Chapada diamantina, na bahia, um dos lugares mais bonitos do mundo

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Reportagem sobre Estiva e Remanso, dois locais incríveis que pouca gente conhece e ficam muito perto da cidade de Lençóis, a Paris do sertão baiano, tal o conforto que oferece e as atrações que a cercam

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Chapada diamantina, na bahia, um dos lugares mais bonitos do mundo

  1. 1. ESTIVA E REMANSO, LUGARES POUCO CONHECIDOS DA CHAPADA DIAMANTINA Estiva desvenda os segredos da Chapada Diamantina Casas antigas, discos voadores, cachoeiras desconhecidas e uma deliciosa comida sertaneja fazem parte dos espetaculares cenários de um lugar que não está nos roteiros turísticos. É mais um dos segredos perdidos na imensidão dos sertões da chapada. Prepare-se para entrar na máquina do tempo. Estamos em Estiva, na Chapada Diamantina, Bahia, um vilarejo entre a caatinga e a montanha que parou no tempo: são algumas ruas com mais de uma centena de casas antigas, com fogões de lenha, e muitas caminhadas que levam até as serras ao redor, com espetaculares cachoeiras e visuais paradisíacos, com direito a gravuras pré-históricas e caminhadas em paisagens que se derretem nas mãos. Um convite para um passeio, já que o clima é um dos melhores do mundo, com noites frias e dias amenos em pleno sertão. Apesar de ficar muito perto de Lençóis (70 quilômetros, 40 deles em estrada de terra) e de fazer parte do município, o vilarejo de Estiva é muito pouco conhecido pelos turistas que visitam a Chapada Diamantina. Habitado por famílias de ex-garimpeiros e pequenos agricultores, o vilarejo, rebatizado nos anos 60 com o nome de Afrânio Peixoto, mas que continua sendo chamado de Estiva pelos mais velhos, não tem hotéis nem restaurantes e não está nos pacotes turísticos comumente oferecidos na chapada. Exceto o ônibus escolar, nenhuma linha de transporte regular serve o vilarejo. Quem quiser ficar por lá, só acampando. (E são justamente dos que lá acampam os relatos mais frequentes das visões de objetos voadores não-identificados, os discos-voadores dos ufólogos.) Pode-se também alugar uma van em Lençóis e fazer passeios de um dia, encomendando o almoço na casa de alguma família, pois a gente da vila é muito hospitaleira. Estiva é um desses lugares da imensa chapada que oferecem muitas atrações, mas ainda continuam secretos e com natureza intocada. O tamanho da Chapada – duas vezes maior que o Estado do Rio de Janeiro – torna praticamente impossível conhecer todos os recantos escondidos desse paraíso. Mas Estiva com certeza é um deles. Constituída pela cadeia montanhosa do Espinhaço, que forma uma faixa estreita com mais de 300 quilômetros correndo de Sul para Norte paralela ao litoral, a Chapada Diamantinaé uma imensa faixa no coração do Brasil que “sobe” de Minas Gerais até o Piauí. O Parque Nacional da Chapada Diamantina, considerado grande, cobre apenas um pequeno trecho de 152 mil hectares dessa antiga região geológica do Brasil, que possui também algumas outras poucas áreas de proteção ambiental (as Apas, como a de Marimbus-Iraquara, onde fica Estiva). Percorrendo trilhas a partir de Estiva, por exemplo, é possível chegar a atrações praticamente desconhecidas e quase intocadas, como uma cachoeira tão alta como a da Fumaça (que é a segunda mais alta do Brasil e só foi descoberta recentemente, nos anos 60, por um aviador norte-americano chamado Glass e que ainda hoje mora na Chapada Diamantina). “A região de Estiva tem muitas atrações que podem ser percorridas em tranquilas caminhadas, mas é preciso disciplinar bem o turismo nessa área ainda virgem por causa da fragilidade dos ecossistemas, onde podem ser encontrados plantas e animais raros”, explica o secretário de Turismo de Lençóis, Heraldo Barbosa. Ele recomenda que os interessados em fazer passeios
