queiram desculpar-me, porémnão estou bem a par dessa questão.- Mas o senhor poderá tomar parte nela.- Isso não me interessa, replicou Scrooge. Umhomem já faz muito, quando se ocupa dos seuspróprios negócios, sem interferir nos negóciosalheios. Os meus já me tomam todo o tempo. Boanoite, senhores.Vendo claramente que era inútil insistir, oscavalheiros retiraram-se. Scrooge, satisfeito consigomesmo, pôs-se novamente a trabalhar, comradiante bom-humor. **Durante este tempo, o nevoeiro e a escuridãofizeram-se tão espessos, que muitas pessoaspercorriam as ruas com tochas acesas na mão,oferecendo-se aos cocheiros para irem adiante doscavalos iluminando o caminho. A antiga torre deuma igreja, cujo velho sino bimbalhante parecia
  15. 15. espiar Scrooge continuamente através de suajanelinha gótica, tornara-se invisível e pôs-se atocar as horas e os quartos de hora entre nuvens,com vibrações prolongadas e trêmulas, como seestivesse a bater os dentes lá no alto, no argelado.O frio tornava-se intenso. Na rua principal, sobre aqual desembocava a viela, alguns operários, quereparavam o encanamento do gás, haviam acendidouma fogueira, em torno da qual se haviamaglomerado homens e mulheres, todos andrajosos,que aqueciam as mãos e olhavam o fogo com armaravilhado. O bebedouro público, vendo-seabandonado, resolveu congelar-se. Os luminososdos magazines, onde as bagas e as folhas deazevinho estavam sob o calor das lâmpadas nasvitrinas, imprimiam rubros reflexos nos rostospálidos dos transeuntes.As vitrinas dos restaurantes e dos bares ofereciamaos olhos uma apresentação esplêndida, umespetáculo deslumbrante, com o qual pareciaimpossível que os vulgares princípios da compra eda venda pudessem ter a menor relação. O prefeito,repimpado no majestoso edifício da Câmara, davaordens a seus cinqüenta cozinheiros e despenseirospara que o Natal fosse comemorado como se devecomemorar na casa de um prefeito. E mesmo opobre alfaiate, que fora condenado na segunda-feiraanterior a cinco xelins de multa por embriaguez earruaça noturna, fazia seus preparativos dentro desua miserável mansarda, batendo a massa do bolodo dia seguinte, enquanto sua esposa saíaapressadamente, com o bebê ao colo, para comprar
  16. 16. um pedaço de carne de vaca.O nevoeiro adensava-se cada vez mais, e o frio setornava cada vez mais áspero e penetrante. Umrapazinho de nariz arrebitado, roído pelo vento,glacial e voraz, como um osso por um cão,aproximou-se da porta para saudar Scrooge comuma cantiga de Natal. Mas, desde as primeiraspalavras de Deus vos salve, bom amigo, vos dêcoração alegre, Scrooge apanhou uma régua com umgesto tão enérgico, que o cantor fugiu espavorido,perdendo-se no nevoeiro e no frio.Finalmente, chegou a hora de fechar o escritório.Scrooge admitiu o fato, mas deixou seu tamboretebastante penalizado. O empregado, que em seucubículo só aguardava este sinal, apressou-se emapagar o candeeiro e pôr o chapéu.- Você há de certamente querer ficar livre todo o diade manhã? disse-lhe Scrooge.- Se isso não o aborrecer, senhor.- Naturalmente que isso me atrapalha, replicouScrooge; e o que é mais, isso não é justo. Se eudescontasse meia coroa de seu ordenado, apostoque se sentiria prejudicado.O empregado teve um sorriso pálido.- E entretanto, tornou Scrooge, você acha que nãome prejudica, a mim, quando estou lhe pagando umdia para não fazer nada.O empregado observou humildemente que issoacontecia apenas uma vez por ano.- Bela desculpa para meter as unhas no bolso doseu patrão a cada 25 de dezembro! disse Scrooge,abotoando o sobretudo até ao queixo. Espero queseja mais pontual no dia seguinte pela manhã.
  17. 17. O empregado prometeu-o, e Scrooge saiuresmungando.O escritório foi fechado num abrir e fechar de olhos,e o empregado também saiu, todo enrolado em seucachecol branco, cujas extremidades pendiam paraalém da jaqueta, pois que ele desconhecia o luxode um sobretudo. Em honra do Natal, desceuCornhill fazendo escorregadelas, em companhia deum bando de rapazes; depois, rumou a todavelocidade para Camden, a fim de entrar em casa ecomeçar a brincar de cabra-cega. **Scrooge fez uma magra refeição na sombriaespelunca em que costumava comer. Quandoacabou de percorrer os jornais e de tornar aobservar sua caderneta do banco, entrou em casapara deitar-se.O apartamento em que residia era o mesmo em quevivera seu falecido sócio. Composto de várioscompartimentos lúgubres e mal-iluminados, faziaparte de um prédio estranho, situado no fundo deum pátio, onde estava tão mal colocado, que sepoderia pensar que ele viera parar ali em suajuventude, brincando de esconde-esconde comoutras casas, e depois não encontrou mais seucaminho. Além de tudo isso, era velho e infundia omedo que inspiram as casas abandonadas, pois queninguém, a não ser Scrooge, ali residia, estandoocupados os outros compartimentos com escritórioscomerciais.O pátio era de tal modo escuro, que Scrooge, não
  18. 18. obstante conhecer de cor todos os seuspormenores, foi obrigado a atravessá-lo àsapalpadelas. O nevoeiro e o granizo envolviam detal modo o arcaico e sombrio alpendre, que pareciaestivesse o gênio do inverno sentado no seu portal,engolfado em lúgubres meditações.Agora, se existe um fato comprovado, é que aaldrava de ferro da porta não apresentavaabsolutamente nada de particular, a não ser que erabastante grossa. Outro fato indiscutível é queScrooge estava acostumado a vê-la de manhã e detarde, desde que morava naquela casa. Cumprenotar igualmente que Scrooge era tão destituído deimaginação como qualquer habitante de Londres,inclusive os membros da municipalidade e osaldermen. É necessário notar, também, que Scroogenão havia pensado um só instante em Marley desdea alusão que havia feito, naquela mesma tarde, àmorte de seu antigo sócio, verificada sete anosantes. Isto posto, expliquem-me, se puderem, comopôde acontecer que Scrooge, ao meter a chave nafechadura, viu subitamente diante dele, e semprévia transformação, não uma argola de aldrava,mas o rosto de Marley!Sim, o rosto de Marley. Aquele rosto não estava,como o resto do pátio, mergulhado nas trevasimpenetráveis, mas aureolado de um estranhoclarão fosforescente. Sua expressão não era nemameaçadora nem bravia, e olhava para Scroogecomo Marley costumava olhá-lo, com os óculossobre a testa de espectro. Os cabelos se lheagitavam de modo estranho, levantados, parecia,por um sopro ou uma corrente de ar quente; e seus
  19. 19. olhos, embora bem abertos, estavam perfeitamenteimóveis.A aparição, com aquela tez lívida e aquele olharfixo, era horrível de se ver; entretanto, o horror queela inspirava não procedia propriamente daexpressão dos seus traços, mas de uma influênciaexterior, que se exercia de fora e como que adespeito dela mesma.Mas quando, vencida a primeira perturbação,Scrooge examinou fixamente o estranho fenômeno,já não viu, de repente, nada mais que o simplesanel da aldrava.Dizer que ele não se amedrontou e não sentiuinteriormente uma impressão extraordinária jamaisexperimentada até então, seria falso. Nãoobstante, deitou a mão sobre a chave, que haviadeixado cair, fê-la voltar-se com decisão nafechadura, penetrou no vestíbulo e acendeu a vela.Para dizer verdade, Scrooge teve um momento dehesitação antes de fechar a porta, e começou porexaminá-la prudentemente pela parte de trás, comose receasse ver surgir no vestíbulo a ponta dacabeleira de Marley. Mas não havia nada naquelelado, exceto os parafusos e as porcas que fixavam aaldrava. Depois de tal vistoria, Scrooge murmurou:“Ora! Tolices!” e tornou a fechar a portabruscamente.Aquele ruído propagou-se por toda a casa como orolar de um trovão. Todos os cômodos do pavimentosuperior, todas as pipas do negociante de vinho, naadega, embaixo, repetiram aqueles ruídos comsonoridades várias. Mas Scrooge não era homemque se deixasse amedrontar com ecos. Trancou a
  20. 20. porta, atravessou o vestíbulo e subiu a escadacalmamente, protegendo a vela.Costuma-se falar algumas vezes das escadasantigas, pelas quais poderia passar facilmente umcarro puxado por seis cavalos. Pois bem: eu possoafirmar que na escada de Scrooge se teria podidofazer passar um carro grande, e até mesmo pô-loatravessado, com os varais para a parede e atraseira para o lado da balaustrada: haveria todo oespaço necessário, e mais ainda.Foi talvez por esta razão que Scrooge pareceu verum carro fúnebre subir diante dele, na escuridão.Meia dúzia de lampiões teriam sido insuficientespara aclarar os enormes baixos da escada:imaginem agora o que poderia fazer aquela simplesvelinha de Scrooge.Completamente despreocupado, Scrooge continuavaa subir. A escuridão não custa dinheiro, e era porisso que Scrooge gostava da escuridão. Do mesmomodo, antes de fechar a pesada porta do seuapartamento, percorreu todas as dependências,para certificar-se de que nada havia de anormal. Elehavia guardado da aparição uma impressão forte osuficiente para justificar esta medida.A sala, o quarto de dormir, o quarto de despejo,tudo conservava seu aspecto habitual. Não havianinguém debaixo da mesa, ninguém debaixo dosofá. Um resquício de lume no fogão, uma xícara euma colher preparadas sobre a grade da lareira,uma canequinha de remédio (Scrooge sofria deenxaqueca). Ninguém debaixo da cama, ninguém noarmário embutido, ninguém no robe de chambre,que pendia encostado à parede, numa atitude
  21. 21. suspeita. No quarto de despejo, não havia senão,como habitualmente, um velho guarda-fogo,sapatos usados, duas cestas, um penteadorcambaio e uma pá de carvão.Completamente tranqüilizado, Scrooge fechou aporta, dando a primeira volta à chave, depois asegunda volta, o que não costumava fazer. Postoassim ao abrigo de surpresas, tirou a gravata,enfiou o roupão, calçou as chinelas, pôs o boné denoite e sentou-se diante do fogo para beber suaxícara de remédio.O fogo era bastante fraco e de todo insuficientepara uma noite tão fria. Scrooge foi obrigado asentar-se bem encostado e a inclinar-se sobre elepara conseguir obter deste insignificante punhadode combustível uma leve sensação de calor.A lareira era antiga. Construída, outrora, por algumantigo comerciante holandês, era inteiramenterevestida de azulejos de faiança, representandocenas da Bíblia. Havia Cains e Abéis, filhas deFaraós e rainhas de Sabá, angélicos mensageirosque desciam do céu sobre nuvens de arminho;Abraãos e Baltasares, apóstolos que seaventuravam no tenebroso oceano em pequeninosbatéis . . . Assim, lá estavam centenas depersonagens para ocupar e distrair o pensamentode Scrooge.Entretanto, como a antiga vara do profeta, o rostode Marley, morto havia sete anos, vinha sobrepor-sea tudo isto. Se a superfície destes azulejos fossetotalmente branca e dotada da propriedade derepresentar um fragmento que fosse o pensamentode Scrooge, sobre todos eles estaria estampada
  22. 22. uma cópia da cabeça de Marley.- Idiotices! . . . disse Scrooge, levantando-se epondo-se a passear de um lado para outro.Depois de ter percorrido o aposento muitas vezesseguidas, voltou a sentar-se. Como inclinasse acabeça para trás, seus olhos pousaram,casualmente, sobre uma campainha já fora de uso,que pendia da parede e que se comunicava, não sesabe por quê, com uma das mansardas da casa.Scrooge ficou tomado do mais vivo espanto, e aomesmo tempo de um indescritível e inexplicávelpavor, quando viu mover-se o cordão da campainha,que começou a balançar-se primeirovagarosamente, quase imperceptível, e, emseguida, violentamente, ao mesmo tempo em quetodas as campainhas da casa entraram a soarruidosamente.Este tumulto durou aproximadamente meio minuto,quando muito um minuto, mas que pareceuinterminável a Scrooge. E as campainhas, domesmo modo como começaram, tambémsilenciaram ao mesmo tempo.A este alarido infernal, sucedeu um barulhometálico, oriundo das profundezas da casa, como sealguém, no interior da adega, arrastasse pesadascorrentes. Então, Scrooge lembrou-se de ter ouvidodizer que, nas casas mal-assombradas, os duendesarrastam sempre grossas cadeias atrás de si.A porta da adega abriu-se violentamente, e oestrépito fez-se ouvir mais vivo no rés-do-chão,depois na escada, e, aproximando-se cada vezmais, dirigiu-se em linha reta para a porta doapartamento.
