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9A leitura da sentença foi a 18 de abril de 1792 e durou 18 horas, das oito da manhã até depoisdas duas da madrugada. Tira...
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Tiradentes e inconfidentes

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Faz a resenha dos principais livros publicados no Brasil sobre Tiradentes e a Inconfidência Mineira; mostra que Tiradentes foi mitificado, pois era rico e tinha escravos e era dono de várias lavras de ouro; trata dos bastidores da Inconfidência Mineira e mostra como as mulheres dos inconfidentes tiveram papel preponderante na guarda de seus bens, que acabaram não confiscados

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Tiradentes e inconfidentes

  1. 1. 129.000 toques (incluindo duas retrancas Tiradentes e Ossadas)TIRADENTES, O HOMEM QUE VIROU MITOVários mitos foram justapostos na figura de Tiradentes desde a Proclamação da República,quando ele passou a ser considerado herói nacional exemplar. A maioria dos brasileiros achaque ele era um homem pobre (um simples alferes, que na atual hierarquia militar corresponde àcategoria de cabo). Também se acredita que ele (mais até que os outros inconfidentes) defendiaa criação de uma república e a libertação dos escravos, que ele era o líder da inconfidência, queteria divulgado no Brasil os ideais dos heróis da Independência dos EUA e da RevoluçãoFrancesa. Muitos acreditam também que, quando foi enforcado, há 219 anos, no dia 21 de abrilde 1792, estava de cabelos compridos e longas barbas, fazendo referência às imagens domartírio de Cristo, como é retratado no quadro de Pedro Américo.Quanto aos outros inconfidentes, a crença geral é que partilhavam as supostas idéias deTiradentes e, depois de presos e degredados, tiveram os bens confiscados e suas famíliaspassaram a ser malvistas e marginalizadas, terminando na pobreza.Tudo isso é mito, conforme se pode conferir lendo os três principais livros que existem sobre oassunto nas livrarias: A Devassa da Devassa,do historiador inglês Kenneth Maxwell, publicadoem 1973, O Manto de Penélope, do mineiro João Pinto Furtado, publicado em 2002, e AFortuna dos Inconfidentes, do paulista André Figueiredo Rodrigues, publicado em 2010. Aspesquisas se complementam, pois um avança em lacunas deixadas pelos outros.A professora da Universidade de São Paulo Cecília Helena de Salles Oliveira, diretora doMuseu Paulista, explica que“Kenneth Maxwell indica que os interesses e objetivos do movimento estavam muito maisarticulados a grupos específicos da sociedade mineira do que a uma proposta de separação dePortugal e supressão do regime colonial. A interpretação de Maxwell desfaz a memória de queos inconfidentes seriam heróis que lutassem por ideais sem outras pretensões a não ser a defesada liberdade e da autonomia da colônia.”A revolta dos inconfidentes foi principalmente provocada pelos excessivos impostos do governoe a iminência de uma cobrança forçada. No apagar das luzes do século 18, o esgotamento dasminas pôs fim ao ciclo do ouro de Minas Gerais. Também declinou a mineração de diamantes,as duas principais fontes de renda da capitania. Isso pôs em crise as até então prósperas cidadesmineiras que o ouro tinha construído, como Vila Rica (hoje Ouro Preto), Mariana, Barbacena,Sabará, Congonhas do Campo e tantas outras hoje chamadas cidades históricas. Depois de umséculo de muitas riquezas, em que a corte portuguesa, os donos de terras e garimpos,empreiteiros, fiscais, comerciantes, importadores, ganhavam muito dinheiro, ainda que ocontrabando prosperasse, esse lucro foi sendo estancado na base da pirâmide: a produção deouro das minas e de diamantes estava se esgotando.Portugal resolveu endurecer: em 1788, diante das acusações e evidências da prática comum decontrabando, um novo governador das Minas Gerais foi nomeado para vir lá de Portugal, LuísAntonio Furtado de Mendonça, visconde de Barbacena, e foi decretada a derrama, a divisão da
