1 agriculturas-edicao-especial-rio+20

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  1. 1. EXPERIÊNCIAS EM AGROECOLOGIA • • Leisa Brasil • EXPERIÊNCIAS EM AGROECOLOGIA Leisa Brasil • JUN 2012 • vol.9 n.1 JUN 2012 • vol.9 n.1 cial Ed pe ç ã o Es i Agroecologia Política na Rio+20Resiliência às Superação da Soberania e segurançamudanças climáticas pobreza rural alimentar no século XXI
  2. 2. Propaganda conferência internacional produção armazenamento transformação comercialização venda a retalho consumo 6–9 novembro 2012 Adis Abeba, Etiópia http://makingtheconnection.cta.int VISITE O NOSSO SITE! Descarregue o leitor de código QR para usar no seu telemóvel.2 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  3. 3. AGRICULTURA CAMPONESA EM FOCOPromovendo as múltiplasfunções da agriculturaP ara o povo da região do Himalaia indiano, a do cultivo de forragens, o projeto também apoiou criação de gado tem sido tradicionalmente atividades ligadas à conservação de forragem, me- uma parte integrante dos sistemas agrícolas. lhoria no manejo alimentar, capacitação e mobiliza-Mas os agricultores muitas vezes enfrentam uma ção comunitária. Hoje, mais de 1,5 mil agricultoresaguda escassez sazonal de forragem, resultando não estabeleceram pequenos viveiros descentralizadosapenas em baixos rendimentos da produção de leite para a produção de mudas de espécies forrageiras.e na precarização da saúde dos animais, mas tam- Além disso, grupos de criadores foram formados nasbém em trabalho árduo para as mulheres e em de- vilas, permitindo que as comunidades constituam es-gradação florestal. Atualmente, mais de 8 mil famílias quemas de poupança e financiamento e desenvol-no distrito montanhoso de Uttarakhand participam vam microempreendimentos. As famílias agricultorasde um programa da Sociedade Himmotthan para têm aumentado as suas vendas de leite e os plantéispromover um manejo integrado e ecologicamente de gado. No entanto, além da produtividade e dasustentável da pecuária e estão cultivando diversas renda, o programa tem promovido benefícios maisgramíneas forrageiras. Muitas dessas espécies forra- abrangentes: questões ambientais estão sendo dis-geiras introduzidas no programa permanecem sem- cutidas e resolvidas, as famílias estão tendo acesso apre verdes, enquanto outras fornecem forragem seca crédito e mais crianças estão frequentando a escola.nutritiva em quantidade suficiente para durar todo oinverno. Essas ações têm ajudado a preservar as flo- Texto e fotografia: Vishal Singh / Centre for Ecologyrestas e a aumentar o teor de umidade do solo. Além Development and Research Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 3
  4. 4. SUMÁRIO3 Agricultura camponesa 26 Superação da pobreza: em foco indo além do enfoque monetarista6 Editorial: Vinte anos P.V. Satheesh depois 32 Agrobiodiversidade reconhecida: aprofundando o debate para uma real transformação 34 O dilema energético Flemming Nielsen8 Alimentando o mundo no século XXI 40 Entrevista: Jean Marc von der Weid Ann Waters-Bayer14 Estratégias agroecológicas 42 Uma abordagem holística para aumentar a resiliência para o aprendizado sobre no contexto de mudanças agricultura sustentável climáticas Clara Nicholls e Miguel Altieri 20 Aprendizagem em rede sobre a organização para acesso aos mercados Giel Ton22 Entrevista: Manuel Esta edição foi produzida com o apoio das Organizações das Gonzalez de Molina Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e da Rede24 Marcando posição na Internacional de Segurança Rio+20 Alimentar (IFSN) .4 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  5. 5. INTRODUÇÃOA mudançavirá do campoe das ruasA inda não sabemos qual será o resul- Vinte anos depois, há uma abundância de experiências tado da Rio+20. Mas os preparativos bem-sucedidas, mas frequentemente elas têm perma- já desencadearam um enorme fluxo necido localizadas. Aumentar a escala das mesmas foi e de informações sobre a agricultura continua sendo um grande desafio. Um dos principais familiar camponesa e a Agroecologia. motivos para a manutenção dessa situação é que as Mais do que nunca há um acúmulo políticas agrícolas continuam incentivando um tipode evidências que corroboram a afirmação de que os de agricultura que depende de insumos e tecnologiassistemas agroecológicos são produtivos, resilientes e industriais. Mas há exemplos significativos de méto-sustentáveis. No entanto, a invisibilidade da agricultura dos de manejo agrícola sustentáveis que conseguiramcamponesa perante a opinião pública e os tomadores ultrapassar a escala de aplicação localizada. O Sistemade decisão continua predominante. Enquanto isso, o de Intensificação de Arroz, desenvolvido em Madagascarfuturo de muitas comunidades rurais no mundo inteiro na década de 1980, é um desses exemplos. Publicamosestá sob uma ameaça sem precedentes com o avanço da um artigo sobre essa experiência em 1999 e recebemosagricultura industrial. Como podemos ultrapassar essa muitas reações positivas por parte de leitores que decidi-barreira da invisibilidade e promover a agricultura cam- ram experimentar o sistema. Atualmente ele é praticadoponesa como a base social e econômica da agricultura por milhões de agricultores em 36 países com evidênciassustentável? De fato, espera-se que as discussões no Rio bem documentadas de que tem a capacidade de duplicarde Janeiro se concentrem em como podemos promover os rendimentos e reduzir pela metade o uso de água.a transição para sistemas agroalimentares mais sustentá- No entanto, muitos cientistas especialistas na cultura doveis, e não em se devemos promover tais sistemas. Existe arroz continuam a questionar esse método. Por quê?um sentimento generalizado de que não há tempo a Mudanças profundas estão acontecendo. Mas muitasperder. Mas devemos ter cuidado para que essa sensação vezes elas são quase imperceptíveis e escapam à nossade urgência não nos faça cair na armadilha de buscar percepção. Vamos então calibrar melhor o olhar e ficarsaídas enganosas, baseadas em soluções tecnológicas mais perceptivos para identificarmos uma miríade derápidas, muitas vezes apresentadas como a única opção mudanças que fazem parte de um processo vigorosopara alimentar o mundo em 2050. de transformação na agricultura promovido a partir Já em 1992, nossa revista (então chamada Boletim das propriedades e comunidades rurais. Esse processo,Ileia) apresentava artigos sobre essas mesmas questões desencadeado por famílias agricultoras e suas organi-que estamos discutindo hoje. A soberania alimentar era zações, representa uma resposta coerente à profundaum tema chave. Embora a Via Campesina ainda não crise agrária gerada pelo modelo agroindustrial.houvesse cunhado politicamente o termo, as ideias prin- Dedicamos esta edição especial sobre a Rio +20 aoscipais já estavam lá nas mentes dos(as) agricultores(as) agricultores e agricultoras de todo o mundo que see dos(as) autores(as) dos artigos publicados em nossa empenham em construir uma agricultura ecologica-revista. A gestão integral dos recursos, com a integração mente sã e socialmente mais justa. Este número é umaentre agricultura e criação, o fortalecimento dos sistemas produção conjunta da AgriCultures Network: nossosagroalimentares locais, a conservação dos recursos editores do Brasil, Peru, Senegal, Índia e Holandagenéticos locais e outras medidas coerentes com o reuniram histórias inspiradoras recolhidas em todo oenfoque agroecológico eram defendidos como caminhos mundo. Esperamos que goste da leitura, seja no Rio denecessários para enfrentarmos desafios alimentares, Janeiro ou em casa!ambientais e sociais planetários. A questão da energiatambém figurava explicitamente na agenda, assim comoa necessidade de reconhecer o papel e o protagonismodas mulheres agricultoras. O mesmo se passa com nossasproposições para o debate sobre mudanças climáticas... Edith van Walsum Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 5
  6. 6. editorialVinte anos depois: Onde estamos? Para onde vamos? Vinte anos após a primeira a conferência. No entanto, quando se tornou claro que Cúpula da Terra em 1992, o documento base oficial não proporia compromissos sérios, muitas organizações optaram por abandonar o a cidade do Rio de Janeiro processo oficial e passaram a se concentrar na organi- novamente sedia uma grande zação de espaços paralelos destinados a debater suas conferência das Nações agendas e reforçar alianças, de forma a assegurar que Unidas. É o momento para todas as articulações internacionais continuarão após a conferência. avaliar o que se avançou e discutir os temas que Mais do mesmo com retórica emergiram desde então. verde  Poucos dias antes da conferência, o sig- nificado de “economia verde” ainda é contestado. O Marta Dabrowska Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente D (Pnuma) descreve economia verde como um sistema de esta vez, os principais temas da confe- atividades econômicas relacionadas à produção, à distri- rência são as bases para uma “econo- buição e ao consumo de bens e serviços que resultam na mia verde” no contexto do desenvolvi- melhoria do bem-estar da humanidade a longo prazo, mento sustentável e dos esforços para ao mesmo tempo em que não expõem as gerações futuras a erradicação da pobreza e o quadro a significativos riscos ambientais e à escassez ecológica. institucional necessário para o desen- Embora abrangente, essa definição está aberta a muitas volvimento sustentável. Desde que a nova Conferência interpretações. Governos nacionais e agências da ONU foi anunciada, no entanto, muitas pessoas se questionam tendem a apoiar apenas pequenas mudanças dentro se faz sentido organizar uma