Matéria qorpo santo gladis

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Matéria qorpo santo gladis

  1. 1. Há quase dois séculos nascia um ilustre triunfense incompreendido em vida e celebrado após a morte Gladis Maia do Decálogo do Jornalista “Sempre foi nossa opinião que para alguém poder redigir uma folha deve possuir ou reunir em si as seguintes qualidades ou dons: 1ª – Não mentir; não injuriar; nem caluniar a pessoa alguma. 2ª - Ter tido sempre ilibada conduta, quer como homem público se o tem sido; quer como homem particular. (...) 6ª - Conservar sempre certa firmeza de Caráter; brio; e dignidade.7ª – Que seja homem dotado de probidade e honra. 8ª - Que tenha a precisa coragem para censurar os maus atos , e a indispensável imparcialidade para louvar os bons. 9ª - Que tenha sempre diante dos olhos – mais o interesse público que o particular, não vendendo por isso mesmo as colunas do seu jornal – a miseráveis, ou malignos especuladores.”Qorpo-Santo Cercado de riso e sarcasmo durante o seu meio século de existência, nascia há 179 anos atrás, no dia 19 de abril de 1829, em nossa cidade, então chamada de Vila do Triunfo, um mito que se chamou na sua ortografia particular: Jozè Joaquim de Qampos Leão Qorpo-Santo. Falava- se dele como um louco, que escreveu poesias doidivanas. Escarnecido em vida, não foi poupado nem mesmo depois de morto, até que a crítica teatral o designasse como um gênio adiante de sua época e por isso mesmo incompreendido a seu tempo. Insano ou não – quem poderá dizer com certeza que não o é? - o certo é que sua obra chegou até nós, mais viva do que nunca, e faz sucesso pelos palcos de muitos teatros em diversos países, tal qual a França.
  2. 2. Nada ao gosto da época em que viveu, suas comédias não eram românticas, nem no tema, nem na linguagem, muito menos na atmosfera gerada. Apresentavam situações conflituosas peculiares à sociedade gaúcha do século XIX. Sob o ponto de vista da expressão verbal, seus textos são verdadeiramente surpreendentes: desprezam por completo a linguagem ornamental, os rapapés tão comuns ao melhor estilo dos escritores da época. Sua literatura eivada de um fundo autobiográfico expressa-se em um tom cru e áspero. Um realista que parece vingar-se da sociedade e dos desacertos humanos. “O louco manso das margens do Guaíba” emprega palavras ou expressões cujo sentido nem sempre prima pela semântica, mas pelo valor melódico encantatório, segundo Guilhermino César, um estudioso de sua obra. O riso que o cercou, o escárnio que perseguiu Qorpo-Santo e a pouca cultura do meio, não deixaram perceber que ele havia alcançado, por entre as pausas da sua “insanidade” uma coisa raríssima: autenticidade literária. Nada por baixo dos panos, em sentido metafórico ou literal. Ao contrário dos seus contemporâneos, sua literatura busca motivação e moldura no erotismo, sem disfarces. Pressionado pelos tabus, pelas praxes sexuais e cânones morais da sociedade brasileira escravocrata e latifundiária do século XIX, o mestre-escola fez de sua obra de dramaturgo o estuário dos conflitos de sua geração, de modo confuso e tumultuário. Ninguém fôra tão longe antes dele, no seu impulso confessional. Os autores da sua época escreviam tal qual se apresentavam os álbuns de família, bem arrumadinhos e posados, oferecendo um retrato convencional de si mesmos e de seus parentes. Dêem-no como genial ou como louco, deve-se no entanto ressaltar a essencial qualidade de Qorpo-Santo: a sua singularidade, palavra definida por Machado de Assis como “o espantante agradável”; e por Arthur de Oliveira como um “saco de espantos”. Ele foi implacável no combate à desordem ortográfica vigente em sua época, reinante ainda em nossos dias. Após escrever muitas de suas peças, colocando a letra que mais se aproximava do fonema para grafar as palavras, voltou a encarar o assunto com o objetivo de traçar regras práticas que levassem à simplificação gradual da ortografia portuguesa, coisa que intelectuais do porte de um Howais, no Brasil e tantos outros em Portugal tentaram há pouco e ainda não o conseguiram... Poeta, professor, jornalista, teatrólogo, editor, Qorpo-Santo escreveu muito em sua fúria incontida, pondo a nu coisas que o teatro brasileiro ignorava à sua época, como por exemplo a homossexualidade e fundou um gênero: o teatro nonsense ou teatro do absurdo, descoberto pelos europeus muitos anos mais tarde. Reivindicamos para o homem de letras da Vila do Triunfo, um lugar entre os maiores dramaturgos da Língua Portuguesa, merecido, com certeza. Que de onde ele esteja proteja aos seus conterrâneos em geral, e em especial, àqueles que querem desnudar a sua vida e obra, para vê-la com o reconhecimento merecido em sua terra natal, através da Fundação que leva o seu nome. Publicado em abril de 2008, nos jornais O farrapo e Sentinela do Jacuí, de Triunfo/RS.

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