PatrimôniosdePernambuco
3
Maria Alice AmorimFundarpe, 2010PatrimôniosdePernambuco
5Governador de Pernambuco | Eduardo CamposVice-governador | João Lyra NetoSecretário da Casa Civil | Ricardo LeitãoSecretá...
6Ana das Carrancas · 15Texto Institucional · 6Luciana AzevedoManuel Eudócio · 23Patrimônio Vivo em Contexto · 9Maria Acsel...
7Documentar, através deste livro, a trajetória dos“Patrimônios Vivos de Pernambuco” e, consequentemente,seus múltiplos sab...
8
9
10O Patrimônio Vivo em ContextoMaria Acselrad1Um dos instrumentos mais relevantes das políticas públicasvoltadas para o re...
11saúde debilitado, para continuar efetivamente trabalhando, já têmem seus filhos um caminho que aponta para o futuro da t...
12
13
14Legenda Nome Artístico Tradição cultural Data de nascimento CidadeAno datitulação1 Ana das Carrancas Artesanato em cerâm...
15
16Ana dasCarrancasAna dasCarrancas
17Do extremo oeste pernambucano, espiando as terras doPiauí, saiu a louceira Ana Leopoldina Santos à procura desobrevivênc...
18Maria da Cruz dá continuidade ao estilo da mãe,Ana das Carrancas, com quem aprendeu o ofício primeiros ensinamentos na m...
19A carranca mais antiga, da própria produção, data de 1963, quandoainda era conhecida por Ana Louceira ou Ana do Cego. So...
20CamarãoCamarão
21Quando Antonio Ferreira da Silva e Josefa Alves Freire viramnascer o filho, não imaginavam que ali começava a trajetória...
22juninas do Estado e contemplada, ainda na década de 1970, como título de Capital do Forró – que Camarão construiu as bas...
23nomes da música nordestina, a exemplo de Sivuca, Dominguinhos,Santanna, Marinês, Jackson do Pandeiro, Arlindo dos Oito B...
24Manuel EudócioManuel Eudócio
25Com voz pausada e dedos firmes na modelagem, é assim que oprimeiro galante do reisado vai debulhando os grãos de umavida...
26aprimoramento, de adaptação ao gosto da freguesia e de convíviocom fregueses alemães, franceses, portugueses, americanos...
27Depois, com a dificuldade de comercializar o conjunto, foi fazendoas figuras individuais. O reisado já não sai no Alto d...
28J. BorgesJ. Borges
29Prensa alemã, utilizada naimpressão dos cordéisArtesão de cestinhas de cipó e brinquedos de madeira,oleiro, pedreiro, ca...
30Familiares de J. Borges auxiliam na impressão das gravurasJosé Francisco Borges nem avaliava o significado dessas decisõ...
31da revista suíça Xilon em número especial (1980) dedicado aosxilógrafos nordestinos, ilustrou o livro As palavras andant...
32NucaNuca
33Nuca é apelido de infância: Nuca de Tracunhaém ou Nuca dosLeões. Tracunhaém – topônimo indígena, que quer dizerpanela de...
34Embora desde a década de 1940 já vendesse esculturinhasde cerâmica nas feiras, principalmente na vizinha Carpina, ésobre...
35E Nuca foi exímio nisso: na hora de queimar, sabia precisar acaldeação, a fim de não rachar a escultura, nem cair o cabe...
36Canhotoda ParaíbaCanhotoda Paraíba
37Oavô tocava clarinete. O pai, violão. O filho, Francisco Soaresde Araújo, tinha a certeza de que adorava música, e isto ...
38Não só a forma de tocar o instrumento, sobretudo o vigor dascomposições de Canhoto é que o fizeram chegar ao panteãodos ...
39e Paulinho da Viola. Ainda em 1993, pelo Tom Brasil, sai o CDInstrumental no CCBB: Canhoto da Paraíba e Zimbo Trio. Em19...
40MaracatuLeão CoroadoMaracatuLeão Coroado
41Década de 1950 do século 20. O respeitado oluô (sacerdotemáximo) Luís de França recebe a incumbência de dirigir umabrinc...
42O líder começou a participar do maracatu quando a sede ficava nobairro da Boa Vista, numa rua que hoje se chama Leão Cor...
43Nascido na Campina do Barreto, Recife, em 15 de março de1948, o mestre Afonso comanda há mais de 20 anos um terreiroem Á...
44Zé do CarmoZé do Carmo
45Passeando pelos labirintos da memória do artista e pelos objetosmais recônditos do ateliê de José do Carmo Souza, conhec...
46foi com apenas sete anos, em 1940, que Zé do Carmo começa afazer figurinhas de barro, pintar com tinta d’água, como fazi...
47madeira com rodízios. Para ele, os primeiros trabalhos eram popularesdemais. Depois disso, acredita que conseguiu modela...
48Banda MusicalCuricaBanda MusicalCurica
49Curica, do tupi ku’rika, é pássaro de canto estridente, da famíliade papagaios e araras, que canta pelas matas e mangues...
50Curica, a mais antiga banda de música, em atividade ininterrupta,do Brasil e da América Latina.O abolicionista e senador...
51No dia 1º de dezembro de 1944 recebe a visita do famosomusicólogo uruguaio, professor Francisco Curt Lange, que,demonstr...
52Lia deItamaracáLia deItamaracá
53Soberana, feito uma deusa surgida das águas do mar ou umarainha plena de realeza, é assim que Lia sempre aparece,levando...
54nenhuma projeção fora do restrito circuito de aficcionados dacultura popular. A partir dos anos 1980 passa a ser merende...
55de arte, cerâmica, percussão, fotografia, malabares, rabeca,teatro, cavalo-marinho. Permanecem, ainda, as temporadas dea...
56DilaDila
57Cangaço e peripécias diabólicas são os temas predominantesno universo do mestre em fabulações, gravador de capasde folhe...
58foram para folhetos dele mesmo, de Francisco Sales Arêda e deoutros poetas de meio de feira, tais como Vicente Vitorino,...
59fixo, conforme lembra Roberto Benjamin, no texto Aparatos doslivros populares – Dila editor popular. E o registro da pró...
60MestreSalustianoMestreSalustiano
61Ainda menino, sete anos, brincava cavalo-marinho pelosengenhos de Aliança. Foi arriliquim, dama, galante, cantadorde toa...
62Com a casa repleta de filhos, o mestre Salustiano sempre mantevea liderança da família e conseguia envolver todos nos pr...
63Graças à sensibilidade artística e às invenções de homeminteligente, Salustiano cultivava a memória da infância, povoada...
64Índia MorenaÍndia Morena
65Contorcionista, trapezista voadora, acrobata, cantora, ginasta,atriz circense. Eis aí alguns dos atributos da grande dam...
66dramas encenados nos circos populares, tais como A louca dojardim e Lágrimas de mãe. As peças teatrais, cedidas por Índi...
67por Benigno. Em meio ao talento e à dedicação integral à carreira,ia consolidando-se um contínuo processo de aprendizage...
68Homem daMeia-noiteHomem daMeia-noite
69De fraque, cartola, gravata borboleta, dente de ouro, lá vem oHomem da Meia- Noite, vem pela rua a passear, enfeitiçando...
70A existência do grupo carnavalesco se deveu a uma dissidênciade integrantes da Troça Carnavalesca Mista Cariri, fundada ...
71ao cinéfilo e fundador Luciano Anacleto de Queiroz a inspiração apartir do filme O ladrão da meia-noite; a outra atribui...
72José Costa LeiteJosé Costa Leite
73Aversatilidade tem marcado a trajetória do cordelista, xilógrafoe autor de almanaque popular. Nascido a 27 de julho de19...
74Os primeiros cordéis chamavam-se Eduardo e Alzira – “umahistorinha de amor”, conforme classificação do próprio poeta – e...
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Patrimonios vivos 2010
Upcoming SlideShare
Loading in …5
×

Patrimonios vivos 2010

1,415 views

Published on

0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total views
1,415
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
2
Actions
Shares
0
Downloads
0
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Patrimonios vivos 2010

  1. 1. PatrimôniosdePernambuco
  2. 2. 3
  3. 3. Maria Alice AmorimFundarpe, 2010PatrimôniosdePernambuco
  4. 4. 5Governador de Pernambuco | Eduardo CamposVice-governador | João Lyra NetoSecretário da Casa Civil | Ricardo LeitãoSecretário Estadual de Educação | Nilton MotaSecretário Especial de Cultura | Ariano SuassunaPresidente da Fundarpe | Luciana AzevedoDiretor de Gestão | Alexandre DinizDiretora de Preservação Cultural | Célia CamposDiretor de Políticas Culturais | Carlos CarvalhoDiretor de Difusão Cultural | Adelmo AragãoDiretora de Projetos Especiais | Rosa SantanaDiretora de Planejamento e Monitoramento | Fátima OliveiraDiretora de Gestão do Funcultura | Martha FigueiredoAssessor de Comunicação | Rodrigo CoutinhoCoordenador Jurídico | Hugo BrancoCoordenadora de Cultura Popular e Pesquisa | Teca CarlosCoordenador de Música | Rafael CortesCoordenadora de Artes Cênicas | Teresa AmaralCoordenadora de Audiovisual | Carla FrancineCoordenador de Artes Plásticas e Artes Gráficas | Félix FarfanCoordenadora de Desenvolvimento Institucional | Irani do CarmoCoordenadora de Patrimônio Histórico | Fátima TigreChefe da Unidade de Informática | Luciano MagalhãesCoordenação editorial: Maria AcselradSupervisão: Eduardo SarmentoAssistência: Lilian SilvaPesquisa e textos: Maria Alice AmorimFotografia: Luca BarretoProjeto cartográfico: Luís BulcãoProjeto gráfico e diagramação: Gilmar RodriguesRevisão: Maria Helena PôrtoEditora e gráfica: LiceuCopyright © Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de PernambucoAmorim, Maria Alice.Patrimônios vivos de Pernambuco/ Maria AliceAmorim; apresentação de Luciana Azevedo; organizaçãode Maria Acselrad – Recife: FUNDARPE, 2010.116p. il. 23cm.ISBN 978-85-7240-089-31. Patrimônios vivos – Pernambuco. 2. Patrimônioimaterial. 3. Salvaguarda. I. Azevedo, Luciana. II.Acselrad, Maria. III. Título.CDU 316.7A524p
  5. 5. 6Ana das Carrancas · 15Texto Institucional · 6Luciana AzevedoManuel Eudócio · 23Patrimônio Vivo em Contexto · 9Maria AcselradNuca · 31Cartograma de Mestres e Grupos · 12Maracatu Leão Coroado · 39Referências · 112Zé do Carmo · 43Lia de Itamaracá · 51Manuel Salustiano · 59Homem da Meia-Noite · 67Zezinho de Tracunhaém · 75Teatro Experimental de Arte · 87Caboclinho Sete Flexas · 91Maestro Nunes · 99Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu · 107Camarão · 19J. Borges · 27Canhoto da Paraíba · 35Banda Musical Curica · 47Dila · 55Índia Morena · 63José Costa Leite · 71Confraria do Rosário · 79Fernando Spencer · 83Selma do Coco · 95Clube Indígena Canindé · 103
  6. 6. 7Documentar, através deste livro, a trajetória dos“Patrimônios Vivos de Pernambuco” e, consequentemente,seus múltiplos saberes, histórias e memórias, representapara nós, da Fundação do Patrimônio Histórico e Artísticode Pernambuco – Fundarpe –, um momento oportuno dereconhecer, salvaguardar e difundir parte da diversidadecultural que constitui Pernambuco. Mais do que isso, reforçao nosso compromisso em promover e proteger o patrimôniocultural imaterial, contido nas tradições, no folclore, nossaberes, nas línguas, nas festas e em diversas outrasmanifestações, fortalecendo as “referências culturais” dosgrupos sociais em sua heterogeneidade e complexidade.Cientes da importância dessa categoria do patrimônio,temos, nos últimos anos, nos esforçado para criar econsolidar instrumentos e mecanismos, de maneira coletivae compartilhada, que visam garantir o seu reconhecimento,defesa e, acima de tudo, viabilidade. Assim, no ano de2002, o Governo do Estado de Pernambuco lançou,de maneira pioneira no Brasil, a “Lei do Registro doPatrimônio Vivo”, possibilitando o reconhecimento e oapoio aos mestres e grupos da cultura popular e tradicional,avançando para uma concepção do patrimônio entendidocomo “o conjunto dos bens culturais, referente àsidentidades e memórias coletivas”. Nesse contexto, formasde expressão, saberes, ofícios e modos de fazer ganharamum novo espaço, quanto à apreensão dos seus sentidos esignificados.Hoje, nosso desafio é asseverar a inserção dos nossospatrimônios vivos na Política Cultural do Estado, o quetemos feito através da realização de oficinas de transmissãode saberes, exposições, apresentações culturais, palestras,entre outras ações, que para nós significa a apropriaçãosimbólica e o uso sustentável dos recursos patrimoniaisdirecionados à preservação e ao desenvolvimentoeconômico, social e cultural do Estado. Nessa trajetória,articulamos diversas ações institucionais que possibilitaraminvestir em atividades como pesquisa, documentação,proteção e promoção desses patrimônios vivos.Portanto, ao dar corpo a testemunhos de pernambucanose pernambucanas, este trabalho ousa servir como ummemorial, um “pergaminho identitário” fundamental para aconstrução do futuro. Um futuro que começa na percepçãodo que fomos e de quem somos, possibilitados pela“consciência patrimonial”.Sem dúvida, esta valiosa e inédita publicação é mais umfruto desses desafios! Queremos compartilhar com vocês,leitores – e por que não “patrimônios vivos”? –, um poucodas nossas descobertas e redescobertas. Saibam, desde já,que o livro em mãos é resultado de um trabalho de pesquisae registro, de um olhar atento e sensível, e incompleto,por essência, pois a cada ano serão incorporados novospatrimônios vivos. Mais do que registrar, portanto, estaslinhas e imagens que seguem nos possibilitam mergulharnum mosaico de experiências que marcaram e marcamas vidas de grandes mestres e grupos da cultura populare tradicional, verdadeiros tesouros vivos, guardiões esacerdotes de memórias e saberes. Em seus testemunhos,são revelados o simbólico, o imaginário e o real, numadinâmica objetiva e subjetiva que articula um saber fazer,conhecimentos e empreendimentos sociais desafiadores ànossa maneira de pensar e agir. Um rico universo em queas pessoas se expressam e se relacionam com o mundo;que comunica vida, fatos, pensamentos, sonhos, ideias esentimentos. Boa leitura!Luciana AzevedoDiretora-presidente da Fundação do PatrimônioHistórico e Artístico de Pernambuco.