  23. 23. - Idiotices! . . . disse Scrooge. Não acredito nisso,não!Mas imediatamente mudou de cor, quando, semdeter-se um só instante, o misterioso visitanteatravessou a porta maciça e apresentou-se diantedele.A sua entrada, o fogo bruxuleante lançou umaderradeira labareda, que pareceu gritar: “Eu oreconheço: é o espectro de Marley!” E apagou-se.Era a mesma fisionomia, absolutamente a mesma.Marley, tendo na cabeça a mesma peruca, vestindoo mesmo colete, as calças justas e as botinas queusava habitualmente. O couro das botas, o topete eo rabicho da peruca arrepiavam-se, e as abas desua casaca balançavam. Cingia-lhe o corpo a longacorrente que trazia, e que serpenteava atrás delecomo uma cauda. Scrooge, que a examinavaatentamente, viu que era formada de cofres-fortes,de chaves, de cadeados, de registros e de pesadasbolsas de aço.Como o corpo do espectro era transparente, Scroogepôde observar, através do seu colete, os doisbotões pregados no corpo do casaco pela parte detrás.Scrooge ouvira dizer, por mais de uma vez, queMarley não tinha entranhas, mas até então elejamais pudera acreditar.Não! Mesmo agora Scrooge não podia acreditar emsemelhante coisa. Não lhe importava ver diante desi aquele fantasma, que seu olhar atravessavacomo sefora de vidro; não lhe importava sentir o olharglacial dos seus olhos mortos, nem reparar no
  24. 24. próprio tecido de que era feito o lenço que lheenvolvia a cabeça e o queixo - minúcia que não lhehavia chamado a atenção nos primeiros momentos.Não, Scrooge continuava incrédulo e lutava contraos próprios sentidos.- Pois bem! disse Scrooge, frio e mordaz como decostume. Que quer de mim?- Muita coisa.Já não podia haver a menor dúvida: era exatamentea voz de Marley.- Quem é você? perguntou Scrooge.- Pergunta, antes, quem eu era ...- Então, quem era você? tornou a perguntar Scroogeelevando a voz. Para ser um espectro acho-o muitoreal.- Em vida, fui Jacob Marley, teu sócio.- Pode... sim... pode sentar-se? perguntou Scrooge,olhando-o com ar de dúvida.- Posso.- Então, sente-se.Scrooge havia feito esta pergunta porque duvidavaque um ser assim tão transparente pudesse acasotomar um assento, o que obrigaria seu visitante, nocaso de impossibilidade, a uma explicação bastanteembaraçosa.O fantasma, porém, sentou-se do outro lado dalareira, com a maior naturalidade deste mundo.- Não acreditas em mim? perguntou ele.- É claro que não, respondeu Scrooge.- Que provas desejas da realidade da minhapresença, fora do testemunho dos teus sentidos?- Nem sei.- Por que duvidas dos teus sentidos?
  25. 25. - Pela simples razão, respondeu Scrooge, de quenão precisa muita coisa para perturbá-los. Nãoprecisa mais que uma ligeira indisposição deestômago. Quem pode provar que, afinal de contas,tudo isto não passe de uma bisteca mal digerida,uma colher de mostarda, um naco de queijo ou umabatata mal cozida. Quem quer que seja, você cheiramais a cerveja que a defunto.Scrooge não costumava de modo algum fazergracejos, e especialmente neste momento não lheapeteciam pilhérias. Para dizer a verdade, se semostrava espirituoso, era mais para enganar a sipróprio e dissipar o seu pavor, pois a voz doespectro o apavorava até o mais íntimo recesso doseu ser.Contemplar em silêncio estes olhos fixos vítreos erapara Scrooge uma provação acima de suas forças. Oque lhe parecia igualmente horrível era a atmosferainfernal que envolvia o fantasma. Scrooge não podiasenti-la por si próprio, mas reconhecia claramente asua presença porque, muito embora o espectro seconservasse imóvel, sua cabeleira, as borlas desuas botas e as abas do seu casaco não paravamde agitar-se, como se fossem movidas pelo cálidosopro de uma fornalha.- Está vendo este palito? disse Scrooge, voltandovivamente à carga, pela mesma razão exposta epara desviar de sobre si, ainda que fosse porapenas um segundo, o olhar vítreo da aparição.- Vejo, respondeu o fantasma.- Mas você não está olhando para ele, observouScrooge.- Mas estou vendo, disse o fantasma.
  26. 26. - Pois bem! continuou Scrooge, basta que eu oengula para ser perseguido, até o fim dos meusdias, por uma legião de espíritos imaginários, todosnascidos do meu estômago. Tolices! Posso afirmar-lhe. Tudo tolices!A estas palavras, o fantasma soltou um tremendourro e agitou com tal violência as suas cadeias,fazendo um barulho tão sinistro e pavoroso, queScrooge foi obrigado a agarrar-se à poltrona paranão desmaiar. Mas seu espanto recrudesceu aindamais quando o fantasma, retirando o lenço que lheenvolvia a cabeça, como se o sufocasse o calor,deixou cair sobre o peito o maxilar inferior.Scrooge lançou-se de joelhos, escondendo o rostoentre as mãos.- Misericórdia! exclamou ele. Ó pavorosa aparição,por que me vem atormentar?- Miserável criatura, tão apegada aos bens da terra!Acreditas em mim, agora?- Sim, balbuciou Scrooge, creio! Sou obrigado a crer!Mas por que vagam os espíritos sobre a terra, e porque me vêm eles perturbar?- Deus exige de cada homem, respondeu oespectro, que o espírito que o anima seconsubstancie com as almas de seus semelhantesno decurso de sua longa viagem pela vida. Assim,pois, aquele que viver só para si durante aexistência, é condenado a viver errante pelo espaçoapós a morte - ó miserável destino! - para assistir,já agora impotente, a todas as coisas em que,durante a vida, poderia ter tomado parte para suafelicidade e a de seu próximo.Novamente o espectro deu um grito, ao mesmo
  27. 27. tempo que agitava as cadeias e retorcia as mãostransparentes.- Você está acorrentado! disse Scrooge com voztrêmula. Diga-me por quê.- Estou acorrentado com as cadeias que forjei paramim mesmo durante a vida. Forjei-a elo por elo,palmo a palmo. Trago-a agora por minha livrevontade, e é de livre vontade que a tenho usado.Estás estranhando o modelo?Scrooge tremia cada vez mais.- Desejas saber, prosseguiu o fantasma, o peso e ocomprimento da cadeia que trazes em torno da tuacintura? Há sete anos, precisamente numa noite deNatal, ela era tão comprida e tão pesada quantoesta. Desde então tens trabalhado muito nela.Neste momento, é uma corrente de consideráveldimensão.Scrooge deitou um olhar febril para o soalho, comose já se visse enlaçado por cinqüenta ou sessentametros de corrente de ferro. Mas nada viu.- Jacob, disse ele com voz suplicante, meu velhoJacob Marley! Diga-me ainda alguma coisa! Dê-meum pouco de conforto, um pouco de esperança!- Já não posso confortar ninguém, respondeu ofantasma. O consolo e a esperança vêm de outrafonte, Ebenezer Scrooge. São trazidos por outrosmensageiros e para outros homens, não para ti.Além do mais, não posso conversar D quanto eudesejara. O que me é permitido dizer-te ainda épouca coisa, pois não tenho permissão paradescansar, nem para deter-me, nem para demorar-me onde quer que seja. Noutros tempos, meuespírito não saía jamais do nosso escritório, estás-
  28. 28. me compreendendo? Nunca, durante minha vida,meu espírito se resolveu a afastar-se dos estreitoslimites do nosso covil de negociatas. Eis por quetenho diante de mim tantas e tão penosas viagens.Scrooge tinha o hábito de meter as mãos nosbolsos, quando refletia; e foi assim que, enquantomeditava sobre as últimas palavras do fantasma,dirigiu-lhe a palavra, mas sem erguer os olhos esempre ajoelhado.- É preciso que você tenha sido bem lento, Jacob!observou ele com voz onde transparecia o homemde negócios ao mesmo tempo humilde eobsequioso.- Bem lento! repetiu o espectro.- Você morreu há sete anos, disse Scroogepensativo, e todo esse tempo perambulando?- Todo o tempo, disse o espectro; sem repouso esem trégua, com a eterna tortura do remorso.- Viaja com rapidez? perguntou Scrooge.- Nas asas do vento.- Você deve ter percorrido muitos países duranteestes sete anos, disse Scrooge.A estas palavras, o espectro deu ainda um grito esacudiu as suas correntes com um tal fragor, quecortou ruidosamente o profundo e gélido silêncio danoite.- Oh, um desgraçado prisioneiro, acorrentado ecarregado de ferros! exclamou o fantasma, por terolvidado que todo homem deve associar-se àgrande obra da humanidade, prescrita peloOnipotente, e perpetuar o progresso. Por não saberque uma alma verdadeiramente cristã, que trabalhagenerosamente dentro de sua esfera, por muito
  29. 29. pequena que seja, sempre achará que sua vidamortal é demasiado breve para realizar todo o bemque ela vê por fazer-se em redor de si. Por nãosaber que uma eternidade de lágrimas não podereparar uma vida mal vivida! . . . Pois bem, eraassim que eu vivia, era assim que eu vivia!- Entretanto, Jacob, balbuciou Scrooge, quecomeçava a tomar para si mesmo as palavras doespectro, você foi sempre um excelente homem denegócios.- Os negócios! gemeu o fantasma retorcendo asmãos. A humanidade, o bem comum, a indulgência,a caridade, a misericórdia, a benevolência, essesdeviam ter sido os meus negócios!O espectro ergueu suas cadeias com a extremidadedo braço, como se visse nelas a causa do seu inútildesespero, deixando-a em seguida cairpesadamente ao chão.- Quando chega esta época do ano, prosseguiu ele,meus sofrimentos redobram. Por que fui eu tãoinsensato para ter passado no meio da multidãodos meus semelhantes, sempre com os olhosvoltados para o chão, sem jamais erguê-los paraaquela bendita estrela, que um dia conduziu osmagos para uma pobre choupana? Não haveriaoutras pobres choupanas, aonde a luz me pudesseter guiado a mim também?Scrooge tremia como varas verdes, ouvindo oespectro falar daquele modo.- Ouve-me, gritou o fantasma. Meus minutos sãocontados.- Estou ouvindo! disse Scrooge, mas tenha pena demim. Eu lhe peço Jacob, não faça muitos rodeios!
