Successfully reported this slideshow.
We use your LinkedIn profile and activity data to personalize ads and to show you more relevant ads. You can change your ad preferences anytime.
5 de Outubro de 1910<br />Ou um equívoco chamado República<br />
O século XIX português<br />A primeira metade do século XIX vai ser marcada pelas invasões francesas e a fuga da família r...
Desastre da ponte das barcas, em reprodução<br />coeva<br />Alminhas na Ribeira do Porto<br />em memória das vítimas<br />...
O século XIX português<br />1810 – Assinatura, entre Portugal e Inglaterra, dos tratados de Comércio e<br />Amizade e de A...
Pavilhão do Reino Unido de Portugal,<br />Brasil e Algarves<br />Antigo pelourinho ostentando as armas do<br />Reino Unido...
O século XIX português<br />1821 – As Cortes exigem o regresso de D. João VI a Portugal além de pretenderem  anular os pri...
Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, Marquês de Sá da<br />Bandeira (1795-1876).<br />Alexandre Herculano chamou-lhe “mo...
A Decadência Económica – Estatísticas do Comércio<br />Milhares de contos<br />anos<br />Abertura dos portos brasileiros<b...
A Decadência Económica<br />A agricultura sofre um rude golpe com a extinção<br />das ordens religiosas masculinas e aboli...
A Decadência Económica<br />Os frades, espoliados das propriedades feitas por suas mãos, <br />mendigam miseráveis pelos c...
A Regeneração<br />30 de Agosto de 1852 – além dos ministérios<br />tradicionais, Presidência do Conselho, Reino, <br />Es...
1852 – Bancarrota do Tesouro. Fontes redefine a <br />natureza da dívida pública que passa de amortizável,<br />isto é, pa...
Os seus partidários, aparte as virtudes<br />cívicas e pessoais que ninguém lhe contesta,<br />atribuem-lhe todos os camin...
Dólares EU de 1960<br />A. Nunes<br />N. Valério<br />E. Mata<br />Evolução do PNB per capita, que, de 1850 a 1890, teve u...
Alexandre Herculano a Oliveira Martins<br />A liberdade humana sei o que é: uma verdade da<br />consciência, como Deus. Se...
Crítica do Liberalismo ao Socialismo<br />O socialista vê  no indivíduo a coisa da sociedade:<br />o liberal vê na socieda...
Teófilo Braga – natural dos Açores, como<br />Antero de Quental e Manuel de Arriaga.<br />Despoletou a Questão Coimbrã.<br...
Defendeu a tese de que a História de Portugal<br />consistia na dominação de uma raça oprimida,<br />os moçárabes, por uma...
Antero, que entrou em colisão com ele, chamava-lhe<br />“o moçárabe bilioso”.<br />No dia 1 de Agosto de 1872, o jornal O ...
Na sequência das Conferências Democráticas<br />do Casino Lisbonense, da Comuna de Paris e de contactos com membros da Ass...
O pior que nos pode acontecer é sermos<br />amanhã República.<br />Antero de Quental, carta a Oliveira Martins,<br />2 de ...
Azedo Gneco, José Fontana, Nobre França, José Caetano da Silva,  Agostinho da Silva, José Tedeschi e António Joaquim de Ol...
Em política tem-se dito que Ramalho Ortigão é republicano.<br />Nada menos exacto. Ramalho, creio, teme a República, tal<b...
Antero de Quental a Alberto Sampaio<br />“Saberás que vim encontrar aqui a minha candidatura<br />pelo círculo de  Alcânta...
Não sei o que pensarão e dirão os republicanos. Talvez seja <br />uma  ocasião de me explicar sobre a delicada distinção e...
Em 1879, Joaquim de Vasconcelos <br />apresentou na Sociedade de<br />Geografia de Lisboa a <br />proposta para a comemora...
Famoso retrato dos cinco amigos tirado nos jardins do Palácio de Cristal do Porto.<br />Eça, Oliveira Martins, Antero, Ram...
“A Velhice do Padre Eterno” foi um grande erro<br />e custou-me imenso ver que o Junqueiro persistiu<br />em o cometer. O ...
Celebra-se em 1886, com a<br />Alemanha, um convénio delimitando<br />um extenso território reivindicado por Portugal, fig...
O Ultimatum<br />No dia 11 de Janeiro de 1890 é entregue ao Governo Português um memorando<br />do Governo Inglês em que e...
O Ultimatum<br />Um frémito de indignação varre o País.<br />Os próprios particulares tomam atitudes<br />da mais pura gal...
O Ultimatum<br />Alfredo Keil compõe, nos moldes da <br />Marselhesa, e com letra de Henrique Lopes de Mendonça,um canto p...