nova Cúpula da Terra ten- dos sistemas econômicos existentes, tendo como foco do em vista que os compromissos anteriores estão longe soluções tecnológicas e políticas que fariam o “cres- de serem cumpridos. Além disso, significativa parcela da cimento sustentável” possível. Muitas organizações sociedade civil denuncia que o foco em uma “economia civis exigem medidas mais radicais e insistem em que verde” significa na prática a desconsideração das múlti- é necessário promover uma transformação de todo o plas dimensões que devem necessariamente integrar-se sistema econômico. Elas defendem uma radical “mu- entre si para a construção de padrões mais sustentáveis dança de paradigma” e novos modelos econômicos que de desenvolvimento. coloquem ao centro as dimensões ambientais e sociais A Minuta Zero do documento base da conferência, do desenvolvimento. A principal questão, no entanto, é apresentada em janeiro de 2012, provocou sérias con- se precisamos de novas ideias ou se devemos nos voltar trovérsias em face do seu grau de generalidade, da falta para as soluções que já estão em curso e que reconhe- de compromissos com mudanças radicais e da omissão cem o potencial dos sistemas alternativos que foram de várias questões importantes, entre outras, a referência desenvolvidos ao longo dos anos. à Agroecologia como enfoque para a reorientação do A disputa pelos futuros rumos da agricultura ilustra modelo dominante de agricultura baseado nos preceitos bem essa discussão. Há um consenso de que a produ- técnico-científicos da Revolução Verde. Se, de um lado, ção agrícola tem que se tornar mais sustentável e de o texto traz a proposta de eliminação de subsídios desti- que a agricultura familiar camponesa, especialmente as nados à agricultura convencional, por outro, evita uma mulheres agricultoras, precisam ter seu papel reconhe- discussão profunda sobre as raízes da insustentabilidade cido e valorizado. No entanto, os pontos de vista sobre dos sistemas agroalimentares modernos. como alcançar a produção sustentável estão altamente Desde o início, organizações da sociedade civil se polarizados. Um modelo propõe uma “intensificação envolveram ativamente no processo preparatório para sustentável” e se baseia no desenvolvimento e na 6 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  7. 7. agricultura de base agroecológica pode produzir comi- da suficiente para alimentar uma população humana crescente e contribuir para a criação de sistemas sociais mais justos e adaptados às mudanças climáticas. Para muitos, essa postura soa como uma surpresa ou como uma “novidade”. No entanto, há mais de 27 anos, as organizações que compõem a rede AgriCultures têm coletado e partilhado evidências que comprovam esses argumentos. Durante todo esse período as nossas revistas têm apresentado exemplos concretos vindos de países de todos os continentes que demonstram que a propos- ta agroecológica é capaz de assegurar bons níveis de produtividade, conservando os fundamentos ecológicos para que as agriculturas se mantenham indefinidamente produtivas. Além disso, ela permite o desenvolvimento de sistemas agrícolas que se adaptam melhor às mudan- ças climáticas do que os convencionais, que reduzem drasticamente a emissão de gases de efeito estufa e que podem dispensar o emprego de insumos poluentes e contaminantes, reduzindo assim a dependência a recur- sos naturais não-renováveis. Por meio da valorização do potencial da biodiversidade, os sistemas de base agroeco-Precisamos de novas ideias ou devemos valorizar as lógica mantêm os serviços ecossistêmicos e preservam ossoluções que já estão sendo colocadas em prática? recursos naturais renováveis. As experiências publicadasFoto: TREES revelam também que a gestão produtiva fundada nos preceitos da Agroecologia induz dinâmicas de desen-difusão de organismos geneticamente modificados e na volvimento socioeconômico mais justas e equitativas,mecanização agrícola. Os defensores desse modelo não apresentando-se por isso como estratégia consistenteveem a necessidade de uma grande transformação do para o enfrentamento das causas estruturais da pobreza esistema de agricultura “convencional”, mas apenas o o empoderamento das mulheres.seu aprimoramento. Os partidários de padrões alterna- Nesta edição especial, preparada por ocasião dativos defendem uma transição da agricultura conven- Rio+20, abordamos as relações entre a agricultura comcional, baseada nas monoculturas e no aporte intensivo a soberania e segurança alimentar e nutricional, comde insumos, para formas de ocupação e manejo dos as mudanças climáticas, com a problemática energéti-solos fundamentadas na valorização da biodiversidade ca e com o desafio da superação da pobreza. São essese em métodos agroecológicos. Essa transição aponta os quatro temas prioritários identificados na Minutapara mudanças radicais na atual forma de organização Zero do documento base de negociação da Rio+20.dos sistemas agroalimentares, cada vez mais centrados Nossa ideia ao conceber esta edição foi a de explicitar aem circuitos globalizados entre a produção e o consu- superioridade da abordagem agroecológica a partir des-mo e em práticas agrícolas altamente dependentes de sas quatro perspectivas analíticas, com base no extensoenergia fóssil e de insumos industriais. rol de evidências que reunimos por mais de 25 anos. Diferentemente de 20 anos atrás, ainda não estamosPropomos algo realmente novo?  no tempo de avaliar a viabilidade técnica, econômicaUm conjunto significativo e crescente de redes, mo- e social da proposta agroecológica. As demonstraçõesvimentos e organizações da sociedade civil em todo o de sua capacidade de responder aos críticos desafiosmundo vem se organizando para afirmar a perspectiva planetários já são abundantes e generalizadas. Trata-seagroecológica perante a opinião pública e os órgãos agora de construir as condições políticas, institucio-oficiais nacionais e supranacionais. Tomando como nais e ideológicas para que os Estados assumam a suareferência o relatório da Avaliação Internacional sobre responsabilidade, abrindo espaço para o aumento deConhecimento, Ciência e Tecnologia Agrícola para escala das experiências até então promovidas a partiro Desenvolvimento (IAASTD, na sigla em inglês), do protagonismo de organizações civis.argumentam que esse é o caminho para o enfrenta-mento da crise sistêmica global que tem na agricultura Marta Dabrowska é especialista em desenvolvimento rural.uma de suas principais causas e vítimas. A mensagem Atua na co-coordenação do processo preparatório da Redeprincipal do manifesto Tempo de Agir, assinado por or- Agricultures para a Conferência Rio+20.ganizações da sociedade civil de todo o mundo, é que a E-mail: m.i.dabrowska@gmail.com Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 7
  8. 8. SEGURANÇA ALIMENTARAlimentandoo mundoxxi no séculoA introdução da para a redução à metade do número de famintos, o fan-adubação química e do tasma da fome endêmica voltou a assombrar o mundo pelo ressurgimento dos problemas ligados à produçãomelhoramento genético alimentar. Não só a prometida redução não ocorreu,científico das espécies como o número absoluto de famintos aumentou paracultivadas no último quarto mais de um bilhão de pessoas. Esse quadro torna-se ain- da mais dramático quando se considera que a produçãodo século XIX anunciou a de alimentos terá que aumentar em 100% até meadospossibilidade de superação deste século, momento em que a população mundial seda síndrome de Malthus estabilizará entre nove e dez bilhões de habitantes.que presumia um limite à As raízes da crise de produçãoexpansão da população de alimentos  O próprio sistema de produçãomundial em função da modernizado que tanto sucesso obteve na superação da síndrome de Malthus trazia em si os germes da criserestrição da capacidade atual. Em primeiro lugar, porque provocou enormede produção de alimentos. concentração de terras nas mãos de poucos produtores capitalistas e a exclusão de centenas de milhões deNo final do século XX essa agricultores familiares e assalariados agrícolas. Mas opromessa parecia realizada. maior ponto de vulnerabilidade desse sistema vem doApesar da forte expansão fato de que ele depende do uso insustentável de recur- sos naturais renováveis e não renováveis.da população mundial, o Os recursos renováveis são rapidamente deterioradosnúmero relativo de pessoas pelo avanço desse sistema e já começam a fazer falta. Asubmetidas à fome vinha agricultura já ocupa perto de 30% de toda a área terres- tre, tendo impactado ecossistemas naturais mais do quecaindo regularmente e qualquer outra atividade humana. Dos 8,7 bilhões dese situava em torno a hectares disponíveis no mundo para cultivos, pastagens840 milhões. e florestas, 2 bilhões já foram degradados desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A agricultura consomeJean Marc von der Weid 70% de toda a água empregada em atividades humanasA e os sistemas de irrigação intensiva que se generalizam pesar da magnitude dos problemas estão esgotando aquíferos em várias partes do mundo. nutricionais, o quadro de insegurança Estima-se que 75% da biodiversidade agrícola foi extinta alimentar no mundo não indicava no século passado, sendo que significativa parte dessa problemas na capacidade produtiva, perda ocorreu nos últimos 50 anos devido à substituição mas sim de acesso das populações aos das variedades e raças tradicionais por genótipos comer- alimentos e a dietas adequadas. Mas ciais desenvolvidos para serem utilizadas da forma maisesse quadro mudou abruptamente no início do século abrangente possível, de forma a assegurar lucros para asXXI. A apenas três anos do prazo estabelecido pela FAO empresas do ramo da genética. Essa redução da variabi-8 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  9. 