Formação continuada de professores de química

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Formação continuada de professores de química

  1. 1. RELATOS DE SALA DE AULA Formação Continuada de professores de química Maria Emília Caixeta de Castro Lima Esta seção é um espaço para professores e professoras cional, diretores de unidades, vice- socializarem suas experiências relacionadas ao Ensino de diretores e orientadores educacio- Química. Ao se dar atenção às vivências de sala de aula, nais). O serviço de orientação educa- busca-se intensificar a reflexão sobre as práticas, como cional de cada escola desenvolve um forma de melhorá-las. trabalho de suporte junto aos alunos, Este número de Química Nova na Escola traz o relato de uma no que se refere ao entendimento da experiência de educação continuada desenvolvida junto aos proposta, enfocando os objetivos a se- professores e professoras de Química do nível médio, com a rem alcançados e a metodologia ado- intenção de problematizar a validade e o alcance dessa tada. Esse serviço funciona, ainda, co- modalidade de formação na construção de uma nova prática mo mediador dos conflitos surgidos. pedagógica para o Ensino de Química. Existem duas modalidades de reuniões de formação continuada. No formação continuada, professor de química, ensino de química município de Contagem, no Centro de Capacitação Vasco Pinto, ocorrem as atividades-suporte do trabalho do pro- A12 Fundação de Ensino de fixo da semana. O dia de reunião do fessor, desde a preparação das aulas Contagem (Funec) é uma grupo de Química já é previsto no até a elaboração de instrumentos de instituição pública municipal horário de aula das escolas e nenhum avaliação. Essas reuniões são remu- responsável pelo ensino médio em professor deve lecionar nesse dia. neradas, sendo coordenadas pela Contagem, Minas Gerais, sendo cons- Assim, os alunos não ficam sem aula autora deste artigo. Já na UFMG, as tituída por 16 escolas espalhadas pelo e os professores estão disponíveis reuniões visam a discussão dos município, e atendendo aproximada- para investir em sua recursos instrucionais mente 12.000 alunos. Ao todo, 43 qualificação. Essa É no processo do produzidos e dos professores de Química lecionam nes- mesma sistemática confronto de idéias que o fundamentos nortea- sas escolas, sendo a maioria deles ocorre com outras aluno terá oportunidade dores desse material, concursados. A Funec conta com disciplinas do currículo. de aprimorar suas sendo coordenadas vários cursos técnicos profissionali- O horário das reuniões concepções e se pelo Prof. Eduardo zantes de nível médio, a saber: é dedicado ao encon- aproximar cada vez Fleury Mortimer. Uma Contabilidade, Secretariado, Adminis- tro dos professores mais do mundo da vez que não são remu- tração, Processamento de Dados, Quí- com os assessores. Química. Ao longo da neradas, essas reu- mica, Patologia Clínica, Segurança pa- Como o trabalho história, essa é a forma niões ocorrem em ra o Trabalho e Magistério, além dos está sendo pensado como a ciência se caráter facultativo, o cursos regulares, sem habilitação. levando em conta uma desenvolve. Por isso, que não tem compro- O trabalho de formação continuada1 realidade objetiva, não há que se temer metido a freqüência às com professores de Química, na todas as atividades os erros, mas sim mesmas. Como os Funec, teve início em 1993, quando foi propostas são compa- aprender a conviver com pressupostos teóricos definido o fim das coordenações de tíveis com a carga eles — e a superá-los que orientam nossa área, optando-se por um trabalho de horária, a base material prática, o planejamen- assessoria pedagógica. Desde então e a infra-estrutura escolar de que to do trabalho docente, a produção de ocorrem reuniões semanais com dura- dispõem alunos e professores. Toda recursos instrucionais e a aplicação ção de cinco horas, para planejamento a infra-estrutura atualmente disponível dos mesmos estão intimamente e implementação da proposta peda- ao trabalho de Química foi resultado ligados, nosso trabalho de formação gógica. Com o passar do tempo, sen- de uma demanda concreta, pensada continuada se confunde com o tra- tiu-se a necessidade de ampliar o tra- e discutida com a comunidade esco- balho de produção daqueles recursos. balho do grupo e dedicar outras cinco lar e com a Secretaria Municipal de O trabalho de assessoria visa mais horas semanais para viabilizar a pro- Educação. que o simples treinamento para uso dução de recursos instrucionais. A implementação dessa proposta do material em sala de aula. As reu- As reuniões de formação continua- é compartilhada entre todos os niões abordam temas relacionados à da são remuneradas e ocorrem em dia agentes pedagógicos (diretor educa- educação em geral, epistemologia da QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Formação Continuada de Professores N° 4, NOVEMBRO 1996