  7. 7. 8
  8. 8. 9
  9. 9. 10O Patrimônio Vivo em ContextoMaria Acselrad1Um dos instrumentos mais relevantes das políticas públicasvoltadas para o reconhecimento das culturas popularesdesenvolvidas no Brasil, nas últimas décadas, tem sido aspatrimonializações de bens culturais imateriais. É inegável que parao enriquecimento desse processo a circulação de documentos,como a Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura Popular eTradicional, de 1989, e, mais tarde, a Convenção para Salvaguardado Patrimônio Cultural Imaterial, de 2003, ambas promulgadaspela UNESCO, e das quais o Brasil é signatário, foram decisivaspara a reverberação de um debate público sobre o assunto.A resposta a esse movimento, por parte dos órgãos gestoresde cultura, deu-se através da criação de instrumentos jurídicosapropriados que procuravam atender à demanda que se impunhaem relação à lacuna gerada pelas políticas patrimoniais até aquelemomento, no que diz respeito à dimensão imaterial do patrimôniocultural brasileiro.A repercussão dessa discussão, no cenário brasileiro, ganhadestaque com a criação do Decreto 3.551 de 4 de agosto de 2000,ápice de um longo processo de debates políticos e intelectuais, queinstitui o Registro dos Bens Culturais de Natureza Imaterial e criao Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, abrindo um espaçopara o reconhecimento, por parte do Estado, de bens de caráterprocessual e dinâmico como patrimônio cultural do Brasil, tendo“como referência a continuidade histórica do bem e sua relevâncianacional para a memória, a identidade e a formação da sociedadebrasileira”. 21  Antropóloga e professora do Depto. de Teoria da Arte e ExpressãoArtística da Universidade Federal de Pernambuco/UFPE.2  Decreto 3.551 de 4 de agosto de 2000 in: Patrimônio imaterial noBrasil – legislação e políticas estaduais.VIVEIROS DE CASTRO e FONSECA,Maria Laura e Maria Cecília Londres. Brasília: UNESCO, Educarte, 2008.Vale ressaltar, de acordo com Barbosa e Couceiro (2008), quealgumas experiências, consideradas exemplares, de programasnacionais de salvaguarda – realizadas por países como Japão,Tailândia, Filipinas e Romênia, conhecidas como TesourosHumanos Vivos – em prática desde o fim da Segunda GuerraMundial, contribuíram de forma significativa para a ampliaçãodas agendas políticas patrimoniais no mundo, inserindo o temada salvaguarda através da transmissão de saberes e apoio diretoa mestres e grupos, na pauta de diversos debates públicos deâmbito nacional. Num mundo cada vez mais globalizado, emconstante e acelerado processo de transformação, a preocupaçãocom as especificidades culturais alçava a um novo patamar adiscussão sobre o patrimônio cultural.Nesse contexto, as políticas de patrimonialização de pessoasou grupos da cultura popular e tradicional, amparadas porleis de registro estaduais, surgem no rastro de uma série dediscussões acerca da salvaguarda do patrimônio imaterial queencontram repercussão no âmbito local. Em Pernambuco, aLei do Patrimônio Vivo3 surge como uma tentativa pioneira,no contexto brasileiro, de instituir no âmbito da administraçãopública estadual, o instrumento do registro, procurandofomentar diretamente as atividades de pessoas e grupos culturaisrepresentantes da cultura popular e tradicional, contribuindopara a perpetuação de suas atividades. O registro prevê aimplantação de ações de formação, difusão, documentação eacompanhamento das atividades desenvolvidas pelos premiados.Nesse conjunto de ações, o processo de transmissão de saberesassume papel de destaque na salvaguarda das expressões,celebrações e ofícios aos quais os mestres e grupos encontram-sevinculados, através do repasse de seus conhecimentos às novasgerações de alunos e aprendizes, em sua comunidade ou foradela.3  LEI nº 12.196 de 02 de maio de 2002. Idem.
  10. 10. 11saúde debilitado, para continuar efetivamente trabalhando, já têmem seus filhos um caminho que aponta para o futuro da tradição.O universo dos mestres e grupos contemplados abrangeexpressões das diversas linguagens artísticas, dos ofícios artesanais,da religiosidade popular, entre outras manifestações culturais.Dentre os grupos registrados até o momento, podemos encontrarde forma predominante manifestações culturais ligadas aoCarnaval: um clube de frevo, dois maracatus de baque viradoe dois caboclinhos. Também foram registrados: uma banda demúsica, um grupo de teatro e uma irmandade religiosa. Entreos mestres, encontramos uma diversidade de tradições culturais,através do registro de representantes da ciranda, do coco, daxilogravura, da cerâmica, do forró, do cordel, do circo, da pintura,do cinema, entre outras.Segundo Gonçalves (2003), se relativizarmos a noção moderna depatrimônio – criada no século XVIII, com o surgimento dos estadosnacionais –, podemos encontrar correspondência na experiênciauniversal do “colecionamento”, prática comum entre muitos povose comunidades, ao longo da história da humanidade. A atribuiçãode valor, onipresente nos processos de identificação e registro dopatrimônio, faz com que essa tendência ao “colecionamento”venha a oferecer um panorama daquilo que de mais representativoe singular compõe o patrimônio cultural de um povo. São históriasde vida, processos de aprendizado, dinâmicas de trabalho, escolhasestéticas, processos criativos e de transmissão de saberes de nossospatrimônios vivos, compartilhados com a pesquisadora MariaAlice Amorim e com o fotógrafo Luca Barreto que, através destapublicação, temos o imenso prazer de apresentar.Sendo assim, é com muita alegria que oferecemos aos nossospatrimônios vivos este trabalho, em retribuição a toda uma vidadedicada à cultura.Recife, novembro de 2009.Nos últimos anos, o Governo de Pernambuco, através da Fundaçãodo Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – Fundarpe –,vem realizando oficinas, palestras, aulas-espetáculo, apresentaçõesculturais, homenagens, exposições, numa experiência inédita deinserção dos patrimônios vivos na política de cultura do estado.Essas ações, cujos formatos diferem de acordo com a expressãocultural, idade e disponibilidade do mestre, revelam algumasquestões importantes para a reflexão sobre a transmissão desaberes populares e tradicionais, quando fomentada pelaspolíticas públicas de cultura, por exemplo: 1) o reconhecimento daimportância de serem preservadas as singularidades das tradiçõesculturais representadas pelos mestres e grupos contemplados;2) a valorização da diversidade de técnicas, conteúdos e formasde repasse praticadas pelos mestres, características de processospedagógicos identificados com os princípios da educação nãoformal; e 3) o entendimento de que o processo de aprendizadodo mestre é fator relevante para compreensão do seu processode transmissão de saberes, entre outros aspectos. Todos essesfatores implicam na concepção de que ações de salvaguarda nãodevem prescindir dos atores sociais que se encontram em foco eque isso vem a ser decisivo para que a própria produção de sentidodas tradições por eles representadas se atualize e se perpetue notempo e no espaço.Em Pernambuco, entre 2005 e 2010, foram registrados 24patrimônios vivos. Dentre eles, 16 mestres e oito grupos, atravésda publicação de cinco editais. O lançamento do primeiro editalrendeu excepcionalmente a premiação de 12 mestres4. Nos anossubsequentes, três patrimônios vivos foram eleitos a cada editalpublicado, através de um processo de inscrições que já soma maisde 250 candidaturas ao registro. Em 2008, Pernambuco perdeutrês mestres – Ana das Carrancas, Canhoto da Paraíba e ManoelSalustiano –, e hoje conta com 21 patrimônios vivos, a maioria ematividade; e mesmo aqueles que se encontram com o estado de4  A publicação tardia do Decreto nº 27.503, de 27 de dezembro de2004, que traz a regulamentação da Lei, gerou este acúmulo.
  11. 11. 12
  12. 12. 13
  13. 13. 14Legenda Nome Artístico Tradição cultural Data de nascimento CidadeAno datitulação1 Ana das Carrancas Artesanato em cerâmica 18.02.1928 Petrolina 20052 Banda Musical Curica Banda filarmônica 09.08.1848 Goiana 20053 Caboclinho Sete Flexas Caboclinho Fundado em 1973 Recife 20084 Camarão Forró 23.06.1940 Recife 20055 Canhoto da Paraíba Choro 17.03.1931 Recife 20056 Clube Indígena Canindé Caboclinho 05.05.1897 Recife 20097 Confraria do Rosário Irmandade religiosa Fundada provavelmente em 1777 Floresta 20078 Dila Xilogravura e Cordel 23.09.1937 Caruaru 20059 Fernando Spencer Cinema 17.01.1927 Recife 200710 Homem da Meia-Noite Clube de frevo 01.01.1960 Olinda 200611 Índia Morena Circo 13.07.1943 Jaboatão dos Guararapes 200612 J.Borges Xilogravura e Cordel 20.12.1935 Bezerros 200513 José Costa Leite Xilogravura e Cordel 27.07.1927 Condado 200614 Lia de Itamaracá Ciranda 12.01.1944 Ilha de Itamaracá 200515 Maestro Nunes Frevo 22.06.1931 Recife 200916 Manuel Eudócio Artesanato em cerâmica 28.01.1931 Caruaru 200517 Manuel SalustianoRabeca, cavalo-marinhoe maracatu12.11.1945 Olinda 200518 Maracatu Estrela Brilhante Maracatu de baque virado Fundado provavelmente em 1824 Igarassu 200919 Maracatu Leão Coroado Maracatu de baque virado 08.12.1863 Olinda 200520 Nuca Artesanato em Cerâmica 05.08.1937 Tracunhaém 200521 Selma do Coco Coco de roda 10.12.1929 Olinda 200822 Teatro Experimental de Arte Teatro Fundado em 1969 Caruaru 200823 Zé do Carmo Pintura e escultura 19.11.1933 Goiana 200524 Zezinho de Tracunhaém Artesanato em cerâmica 05.07.1939 Tracunhaém 2007
  14. 14. 15
  15. 15. 16Ana dasCarrancasAna dasCarrancas
  16. 16. 17Do extremo oeste pernambucano, espiando as terras doPiauí, saiu a louceira Ana Leopoldina Santos à procura desobrevivência, e o que conseguiu cavar foi bem mais que isso:inspiração, talento, fama. Nascida em 18 de fevereiro de 1923,no distrito de Santa Filomena, povoação encravada na Serra doInácio, à época pertencente ao município de Ouricuri, foramas verdes águas do Velho Chico que mais tarde viram nascer aartista. Serviu de mote criador a paisagem exuberante povoadade nego d’água, maus espíritos, vapor, paquete, remeiros. De umlado, Pernambuco. Do outro, a Bahia. No meio, o jorro inspirador.Nas margens, a lama sagrada. Era corriqueiro apreciar esculturaszoomorfas e antropomorfas na proa das embarcações, imagensque se repetiam nos barcos, há mais de um século, e no artesanatodo Vale do São Francisco. Delas, um ícone se chamava Guarany,outro atende por Ana, a filha de Joaquim Inácio de Lima e MariaLeopoldina dos Santos.Ainda criança, tinha sete anos e já sabia fazer e vender louçautilitária – pote, moringa, panela, cuscuzeiro, jarro –, uma dastradições ouricurienses, que se mantém com as ceramistas dacomunidade do Pradicó. Vendia “panelinha de guisado, boi zebu,cavalinho com vaqueiro amontado, santinho de lapinha”. Ou seja,moldava as peças de louça e mais uns tantos brinquedinhos paraganhar uns trocados e ajudar a mãe louceira, com quem teve os
  17. 17. 18Maria da Cruz dá continuidade ao estilo da mãe,Ana das Carrancas, com quem aprendeu o ofício primeiros ensinamentos na modelagem do barro. Aos 22 anoscasou-se, teve duas filhas – Ana Maria e Maria da Cruz – e emseguida ficou viúva. Um ano depois de enviuvar, Ana se casou como piauiense José Vicente de Barros. Moravam, então, em Picos.A vida não era fácil naquelas terras do sertão do Araripe, em quealternavam bom inverno e longos períodos de estiagem. Por essemotivo, incluiu-se no rol de migrantes que corriam para Petrolinaem busca de um oásis.Era 1954. Chegou à cidade e começou vendendo aribé, panela,pote, presépio, burrinho, pato, boi, cabra. Depois da inspiraçãosaída das águas do Velho Chico, nunca mais foi a mesma. Asemblemáticas carrancas começaram a ganhar força e, a partir de1970, tornaram-se disputadíssimas, graças, inclusive, ao trabalhode pesquisa sobre o artesanato pernambucano que os técnicosem turismo Olímpio Bonald Neto e Francisco Bandeira de Meloestavam realizando pelo sertão, a serviço da Fundarpe. Ambosficaram impressionados com as carrancas da ceramista. A trajetóriaartística de Ana Leopoldina ficou marcada, daí por diante – e parasempre – pela mitopoética ribeirinha, a ponto de adotar o nomeartístico que correu mundo: Ana das Carrancas.