9. Como resultado de processos locais de inovação, os agroecossistemas de base camponesa possuem alto graude especificidade. Fotos: Thomas Bernet, Arno Maatmanlidade genética aumenta a vulnerabilidade agrícola às condições econômicas favoráveis à produção de agro-perdas devido à incidência de insetos-praga ou agentes combustíveis já que os plantios destinados à produçãopatogênicos. Além das perdas relacionadas à variabili- energética passaram a disputar terras e investimentosdade genética das espécies cultivadas, as mudanças no com os plantios alimentares. Como expressou Fidelsistema agroalimentar são responsáveis pela redução no Castro, os pobres do mundo agora têm que competirnúmero de espécies consumidas. Juntos, esse estreita- com os donos de automóveis em um mercado unifica-mento da base alimentar e da variabilidade genética do de alimentos e energia.contribuem de forma decisiva para a perda de soberaniae o aumento da insegurança alimentar e nutricional. Mudanças climáticas e aumen- A degradação acelerada de recursos naturais não to dos riscos agrícolas  Além derenováveis pela agricultura convencional também colo- contribuir para as mudanças climáticas, a agriculturaca o futuro da alimentação em uma situação de alto é também um dos setores mais vulneráveis aos seusrisco. Esse padrão convencional de produção, fundado efeitos. Emissões diretas e indiretas de gases de efeitonos princípios técnico-científicos da Revolução Verde, estufa (GEE) pela agricultura são superiores aos demaisdepende do uso intensivo e sistemático de energia fós- setores produtivos e de serviços e devem aumentar emsil e de fontes naturais de fosfato e de potássio, recursos 40% até 2030. Já os impactos das mudanças climáticasque estão se tornando escassos. A tendência à elevação sobre a agricultura serão variados e imprevisíveis umados custos do petróleo em função do esgotamento das vez que serão criadas as condições para a generalizaçãoreservas mundiais é acompanhada diretamente pela in- dos extremos climáticos. Segundo o Painel Intergover-flação dos preços dos alimentos, tal é o peso dessa fonte namental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla emenergética na produção de adubos químicos e agrotóxi- inglês), as produtividades médias das culturas nas regiõescos, bem como no acionamento de máquinas agrícolas tropicais cairão entre 5 e 11% até 2020 e entre 11 e 46%e no processamento, acondicionamento, resfriamento e até 2050, dependendo do ritmo e da intensidade quetransporte dos produtos a longas distâncias. assumirá o fenômeno. Esse quadro sombrio prenuncia o Os preços dos fertilizantes cresceram entre cinco e sete ressurgimento de uma era de fomes endêmicas em todovezes entre 1999 e 2008 e, embora tenham caído com o mundo, com particular impacto nas regiões tropicais.a crise econômica mundial, continuam três vezes maiscaros do que no início do século e com notada tendência A alternativa agroecológica a subir. Os custos dos agrotóxicos também não param de Ganhou corpo ao longo das duas últimas décadas dosubir, puxados pelas altas no preço do petróleo. Mas a século XX um movimento global orientado à defesacontribuição desses insumos no aumento dos preços dos e à promoção de formas mais sustentáveis de produ-alimentos também se deve à sua crescente ineficiência ção agrícola. Trata-se de uma dinâmica emergenteno controle dos organismos “indesejáveis”. Apesar do au- totalmente descentralizada e diversificada, assumindomento sistemático dos volumes de agrotóxicos aplicados diferentes denominações e conceitos. Por contrapor-senas lavouras, as perdas das culturas cresceram de 28 para ao padrão convencional de desenvolvimento agrícola37% entre 1945 e 1991 e, desde então, esse desequilíbrio fundamentado no paradigma da Revolução Verde, essesó fez aumentar, sobretudo pela crescente resistência de processo inicialmente foi identificado como “agricultu-pragas e plantas espontâneas ao uso dos agrotóxicos após ra alternativa”. A partir da década de 1990, sobretudoa introdução dos cultivos transgênicos. na América Latina, essa denominação imprecisa foi O aumento dos preços do petróleo provocou um substituída pela de “Agroecologia”. Definida como aimpacto indireto no preço dos alimentos ao criar as c ­ iência que aplica conceitos e princípios ecológicos Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 9
  10. 10. SEGURANÇA ALIMENTARpara o desenho de agroecossistemas sustentáveis, a centenas de projetos após a adoção desses princípios,Agroecologia enfatiza o desenvolvimento e a manuten- com registros de 400% de aumento em situações maisção de processos ecológicos complexos capazes de sub- avançadas na transição agroecológica. Além da boasidiar a fertilidade do solo, bem como a produtividade produtividade, os sistemas manejados segundo o enfo-e a sanidade dos cultivos e criações. O nível de ruptura que agroecológico respondem positivamente a outroscom os sistemas convencionais pode variar bastante fatores responsáveis pela crise da agricultura conven-entre as iniciativas de promoção da Agroecologia, cional: são sistemas com balanço energético positivo epodendo ir desde simples medidas de redução ou subs- altamente poupadores de energia de origem fóssil; sãotituição do uso de insumos agroquímicos até a com- econômicos no uso de água; recuperam e conservam apleta reestruturação da lógica de organização técnica fertilidade dos solos sem uso de insumos externos, aléme econômica dos agroecossistemas. Em seus estágios de serem resistentes aos processos erosivos; funcionammais avançados de desenvolvimento, um agroecossis- como sumidouro de carbono (carbon sink) e não emi-tema desenhado segundo princípios agroecológicos tem ou emitem poucos gases de efeito estufa; integram-estabelece forte analogia estrutural e funcional com os se funcionalmente à vegetação natural, dando maiorecossistemas naturais nos quais estão inseridos. estabilidade aos microclimas onde estão inseridos; são O alto grau de especificidade local implica que o livres de contaminação química causada por agrotó-desenvolvimento dos agroecossistemas pela perspec- xicos e fertilizantes solúveis e da poluição genéticativa agroecológica se faz com a forte contribuição de causada pelos organismos geneticamente modificados.dinâmicas locais de inovação e não por meio da difusão O conjunto desses efeitos positivos indica que a gene-de soluções técnicas universais na forma de pacotes, tal ralização da Agroecologia é uma estratégia consistentecomo pressuposto no paradigma da Revolução Verde. para que a crise do modelo convencional seja enfrenta- A busca da eficiência agroecológica depende da da estruturalmente, a começar pelo desafio de alimen-manutenção de agroecossistemas complexos, com alta tar uma população mundial crescente em condiçõesdiversificação de culturas e criações, o que se conse- adequadas e sustentáveis. Foi exatamente isso o quegue por meio de associações, rotações e sucessões de confirmou a Avaliação Internacional sobre Ciência eespécies. A gestão da complexidade inerente a esse tipo Tecnologia Agrícola para o Desenvolvimento (­ ASSTD, Ide sistema impõe limites ao tamanho das unidades na sigla em inglês), uma iniciativa financiada porprodutivas e às possibilidades de mecanização das ope- organismos vinculados às Nações Unidas que, duranterações de manejo. Por essa razão, cobra a execução de três anos, mobilizou os esforços de um grupo de 400trabalhos qualificados, flexíveis e atentos aos detalhes cientistas de vários ramos do saber em países de todosde manejo, o que significa que o trabalho é realizado os continentes (IASSTD, 2009). De forma ainda maisde forma inseparável à gestão do sistema. Ao contrário explícita, o relator das Nações Unidas para o Direitodos sistemas convencionais que são dependentes do Humano à Alimentação divulgou, em 2010, um rela-emprego intensivo de capital, sendo o trabalho essen- tório em que afirma que a Agroecologia pode a um sócialmente mecânico e separado do processo de gestão, tempo aumentar a produtividade agrícola e a segurançao manejo agroecológico é intensivo em trabalho qua- alimentar, melhorar a renda de agricultores familiareslificado. As unidades familiares de pequeno e médio e conter a tendência de erosão genética gerada pelaporte são as que conseguem integrar trabalho e gestão agricultura industrial (DE SCHUTTER, 2010).em um processo indivisível, condição básica para omanejo da complexidade inerente à prática agroecoló- Um desafio político  O principal desafio àgica. Muito embora princípios da Agroecologia possam generalização da perspectiva agroecológica é de nature-ser empregados por grandes produtores empresariais, za política e não técnica. Ele se apresenta diante da ne-o nível de eficiência econômica e ecológica nessas cessidade de superação do poderio político, econômicounidades de produção tende a ser muito menor do que e ideológico dos setores do agronegócio que sustentamquando aplicados em pequenas unidades de gestão a permanência e a expansão do modelo da agriculturafamiliar. Em síntese: a agricultura familiar camponesa industrial. Entre outros efeitos negativos, a dinâmicaé, por excelência, a base sociocultural para a generali- expansionista da lógica do agronegócio tem sido azação da alternativa agroecológica. principal responsável pela desaparição da agricultura familiar camponesa em todo o mundo. Essa desapari-O potencial da Agroecologia ção não significa apenas a diminuição do número depara enfrentar o desafio alimen- unidades produtivas familiares que poderiam ingressartar no século XXI  Segundo levantamento em trajetórias de transição agroecológica, mas implicarealizado na Universidade de Sussex, Inglaterra, mais também a perda da cultura camponesa e de povos ede 1,4 milhões de agricultores em todo o mundo comunidades tradicionais, elemento essencial para aadotam princípios da Agroecologia. O estudo identifi- construção de conhecimentos agroecológicos ajustadoscou aumentos médios de 100% na produtividade em às mais variadas peculiaridades socioambientais.10 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  11. 