O Partido Republicano em Portugal nunca apresentou um programa, nem verdadeiramente tem um programa.<br />Mais ainda, nem ...
Não menor acção estimuladora trouxe aos nossos republicanos a consolidação da <br />República em França… <br />A França, p...
Em geral desde que o regime constituído, para se<br />manter, necessita o apoio de uma força disciplinada<br />e quando, p...
Dirão (e dizem) os optimistas que o exército<br />em Portugal nunca sairá da sua devida submissão<br />ao poder civil. Ass...
O Partido Republicano realiza o seu Congresso, no <br />Porto, entre 5 e 7 de Janeiro de 1891.<br />O programa é  elaborad...
O Congresso  do Porto do Partido Republicano é uma <br />convenção essencialmente anti-Elias Garcia, um dos <br />“republi...
31 de Janeiro de 1891, Sábado.<br />Cerca das 3 da manhã, os sargentos conjurados arrastam para o Campo de Sto. <br />Ovíd...
Santos Cardoso arvora uma bandeira republicana nos Paços do Concelho do Porto <br />
O 31 de Janeiro<br />Na véspera, Alves da Veiga tinha vaticinado: “vai ser desastroso”, e João Chagas, que<br />se entrega...
O 31 de Janeiro<br />De Paris, Eça escreve:<br />Por  aqui, a opinião geral é que esse é o começo da débâcle. O governo<br...
Os acontecimentos dos anos 1890-91 vão resultar<br />na derrota e desmembramento do Partido Republicano,<br />relegado par...
A revolução vinda de cima<br />A 5 de Junho de 1891, José Falcão escreve:<br />“O Partido Republicano supõe que só há um r...
A revolução vinda de cima<br />FundadordaAllgemeinerDeutscherArbeitervereinADAV<br />(Associação Geral  Alemã dos Trabalha...
A revolução vinda de cima<br />Não é revolucionariamente, e duma hora para a outra, que<br />uma tão vasta transformação, ...
A revolução vinda de cima<br />O Cesarismo<br />Em “História da República Romana”, 1885, que A. José Saraiva<br />consider...
Oliveira Martins, no Parlamento:<br />“O Socialismo é protector, sim, mas de todos os que<br />sofrem, de todos os que nec...
Além de que, aspecto execrável, para os caracteres mais <br />sanguíneos do republicanismo, estaria sempre presente <br />...
Crise financeira<br />  A conjugação de uma série de acontecimentos<br />  vai provocar uma grave crise financeira no país...
Cotação média anual do câmbio de Lisboa sobre Londres (mil reis) <br />Paridade:  mil reis = 53 1/3 dinheiros<br />O. Sala...
Na mão de Deus<br />Na mão de Deus, na sua mão direita,<br />Descansou afinal meu coração.<br />Do palácio encantado da Il...
Oliveira Martins tem uma fugaz passagem<br />pelo Governo, integrando um ministério presidido<br />por José Dias Ferreira....
A Situação Económica<br />Crescimento do PIB per capita<br />D. Justino<br />1989<br />PIB per capita em<br />percentagem ...
“Para mim é fora de dúvida que Portugal nunca<br />foi tão rico como está hoje, visto possuir uma<br />indústria fabril qu...
No verão de 1899 declara-se<br />um surto de peste na Porto.<br />O governo Progressista de José Luciano<br />de Castro is...
16 de Agosto de 1900.<br />Morre em Paris<br />José Maria Eça de Queirós.<br />A febre intestinal de que <br />padecia tal...
Bernardino Machado, ex-ministro, ex-grão-mestre da<br />Maçonaria e futuro Presidente da República, sobre D. Carlos,<br />...
O primeiro governo de João Franco.<br />“O embaixador inglês notou o facto de <br />todos os ministros serem homens<br />a...
Grande parte da legislatura é despendida pelo PRP a discutir<br />a nacionalidade de DrieselSchroeter, filho de austríacos...
Em Março de 1907, a reprovação por unanimidade de<br />um candidato a doutor, José Eugénio Dias Ferreira, filho de<br />Jo...
Alexandre Braga – deputado republicano , natural do<br />Porto. Mação. Fez parte do célebre governo d’ “Os Miseráveis<br /...
Todos os argumentos, pois, militavam no espírito dos ideólogos em favor de uma república – mesmo a sua barateza, pela supr...
“Outro retórico, em outro comício, explicou, por meio<br />de processo igualmente matemático, que o custeio de <br />cada ...
… à hora a que escrevemos estas linhas Gomes Leal <br />acha-se preso. <br />Para princípio de vida está no lugar mais dec...
Afonso Costa, na prisão, durante a medonha ditadura de João Franco,<br />após ter-se envolvido numa tentativa de golpe de ...