  2. 2. 2dívida da província com a Metrópole por todos os cidadãos da província. Como a dívidamineira acumulada desde 1762 já somava 538 arrobas de ouro em impostos atrasados, os bensde praticamente toda a população seriam confiscados.Estava aceso o estopim da Inconfidência Mineira. Como a sociedade estreitamente vigiada pelosrepresentantes da Coroa, os participantes da sublevação resolveram fazer várias reuniões empequenos grupos, em casas diferentes. Segundo Kenneth Maxwell, as reuniões ocorriam nascasas dos ricos, como o contratante João Rodrigues de Macedo e Francisco de Paula Freire deAndrada, além de militares do alto comando, fiscais, padres, comerciantes e importadores.Nunca os inconfidentes se reuniram todos num mesmo lugar e não deixavam apontamentosescritos.Analisando os documentos da época, Maxwell conta que uma importante reunião foi feita nacasa de Freire de Andrade, estando presentes José Alvares Maciel, cunhado do dono da casa, opadre José da Silva de Oliveira Rolim, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, e Carlos Correia,vigário de São José. Decidiram que, deflagrada a derrama, eles responderiam com um levantearmado, em que Tiradentes provocaria a agitação em Vila Rica e cortaria a cabeça dogovernador. Essas informações foram obtidas a partir de delações e confissões.Não havia uma diretriz unânime entre os revoltosos. Alguns queriam a independência de Minas,outros, que fosse proclamada a república, mas uma boa parte almejava continuar ligada aPortugal, desde que uma mudança política de relações com a Colônia fosse estabelecida. Amaioria defendia a continuidade do regime escravocrata. Praticamente ninguém pensava emtermos de Brasil, mas em termos regionias. “A Inconfidência Mineira foi uma revolta deendividados”, diz Maxwell.Mas o historiador João Pinto Furtado, em O Manto de Penélope, rebate essa perspectiva.Aprofundando as pesquisas de Maxwell ele mostra que vários inconfidentes eram muito ricos epodiam pagar suas dívidas, sendo a revolta basicamente contra o sistema de governoestabelecido por Portugal. Ele conta que movimentos de contestação como a inconfidênciamineira (que não chegou a se realizar) não foram novidade na região das Minas: houve oslevantamentos da Vila do Carmo, em 1713, os de Sabará, Vila Nova da Rainha e novamenteVila do Carmo, em 1715, os motins de Catas Altas, entre 1717 e 1718, os motins de Pitangui,entre 1717 e 1720, a revelião e Vila Rica, em 1720, a sedição do São Francisco, em 1736, e oslevantamentos em Campanha do Rio Verde, em 1746, “entre outros, que confirmam o potencialcontestador da população mineira, desde os primórdios da ocupação”. Isso sem falar nosquilombos (aldeias de negros foragidos), que chegaram a 127.João Pinto Furtado procura separar o que é memória do que é mito e mostra que osinconfidentes eram todos ricos, inclusive Tiradentes, que tinha pelo menos cinco escravos ediversas propriedades, inclusive lavouras e lavras. Ele frisa que os inconfidentes desconheciama Revolução Francesa, que ocorreu paralela coma época da sedição, e tiveram pouca influênciade autores franceses e americanos, pois tinham uma visão política antiquada. A RevoluçãoFrancesa de 1789 teve, sim, influência sobre os juízes dos inconfidentes, que consideraram essasedição mais grave que as anteriores.Um aprofundamento maior das pesquisas desses dois livros foi feito pelo paulista AndréFigueiredo Rodrigues, em dozes anos de estudos, consultando até documentos inéditos, comoarquivos guardados na Marinha. O livro resultou de uma tese feita para a Universidade de SãoPaulo sob orientação da historiadora Laura de Mello e Souza e é prefaciado pela historiadora
