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RESENHAS                           Micro-história: reconstruindo o                                 campo de possibilidades...
218 • TOPOI     Resultado das discussões leva-     mente uma terra estrangeira, numadas a cabo na própria École como      ...
MICRO-HISTÓRIA • 219com o “tournant critique” e o reco-       cias de refinamento teórico. Masnhecimento e legitimação pro...
220 • TOPOIpreocupados em captar estes atores       mera diferença de escala tomadahistóricos agindo como sujeitos a      ...
MICRO-HISTÓRIA • 221através do seu trabalho o historiador    debate em torno da micro-históriaformula problemas ao passado...
222 • TOPOInão seria capaz de repensar estas ins-   plicativas para os fenômenos sociaiscrições historicamente a partir de...
MICRO-HISTÓRIA • 223e produtivas e os comportamentos          las frente à comunidade de profissio-e relações sociais. Par...
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Micro História

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  1. 1. RESENHAS Micro-história: reconstruindo o campo de possibilidades Manoel Luiz Salgado GuimarãesJacques Revel (org.). Jogos de Escala: a desse conhecimento, com suas regras experiência da microanálise. Tra- próprias de consagração. Pode tam- dução Dora Rocha. Rio de Janei- bém responder às exigências contí- ro: Editora Fundação Getúlio nuas de uma reflexão sistemática sobre Vargas, 1998, 262 páginas. os métodos e o lugar da teoria na produção do conhecimento históri-A produção historiográfica fran- cesa é particularmente rica debalanços e avaliações sobre a produ- co como forma de responder satis- fatoriamente aos desafios, tanto da pesquisa histórica em sentido restri-ção em nossa disciplina como parte to, quanto das demandas sociais pos-de um esforço sistemático para rever tas pela contemporaneidade das so-e discutir os parâmetros da pesquisa ciedades altamente industrializadas.histórica. Basta que nos lembremos O trabalho organizado por Jacquesda coletânea “Faire l’Histoire” da dé- Revel “Jogos de Escala” parece com-cada de 70 e da obra “Passés Recom- partilhar desta tradição, assim comoposés” duas décadas mais tarde, para contribui para legitimar um viés datermos dois significativos exemplos pesquisa histórica, hoje com largosdeste esforço de reflexão a respeito espaços de reconhecimento nos se-do próprio campo de trabalho do minários da École des Hautes Étudeshistoriador. Pensar sua própria his- en Sciences Sociales, onde algunstória pode assim significar um exer- dos participantes da obra coletivacício de legitimação para uma comu- dirigem seminários de pesquisa, ain-nidade de profissionais, cuja identi- da que seus começos estejam associa-dade encontra-se fortemente assen- dos à historiografia italiana e a no-tada e construída a partir de lugares mes como o do historiador Carlosocialmente definidos de produção Guinzburg e Giovanni Levi.Topoi, Rio de Janeiro, nº 1, pp. 217-223.