  2. 2. Química e conteúdos específicos a fim, para todos os alunos dos diferentes Química foi implantado em seis escolas.serem abordados em sala de aula. cursos, futuros cidadãos de uma Esse era discutido por todos os profes-Busca-se avançar em alguns pressu- sociedade científica e tecnológica. As- sores de Química, mas aplicado apenaspostos do construtivismo, pela incor- sim, um novo programa de Química foi por alguns que trabalhavam nas esco-poração de críticas a ele formuladas discutido, procurando dar uma visão las inicialmente escolhidas. Nas demaisquanto ao processo de ensino e geral para os alunos de primeiro ano, escolas os professores utilizavam-se deaprendizagem. Objetivamos, antes de de modo que aqueles que não viessem diferentes abordagens, discutidas comtudo, promover uma formação teórica a estudar Química nas séries posterio- a assessoria.do professor que per- res tivessem um contato Ao final do ano de 1994, o conjuntomita que ele desenvol- O pressuposto básico mais global com essa de atividades foi impresso em gráficava a capacidade críti- do modelo de formação disciplina. e transformou-se no livro intituladoca, a auto-reflexão e a continuada é a idéia de Após a definição do Introdução ao estudo da química: pro-autonomia de traba- que o professor não é programa, surgiu um priedades dos materiais, reações quí-lho. objeto do planejamento novo problema: Que li- micas e teoria da matéria, versão rosa. O pressuposto bá- do trabalho, mas agente vro didático seria capaz Em 1995 esse livro foi adotado emsico dessa experiência ativo desse processo. de materializar essa todas as escolas da Funec. As discus-de formação continua- Nesta perspectiva proposta já vislumbra- sões conjuntas sobre a viabilidade eda é a idéia de que o busca-se resgatar, no da? Após uma exaus- adequação das atividades propostasprofessor não é objeto professor, o papel de tiva análise dos livros indicou a necessidade de se fazerdo planejamento do sujeito do processo do disponíveis no merca- algumas modificações no livro. Surgiutrabalho, mas agente conhecimento do, percebeu-se que também a demanda de produzir oativo desse processo. nosso projeto de ensino material didático para o segundo eNesta perspectiva, busca-se resgatar, de Química não estava contemplado terceiro ano do nível médio.no professor, o papel de sujeito do em nenhum deles. Em 1996, após revisão e incorpo-processo do conhecimento. Cotidia- Decidiu-se, então, adotar, tempo- ração de atividades e textos comple-namente são discutidos e definidos rariamente, o livro do Telecurso 2 o mentares, esse livro foi impresso na 13junto com eles os objetivos do traba- Grau, por ser o que mais se apro- versão azul (Mortimer, 1996). O livro dalho, as estratégias de ensino a serem ximava dos critérios estabelecidos: segunda série está em fase experi-adotadas, as reformulações das ativi- textos explicativos e um pouco mais mental e sua versão definitiva estádades propostas, o planejamento e articulados com o cotidiano; priorida- planejada para 1997. A meta para estereplanejamento das aulas, os critérios de à construção conceitual em detri- ano é delinear uma proposta dee os instrumentos de avaliação, as con- mento de extensas listas de exercícios trabalho para a terceira série do ensinodutas possíveis ante a complexidade de que visam apenas ao treinamento; médio e dar uma versão ‘final’ para onossa tarefa como educadores, etc. conteúdos das três séries do ensino material da segunda série . médio para o professor compor o seu As atividades previstas nessesA assessoria aos professores curso; fácil acesso para estudantes de materiais didáticos são estruturadase