  3. 3. 3Cecília Helena de Salles Oliveira. Rodrigues, que também é especialista em metodologia depesquisa, também comprovou que Tiradentes era rico, mas mostra que a revolta atingiu todasas classes sociais, incluindo alfaiates (como o mulato Vitoriano Gonçalves Veloso) eagricultores (como João Dias da Mota).A novidade da pesquisa de Figueiredo Rodrigues é que ele rastreou as posses confiscadas dosinconfidentes e constatou que quase tudo foi desviado de volta para suas famílias ou parafuncionários corruptos da Corte. Dos 100 implicados na inconfidência, apenas 25 foramcondenados (24 ao degredo e 1 à morte: Tiradentes). Muitos tiveram de pagar para sair da listade implicados.O perfil de TiradentesBatizado em 1746, Joaquim José de Souza Xavier, o Tiradentes, era filho de pais ricos e nasceunuma fazenda com 35 escravos. Ainda criança ficou órfão de pai e mãe. A família perdeu afortuna e ele foi criado por um tio, que lhe ensinou o ofício de dentista, para sempre associado aseu nome. Foi dono de uma farmácia de plantas medicinais na qual exercia também a função dedentista. Ingressou nas milícias em 1775, com o posto de alferes. Segundo o comprovaFigueiredo Rodrigues, acabou ficando rico com contrabando, empréstimo de dinheiro a juros efazendas de gado. Associou-se aos inconfidentes e foi o mais indiscreto deles, pois faziapregações até nos bordéis que costumava frequentar.Segundo apurou Maxwell, “Silva Xavier parece ter tido especial inclinação pelos abastadoscontratatantes mineradores imigrantes e tentou associar-se a eles. Quando comandante dapatrulha da Mantiqueira, recebera pagamentos de Silvério dos Reis e de Rodrigues de Macedo.Tiradentes era um frequentador assíduo da casa de Abreu vieira, com o qual jogava cartas.Considerava Silvério dos Reis um amigo pessoal.”Nem Tiradentes, nem seus companheiros de sublevação contavam com um acontecimento: aderrama foi suspensa, esvaziando o movimento. Visando tomar partido do caso, algunsinconfidentes, como Joaquim Silvério dos Reis, amigo de Tiradentes, resolveram trair oscompanheiros e denunciaram o complô ao governador. Imediatamente instaurou-se umadevassa, que, por meio de interrogatórios, foi incriminando os suspeitos. Eles foram presos eseus bens seqüestrados.Como aconteceu com os outros inconfidentes, os bens que Tiradentes tinha e que foramrequisitados pela Coroa logo foram pleiteados pela família e por um sócio. FigueiredoRodrigues conta que nesses processos surgiu uma informação interessante sobre Tiradentes, queestá sendo tema de um próximo estudo, conforme ele antecipou para o Digesto Econômico:“Em 1786, já quarentão, Tiradentes enamorou-se de uma menina de 14 anos e a engravidou.Tempos depois, flagrou-a com outro homem na cama e se separou da menina. Para que elapudesse garantir seu sustento, deu-lhe uma escrava com dois filhos. O caso apareceu quando dosequestro de seus bens, pois a mulher exibiu os documentos da separação e de suas razões,requereu a escrava e as crias e foi contemplada.” É preciso ressaltar que, na época, meninas de14 anos já casavam e era comum, por exemplo, uma menina dessa idade casar com um tio quetivesse enviuvado.