  18. 18. 19A carranca mais antiga, da própria produção, data de 1963, quandoainda era conhecida por Ana Louceira ou Ana do Cego. Sobre aprimeira peça, a carranca cangula, ela mesma contou: estava nabeira do rio e pensou que poderia fazer um barco, colocar umvelho, vendedor de jerimum, com um menino ajudante, umasbolinhas para fingir que era o jerimum, uma cobertura de palha e,claro, a carranca na proa do barco. Segundo Ana, essa invenção“deu sorte”. E assim, de tão bem-sucedida, a cangula ganharéplicas ainda hoje. Outras peças, igualmente difundidas, tambémtrouxeram sorte: carranca-cinzeiro, com três caras, jardineira,totem. Aliás, não se pode falar em Ana sem associá-la às figurastotêmicas modeladas no barro, em forma de animal e de gente,alvo de chacota dos feirantes, quando circularam a primeira vez nafeira livre de Petrolina. Ana não se intimidou. Ao contrário, valeu-sedo imaginário da comunidade ribeirinha para moldar na cerâmicaum dos ícones da cultura local. Um casamento bem-sucedidoentre temática e talento. Nesse mesmo ano, 1963, inaugura-sea Biblioteca Municipal e as carrancas de Ana fazem sucesso,distribuídas a título de suvenir.Após levar o nome de Petrolina para feiras de artesanato nacionaise internacionais, figurar em galerias de arte e museus, alternarfama e ostracismo, o grande sonho da mulher oleira tornou-se vivoe palpável em setembro de 2000, mesmo ano em que conquistouo título de cidadã petrolinense. É inaugurado o Centro de Artee Cultura Ana das Carrancas, com loja, ateliê e exposição deantigas carrancas, inclusive a de 1963. Tudo no ambiente ressalta atrajetória da ceramista. O olho vazado homenageia o marido, cegode nascença, Zé Vicente, o amassador do barro. As filhas ÂngelaAparecida de Lima – adotiva – e Maria da Cruz Santos modelamesculturas, tal qual a mãe. A filha Ana Maria é casada com oescultor de carrancas em madeira, Domingos Lopes, ou Lopes dePetrolina, um dos seguidores do estilo de Guarany. Mesmo tendofalecido em 1º de outubro de 2008, na cidade de Petrolina, a famíliavive imersa no rico imaginário da ceramista, que sempre afirmava,orgulhosa: “meu sangue é negro, mas minha alma é de barro”.
  19. 19. 20CamarãoCamarão
  20. 20. 21Quando Antonio Ferreira da Silva e Josefa Alves Freire viramnascer o filho, não imaginavam que ali começava a trajetóriade um grande sanfoneiro do agreste. Na verdade, o início detudo tem a influência do pai, exímio tocador de oito baixos, aquem o filho, desde criança, passou a acompanhar nas andançasmusicais. Na labuta cotidiana, enquanto o sanfoneiro ia para aroça, o filho de sete anos matreiramente ia experimentando ossons da sanfoninha pé-de-bode, até o dia em que o pai descobriuas artes da criança engenhosa, emocionou-se e passou a cultivaro talento do herdeiro, levando-o para as festas, onde o garotoprestava atenção nos músicos e depois, em casa, tirava os mesmossons no instrumento. O menino conquistou definitivamente opai executando, de ouvido, os acordes de Maria Bonita, um dosmaiores sucessos àquela época. E o mestre Camarão, ou ReginaldoAlves Ferreira, tem consciência de que foram decisivos essesprimeiros momentos da infância dedicados à música. Natural deBrejo da Madre de Deus, é também emblemático o próprio dia donascimento: 23 de junho de 1940, véspera de São João.Foi em Caruaru – a mais importante cidade do Agrestepernambucano, protagonista de uma das mais tradicionais festasCamarão ministra aula de acordes
  21. 21. 22juninas do Estado e contemplada, ainda na década de 1970, como título de Capital do Forró – que Camarão construiu as basesda carreira artística. Começou a trabalhar, aos 20 anos, na RádioDifusora daquela cidade, por onde passaram importantes nomesda música brasileira, como Sivuca e Hermeto Pascoal. Foi na mesmarádio que ganhou o apelido, dado por Jacinto Silva. Luiz Gonzagao conheceu na difusora, tocando como profissional. Tinha 18 anos.Graças à amizade surgida entre ambos, o rei do baião produziudois discos de Camarão, pela RCA Victor, em 1969 e 1970.Gonzaga foi, na verdade, o seu grande mestre, embora nuncaesqueça a importância dos ensinamentos paternos. Na discografia,o artista contabiliza, ao lado dessa feliz parceria com Luiz Gonzaga,28 discos, entre long plays, compactos, 78 rotações e CDs, amaioria fora de catálogo. É de 1998 o CD Camarão Plays forró,produzido na Inglaterra e com circulação exclusiva na Europa.Inventivo desde o princípio, foi o mestre quem criou, em 1968, aprimeira banda de forró no país, a Bandinha do Camarão; quemintroduziu sopros (tuba, clarinete, trombone e piston) em bandade forró; quem criou a Orquestra Sanfônica de Caruaru, em quediversas sanfonas executam não só variados ritmos juninos, mastambém frevo e maracatu. Norteando-se pela música desdea primeira infância, o mestre chegou a acompanhar o rei dobaião, após conhecê-lo num programa da Difusora de Caruaru,mesma rádio por onde passaram músicos renomados e ondesurgiu o seu primeiro conjunto musical, ou seja, o primeiro triode Camarão, o Trio Nortista, liderado por ele, um dos maioressanfoneiros nordestinos, tocador de forró nas latadas das fazendase arraiais juninos, experiente forrozeiro de animados grupospés-de-serra. O trio era formado com os músicos Jacinto Silva eIvanildo Leite. Afinadíssimo na sanfona, acompanhou grandes
  22. 22. 23nomes da música nordestina, a exemplo de Sivuca, Dominguinhos,Santanna, Marinês, Jackson do Pandeiro, Arlindo dos Oito Baixos.O repertório de Camarão é, como manda a tradição da sanfonanordestina, generoso nos ritmos regionais – xote, xaxado, forró,baião e arrasta-pé.O nome do Maestro Camarão corre mundo. Em 1961, foia sanfona dele que representou Pernambuco no primeiroaniversário de Brasília, a convite do presidente Jânio Quadros. Viajaacompanhado do Trio Nortista, que toca, então, em vários eventoscomemorativos. Tem participado de encontros de acordeonistaspelo país, graças ao talento e maestria com que empunha asanfona. Em 2004, participa do projeto O Brasil da Sanfona, deMyriam Taubkin, que produziu dois CDs, um livro de fotografiase um DVD. Fixado no Recife há quase 30 anos, mantém a EscolaAcordeon de Ouro, fundada há uma década no bairro de Areias,onde já formou diversos músicos nas artes dessa invenção vienensede 1829, que, no Brasil, ganhou um sotaque bem nordestino efez fama. Para facilitar a transmissão de conhecimentos, elaborouuma cartilha, em que registra importantes informações acercados instrumentos de fole, do manejo do fole, como escolher emanusear o acordeom, além de noções elementares de música.Marcelo de Feira Nova, Julinho do Acordeom, Ellan Ricard, GleysonAlves, Juquinha, Deivison, Diego Reis e Cezinha do Acordeom sãoalguns dos reconhecidos sanfoneiros que passaram pela escola domestre. Em parceria com Salatiel d’Camarão, desenvolve o projetoDe pai para filho, com a realização de shows musicais, e, ainda,Sanfona nas escolas, voltado para oficinas em escolas públicas.Certamente inspirado na atitude do próprio pai, Camarão estimulae oferece contribuição decisiva à carreira de iniciantes e, inclusive,à do próprio filho, parceiro e continuador mais que legítimo daobra do mestre.
  23. 23. 24Manuel EudócioManuel Eudócio
  24. 24. 25Com voz pausada e dedos firmes na modelagem, é assim que oprimeiro galante do reisado vai debulhando os grãos de umavida dedicada à arte e à agricultura. É pelas mãos e pela oralidadeque saem as imagens trazidas da memória de um tempo emque conviviam os amigos Vitalino, Zé Caboclo e Manuel EudócioRodrigues. Sentado num banco de madeira, tem sempre diantede si uma mesa, barro molhado e ferramentas para fazer asesculturas, que, começadas no início do dia, por volta das cincoda manhã, precisam ser concluídos ao final da mesma jornada.As mãos não param, enquanto as lembranças emergem. Quaseaos 80 anos, o narrador, mestre Eudócio, exibe o vigor mental eas habilidades manuais invejáveis de quem teve sempre uma vidaregrada, dedicada à família, ao plantio e, sobretudo, à catarse daatividade artística iniciada ainda na infância, com a avó louceiraTereza Maria da Conceição. De 28 de janeiro de 1931, nascido ecriado no Alto do Moura, Caruaru, o filho de Eudocio Rodriguesde Oliveira e Maria Tereza da Conceição desde criança trabalha naagricultura e ocupa as mãos esculpindo o barro.Frequentou apenas seis meses de escola e é com o auxíliodas mãos e das experiências que vai descrevendo o que temvivido esses anos todos no Alto do Moura. São sete décadas de
  25. 25. 26aprimoramento, de adaptação ao gosto da freguesia e de convíviocom fregueses alemães, franceses, portugueses, americanos. Deviagens ao Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Portugal. Lembraque as primeiras peças foram pintadas a dedo e, onde o dedo nãocabia, pintadas com auxílio de uma varinha. Mais adiante, resolveudeixar peças ao natural, depois voltou a pintá-las. Gosta de fazerbonecos grandes, coloridos, embora menos vendáveis. A queimadas esculturas sempre foi num forno do quintal, quinzenalmente,exceto quando há encomenda urgente. De preferência, o fornodeve estar cheio, pois do contrário fica muito dispendioso.O que não admite, sob hipótese alguma, é a utilização de fôrmapara moldar as esculturas. As experiências cotidianas sempreserviram de fio condutor nas criações inspiradas: batizado,enterro, casamento matuto, casamento forçado, casal andandoem boi manso, violeiro, sanfoneiro, banda de pífano, cangaceiros,padre Cícero. Mergulhado no universo da cultura tradicional,uma das inspirações recorrentes é o reisado, com os respectivospersonagens do folguedo natalino do qual participou: donaJoana, diabo, doutor, padre, mascarado. Em 1948, quandocomeçou a fazer os bonecos, resolveu fazer um reisado. Fez váriospersonagens e conseguiu vender a uma pessoa do Rio de Janeiro. Ateliê no Alto do Moura, em Caruaru
  26. 26. 27Depois, com a dificuldade de comercializar o conjunto, foi fazendoas figuras individuais. O reisado já não sai no Alto do Moura, omestre sente saudade e tenta recuperar, no barro, as práticasculturais da infância e juventude.Eudócio sabe que é um criador, um perfeccionista. Jamaisdesperdiçou os anos de convivência com Vitalino e Zé Caboclo.Quando Vitalino saiu do Sítio Campos para o Alto, em 1948,Eudócio tinha 17 anos. Conheceu os trabalhos do mestre na rua:naquela época ninguém vendia escultura em casa, o local deexposição era o buliçoso espaço da feira. Do professor, Vitalino,lembra-se de muitas coisas: por exemplo, que passou dois anos,com o cunhado Caboclo, trabalhando para o afamado ceramistae nem sequer assinavam as próprias peças. Lembra, ainda, queem 1957 já fazia questão de dizer aos compradores que aquelesbonecos chamados de “Vitalino” também eram criação deoutros artistas. Com o desaparecimento do mestre, Eudócio nãoacreditava na continuidade do ofício. Mostra-se impressionadocom a permanência da atividade e o aumento quantitativo deartesãos.A família, uma das pioneiras no ramo, tem na nova geração oscontinuadores. Os irmãos Eudócio, Celestina e Josué herdaram oofício da avó e da mãe, e se veem sucedidos pelos filhos. Dos novefilhos de Eudócio, Carlos e José Ademildo, e as respectivas esposas,vivem do barro. Do casal Celestina Rodrigues e Zé Caboclo, asfilhas Marliete, Socorro, Carmélia e Helena “puxaram ao pai, queera um artista de mão cheia”, segundo o tio Eudócio. Lembra,inclusive, das miniaturas que fazia, quando jovem, e guardavanuma caixa de fósforos, esculturas em tamanho minúsculo que sãouma das especialidades das irmãs Rodrigues. A linha de sucessãotambém se repete na família Vitalino, na família Rodrigues, nafamília Galdino.