a produção de recursos baixa renda; e demanda de estudos e de modo que os alunos discutam eminstrucionais elaborações complementares para as grupo e apresentem interpretações O fato da Funec contar com vários aulas, pelos professores. Esse livro próprias para fenômenos simples,cursos técnicos profissionalizantes, seria adotado em caráter provisório, mas importantes para o entendimentotem implicações importantes para a enquanto trabalhássemos na produ- da Química. A participação de cadadefinição dos programas de Química. ção de material próprio, levando em um nas discussões é essencial, poisA maioria dos alunos desses cursos, conta as especificidades dos alunos acreditamos que aprender Química é,a partir do segundo ano do ensino da Funec. Durante o ano de 1994 pas- de certa forma, aprender a falar commédio, não tem química em sua grade samos a atuar em duas frentes. Uma a Química e da Química.curricular. Antes de iniciarmos nosso delas referiu-se ao planejamento do A questão do erro ganha uma novatrabalho de formação continuada, o trabalho através da utilização de dimensão, uma vez que o professorensino de Química ministrado para materiais didáticos alternativos, dispo- passa a não exigir dos estudantesesses alunos restringia-se à parte do níveis no mercado, visando comple- apenas respostas certas às questõesconteúdo destinado ao primeiro ano mentar o trabalho do professor de pla- formuladas. É no processo do confron-nos livros didáticos tradicionais. Isso nejamento das aulas. A outra destinou- to de idéias que o aluno terá oportuni-impedia que os alunos da maioria dos se à produção e teste do material que, dade de aprimorar suas concepçõescursos técnicos pudessem ter uma viria a ser oficial para toda a Funec a e se aproximar cada vez mais do mun-visão geral da Química. partir do ano seguinte. do da Química. Ao longo da história, Diante de tal realidade, no início do Assim em 1994, iniciou-se a produ- essa é a forma como a ciência setrabalho de assessoria, sentimos a ne- ção do material a ser utilizado na Funec, desenvolve. Por isso, não há que secessidade de se pensar um curso de em turmas piloto. O material produzido temer os erros, mas sim aprender aQuímica que tivesse começo, meio e para o projeto alternativo de ensino de conviver com eles e a superá-los. QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Formação Continuada de Professores N° 4, NOVEMBRO 1996
  3. 3. O papel da experimentação é inter- que o professor precisa ‘saber’ e ‘sa- para serem superados dentro do pró- rogar a natureza e gerar discussões ber fazer’ tornaram-se tão grandes que prio grupo, seja na proposição de no- sobre os fenômenos de interesse da foi necessário constituir e manter vas atividades e/ou de estratégias de Química. Os materiais e equipamentos grupos permanentes de estudo e ensino, seja na discussão da inade- são simples e podem ser utilizados em pesquisa para que os professores quação das mesmas. sala de aula. O objetivo da proposta é adquirissem os instrumentos necessá- O trabalho em grupo alimenta e promover uma integração entre teoria rios para assumir os desafios que se reafirma a validade de assumir atitudes e prática no ensino de Química. interpõem em suas práticas. que se contraponham às tradicionais O trabalho considera as pesquisas Nos dizeres de Carvalho e Gil-Pé- práticas de ensino baseadas no modelo sobre cognição em sala de aula e tem rez (1993), o trabalho docente tampou- de transmissão-recepção. Consideran- como foco a forma como os alunos co é, ou melhor, não deveria ser uma do que guardamos uma ‘concepção constróem o conhecimento químico, o tarefa isolada, e nenhum professor de- ambientalista’ do que é ser um bom pro- relacionamento das concepções dos ve se sentir vencido por um conjunto fessor ou professora, criada a partir de estudantes com o conhecimento de saberes que, com certeza, ultrapas- reiteradas experiências enquanto científico e as principais dificuldades a sam as possibilidades de um ser hu- alunos, faz-se necessária uma vivência serem superadas no processo ensino- mano. O essencial é que se possa ter também longa de novas práticas peda- aprendizagem. As pesquisas têm mos- um trabalho coletivo em todo o proces- gógicas para que se possa questionar trado que as concepções