O Regicídio - Trajecto desde a estação fluvial até ao local do assassínio<br />Pelas 5 da tarde do dia 1 de Fevereiro de 1...
Os terroristas assassinos são republicanos convictos pertencentes<br />à Maçonaria, possivelmente membros de lojas irregul...
“O Rei era um homem “liberal”, isto é, de esquerda<br />(inclusive livre-pensador). Durante anos tentou ser<br />um escrup...
O Conselho de Estado propõe a D. Manuel II, então com 18<br />anos, a formação de um governo de concentração partidária <b...
É feito um inquérito pro forma às circunstâncias do<br />assassínio de D. Carlos e do Príncipe-Real que nada<br />esclarec...
Em Junho de 1909, D. Manuel entra em contacto<br />com dirigentes do Partido Operário Socialista. O<br />objectivo era env...
Carbonária – organização terrorista republicana <br />usada  para golpes de mão. Utilizava como arma favorita<br />a bomba...
O exército<br />“O exército não é composto de entidades abstractas e impessoais como princípios: é composto de homens de c...
O exército<br />“O exército, de facto, não passava de uma dispersa massa de funcionários públicos<br />fardados e de guard...
P Tavares de Almeida<br />Eleições de 28 de Agosto de 1910 para a Câmara de Deputados 155 lugares<br />Apoiantes de Teixe...
5 de Outubro – Cronologia do golpe<br />2 de Outubro – Os republicanos aprazam o golpe para a 1 hora do dia 4 de Outubro<b...
5 de Outubro – Cronologia do golpe<br />O tenente M. Cabeçadas toma o comando da tripulação do Adamastor enquanto a do "Sã...
5 de Outubro – Cronologia do golpe<br />O comando militar da cidade organizou um destacamento para atacar os revoltosos, s...
5 de Outubro – Cronologia do golpe<br />5 de Outubro - Às três da manhã, Paiva Couceiro parte com a bateria móvel, escolta...
5 de Outubro – Cronologia do golpe<br />Aspecto das barricadas – Rotunda da Avenida<br />Revolucionários festejando a vitó...
5 de Outubro – Cronologia do golpe<br />Henrique de Paiva Couceiro – herói africanista, antigo Governador-<br />Geral de A...
No anexo à sua obra Le Portugal Inconnu, LéonPoinsard<br />reflecte: “Se se quer pôr a charrua à frente dos bois e reconst...
O que movia os republicanos, esses lidadores do boi-povo,<br />à parte o ódio ao Rei e aos padres?<br />É muito provável q...
Os homens-fortes do novo regime<br />Afonso Costa, o Jacobino Perfeito. Pertencia à geração <br />de 90, a geração do Ulti...
Os homens-fortes do novo regime<br />António José de Almeida, a linguagem da delinquência. Também <br />ele da geração do ...
Os homens-fortes do novo regime<br />Manuel Brito Camacho, o mais conservador dos três chefes<br />republicanos. Publicou ...
Os símbolos<br />Como bons talibãs, os republicanos vencedores começaram <br />de imediato a gozar a sua nova condição de ...
A lei eleitoral<br />Uma das bandeiras republicanas era a do sufrágio universal,<br />que constava do programa do PRP apro...
Uma feminista peculiar<br />Ana de Castro Osório, escritora, republicana e  tida por feminista. <br />Enquanto em Inglater...
Tatuagens complicadas do meu peito:<br />Troféus, emblemas, dois leões alados…<br />Mais, entre corações engrinaldados,<br...
A lei da greve<br />A 2 de Novembro de 1910 foi legalizado o <br />direito à greve e ao lock-out. Mas com o <br />Decreto ...
O ensino primário<br />Pelo decreto de 29 de Março de 1911 <br />reorganizava-se o ensino primário, criando-se o <br />ens...
A questão religiosa<br />As medidas de carácter religioso tiveram um impacto assinalável no <br />pós-5 de Outubro, sobret...
A questão religiosa<br />Antero escreve: “O positivismo, como quase todas as coisas banais, e particularmente<br />as bana...
A questão religiosa<br />Em artigo publicado na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, <br />Eça comenta a ordem de expulsã...
A questão espanhola<br />“Além disso (é de urgente patriotismo falar com franqueza),<br />a república entre nós não é uma ...
As finanças<br />Em 1913, Afonso Costa, mediante cortes na<br />administração e a protelação da aquisição de<br />navios, ...
A 27 de Setembro de 1915, morre <br />em Lisboa, vítima de doença,<br />José Duarte Ramalho Ortigão.<br />Duas grandes ami...