  27. 27. 28J. BorgesJ. Borges
  28. 28. 29Prensa alemã, utilizada naimpressão dos cordéisArtesão de cestinhas de cipó e brinquedos de madeira,oleiro, pedreiro, carpinteiro, pintor de parede, marceneiro,trabalhador da palha da cana, passador de jogo de bicho. Essesforam alguns dos ofícios que Jota Borges experimentou, antesde se decidir pela venda de cordel nas feiras de Pernambuco,Paraíba, Ceará e, principalmente, na Praça do Mercado de SãoJosé, no Recife, o que aconteceu a partir de 1956. Matutoesperto e comunicativo, logo descobriu ser exímio talhadorde madeira e criador de histórias em versos. E o tempo depermanência na escola foi de apenas 10 meses. Da experiênciacom as artes manuais, sobretudo marcenaria e miniatura demóveis, desenvolveu habilidades que não seriam de jeito nenhumdesperdiçadas mais adiante, conforme atestam as publicaçõesimpressas, as gravuras inconfundíveis, as inúmeras capas de livrose discos, exposições, oficinas.O primeiro folheto é de 1964, com capa do poeta e xilógrafoDila: O encontro de dois vaqueiros no sertão de Petrolina. A partirde 1965, incentivado pelo amigo cordelista Olegário Fernandes,resolve fazer a capa dos próprios folhetos, e então escreve e faz acapa de O verdadeiro aviso de Frei Damião. Nascido no Sítio Piroca,Bezerros, agreste pernambucano, a 20 de dezembro de 1935,
  29. 29. 30Familiares de J. Borges auxiliam na impressão das gravurasJosé Francisco Borges nem avaliava o significado dessas decisõesprofissionais, apenas se deixava levar pela intuição criadora. Em1976, faz uma das gravuras mais famosas: A chegada da prostitutano céu. A vida do sertanejo, o imaginário nordestino, as fabulaçõesdos contos populares, o cenário rural e as narrativas de cordeldeclamadas pela boca do pai, tudo foi misturado na cabeça e nasmemórias afetivas do artista, e o resultado é a plena vitalidadeconferida à famosa e premiada obra, que tem sido traduzida emoutras línguas e linguagens artísticas, a exemplo de peça de teatro,telenovela, filme, coleção de roupa.Se o nome dos pais – Joaquim Francisco Borges e Maria Franciscada Conceição – está inscrito irremediavelmente na vida de J.Borges, também não podem ser desprezados os nomes doartista plástico Ivan Marchetti, do escritor Ariano Suassuna edo pesquisador Roberto Benjamin, que fizeram as primeirasencomendas de gravuras maiores, escreveram sobre o artista ederam-lhe ampla divulgação. Suíça, Estados Unidos, Venezuela,França, Alemanha, Portugal, Cuba foram países para ondeviajou, além dos lugares aonde tem ido a obra do artista: Itália,Espanha, Holanda, Bélgica, México, Argentina. Para Caracas, foiem 1995. Visitou Cuba em 1997, num avião russo dos anos 1950,onde permaneceu 12 dias, ministrando oficina num festival decultura caribenha. Na década de 1970, uma exposição de Borgespercorreu 20 países. Em 1964, ilustrou a novela Roque Santeiro,da TV Globo, e fez a primeira viagem de avião.Daí por diante não mais parou de percorrer o mundo. Há décadastem viajado quase que ininterruptamente dentro e fora do país.Em 2005, comemorou os 400 anos do D. Quixote, de Miguelde Cervantes, com uma versão em cordel da referida novela decavalaria. E foi para a França participar da exposição itineranteO universo da literatura de cordel, na condição de principalhomenageado. Graças ao talento e à amizade que cultiva háanos com importantes galeristas, artistas plásticos, jornalistas epesquisadores, Borges tem obras no acervo da Biblioteca Nacionalde Washington e no Museu de Arte Popular do Novo México(em Santa Fé, EUA); é divulgado no New York Times, participou
  30. 30. 31da revista suíça Xilon em número especial (1980) dedicado aosxilógrafos nordestinos, ilustrou o livro As palavras andantes, douruguaio Eduardo Galeano (1993), figurou no calendário da ONUde 2002 com a gravura A vida na floresta, tem participado deexposições na Galeria Stahli, Suíça, entre outras notáveis apariçõesinternacionais no circuito artístico mundial.É importante mencionar, ainda, a atuação da Gráfica J. Borges,em plena atividade, que, durante quatro décadas, utilizou tiposmóveis e prensa manual na produção de cordéis e xilogravuras,e vem construindo desde então parte da história da literatura decordel. Borges à frente, claro, contando com a participação dosfilhos J. Miguel, Ivan, Manassés, Cícero, Pádua, Jerônimo (falecido);irmãos, cunhada, sobrinhos, como Amaro Francisco (falecido),Severino Borges, Nena, Joel, Lourenço, Givanildo; dos três maisnovos, os filhos Pablo e Baccaro e o neto Williams. O filho Georgevive de serigrafia e Ariano é gráfico. Ao todo, foram gerados 18filhos. E um grande projeto de vida e arte, de que é testemunha oMemorial J. Borges, em Bezerros, onde o visitante pode apreciar asobras gráficas, plásticas, poéticas do mestre e, ainda, desfrutar deum dedo de prosa com o artista bom de papo.
  31. 31. 32NucaNuca
  32. 32. 33Nuca é apelido de infância: Nuca de Tracunhaém ou Nuca dosLeões. Tracunhaém – topônimo indígena, que quer dizerpanela de formiga – é a cidade de adoção do artista, desde ostrês anos. Leão é o signo de Nuca, ou Manoel Borges da Silva,que nasceu em 5 de agosto de 1937, no engenho Pedra Furada,Nazaré, Mata Norte pernambucana, filho dos agricultores FranciscoCosta Mariano e Josefa Borges da Silva. O pai, da roça, criou-se nos engenhos de cana-de-açúcar. Vivendo a infância numambiente de ceramistas descobre-se um admirador do ofício e,desde os 10 anos, um continuador da tradição, modelando embarro elementos do cotidiano. O ano em que foi morar na cidade éo mesmo da estréia de Zé do Carmo na cerâmica. Quando estreou,havia em Tracunhaém o povo de Lídia, fazendo santo. AntôniaLeão era referência da geração mais antiga, Maria Amélia já sedestacava pela santaria. Zezinho chegou depois, de Vitória. Nilson,de Goiana. Nuca passou a conviver com diversos ceramistas emfeiras e salões de arte popular, entre eles, Ana das Carrancas ealguns netos de Vitalino. Foi ao Rio de Janeiro participar de umaexposição e lá conheceu o mestre Vitalino.
  33. 33. 34Embora desde a década de 1940 já vendesse esculturinhasde cerâmica nas feiras, principalmente na vizinha Carpina, ésobretudo a partir de 1968, quando esculpe o primeiro leão,que se reconhece artista, consagra-se com o efeito visual da jubaleonina e se entrosa com ceramistas renomados. O motivo daconsagração veio da ideia de esculpir leões e floristas. A mulher,Maria Gomes da Silva, ou Maria de Nuca, inventou de botar oscabelos cacheados, também no leão. A moda da juba encaracoladase difundiu tanto, que artesãos aderiram à onda, substituindo penade galinha pelos cachos. Além destes, que consistem nuns rolinhosde barro aplicados um a um, há o leão de listra, o escamado e ode tranças. Finas ou grossas, as escamas também são colocadasindividualmente, em leões e girafas. Sobre a escolha da temáticados leões, cogita-se que pode estar vinculada à memória recenteda estatuária de louça portuguesa decorativa dos sobrados ou,ainda, à memória ancestral daquele que é considerado o reidos animais. Entretanto, não podemos deixar de lembrar que osímbolo de Pernambuco é o leão, tampouco menosprezar a forçado imaginário de ascendentes negros africanos presente na Zonada Mata, nem esquecer que a antiga denominação de Carpina eraFloresta dos Leões.Se a família de Nuca era de agricultores, e não de louceiros, omesmo aconteceu com a família de Maria, que também era daroça, não tinha ninguém no barro. Pode-se dizer que a obra deNuca é quase obra de dois artistas, originalidade a quatro mãos.O leão e as bonecas foram criação dele e da mulher. O talento deambos para as esculturas cerâmicas desabrochou no convívio comartistas e artesãos de Tracunhaém, terra das figuras em cerâmicae das panelas de barro. Depois de brinquedos, bonecas e anjos,os leões vieram para imortalizá-los. As esculturas são sempre aonatural, nunca pintadas, exceto sob encomenda. O forno, feitopor ele próprio, fica no quintal de casa e testemunha o fato deque é indispensável ter ciência para saber construí-lo e usá-lo.
  34. 34. 35E Nuca foi exímio nisso: na hora de queimar, sabia precisar acaldeação, a fim de não rachar a escultura, nem cair o cabelo.Outro importante segredo é o da aplicação dos detalhes: comofazer para não ressecar, enquanto vai modelando e colocandosimetricamente um a um.Após afastar-se do ofício, por problemas de saúde, dois dosseis filhos dão continuidade às artes dos pais, Nuca e Maria: oprimogênito Marcos Borges da Silva, ou Marcos de Nuca, faz osleões e José Guilherme Borges da Silva, o filho mais novo, fazas bonecas. Apesar de não terem sido muitas as viagens – Lima,Peru (1980), São Paulo, Rio, Brasília, Bahia –, Nuca dos Leõescriou os filhos com a arte saída das próprias mãos, festejou aalegria de viver fazendo sempre o que gosta e também ofereceutodas as condições necessárias ao aprendizado e exercícioartístico dos filhos seguidores. A obra do artista pode serapreciada em antiquários, galerias de arte, e enfeitando praçasdo Recife, como a do 1º Jardim de Boa Viagem e a Tiradentes,no Cais do Apolo. Variando de 30 centímetros a um metro, nasesculturas assina “Nuca de Tracunhaém”, desenhando um nomede artista que enche de beleza o mundo.
  35. 35. 36Canhotoda ParaíbaCanhotoda Paraíba
  36. 36. 37Oavô tocava clarinete. O pai, violão. O filho, Francisco Soaresde Araújo, tinha a certeza de que adorava música, e isto erao que não faltava em casa, reduto dos principais instrumentistasda cidade. Ainda criança, já sabia apreciar um bom repertório,habituado aos saraus e serenatas na própria residência. Com opai, Antônio Soares de Lima, aprendeu, aos 12 anos, a tocar atabuinha, que era como apelidava o violão. O avô, o clarinetistaJoaquim Soares, também exerceu grande influência sobre ele. Como maestro Joaquim Leandro, regente da banda local, conheceu asprimeiras notas musicais. Mas, outros instrumentistas da infância,a exemplo dos violonistas Zé Micas e Luiz Dantas, do saxofonistaManoel Marra e do acordeonista Zé Costa, foram decisivos, pois,por causa deles, manteve os primeiros contatos com um repertóriode choros e valsas que o marcaram para sempre. Alguns chorinhosfizeram-no cultuado por músicos do porte de Radamés Gnatali,Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Paulinho da Viola.Nascido em 17 de março de 1931, em Princesa Isabel, altosertão paraibano, o filho de Quitéria Lopes de Araújo, lá mesmo,foi o tocador do sino da igreja, fez iniciação musical e partiuamadurecido à procura de outras cidades em que pudesseexpandir os dotes artísticos. Ainda adolescente veio ao Recifeapresentar-se na Rádio Clube, mas somente aos 25 anos éque conseguiu realmente sair de Princesa Isabel. Foi para JoãoPessoa, em 1952, onde morou alguns anos e brilhou na RádioTabajara. Em seguida, 1958, transfere-se definitivamente paraPernambuco e é imortalizado como Canhoto da Paraíba, um dosmais importantes compositores de choro. O diferencial no usoda tabuinha aconteceu assim: por necessidade de compartilharcom os irmãos destros o mesmo instrumento, desenvolveu umatécnica especial de dedilhar o violão, tocando os acordes com amão direita e usando a esquerda para o dedilhado das cordas, seminvertê-las. Ou seja, um violão “tocado pelo avesso”, como diz otítulo de um dos seus discos gravados.Reprodução de ilustração e antigas imagens de Canhoto da Paraíba,fotografadas na residência do artista, em Maranguape
  37. 37. 38Não só a forma de tocar o instrumento, sobretudo o vigor dascomposições de Canhoto é que o fizeram chegar ao panteãodos grandes instrumentistas brasileiros. O repertório passa pelosritmos regionais – xote, xaxado, baião, frevo – e pela bossa nova,predominando o choro e a valsa. Para a grandiosidade com quecompunha e tocava o violão, poucos foram os discos gravados porCanhoto: Único Amor, de 1968, é gravado pela Fábrica Rozemblit,no Recife. Um dos músicos, escolhido à época por Canhoto, foio jovem Henrique Annes, hoje violonista consagrado. O produtordo disco foi o maestro Nelson Ferreira. Em 1974, também pelaRozemblit, sai Um violão direito nas mãos do Canhoto. Em1977, é a vez do álbum Com mais de mil, selo Marcus Pereira,produzido por Paulinho da Viola e festejado pela crítica musicaldo país. No repertório, as músicas Pisando em brasa e Com maisde mil. Além de produzir o primeiro disco de Canhoto, Paulino daViola viajou com o violonista pelo país, no Projeto Pixinguinha, egravou, no seu primeiro trabalho, de 1971, o choro AbraçandoChico Soares, seguindo o estilo de composição do paraibano. Em1990, Geraldino Magalhães e Lula Queiroga produzem o discoindependente Fantasia nordestina: Violão brasileiro tocado peloavesso. E, pela Caju Music, lança, em 1993, o último trabalho solo,Pisando em brasa, com participação especial de Raphael Rabello
  38. 38. 39e Paulinho da Viola. Ainda em 1993, pelo Tom Brasil, sai o CDInstrumental no CCBB: Canhoto da Paraíba e Zimbo Trio. Em1999, Canhoto é ladeado por Annes, Rafael Rabello, BadenPowell na coletânea Os bambas do violão, lançada pela Kuarup.Radicado durante meio século em Pernambuco, Canhoto foiagraciado, em 1984, com o título de cidadão pernambucano.Reverenciado por Baden e outros grandes nomes da músicapopular brasileira, apresentou-se com Luperce Miranda,João Bosco, Sivuca, César Camargo Mariano, para citarapenas alguns. Em 2004, recebeu uma homenagem dopresidente Lula, em Brasília. Na Paraíba, foi homenageadocom a publicação da Lei Canhoto da Paraíba, que, a partirde 2005, concede a artistas o título de Mestres das Artes (Lei7694/2004, Registro de Mestres das Artes – Rema) e ele foi umdos primeiros agraciados. Após sofrer isquemia cerebral em1998, interrompe-se a carreira do artista, que passa os últimosanos de vida em Maranguape, Pernambuco, com uma filha,falecendo em 24 de abril de 2008.A importância musical desse requintado artista inspirou o Triode Câmara Brasileiro a produzir, em 2009, o disco Saudade dePrincesa – Sobre a obra de Canhoto da Paraíba, do selo CrioulaRecords. O recifense Caio Cezar assina a direção musical doCD e está organizando um livro com as partituras musicais deCanhoto. A genialidade do mestre, de viva memória, perpetua-se com ações desse porte, e, ainda, ao ser constantementerevisitada nas gravações originais do instrumentista e emregravações ou releituras de outros virtuoses.