11. O enfoque agroecológico pode simultaneamente incrementar a produtividade agrícola, aumentar arentabilidade econômica e a segurança alimentar, além de conter a erosão genética promovida pela agriculturaindustrial. Fotos: Sofia Naranjo, Salibo Some, Kodjo Kondo/IFDC A crise de insustentabilidade da agricultura globali- A experiência cubana soou como um alerta plane-zada baseada em monoculturas industrializadas vem tário sobre os desafios de enorme envergadura quesendo escamoteada pela continuidade dos crescentes estão colocados para o conjunto da Humanidade.subsídios públicos ao agronegócio. Mas a permanen- Em muitos países ainda existem agriculturas campo-te acentuação dessa crise, com a continuidade da nesas detentoras de conhecimentos essenciais para odepleção dos recursos naturais e com o aumento das desenvolvimento da Agroecologia, desde que apoiadademandas mundiais por alimentos é uma evidência por políticas públicas adequadas. Mas em muitas situ-inescapável e irrefutável. No contexto de realização da ações torna-se urgente a adoção de políticas voltadasConferência Rio+20, evento no qual grandes desafios à proteção e/ou ao restabelecimento da agriculturarelacionados aos rumos do desenvolvimento e do meio camponesa por meio de reformas agrárias e de medidasambiente estarão sendo debatidos pela comunidade que assegurem os direitos territoriais.internacional, resta saber que medidas concretas serão Quanto mais cedo implementar medidas voltadas àtomadas para que a Humanidade se desvie desse cená- promoção de sistemas agroalimentares fundamenta-rio nebuloso que se desenha para o futuro próximo. dos na agricultura camponesa de base agroecológica, Na prática, a questão que se coloca é: como vislum- menos dolorosa será a transição da economia baseadabrar as condições para a superação do agronegócio pela na energia fóssil para uma economia efetivamenteAgroecologia? Uma avaliação realizada nos Estados sustentável. Infelizmente, não são esses os termos doUnidos identificou que seriam necessárias 40 milhões debate que estão propostos no processo da Rio+20. Ode unidades produtivas para que a produção da agricul- documento base da conferência não menciona as cau-tura norte-americana fosse gerada a partir da agricultura sas das múltiplas e interconectadas crises planetáriasfamiliar em base agroecológica. Como o número atual e propõe “soluções” alcunhadas de “economia verde”de unidades agrícolas nos Estados Unidos não é muito que, na prática, se traduzem por “mais do mesmo”.superior a 2 milhões, essa diferença deveria ser preenchi- A luta pela mudança radical nos rumos da nossa civili-da por “neocamponeses”. As dificuldades de inserir esses zação está apenas começando e a Cúpula dos Povos, reu-novos contingentes da população na atividade agrícola nião da sociedade civil paralela à Rio+20 é um momentotornaria esse processo de transição extremamente difícil de aglutinação de forças, de apresentação de caminhose doloroso para a sociedade norte-americana. Apesar da alternativos e de influência sobre a opinião públicaradicalidade dessa proposição, ela não é sem sentido. A mundial. Ganhar governos e instituições internacionaisHistória já vivenciou o exemplo de Cuba, país que foi para adotarem políticas consequentes com as necessida-obrigado a criar uma nova classe de camponeses para des de mudança exigirá a construção de uma agenda deresponder à interrupção abrupta dos fornecimentos esforços continuados e articulados pelas forças vivas dasubsidiados de insumos e energia por parte da União sociedade civil mundial nas próximas décadas.Soviética e países da Europa do Leste. Até então, soba gestão estatal, a agricultura cubana reproduzia os Jean Marc von der Weid Coordenador do Programa de Políticas Públicas da AS-PTAmesmos traços característicos dos padrões produtivos do Agricultura Familiar e Agroecologiabloco capitalista: grandes monoculturas de exportação,mantidas pelo emprego intensivo de fertilizantes quími- Referências bibliográficascos, agrotóxicos e moto-mecanização. As dificuldades DE SCHUTTER, O. (2010) Report submitted by the Specialiniciais dos neocamponeses cubanos em apreender os Rapporteur on the right to food. UN General Assembly. Humanprincípios e práticas da Agroecologia foram em parte Rights Councilm Sixteenth Session, Agenda item 3 A/HRC/16/49.responsáveis pelo sistema de produção alimentar no país INTERNATIONAL ASSESSMENT OF AGRI­ ULTURAL Cser ineficiente por alguns anos, gerando um período de KNOWLEDGE, SCIENCE AND TECHNOLOGY FORdesabastecimento que só não teve maiores consequên- DEVELOPMENT. Syn­ hesis report: a synthesis of the global and tcias sociais devido à capacidade do governo de redistri- sub-global. IAASTD Reports. Washington, 2009. Disponível em:buir por toda a população a alimentação disponível. http://www.agassessment.org/. Acesso em: abril, 2012. Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 11
  12. 12. SEGURANÇA ALIMENTARA produção nos quintais e o aumento dasegurança alimentar no Sri LankaDilrukshi Hashini Galhena, Gunasingham produção. A adoção de técnicas simples de agre-Mikunthan e Karim Maredia gação de valor, tais como o processamento e a embalagem, podem aumentar as possibilidadesEspecialmente devido à longa guerra civil, a segu- de venda e o valor líquido dos produtos dos quin-rança alimentar ainda é um grande desafio no Sri tais domésticos, ajudando as famílias a ganharemLanka – em particular na região Norte. Em 2007, rendas extras.o governo federal iniciou uma campanha chama- Adicionalmente a esses principais benefícios, osda Api wawamu rata nagamu (“Vamos crescer e quintais produtivos proporcionam outras van-construir o país”), voltada para a promoção da tagens. Eles demandam menos recursos que aprodução de alimentos nos quintais das casas, agricultura comercial e, pela possibilidade de sercomo uma abordagem comprovadamente eficaz. ampliados e manejados com facilidade, alcançamDurante os últimos dois anos, diferentes progra- melhores taxas de eficiência energética. Alémmas ajudaram a estabelecer mais de 300 quintais disso, a produtividade dos quintais pode ser sis-produtivos nas áreas afetadas pela guerra. Esses tematicamente aumentada através de práticas am-programas estão dirigidos, em primeiro lugar, a bientalmente amigáveis. Essas práticas ajudam aresidências desfavorecidas que abrigam famílias reduzir alguns dos problemas ambientais e de saú-com poucos recursos, reassentadas e lideradas por de que são comuns no Sri Lanka. As medidas demulheres. A produção nos quintais é uma prática gerenciamento do lixo doméstico, por exemplo,antiga no Sri Lanka. Hoje em dia, esses quintais ajudam a converter resíduos de cozinha e estercoestão ajudando a aumentar a segurança alimen- animal em fertilizantes orgânicos e cobertura mor-tar e nutricional e melhorar os meios de vida de ta para os cultivos. Práticas simples orientadas aodiversas maneiras. As atividades domésticas de manejo ecológico, tais como a introdução de flo-cultivo e criação suplementam a disponibilidade res, plantas medicinais e aromáticas, assim como ae o acesso das famílias aos estoques alimentares diversificação de cultivos, estão ajudando a redu-através da provisão de um conjunto diversificado zir a infestação de insetos-praga e doenças e, aode hortaliças, frutas, raízes e tubérculos frescos, mesmo tempo, a conservar a biodiversidade e osalém de produtos de origem animal. Os quintais inimigos naturais, melhorando também os serviçosdomésticos fornecem acesso fácil a alimentos ao ambientais.longo do ano por uma fração do custo emprega- Devido à longa estação seca e à quantidade dedo para comprá-los no mercado local. Além disso, terras marginais no norte do Sri Lanka, o uso dealgumas famílias conseguiram iniciar pequenos material orgânico incrementa os níveis de nutrien-empreendimentos vendendo o excedente de sua tes e melhora a qualidade do solo e o seu teor de umidade. Em que pesem as limitações de acesso à terra, tecnologias simples como “jardins verti- cais” tornaram os quintais produtivos possíveis tanto em áreas urbanas como rurais. No longo prazo, essas práticas resultarão não apenas na produção sustentável de alimentos, como propor- cionarão uma série de serviços ambientais adicio- nais. A iniciativa dos quintais produtivos também implica um esforço para fortalecer e pacificar as comunidades locais. A longa guerra civil foi muito prejudicial às populações do Norte do país e ini- ciativas como as dos quintais produtivos podem criar condições sociais para instituir solidariedade e a equidade, beneficiando especialmente os se- tores desfavorecidos e vulneráveis da população. Dilrukshi Hashini Galhena, Gunasingham Mikunthan, e Karim Maredia. E-mail: galhenad@msu.edu12 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  13. 