  30. 30. — Seria difícil dizer por que é que estou aparecendodiante de ti sob forma visível. Aliás, por mais deuma vez já me sentei a teu lado, invisivelmente.Esta revelação foi assustadora. Scrooge,estremecendo, enxugou a testa banhada de suor.- Mas não é esse o meu maior suplício, continuou oespectro. Vim esta noite para avisar-te de queainda te resta uma esperança, uma oportunidade deescapar a um destino semelhante ao meu. É umaesperança, uma oportunidade que eu venho trazer-te, Ebenezer.- Oh, mil vezes obrigado! exclamou Scrooge. Vocêfoi sempre um bom amigo para mim.- Vais ser visitado por mais três espíritos, continuouo fantasma.O semblante de Scrooge tornou-se tão lívido como odo próprio espectro.- É essa, então, a esperança ou a oportunidade deque você me falou, Jacob? perguntou ele com a vozdébil.- Exatamente.- Eu... Eu preferia que isso não acontecesse.- Se não receberes a visita deles, podes perder aesperança de escapar a um destino igual ao meu.Aguarda a visita do primeiro espírito amanhã aobater da uma hora.- Não seria melhor que viessem todos juntos, paraacabar mais depressa com isso? sugeriu Scrooge.- O segundo aparecerá na noite seguinte, à mesmahora, e o terceiro na outra noite, ao bater a últimabadalada da meia-noite. Não esperes tornar a ver-me, e não te esqueças, no teu próprio interesse, deconservar a lembrança de tudo que se passou entre
  31. 31. nós.Dito isto, o espectro apanhou seu lenço sobre amesa e o amarrou, como antes, em torno dacabeça. Scrooge só o notou, quando ouviu o secoestalido que produziram os dois maxilares ao seencontrarem. Arriscando um olho, viu seu visitantesobrenatural em pé diante dele, erecto, as cadeiasenroladas no braço. A aparição afastou-se, decostas, e, à medida que se distanciava, a janelaabria-se progressivamente até que, quando oespectro a alcançou, ela estava completamenteaberta.O espectro fez sinal a Scrooge que se aproximasse.Quando estiveram apenas a dois passos um dooutro, o espectro ergueu o braço. Scrooge deteve-se. Deteve-se, menos para obedecer ao fantasmado que por um sentimento de surpresa e de medo,pois que, simultaneamente ao gesto do fantasma,começava a ouvir estranhos e confusos ruídos portoda a casa, vozes plangentes que se misturavamumas às outras, onde se confundiam remorsos edesesperos.Após ter escutado um instante, o espectro passoupela janela, juntou-se ao fúnebre cortejo edesapareceu na gélida escuridão. Scrooge, tomadode incoercível curiosidade, chegou à janela e,então, presenciou um estranho espetáculo. **O ar estava povoado de almas perdidas, queperambulavam e rodopiavam interminavelmente,soltando gemidos, e cada uma delas trazia uma
  32. 32. corrente, como o espectro de Marley. Alguns destesfantasmas, talvez os membros de algum maugoverno, estavam amarrados juntos. Nenhumestava livre.Scrooge notou entre eles alguns de seus antigosconhecidos, entre os quais um velho fantasma decolete branco, com quem tivera freqüentes relações.Em seu tornozelo, estava amarrado um cofre-fortedescomunal, e Scrooge notou que a visão de umamendiga acocorada ao pé de uma sacada, com seubebê ao colo, lhe arrancava tristes lamentações depena por não poder socorrê-la.Percebia-se, claramente, que o maior tormentodestes infelizes era o ardente desejo de praticar obem sobre a terra, justamente agora que essapossibilidade lhes havia escapado para sempre.Scrooge não poderia dizer se todos aquelesfantasmas se dissiparam no intenso nevoeiro, ou sefoi o nevoeiro que os envolveu. O certo é que todosdesapareceram ao mesmo tempo dentro da noite, eo espaço ficou silencioso e ermo, como no momentoem que ele voltara para casa.Fechada novamente a janela, Scrooge examinoucuidadosamente a porta por onde o fantasma haviaentrado. Estava fechada com dupla volta, e osferrolhos estavam intactos.Scrooge ia dizer: “Tolices”, mas não foi além daprimeira sílaba. Apoderara-se dele uma incoercívelnecessidade de repouso, fosse, talvez, devido àsfadigas e às emoções do dia, fosse pela sua fugaao mundo dos espíritos e pela sinistra conversa quetivera com o espectro, ou talvez mesmo peloadiantado da hora.
  33. 33. SEGUNDA ESTROFEO primeiro dos três espíritosQuando Scrooge despertou, a escuridão era tãoprofunda que, de seu leito, mal podia distinguir ajanela transparente e as escuras paredes do quarto.No momento em que se esforçava para romper aintensa treva que envolvia seus olhos, ouviu baternuma igreja das vizinhanças os quatro quartos.Scrooge aguçou os ouvidos para escutar as horasque iam bater.Com grande surpresa, o pesado carrilhão deu asseis... as sete . . . as oito. . . e assim,ritmadamente, até as doze.Meia-noite!Eram mais de duas horas quando Scrooge se atirarasobre o leito. Não era possível! O relógio deviaestar louco. Alguma coisa devia ter-lhe embaraçadoo maquinismo! Meia-noite!Scrooge premiu a mola do seu relógio de repetiçãopara verificar a exatidão daquele relógio idiota. Aminúscula engrenagem bateu rapidamente as dozevibrações e parou.- Vejamos, disse Scrooge. É impossível que eutenha dormido o dia inteiro e uma parte da noite.
  34. 34. Acaso terá acontecido alguma coisa ao sol e sejaagora meio-dia em vez de meia-noite?Bastante alarmado com esta idéia, ergueu-se doleito e dirigiu-se para a janela, a tatear, como umcego. A primeira coisa que fez foi passar a mangado roupão pela vidraça, que a neblina embaçava, emesmo assim quase nada conseguiu distinguir fora.A coisa única que pôde verificar é que o nevoeirocontinuava espesso, como dantes, e que o frio erademasiado intenso; notou, ainda, que já não seouviam as idas e vindas das pessoas atarefadas, oque certamente se ouviria, se já estivesseclareando o dia.Este fato foi para ele um grande alívio, pois o queseria dele com as suas “letras a pagar a três diasda data ao sr. Ebenezer Scrooge ou à sua ordem”,se ele não dispusesse de dias para contar o tempo?Scrooge tornou a deitar-se, o pensamento vagandosobre o que poderia ter acontecido, mas por maisque quebrasse a cabeça para a decifração de tãocomplicado enigma, nada conseguiu desvendar.Quanto mais ruminava o caso, mais perplexo ficava,e quanto mais se esforçava por não pensar no caso,mais o caso assoberbava o seu pensamento.A lembrança do espectro de Marley causava-lhe umprofundo tormento. Cada vez que chegava aconvencer-se de que, afinal de contas, todo oocorrido não fora mais que um sonho mau, crac! láestava seu espírito novamente às voltas com oproblema, no próprio ponto de partida, formulandonovamente a mesma pergunta: “Era ou não era umsonho?”Scrooge permaneceu nesta agonia até o momento
  35. 35. em que o carrilhão bateu os três quartos. Foi entãoque se lembrou, subitamente, de que o espectro lhehavia prenunciado a visita de um espírito quandobatesse uma hora da manhã. Nestas condições,resolveu ficar acordado até chegar a uma hora damanhã. Diga-se de passagem que esse foi o melhorcaminho a seguir, especialmente levando-se emconta que mais fácil lhe fora chegar até o mundo dalua do que tornar a adormecer.Este quarto de hora foi tão interminável, que lhepareceu, mais de uma vez, ter dormido e deixadopassar a hora.Finalmente, o carrilhão fez-se ouvir aos seusinquietos ouvidos:- Ding, dong!- Um quarto . . . contou Scrooge, escutandoatentamente.- Ding, dong!- Meia hora.- Ding, dong!- Três quartos.- Ding, dong!- A hora! exclamou Scrooge triunfante. A hora, enada!Mas é que Scrooge falava antes de ouvir o bater dauma hora da manhã no pesado badalar do carrilhão.E o badalar da uma hora da manhã fez-se ouvir,lúgubre, fúnebre, surdo e melancólico.Imediatamente, uma vivíssima claridade invadiu oaposento de Scrooge, ao mesmo tempo que ascortinas do seu leito foram puxadas por uma mãoinvisível.Porém, não eram as cortinas dos pés nem as da
  36. 36. cabeceira do leito de Scrooge, mas as que estavamdiante de seus olhos, aquelas para as quais seusolhares estavam voltados. Então Scrooge,sentando-se bruscamente, achou-se frente a frentecom o sobrenatural visitante que havia afastado ascortinas do leito.Era uma estranha aparição.A primeira vista, ter-se-ia a impressão de ver-seuma criança, mas, a um exame mais minucioso,verificava-se que seria antes um velho, um anciãovisto através de uma atmosfera sobrenatural, quelhe dava uma aparência longínqua e o reduzia àsproporções de uma criança. Seus cabelos, brancoscomo os de um homem de idade, caíam-lhe pelosombros; seu rosto, entretanto, não apresentava amenor ruga, e sua tez era de uma deliciosafrescura. Os braços, longos e musculosos, bemcomo suas mãos robustas, denunciavam extremaforça. As pernas e os pés, finamente modelados,estavam nus como os membros superiores.O ancião vestia uma túnica de puríssima alvura,apertada à cintura por uma faixa luminosa, quebrilhava com refulgente esplendor; à mão, trazia umramo de azevinho e, em fundo contraste com estesímbolo do inverno, sua túnica era toda bordada deflores primaveris. Mas o que apresentava de maiscurioso era o facho de luz que se desprendia doápice de sua cabeça, e graças ao qual todos estespormenores podiam ser notados. Este fenômenoexplicava a presença do grande apagador em formade chapéu que trazia embaixo do braço, e com oqual devia cobrir-se em seus momentos de tristeza.Entretanto, observando-a com mais atenção,