  2. 2. em Estiva e nas serras da redondeza procurem a Secretaria de Turismo de Lençóis para fazer roteiros planejados. “O turismo nessa região, que fica a apenas 40 quilômetros do Aeroporto de Lençóis, deve sempre ser um pouco restrito, mais voltado para pesquisadores e estudiosos, pois ela faz parte da Área de Proteção Ambiental Marimbus-Iraquara, onde se concentra um dos maiores índices de biodiversidade da Chapada Diamantina, além de abrigar documentos arqueológicos de homens que lá viveram há pelo menos 7 mil anos.” O ambientalista norte-americano naturalizado brasileiro Roy Funch, um dos fundadores do Parque Nacional da Chapada Diamantina e secretário do Meio Ambiente de Lençóis, onde vive há mais de 30 anos, explica que a região de Estiva pode proporcionar pesquisas importantes em nível mundial, por causa do grande mosaico de ecossistemas diferentes que coabitam a distâncias de poucos metros (pedra, pântanos e campos gerais, por exemplo). Com suas casas bem conservadas e 600 habitantes na zona urbana, Estiva parece uma fotografia: conservou ruas, casas e quintais exatamente como eles eram no começo do século, quando a cidade surgiu e estagnou, por causa do esgotamento do ciclo do diamante. Os exuberantes jardins nos grandes quintais, onde a família trabalhava e se reunia, parecem ser os últimos testemunhos de uma riqueza passada. Estiva chegou a ter calçamento de madeira nas ruas, clubes e lojas elegantes. Como a vizinha Lençóis, a nova cidade tinha um comércio sofisticado, que ia de joalherias até importadoras de tecidos. (Quem conta isso é um farmacêutico que viveu e morreu em Estiva, deixando os apontamentos em dois grossos livros de anotações comerciais.) Tudo em Estiva é misterioso, e parece estar envolvido numa atmosfera de Idade Média: os muros de pedra nos quintais e na divisão dos terrenos, os antigos fogões de lenha, as duas fontes de água mineral bem ao lado da cidade e o antigo caminho de pedra, construído por escravos antes de o vilarejo existir. Como o lugar é alto (800 metros), o clima é úmido e as noites são frias. Algumas ruas da cidade ficam quase sempre na sombra de um afloramento de pedra dos contrafortes da serra. Rochas próximas, como o Barreiro, formam esculturas labirínticas que é possível percorrer em agradáveis caminhadas. São terrenos de tabatinga, um tipo de calcário que é possível amassar com as mãos usado para fazer cimento, caiação e utensílios de barro. As caminhadas ao redor do vilarejo, em qualquer direção, trazem sempre belas paisagens e subidas para as montanhas da serra. Outros terrenos mais resistentes, parecidos com os chapadões em miniatura, afloram sob a forma de lajes sobrepostas, como o Campo Escuro, formando grutas onde vemos pinturas rupestres com formas estilizadas de animais, peixes e mulheres grávidas. “Apesar de reconhecer sua importância científica, gosto de Estiva de outro jeito: é que eu gosto mesmo é do pessoal do vilarejo e vou lá nos fins de semana, para jogar bola com meus filhos e seus amigos”, conta Roy Funch, que vive nas montanhas de Lençóis. “Como acontece nos vilarejos pobres e esquecidos pelo sertão, as festas populares de Estiva são fantásticas, as melhores em seu gênero”, conta Funch. “Um exemplo são as festas juninas de estiva, com a tradicional fogueira e culinária própria.” Viagem pelo tempo: arquitetura sertaneja e pinturas rupestres Ruas com pequenas casas baixas que dão uma aula de arquitetura sertaneja, onde são usados desde pedra até barro cru, em tijolos ou taipa, e telhas antigas. No fim da rua principal, uma pequena construção robusta – a Igreja Senhor do Bonfim – finca seus alicereces no chão.