  4. 4. 4Com os outros inconfidentes ricos os bens também acabaram escamoteados da Coroa: mediantesuborno e brechas nas leis os parentes dos inconfidentes degredados conseguiram passar paraseus nomes ou de sócios que se diziam credores boa parte das propriedades e escravos quehaviam sido confiscados. Tanto que, dos 615 quilos de ouro em que estavam avaliados os bensdos 25 inconfidentes (o maior montante na posse de uma meia dúzia), apenas 15 quiloschegaram efetivamente à Coroa portuguesa, segundo contabilizou Figueiredo Rodrigues.Ele cita, por exemplo, a mulher de um dos inconfidentes, Hipólita Jacinta, casada com o coronelFrancisco Antônio de Oliveira Lopes, companheiro do alferes Tiradentes no regimento dosDragões de Minas. Dona Jacinta “teria provavelmente subornado o funcionário para omitir osbens do sequestrado. Para isso, ela ofereceu ao ouvidor Luís Ferreira de Araújo, “duas vacasparidas.” E mais, entregou para sequestro os bens da sogra e não do marido.O papel dasmulheres nesses desvios foi destacado por Figueiredo Rodrigues. Ele conta que entre muitas,Barbara Heliodora, casada com Alvarenga Peixoto, não só continuou com os bem do marido,mas aumentou a produção das terras em oito vezes enquanto ele estava em degredo. Graças àfamília, o inconfidente José Aires Gomes, o maior proprietário de terras entre eles, tambémconseguiu salvar grande parte de suas propriedades.Também por meio de casamentos muitas famílias de inconfidentes iriam se aliar aos círculos demaior prestígio no tempo do Império e em alguns casos até a atualidade. Um exemplo citado porAndré Figueiredo é o do inconfidente José Aires Gomes. Uma de suas filhas casou com umCesário Mota, estreitando laços da família com os Andrada, família que continua em destaqueaté hoje. “O duque de Caxias”, lembra André Figueiredo, “é sobrinho de um inconfidente.”Aos olhares de Kenneth Maxwell Tiradentes teria uma visão mais ampla que muitos de seuscolegas de insurreição, Ele teria chegado a falar em termos de Brasil e não só de Minas Gerais,como destacou o historiador ao ler detalhes das denúncias nos Autos da Devassa mineira: “Silvaelogiava a beleza de Minas e apontava seus recursos naturais como os melhores do mundo (...).‘Livre e republicano, como a América inglesa, o Brasil poderia ser ainda maior’, dizia ele, porser melhor dotado pela natureza. ‘Criando-se indústrias’, continuava o propagandista, ‘nãohaveria necessidade de importar mercadorias estrangeiras’. A Freire de Andrade ele afirmou queo Brasil era um país que tinha tudo o que precisava, não tendo necessidade de qualquer outropara subsistir. A razão da pobreza do país, apesar de todas as suas riquezas era ‘só porque aEuropa como uma esponja, lhe estivesse chupando toda a substância, e os exelentíssimosgenerais de três em três anos traziam uma quadrilha, a que chamavam criados, que depois decomerem a honra, a fazenda, os ofícios que deviam ser dos habitantes, se iam rindo deles paraPortugal.’”Mas é certamente necessário separar a oratória da inconfiência das propostas concretas de seusparticipantes: Tiradentes, fazendo coro com a maioria, por exemplo, não defendia a abolição daescravatura.André Figueiredo Rodrigues comprova com documentos uma versão menos idealizada deTiradentes. O historiador prova que Tiradentes tinha minas de ouro e grandes propriedades:“Em 1781, por exemplo, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, comandou a construção doCaminho do Meneses, que atravessa a serra da mantiqueira. Ao verificar as riquezas minerais deros e córregos da região, solicitou o direito de explorar oitenta datas minerais. Em sua petiçãoafirmou que ‘se acha com fábrica avultada de escravos, sem terras minerais para o poder fazer eno porto e quartel do Meneses se acham terras devolutas.’ No despacho, com data de 22 desetembro de 1781, o escrivão Antônio Tavares da Silva confirmou-lhe a concessão e a mediçãode 43 datas minerais, localizadas no meio do rio do Porto do Meneses. (...)”