13. Polo da BorboremaRoberval Silva, Paula Almeida, Luciano Silveira eMarilene MeloO Polo Sindical da Borborema (Polo) é uma redede organizações da agricultura familiar da regiãodo agreste do estado da Paraíba, que congregasindicatos de trabalhadores(as) rurais, associaçõese grupos informais de 16 municípios. Por meio desuas organizações, o Polo articula cerca de 4.000famílias de agricultores e agricultoras em torno aum projeto voltado à promoção do desenvolvimen-to rural e da Agroecologia. Por meio de processosintensivos de experimentação e intercâmbio de co-nhecimentos, agricultores familiares redescobrirammétodos tradicionais como o uso de variedades lo-cais de espécies cultivadas; policultivos; organiza- regional organizado pelo Polo foram valorizadosção de bancos de sementes comunitários; produ- como referência em debates relacionados às políti-ção de hortaliças e plantas medicinais nos quintais; cas governamentais voltadas ao combate à fome, àe a experimentação e o uso de uma gama de bio- miséria e às raízes da exclusão social. Dessa forma,fertilizantes e métodos alternativos para o controle as ideias surgidas a partir das iniciativas concretasde insetos-praga e doenças. De modo a prevenir a postas em prática nas comunidades na Borboremaescassez de alimentos durante a estação seca, os alcançaram todo o estado da Paraíba para, final-agricultores armazenaram água e forragens produ- mente, repercutirem no conjunto da região semi-zidas em suas propriedades. árida do Brasil.Para promover o debate regional sobre conceito de O Polo também se uniu à Rede Estadual de Ban-segurança alimentar e conectá-lo ao processo de cos de Sementes Comunitários da Articulação doinovação agroecológica em curso na região, o Gru- Semiárido Paraibano, onde foram estabelecidospo de Teatro do Polo estruturou um espetá­ ulo para c acordos com o governo estadual da Paraíba para orefletir sobre a situação de duas realidades muito fornecimento sementes de variedades locais paradiferentes: uma família que melhorou o seu próprio os bancos comunitários. Através desses bancos, osuprimento de alimentos com muito poucos recur- acesso das famílias a sementes de qualidade e nosos ao participar ativamente de programas de inova- tempo certo para o plantio é garantido, evitando-ção agroecológica; e a realidade daquelas famílias se os riscos de insegurança alimentar em decorrên-que ainda vivem em situações de extrema insegu- cia da perda das melhores datas de semeadura e,rança alimentar. Ao deixar os fatos da vida cotidiana com isso, a perda do ano agrícola.falarem por si mesmos, o público pôde refletir criti- Todo esse processo mostrou que as questões acer-camente sobre essa realidade de contrastes. ca da promoção da segurança alimentar não sãoParticipando ativamente de redes maiores, como apenas técnicas e que o ambiente político podea Articulação do Semiárido Paraibano, e se envol- ser influenciado usando-se a habilidade e a criati-vendo no diálogo em torno da construção de polí- vidade das pessoas, grupos e redes para contribuirticas públicas nos níveis estadual e federal, o Polo para a melhoria de suas próprias vidas.conseguiu influenciar a criação de políticas públicasrelacionadas à segurança alimentar e nutricional e à Este artigo foi publicado na revista Leisa,promoção da Agroecologia. A peça teatral que re- vol. 21.4, Dezembro de 2005. Roberval trata a realidade do agreste Silva, Paula Almeida, Luciano Silveira e paraibano foi exibida em Marilene Melo trabalhavam no programa vários espaços nos quais da Paraíba da AS-PTA – Assessoria e as políticas públicas nessa Serviços a Projetos em Agricultura área foram debatidas. Os Alternativa, em Esperança – PB, Brasil. documentos políticos ela- E-mail: asptapb@aspta.org.br borados em um encontro Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 13
  14. 14. Mudanças Climáticas Estratégiasagroecológicaspara aumentar a resiliência nocontexto de mudanças climáticas A abordagem da Revolução Verde teve um bom desempenho em termos produtivos em áreas dotadas de um clima estável e energia barata. Milhões de hectares foram transformados em sistemas agrícolas de larga escala, especializados e dependentes de insumos industriais. Mas os fertilizantes, agrotóxicos, equipamentos agrícolas e o combustível necessários para a reprodução desse sistema derivam de fontes de energia fóssil cada vez mais escassas e caras. Os extremos climáticos também estão se tornando mais frequentes, enquanto esses sistemas agrícolas intensivos apresentam menor resistência e maior vulnerabilidade. Felizmente, existem alternativas que dispensam o uso dos agroquímicos, aumentam a resiliência da agricultura e asseguram rendimentos produtivos elevados. Clara Inés Nicholls e Miguel A. AltieriP ouco tem sido feito para aumentar a capa- Com base nessas evidências, vários especialistas cidade de adaptação da agricultura indus- têm sugerido que o resgate de sistemas de manejo trial às mudanças climáticas ou aos even- tradicionais, juntamente com o emprego de estratégias tos climáticos extremos, a não ser por de manejo de base agroecológica, pode representar ações baseadas em “fórmulas mágicas”, o único caminho viável e robusto para aumentar a como a transgenia, com a qual se espera produtividade, a sustentabilidade e a resiliência daque as culturas produzam mesmo em condições de es- produção agrícola. Apresentamos neste artigo algumastresse ambiental. Quase nenhum trabalho foi realizado estratégias de gestão agroecológica de agroecossistemasna elaboração de práticas de manejo que aumentem a que podem ser implementadas nesse sentido.resiliência da agricultura às mudanças climáticas. Háuma ampla gama de evidências que demonstra que os Sistemas agrícolas diversifica-manejos de base agroecológica contribuem enorme- dos  Análises detalhadas do desempenho agrícolamente nesse sentido. De fato, muitos estudos revelam após eventos climáticos extremos têm revelado que aque agricultores familiares que adotam esses manejos resiliência a desastres naturais está intimamente ligadaconseguem lidar com as alterações climáticas, minimi- ao nível de biodiversidade presente na paisagem rural.zando as quebras de safra. Resultados de vários estudos Uma pesquisa realizada em encostas da América Cen-sugerem que esses manejos conferem maior capacida- tral depois da passagem do furacão Mitch mostrou quede de resistência a eventos climáticos, proporcionando os agricultores que utilizam práticas de diversificaçãomenor vulnerabilidade e maior sustentabilidade aos (tais como plantas de cobertura, consórcios e sistemassistemas agrícolas no longo prazo. agroflorestais) sofreram menos danos do que os seus14 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  15. 15. vizinhos que adotavam monoculturas convencionais. maior estabilidade de rendimento e menor declínioEssa constatação foi o resultado da análise comparativa de produtividade durante períodos de seca. Um estudode mais de 1.800 pares de propriedades vizinhas iden- sobre o efeito da seca (NATARAJAN; WILLEY, 1986)tificadas como “sustentáveis” e “convencionais”, em em policulturas mostrou que consórcios são sistemasregiões por onde o furacão causou estragos na Nicará- de alto desempenho. Um dado muito interessante égua, Honduras e Guatemala. A pesquisa revelou que que os contrastes se acentuam com o estresse hídrico,as parcelas “sustentáveis” apresentavam camadas de mostrando que as diferenças relativas de produtividadesolo superficial entre 20 e 40% superiores, assim como entre as monoculturas e as policulturas são maiores àmaiores teores de umidade no solo, menores graus de medida que o estresse se intensifica.erosão e de perdas econômicas quando comparadas Outro exemplo é o dos sistemas silvipastoris intensi-com as de seus vizinhos convencionais (ver quadro na vos, que combinam arbustos forrageiros plantados empág. 19). De forma similar, as unidades de produção altas densidades, árvores, palmeiras e pastagens. Nessesde café no México que exibiam níveis elevados de sistemas, é possível manter uma alta lotação animal ecomplexidade e diversidade de plantas foram menos ainda produzir leite e carne por meio do pastejo rotacio-afetadas pelo furacão Stan. Em Cuba, quarenta dias nado. Na fazenda El Hatico, em Cauca, na Colômbia,após a passagem do furacão Ike, em 2008, pesquisado- um sistema composto por gramíneas, arbustos de leuce-res verificaram que as propriedades rurais diversificadas na, árvores de médio porte e uma cobertura proporcio-tiveram uma perda da ordem de 50%, enquanto nas nada por grandes árvores tem, ao longo dos últimos 18áreas monocultoras vizinhas a perda foi 90 ou 100%. anos, permitido aumentar as taxas de lotação para 4,3Da mesma forma, propriedades que adotavam manejos vacas leiteiras/ha e elevar em 130% a produção de leite.agroecológicos mostraram uma recuperação produtiva Além disso, possibilitou a completa eliminação do usomais rápida do que as áreas manejadas com monocul- de fertilizantes químicos. Embora 2009 tenha sido o anoturas. mais seco registrado em 40 anos na propriedade El Ha- Esses são apenas alguns exemplos de como agroecos- tico, e ainda que os agricultores tenham vivenciado umasistemas complexos são capazes de se adaptar e resistir redução de 25% da biomassa da pastagem, a produçãoaos efeitos das mudanças climáticas. Os sistemas agro- de forragem permaneceu constante durante todo o ano,florestais têm demonstrado a capacidade de atenuar o neutralizando os efeitos negativos da seca sobre todo oimpacto das grandes flutuações de temperatura sobre sistema. Em resposta ao clima extremo, a fazenda teveas culturas, mantendo-as assim em condições mais que ajustar as suas taxas de lotação animal. Apesar disso,próximas das ideais. Cultivos de café mais sombreados a produção de leite em 2009 foi a maior já registrada,protegem as culturas da queda nos índices de precipi- com um surpreendente aumento de 10% em compa-tação e da redução