alternativas so de ensino/aprendizagem: da prepa- o senso comum do professor ou pro- dos estudantes influenciam o aprendi- ração das aulas até a avaliação (p.18). fessora sobre o ensino de Ciências e zado dos conceitos científicos. No Nessa perspectiva, a proposta de Química. Isso obriga a que as propostas entanto, não há um modelo único de formação continuada vem se colocan- de renovação sejam também vívidas, como lidar com essas concepções na do como uma opção aos cursos de vistas em ação: somente assim torna- sala de aula. Isso reforça a necessidade curta duração, com objetivos imedia- se possível que estas propostas tenham de se discutir os resultados das pes- tos de treinamento de professores. efetividade e que os futuros professores quisas e os pressupostos teóricos das Esses cursos de treinamento, tradicio- (ou aqueles que estão já em exercício)14 atividades propostas com os professo- nalmente conhecidos pelos termos rompam com a visão unilateral da res, de modo que eles possam ir adqui- ‘capacitação’1 e ‘reciclagem’, entre docência recebida até o momento. rindo novas bases para lidar com o outros, parecem não ter na sala de (Carvalho e Gil-Pérez, 1993, p. 40). fenômeno complexo da sala de aula. aula o impacto que se espera deles. A ruptura que se deseja e se espera Todos os temas fundamentais para Isso ocorre, em primeiro lugar, porque do professor num trabalho de forma- uma visão de conjunto as atividades concen- ção continuada é resultado de um pro- da Química são con- tram-se em um curto cesso longo e demorado. Implica não O trabalho em grupo templados no trabalho período de tempo, não só no reconhecimento dos limites das alimenta e reafirma a proposto para a primei- havendo tempo para o práticas pedagógicas tradicionais em validade de assumir ra série do ensino mé- professor compreen- que foi formado e que agora reproduz, atitudes que se dio. O currículo desen- der as questões em mas também na vivência de propostas contraponham às volve-se em espiral, o tradicionais práticas de discussão, apropriar- inovadoras. Nesse processo, faz-se que permite aos alunos se delas e rever com necessário resgatar no mesmo o ca- ensino baseadas no que continuarão a estu- modelo de transmissão- base nelas sua prática ráter dinâmico do conhecimento e a dar Química nas séries pedagógica. Em se- provisoriedade das propostas que se recepção subseqüentes, apro- gundo lugar, o profes- delineiam cotidianamente. O contínuo fundar os conhecimen- sor depara-se cotidia- aperfeiçoamento e a busca de novas tos discutidos mais superficialmente namente com novos desafios que, respostas para velhas questões exi- no primeiro ano. Assim temas já sozinho, nem sempre consegue supe- gem que, enquanto desempenharmos abordados no primeiro ano voltam a rar, por mais completa que tenha sido a função de professores, sejamos tam- ser objeto de estudo no segundo ano, sua formação. Um último motivo, mas bém pesquisadores e aprendizes. porém, ganham em profundidade não menos importante, é o fato de que É a compreensão sobre nosso tra- naqueles aspectos trabalhados de o novo sempre assume uma forma balho enquanto professores e profes- forma genérica anteriormente. assustadora à natureza humana. soras dos cursos de licenciatura que fun- Em nossa experiência, o elemento damenta e justifica a proposta de asses- O papel, a importância e o inovador é a reflexão conjunta e a soramento de professores de Química. lugar da formação proposição coletiva e compartilhada O estudante de licenciatura — futuro pro- continuada de professores de saídas para os desafios que vão fessor — que recebemos em nossos cur- A atividade de um professor ou pro- surgindo no dia-a-dia do trabalho es- sos já traz inúmeras concepções alterna- fessora, como aponta a literatura atual, colar. Essa parceria cotidiana possibi- tivas sobre ensino e aprendizagem, e ao vai além do simples ato de ministrar lita também um aprendizado mútuo término do curso não estará pronto e aulas (Carvalho, 1992; Carvalho & Gil- entre assessoria e assessorados, visto formado, num sentido definitivo, para o Pérez, 1993). As exigências quanto ao que os acertos e insucessos voltam exercício da profissão. QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Formação Continuada de Professores N° 4, NOVEMBRO 1996