  5. 5. 5André Figueiredo conclui: “O exemplo das 43 datas que tiradentes explorava permite constatarque não era um homem com poucas posses, como a historiografia tente a ressaltar.” Sabe-se queem 1757 ele já tinha recebido de herança de sua mãe, de 965$774 réis e que não vivia de seusoldo militar, que era de 142$350 réias anuais.“A devassa descobriu, um mês após o sequestro de seus bens, que Tiradentes era dono de umsítio com ‘casas de vivenda, senzalas e monjolo, tudo coberto de capim (...), com todos os seuspertences de matos virgens e capoeiras, de aproximadamente 50 quilômetros quadrados,compreendidos em oito sesmarias, na Rocinha Negra, no Porto do Menezes, o que confirma sualigação com o poder, pois não se podia doar mais que uma sesmaria a uma única pessoa”,escreve André Figueiredo, em A Fortuna dos Inconfidentes.Diz o historiador: “Tiradentes também tinha fazendas em três sesmarias, que passaram porarrematação do capitão Jerônimo Ferreira da Silva. No século 19, essas terras estarão nas mãosdo capitão José de Cerqueira Leite, um dos maiores cafeicultores da Zoa da Mata mineira. Osexemplos das onze sesmarias e das 43 datas exploraas por Tiradentes no Rio das mortes nospermitem inseri-lo entre os grandes proprietários de terras da região, na segunda metade doséculo 18. O maior potentado da Mantiqueira, o inconfidente e coreonel Joseé Aires Gomes, quetinha mais de 22 fazendas, não possuía a mesma quantidade de terras com título de sesmariaqueTiradentes”De qualquer forma, o comportamento de Tiradentes durante os interrogatórios foi exemplar,pois não entregou nenhum de seus companheiros e acabou por assumir a responsabilidade pelosplanos de sublevação. Diz Kenneth Maxwell: “A tranquila dignidade com que Tiradentesenfrentou a morte foi um dos poucos momentos heroicos do fracasso sombrio. Quase um séculodepois, quando o Brasil implantou a República, ele foi proclamado herói nacional. Essacondição de herói nacional do alferes dos Dragões de Minas não é injustificada: em comparaçãocom o de seus companheiros de conspiração, o comportamento de Tiradentes, ao serinterrogado, foi exemplar, ninguém o sobrepujou em entusiasmo por uma Minas independente,livre e republicana; reclamou para si o maior risco e não há dúvida alguma de que estavadisposto a assumi-lo. Conforme dizem ter Claudio Manuel da Costa afirmado, tomara queexistissem mais homens desta têmpera! Tiradentes não era um anjo, nenhum homem o é. Masem uma história particularmente carente de grandes homens, Joaquim José da Silva Xavierimpõe-se como uma exceção.”Depois de ter negado participação na sedição algumas vezes, mas no final ter assumido para sitoda a culpa, inocentando os companheiros, foi condenado por crime de lesa-majestade eenforcado no dia 21 de abril de 1792, com a barba e o cabelo raspados. Foi esquartejado e partesde seu corpo colocadas em locais onde fazia suas pregações.Com respeito a seu comportamento na prisão, em que andava com um crucifixo rezando, ohistoriador João Pinto Furtado comenta que “segundo Joaquim Norberto de Souza e Silva,referindo-se à metamorfose ocorrida ao longo do processo que culminou com a execução deTiradentes, as autoridades luso-brasileiras ‘prenderam um patriota e executaram um frade’”.Segundo o professor André Figueiredo, “nas revisões que têm sido feitas nos livros escolaresvisando esclarecer o que é história e o que é mito o importante é ressaltar mais como foiconstruído o mito de Tiradentes (necessidade de ter heróis, por parte da jovem República) doque os detalhes de sua vida pessoal, numa época de valores diferentes dos nossos”.