  39. 39. 40MaracatuLeão CoroadoMaracatuLeão Coroado
  40. 40. 41Década de 1950 do século 20. O respeitado oluô (sacerdotemáximo) Luís de França recebe a incumbência de dirigir umabrincadeira de carnaval, que havia sido fundada pelo pai, umafricano ex-escravo. O brinquedo era o Maracatu Leão Coroado.Morto um dos coordenadores, corria-se o risco de não haver quemo substituísse. Herança de família e de tradição religiosa, o baquevirado daquela nação nagô precisava continuar. Desafio aceito, avigorosa liderança de seu Luís proporcionou aos brincantes mantera atividade ininterrupta desde 8 de dezembro de 1863, dataconsiderada como a de fundação, apesar de a memória oral indicara possibilidade de o Leão já existir desde 1852. Mesmo mantendo-se a dúvida quanto ao marco fundador, o contexto político esocial no qual nasce o grupo é marcado pelo debate em torno daabolição da escravatura e os maracatus eram folguedos de negrosescravos. Ressalte-se, ainda, que, no Recife, o dia 8 de dezembro édedicado a Iemanjá e a Nossa Senhora da Conceição, esta última,a representação católica, no sincretismo religioso, daquele orixá doculto nagô e padroeira da grande festa do morro, que aconteceanualmente na mesma data, em Casa Amarela.Luís de França dos Santos é de 1º de agosto de 1901. Nasceu narua da Guia, bairro do Recife, filho de Laureano Manoel dos Santose Philadelpha da Hora. Segundo contava, durante a juventudevendeu jornais ao longo da via férrea, até Palmares, o que o levoua conhecer senhores de engenho e chefes políticos da região.Ganhou muito dinheiro revendendo produtos importados, trazidosnos navios, quando trabalhava de estivador, profissão exercida atéaposentar-se. Cresceu no bairro de São José, espécie de gueto deescravos libertos, local onde aconteciam cultos africanos. Guardavana memória a participação intensa em terreiro de candomblé, oSítio do Pai Adão, em Água Fria, embora a sua iniciação religiosanão tenha acontecido lá. Os pais de santo de Luís de França foramEustachio Gomes de Almeida e Maria Júlia do Nascimento, a DonaSanta do Maracatu Nação Elefante.Apresentação na cidade de Goiana, 2003 Bairro de Águas Compridas, visto a partir do terreiro do maracatu
  41. 41. 42O líder começou a participar do maracatu quando a sede ficava nobairro da Boa Vista, numa rua que hoje se chama Leão Coroado.Foi membro da Irmandade de São Benedito da Igreja de SãoGonçalo da Boa Vista e da Irmandade do Rosário dos HomensPretos de Santo Antônio. Um dirigente desta última, José Luís, foiquem passou ao afilhado Luís de França a direção do folguedo.Daí em diante, o decidido líder passou a cuidar da organizaçãodo grupo, das obrigações religiosas e da direção da batucada,cujo baque secular aprendera com o pai e com os avós. Passadopor Luís de França, continua mantido o mesmo baque tradicional,conforme garante o babalorixá Afonso Aguiar, que integra ogrupo a partir de 1996 e conduz a agremiação desde a morte deFrança, em 1997.Na função de rei e rainha, o Leão Coroado teve Estanislau, JoãoBaiano, José Nunes da Costa, José Luís, Gertrudes Boca-de-Sola,Martinha Maria da Conceição e Dona Santa. Esta última, uma dasmais imponentes rainhas de maracatu, filha e neta de africanos,marcou presença, sobretudo no Maracatu Nação Elefante. Ascalungas são pretas, de madeira, e existem desde a fundação dogrupo: uma delas representa Oxum, é Dona Clara; a outra, querepresenta Iansã, chama-se Dona Isabel. Durante mais de quatrodécadas – provavelmente de 1954 até a morte, em 3 de maio de1997 – o mestre Luís de França guiou o grupo com dedicaçãoextremada, a ponto de provocar elogios da pesquisadora norte-americana, antropóloga Katarina Real, que, no início dos anos1960, realizou pesquisa sobre o folclore no carnaval do Recife.À época, Katarina considerava o Leão Coroado a única legítimanação de maracatu ainda existente. São desse período diversostroféus conquistados pela agremiação.Em outubro de 1996, França convida Afonso Gomes de AguiarFilho para sucedê-lo na liderança do grupo. Após amargar unsanos de isolamento e consequente retração do maracatu, o filhode Xangô acerta em adotar a sugestão do presidente da ComissãoPernambucana de Folclore, pesquisador Roberto Benjamin, quantoà indicação de Afonso Aguiar, que, desde então, tem conseguidorealizar importantes viagens e apresentações em São Paulo, Rio deJaneiro, Bahia, Paraná, Santa Catarina, França, Holanda, Bélgica,Suíça, Espanha, Itália, Timor Leste, Ilhas Canárias. A comemoraçãodos 140 anos, em 2003, foi marcada pela gravação de CD, ao vivo,com as toadas tradicionais do grupo. Voltando, ainda, a 1997,o mesmo ano da morte de Luís de França, em 22 de dezembroé instituído o Dia Estadual do Maracatu: pela Lei 11.506, ficaescolhido o 1º de agosto, em homenagem à data de nascimentodaquele mestre.Mestre Afonso e o centenário bombo-mestre
  42. 42. 43Nascido na Campina do Barreto, Recife, em 15 de março de1948, o mestre Afonso comanda há mais de 20 anos um terreiroem Águas Compridas, Olinda, para onde transferiu a sede domaracatu e todo o acervo do grupo. Ao longo do ano, desenvolvedinâmica de ensaios, aulas de percussão e toque de candomblé,oficinas de feitura e manutenção dos instrumentos musicais, deconfecção do vestuário do maracatu, além de outras atividadeseducativas, como a preparação de um corpo de baile de dançasafro. Todas as ações, tanto as preparatórias ao Carnaval quantoas pedagógicas envolvem continuamente a comunidade, soba coordenação geral de Afonso Aguiar, que, inclusive, temcomandado oficinas de percussão e de confecção de instrumentosno Brasil e no exterior, a exemplo do Festival do Caribe, em2009, na cidade de Santiago de Cuba. Seguidor fiel do mestreLuís de França, empolgado com a repercussão do primeiro CD epreocupado com a manutenção do grupo, o dedicado Afonsoanuncia que o master do segundo disco está pronto e que ascomemorações do sesquicentenário já estão sendo planejadas.Na primeira edição do Prêmio Cultura Viva (2005/2006), doMinistério da Cultura, o maracatu foi uma das iniciativascontempladas, na categoria manifestação tradicional. A partirde maio de 2008, o grupo é transformado em Ponto de Cultura.Instalado no mesmo endereço da sede do maracatu, lá funcionaum telecentro, com cursos básicos de informática e acesso 24horas à internet, para atendimento de demandas da comunidade,em todas as faixas etárias. Com firmeza, o mestre mantém rotinasemanal de ensaios e de trabalho. A triagem de novos integrantesobedece a exigentes normas de conduta social. Provavelmente, osucessor das tradições do terreiro e do maracatu será Afonsinho,o neto nascido em 1997, que toca nas obrigações da seita etem comandado, quando necessário, a batucada do maracatu.Entretanto, como frisa o mestre Afonso, o Leão Coroado é maisreligião do que carnaval. Com as bênçãos todas de Olorum, egunse orixás.Pele de Bode curtindo para posterior montagem das alfaias
  43. 43. 44Zé do CarmoZé do Carmo
  44. 44. 45Passeando pelos labirintos da memória do artista e pelos objetosmais recônditos do ateliê de José do Carmo Souza, conhecidointernacionalmente pelas estátuas de anjos cangaceiros, descobre-se uma encantadora obra poética, uma narrativa visual do barromassapê, que não se sabe exatamente quando e com quemcomeça em Goiana, mas registra, com certeza, a importânciado legado materno de Joana Izabel de Assunção e dos filhostalentosos. A mãe – oleira, artesã, costureira – fazia figuras debarro e de pano, mané-gostoso e rói-rói. O pai, padeiro, faziamáscaras em papel machê para vender aos foliões, o molde eraem barro e a modelagem em papel e grude. Manuel de Souzados Santos e Joana Izabel de Assunção chegam a Goiana no anode 1930, vindos de Igarassu, onde nasceram. Casados a partir de1932, é um ano depois, em 19 de dezembro de 1933, que nasce oprimogênito, Zé do Carmo.Conhecido desde 1947 no circuito artístico, autor de respeitávelconjunto de esculturas cerâmicas tão originais quanto às da mãe,Escultura de anjo cangaceiro seria presenteadaao Papa e a Igreja Católica se recusou a receber
  45. 45. 46foi com apenas sete anos, em 1940, que Zé do Carmo começa afazer figurinhas de barro, pintar com tinta d’água, como faziamos pais artistas, e vender nas feiras de Goiana. Os dois irmãos,João Antônio de Souza e Manuel Miguel de Souza, tambémaprenderam o ofício dos pais. Das peças mais antigas de Zé,destacam-se figuras de mendigo, agricultor, carregador de açúcar,Preto Velho, anjo cangaceiro, apanhador de papel, apanhadorde água, vendedor de couro, jornaleiro, Lampião, Maria Bonita,carregador de água, tocador de bandolim, Padre Cícero, NossaSenhora Artesã, São Pedro Pescador (o padroeiro de Goiana). Noacervo pessoal, conta com peças autorais feitas há cerca de 40 e50 anos. Há uma rendeira que criou entre 1949 e 1950, quando,segundo confessa, ainda copiava as figuras da mãe. A iniciação,obviamente, foi com ela e o pai, mas o aluno atento, que cursouapenas o Ensino Fundamental, sempre se valeu da observação e doautodidatismo para aperfeiçoar a técnica e dar vazão às invençõesartísticas.Depois que a mãe morreu, em 1972, Zé do Carmo inaugura umanova fase criativa, a que chama de “transfiguração humana”,pois transforma anjos em cangaceiros, a despeito da vontade daprópria mãe, que não queria que o artista modelasse anjos com asvestimentas do cangaço. Daí por diante, ganham asas, espingardae ares nada angelicais os beatos de movimentos messiânicos, oscangaceiros Lampião e Maria Bonita, entre outros personagens dacultura regional – o que resultou em polêmicas, sobretudo quandoZé do Carmo ofereceu ao papa um monumental anjo cangaceiroe o presente foi recusado. Medindo cerca de dois metros, aescultura é mantida no ateliê, além de uma outra, em menorproporção, também rejeitada pela Igreja, e mais um Papai Noelnordestino, de gibão, alpercatas e chapéu de couro. Em 1982,criou o Vovô Natalino, um velho simpático de aspecto messiânicomedindo 1,80 m, que faz Gilberto Freyre escrever artigo no Diariode Pernambuco, de 2 de janeiro de 1983, louvando “bom e bravorepúdio ao Papanoelismo que vem descaracterizando os bonsNatais castiçamente brasileiros...”.Sobre a engenharia das peças gigantescas, o artista explica:constrói um bloco até a cintura e espera secar. Depois queestá enxuto, torna oco esse bloco e levanta o restante. Emseguida, modela os detalhes do corpo e do rosto. As peças ficamalicerçadas numa base de barro e pousam sobre um suporte de
  46. 46. 47madeira com rodízios. Para ele, os primeiros trabalhos eram popularesdemais. Depois disso, acredita que conseguiu modelar figuras de proporçõesacadêmicas, como o Padre Cícero que mantém no acervo exposto no ateliê.Tem, ainda, um busto de São Pedro jovem, que fez seguindo o padrão deescultura neoclássica: proporção seguida à risca, com detalhes do rostobem-delineados. Durante muitos anos, foi professor de modelagem embarro e de proporção. Escultor também em pedra, prova isso com umbusto exposto em meio às peças mais antigas. É inegável que, além daobservação do artista, o talento sobressai, garantindo a qualidade e aadesão de discípulos. E não foram poucos os ceramistas que passaram peloateliê de Zé do Carmo, na condição de aluno: Irene, Mário Pintor, Severino,George, Tog, Luiz Carlos, Luiz Gonzaga, Précio Lira, Dica, Andréa Klimite Tiner Cunha. O único filho que possui não é discípulo, mas, segundo opróprio pai, tem talento para a arte. Dedicado desde 1980 à pintura, o temapreferido nas telas é o mesmo das esculturas: anjo cangaceiro.