  37. 37. Scrooge notou que a aparição apresentava umaparticularidade ainda mais extraordinária. Domesmo modo que sua cintura resplandecia ora numponto, ora noutro, e que um ponto ainda há poucoluminoso agora estava escuro, todo o seu corpomudava constantemente de aspecto, mostrando-seora com um só braço, ora com uma só perna, ouentão com vinte pernas, mas sem cabeça, ou entãouma cabeça sem corpo. Das várias partes quedesapareciam, nem um único contorno ficava visívelnaquela extrema escuridão em que se envolviam. Eno meio de todas estas estranhas metamorfose, aaparição retomava, de súbito, sua primeira forma,nítida e perfeita como antes.- Sois vós o espírito, cuja visita me foi anunciada?perguntou Scrooge.- Sim.Aquela voz era doce e agradável, massingularmente fraca, como se, em vez de estar tãopróxima, viesse de muito longe.- Então, quem sois vós? perguntou Scrooge.- Sou o fantasma dos Natais passados.- Passados desde quando? interrogou Scrooge,observando o seu talhe delgado.- Somente os do teu passado.Scrooge sentia um ardente desejo de vê-lo cobertocom o chapéu que trazia à mão; se alguém lheperguntasse qual a razão disto, jamais teria sabidoresponder.- Como? exclamou o fantasma. Queres tão depressaextinguir, com as tuas mãos profanas, a fulguranteluz que resplandece em mim? Não te basta seresdaqueles cujas paixões me teceram este chapéu e
  38. 38. que me forçam tantas e tantas vezes a enterrá-loaté aos olhos?Scrooge declarou respeitosamente não ter tido amenor intenção de ofender o espírito e afirmou nãolembrar-se jamais de o ter forçado, em toda a suavida, a “usar” aquele chapéu. Em seguida, atreveu-se a perguntar-lhe o que o trazia ali.- Tua felicidade, respondeu a aparição.Scrooge declarou-se profundamente agradecido,mas não deixou de pensar que uma noite derepouso teria concorrido mais eficazmente para esteresultado.O espírito pareceu ler seu pensamento, pois nomesmo instante falou:- Tua salvação, se preferes. Ouve-me!Assim falando, estendeu a mão para Scrooge etomou-o levemente pelo braço.- Levanta-te, e vem comigo. **Teria sido inútil a Scrooge responder que nem otempo, nem aquele momento eram propícios paraum passeio a pé; que sua cama estava tãoquentinha e que o termômetro estava muitos grausabaixo de zero; que, além disso, estava vestidoapenas com o roupão, com o boné de noite e dechinelos, e que, para rematar, estava muito gripado.A pressão exercida pela mão do espírito, porém, tãodoce como se fora a de uma mulher, era de todoirresistível. Assim, pois, Scrooge levantou-se, masvendo que o espírito se dirigia para a janela, tocou-lhe a túnica e falou com voz súplice:
  39. 39. - Oh, senhor! Sou apenas um mortal e posso cair!- Deixa-me apenas segurar-te por aqui, disse oespírito pondo a mão sobre o coração de Scrooge, eserás capaz de enfrentar muitos outros perigos.Ditas estas palavras, ambos passaram através daparede e acharam-se logo numa estrada orlada decampos. A cidade havia-se evanescido, nãorestando dela um único traço; do mesmo modo,haviam desaparecido a noite e o nevoeiro, fazendoagora um tempo hibernal claro e frio, com a terracoberta pela neve.- Bondade divina! exclamou Scrooge juntando asmãos. Foi aqui que fui criado! Aqui foi que passei aminha infância!O espírito envolveu-o num olhar benévolo. Emborativesse posto a mão apenas um instante sobre ocoração do velho, este julgou sentir ainda o calordaquele contato. Flutuavam no ambiente milperfumes amigos, cada um dos quais evocava umamultidão de pensamentos, de esperanças, dealegrias e pesares passados, de muitos anos atrás ...- Tens os lábios trêmulos, observou o fantasma, e oque estou vendo em tuas faces?Scrooge, com voz rouquenha, o que estava fora dosseus hábitos, respondeu que era uma verruga, edeclarou que estava disposto a seguir o espíritoparaonde quer que fosse. !- Reconheces o caminho? perguntou o espírito.- Oh, se o reconheço! respondeu Scrooge comemoção; poderia andar por ele de olhos fechados!- É estranho que o tenhas esquecido durante tantos
  40. 40. anos, observou o espírito. Vamos adiante.Ambos prosseguiram, e Scrooge ia reconhecendo àcada casa, cada árvore, cada poste. Logo a seguir,apareceu um pequeno povoado, com sua igrejinha,sua ponte e o rio sinuoso. Avistaram, então, naentrada, vários rapazes montados em hirsutospôneis, e que se comunicavam alegremente comoutros jovens montados em carriolas camponesas.Toda esta juventude transbordava de vida e deentusiasmo, e suas vozes enchiam o campo de umamúsica tão alegre que o ar cristalino parecia todoentrar em vibração.- São apenas sombras do passado, disse o espírito;elas não podem perceber a nossa presença.A medida que os alegres cavaleiros seaproximavam, Scrooge reconhecia-os e chamava-ospelo nome.Por que lhe causava tanta satisfação a presençadaqueles amigos? Por que lhe batia tãodescompassadamente o coração e se lheiluminavam os olhos ao vê-los passar? Por que sesentia tão cheio de alegria ao ouvir estes rapazestrocarem mútuas felicitações e votos de feliz Natal,quando se despediam nas encruzilhadas pararegressarem a suas casas? Que significava paraScrooge um “Feliz Natal”? Que vá para o diabo o“Feliz Natal”! Que proveito havia ele tirado doNatal?- A escola não está de todo deserta, disse oespírito; um menino solitário, abandonado pelosseus, ainda ali está.Scrooge declarou que bem o sabia, e reprimiu umsoluço.
  41. 41. Deixando a estrada principal, entraram por umavereda, que Scrooge bem conhecia. Ao cabo depoucos instantes, chegaram a uma grandeconstrução de tijolos vermelhos, encimada por umpequeno campanário. A casa devia ter sidoimportante, mas teria passado por diversosreveses, pois suas vastas dependências pareciamabandonadas, com suas paredes úmidas eemboloradas, os pisos fendidos e as portasabaladas. As aves domésticas cacarejavam à soltano pasto, e o mato havia invadido as cocheiras.Dentro, nem o mais ligeiro vestígio do seu antigoesplendor. Penetrando no silencioso vestíbulo,Scrooge e o espírito entreviram, pelas portasabertas, frias e escuras dependências parcamentemobiliadas. Casavam-se o cheiro de mofo, queflutuava no ar, e a nudez geral do ambiente, à idéiade que ali deviam levantar-se ainda com o escuro etalvez não pudessem alimentar-se quantodesejariam. **O espírito e Scrooge dirigiram-se para uma porta aofundo do vestíbulo. A porta abriu-se diante deles,mostrando uma vasta sala, triste e deserta, a queuma longa fila de bancos e carteiras dava ainda umaspecto mais austero.Sentado num destes bancos, um estudante solitáriolia junto de um lume quase apagado. Reconhecendo
  42. 42. o pobre menino abandonado, que era ele próprio,Scrooge sentou-se e pôs-se a chorar. Os maisinsignificantes ecos desta mansão, a algazarra dosratos atrás do madeiramento, os gemidos do ventoatravés da galhada seca de um choupo melancólico,o ranger preguiçoso de uma porta emperrada, tudoisso eram outros tantos ecos que penetravam nocoração de Scrooge e lhe enchiam a alma de umadoce emoção.Tocando-lhe o braço, o espírito mostrou-lhe omenino engolfado em sua leitura. Subitamente, umhomem, vestido com um costume exótico, apareceuatrás da janela, com um machado preso à cintura epuxando pela brida um burro carregado demadeiras.- Meu Deus! Mas é Ali-Babá! exclamou Scrooge noauge da alegria. É o meu querido e honrado Ali-Babá! Sim, sim! Bem me lembro. Foi mesmo numdia de Natal que ele apareceu pela primeira vez,vestido exatamente desta forma, a este pequenoestudante que ficara ali sozinho. Pobre criança... EValentino, e Orson, seu irmão mais velho . . .Também estou a vê-los. E como se chama, mesmo,este rapagote, que foi raptado durante o sono edeixado semivestido às portas de Damasco? Não ovedes? E o palafreneiro do sultão, que os deusesderrubaram por ter desposado a princesa? Lá estáele de cabeça para baixo! Pois foi muito bem feito!Quem lhe mandou querer casar com a princesa?...Que espanto para seus colegas de negócios sepudessem ouvir Scrooge a discorrer com tantoentusiasmo sobre tais coisas, com voz estranha,onde se misturavam o riso e as lágrimas, e se
  43. 43. pudessem ver seu rosto incendido e seu arexcitado!- Olha! exclamou ele, lá está o papagaio, com ocorpo verde, a cauda amarela e a espécie de alfaceque tem na cabeça, como uma poupa. “PobreRobinson Crusoé!”, repetia ele quando seu amovoltou, depois de inutilmente ter dado volta à ilha.“Pobre Robinson Crusoé! Onde estiveste, RobinsonCrusoé?” O homem não acreditava no que via, e,entretanto, era mesmo o pagagaio que falava.Agora é o Sexta-Feira, que corre desabaladamentepara abrigar-se na pequena enseada. “Coragem,Sexta-Feira! Vamos! Aí, valente!”- Eu bem quisera... murmurou ele pondo as mãosnos bolsos e olhando em redor de si, depois deenxugar os olhos com a manga do casaco. Eu bemquisera, mas já não é mais tempo . . .- Que há? perguntou o fantasma.- Nada, disse Scrooge, nada. Eu estava pensandonum garoto, que ontem à noite cantava uma ária deNatal diante de minha porta. Eu desejaria ter-lhedado alguma coisa.O espírito sorriu pensativamente e ergueu a mão,dizendo:- Passemos a outro Natal.A estas palavras, a sombra do Scrooge de outrostempos cresceu e a sala tomou um aspecto aindamais sombrio e descuidado. As finas tábuas queforravam as paredes da sala racharam-se, os vidrosquebraram-se, e os fragmentos, que caíram do teto,deixaram ver as vigas nuas. Como se operou estatransformação, nem Scrooge nem ninguém poderiaexplicar. O certo é que tudo o que via era a