  3. 3. Assim é o pequeno distrito de Estiva, que ainda está para ser tombado pelo Patrimônio Histórico e onde os padrões arquitetônicos coloniais ainda convivem com os do começo deste século, testemunhando direta ou indiretamente o esplendor da mineração de ouro e diamantes no sertão. "Pretendemos revitalizar Estiva como cidade histórica e como estância climática hidromineral por causa de seu clima, classificado entre os melhores do mundo”, diz o prefeito de Lençóis, Emmanuel Calmon Maciel, de 50 anos. “Afinal, trata-se de um patrimônio do mundo, com ruas e casas que testemunham como era a vida dos antigos sertanejos.” O vilarejo tem uma temperatura bastante agradável para os padrões do sertão: dias amenos, noites frias e média de 15 graus no inverno. Ao lado do vilarejo, existem pelo menos duas fontes de águas minerais, a Bufinha (sulfurosa) e a Rachinha. “Aqui é o lugar ideal para parques aquáticos e para spas ou pousadas voltados para tratamentos de saúde”, visualiza Maciel. “Afinal, lá está cheio de plantas medicinais e até a terra é medicinal.” A origem do nome "Meus avós contavam que a vila se chamou Estiva por causa que as ruas ficavam barrentas com a chuva e era preciso cobri-las com paus roliços, chamados paus estivados, para as mulheres não sujarem os vestidos compridos que se usavam na época”, explica Ana Maciel de Souza, hoje com 88 anos. Apesar de estar quase cega por causa de uma catarata, dona Ana faz questão de mostrar seu jardim para os visitantes. É justamente nos jardins das casas de Estiva que se encontram os mais evidentes testemunhos da antiga riqueza que se evaporou com o esgotamento das jazidas de diamante. O clima faz com que as plantas cresçam e floresçam com extraordinária rapidez. “Aqui no meu quintal eu tenho rosas, copos-de-leite, margaridas gigantes, goivos, cosmos, líros, verbenas e malvas-roxas, que também servem como remédio.” São todas flores exóticas, mostrando que os habitantes de Estiva chegaram a estar em dia com as plantas da moda na jardinagem internacional, pois os copos de leite foram trazidos do México e as rosas, do Oriente, via Europa. “Pois não é que também acabaram trazendo para cá o melhor manjericão da Itália, a melhor sálvia da França? Tem tudo isso neste quintal, e também limão, mamão e laranja”, enumera dona Ana. “Estiva é um exemplo de arcaísmo arquitetônico para adequação ao clima, pois muitos de seus prédios seguem o padrão colonial de telhados de uma água que projetam beirais curtos na frente da casa”, conta a arquiteta e pesquisadora Nélia Paixão. “Isso é muito comum até o começo do século 20, quando as casas passaram a ter coberturas para o telhado na fachada, as platibandas, com calhas internas para recolher a água da chuva.” A maioria das construções de Estiva segue o modelo simples colonial, de casas com telhados desaguando diretamente na rua, sem platibanda, mas a construção mais intrigante é a da igreja, que segue o modelo das igrejas dos vilarejos do sertão erigidas durante o ciclo do ouro, no século 18: paredes muito grossas e construção robusta. “Existem relatos de que Estiva, hoje chamada Afrânio Peixoto, seja anterior a Lençóis, mas ainda falta fazer mais estudos”, conta Nélia. Em seu diário, guardado por mestre Oswaldo Sena Pereira, um dos homens mais cultos da cidade, o farmacêutico que viveu em Estiva conta que a cidade surgiu em 1902 e que a igreja tem paredes tão grossas porque a chuva derretia suas paredes e ela teve de ser reconstruída várias vezes até chegarem a essa solução. O mistério da Estrada Real “O relato pode ser verdadeiro. Mas será que o lugar não foi ocupado antes e abandonado?”, pergunta Nélia Paixão. “Outro mistério é a estrada de pedra perto de Estiva, pois dizem que foi mandada construir pelo Visconde de Sabugosa, nos tempos do Império.” O fato é que, já