  47. 47. 48Banda MusicalCuricaBanda MusicalCurica
  48. 48. 49Curica, do tupi ku’rika, é pássaro de canto estridente, da famíliade papagaios e araras, que canta pelas matas e mangues.Talvez por isso o nome da centenária sociedade musical goianense,numa alusão ao papagaio trombeteiro. Melhor explicando,existem, de fato, duas versões que apontam tal escolha para onome da banda, fundada em 1848. Segundo uma delas, a senhorachamada dona Iria perguntou ao mestre João José, que passavapela rua da Conceição: “Seu João, por que é que a música gritatanto, que até parece uma curica?” A outra versão, variante daprimeira, conta que dona Iria era irmã do padre José JoaquimCamelo de Andrade, e morava à rua Direita, em companhia daspróprias escravas. Estando, certa vez, na porta de casa, o maestroJosé Conrado executava uma polca do musicista Francisco Tenório,e ela teria dito, em voz alta, a uma de suas escravas: “Ô Rosa,aquela música só parece dizer cu-ri-ca-cá”. A outra respondeu comuma gargalhada, e assim ficou o apelido que, supõe-se, era usadoem tom depreciativo.A Sociedade Musical Curica oferece, justamente por ser antiga, umrepertório de tradições, de histórias contadas pelos mais velhos,dentre eles os nonagenários Antônio Secondino de Santana,Meia Noite, e João José da Silva, Calixto, dois dos mais antigosparticipantes da banda – falecidos após a banda conquistar o títuloestadual de patrimônio vivo, concedido em 2005. Uma dessashistórias diz respeito a uma tocata para o Imperador. Conformeconsta nos anais de Goiana, a Curica, sob a regência do mestreRicardinho, participou das festas em homenagem a D. PedroII, durante visita à cidade, em 6 de dezembro de 1859. Quatrodias depois, ou seja, 10 de dezembro, o Diario de Pernambuconoticiava a visita da autoridade máxima do país e dizia que aGuarda Nacional “esteve reunida com mais de 700 praças e boamúsica”. A Curica, naquele período, era a banda do batalhão.Com um repertório musical cheio de sofisticação e variedade, ogrupo também marcou presença nas comemorações da Aboliçãoda Escravatura, da Proclamação da República, ajudou emcampanhas políticas do Partido Conservador e, então militarizada,fez parte da Guarda Nacional. Criada com o objetivo de realizartocatas em festas religiosas, a banda foi fundada em 1848,por José Conrado de Souza Nunes, primeiro regente do grupomusical. Do Rio Grande do Norte, era conhecido como o filho domarinheiro, Boca de Cravo. Segundo o historiador Álvaro Alvimda Anunciação Guerra, cujo pseudônimo era Mário Santiago –conforme pesquisado e publicado, na ocasião do centenário, em1948, no livro Elementos para a história da Sociedade MusicalCurica – tudo começou com um grupo de 12 a 15 músicos quese reuniu no consistório da igreja de Nossa Senhora do Amparodos Homens Pardos e resolveu criar uma orquestra sacra,apresentando-se pela primeira vez numa tocata, no Amparo,durante as comemorações da natividade de Nossa Senhora, ouseja, no dia 8 de setembro de 1848. À época da fundação, erachamada de corporação musical. Assim começa a história daPanorâmica da rua da sede da banda
  49. 49. 50Curica, a mais antiga banda de música, em atividade ininterrupta,do Brasil e da América Latina.O abolicionista e senador do Império João Alfredo Corrêa deOliveira dá notícia, na biografia que escreveu sobre o 2º Barão deGoiana – Bernardo José da Gama –, que “cada partido tinha asua banda de música a estafar-se em ajuntamentos e passeatas”.Deduz-se que a outra banda era a rival Saboeira, de 1855, aindahoje em atividade, fundada com o objetivo de acompanhar oPartido Liberal, oposicionista do Partido Conservador, ao qualpertencia a Curica. As histórias da inimizade figadal entre as duasbandas foram escritas com sangue. Entre pontapés e lances decapoeira, gritava-se: “Viva a Curica! Morra a Saboeira!” E vice-versa. Em 1928, visitou a capital da Paraíba, o que teve enormerepercussão na imprensa local. Entre os sócios honorários, constamos nomes do então presidente Getúlio Vargas e de Flores daCunha, interventor no Rio Grande do Sul. Durante a 2ª GuerraMundial, participou de passeata antinazista em agosto de 1942.Vista aérea de Goiana (autor desconhecido)
  50. 50. 51No dia 1º de dezembro de 1944 recebe a visita do famosomusicólogo uruguaio, professor Francisco Curt Lange, que,demonstrando grande interesse pelos arquivos de composiçõesmusicais, obteve uma relação das peças escritas no século 19, maisuma fotografia da corporação. A banda executou, em homenagemao visitante, a Sonata Patética, de Beethoven; a valsa Obstinação,de Nelson Ferreira, e o dobrado Conselheiro João Alfredo. Na datado centenário, em 1948, Antonio Correia presenteou a Curica comuma sede própria, a mesma onde o grupo desenvolve as atividadesaté hoje, à rua do Rosário. Naquele ano, a banda também decidiucriar estatuto próprio, ainda em vigor, em que se estabelecia afundação de uma escolinha de música, a fim de gratuitamenteserem transmitidos os conhecimentos musicais, pelos mais antigos,para as novas gerações. De meados de 1960 a 1970, a bandamanteve uma formação denominada Curica Jazz, que é retomadano início de 2009. São 29 componentes, escolhidos entre os maistalentosos alunos da escolinha e integrantes da banda. Em meio àsnovas realizações, a diretoria está organizando o primeiro registrofonográfico, tanto da banda, quanto da jazz, para a gravação dedois CDs a serem lançados ainda em 2010.A Curica é um dos grandes patrimônios culturais de Goianae sempre marca presença em solenidades cívicas e religiosas,inclusive nas viagens pelo Brasil. No Carnaval, subdivide-se emduas orquestras de frevo, para tocar no centro, nos distritos evizinhança. Em variados eventos e inaugurações, apresenta-sesob a forma de orquestras menores. O acervo musical conta commais de 800 títulos, de todos os gêneros, entre clássicos, barrocos,dobrados, marchas de procissão, músicas religiosas, MPB, paraexecução por cerca de 60 a 70 músicos. A catalogação do arquivohistórico e musical foi realizada pelos estudantes da escolinha, emregime de voluntariado. Resultante de um trabalho filantrópicode maestros, diretores e instrumentistas, a banda é responsávelpela contínua preparação de novos artistas, pela renovação dospróprios integrantes e traz no histórico a passagem de nomesconsagrados, como o famoso capitão Zuzinha, ou José Lourençoda Silva, e os maestros Duda e Guedes Peixoto. É inegável quea Curica tem colaborado com o despertar de talentos, com aformação de músicos. E mais: toca a sensibilidade dos goianenses,que a veem passar pelas ruas, despertando-lhes o amor à música eàs vivas tradições da cidade.Edson Júnior, músicoe presidente da banda
  51. 51. 52Lia deItamaracáLia deItamaracá
  52. 52. 53Soberana, feito uma deusa surgida das águas do mar ou umarainha plena de realeza, é assim que Lia sempre aparece,levando-nos ao prazer de ouvir e dançar uma ciranda. Sim,porque ninguém fica imune ao ritmo da ciranda, muito menosaos encantos da filha de Iemanjá, que se habituou a cantar desdecriança, na praia de Jaguaribe, localidade da Ilha de Itamaracáonde nasceu em 12 de janeiro de 1944 e vive até hoje. Cheiade familiaridade com a música e a dança, Maria MadalenaCorreia do Nascimento começou a carreira artística muito jovem,cantando ciranda desde os 12 anos. A filha de Severino Correia doNascimento e Matildes Maria da Conceição é a mesma Maria, ouLia, da música que se transformou num hino: Essa ciranda / quemme deu foi Lia / que mora na Ilha de Itamaracá.A história dessa deusa de ébano, de um metro e oitenta, não ésó feita de glamour. Após permanecer quase duas décadas noostracismo, lança em 2000 o CD Eu sou Lia, que recebe selo deworld music, graças à mescla de instrumentos de percussão esopro aos ritmos populares, e, por isso, chega a ser comercializadonos Estados Unidos e na Europa. Nessa nova etapa de divulgaçãodo trabalho, Lia passa a viajar constantemente pelo Brasil e pelocontinente europeu, e, ainda assim, não é difícil vê-la nas rodasde ciranda do Recife e Olinda, ou em Jaguaribe, onde funciona, àbeira-mar, o Espaço Cultural Estrela de Lia, sob o efeito mágico daenvolvente paisagem marinha, com direito a lua, pancada do mar,cheiro de maresia e brisa balançando os coqueiros.Nesse ambiente, Lia tem recebido, aos sábados – e desdenovembro de 2004 –, diversos artistas, como Cátia de França,Célia coquista, a Ciranda de Baracho (das filhas do mestre, Dulcee Severina Baracho), Antúlio Madureira. Mas, diferentementedo bem-sucedido ressurgimento, antes a artista havia produzidoapenas um LP, A rainha da ciranda, gravado pela Rozemblitem 1977, do qual lembra não ter recebido nada. Quando foicozinheira de um restaurante na ilha, também cantava no local.Frequentava outras rodas de ciranda, esporadicamente, semEspaço cultural é dedicado a IemanjáO neto Misael
  53. 53. 54nenhuma projeção fora do restrito circuito de aficcionados dacultura popular. A partir dos anos 1980 passa a ser merendeirada Escola Estadual de Jaguaribe, profissão que seguiu exercendo,paralelamente à carreira artística.A volta triunfal ao mundo da música se deu graças à atuação doprodutor Beto Hees, que a levou, em 1998, a participar do festivalrecifense Abril pro Rock, no qual foi aplaudida por 12 mil pessoas.Daí em diante, sobretudo a partir de 2000, passou a fazer turnêspelo Brasil e exterior, com os shows do primeiro CD, gravadopela Ciranda Records, que contém composições dela própria,de cirandeiros do Recife, de compositores renomados e algumasde domínio público. Cinco músicas foram gravadas ao vivo em1998, no Rio de Janeiro, durante participação no projeto Vozes doMundo, do Centro Cultural Banco do Brasil. Quase uma décadadepois desse lançamento, sai em 2008 o segundo CD, Cirandade ritmos, com direção musical de Carlos Zens, e destaque paraBezerra do Sax, as filhas de Baracho e uma composição de Capiba.Conforme indica o título, o disco contempla outros ritmospernambucanos para além da ciranda: frevo, coco, maracatu.Mas, claro, quem permanece reinando é a majestosa cirandeira.Habituada, há mais de 50 anos, ao convívio com mestres daciranda, Lia sempre faz questão de lembrar que Baracho era umgrande amigo. É dele a ciranda: Morena vem ver / que noite tãolinda / a lua vem surgindo / cor de prata. // Faz-me lembrar / daminha Maria / quando pra ela / eu fazia serenata. No embalo daciranda e das afinidades eletivas, Baracho e Lia compartilhavamtrês importantes aspectos: boa voz, presença marcante na hora depuxar a roda e habilidade no tratamento dos temas, como o doamor.O convívio artístico, entretanto, não se resumiu aos experientescirandeiros. Teca Calazans, Edu Lobo, Clara Nunes, Geraldo deAlmeida, Ney Matogrosso e Paulinho da Viola, entre outros, sãoalguns dos grandes nomes da música brasileira que já cantaram Liaem versos próprios, em composições da cirandeira ou de outros.Essa ciranda quem me deu foi Lia é a mais antiga, de 1960 para1961, e foi gravada por Teca Calazans. Paulinho da Viola tambémofereceu versos bonitos para a negra mais elegante dentre todosos ilhéus: Eu sou Lia da beira do mar / morena queimada do sal edo sol / da Ilha de Itamaracá (...), música incluída no primeiro CD.O convívio artístico também levou a dama da ciranda por outrasveredas, como a de estrela do curta-metragem Recife frio, de2009, dirigido e realizado por Kleber Mendonça Filho.Com o porte e a realeza da soberana Iemanjá, a artista comandaas atividades do Centro Cultural Estrela de Lia, transformadodesde 2008 em Ponto de Cultura, onde são oferecidas oficinas