  2. 2. 218 • TOPOI Resultado das discussões leva- mente uma terra estrangeira, numadas a cabo na própria École como formulação que sugere o título daresposta a uma demanda ministerial obra de David Lowenthal, “The Pastpropondo uma reflexão em torno da is a foreign country”.relação Antropologia e História, o A coletânea de dez artigos élivro traça um rico painel dos pro- encabeçada pelo trabalho de Jacquesblemas envolvendo a micro-história, Revel intitulado “Microanálise epermitindo ao seu leitor um primei- construção do social”, que realizaro contato com o universo de ques- igualmente a apresentação da obratões subjacentes a esta modalidade coletiva. Seu texto procura mapearda pesquisa histórica, situando seu a recepção da micro-história peladesenvolvimento num quadro his- historiografia francesa a partir da tra-toriográfico propriamente dito, as- dução em 1989 do livro de Giovannisim como sublinhando tradições fi- Levi, “Le pouvoir au village”, cujolosóficas a que este tipo de procedi- prefácio ficara a cargo do própriomento, implícito na micro-história, Revel. Curiosamente, um ano sim-se reporta. Na verdade, assistimos à bolicamente marcado por eventos dereedição de um velho debate entre profundas significações para a pes-a Antropologia e a História, inaugu- quisa histórica, quando a tradiçãorado de forma exemplar com Lévi- hegemônica herdada da Escola dosStrauss e Braudel ainda nos finais Annales, a história social, sofre pro-dos anos 50, mas que evidentemente fundas críticas por parte mesmo da-se reveste agora de características queles que se colocavam como seustotalmente diversas, consagrando herdeiros. É neste quadro de críticadefinitivamente a vitória de um cer- da tradição herdada que a micro-his-to olhar antropológico na pesquisa tória emerge, apontando novas pos-histórica. Nas palavras de Edoardo sibilidades para o trabalho do histo-Grendi, em seu artigo para o livro, riador, que ainda reafirmando a his-a abordagem micro-histórica estaria tória como social, procura sofisticarindelevelmente marcada pelo signo e redimensionar a pesquisa a partirda antropologia na medida em que de procedimentos que questionameducou seu olhar para ver o passado as antigas concepções da história so-a partir de uma perspectiva de estra- cial. Acossada pelo “linguistic turn”,nhamento, vendo-o como efetiva- a historiografia francesa responde
  3. 3. MICRO-HISTÓRIA • 219com o “tournant critique” e o reco- cias de refinamento teórico. Masnhecimento e legitimação propor- onde teriam os historiadores italia-cionados à micro-história integram nos buscado suas sugestões para oeste movimento mais amplo de re- projeto de uma reescritura da histó-pensar os caminhos da pesquisa his- ria liberta das hierarquias e defini-tórica. Nas palavras de Jacques Revel, ções de uma história feita à maneiraa micro-história pode então ter o va- tradicional? A resposta pode ser en-lor de “sintoma historiográfico”. contrada no artigo de Paul-André Com preocupação semelhante, Rosental, “Construir o macro peloou seja, a de compreender a emer- micro: Frederik Barth e a microstoria”,gência da micro-história a partir de onde o autor sublinha as possíveisum recorte que poderíamos definir sugestões contidas no trabalho docomo historiográfico, o último tex- antropólogo norueguês e que esti-to da coletânea, de autoria de Edoar- mularam as reflexões dos historiado-do Grendi, avança uma sugestão res italianos. A partir da pesquisa an-interessante no sentido de com- tropológica de Barth, preocupadapreender a prática da micro-história em considerar especialmente as va-como particular ao quadro intelec- riantes comportamentais dos atorestual da historiografia italiana, repre- envolvidos em determinados pro-sentando, segundo ele, uma via ita- cessos sociais, o pressuposto funcio-liana de uma história social mais ela- nalista de um mundo social perfei-borada e que procurava fugir aos tamente integrado por suas partes éaprisionamentos definidos pela tra- seriamente abalado. Ao valorizar odição italiana de escrita da história, conjunto de variantes comporta-pautada por definições rígidas dos mentais, Barth aponta para a impor-objetos a serem considerados pela tância dos contextos decisórios queanálise do historiador. Como parte põem em relação atores sociais numde um alargamento de horizontes jogo relacional complexo, definin-para o trabalho do historiador, a do configurações múltiplas e variá-micro-história italiana estaria tam- veis segundo o caráter das decisões abém preocupada com uma narrati- serem tomadas por atores históricosva visando um público mais alarga- reais, agindo no mundo social. Estado, combinando assim novas de- sensibilidade parece marcar profun-mandas externas ao campo a exigên- damente os micro-historiadores,