  4. 4. Avaliando o trabalho de nossos encontros, os professores É um trabalho muito interessante,formação continuada externam seu sentimento pelo grupo e onde discutimos, planejamos e pre- a importância do mesmo na formação paramos o material para as aulas.Os alunos profissional e na construção da di- Tive uma mudança ‘radical’ no A construção de um trabalho de mensão afetiva do trabalho. A relação método de trabalho. Antes, ogrupo e em grupo com estudantes tem método tradicional onde o aluno de parceria estabelecida entre pares ese mostrado rica em resultados. Quem aprendia alguma coisa; hoje, uma assessoria pedagógica permitenunca ouviu dizer que a Química é desenvolver a responsabilidade coletiva nova concepção de trabalho, maischata e enfatiza a memorização? a partir das experiências individuais. ampla, com debates, discussõesSurpreendentemente, encontramos em sala de aula, práticas, vídeo enas falas dos alunos uma nova con- Participo do grupo com entusiasmo e dedicação, pois aqui todos um relacionamento mais próximocepção de Química e um renovado entre professor e aluno. Analisando, podem colocar suas dúvidas, apren-interesse pelas aulas. Os alunos pas- concluí que o trabalho direcionado, dendo a valorizar e compreendersaram a ter uma outra imagem dos coletivo, tem maior eficiência no mais o aluno e o professor. No nossoprofessores de Química e surgiu um processo ensino-aprendizagem. trabalho houve um avanço em todosmelhor relacionamento professor- Na dinâmica de grupo, as concep- os sentidos: preparação de aulas,aluno. ções subjacentes ao trabalho ou que avaliação, revisão dos conteúdos, redação... A gente consegue ter permanecem implícitas na prática pe- Alguns professores(as), uma visão mais ampla e não cresce dagógica podem ser desveladas — no ao se transferirem para somente no conteúdo mas também sentido de tirar o véu, isto é, tornar ex- outras redes de ensino, como ser humano, na sua plícitas —, constituindo portanto obje- mesmo dispondo do totalidade. to de reflexão. material e da No grupo, os indivíduos adquirem metodologia adotados na O trabalho em grupo é muito im- confiança e ousadia para romper com Funec, encontram portante, pois descobrimos que não práticas antigas e arraigadas no coti- dificuldades para sabemos, e no próprio grupo, ao diano escolar. Sabemos de professo- 15 continuar adquirir um caráter de família, todos res(as) que, ao se transferir para outras implementando nossa tentam ajudar uns aos outros (...) de- redes de ensino, mesmo dispondo do proposta senvolvendo um grupo de trabalho material e da metodologia adotados na e de amizade. Funec, encontram dificuldades para As falas de alunos apresentadas a Observamos que a socialização continuar implementando nossa pro-seguir corroboram a tese de que, com das práticas de trabalho recupera uma posta.um trabalho coletivo, podemos pensar dimensão afetiva e organizacional O novo traz medo, mostra outra fa-formas alternativas de ensino capazes bastante intensa. O afetivo se mostra ce quando nos vemos sozinhos diantede superar os diferentes desafios hoje na participação concreta dos profes- dele; logo, para o professor solitário, sores no projeto pedagógico da incursionar em propostas alternativasencontrados no âmbito escolar. escola, na melhoria do relacionamento de ensino é muitas vezes difícil, mes- É uma aula leve, não é cansativa, a professor-aluno, na solidariedade en- mo que ele seja consciente e crítico. gente aprende mais e tem mais in- tre eles para superar dificuldades, na Afinal, são muitos os dilemas que têm teresse e vontade de participar. troca de experiências, de materiais e de ser superados, e talvez seja esse o instrumentos de trabalho entre colegas maior mérito do trabalho de grupo: A aula ficou mais divertida e melhor socializar as angústias e criar um e na convivência do grupo, conflituosa para aprendermos a matéria. amálgama de sustentação mútua. mas amiga. Achei bastante criativo e muito bom É possível identificar ainda uma Antes de participar do grupo, sentia o projeto, pois faz com que pensa- confiança no grupo como instância le- uma certa restrição e medo de mu- mos [sic] e nos ajuda no entendi- gítima e capaz de encontrar soluções danças, fiscalização, ditadura. Após mento da matéria