da disponibilidade de água no solo ração com os quatro anos anteriores. Enquanto isso,em função de seu estrato superior florestal, reduzindo a agricultores em outras partes do país relataram que osevaporação do solo e aumentando a infiltração de água animais tiveram uma perda de peso severa e que houveno solo. Ao mesmo tempo, o consórcio permite que alto índice de mortalidade devido à fome e sede.os agricultores produzam várias culturas simultanea- A combinação de benefícios gerada pelos sistemasmente, minimizando os riscos. Policultivos apresentam diversificados de produção aqui descritos, como regu- lação da água, microclima favorável, biodiversidadeEstratégias de organização social são componentes- e estoques de carbono, não só fornece bens e serviçoschave da resiliência. Foto: Paul Mapfumo ambientais para os produtores, mas também proporcio- na uma maior resiliência às mudanças climáticas. Aumentando a matéria orgânica do solo  A produtividade de culturas sob con- dições climáticas sujeitas a secas é frequentemente limitada pela baixa disponibilidade de água no solo. Adicionar regularmente grandes quantidades de mate- riais orgânicos é uma estratégia comum utilizada por muitos agricultores para melhorar a economia hídrica dos solos nessas condições. A matéria orgânica do solo (MOS) aumenta a capacidade de o solo reter água e a tolerância à seca, melhorando a infiltração, evitan- do que as partículas do solo sejam carregadas pela água sob chuvas intensas. A MOS também melhora a agregação da superfície do solo, mantendo as partícu- las do solo firmemente unidas durante as chuvas ou Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 15
  16. 16. Mudanças Climáticas REDAGRESvendavais. Nesse sentido, o manejo da MOS é central A Rede Ibero-Americana de Agroecologia paranos esforços para aumentar a resiliência dos sistemas o Desenvolvimento de Sistemas Agrícolas Re-agrícolas por gerar e manter solos saudáveis, com uma silientes às Mudanças Climáticas (Redagres)atividade biológica ativa e boas características físicas e reúne cientistas e pesquisadores localizadosquímicas. em oito países. Seus objetivos são promover o Adicionalmente, os solos ricos em matéria orgânica intercâmbio de conhecimentos e informaçõesgeralmente contêm fungos micorrízicos simbiontes relacionadas à agricultura e às mudanças climá-que constituem um componente-chave das populações ticas. Além de analisar o impacto das alteraçõesmicrobianas, influenciando o crescimento das plantas climáticas sobre a produção agrícola, a Reda-e a produtividade do solo. As micorrizas são impor- gres coloca ênfase especial na exploração detantes porque melhoram as interações planta-água, diferentes estratégias de adaptação a condiçõesaumentando assim a resistência à seca. A habilidade climáticas extremas, bem como na aplicação dede associações específicas entre fungos e plantas para princípios agroecológicos para a concepção etolerar a seca é de grande interesse em áreas afetadas a intensificação de agroecossistemas resilientespelo déficit de água: há registros de que a infecção por às mudanças climáticas.fungos micorrízicos aumenta a absorção de nutrientes Poucos meses atrás, a Redagres lançou um pro-em plantas com estresse hídrico e permite que elas jeto de dois anos, envolvendo uma pesquisautilizem a água de forma mais eficiente. de sistemas agrícolas de pequena escala em determinadas regiões da América Latina a fimManejando a cobertura do solo  de identificar sistemas que resistiram a eventosProteger o solo contra a erosão também é uma estra- climáticos, tanto recentemente como no passa-tégia fundamental para aumentar a resiliência. O uso do, e entender suas principais características.de cobertura morta e de adubos verdes oferece muitas Os princípios emergentes estão sendo compar-vantagens. A cobertura morta a partir de resíduos de tilhados com agricultores familiares de comuni-cultivo protege a superfície do solo, reduzindo o seu dades vizinhas e outros da região por meio deprocesso de ressecamento. A cobertura morta reduz a atividades como dias de campo, visitas de inter-velocidade do vento sobre o terreno em até 99% e, por câmbio, seminários e cursos de curta duração eisso, a perda de água por evaporação se reduz significa- também por meio da elaboração de um manu-tivamente. Além disso, cultivos de cobertura e resíduos al de linguagem acessível direcionado para osde plantas espontâneas podem melhorar a penetração agricultores que explicam como avaliar o nívelde água e diminuir de duas e seis vezes as perdas em de resiliência da cada propriedade e indicam ofunção do escoamento. que fazer para aumentar a resistência. Em toda a América Central, diversas ONGs, comoo Centro Internacional de Informação sobre Cultivosde Cobertura (Ciddico), a Vecinos Mundiales, entreoutras, têm promovido o uso de leguminosas de grãocomo adubos verdes, uma fonte barata de fertilizanteorgânico e uma forma de produzir matéria orgânica.Centenas de agricultores na costa norte de Hondurasestão usando a mucuna (Mucuna pruriens) com exce-lentes resultados, incluindo safras de milho de cercade 3.000 kg/ha, mais que o dobro da média nacional.Essas espécies produzem cerca de 30 t/ha de biomassapor ano ou cerca de 90 a 100 kg de nitrogênio porhectare por ano. O sistema diminui as perdas causadaspelas secas, uma vez que a camada de cobertura mortadeixada pela mucuna ajuda a conservar a água noperfil do solo, tornando os nutrientes prontamente dis-poníveis nos períodos em que a demanda das culturasé maior. Hoje, registram-se mais de 125 mil agricultoresutilizando regularmente os adubos verdes e culturas decobertura no estado de Santa Catarina, Brasil. Agri-cultores familiares de encostas modificaram o sistemaconvencional de plantio direto ao deixarem resíduosvegetais na superfície do solo, observando uma redução16 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  17. 17. Agroecossistemas complexos são capazes de se adaptar e de resistir aos efeitos das mudanças climáticas.Fotos: Faris Ahmed, Mirjam Pullemannos níveis de erosão do solo e também experimentando devem demonstrar a habilidade de atenuar os efeitos demenos flutuações na umidade e temperatura do solo. perturbações com métodos agroecológicos adotados eAplicações repetidas de biomassa fresca aumenta- disseminados por meio da auto-organização e da açãoram a qualidade do solo, minimizaram a erosão e o coletiva (TOMPKINS; ADGER, 2004).crescimento de plantas espontâneas e melhoraram o Reduzir a vulnerabilidade social por meio da am-desempenho das culturas. Esses novos sistemas lançam pliação e consolidação de redes sociais, tanto em nívelmão de coquetéis de espécies de adubo verde tanto local como em escala regional, pode contribuir parapara os períodos de verão como de inverno, deixando aumentar a resiliência dos agroecossistemas. A vulne-uma espessa camada de resíduos em que culturas rabilidade de comunidades rurais depende do grau decomo milho, feijão, trigo, cebola e tomate são direta- desenvolvimento do capital ecológico e social que tornamente semeadas ou plantadas, sofrendo muito pouca os agricultores e seus sistemas mais ou menos suscetíveisinterferência das plantas espontâneas durante a estação aos choques climáticos. A capacidade de adaptaçãode crescimento. Estudos conduzidos pela AS-PTA em refere-se ao conjunto de condições sociais e ecológicasSanta Catarina, após o período seco da estação 2008- que permitem aos indivíduos ou grupos, bem como suas2009, mostraram que produtores convencionais de propriedades, reagir às mudanças climáticas de umamilho apresentaram uma perda de produção média de forma resiliente. Todas as comunidades têm capacidade50%, atingindo níveis de produtividade de 4.500 kg/ha. de responder a alterações nas condições ambientais,No entanto, os produtores que tinham passado a adotar embora em diferentes graus e de formas nem semprepráticas agroecológicas de plantio direto tiveram uma sustentáveis. O desafio é identificar aquelas que podemperda de apenas 20%, confirmando a maior resiliência fazer ajustes de modo que a vulnerabilidade seja redu-desses sistemas (ver quadro na pág. 18). zida por meio do aumento da capacidade reativa das comunidades para implantar mecanismos agroecológi-Aumentando a resiliência social  cos que permitam aos agricultores resistir e se recuperarComunidades com maior diversidade de plantas são de eventos climáticos. Estratégias de organização socialmais resistentes a perturbações e mais resilientes a estres- (redes de solidariedade, trocas de alimentos, etc.) utili-ses ambientais decorrentes de eventos climáticos extre- zadas por agricultores para lidar com situações difíceismos. Sem dúvida, a diversificação de culturas representa impostas por tais eventos constituem, portanto, umuma estratégia de longo prazo para agricultores que componente-chave de resiliência.estão experimentando um clima errático. A diversifica-ção pode reduzir significativamente a vulnerabilidade Clara Inés Nicholls é a coordenadora da Rede Ibero-Ameri-dos sistemas de produção, protegendo produtores rurais cana de Agroecologia para o Desenvolvimento de Sistemas Agrícolas Resilientes às Mudanças Climáticas (Redagres)e a produção agrícola. Agricultores que usam a diversida- E-mail: nicholls@berkeley.edude como uma estratégia de manejo geralmente agregam Miguel A. Altieri é o presidente da Sociedade Científicagrandes quantidades de matéria orgânica em seus solos, Latino-Americana de Agroecologia (Socla)aumentando ainda mais sua capacidade hídrica. Ao ma- E-mail: agroeco3@berkeley.edunejar culturas de cobertura e adubos verdes, melhoram acobertura do solo, protegendo-o da erosão, mas também Referências bibliográficas: LIN, B.B.; PERFECTO, I.; VANDERMEER, J. Synergies betwe-agregando biomassa, o que por sua vez contribui para en agricultural intensification and climate change could createníveis elevados de MOS. surprising vulnerabilities for crops. BioScience, n. 58, p. 847-854, Estratégias que aumentam a resiliência ecológica dos 2008.sistemas agrícolas são essenciais, mas não o suficiente NATARAJAN, M.; WILLEY, R.W. The effects of water stress onpara alcançar a sustentabilidade. A resiliência social, yields advantages of intercropping systems. Field Crops Research, n. 13, p. 117-131, 1996.definida como a capacidade de grupos ou comunidades TOMPKINS, E.L.; ADGER, W.N. Does adaptive management ofde se adaptar a tensões sociais, políticas ou ambientais, natural resources enhance resilience to climate change? Ecologydeve andar de mãos dadas com a resiliência ecológica. and Society, v. 9, n. 2. Disponível em: http://www.ecologyandso-Para serem resilientes, sociedades rurais geralmente ciety.org/vol9/iss2/art10. Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 17