  44. 44. representação da realidade, que tudo se tinhapassado exatamente assim, e que só ele lá ficaraainda uma vez, quando todos os seus colegashaviam partido festivamente para as férias em seuslares.Desta feita, não estava engolfado na leitura, maspasseava pela sala de um lado para outro, com arsombrio. Scrooge olhou para o espírito, e depois,abanando tristemente a cabeça, lançou um ansiosoolhar para a porta. Esta abriu-se, e uma garotinha,muito mais nova que o estudante, apareceu nasala, enlaçou lhe o pescoço com os braços eestreitou-o repetidas vezes, chamando-lhe “meuquerido”, “querido irmãozinho”.- Venho chamar-te para levar-te para casa, meuadorado! disse ela, batendo palmas e rindo-sealegremente. Sim, levar-te para casa, para casa,para casa!- Para casa? Será possível, querida Fani?- Mas é claro! disse a criança, radiosa. Para casa,sim senhor! Papai ficou tão bom, que agora nossacasa é um verdadeiro paraíso. Uma destas noites,quando eu ia deitar-me, ele falou-me com tamanhaternura, que me atrevi a perguntar-lhe se iriasregressar breve.Ele respondeu que sim, e mandou-me que viessebuscar-te com o nosso carro. Agora estás quase umhomem, prosseguiu a criança, e nunca mais viráspara cá. Mas, para começar, vamos festejar juntos oNatal, o mais alegremente que pudermos.- E tu? Estás já uma verdadeira mulherzinha, Fani!exclamou o rapazinho.A garota bateu palmas novamente, rindo-se, e ia
  45. 45. acariciar-lhe a cabeça, mas, pequenina como era,teve de pôr-se na ponta dos pés, o que a fez rir.Depois, com pueril impaciência, puxou-o para aporta, e ele não se fez de rogado para acompanhá-la.No vestíbulo, ouviu-se uma voz terrível:- Tragam a mala do menino Scrooge!E na mesma hora, no vestíbulo, apareceu o própriodono da pensão, que envolveu Scrooge com umolhar de feroz condescendência, e lhe causou umaconfusão extrema ao lhe dar um aperto de mão.Depois, levando-os para um horrível cubículogelado, que servia de salão, onde as cartasgeográficas suspensas às paredes, e os mapas-múndi das vitrinas estavam recobertos de umabarrela viscosa, apresentou-lhes um frasco de umvidro singularmente pesado, ao mesmo tempo quemandava perguntar ao cocheiro, por uma criadaextremamente magra, se era servido de tomar umcálice de “qualquer coisa”, ao que este respondeuque agradecia a gentileza, e que só aceitaria se nãofosse a zurrapa ordinária da última vez.Colocada a mala do aluno Scrooge, os dois irmãosdespediram-se do dono da pensão e tomaramassento alegremente no carro, que logo se pôs arodar pela pequena avenida do jardim, fazendovoar, à sua passagem, estilhaços de neve, quecobriam os arbustos de azevinho como brancaespuma.- Era uma delicada criatura, sensível à mais levecarícia, e dona de um grande coração, disse oespírito.- Sim, um grande coração, exclamou Scrooge.
  46. 46. Tendes razão, Espírito. Não serei eu quem vos diráo contrário.- Morreu casadinha de novo, disse o espírito, edeixou filhos, parece-me.- Um filho, retificou Scrooge.- Ou isso, disse o espírito. Teu sobrinho.Scrooge aquiesceu, com ar desajeitado. **Mal deixaram o pensionato, logo se encontraramnas ruas movimentadas de uma grande cidade, poronde os transeuntes iam e vinham sobre ospasseios, enquanto os carros disputavam apassagem e o tumulto e a agitação dos grandescentros faziam lembrar um campo de batalha.O aspecto das lojas indicava claramente que seestava de novo na época do Natal. Era noite, e asruas estavam iluminadas.O espírito deteve-se diante da porta de uma loja eperguntou a Scrooge se a reconhecia.- Oh, se a reconheço! Não foi aqui que comecei omeu aprendizado?Ambos entraram.Um ancião, com uma peruca na cabeça, estavasentado em uma carteira tão alta, que mais umaspolegadas e sua cabeça teria tocado o teto.A vista dele, Scrooge exclamou emocionado:- Meu Deus! Mas é o velho Fezziwig! Louvado sejaDeus! É o velho Fezziwig ressuscitado!O velho Fezziwig pousou a caneta e olhou para orelógio, que marcava sete horas. Depois,esfregando as mãos, reajustou o largo colete, deu
  47. 47. uma gargalhada que o sacudiu da cabeça aos pés, eberrou com voz sonora, plena, rica, grossa e jovial:- Olá, Ebenezer! Dick!O velho Scrooge, tornado agora um jovem, correuapressadamente, como o seu colega deaprendizado:- Ora esta! É Dick Williams! disse Scrooge aoespírito. É fato! É realmente ele, que foi sempremuito agarrado comigo, o bom rapaz! Pobre Dick!Meu Deus! Meu Deus!- Olá, rapazes! exclamou Fezziwig, o dia terminou.Amanhã é Natal, Dick! É Natal, Ebenezer! Fechem aloja, gritou Fezziwig batendo palmas; e que osferrolhos sejam ajustados imediatamente, antesque eu tenha tempo de dizer: Jack Robinson!Ninguém poderia imaginar a rapidez com que estesbravos rapazes cumpriram a ordem. Ambos seprecipitaram para a rua com os ferrolhos . . . um . .. dois . . . três... ajustaram; quatro. . . cinco . . .seis . . . puseram as barras e as cunhas; sete . . .oito . . . nove... tornaram a entrar, resfolegandocomo cavalos de corrida, antes que tivessem tempode contar até doze.- Vamos, adiante! berrou o velho Fezziwig, pulandode sua escrivaninha com surprendente agilidade.Vamos, criançada! Desocupem tudo, arranjem omaior espaço possível!Arranjar espaço? Mas eles seriam capazes dedesmontar tudo sob as ordens animadoras do velhoFezziwig!Em menos de um minuto, tudo estava pronto. Tudoque podia ser transportado foi tirado e levado paraoutras partes como se para desaparecer de uma vez
  48. 48. da face da terra. O soalho foi varrido e encerado, oscandelabros espanados, a lareira reabastecida.Dentro em breve, o armazém estava transformadoem um belo salão de baile, tão confortável e bemiluminado quanto se poderia desejar numa noite deinverno.Neste instante, chegou o rabequista com umcaderno de música. Empoleirando-se no alto de umestrado, e sob pretexto de afinar o instrumento,acabou por tirar dele apenas insuportáveis chiados.A seguir, entrou a senhora Fezziwig, cuja pessoaera inteirinha um vasto sorriso. Entraram, depois,as três meninas Fezziwig, radiantes e adoráveis,seguidas de seis rapagotes, cujos corações elaspisavam. Vieram, a seguir, todas as moças e moçosque trabalhavam na loja, e mais a criada com seuprimo e mais o padeiro. Vieram, depois, acozinheira com o amigo íntimo de seu irmão, oleiteiro, o pequeno aprendiz da loja fronteira, queparecia passar fome em casa de seu patrão, e queprocurava esconder-se por detrás da criadinha.Uns após outros, todos entraram, uns timidamente,outros afoitamente, estes com graça, aquelesdesajeitados; uns empurrando os companheiros,outros puxando-os. Finalmente, de um modo ou deoutro, todos entraram.Começada a festa, todos se puseram a dançar -vinte pares a um tempo - executando passos vários,avançando, recuando, rodopiando, voltando erecomeçando. O par da dianteira não sabia maisonde se meter, uma vez terminado o seu número, eo par seguinte saía sem esperar sua vez, de talmaneira que em breve só havia pares de dianteira e
  49. 49. nenhum na traseira para substituí-los.Obtido este resultado, o velho Fezziwig exclamou:“Está ótimo!” e bateu palmas para fazer parar adança. O músico mergulhou a cara congestionadanum copázio de cerveja, enchido especialmentepara ele. Logo, porém, que voltou, tratou derecomeçar a música com mais vivo entusiasmo,antes mesmo que os presentes estivessem prontospara dançar. Queria, talvez, que todos imaginassemque o primeiro músico, indo tomar cerveja, tinhaficado por lá e em lugar dele surgiu outrorabequista, novo em folha, disposto a ultrapassar orival ou então morrer.Seguiram-se outras danças, depois alegresdiversões, e depois ainda outras danças. Houve, emseguida, uma mesa de bolos, vinho quente,enormes pedaços de carne assada e cerveja àvontade. Mas o mais belo momento da noitada foidepois da ceia, quando o músico - aliás um guaporapagão, podem acreditar -, como bom conhecedorde seu papel, atacou a ária de Sir Roger de Coverly.Foi então que o velho Fezziwig e esposa começarampessoalmente a conduzir o baile: e posso afirmarque não era fácil dirigir vinte e três ou vinte equatro pares de bailadores, e que bailadores! Eragente que sabia dançar de fato e não simplesmentearrastar os pés.Mas, mesmo que fossem duas, três ou mesmoquatro vezes mais, o velho Fezziwig seria capaz deagüentar a parada, do mesmo modo que a senhoraFezziwig, sua digna companheira em toda aextensão da palavra.Os pés de Fezziwig pareciam irradiar um brilho todo
  50. 50. particular, fulgurando como meteoros em todos ospontos da dança ao mesmo tempo. Seria impossívelprever onde iriam eles aparecer no momentoseguinte.Quando o senhor e a senhora Fezziwig executaramtodos os passos da contradança, Fezziwig terminoucom um magnífico entrechat, depois do qual se pôsnovamente em pé, firme e erecto como um I.Esta noitada familiar terminou exatamente quandoo relógio bateu as onze horas. Então, o senhor e asenhora Fezziwig colocaram-se de cada lado daporta, apertando a mão a cada um dos convidados edesejando a cada um deles um feliz Natal. Quandotodos se retiraram, com exceção dos doisaprendizes, os Fezziwig trocaram com estes osmesmos votos; em seguida, as alegres vozescalaram-se e os dois rapazes voltaram para seusleitos, arrumados num cômodo atrás da loja.Enquanto o baile durou, Scrooge comportou-se comoum homem que tivesse sido transportado para asua mocidade. Tomava parte de alma e coração nacena, com o Scrooge de outros tempos. Ele tudoreconhecia, lembrava-se de tudo, divertia-se comtudo e manifestava a mais estranha emoção. Foisomente quando os rostos alegres de Dick e dooutro Scrooge se desviaram deles, que ele selembrou da presença do espírito. Notou, então, queeste o observava com atenção e que a claridade doápice de sua cabeça brilhava com viva intensidade.- Não vejo nada de extraordinário para inspirar aestes idiotas tanto reconhecimento, disse oespírito.- De fato, disse Scrooge.