através de si mes- coletivas para problemas individuais. vencido o preconceito, senti firmeza mo [sic], com a ajuda da professora, Com o passar do tempo nosso gru- na assessoria, no grupo que dese- é claro. po cresceu, organizou-se, e passa- java aprender e que não era dono mos a trabalhar nossas experiências da verdade, muito menos autoritário. A química em si é um pouco chata, individuais para resolver os proble- Tinha medo das aulas práticas, tinha mas a professora tornou a matéria mas que poderíamos encontrar na medo de ser colocado em cheque, interessante e descontraída. sala de aula. e nada disso aconteceu, aprendiOs professores Pelas opiniões dos professores po- ‘um pouco’ de química, aprendi a Um dos elementos positivos, fre- demos perceber que os grupos de ser humilde, aprendi a lidar comqüentemente apontado pelos profes- maior sucesso são aqueles que se minhas limitações e trazê-las para osores, é a própria identidade do grupo, reúnem com maior freqüência e com grupo, discutir e trabalhar em grupo.que há tanto tempo vem sendo cons- objetivos claros, como enunciam Butt Contraditoriamente, como o pro-truída. Em diferentes momentos de e outros (1990:266). fessor ainda guarda uma certa QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Formação Continuada de Professores N° 4, NOVEMBRO 1996
  5. 5. autonomia de trabalho, a presença de as aulas de Química atingem altos por Butt e outros (cf. Ibidem: 262-266). um professor de Química da Funec em índices de freqüência e são muito con- Segundo esses autores, nos contextos outras instituições é sentida, por corridas, mesmo no ensino noturno e em que há colaboração e onde os inte- exemplo, na forma de inovações nas nos últimos horários. A participação e resses específicos e gerais conver- estratégias de ensino adotadas, em interesse dos alunos são fatores que gem, ampliam-se as possibilidades de sua concepção sobre ensino-aprendi- implicam a satisfação do professor desenvolvimento, estabelecendo-se zagem e em sua postura frente ao com o trabalho que realiza. À medida melhores condições para se assumir conhecimento. que vencem as barreiras, os alunos riscos individuais e coletivos. Trabalho de forma tradicional no sentem-se motivados e obtêm suces- Ao mesmo tempo neste processo [nas escolas do] Estado e confesso so no aprendizado, e o professor por também se criam constrangimentos sentir-me mais à vontade traba- sua vez mobiliza forças para continuar por parte de alguns profissionais, lhando com o projeto [da Funec], promovendo modificações em seu relutantes em se posicionar frente ao pois os alunos são motivados na curso. Essa é uma experiência que grupo e em explicitar seus limites, dúvi- maneira simples e gostosa como as temos vivenciado. Valorizado enquan- das, dificuldades. É comum alguns coisas são trabalhadas... isso tem to sujeito pensante, o aluno cresce em professores preferirem não freqüentar me criado problemas, pois lá [nas seu nível de aprendizagem e promove as reuniões ou se manter isolados e escolas do Estado] eu já sou outra. o mesmo efeito sobre o aprendizado resistentes à participação efetiva. As Nessa fala é possível perceber a do professor. ausências podem também ter outras dificuldade do professor de se enqua- O contexto social desafia as indivi- origens, como o apego a concepções drar em práticas pedagógicas tradicio- dualidades e promove o encoraja- de educação antagônicas às do gru- nais depois de um longo período imer- mento diante das dificuldades. No po, mas com argumentações frágeis so num trabalho refle- aspecto organizacional, enquanto e inconsistentes, o que deixa o profes- xivo e crítico. categoria profissional, sor vulnerável ante os colegas. Ocorre Embora não tenha- “Tinha medo das aulas crescem as reivindi- também a idéia de que já se sabe tudo16 mos dados oficiais so- práticas, tinha medo de cações, o poder de e não há nada a ser compartilhado. A bre evasão e repetência ser colocado em cheque, barganha e a cons- sobrecarga de trabalho concorre, às que nos permitam um e nada disso aconteceu, ciência de classe e de vezes, para que o professor se apro- estudo comparativo do aprendi ‘um pouco’ de cidadania. Adquire-se veite do horário destinado às reuniões sucesso escolar dos química, aprendi a ser maior clareza sobre