  4. 4. no século 19, segundo alguns relatos, o local servia de veraneio para famílias ricas que tinham fazendas na região. No começo do século, Estiva foi palco de guerras entre jagunços, que formavam as tropas dos coronéis. “Alguns jagunços da região de Estiva ficaram famosos,como Azulão, João Requizado e Montalvão, que trabalhavam para os coronéis”, conta Heraldo Barbosa. “Quando havia `barulho` (guerra de jagunços), o povo nem saía de casa. Era tiro de tocaia na certa”, diz dona Ana de Estiva. “Esse negócio de polícia e Exército só chegou aqui depois de 1930, quando Getúlio Vargas mandou prender os coronéis. Foi uma confusão danada”, diz dona Ana, que, junto com suas filhas, prepara no fogão de lenha encomendas de godó de banana com arroz, farinha e carne para os eventuais turistas. Para beber, refresco de maracujá-do-mato. Se Estiva é um prato cheio pra pesquisadores de história e antropologia, a natureza a seu redor é um paraíso para geólogos, botânicos, zoólogos e quem quer que goste das caminhadas do ecoturismo. Os terrenos têm 1,7 bilhão de anos e já existiam quando o Brasil esteve unido com a África, antes da separação dos continentes, há mais ou menos 200 milhões de anos. Plantas e animais especializados abrigaram-se em nichos específicos, como as rochas onde nascem bromélias, estranhas orquídeas, lírios e canelas-de-ema, os areais com dunas onde vivem cactos, trepadeiras e árvores de caule subterrâneo, que deixam aflorar pequenos galhos floridos na época das chuvas, espalhados num raio de muitos metros. Isso sem falar nos banhados, terrenos ácidos cobertos de musgo (turfa) onde vivem plantas carnívoras como as droseras, que parecem pequenas rosetas vermelhas. “Além das canelasde-ema, algumas orquídeas desta região existem também na África, comprovando que os continentes foram unidos”, explica o botânico Antônio Toscano de Brito, que mora na Chapada Diamantina, na cidade de Rio de Contas, e organizou o Orquidário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. A fauna também é muito variada, com dezenas de espécies de pássaros e muitos pequenos répteis, tartarugas, roedores que se refugiam nas serras. Já foram encontrados na área muitos fósseis e objetos pré-históricos, como pontas de flechas de pedra polida datadas de 7 mil anos atrás. Box: Receitas de Estiva Refogado de palma: chamusque os espinhos de 1,5 kg de palmas no fogo, lave bem, pique e aferveente para tirar a baba. Escorra e lave novamente. Leve ao fogo acrescentando um pouco de água, 3 dentes de alho picados, meia colher (chá) de pimenta-do-reino, 1 colher (chá) de cominho, 2 colheres (chá) de sal, 1 colher (chá) de colorau ou açafrão. Cozinhe em fogo baixo e no final acrescente um pouco de cheiro-verde, tomate e pimentão picados, retirando do fogo quando o tomate estiver macio. Godó de banana: descasque 12 bananas-d’água verdes debaixo da torneira para a faca não grudar. Pique e despeje sobre 300 gramas de carne seca ou bacalhau refogados num pouco de óleo ou banha de coco. Acrescente os mesmos temperos da receita anterior e leve ao fogo bem baixo por alguns minutos, até atingir a consistência desejada. Se quiser que a banana se torne um creme, acrescente água e deixe cozinhar mais tempo. Sirva com arroz, farinha e salada temperada com coentro. Como chegar De ônibus a partir de Salvador Real Expresso, fone, (071), (071) 358-1591 - a passagem Salvador-Lençóis custa R$ 20.