  4. 4. 220 • TOPOIpreocupados em captar estes atores mera diferença de escala tomadahistóricos agindo como sujeitos a para a análise dos fenômenos histó-partir da leitura que empreenderão ricos, mas um redimensionamentode suas fontes. Ainda a partir das su- de objetos e questões que põem emgestões do antropólogo norueguês, dúvida as certezas estabelecidas pelasegundo o artigo de Rosental, os his- história social de corte marcada-toriadores italianos da micro-histó- mente macro-estrutural. Como afir-ria incorporaram uma certa dimen- ma Giovanni Levi em seu artigosão de incerteza e imprevisibilidade para o livro, intitulado “Comporta-presentes nas ações humanas e ne- mentos, recursos, processos: antes dacessariamente consideradas como revolução do consumo”, a escala resul-parte da análise histórica. ta de uma escolha e como tal mar- Um dos pontos centrais que cará profundamente a pesquisa,atravessa o conjunto dos textos reu- uma vez que condicionará aquilonidos no livro em questão é a afir- que será visto pelo historiador. Seumação de que a micro-história se interlocutor no artigo é um doscoloca em frontal oposição à pers- monstros sagrados da história socialpectiva das análises macro-históri- francesa concebida a partir de umacas, que situavam a possibilidade de perspectiva macro-estrutural: Fer-explicação dos fenômenos históricos nand Braudel. O que está em jogo:a partir da localização de causas si- a capacidade do historiador traba-tuadas num plano macro-estrutural, lhar com categorias altamente gene-responsável pela modulação dos fe- ralizantes extraindo delas conheci-nômenos em escala micro. Trata-se mento. Ainda com relação ao con-de fato de um ataque frontal a um ceito de escala, fulcral para o traba-dos pressupostos mais caros da his- lho da micro-história, Bernard Lepetittória social francesa à maneira dos em seu texto “Sobre a escala na his-Annales: a preeminência da dimen- tória”, no livro organizado porsão macro-estrutural para a explica- Revel, afirma a necessidade imperio-ção dos fenômenos históricos. Na sa da escolha da escala como condi-verdade, o que está em jogo pelo par ção mesma para o conhecimentode oposições macro e micro, segun- que se pretende, constituindo-sedo as perspectivas esposadas pelos portanto “num ponto de vista de co-autores do livro, não é apenas uma nhecimento.” Da mesma forma que
  5. 5. MICRO-HISTÓRIA • 221através do seu trabalho o historiador debate em torno da micro-históriaformula problemas ao passado a obriga-nos a repensar os rígidos câ-partir de questões de seu presente — nones de uma interpretação cartesia-a velha lição aprendida com os pais na da racionalidade e dos procedi-fundadores dos Annales —, a esco- mentos decorrentes desta formalha de uma escala engendra objetos particular de racionalidade. A sim-que não existem como entes subs- plificação do debate em torno detantivados no mundo. Desta manei- posturas ditas “racionalistas” contrara, Lepetit formula uma das críticas aquelas tidas como “relativistas” nãomais contundentes a um realismo podem mais satisfazer a complexifi-simplista do trabalho do historiador, cação exigida para as análises dosassegurado pelo registro deste real fenômenos sociais. Desta forma, asem fontes consultáveis. análises propostas pelos micro-his- E aí delineiam-se com clareza toriadores tenderiam a desnaturali-as heranças filosóficas acionadas zar os objetos, o que para o caso dapelos defensores da micro-história e pesquisa histórica implica necessa-que significarão uma crítica radical riamente numa revisão do papel dasa um positivismo subjacente na tra- fontes.dição da história social francesa e Neste aspecto, o texto dedetectado por estes historiadores. Maurizio Gribaudi, “Escala, perti-Neste sentido, e sublinhando sobre- nência, configuração”, que se cons-tudo os aspectos filosóficos do de- trói a partir de uma crítica à perspec-bate em torno da micro-história, o tiva de história social segundo ostexto de Marc Abélès, “O racionalis- contornos presentes no clássico tra-mo posto à prova da análise”, é parti- balho de Adeline Daumard, apontacularmente interessante e estimu- para os riscos de se tomar os docu-lante. Partindo de rápidas conside- mentos com o sentido de uma evi-rações a respeito do lugar das análi- dência imediata, vendo neles a ins-ses microscópicas entre os antropó- crição de um real dado à observaçãologos, que por vezes chegam mesmo e análise dos historiadores. Destaa fetichizar o micro como sendo o forma, e sem perceber, o historiadorlugar do desvendamento pleno dos acabaria por ficar prisioneiro dasfenômenos sociais, o autor nos cha- formas passadas de inscrição dos fe-ma atenção para o fato de que o nômenos que estuda. E como tal,