  18. 18. Mudanças Climáticas Lidando com extremos climáticos no Sul do Brasil Edinei de Almeida, Paulo Petersen e Fábio Júnior e aqueles que vêm adotando princípios agroecoló- Pereira gicos em seus métodos de manejo evidencia esse fato. As diferenças surgiram já na fase de replantio. A má distribuição pluviométrica é um dos efeitos Para os primeiros, o replantio significou novo de- das mudanças climáticas já visíveis no Sul do Bra- sembolso financeiro para a aquisição de sementes sil, região caracterizada exatamente pelo oposto, e fertilizantes. Já para os últimos, o desembolso ou seja, pela boa distribuição das chuvas durante foi desnecessário, uma vez que suas lavouras são o ano. Esse cenário ambiental emergente traz con- conduzidas com sementes crioulas (produzidas na sigo o aumento significativo dos riscos inerentes à propriedade ou trocadas com vizinhos) e a gestão agricultura, especialmente quando ela é baseada da fertilidade do sistema se fundamenta na dinami- em lavouras anuais, as mais vulneráveis aos extre- zação biológica do solo pelo manejo da adubação mos climáticos. verde associada ao uso de pós-de-rocha. A safra de 2008-2009 na região do Planalto Norte- Os resultados econômicos ao final da safra foram Catarinense foi mais uma que sofreu com as con- muito contrastantes: os produtores convencionais dições climáticas adversas. Os efeitos desse verão produziram 4,5 mil quilos de milho por hectare, mas atípico se fizeram sentir já em outubro, mês em que tiveram um custo médio equivalente a 7 mil quilos foi registrada uma pluviometria de 350 mm – quase (um prejuízo financeiro de 2,5 mil quilos de milho), 30% da média total anual para a região. Como ou- ao passo que os agricultores em transição agroeco- tubro coincide com o início do período de plantio, lógica produziram uma média de 4,2 mil quilos com o excesso de chuvas significou para muitas famílias um custo produtivo equivalente a 744 quilos de a necessidade do replantio no começo de novem- milho. O melhor desempenho econômico dos sis- bro, quando as chuvas diminuíram em intensidade. temas em transição explica-se pela combinação de Após o excesso de chuvas verificado em outubro, a dois fatores: as menores perdas agronômicas por região assistiu a um longo período de estiagem que conta da maior resiliência agroecológica às instabi- se estendeu de meados de novembro ao final de lidades climáticas; e os custos produtivos significa- dezembro. Esse duplo estresse ambiental (excesso tivamente menores, alcançados pela maior autono- e falta de água no solo) causado por extremos cli- mia em relação à indústria de insumos e ao sistema máticos opostos em uma mesma safra resultou em financeiro, um fator determinante exatamente em perdas significativas das lavouras. Dados oficiais re- um momento em que os preços dos insumos agrí- gistram quebras de safra da ordem de 50% para o colas vêm crescendo rapidamente. milho, 60% para o feijão, 25% para a cebola, 25% Os resultados dessa experiência revelam a impor- para o fumo e 15% para a soja. tância de uma radical reorientação nas políticas pú- Entretanto, as quebras de safra e seus efeitos não blicas, já que elas permanecem fomentando estilos foram iguais para todas as famílias. A análise com- de produção estruturalmente dependentes de insu- parativa entre os produtores convencionais de milho mos industriais e que tornam os sistemas agrícolas altamente vulneráveis às já inevitáveis mudanças climáticas. Este artigo foi publicado na edição v.6, n.1 da Revista Agriculturas: experiências em agroecologia (Abr./2009). Edinei de Almeida, Paulo Petersen e Fábio Júnior Pereira são membros da equipe da AS-PTA. E-mail: edineialm@gmail.com; paulo@aspta.org.br;Cultivo convencional Cultivo em transição agroecológica fabio@aspta.org.br em março de 2009 em março de 2009 18 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  19. 19. Medindo a resistência agroecológica contra ofuracão MitchEric Holt-GiménezEm outubro de 1998, o furacão Mitch, um doscinco mais poderosos furacões a atingir o Caribeno século 20, afetou seriamente a agricultura daNicarágua, de Honduras e da Guatemala. A maio-ria dos observadores concorda que a magnitudedo desastre, sem precedentes, foi consequênciade décadas de desmatamento, agricultura nãosustentável e ações que resultam em degradaçãoambiental. No entanto, observações in situ revela-ram algo diferente: as propriedades onde práticas“sustentáveis” eram aplicadas sofreram menos doque as que empregavam sistemas “convencio-nais”. O Movimento Agricultor a Agricultor, forma-do por agricultores experimentadores e técnicos,elaborou uma proposta para estudar a resistênciaagroecológica de propriedades convencionais aeventos como o furacão Mitch em comparação formassem alianças entre si e com suas assesso-com aquelas onde a agricultura sustentável ou a rias técnicas. Juntos, descreveram como seus sis-Agroecologia era praticada. O objetivo da pes- temas devem ficar nos próximos 10 anos após aquisa foi provar que a agricultura sustentável é a aplicação dos princípios agroecológicos: conser-alternativa mais viável e, portanto, a recuperação vação do solo e da água; redução do uso de insu-das propriedades que foram atingidas pelo fura- mos químicos ou completa eliminação deles; usocão deve apontar nessa direção, seguindo uma de culturas de cobertura; implantação de sistemasestratégia de reconstrução participativa. agroflorestais; plantio em fileiras; emprego de fer- tilizantes orgânicos e produtos naturais; e adoçãoOs resultados gerais mostraram que as proprie- de diferentes formas de manejo integrado de pra-dades agroecológicas são mais resistentes à de- gas. Esse exercício os incentivou a analisar os obs-vastação causada pelos impactos dos eventos cli- táculos ao desenvolvimento de suas localidades.máticos extremos. Foram realizadas oficinas para O Movimento Agricultor a Agricultor conseguiucompartilhar as informações obtidas na pesquisa estimular dinâmicas que levaram à mobilização ede campo, onde foi comprovado que as proprie- ao empoderamento das comunidades, o que indi- dades agroecológicas ca que resiliência envolve uma importante dimen- conservaram melhor as são social, além da técnica. camadas superficiais do solo (20 a 40% mais do Este artigo foi publicado na que propriedades con- edição 17.1 da Leisa - Revista vencionais). No final, de agroecología (julho 2001). cerca de 90% dos parti- Eric Holt-Giménez estava cipantes das 15 oficinas então trabalhando no definiram-se por adotar Departamento de Estudos Ambientais da Universidade da os princípios de manejo Califórnia, em Santa Cruz, EUA. agroecológico. Atualmente é Diretor Executivo do Food First / Institute for A experiência bem su- Food and Development Policy. cedida de compartilha- E-mail: eholtgim@foodfirst.org mento de informações serviu como estímulo para que os agricultores Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 19
  20. 20. AGRICULTORES E MERCADOS Aprendizagem em rede sobre a organização para acesso aos mercados Estamos apenas na metade de O Programa de Empoderamento de Pequenos Agri- 2012, o Ano Internacional das cultores nos Mercados (Esfim, na sigla em inglês) tenta captar esses aprendizados por meio de um site e uma Cooperativas da ONU, mas ele base de dados contendo estudos de caso específicosjá contribuiu muito para mostrar (www.collectivemarketing.org). Esse site foi criado com a importância das organizações o objetivo de servir de instrumento de identificação e da agricultura familiar. Não há divulgação de experiências, reunindo conhecimento sobre regulamentos internos que facilitam as operações como negar que a ação coletiva comerciais. Como essas “experiências” estão sempre de agricultores familiares é associadas a um contexto específico (por exemplo, de extremamente necessária, acordo com o produto, o apoio de instituições, a escala especialmente quando se da organização, etc.), esse instrumento é facilitado por um quadro comparativo que ajuda a encontrar solu- considera que não produzem ções ou lições em função do tipo de desafio. com base na economia de escala, o que dificulta a sua Desafiando as tensões que ame- inserção em mercados agrícolas açam as organizações  Existem várias “tensões básicas” (ou dilemas) que caracterizam as es- cada vez mais concentradores. tratégias coletivas de comercialização. Todas as organi- Giel Ton zações serão afetadas por uma ou mais dessas tensões, embora não venham necessariamente a considerá-lasA como sendo problemáticas. Em geral, as organizações gricultores familiares