  5. 5. De avião São Paulo-Lençóis Multitravel, fone (011) 820-5727. Faz pacotes completos e básicos de uma semana ou mais, incluindo passagem, passeios e hospedagem. Passagem São Paulo Lençóis, ida e volta, R$ 542, mais R$ 12,60 de taxa de embarque. Parcela em duas vezes sem juros ou em planos de até seis vezes. Onde ficar Com dezenas de bons hotéis e pousadas, a cidade de Lençóis é a que tem a melhor infraestrutura da Chapada Diamantina. O hotel mais luxuoso é o Portal de Lençóis, fone (075) 334-1233. Também de alto nível é o Hotel Pousada de Lençóis, fone (075) 334-1122. Mas hotéis mais modestos também oferecem conforto, como o Hotel Colonial, fone (075) 3341114. Quem dispensar o luxo e quiser pagar menos pode ficar em pousadas como a Lavra Amor, fone (075) 334-1280 e a Pousada Diamantina, fone (075) 334-1314, onde ficam os comerciantes que viajam pela região. Onde comer Restaurante Gameleira Comida por quilo no Posto de Tanquinho Remanso: os segredos do sertão A Chapada Diamantina também esconde verdadeiras jóias pouco conhecidas dos turistas, como o Remanso. Outros locais mais acessíveis, mas igualmente quase desconhecidos e que escondem fantásticas surpresas podem ser visitados em curtas viagens de carro a partir de Lençóis. Dois dos mais interessantes nem constam dos guias turísticos, mas proporcionam viagens inesquecíveis: os povoados de Remanso e Estiva, situados a sudeste e nordeste da cidade, respectivamente. Distante 20 quilômetros de Lençóis, a meio caminho da cidade de Andaraí, o vilarejo do Remanso parece uma miragem em pleno sertão, pois fica nas margens de um imenso pantanal com 1,2 mil quilômetros quadrados, semelhante ao de Mato Grosso e povoado por jacarés e centenas de espécies de peixes, aves e mamíferos. Batizado pelo povo com o nome de Marimbus, esse pantanal banha a borda leste da chapada e é formado pelo encontro dos Rios Santo Antônio, Utinga e Paraguaçu, mais ao sul, na direção do município de Andaraí. A vegetação proporciona um espetáculo à parte, pois esse pantanal é coberto de papiros (os marimbus) semelhantes aos que existem no Egito e que forneceram alguns dos pergaminhos onde foram escritos os originais da Bíblia. Sua ocorrência seria mais um indício da antiga ligação entre os continentes africano e americano. Também chamados de taboas ou peris, os marimbus se enraízam na lama do fundo dos brejos e crescem para mais de 2 metros acima do nível da água. Também são comuns nessas águas os golfões (parentes gigantes dos aguapés que produzem belos cachos de flores azuis), os nenúfares brancos, parecidos com vitórias-régias em miniatura, e as cebolinhas, que enfeitam as margens do pantanal com um dilúvio de cachos de belas e perfumadas flores brancas. Navegando pelos Marimbus, por entre os Rio Santo Antônio e Utinga, é possível chegar até Barra Aberta, onde ficam as cachoeiras do Rio Roncador, com suas praias de areia branca e vestígios de garimpo de diamante. A Chapada Diamantina inteira foi revirada por garimpeiros por mais de um século, resultando em várias alterações da paisagem, que vão desde o desvio de leito de rios ao uso de bombas feitas de motores de
  6. 6. caminhão e ao garimpo manual (o menos danoso aos ecossistemas da região). Vestígios de todos esses garimpos podem ser encontrados na região do Roncador. O principal vestígio dos garimpos manuais são montinhos de pedrinhas e cristais com mais ou menos um metro de circunferência depositados por grandes “peneiras” de madeira, as “bateias”. Por serem mais pesados que as outras pedras, os diamantes ficavam no alto desses montinhos (fundo da bateia), podendo ser recolhidos com facilidade. Além dos garimpeiros, outros importantes personagens da Chapada Diamantina são os pescadores. É o caso do povo que habita o vilarejo do Remanso, e que tem uma história curiosa: são atualmente 42 famílias (236 pessoas, incluindo 84 crianças com menos de 10 anos), todas aparentadas entre si e descendentes de índios e africanos que lá se estabeleceram no ano de 1942. O povoado foi fundado por Manoel Pereira da Silva, hoje com 72 anos, seu irmão, Inocêncio, hoje com 60 anos, e três primos, com suas respectivas famílias. “Meu pai nasceu livre, em 1899, e minha mãe nasceu em 1904”, conta Manoel Pereira, conhecido como “seu” Manezinho do Remanso. “Mas meu bisavô era índio e foi 'pegado' no mato a dente de cachorro”, conta. “Na senzala, ele se casou com minha bisavó, que veio da África.” “Aqui somos todos primos, filhos de primos que casaram com primos”, conta “seu” Manezinho. “Meu avô era pescador e de pai para filho aqui todo mundo ‚ pescador”, explica o fundador do Remanso. “No começo, a vida era muito difícil. A gente pescava tucunarés e crumatás, guardava os peixes num viveiro e no dia de feira prendia tudo pela boca num cambão (comprida vara de madeira) e saía ainda de noite, a pé, para vender lá em Lençóis.” MARIMBUS (PANTANAL DO REMANSO) Fauna: peixes - acari (tipo de cascudo), apanhari, camarão-de-águadoce, crumatá (também chamado bate-papo), cumbá, jundiá, piá, piaba, piranha, tucunaré (o mesmo da Amazônia, indicando uma talvez milenar transição entre Mata Atlântica e Amazônia); pássaros: arrepina, avinhado, beijaflores, bicudo, caboclinho (de plumagem cinza e canto muito afinado), canário-da-terra, carão (também chamado martim-pescador, ave de plumagem azul com coleira e bico brancos, que defeca ao sobrevoar o rio para atrair os peixes que se alimentam de seus excrementos e fisgá-los com seu longo bico), carcará (espécie de gavião do sertão), chorão, coleira, coqui, curió, estêvão (que é chamado pixarro no Sul e tem plumagem cinza-esverdeada), galo-de-campina, garça, gavião, guacho (de plumagem preta e vermelha que se alimenta dos cocos das palmeiras), lavadeira (de plumagem preta e branca), nambu, patativa, pica-pau (faz ninhos dentro dos troncos das árvores e come cupins), pintassilgo, sangue-de-boi (ave de cor pardo-cinza, do tamamho do azulão), xorró (de plumagem cinza); répteis - cobras como cabeça-de-capanga*, cascavel*, cobra-d'agua, cobra-de-espada, coral*, jibóia, jaracuçu-utinga*, saramanta, sucuri (chega a 18 metros e também recebe o nome popular de zurru, porque ronca debaixo da água quando aparecem estranhos; come cachorros, bezerros, porcos); répteis como jacarés e teiús (jacarezinhos que podem chegar a quatro quilos de peso; quando são picados por cobras, os teiús comem avidamente o rizoma de uma planta da região, a batata-de-teiú); batráquios, como gia (um tipo de rã),
  7. 7. mamíferos como várias espécies de macacos (mico e macaco-prego, por exemplo) * Espécies de cobras muito venenosas Flora: "cebolinha" (espécie aquática que dá cachos de flores brancas), dandá (usada para tratar disenteria de crianças), garapiá (com folhas tríplices, em forma de triângulo, e usado contra febre), orelha-de-onça (um tipo de aguapé‚ também chamado golfão), junco (as raízes são usadas para tratar doenças do pulmão), taboa (também chamada peri ou marimbu, é a planta que dá nome ao pantanal baiano por causa de seu alto índice de ocorrência; pertence à família das Ciperáceas e é uma parente próxima do papiro egípcio), grande variedade de árvores nas ilhas entre os rios. Fonte: dados verificados em observação direta e fornecidos à reportagem por Manezinho do Remanso e vários de seus filhos e netos (pantanal dos Marimbus), pelo motorista Natalino Damasceno e pelos guias Luiz Krug, José Américo, João da Gia e Sandro Rogério (matas e campos gerais e rupestres). Também foi consultado o livro Um Guia para o Visitante da Chapada Diamantina, de Roy Funch, onde foram obtidos todos os nomes científicos dos animais citados.

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