  6. 6. 6As ossadas do Panteão dos InconfidentesNo ano passado, foram enterrados no Panteão dos Inconfidentes, no Museu da Inconfidência,em Ouro Preto, os restos mortais de três condenados da conjuração mineira que morreram nodesterro. Estiveram presentes na cerimônia a presidente Dilma Rousseff, e o governador deMinas Gerais, Antonio Anastasia. Dilma comparou os inconfidentes aos perseguidos políticos.A presidente também fez questão de visitar os túmulos de Bárbara Heliodora, mulher doinconfidente José de Alvarenga Peixoto, e de Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília deDirceu, que participaram ou testemunharam a Inconfidência.O Panteão abrigava 13 ossadas de inconfidentes que foram resgatadas nos anos 1930, poriniciativa do presidente Getúlio Vargas e acordo com o governo português. O trabalho começouem 1932 e em 1936 Getúlio Vargas ordenou que fossem repatriadas as ossadas dosinconfidentes mortos no exílio. Treze ossadas foram identificadas e enterradas no Panteãoerigido em 1942 num prédio anexo do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Três ossadas,entretanto, que acabaram misturadas, ficaram durante muito tempo no Rio, sob a guarda dogoverno, e não foram incluídas no Panteão, por falta de identificação. As ossadas foram depoislevadas para Minas, mas ficaram aguardando exames.Como não era possível fazer exames de DNA por causa da deterioração do material, foi precisorecorrer a avançadas técnicas de tomografia, até se chegar na identificação das pessoas pelaidade, o que resultou na confirmação das ossadas de três inconfidentes: Domingos VidalBarbosa (1761-1793), João Dias da Mota (1744-1793) e José de Resende Costa (1728-1798),pai de outro inconfidente com o mesmo nome que está enterrado no Rio.Resende da Costa e Domingos Vidal foram degredados para Cabo Verde. João Dias Mota foipara a Guiné Portuguesa. Vidal e Dias morreram em 1793; Resende Costa, em 1798. Os trêsforam enterrrados perto de uma igreja na Vila de Cachéu, na Guiné Portuguesa.Eles estão entre os 24 nomes associados à Inconfidência Mineira e registrados no Museu daInconfidência de Ouro Preto. Agora os restos mortais de 16 deles jazem no Panteão do museu.O filho de José Resende da Costa, o mais jovem dos inconfidentes, cumpriu pena de degredopor dez anos e voltou ao Brasil em 1803. Morreu em 1841, no Rio de Janeiro, e foi enterrado naIgreja de São Francisco de Paula, da Ordem Terceira dos Mínimos. Teve depois seus restosmortais transferidos para o Cemitério do Catumbi. Não se sabe exatamente onde estão seusrestos mortais nesse cemitério.Os três inconfidentes identificadosJosé de Resende Costa (1728-1798) – Era capitão do Regimento de Cavalaria Auxiliar da Vilade S. João e fazendeiro em Arraial da Laje, hoje chamado Resende Costa (MG). No degredo,foi contador e distribuidor forense até 1798, quando morreu. Seu filho, também inconfidente,voltou ao Brasil em 1803. Os fragmentos de ossos permitiram que os cientistas da Unicampreconstituíssem o rosto de Jose Resende da Costa, que é bastante parecido com o de um seutrineto. “É o único inconfidente a que se chegou a uma imagem aproximada, de quem se temuma cara”, diz o professor Alexandre Figueiredo Rodrigues, autor de A Fortuna dosInconfidentes, que conta como a maioria dos bens confiscados dos condenados foi desviada daCoroa..João Dias da Mota (1744 – 1793) – Nasceu em Vila Rica. Além de fazendeiro, foi capitão doregimento de cavalaria auxiliar da Vila de São João. Amigo pessoal de Tiradentes, hospedou-ovárias vezes. Morreu acometido de moléstia epidêmica nove meses depois de chegar no exílioda ilha de Cachéu.
  7. 7. 7Domingos Vidal de Barbosa Laje (1761-1793) – Nasceu em Capenduva, de família abastada.Estudou de medicina em Bordéus, na França. Participou de um grupo grupo de estudantesbrassileiros que entrou em contato com o líder da independência norte-americana, ThomasJefferson, pedindo apoio a uma revolta separatista brasileira. O contato foi feito por outroestudante, mas Barbosa Laje voltou para Minas espalhando a novidade do pedido de apoio. Emanálise da correspondência de Jefferson, o historiador Kenneth Maxwell aponta outro estudantecomo autor do contato e diz que o americano não se comprometeu a dar o apoio, chegandoinclusive a afirmar que o governo norte americano teria importantes laços econômicos comPortugal.Os 13 inconfidentes que já estavam no Panteão do Museu da InconfidênciaInácio José de Alvarenga Peixoto (1774-1793), advogado e dono de terras e escravos, foi umdos líderes intelectuais da conspiração, segundo alguns autores. Também foi renomado poeta. Ohistoriador André Figueiredo Rodrigues apurou que a mulher de Peixoto, Bárbara Heliodora,também poetisa, evitou o sequestro dos bens do marido e os administrou de forma a quepassaram a render mais. Alvarenga Peixoto morreu em Angola.Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). Advogado, exerceu magistratura em Portugal e naregião das Minas, onde se envolveu m polêmicas políticas. É o maior poeta e escritor doarcadismo brasileiro. Sob o nome idealizado de Dirceu ele eterniza seus poemas a Marília, umaadolescente por quem ele se apaixonou já quase quarentão. No exílio em Moçambique,hospedou-se na casa de um rico traficante de escravos e casou-se com sua filha. Exerceu cargosde procurador da Coroa e Fazenda e o de juiz de Alfândega em Moçambique. Patrono dacadeira 37 da Academia Brasileira de Letras.João da Costa Rodrigues (1748-?), fazendeiro e dono de hospedaria na estrada velha para oRio de Janeiro “que vendia a cachaça que pôs muitos a perder”, segundo comenta o historiadorJoão Pinto Furtado. Acusado de ter presenciado reuniões de inconfidentes e portanto estarmancomunado com elas. Tiradentes se hospedava em sua pousada. Morreu em Moçambique eseus restos se achavam sepultados na Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Mossurill.Francisco Antônio de Oliveira Lopes (1750-1794), coronel, fazendeiro e minerador. Suamulher, Hipólita Teixeira de Melo Carvalho, é autora do famoso bilhete: “Tiradentes foi presono Rio. Quem não é capaz para as coisas que não se meta nelas. É melhor morrer com honra queviver em desonra. Quem não reagir será preso. Convoquem a tropa do Serro e faça um VIVAAO POVO!” Há quem diga que ele tenha sido o mais idealista dos inconfidentes, pois eramuito rico e não estava preocupado com dívidas nem com a derrama. Morreu em Moçambique.Salvador Carvalho do Amaral Gurgel (1762-1812). Nasceu em Parati, no Rio de Janeiro,formou-se cirurgião pratico e mudou-se para o Rio de janeiro e depois para Minas, ondetrabalhava como cirurgião para uma tropa. Foi acusado de envolver-se com Tiradentes, “que lheteria emprestado um dicionário de francês para ler as novas teorias revolucionárias da Europa edos Estados Unidos”. Condenado a degredo perpétuo. Exerceu a cirurgia no exílio. Em 1804 foipara Moçambique para exercer o oficio de cirurgião-mor. Em 1807 já conseguira outros cargosimportantes. Morreu em 1812, aos 50 anos. Foi o último dos inconfidentes a morrer na Áfricaocidental.Vitoriano Gonçalves Veloso (1738-1803), alfaiate, era negro e ex-escravo que tinhaconseguido alforria. Era compadre do inconfidente Francisco Antonio de Oliveira Lopes, deFrancisco José de Melo e de dona Hipólita Francisca Teixeira de Melo, “a única mulher aparticipar ativamente do movimento da inconfidência”. Morreu em Moçambique.
  8. 8. 8Vicente Vieira da Mota (1733 ou 1735-1798), nasceu em Portugal e veio ainda jovem para oBrasil. Foi capitão da Companhia de Ordenanças de Minas novas e guarda-livros docomerciante João Rodrigues de Macedo, poderoso contratador que aderiu à inconfidência. Foidenunciado por Basílio de Brito. Morreu em Moçambique.Antônio Oliveira Lopes (1725 ou 1726-1794?), carpinteiro, consta ter sido aliciado porTiradentes. Era o mais idoso do grupo, com 63 anos quando foi degredado para Macuá, emMoçambique. Seus restos mortais vieram da Capela do Porto Belo em Zambeze.José Aires Gomes (1734-1794) , grande proprietário de terras dedicadas a agricultura, pecuária,mineração, foi um dos homens mais poderosos de seu tempo. Segundo o historiador AndréFigueiredo Rodrigues, a família conseguiu reaver os bens confiscados usando várias artimanhaslegais. Foi condenado a degredo perpétuo em Moçambique, onde morreu.Luiz Vaz de Toledo Pisa (1739-1807?) militar, nasceu em Taubaté. Seu irmão, o padre CarlosCorreia de Toledo e Melo, também se envolveu com a Inconfidência. Tinha minas de ouro eescravos. Quando foi preso, em 1789, era juiz dos órfãos da vila de São José e também sargentomor do regimento auxiliar de São João Del Rei, comandado pelo coronel Francisco Antônio deOliveira