o para descansar ou realizar outras alunos em Química, humilde, aprendi a lidar que significam especi- tarefas. Entretanto, é comum ouvirmos sente-se que esses pro- com minhas limitações e ficamente melhores relatos de colegas que não freqüen- blemas sofreram sensí- trazê-las para o grupo, condições de trabalho tavam o curso e que passaram a fazê- vel queda após a discutir e trabalhar em e traduz-se essa ban- lo, motivados por aqueles que partici- implantação do projeto. grupo.” deira de luta em reivin- pavam. Novamente, é o grupo se forta- Podemos também dizer dicações concretas, lecendo como instância de formação que hoje a Química deixou de ser um fundamentadas na qualidade e na de opiniões e de deliberação de problema na Funec. coerência com a proposta pedagó- metas. O rendimento [escolar] foi muito gica. O argumento da qualidade do Baird e outros (1991), em estudo bom, acima de 70%, nas cinco tur- trabalho desenvolvido e da satisfação sobre a importância da reflexão na me- mas com que trabalho. A freqüência de pais e alunos é forte, nas lutas da lhoria do ensino e aprendizagem em é muito boa. Como disse, no início categoria por melhores salários e ciências, nos dizem que mudanças na havia a dificuldade do próprio in- condições de trabalho. Assim, têm metacognição do aluno só poderiam teresse do aluno. Hoje isso mudou. ocorrido discussões sobre o grande ocorrer após mudanças de atitudes, de As mudanças no estudante são número de alunos em sala de aula e a percepção, de concepção e de ha- rápidas e claramente percebidas. Se- falta de recursos disponíveis para o bilidades nos professores, isto é, o gundo depoimento de uma das orien- trabalho em algumas desenvolvimento da tadoras educacionais, esse trabalho escolas. metacognição do pro- Juntos, em seu tra- A participação e fessor necessita ante- da química, na Funec, é muito impor- interesse dos alunos são tante. A química já foi motivo de muitos balho diário, os profes- ceder àquela que se fatores que implicam a alunos serem reprovados ou fazerem sores se conhecem deseja que ocorra no satisfação do professor outra opção de curso para fugir dela. melhor e tornam-se estudante (p. 99). com o trabalho que Ao restaurar, no aluno, essa confiança mais seguros para as- Se queremos for- realiza de que ele é capaz de aprender quí- sumir desafios peda- mar alunos críticos, ati- mica, ampliam-se suas opções futuras gógicos, emocionais e vos, autônomos etc., é e, obviamente, suas oportunidades. políticos. Os resultados obtidos por necessário instrumentalizar o profes- Conforme relato dos professores, meio de formação em serviços desta sor para assistir ao aluno, torná-lo sufi- inclusive de colegas de outras áreas, natureza são também compartilhados cientemente metacognitivo no controle QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Formação Continuada de Professores N° 4, NOVEMBRO 1996
  6. 6. de seu trabalho e na direção da mu- ção positiva do trabalho de formação ção por parte dos estudantes com odança que se deseja imprimir na sua continuada. Segundo ele, nós que trabalho de Química. Entender o pro-aula. Em outras palavras, se queremos estamos na escola no dia-a-dia perce- cesso que vivenciamos nesse projetomudar a escola, temos que mudar os bemos a mudança que houve, a revo- de assessoria, as dificuldades e pro-sujeitos dela. Muito se tem falado em lução que aconteceu. blemas encontrados, traduz-se noestratégias de ensino para atingir o A experiência de formação conti- nosso atual desafio.aluno e promover um ensino significa- nuada em que estamos atualmentetivo, mas as práticas adotadas nos empenhados parece-nos promover Maria Emilia Caixeta de Castro Lima é licenciada em química e mestre em educação pelatradicionais ‘cursos de capacitação’ maior competência e independência UFMG. Professora assistente de prática de ensinonão têm levado em intelectual do profes- de química na UFMG e assessora de FUNECconsideração a sor, que é constante- (Fundação de Ensino de Contagem).complexidade do tra- Se queremos formar mente questionado embalho do professor. Mu- alunos críticos, ativos, suas crenças quanto àitos desses cursos se autônomos etc., é natureza do processo Nota necessário 1. O termo ‘capacitação’ possuirestringem às metodo- de ensino e