  51. 51. O espírito fez-lhe sinal com o dedo para escutar osdois aprendizes que cantavam os louvores deFeziwig. Depois, continuou- Como? Aí está uma coisa engraçada! Este homemnão despendeu senão algumas libras do seudinheiro terrestre. Isso é razão para tanto elogio?- Não se trata disso, protestou Scrooge jáesquentado por esta observação e falando, sem queo percebesse, como teria falado o Scrooge deoutrora. Não se trata disso, Espírito. Fezziwig tem opoder de nos fazer felizes ou infelizes; pode fazerque o nosso trabalho seja um prazer ou umainsuportável tarefa. Que este poder se manifestepor palavras, por gestos ou olhares, pouco importa;a felicidade que espalha em torno dele é tão grandecomo se custasse uma fortuna.Scrooge sentiu pesar sobre ele o olhar do espírito, ecalou-se.- Que é que há? perguntou este.- Nada de mais, respondeu Scrooge.- Alguma coisa te preocupa, insistiu o espírito.- Nada, mesmo, disse Scrooge. Eu gostaria de dizerduas ou três palavras a meu empregado, que aíestá.Expresso este desejo, o antigo Scrooge apagou asvelas, e Scrooge e o fantasma acharam-senovamente na rua, lado a lado.- Apressemo-nos, observou o espírito. Meu tempoesgota-se. **Esta injunção não se dirigia a Scrooge, nem a
  52. 52. ninguém que ele pudesse ver, mas seu efeito foiimediato. O antigo Scrooge reapareceu, com algunsanos a mais, sob a forma de um homem em plenajuventude. Seu rosto não tinha ainda os traçosduros e rígidos da idade madura, mas já se podiamdescobrir ali os sinais de uma natureza avarenta einquieta. Havia em seu olhar qualquer coisa deimpaciência, de inquietude, de avidez, desofreguidão, que deixava entrever qual a paixão quese havia enraizado nele e de que lado, ao crescer,esta árvore projetaria a sombra.Scrooge não estava só. A seu lado, sentava-se umajovem vestida de luto, cujos olhos cheios delágrimas brilhavam à luz que espalhava o fantasmados Natais passados.- A ti pouco importa, dizia-lhe ela com doçura; outroídolo tomou meu lugar. Mas, se ele puder dar-te, nofuturo, a alegria e os carinhos que eu mesma teriatentado dar-te, não tenho justa razão para afligir-me.- Que ídolo tomou teu lugar? perguntou ele.- O bezerro de ouro.- Aí está como é o mundo e sua justiça! exclamouele. Não trata nada com tanta severidade como apobreza, nem condena com mais dureza a loucurapelo dinheiro.- Dás muita importância à opinião do mundo,respondeu a jovem calmamente. Todos os teusoutros. desejos desapareceram diante do desejo denão incorrer no seu mesquinho vitupério. Vi caírem,uma por uma, as tuas mais nobres aspirações, atéque te absorvesses completamente na tua paixãodominante - o amor pelo dinheiro. Não é verdade?
  53. 53. - E depois? Quando mesmo eu me tornasse maisprudente com o decorrer dos anos, que poderia issosignificar? Não teria eu ficado o mesmo aos teusolhos?Ela meneou a cabeça.- Tu me achas mudado?- Nosso noivado data de longos anos, de um tempoem que ambos éramos pobres mas vivíamossatisfeitos com o nosso destino, esperandomelhorá-lo com o nosso trabalho perseverante.Desde então, mudaste muito e já não és o mesmohomem.- Eu era uma criança, replicou ele com impaciência.- Tu mesmo te achas agora diferente do que eras.Quanto a mim, sou sempre a mesma; mas o queme prometia a felicidade, quando éramos doiscorações em um só, não seria mais que uma fontede perenes sofrimentos, agora que estãoseparados. Quantas vezes já fiz a mim mesmaestas amargas reflexões, nem eu própria saberiadizê-lo. O que interessa, porém, é que eu as tenhafeito e que te devolva a liberdade.- Acaso já procurei readquiri-la?- Com palavras, não, nunca.- Então, como?- Mudando de natureza, de humor e de caráter. Jánão vês do mesmo modo tudo aquilo que, noutrostempos, tornava o meu amor precioso aos teusolhos. Se não existisse nenhum compromisso entrenós, disse a jovem fazendo pesar sobre ele umolhar terno mas firme, terias vindo procurar-mehoje? Certamente, não.Ele pareceu concordar, a contragosto, com a justeza
  54. 54. desta hipótese. Entretanto, respondeu com esforço:- Não pensas o que dizes.- Eu gostaria de pensar de outro modo, se fossepossível. Chamo o céu por testemunha. Paraajustar-me a semelhante verdade, é mister que elaseja realmente de uma força irresistível. É essa arazão pela qual, com o coração despedaçado,devolvo a liberdade ao homem que foste outrora.Pode ser - e a lembrança do passado justifica emmim essa leve esperança - que experimentesalguma saudade; mas sei que logo, muito logo,repelirás essa lembrança como um sonho mau, doqual se acorda com alívio. Possas tu ser feliz navida que escolheste!Aqui se separaram.- Espírito, disse Scrooge, não me mostreis maisnada! Levai-me de novo para minha casa. Por quehaveis de gozar com a minha tortura?- Uma sombra ainda! exclamou o fantasma.- Não, não, nada mais! gritou Scrooge. Não querover mais nada. Não me mostreis mais nada!O espírito, porém, inflexível, sujeitou-o e obrigou-oa olhar para o que ia acontecer. **A cena e a paisagem eram outras. Achavam-senuma sala nem demasiado vasta, nem muitoluxuosa, mas confortável. Ao pé de um bom fogo,estava sentada uma jovem de excelsa beleza, tãosemelhante à precedente, que Scrooge se teriaenganado se não tivesse visto, do outro lado dofogo, esta última transformada em mãe de família,
  55. 55. sentada em frente de sua filha.Fazia-se um grande barulho naquela sala, poishavia nela mais crianças do que Scrooge poderiaenumerar, na agitação em que se encontrava, e eratal a algazarra, que cada criança valia por dez.Daquilo tudo, resultava um descomunalpandemônio, mas ninguém reclamava; ao contrário,mãe e filha riam e divertiam-se de coração.Mas logo esta última, resolvendo tomar parte nobrinquedo, foi assaltada imediatamente pelascrianças.Que teria eu dado para ser um deles, muitoembora, diga-se de passagem, jamais me atrevessea portar-me com tamanha audácia. Não! Por nadadeste mundo me abalançaria a desmanchar o seupenteado ou tocar nas suas tranças. Como poderiaeu esconder seu delicado sapatinho, nem que fossepara salvar a minha vida? Mas, oh! quanto me foradoce - devo confessá-lo - poder aflorar-lhe oslábios; fazer-lhe perguntas só para vê-la entreabrira mimosa boca; admirar, sem que ela corasse, oscílios de seus olhos baixos; acariciar as ondas dosseus cabelos, dos quais uma única madeixa teriasido para mim de valor inestimável! Confesso queme sentiria feliz, se pudesse gozar junto dela domais pequeno privilégio de uma criança, mas semdeixar de ser um homem, para poder apreciar-lhe ovalor.Mas eis que começam a bater. Verifica-se uma talcorrida para a porta, que a jovem, rindo-se e com aroupa em desordem, é arrastada pela onda ruidosa,no momento preciso de receber o papai, que chegaem companhia de outro homem carregado de
  56. 56. brinquedos e presentes de Natal.Imaginem, agora, os gritos, as lutas, os assaltostravados contra o pobre homem indefeso.Cada um procura alcançá-lo com auxílio de cadeiras,para remexer-lhe os bolsos e tomar-lhe os pacotesembrulhados em papel colorido. Este se lhe penduraao pescoço, aquele o pega pela gravata, enquantooutros lhe aplicam afetuosas palmadas nas costas enas pernas.Que exclamação de júbilo e de surpresa a cadapacote que se abria! Que emoção ao gritaremapavorados que o caçulinha foi encontrado a enfiarna boca uma frigideira de brinquedo, e que estãocom medo de que tenha engolido um peruzinho emminiatura, colado no pratinho de madeira. E quealivio quando verificaram que tudo isso não passavade um boato! E como descrever a alegria, o êxtasee o reconhecimento de toda esta garotada?Finalmente, tendo chegado a hora de serecolherem, todas as crianças se retiraram, com oscorações cheios de emoções barulhentas e subiramao andar superior onde encontrariam o repouso nosseus leitos.O interesse com que Scrooge contemplava estacena aumentou quando o dono da casa, tendo afilha ternamente apoiada contra si, veio sentar-seentre ela e a esposa, diante da lareira. Então,Scrooge sentiu os olhos marejados de lágrimas,quando começou a pensar que uma jovemsemelhante àquela, igualmente dotada de taisencantos e promessas, teria podido chamar-lhe paie ter-lhe enchido de toda uma primavera o invernobravio de sua existência.