Lopes. Morreu em Angola e foi sepultado na Igreja dos Remédios.Domingos de Abreu Vieira (1724-1792), comerciante e tenente-coronel de origem portuguesa,administrava contratos de dízimos. Tinha 65 anos quando foi preso. Foi para o exílio em Angolaacompanhado do escravo Nicolau, que o acompanhou por toda a vida. Era solteiro. Ficou poucotempo no exílio, morrendo logo depois que chegou.Francisco de Paula Freire de Andrade (1752-1808), filho do 2º conde de Bobadela, foitenente coronel dos dragões de minas. Realizava reuniões com inconfidentes em sua casa. Foideportado para Moçambique. Morreu quando viajava de volta ao Brasil.José Álvares Maciel (1760-1804). Estudou em Portugal e na Inglaterra. Com outros estudantes,fez parte do grupo que procurou Thomas Jefferson pedindo apoio a uma insurgência no Brasil.Era especialista em mineralogia. Tornou-se amigo do governador de Angola e foi dono das maisimportantes fábricas de fundição no país. Morreu na cidade de Massangano.O trabalhoDepois de décadas de abandono burocrático, os ossos dos três últimos inconfidentes do Panteãocomeçaram a ser estudados pelo Museu de Ouro Preto em 1993. O professor de odontologia daUnicamp Eduardo Darude comandou os trabalhos. Ele reclama que teve de gastar dinheiro dopróprio bolso nas pesquisas. Mas os resultados foram tão corretos que permitiram a restauraçãodo rosto completo do inconfidente José Resende da Costa.O julgamento
  9. 9. 9A leitura da sentença foi a 18 de abril de 1792 e durou 18 horas, das oito da manhã até depoisdas duas da madrugada. Tiradentes foi condenado à forca e a ter a cabeça cortada e exibia sobreuma alta estaca, no centro de vila rica. Seu corpo também deveria ser esquartejado e as partesexpostas nas vias de acesso à capitania e nos lugares por ele mais freqüentados. “Sua casa emVila Rica deveria ser destruída e o solo salgado. Freire de Andrade, Álvares Maciel, AlvarengaPeixoto, Oliveira Lopes e Luís Vaz deviam, também, ser decapitados e esquartejados”, conta ohistoriador Kenneth Maxwell, em A Devassa da Devassa. O mesmo autor continua: “Segundouma testemunha: ...’então se viu representada a cena mais trágica e cômica que se podeimaginar. Mutuamente pediram perdão e o deram; porém cada um fazia por imputar a suaúltima infelicidade ao excessivo depoimento do outro. (...)’ Depois de quatro horas derecriminações recíprocas, os presos foram postos sob pesadas correntes ligadas às janelas dasala. Então, dramaticamente como fora planejada, a leitura da carta de clemência da rainhatransformou a situação. Todas as sentenças, salvo a do alferes Silva Xavier, foram comutadasem banimento.”Tiradentes foi enforcado às 11 horas da manhã de 21 de abril de 1792. Pouco depois seriaesquartejado.
  10. 10. 9A leitura da sentença foi a 18 de abril de 1792 e durou 18 horas, das oito da manhã até depoisdas duas da madrugada. Tiradentes foi condenado à forca e a ter a cabeça cortada e exibia sobreuma alta estaca, no centro de vila rica. Seu corpo também deveria ser esquartejado e as partesexpostas nas vias de acesso à capitania e nos lugares por ele mais freqüentados. “Sua casa emVila Rica deveria ser destruída e o solo salgado. Freire de Andrade, Álvares Maciel, AlvarengaPeixoto, Oliveira Lopes e Luís Vaz deviam, também, ser decapitados e esquartejados”, conta ohistoriador Kenneth Maxwell, em A Devassa da Devassa. O mesmo autor continua: “Segundouma testemunha: ...’então se viu representada a cena mais trágica e cômica que se podeimaginar. Mutuamente pediram perdão e o deram; porém cada um fazia por imputar a suaúltima infelicidade ao excessivo depoimento do outro. (...)’ Depois de quatro horas derecriminações recíprocas, os presos foram postos sob pesadas correntes ligadas às janelas dasala. Então, dramaticamente como fora planejada, a leitura da carta de clemência da rainhatransformou a situação. Todas as sentenças, salvo a do alferes Silva Xavier, foram comutadasem banimento.”Tiradentes foi enforcado às 11 horas da manhã de 21 de abril de 1792. Pouco depois seriaesquartejado.

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