aprendiza- instrumentalizar o pro-logias de ensino, sem gem. Isso fortalece a uma conotação pejorativa que leva a fessor para assistir aogarantir um espaço per- segurança para o de- considerar o professor uma tábula aluno (...) Em outrasmanente de produção bate, a autoconfiança, rasa ou alguém incapacitado para seu palavras, se queremose reflexão sobre o fazer a afetividade e a soli- trabalho. Conseqüentemente, segun- mudar a escola, temosescolar. do essa lógica, o curso de capacitação que mudar os sujeitos dariedade. A diretora de uma dela Outro fator relevan- o tornaria capaz naquilo que não é. Dadas escolas da Funec te para que haja êxito mesma forma, o termo ‘reciclagem’afirma que o projeto de nesse tipo de trabalho, encontra resistência junto aos profes-Química é um dos melhores que ela e que tem se mostrado extremamente sores, segundo os quais está na modajá vivenciou na escola que dirige, e significativo, é o apoio institucional. A reciclar lixo, e eles não se enquadram 17explica que um dos méritos do política pedagógica da instituição, ou nessa categoria. Julgamos mais ade-trabalho é poder perceber através do até mesmo a falta dela, é determinante quado falar em formação continuadaque é ensinado em sala de aula a na alocação de recursos materiais e ou formação em serviço. Pressupõe-importância e o lugar da química na humanos e na própria organização do se (cf. Maldaner, 1994, 1) que a gra-vida do ser humano. Eu mesma, en- processo escolar. Parece-nos que não duação não se completou, por diver-quanto profissional que passou por basta adotar uma proposta de traba- sos motivos, ou que o professor, emuma formação em química, não con- lho: é necessário ter identidade com ela. sua prática pedagógica, depara-seseguia relacionar a química com o dia- Faz-se necessário um estudo mais com inúmeros problemas de naturezaa-dia. Outra qualidade que a diretora aprofundado sobre o impacto da for- diferente daqueles encontrados emobserva refere-se à capacidade de mação continuada na prática do pro- seu curso de graduação, dada aorganização desenvolvida nos estu- fessor em sala de aula. Em algumas riqueza e complexidade do dia-a-diadantes. O aluno ficou mais organiza- escolas percebe-se, ainda, insatisfa- do ato pedagógico.do, passamos a não ter mais proble-mas de disciplina e aprendizagem, nasaulas de química. Por último, ela res- Referências Bibliográficas MALDANER, O. A formação continuada de professores. VII ENEQ-salta o impacto desse trabalho de BAIRD, John R. et al. The impor- II ESEQ, Belo Horizonte, 1994.formação continuada sobre o profes- tance of reflection in improving science MORTIMER, E.F., coord. Introdu-sor. O professor tornou-se mais com- teaching and learning. New York, Wiley, ção ao estudo da química: proprie-promissado e mudou sua relação com 28(2), p. 163-182. 1991. dades dos materiais, reações químicaso aluno, na medida em que deixou de BUTT, Richard, TOWNSEND, e teoria da matéria. Belo Horizonte: David, RAYMOND, D. Bringing reformser o dono da verdade e passou a ser Cecimig e Funec, 1996. to life: teachers’ stories and professio-um mediador do processo ensino- nal development. Cambridge Journalaprendizagem. Tornou-se mais politi- Onde Adquirir o Livro Azul of Education, 20(3), p. 255-268, 1990.zado e fácil de se relacionar, assim co- CARVALHO, A.M.P Reformas nas . Escrever para Flávio Beacarensemo aumentou o grau de comprometi- licenciaturas: a necessidade de uma - CECIMIG. Faculdade de Educaçãomento com a vida da escola como um mudança de paradigma mais do que da UFMG. Av. Antônio Carlos 6627.todo. Percebemos neles a preocupa- de mudança curricular. Em Aberto, n. 31270-901 Belo Horizonte - MG. Enviarção com o próprio conhecimento cien- 54. 1992. R$ 12,00 (incluída postagem)tífico e com as questões pedagógicas CARVALHO, A.M.P GIL-PÉREZ, D. ., solicitando o livro Introdução ao estu-mais amplas da escola. Formação de professores de ciências: do da química: propriedades dos ma- tendências e inovações. São Paulo: teriais, reações químicas e teoria da O diretor de uma outra escola da Cortez, 1993. matéria.Funec parece também ter uma avalia- QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Formação Continuada de Professores N° 4, NOVEMBRO 1996

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