  57. 57. - Isabel, disse o marido, voltando-se para suamulher com um sorriso, encontrei hoje à tarde umvelho amigo teu.- Sim? E quem era?- Adivinha.- Como queres que eu adivinhe? . . . Ah, sim!acrescentou em seguida, rindo-se com ele. É osenhor Scrooge.- Exatamente. Passei diante do seu escritório, ecomo estava iluminado e as janelas estavamabertas, resolvi fazer-lhe uma visita. Disseram-meque seu sócio está quase à morte. Assim pois,estava só, mesmo porque me parece que ele nãotem mais ninguém no mundo.- Espírito! disse Scrooge com voz trêmula, levai-mepara longe daqui!- Eu te preveni de que eram as sombras das coisaspassadas. Se elas são como estás vendo, não mecabe a culpa.- Levai-me! exclamou Scrooge. Não posso maissuportar!Scrooge voltou-se para o espírito e, vendo que esteo olhava com uma expressão - coisa estranha! -onde se encontravam todas as fisionomias dassombras evocadas, atirou-se sobre ele.Nesta luta, se se pode chamar luta a um assaltoonde o espírito, sem resistência aparente,permanecia insensível aos esforços do seuadversário, Scrooge percebeu que a luz quefulgurava na cabeça do fantasma tornava-se cadavez mais clara e mais alta.Associando confusamente a idéia desta luz com ainfluência que o espírito exercia sobre ele, tomou o
  58. 58. chapéu extintor com um imprevisto e rápido gesto elhe enterrou na cabeça. O espírito desvaneceu-seimediatamente, ficando inteiramente coberto peloextintor.Scrooge atirou-se com todo o seu peso sobre oextintor, mas todo o seu esforço foi inútil paraaprisionar a luz que dele se escapava e que sederramava pelo chão.Scrooge sentiu que as forças o abandonavam, aomesmo tempo que o tomava uma incoercívelvontade de dormir. Entretanto, tinha consciência deque se achava novamente em seu quarto. Sua mãofez um último esforço para enterrar mais o chapéu,mas o pulso afrouxou, e mal teve tempo paraganhar o leito, cambaleando, antes de mergulharnum sono profundo.TERCEIRA ESTROFEO segundo dos três espíritosDespertado em meio de um barulhento ressonar,Scrooge sentou-se na cama para coordenar asidéias, sem precisar ser avisado de que o relógio iabater uma hora. Tinha consciência de que a lucidezde espírito lhe voltava justamente no instante emque devia travar conhecimento com o segundomensageiro anunciado por Jacob Marley. Masquando começava a perguntar a si mesmo qualseria a cortina do leito que ia ser movida desta vez
  59. 59. pelo novo espírito, sentiu um arrepio tãodesagradável, que resolveu puxar todas as cortinascom as próprias mãos.Feito isto, deitou-se de novo, mas sem cessar arigorosa vigilância em redor do leito, pois queriafazer frente ao espírito desde o momento de suaaparição, e não ser tomado de surpresa, o que lheinutilizaria todos os seus recursos.Aqueles que pretendem estar sempre à altura dascircunstâncias e não se perturbar com coisa algumacostumam afirmar, para darem uma idéia de seusangue-frio, que podem permanecer tão calmosdiante de um sangrento duelo como diante de umapartida de cartas. Entre estes dois extremos, háevidentemente lugar para os mais diversosacontecimentos.Sem me atrever a pôr a mão no fogo por Scrooge,posso declarar-vos, entretanto, que ele estavadisposto a afrontar todas as aparições, as maisvariadas ou mais estranhas, e que nada,absolutamente nada lhe causaria surpresa, desdeuma simples criança até um descomunalrinoceronte.Mas, se Scrooge estava preparado para ver o quequer que fosse, não estava absolutamentepreparado para não ver coisa alguma. Assim pois,quando o relógio bateu uma hora e nenhumfantasma apareceu, um violento tremor apossou-sede todo o seu ser.Cinco . . . Dez . . . Quinze minutos transcorreram, enada aparecia. Durante todo esse tempo, Scroogepermaneceu estendido no leito, onde seconcentravam os raios de uma luz avermelhada, que
  60. 60. começara a brilhar no momento em que o relógiosoava uma hora.Esta simples claridade parecia a Scrooge maisinquietante que uma dúzia de fantasmas, pois nãopodia compreender o que aquilo podia significar. Porvezes, era levado a imaginar que o fenômeno nãopassasse de um caso de combustão espontânea,embora não tivesse a consolação de o saber aocerto.Finalmente, Scrooge explicou-se a si mesmo - comoqualquer pessoa o faria - que o segredo destamisteriosa luz estava sem dúvida na sala vizinha,de onde, bem observado, ela parecia vir.Estribado nesta idéia, levantou-se da camavagarosamente, calçou as chinelas e dirigiu-se paraa porta. No momento em que punha a mão namaçaneta, uma voz desconhecida o chamou dedentro, convidando-o a entrar.Scrooge obedeceu.O quarto era exatamente o seu, isso lá era, sem amenor dúvida -, mas havia passado por uma incríveltransformação. As paredes e o teto estavam tãobem enfeitados de vegetação, que se haviamtornado um verdadeiro bosque, onde brilhavamesparsos lagos espelhantes. As folhas verticais deazevinho, do agárico e da hera refletiam as luzescomo outros tantos minúsculos espelhos. No fogão,crepitava um esplêndido fogo, como jamaiscrepitara neste desajeitado fogão em nenhum outroinverno, nem no tempo de Marley.Empilhados no chão, de modo a formar uma espéciede trono, encantavam a vista inumeráveis vitualhas,como perus, patos, caça, aves, presuntos, pernas
  61. 61. de porco, leitoas, verdadeiras guirlandas desalsichas, ostras, castanhas ainda quentes, rubrasmaçãs, laranjas apetitosas, suculentas peras,imensos bolos reais, taças de vinho espumante,cujo delicioso aroma enchia todo o ambiente.Sobre este incrível estrado estava confortavelmenteinstalado um belo e jovial gigante, em cuja mãosustentava um facho aceso em forma de cornucópia.Quando Scrooge entreabriu a porta para passar, ogigante ergueu o facho bem alto para projetar a luzsobre o rosto do recém-chegado.- Entra! gritou o espírito. Entra, meu amigo, efaçamos as nossas apresentações.Scrooge entrou timidamente e baixou a cabeçadiante deste novo espírito. Já não era o Scroogerabugento da véspera, mas, embora os olhos clarosda aparição tivessem uma expressão de bondade,Scrooge não podia enfrentar a sua irradiação.- Eu sou o fantasma do Natal presente, disse oespírito. Olha-me.Scrooge obedeceu respeitosamente.O espírito vestia um simples manto verde-escuroguarnecido de branco. Este manto era tão simples etão folgado, que deixava descoberto o peito largo.Também estavam descalços seus pés, queapareciam sob as pregas da estranha indumentária.Como coroa, tinha um ramo de azevinho ornado comuns enfeites cintilantes imitando pedaços de gelo.Longas e escuras madeixas brincavam-lhelivremente sobre o rosto generoso e franco,franqueza esta que também se refletia em seuolhar cintilante, em sua voz sonora, em sua mãoaberta, em sua expressão alegre e em suas
  62. 62. maneiras cativantes. Pendia-lhe da cintura umavelha bainha, já bastante enferrujada e sem arespectiva espada.- Já viste, em toda a tua vida, alguma pessoaparecida comigo? perguntou o espírito.- Não, nunca, respondeu Scrooge.- Nunca viajaste com os mais jovens membros deminha família, ou melhor, com os meus irmãos maisvelhos vindos ao mundo no decorrer destes últimosanos?- Não creio, disse Scrooge. Parece-me que não.Tendes muitos irmãos, Espírito?- Mais de mil e oitocentos.- Que família para manter! murmurou Scrooge.O fantasma do Natal presente levantou-se.- Espírito, disse Scrooge com voz humilde, levai-meaonde vos aprouver. Ontem à noite saí contra avontade e recebi uma lição que começa a produzirseus frutos. Esta noite, se tiverdes alguma coisa aensinar-me, estou pronto para tirar dela todo oproveito.- Toca em meu manto, disse o fantasma.Scrooge obedeceu e segurou a roupa do gigante. Nomesmo instante, desapareceram azevinhos,agáricos, heras, lagos brilhantes, perus, patos,caças, frangos, assados, presuntos, ostras esalsichas. Do mesmo modo, desapareceramrepentinamente o quarto, o fogo, a luzavermelhada, a própria hora noturna, e Scroogeachou-se em uma das ruas de Londres perto de seucompanheiro, por uma manhã de Natal.Fazia um tempo chuvoso, e as pessoas produziamuma espécie de música, que não era desagradável,
  63. 63. ao raspar a neve que se acumulava nos seus portaise nos rebordos dos telhados. As criançasregalavam-se ao ver a neve, que rolava em grandesporções, despedaçando-se na calçada em pequenasavalanchas.As fachadas das casas pareciam ainda mais negrasem contraste com a alva e lisa camada de neve,que cobria os telhados e até mesmo com a neve darua; esta não tinha a mesma alvura, pois aspesadas rodas das viaturas haviam cavado aliprofundos sulcos, que se cruzavam e seentrecortavam nas encruzilhadas, formando umintricado de pequenos canais que se perdiam numaespessa mistura de lama amarelada e de águagelada.O céu era triste, as ruas tomadas por uma opacaneblina, que era meio chuvisco, meio gelo, cujaspartículas mais densas recaíam em gotículasfuliginosas, como se todas as chaminés da Grã-Bretanha tivessem sido acesas ao mesmo tempo eestivessem passando por uma limpeza em regra.Nada havia de muito agradável neste aspectohibernal de Londres. Entretanto sentia-se por todaparte uma atmosfera de alegria, que nem mesmo omais belo sol de verão, nem o mais límpido arseriam capazes de criar. Assim, os varredores deneve demonstravam o mais jovial bom-humor,interpelando-se de cima dos telhados, atirando-sede quando em quando mútuas bolas de neve -projéteis menos perigosos que certos gracejos -,rindo alegremente, quando atingiam o alvo e rindodo mesmo modo, quando falhavam.As churrascarias ainda não estavam de todo
  64. 64. abertas, mas as casas de frutas ostentavam todo oseu esplendor. Ali, grandes cestas de castanhas,repletas até aos bordos, ostentavam-se nas portas,ameaçando rolar para a rua, vítimas de seu própriovolume. Havia maçãs e pêras amontoadas emvistosas pirâmides, cachos de uvas que onegociante tivera o cuidado de pendurar bem àvista, para que, aos transeuntes, lhes viesse águaà boca, sem que isso lhes custasse nada.Havia pêssegos dourados e veludosos, cujo aromalembrava passeios de inverno nos bosques, maçãsde Norfolk, cuja tonalidade morena fazia ressaltar oamarelo-claro dos limões e laranjas. Até os peixes,prateados e dourados, expostos em aquários nomeio destas frutas selecionadas, pareciam adivinharque se passava qualquer coisa de anormal, e, deboca aberta, faziam evoluções no seu pequeninomundo, tomados de grande agitação.E as mercearias! Oh! as mercearias! Estavam quasefechadas, mas, pelos pequenos espaçosentreabertos, que espetáculo esplêndido! O quetornava encantadora a atmosfera não era apenas oalegre ruído das balanças, o barulho das caixas, queora se abriam, ora se fechavam, o esquisito aromaque se evolva a um tempo do chá e do café, agrossura e a abundância das passas, a extremaalvura das amêndoas, a beleza dos paus de canela,tão compridos e retos, ou o perfume penetrante dasoutras especiarias; não era somente a presençaapetitosa dos figos moles e carnosos, das ameixasagridoces, dos confeitos açucarados, capazes defazer morrer de vontade os menos gulosos, ouainda os enfeites de Natal, constituídos por todas
  65. 65. estas lindas coisas; era também a alegria dosfregueses, tão possuídos da grandeza daqueleesperançoso dia, que se apertavam a ponto deachatarem os seus cestos, se esqueciam de suascompras sobre o balcão e voltavam correndo parabuscá-las, tudo isto com a maior alegria possível;era a presteza dos caixeiros risonhos e agradáveis,que corriam solícitos atendendo a todos epatenteando, na paciência com que serviam a suajovial freguesia, a satisfação que lhes ia na alma.Com o badalar dos sinos chamando o povo para asigrejas e as capelas, as ruas encheram-se de umamultidão de pessoas, ostentando os seus maisbelos trajes, bem como as suas mais joviaisfisionomias. Ao mesmo tempo, de uma quantidadede estreitas ruas, de vielas e passagens ignoradas,surgiu uma multidão de homens e mulherestrazendo seus respectivos manjares ao padeiro,para mandá-los esquentar.A vista desta humilde gente e de suas ingênuasfestas pareceu interessar ao Espírito no mais altograu.Postando-se, em companhia de Scrooge, à porta deuma padaria, descobria e incensava com o seufacho todos os pratos, à medida que iam passando.Era de fato um facho extraordinário. Uma ou duasvezes, quando alguns portadores de viandastrocavam mútuos insultos por se terem chocado nafila, bastou que o espírito erguesse sobre eles oseu facho para que imediatamente lhes voltasse obom-humor. “Efetivamente, é bastante vergonhoso,diziam eles próprios, levantar questões num dia deNatal”. E era a pura realidade.