  54. 54. 55de arte, cerâmica, percussão, fotografia, malabares, rabeca,teatro, cavalo-marinho. Permanecem, ainda, as temporadas deapresentação artística: recitais poéticos, bandas alternativas,duplas de violeiros, filhas de Baracho, e, claro, a tradicionalciranda de Lia. Toda a programação cultural é gratuita esempre conta com o envolvimento da comunidade local, ouseja, os habitantes da Ilha de Itamaracá e, especificamente, osda praia de Jaguaribe. Em franca ebulição, o Ponto de Culturafoi contemplado, no início de 2009, com o prêmio InteraçõesEstéticas e Residências Artísticas, numa parceira da FundaçãoNacional das Artes (Funarte) com o Ministério da Cultura (Minc).Quem mais se beneficiou foram os habitantes da localidade, comas oficinas promovidas pelo mestre rabequeiro Luiz Paixão e pelaatriz Cinthia Mendonça.Por onde viaja, Lia de Itamaracá vai somando os elogios quetem recebido também na própria terra. É chamada de deusa,rainha. Na França, um jornal comparou-a à cabo-verdiana CesáriaÉvora. No Brasil, é constantemente relacionada a Clementinade Jesus, sobretudo no sul e Sudeste. No mesmo local em quenasceu, frequentou a escola primária e assistiu a muito cocode roda, ciranda, pastoril e bumba meu boi. Não teve iniciaçãomusical com ninguém, foi aprendendo sozinha, inspirando-sena paisagem iluminada da ilha, nos jangadeiros que saem para oalto-mar e vêm trazendo peixes, nas ondas salgadas que quebramna praia, na brisa marinha que tem lhe soprado aos ouvidos umasrimas, sussurrando-lhe quantas estrelas tem o céu e quantospeixes tem o mar. Versos e balanço encadeados pela percussão esopro realçam a voz rascante de Lia, “uma diva da música negra”,conforme noticiou o New York Times. A deusa da ciranda sabeenvolver-nos todos, plena de generosidade e magnetismo, atéquando empresta a voz ao genial Capiba: “minha ciranda não éminha só, é de todos nós, é de todos nós”.As filhas de Baracho cantam ciranda com Lia
  55. 55. 56DilaDila
  56. 56. 57Cangaço e peripécias diabólicas são os temas predominantesno universo do mestre em fabulações, gravador de capasde folheto e álbuns em policromia, autor de rótulos de bebidae remédios, ilustrador de livros e publicações variadas. O nomede batismo do marechal do cordel do cangaço, conforme seautodenomina, é José Soares da Silva, ou Dila, nome emblemáticono mundo da gravura popular. Nascido em 23 de setembro de1937, em Bom Jardim, e estabelecido em Caruaru, o filho deDomingos Soares da Silva e Josefa Maria da Silva testemunha que,dos anos 1950 em diante, mergulha no mundo do cordel e daxilogravura, quando passa a comercializar folheto nas feiras dePernambuco, Alagoas, da Paraíba e do Ceará.Municiado de generosa fabulação, Dila compartilha com amigose visitantes a riqueza do seu mundo imaginário, as invenções ereminiscências de mais de cinco dezenas de anos dedicados àsartes gráficas, à poesia de cordel e à xilogravura. No limiar entrerealidade e imaginação, tão bem-cultivadas pelo poeta, rememoraa chegada em Caruaru, em 1952, e as primeiras xilogravuras, que
  57. 57. 58foram para folhetos dele mesmo, de Francisco Sales Arêda e deoutros poetas de meio de feira, tais como Vicente Vitorino, ChicoSales, Jota Borges, Antônio Ferreira de Morais e João José da Silva.E, finalmente, a facilidade para com os desenhos credita ao paique, segundo ele, foi caricaturista. Em 1974, em plena atividadede poeta, gravador, impressor, aparece no documentário de TâniaQuaresma, Nordeste: cordel, repente, canção, em que figura aprofissão registrada em letras garrafais pintadas na fachada domesmo endereço onde ainda hoje reside, em Caruaru: Art FolhetoSão José. Romances e folhetos. Do autor e editor: Dila é aqui.A partir da experiência na fabricação de carimbos, substituias matrizes de madeira pela borracha, obtendo um resultadode impressão que o pesquisador Roberto Benjamin batizou defolk-off-set. Utiliza cores diversas numa mesma matriz, ou fazinúmeras combinações de gravura a partir de detalhes elaboradosem matrizes diferentes. As figuras são preparadas separadamentepara permitir isso. Irrepreensível no desenho e na invenção, agravura limpa, bem-talhada, complexa exibe narrativa imagéticaabsolutamente original, sob ângulos inusitados, sem contatosistemático com os cânones do desenho clássico. A partir dos anos1970, inova em publicações coloridas e no formato cordel. Em1973, edita o álbum de gravuras em policromia Rasto das histórias,utilizando-se de azul, vermelho e amarelo sobre fundo branco.Em 1974, publica A bagagem do Nordeste, com a capa em preto,vermelho e amarelo sobre fundo branco. Viver do cangaceiro saiem 1975, pela Art folheto São José. O álbum Réstias do cangaceiroé editado em 1981.O fabricante de rótulos de bebida instala na própria casa máquinasde tipos móveis e prelo, a fim de publicar folhetos e imprimirgravuras. Além disso, as ferramentas manuseadas para cavara matriz são faca, peixeira, canivete, lâmina de barbear, quecortam a borracha, ou neolite, para fazer capas de cordel, rótulose carimbos. Abre letreiros e desenhos do cordel numa mesmamatriz, em borracha ou ainda na madeira, reinventando o tipo
  58. 58. 59fixo, conforme lembra Roberto Benjamin, no texto Aparatos doslivros populares – Dila editor popular. E o registro da própriaeditora é tão mutante quanto o caudaloso fluxo narrativo dopoeta. A Art folheto São José virou Gráfica São José, ou GráficaSabaó, ou Preéllo Santa Bárbara, ou Fhòlhéteria Càra d’Dillas.Nesse registro, o nome da folheteria aparece na contracapa docordel, com um autorretrato de Dila vestido de cangaceiro.E, mais, o registro de autoria do texto e da xilogravura é sempretão variável quanto o do editor. Dila: o marechal do cordel docangaço. Dila Soares da Silva. Dila Ferreira da Silva. Dyyllas Sabóia.Dila Sabaó Sabóia. José Cavalcanti e Ferreira, José Soares daSilva, Dila ou Dillas. Recorrentes num universo poético expressoem ininterrupto fluxo criador, e também na atual invenção da“literatura de cordel em contos”, da “literatura de cordel emprosas” que vem engendrando e editando, os motivos passampor ciganos e cangaceiros, Chico Heráclio, Lampião, PadreCícero, o Pai Eterno, Pessoa e Dantas, Ariano Suassuna, “xylgrae cordel”, Dyylas Sabóia. Se, em vez de cordel e xilogravura,produzisse um filme de cangaço, deliberou, de antemão: seria oprotagonista, o cangaceiro Relâmpago. Assim, em meio a fantasiase criação poética, Dila vai recebendo visitas diárias de estudantes,pesquisadores, turistas, todos ávidos em conhecer o mundomaravilhoso do artista que está sempre a exibir, com o maiorprazer, as mais recentes invenções de poesia e xilogravura.
  59. 59. 60MestreSalustianoMestreSalustiano
  60. 60. 61Ainda menino, sete anos, brincava cavalo-marinho pelosengenhos de Aliança. Foi arriliquim, dama, galante, cantadorde toada, nove anos de Mateus, depois foi ser mestre. O pai era umtocador de rabeca, aprendeu com ele. Os folguedos e brincadeiraseram vistos e experimentados desde criança: maracatu, ciranda,coco, forró, mamulengo, improviso de viola. Estudou até a 4ª sérieprimária. Trabalhou em casa de família, vendeu sorvete, picolé, foiambulante. Conforme declarações próprias, considerava-se o maiordançador de cavalo-marinho e, nos versos de maracatu, inspirava-seno mestre Antônio Baracho. Manoel Salustiano Soares, ou mestreSalustiano, artista múltiplo e produtor de espetáculos e folguedostradicionais organizados e mantidos em família, nasceu a 12 denovembro de 1945, em Aliança, e foi lá, na Zona da Mata Norte,que se iniciou no universo cultural de que é um dos mais afamadosrepresentantes. O filho de Maria Tertunila da Conceição aprendeua ler, escrever e sempre teve inteligência suficiente para tirar omáximo proveito dos dotes artísticos.Começou a morar em Olinda em 1965, mesmo ano em quecomeçou a tocar rabeca profissionalmente, aprendida pelas mãosdo pai e professor, João Salustiano, que ensinou o filho a fazer ea usar o instrumento. Passou a ser mais conhecido na década de1970 e em 1977 participa de um comercial de TV. Foi entrevistadoem 1989 no programa televisivo Som Brasil e, nessa época,segundo ele mesmo, só conhecia a Mata Norte, nem sequer outrasregiões de Pernambuco. Em 1997, integrou comitiva de artistaslocais que foi a Cuba. Durante mais de 10 anos organizou o festivalda rabeca e coordenou a Casa da Rabeca do Brasil. Por quase20 anos participou, na condição de fundador, da Associação deMaracatus de Baque Solto de Pernambuco. Recebeu o título dereconhecido saber em 1990, concedido pelo Conselho Estadual deCultura, e o título de doutor honoris causa, na UFPE. Foi agraciadocom o título de Comendador da Ordem do Mérito Cultural, em2001, pela Presidência da República. Percorreu todos os estadosbrasileiros e outros países, como Bolívia, Cuba, França, EstadosUnidos.Maciel Salu e Barachinha
  61. 61. 62Com a casa repleta de filhos, o mestre Salustiano sempre mantevea liderança da família e conseguia envolver todos nos projetosculturais que constantemente articulava no entorno da própriaresidência, no bairro olindense de Cidade Tabajara, reunindoa comunidade, os vizinhos, turistas e pesquisadores de culturapopular. Inicialmente, era no espaço Ilumiara Zumbi que asapresentações aconteciam. Depois, as festas foram transferidaspara a Casa da Rabeca do Brasil, espaço inaugurado pela famíliapara oficinas, danças, encontros de maracatu rural e de cavalo-marinho, shows de música regional. No Natal, vários grupos decavalo-marinho se reúnem e brincam a noite toda. Tem tambémpastoril, ciranda, o cavalo-marinho Boi Matuto, fundado pelomestre em 1968, e o Mamulengo Alegre, outro brinquedo dafamília, cujos bonecos eram feitos por Salu mesmo. Dublê deartista e artesão, esculpia no mulungu os bichos do bumbameu boi, cavalo, boi, burra. Fazia em couro de boi e de bode asmáscaras do cavalo-marinho. No domingo de carnaval, chegamao terreiro da família troças, ursos, caboclinhos, boi, burra, alémdo grande acontecimento da tarde: a trincheira do maracatu ruralPiaba de Ouro, que fundou em 1977, e hoje é estruturado commais de 300 componentes. Na segunda de carnaval, acontece oencontro de todos os maracatus rurais de Pernambuco.