não produzem de agricultores somente percebem alguma tensão em escala e, portanto, geralmente quando se encontram em situações de mudança ou de precisam aumentar o volume de crise, quando decisões têm de ser tomadas para resolver sua produção para poder acessar os problemas, evitar danos ou mediar conflitos – situações mercados urbanos ou a indústria de que as obrigam a redefinir regulamentos internos. Ao produtos processados. Para alcan- captar essas experiências de definição das “regras doçar essa condição é necessário o desenvolvimento de jogo” internas (ou arranjos institucionais), organizan-formatos organizativos cooperativos. Experiências do-as de acordo com o tipo de tensão, nós proporcio-bem-sucedidas de comercialização em forma associa- namos uma ferramenta por meio da qual os usuáriostiva têm contribuído para a “construção” de atributos podem encontrar lições relevantes sobre aspectos que,organizacionais que facilitam a vida desses agricul- em dado momento, são mais pertinentes para eles.tores. Eles regularmente ajustam suas modalidades Para tanto, basta fazer uma busca e clicar duas vezesinternas de gestão e transação em função de exigências na experiência que pareça mais interessante para terapresentadas por membros e não membros das organi- acesso a informações mais detalhadas, com a referênciazações, por exemplo, em relação à definição de preços, ao documento ou à fonte que apresenta a experiência.a pagamentos, quantidade ou qualidade dos produtos. Não como “melhores práticas”, mas como “insumosPor meio de processos de aprendizagem na prática, para o aprendizado”.essas organizações desenvolveram normas internas, A lista a seguir apresenta algumas áreas em que cos-condições contratuais e sistemas de controle que se tumam residir as tensões entre os membros e a organi-revelaram eficazes e viáveis nas atuais condições de zação. Quando mal administradas, essas tensões podemmercado. levar à desintegração do grupo. No contexto dessas20 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  21. 21. Muitas organizações têm encontrado formas inovadoras para superar as ameaças à coesão do grupo.tendências desintegrativas, organizações têm encontrado Preço justo Os membros esperam que sua organização negociesoluções (muitas vezes bastante inovadoras) que podem um preço justo para suas mercadorias. O poder deinspirar outras organizações a implementar iniciativas barganha do grupo terá que gerar melhores condi-similares, adequando-as a suas condições específicas. ções do que se cada membro negociasse por conta Para participar do site www.collectivemarketing.org, própria. Isso implica a necessidade de um mecanismoo Programa Esfim está à procura de exemplos dessa que crie transparência na determinação do preço.“inteligência organizacional”. Você pode muito bem Garantia de Quando um negócio é fechado, a qualidade quejá ter em mãos esse material pronto, já que muitos pro- qualidade a organização prometeu terá que ser controlada,fissionais que trabalham com organizações de agricul- uma vez que membros individuais podem entregar produtos com uma qualidade mais baixa. A organiza-tores documentam esse tipo de informações em seus ção necessita, portanto, de um sistema para manterprojetos e atividades. O material pode ser enviado para requisitos mínimos de qualidade.giel.ton@esfim.org. Todos os relatos submetidos que Lidando com Muitos agricultores tendem a enfrentar restriçõesforem considerados relevantes e de qualidade serão in- restrições de financeiras e pedir para receber o pagamento rápido,cluídos no site. Os exemplos mais consistentes poderão capital de enquanto que a organização precisa de tempo parafuturamente constar em uma publicação impressa. giro concluir as transações com o comprador final. Isso Mesmo os relatos não totalmente acabados são bem- cria custos financeiros para o grupo que precisam tervindos, pois deles extrairemos a solução organizacional um capital de giro para cobri-los.relevante para o banco de dados e o site. No entanto, Prevenindo A organização pode prestar um serviço de crédito ousão ainda mais bem-vindas as experiências que, ao do- vendas extra- estabelecer um sistema de pagamentos antecipadoscumentarem a maneira que organizações de agriculto- contratuais para viabilizar a produção. No entanto, existe um risco grave de que os agricultores não honrem seusres lidaram com essas tensões, atentaram para: contratos, vendendo paralelamente seus produtos• O CONTEXTO: relate as atividades do grupo e para comerciantes ou empresas de processamento os problemas que fizeram com que seus membros concorrentes, com os quais não têm nenhum com- chegassem a essa solução. promisso.• O MECANISMO: fale dos mecanismos Destinação Quando a organização gera lucros, ela tende a inves- organizacionais que foram usados para resolver a dos lucros tir ou aumentar as reservas de capital, enquanto o tensão entre o interesse do grupo versus o interesse membro tem tendência a preferir benefícios de mais individual dos membros. curto prazo, por exemplo, melhores preços.• O RESULTADO: qual foi o resultado da Diferenciação A maioria das organizações econômicas precisa rece- introdução de tal mecanismo? Como ele mudou o de serviços ber contribuições dos membros para viabilizar suas comportamento dos membros ou afetou a maneira para membros oportunidades de negócios. No entanto, os mem- que o grupo desempenhava suas funções e atividades? e não bros não veem incentivos para contribuir quando os membros benefícios resultantes dessas atividades favorecem• AVALIAÇÃO: você recomendaria essa solução para investidores e não investidores indistintamente. outras organizações de agricultores? Existe qualquer requisito a cumprir para introduzir e usar esse Delegação A maioria de organizações de agricultores contrata de tarefas e profissionais para apoiá-los. De um lado, os membros mecanismo? Ou você pode sugerir formas melhores supervisão do conselho precisam ter informações apropriadas de lidar com problemas semelhantes? de pessoal para tomar boas decisões e precisam de uma equipe profissional que seja transparente e segura na prestação dessasJunte-se ao Programa Esfim, apresentando suas experi- informações. Por outro lado, as decisões sobre asências! transações comerciais precisam ser tomadas no mo- mento oportuno e serem eficientes, o que significaGiel Ton trabalha como pesquisador sênior no Agricultural que a equipe profissional precisa ter autonomiaResearch Institute (LEI), em Wageningen, e é o coordenador suficiente de decisão.do programa Esfim (www.esfim.org). Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 21
  22. 22. Entrevista MANUEL GONZALEZ DE MOLINA Metabolismosocioecológico como ferramenta para aanálise da sustentabilidade dos sistemas agroalimentares Manuel Gonzalez de tima década. Que novas contri- Molina Navarro é PhD buições conceituais e metodoló- gicas eles trazem?  A proposta teórica e em História e professor metodológica do metabolismo social preenche uma do Departamento de grande lacuna. Precisávamos de uma ferramenta História Contemporânea conceitual que fosse comum às várias disciplinas cujo objeto é o estudo do ambiente. Da mesma forma que na Universidade as “disciplinas híbridas” surgiram do casamento entre Pablo de Olavide diferentes ciências, como é o caso da Agroecologia, (Sevilha), onde dirige o o metabolismo socioecológico é uma teoria híbrida entre ciências sociais e naturais, incluindo Ecologia, Laboratório de História Economia, História, Sociologia, termodinâmica, etc. dos Agroecossistemas, Por razões de economia cognitiva, a transdisciplina- no qual historiadores, ridade exige ferramentas conceituais comuns para abordar a complexidade das interações entre sociedade ecólogos, economistas e e natureza e facilitar a compreensão entre diferentes agrônomos desenvolvem especialistas. suas pesquisas com uma De que forma a análise do me- orientação transdisciplinar. tabolismo agrário pode ser útil Entrevista: Paulo Petersen para o planejamento dos siste- mas alimentares?  A aplicação do meta- bolismo socioecológico a agroecossistemas deu lugar J a um “metabolismo agrário”, que é uma ferramenta untamente com Victor Manuel Toledo, extremamente útil para o estudo da sustentabilidade pesquisador da Universidade Autônoma do agrícola. Com ele, pode-se integrar não só aspectos México, o professor Gonzalez de Molina ambientais e agronômicos, mas também econômicos e publicou recentemente o livro Metabolis- sociais, ou seja, os arranjos institucionais que facilitam mos, naturaleza e historia: hacia una teoria ou colocam obstáculos ao alcance da sustentabilidade. de las transformaciones socioecológicas, A aplicação da abordagem metabólica na agricultura publicação onde apresentam a abordagem do meta- permite compreender a crise ambiental nas zonas bolismo social como uma poderosa ferramenta para rurais a partir do enfoque em diferentes escalas de a análise da relação entre homem e natureza. Nesta abordagem (cultivo, propriedade rural, regional, nacio- entrevista, ele apresenta essa perspectiva conceitual e nal ou global), dando assim orientações para o plane- metodológica e suas possibilidades de uso para o plane- jamento das intervenções necessárias para a promoção jamento de sistemas agroalimentares mais sustentáveis. da sustentabilidade dos sistemas agroalimentares. Por exemplo, na Espanha temos aplicado essa Estudos sobre o metabolismo abordagem (ver n. 10 da Revista de Economía Crí- social ganharam terreno na úl- tica: http://revistaeconomiacritica.org/) e os dados 22 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012

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