  66. 66. Depois, os sinos silenciaram e as padariasfecharam-se. Nos subsolos, porém, as carnesassavam, e, sobre o fornos, na rua, as própriascalçadas fumegavam, como se as pedras do passeioestivessem igualmente a cozer.- Será que têm algum sabor particular estasgotículas que caem do vosso facho? perguntouScrooge.- Sim, naturalmente. Têm o sabor do Natal.- E este sabor pode transmitir-se no dia de hoje aqualquer prato?- A qualquer prato dado de bom coração,especialmente aos mais pobres.- Por que aos mais pobres?- Porque são os que têm mais necessidade deles. **Ambos se calaram, e, sempre invisíveis,prosseguiram seu caminho pelas ruas da cidade. Oespírito era dotado de uma extraordináriafaculdade, que Scrooge já havia notado naconfeitaria: apesar de seu talhe gigantesco, estavasempre perfeitamente à vontade, onde quer quefosse; mesmo sob o mais baixo teto, andava com amesma graça e naturalidade como se estivesse nomais luxuoso palácio.Ou fosse para fazer alarde deste poder, ou fosselevado pelo seu coração generoso, compassivopelos humildes, o certo é que foi para a casa do seuempregado que o espírito arrastou Scrooge, sempreagarrado ao seu manto. Na soleira da porta oespírito sorriu e deteve-se para abençoar a casa de
  67. 67. Bob Cratchit, levantando o seu facho.Então, apareceu a senhora Cratchit, esposa de Bob,vestida muito modestamente com um vestido jásurrado mas que ela havia enfeitado garridamentecom umas fitas baratas, que custam apenas algunscentavos e fazem tanta vista.A senhora Cratchit estendia a mesa ajudada porBelinda, sua segunda filha, também toda garrida,enquanto Pedro Cratchit, enterrado em seu vastocachecol, herdado de seu pai, espetava um garfo napanela de batatas, contente por se ver tão elegantee suspirando por se mostrar na rua.No mesmo instante, os dois últimos Cratchits, ummenino e uma menina, precipitaram-se na sala,gritando que acabavam de sentir o cheiro do pato,do “seu” pato, quando passaram diante da padaria.Depois, embriagados com o pensamento do gostosomolho de cebola que estavam preparando, puseram-se a dançar em homenagem à habilidade docozinheiro Pedro Cratchit.Modesto, apesar de seu vistoso colarinho que quaseo enforcava, este pôs-se a soprar o fogo com tantagraça que logo as batatas começaram a dançar naágua fervente e vieram tamborilar contra a tampada panela para anunciar que já estavam cozidas eprontas para serem descascadas.- Que será que está prendendo seu querido papai eseu irmão Tinzinho? disse a senhora Cratchit. EMarta? No Natal passado, ela chegou meia horamais cedo.- Cá está Marta, mamãe! disse uma garota quevinha entrando naquele instante.- Cá está Marta! exclamaram os dois pequeninos
  68. 68. Cratchits. Urra! Veja, Marta! Temos pato hoje!- Louvado seja Deus, minha querida! Como estásatrasada hoje! observou a senhora Cratchit,abraçando-a repetidas vezes e tomando-lhesolicitamente o chapéu e o xale.- Tivemos que terminar uma porção de coisas ontemà noite, respondeu a moça, e hoje de manhãtivemos de pôr tudo em ordem.- Está bem; o essencial é que já estás aqui.Senta-te perto do fogo, querida, e aquece-te umpouco.- Não, não, aí está papai! gritaram os pequeninosCratchits, que estavam sempre em toda parte aomesmo tempo.- Vai esconder-te, Marta! Vai esconder-te!Marta escondeu-se, e Bob, com o cachenêarrastando no chão, com a roupa usada mas bemescovada e em ordem para dar idéia de dia defesta, irrompeu na sala, trazendo o Tinzinho àscostas.Pobre Tinzinho! Trazia umas muletinhas, e suaspernas eram sustentadas por um aparelho de metal.- Muito bem! Onde está nossa Marta? Exclamou BobCratchit, lançando os olhos em torno.- Ela não pode vir, disse a senhora Cratchit.- Não pode vir! repetiu Bob perdendo subitamenteseu primeiro entusiasmo, pois acabava de servir decavalo ao pequeno Tim, e estava fatigado por Tercorrido desde a igreja até à casa dele. - Ela nãopode vir! Num dia de Natal!Marta ficou penalizada por vê-lo decepcionado,mesmo em se tratando de uma brincadeira, e semmais perder tempo abriu a porta que a escondia e
  69. 69. atirou-seaos braços do pai, enquanto os dois pequeninosCratchits levavam Tinzinho para a cozinha, ondeestavam cozinhando o pudim.- E como se tem portado o Tinzinho? Perguntou asenhora Cratchif, depois de ter gracejado com Bobpor motivo de sua credulidade e depois que esteabraçou a filha cheio de satisfação.- Como um anjo, disse Bob, e mais ainda. Quandoestá calmo, torna-se reflexivo, e todos nós ficamosadmirados com as idéias que lhe ocorrem. Ainda hápouco me dizia que esperava que todos o tivessemnotado na igreja por ser doente, e, acrescentou,especialmente no , dia de Natal os cristãos devemsentir-se felizes ao pensarem naquele que faziaandar os coxos e restituía a vista aos cegos.Repetindo estas palavras, a voz de Bob tremia, etremeu mais ainda quando observou que Tinzinhose tornava cada dia mais forte e mais vigoroso.As batidas da muletinha fizeram-se ouvir sobre osoalho, e antes que tivessem dito qualquer outrapalavra, Tinzinho apareceu em companhia dosirmãos e da irmã, que o ajudaram a subir ao seubanquinho, no canto do fogo.Então, arregaçando as mangas, como se receasseque elas se estragassem mais, as pobres mangas,Bob preparou numa vasilha uma mistura revigorantecom gim e limão, agitou-a fortemente e a pôs paraesquentar perto do fogo. Pedro e os dois pequenosCratchits, que se viam em toda parte ao mesmotempo, correram buscar o pato, que trouxeram logoa seguir, em triunfal procissão.A celeuma que se seguiu, poder-se-ia acreditar que
  70. 70. o pato era, naquele instante, a mais rara das aves,um fenômeno emplumado, e que perto dele umcisne negro não passava de uma insignificantecuriosidade. Realmente, era este o caso naquelamodesta residência.A senhora Cratchit fervia o molho depositado numacaçarola, enquanto Pedro Cratchit esmagava asbatatas com incrível vigor, Belinda preparava acalda de maçãs, Marta enxugava os pratos, Bobcolocava Tinzinho à mesa, ao lado dele, e ospequeninos Cratchits punham as cadeiras paratodos, inclusive para si mesmos; uma vez beminstalados, puseram uma colher na boca, para quenão fossem tentados a pedir seu pedaço de patoantes de chegar-lhes a vez de serem servidos.Finalmente, colocados todos em seus respectivoslugares, recitou-se a oração de antes das refeições.Seguiu-se, então, um silêncio impressionante,enquanto a senhora Cratchit, tomando lentamente afaca de trinchar, se preparava para cortar a ave.Mal, porém, a senhora Cratchit enterrou a faca naslaterais do pato, após tão mal contida ansiedade,um “hurra” de contentamento estrugiu por toda asala. O próprio Tinzinho, excitado pelos doispequeninos Cratchits, bateu na mesa com o cabo dafaca e repetiu um “hurra”.Nunca, em tempo algum, se tinha visto um patosemelhante. Bob declarou que jamais se fizera umpato assado igual àquele; foram objeto decomentários o seu preço, a qualidade, o tamanho eo delicioso gosto. Ainda mais, com o molho demaçãs e o pirão de batatas, este pato representavaum lauto almoço para toda a família, “e até mesmo
  71. 71. sobrou”, observou a senhora Cratchit comsatisfação, olhando alguns ossos relegados noprato.Entretanto, todos comeram à vontade, inclusive ospequenos Cratchits, que tinham a cara lambuzadade pato e de molho até aos olhos. E agora,enquanto Belinda muda os pratos, a senhoraCratchit sai sozinha da sala, para esconder suagrande emoção, e vai buscar o pudim.Oh, e se o pudim não estiver bem cozido! E se elese desmoronar quando for desenformado! Eimaginem se alguém se introduziu na despensa e oroubou, enquanto todo mundo se regalava com opato!A estes dolorosos pensamentos, os dois Cratchitsfizeram-se lívidos. Os mais horríveis receiosassaltavam-nos.Ah, uma nuvem de vapor! É o pudim que sai doforno . . . Agora, um cheiro de lixívia . . . É do panoque está envolvendo o pudim. Um aroma queparece vir de uma pastelaria, situada entre umrestaurante e uma lavanderia! Pois é o própriopudim! . . .Meio minuto mais tarde, a senhora Cratchit, com orosto afogueado mas com um sorriso de triunfo noslábios, reaparece com o pudim: um pudimsemelhante a uma bala de canhão, todo,mosqueado, duro e compacto, tendo em cima umgalho de azevinho, mergulhado na base em umquarto de pinta de brandy inflamado.Oh, que maravilhoso pudim!Bob Cratchit declarou, solenemente, que era a maisperfeita obra-prima que a senhora Cratchit executou

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