  6. 6. 222 • TOPOInão seria capaz de repensar estas ins- plicativas para os fenômenos sociaiscrições historicamente a partir de capaz de unificar a diversidade dasuma multiplicidade e da não linea- experiências históricas, enquantoridade dos fenômenos que estuda. para a pesquisa micro-histórica oEis aqui outro dos elementos cen- contexto é sempre e necessariamen-trais sublinhados como uma das te diverso e o lugar de um jogo rela-marcas da micro-história praticada cional onde a ação dos sujeitos his-pelos autores do livro: a impossibi- tóricos efetivos, agindo, é capaz delidade da formulação de leis gerais definir soluções e propor encami-para o desenvolvimento histórico a nhamentos que a priori não estariampartir da observação de um fenôme- dados. Neste sentido a narrativa his-no através da História. O exemplo tórica não é apenas o relato do efe-retomado por Gribaudi, a partir das tivamente acontecido porque neces-sugestões de Giovanni Levi, procu- sário à razão histórica, mas tambémra mostrar como o advento do Es- o relato das alternativas possíveistado Moderno, quando tratado a postas num jogo a ser decidido pe-partir de uma perspectiva micro, los atores históricos em questão.mostra uma pluralidade de possibi- Como não deixar de sentir aqui aslidades e realizações históricas, di- marcas do clássico trabalho e démarcheversas entre si, cuja explicação de- E.P.Thompson sugeridos em seu li-manda uma análise refinada e minu- vro de 1963 e que Simona Cerutticiosa dos contextos de emergência em seu texto “Processo e experiência:destes Estados em diferentes situa- indivíduos, grupos e identidades emções e lugares. Por este procedimen- Turim no século XVII” faz questão deto, uma revisão de certas afirmações marcar? À maneira sugerida pore generalizações acerca do Estado Thompson, a análise do historiadorModerno tornaram-se possíveis e deveria cruzar elementos processu-necessárias. O conceito de contex- ais de análise com trajetórias indivi-to adquire então uma centralidade duais, o que a autora procurou em-importante, ainda que evidente- preender em sua análise dos gruposmente não seja percebido da mesma profissionais na cidade de Turim. Se-forma que a história social de recor- gundo o caminho escolhido, Ceruttite macro o trata. Para esta, no con- descolou a análise social de umatexto localiza-se a rede de causas ex- homologia entre as esferas técnicas
  7. 7. MICRO-HISTÓRIA • 223e produtivas e os comportamentos las frente à comunidade de profissio-e relações sociais. Partindo das su- nais como um problema para a prá-gestões do historiador social inglês, tica de pesquisa. Com o desloca-que sublinhavam especificamente o mento do foco de análise das estru-papel processual na construção dos turas macro-sociais para as experiên-objetos que serão interrogados pe- cias vividas pelos atores históricos,los historiadores, a autora radicaliza a trajetória biográfica pode assim en-sua análise no sentido de perceber, contrar um lugar legítimo na refle-através do estudo das trajetórias in- xão dos historiadores e o olhar dedividuais, as respostas históricas for- Sabina Loriga busca recuperar namuladas pelos protagonistas em pesquisa biográfica sua dimensãoação, procedimento este que, segun- heurística para o conhecimento dado a autora, implicou numa reinter- história.pretação do próprio processo geral. “Jogos de escalas. A experiência Esta parece ser também a pers- da microanálise” é leitura importantepectiva adotada por Sabina Loriga para compreendermos os caminhosno artigo intitulado “A biografia da produção em nosso campo de co-como problema”, onde a aposta bio- nhecimento e, combinando uma re-gráfica pode se constituir em impor- flexão teórica sofisticada à pesquisatante viés para a interpretação dos documental, sublinha a importân-fenômenos macro, a partir de uma cia desta dupla dimensão do traba-perspectiva que obriga a uma rein- lho do historiador, podendo tam-terpretação das tradições herdadas bém contribuir para uma críticade análise. Para o caso das biografias, contundente dos diferentes matizesdurante longo tempo expulsas do positivistas a que nossa disciplinacampo da pesquisa histórica, torna- esteve sujeita.va-se imprescindível ainda legitimá-

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