  62. 62. 63Graças à sensibilidade artística e às invenções de homeminteligente, Salustiano cultivava a memória da infância, povoadade cavalo-marinho, maracatu, mamulengo, pastoril, ciranda,forró de oito baixos, reisado, marujada, fandango, poesiaimprovisada, ao mesmo tempo em que gerenciava os própriosfolguedos e temática casa de espetáculos. Depois de tentar avida como ambulante e empregado doméstico, foi funcionárioda prefeitura de Olinda e professor de arte popular. Por fim,conseguiu certa dignidade financeira com o terreiro enorme paraapresentações, serviço de bar, salão para dança e uma loja, ondesão comercializados produtos de confecção própria, como rabeca,alfaia, mineiro, bagem de taboca, pandeiro, mamulengo e osdiscos. Foram quatro CDs gravados, movidos pelas sonoridadesde ciranda, maracatu, mamulengo, coco, forró, frevo: O sonhoda rabeca, As três gerações, Cavalo-marinho, Mestre Salu e a suarabeca encantada. Dos 15 filhos, dois fabricam rabeca: Wellingtone Cleiton Salu. O bailarino Pedro Salustiano montou o espetáculoSamba no canavial. O músico, compositor, poeta improvisadore MC Maciel Salu lançou o CD A pisada é assim, entre outrasimportantes gravações, e é um dos integrantes da OrquestraContemporânea de Olinda.Salustiano faleceu no Recife, em 31 de agosto de 2008.Entretanto, confortável é saber que o legado se perpetua nasproduções culturais e criações artísticas dos filhos, legítimosherdeiros e continuadores da obra do Mestre Salu.Filhos Maciel, Cleiton e Manuelzinho
  63. 63. 64Índia MorenaÍndia Morena
  64. 64. 65Contorcionista, trapezista voadora, acrobata, cantora, ginasta,atriz circense. Eis aí alguns dos atributos da grande dama docirco pernambucano: Margarida Pereira de Alcântara. Ou, ÍndiaMorena, nome artístico deliberadamente escolhido por seremíndios o pai e a avó paterna. Destacada pela dedicação profissionalexclusiva à vida circense, Margarida convive desde os 10 anoscom o magnetismo do mundo dos mágicos, palhaços, humoristas,rola-rola, malabaristas, equilibristas. Na verdade, a estreia na vidaartística foi inaugurada, a partir de 1952, em shows de calouros,nas matinês infantis promovidas pelo Circo Democratas, queaconteciam na Vila de São Miguel, bairro de Afogados, Recife,onde àquela época o circo estava montado. Aos 12 anos, acantora mirim já interpretava, com alma, canções de VicenteCelestino, Ângela Maria, Núbia Lafayete.Filha de Eloy Pereira de Alcântara e Maria das Dores de Alcântara,Margarida nasceu no Recife, em 13 de julho de 1943. Órfã de paiaos nove anos, interrompeu os estudos no terceiro ano primárioe não havia grande expectativa de desenvolvimento profissional,sequer de realização artística, para essa criança nascida e criadadentro da maré, pescando crustáceos nos mangues de Afogadospara ajudar na sobrevivência da família. Adotada por SeverinoRamos de Lisboa – o palhaço Gameloso – e afilhada de crisma deMaria Tenório Cavalcanti – a dona do antigo circo Itaquatiara Real,no qual Índia se engajou a partir de 1º de julho de 1953, contra avontade materna –, essas confluências resultaram, claro, do talentoevidente da jovem circense e contribuíram para o florescimentode singular trajetória artística. E mais: vieram acrescentar novoselementos à história dos circos populares do Brasil.Além de realizar viagens pelos Estados Unidos, Argentina,Paraguai, Uruguai, Bolívia, trabalhando em diversos circos – dentreos quais o Gran Bartolo, o Garcia, o Itaquatiara, o Edson, o Águiade Prata, o Coliseu Mirim, o New American Circus –, Índia Morenaorganizou, com a participação de Albemar Araújo, a coletâneaDramas Circenses, em que foram transcritos seis tradicionais
  65. 65. 66dramas encenados nos circos populares, tais como A louca dojardim e Lágrimas de mãe. As peças teatrais, cedidas por Índia,fazem parte do acervo da Associação dos Proprietários e ArtistasCircenses do Estado de Pernambuco (Apacepe), organizaçãofundada em 1993 por Índia Morena e pelo marido, Maviael Ribeirode Barros. O livro, contendo 161 páginas, foi publicado em 2006,pela Fundação de Cultura Cidade do Recife.Índia Morena considera o circo “o palácio onde vive com alegria”desde os 13 anos, quando decidiu largar totalmente a mãe eentregar-se de vez ao picadeiro: passou no teste de caloura e foicontratada para trabalhar no Itaquatiara. “Ali, eu vi o mundo”:foi assim que nasceu para a vida artística, ao mergulhar desdea primeira vez na lona de um circo e depois sagrar-se comotrapezista voadora e melhor contorcionista pernambucana. Depoisdo Itaquatiara, trabalhou como ginasta e cantora num circo deOlinda, o Circo do Palhaço Violino. Atuou no Circo Águia dePrata, de propriedade de Euclides Águia de Prata que, depois,passou a ser o Circo Edson. Ainda participou do Coliseu Mirim,pertencente a um funcionário da prefeitura do Recife, conhecidoApresentadora do próprio circo,Índia Morena inicia mais um espetáculo,dessa vez no subúrbio de Jaboatão
  66. 66. 67por Benigno. Em meio ao talento e à dedicação integral à carreira,ia consolidando-se um contínuo processo de aprendizagem nopróprio meio circense, a partir do convívio com grandes nomesdo circo e da ousadia de cada nova experiência. Entretanto, emmeio aos prazeres e conquistas da biografia artística, um grandedesgosto na vida de Índia Morena quase a leva à bancarrota:a traição do ex-marido com uma menina de circo resultou emdoença e lesão pulmonar, com prolongado internamento nohospital Otávio de Freitas. Foi aí onde conheceu o atual marido,que nada sabia de circo e, entretanto, aceitou abraçar o ofício,acompanhando-a ainda hoje.Desde 1977 possui, com Maviael, o Gran Londres Circo, pois oantigo proprietário do Circo Edson, falido, e para quem ÍndiaMorena trabalhava, doou parte do negócio a título de pagamentopelos serviços prestados por ela à companhia circense. Índia neleinjetou experiência e recursos próprios e é no Gran Londres que,desde essa época, vai exibindo as múltiplas habilidades aprendidasem todo o percurso artístico, cantando e apresentando osespetáculos. Em meio a uma trupe com mais de 20 integrantes,contracena com um palhaço cantor e compositor de músicasirreverentes, com equilibristas, contorcionistas, transformistas,engolidores de faca, malabaristas, pernas-de-pau, escada giratóriae mais quatro palhaços. A temporada em cada local é variável,conforme a aceitação do público. Os espetáculos são geralmentenoturnos, mas há também matinês nos finais de semana eferiados. A folga é sempre na segunda-feira.O Gran Londres, itinerante como deve ser todo circo detradição, circula, sobretudo, pelos arredores do Recife e RegiãoMetropolitana, a exemplo de Jaboatão, Paulista, Abreu e Lima.Aonde o circo vai, agrega as bandas de música locais, fisga opúblico com espetáculo tradicional e ainda oferece uma atraçãoúnica: um bode pagador de promessa, que sobe uma rampa,ajoelha-se e beija uma imagem de Nossa Senhora Aparecida,padroeira do Brasil. “Eu só tenho o terceiro ano primário, masquem tem o primeiro ginasial não vai comigo, não, porque euaprendi muita coisa em teatro”, vangloria-se a artista, que tambémnão esquece a dureza da infância mergulhada na lama, catandocaranguejo. Apesar de todas as mazelas, Índia segue cantandoe louvando a magia do circo, com a elegância e o magnetismopróprios de uma grande dama circense.
  67. 67. 68Homem daMeia-noiteHomem daMeia-noite
  68. 68. 69De fraque, cartola, gravata borboleta, dente de ouro, lá vem oHomem da Meia- Noite, vem pela rua a passear, enfeitiçandoos céus olindenses e arrancando suspiros de amor. Claro, é o maisafamado galante, o grande Don Juan do carnaval de Olinda e nãoé, de maneira alguma, simplesmente um boneco, é calunga, comtodos os atributos e segredos que essa palavra suscita. A figurado sorridente cavalheiro, envolta em mistérios e rituais próprios, éassociada ao candomblé, pois foi no dia 2 de fevereiro de 1932,data dedicada a Iemanjá, que o calunga de madeira desfiloupela primeira vez na tradicional folia. O Homem da Meia-Noite,com cerca de quatro metros de altura, é o mais antigo bonecogigante de Olinda. Nascido na categoria “troça” em 1932, passaa clube de alegoria e crítica a partir de 1936. É de muitos anos,portanto, que o galanteador vem arrancando suspiros de moças esenhoras postadas à janela para ver o amado passar: ele próprioem figura de gentleman anima as ladeiras do sítio histórico desdea madrugadora invenção na longínqua década de 1930.As ruas estreitas, sobretudo a do Amparo, e o Largo doBonsucesso testemunham a alegria e irreverência dos foliõesque gastam pelos menos quatro horas para acompanhar umdos desfiles mais cobiçados da folia olindense. O percursoé praticamente o mesmo desde o princípio, e o boneco vaidesfilando trajado de verde e branco, com um relógio na lapelae a chave da cidade nas mãos. A saída acontece pontualmenteà meia-noite do sábado de Zé Pereira, partindo da sede, quefica em frente à igreja do Rosário dos Homens Pretos, noBonsucesso. O local é marcado pela prática de tradições culturaisde negros escravos, desde a construção do templo religioso nasegunda metade do século 17, e, inclusive, foi essa a primeiraigreja em Pernambuco a ter irmandade de homens pretos.Nenhuma estranheza, portanto, quanto à ligação do calungacom o candomblé, mesmo que a aura de misticismo se misture àirreverente balbúrdia momesca, em meio a orações e oferendascom cachaça na troca de roupas do calunga, nos preparativos dosábado à tarde.Saída do Homem da Meia Noite, Estrada do Bonsucesso, Olinda, 1998
  69. 69. 70A existência do grupo carnavalesco se deveu a uma dissidênciade integrantes da Troça Carnavalesca Mista Cariri, fundada em1921 e que àquela época era quem abria o carnaval, saindo àsquatro da manhã do domingo. O exímio entalhador BeneditoBernardino da Silva, ou “Benedito Barbaça”, o encadernadorCosmo José dos Santos, o pintor de paredes Luciano Anacletode Queiroz, acompanhados de Sebastião Bernardino da Silva,Eliodoro Pereira da Silva e do sapateiro Manoel José dos Santos,apelidado “Neco Monstro”, ao se sentirem excluídos da diretoriadaquela troça decidiram criar uma nova agremiação que “desseuma rasteira no Cariri”, conforme conta o pesquisador OlimpioBonald Neto, no livro Os gigantes foliões em Pernambuco. O autorrefere, aliás, que esse não foi o primeiro gigantone a aparecer nocarnaval pernambucano: o mais antigo registro é creditado a ZéPereira e Vitalina, bonecos nativos da cidade sertaneja de Belémdo São Francisco, criados respectivamente em 1919 e 1929.Quanto ao surgimento do boneco olindense, pelo menos duasversões explicam a genealogia do fenômeno: uma delas creditaCarnaval de 2003
  70. 70. 71ao cinéfilo e fundador Luciano Anacleto de Queiroz a inspiração apartir do filme O ladrão da meia-noite; a outra atribui a BeneditoBernardino, fundador e autor do hino da agremiação, a construçãodo calunga a partir de alegado flagrante de certo namorador, alto,elegante e sorridente, que andava principalmente na madrugadado sábado para o domingo, sempre de verde e branco, comchapéu preto e dente de ouro.A dissidência do Cariri foi tramada em dezembro de 1931. Paradar forma ao boneco que ganharia as ruas à meia-noite do sábadode Momo, os fundadores Benedito Barbaça e Luciano de Queiroztomaram todas as providências de marcenaria e pintura, namodelagem daquele que seria o boneco dos primórdios do grupo.Originalmente, o calunga pesava mais de 55 quilos, porque, alémda armação em madeira, a cabeça, o busto e as mãos eram feitosem papel gomado; os braços, recheados com palha de colchão;nas mãos, areia para dar peso e equilíbrio às evoluções executadasao som do frevo. Evidente que o boneco passou por um processode reengenharia, a fim de perder peso e, assim, aliviar a carga docarregador ou “chapeado”. Um dos mais ilustres carregadores foiAlcides Honório dos Santos, Cidinho, que durante mais de quatrodécadas deu vida e alma ao boneco. Bastos “Botão”, HenriqueAlabamba, Amaro de Biluca, Paulo 19, Pedro Garrido compõem agaleria dos chapeados do Homem da Meia-Noite.Esses históricos nomes animam, há décadas, a algazarra defoliões inveterados, além dos novatos que são acrescidos àsladeiras estreitas de Olinda, a cada ano. E o mais animador ésaber que a alegria repercute durante todos os meses, com oprojeto social Gigante Cidadão – Ponto de Cultura nacional desde2005 – que oferece, de segunda a sábado, na sede do clube,oficinas de música, dança, teatro e vídeo a cerca de 50 crianças dacomunidade. Apreciando de dentro ou de fora do boneco, quemhaveria de resistir a esse fogoso e ao mesmo tempo sóbrio cidadãoolindense, a esse magnético sorriso de manequim, a essas gigantespernas de pau dançando na multidão?Saída do relógio, 1998Passistas acompanhando a orquestra, 1998
  71. 71. 72José Costa LeiteJosé Costa Leite
  72. 72. 73Aversatilidade tem marcado a trajetória do cordelista, xilógrafoe autor de almanaque popular. Nascido a 27 de julho de1927, em Sapé, na Paraíba, o filho de Paulino Costa Leite e MariaRodrigues dos Santos radicou-se em Condado, Pernambuco, apartir de 1955. José Costa Leite estreou na literatura de cordelem 1947, vendendo, declamando e escrevendo folheto de feira.O primeiro almanaque foi feito em 1959, para o ano de 1960,e chamava-se, àquela época, Calendário brasileiro. As primeirasxilogravuras são de 1949, para os folhetos, de própria autoria, Orapaz que virou bode e a Peleja de Costa Leite e a poetisa baiana.Na infância e adolescência, trabalhou na cana, plantou inhame,foi cambiteiro, cambista, mascate, camelô de feira. Xilogravadorprimeiramente por obra da necessidade, ou seja, a de produzira capa dos próprios folhetos, Costa Leite conseguiu aprimorar otalento para as artes plásticas nessas seis décadas de familiaridadecom a madeira, quicé, goiva e formão. Como acontece a diversosautores de cordel, o talento extrapola o mundo da escrita. É elequem desenha e talha na madeira e depois imprime no papel asilustrações de capa dos próprios folhetos. Conforme tradição dosgravadores populares pernambucanos, que se iniciaram a partir dodiálogo com a poesia, aprendeu sozinho a arte da gravura, vendofazer e experimentando.
  73. 73. 74Os primeiros cordéis chamavam-se Eduardo e Alzira – “umahistorinha de amor”, conforme classificação do próprio poeta – eDiscussão de José Costa Leite com Manuel Vicente, cujos temaseram “se não casar perco a vida” (Costa Leite) e “eu morro e nãocaso mais” (Manuel Vicente). Essas primeiras publicações não tinhamilustração de capa, apenas os letreiros. Voz imortalizada, na décadade 1970, em três LPs gravados no Conservatório Pernambucano deMúsica, nos quais deixou registradas grandes histórias de cordel,Costa Leite já cantou muito na feira da cidade onde vive e na vizinhaGoiana. Atualmente continua indo, sozinho, de madrugadinhae em transporte coletivo, vender folheto em Itambé, cidadepernambucana em que o outro lado da avenida principal é Pedrasde Fogo, Paraíba. São duas cidades, dois estados numa mesmageografia, espécie de síntese da vida do poeta. Assim que se encerraa feira, por volta do meio-dia, segue para Itabaiana, Paraíba, dormelá, e, dia seguinte, passa a manhã cumprindo um ofício que exercehá mais de seis décadas. Cantava e vendia bem nas feiras. Aindadá voz a uma ou outra estrofe. Às vezes, recita e canta trechos defolheto da própria autoria, como O sanfoneiro que foi tocar noinferno, e mais alguns versos de outros autores, a exemplo de Onavio brasileiro, clássico de Manoel José dos Santos.

×