Nazismo avant la lettre<br />Alemanha – anos 30<br />Portugal – c. 1910<br />
Nazismo avant la lettre<br />Alemanha – anos 30<br />Portugal – c. 1910<br />
Nazismo avant la lettre<br />Alemanha – anos 30<br />Portugal – c. 1910<br />
Nazismo avant la lettre<br />Alemanha - 1940<br />Portugal – c. 1910<br />O Governo Nazi propõe à França o<br />envio dos ...
Uma nação atufada em lama e asneira (Antero de Quental)<br />“O povo parece desvairar. É o povo português que insulta <br ...
Uma nação atufada em lama e asneira (Antero de Quental)<br />COIMBRA, 18. – É do teor seguinte o papelucho afixado ontem d...
Uma nação atufada em lama e asneira (Antero de Quental)<br />“Estamos chegados ao “fim do fim”! A última esperança foi-se ...
5 de outubro
5 de outubro
5 de outubro
5 de outubro
5 de outubro
5 de outubro
5 de outubro
5 de outubro
5 de outubro
5 de outubro
5 de outubro
5 de outubro
5 de outubro
Upcoming SlideShare
Loading in …5
×

5 de outubro

1,015 views

Published on

Published in: Travel, Business
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

5 de outubro

  1. 1. 5 de Outubro de 1910<br />Ou um equívoco chamado República<br />
  2. 2. O século XIX português<br />A primeira metade do século XIX vai ser marcada pelas invasões francesas e a fuga da família real para o Brasil<br />1801-02 – Recenseamento geral da população. Portugal (Metrópole) conta 2 951 930 habitantes<br />1807 – 17 de Novembro - Junot à frente de um exército invade Portugal. Pilhagem do ouro e prata das igrejas.<br />1807 – 29 de Novembro – A Corte embarca para o Rio de Janeiro<br />1808 – 22 de Janeiro – Por pressão da Inglaterra declaram-se abertos os portos brasileiros ao comércio internacional<br />1809 – Março – Segunda invasão francesa de 30 000 homens comandada pelo marechal Soult.<br />1809 – 29 de Março. Porto, desastre da ponte das barcas. Morrem cerca de 4 000 pessoas.<br />1809 – Portugal ocupa a Guiana Francesa.<br />
  3. 3. Desastre da ponte das barcas, em reprodução<br />coeva<br />Alminhas na Ribeira do Porto<br />em memória das vítimas<br />(Bronze de Teixeira Lopes)<br />
  4. 4. O século XIX português<br />1810 – Assinatura, entre Portugal e Inglaterra, dos tratados de Comércio e<br />Amizade e de Aliança e Navegação<br />1810 – Junho – Terceira invasão, comandada pelo marechal Massena, com um<br />exército de 80 000 homens. Irá ser particularmente destrutiva e sanguinária.<br />1815 – É publicada a carta de lei que cria o Reino Unido de Portugal, Brasil e <br />Algarves. O Brasil ascende à condição de Reino. <br />1820 – 24 de Agosto. Pronunciamento militar no Porto e criação da Junta<br />Provisional do Governo Supremo do Reino.<br />1820 – 15 de Setembro. Lisboa adere ao movimento liberal do Porto.<br />A Junta de Governo entra no Rossio<br />em Outubro de 1820<br />
  5. 5. Pavilhão do Reino Unido de Portugal,<br />Brasil e Algarves<br />Antigo pelourinho ostentando as armas do<br />Reino Unido<br />(Ponte de Lima)<br />
  6. 6. O século XIX português<br />1821 – As Cortes exigem o regresso de D. João VI a Portugal além de pretenderem anular os privilégios concedidos ao Brasil, precipitando, assim, a sua independência.<br />1822 – 7 de Setembro. O Brasil rebela-se contra Lisboa e proclama o Império. O primogénito de D. João VI, D. Pedro, torna-se Imperador do Brasil.<br />1825 – 15 de Novembro. Portugal reconhece a independência do Brasil<br />1851 – 29 de Abril. Saldanhada levada a cabo a partir do Porto e preparada com a colaboração de Alexandre Herculano, que, no entanto, pouco depois passará à<br />oposição.<br />Início da Regeneração. <br />Para trás ficam quase trinta anos de violência, banditismo, assassínios, extursões, guerras civis, revoltas populares, pronunciamentos, golpes palacianos, anarquia total de ideias e violência ideológica que conduziam o país à autodestruição. <br />
  7. 7. Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, Marquês de Sá da<br />Bandeira (1795-1876).<br />Alexandre Herculano chamou-lhe “moderno Bayard”, le <br />chevalier sans peur et sans reproche, e “o português mais<br />notável do seu século”.<br />“Inteligência recta e carácter forte, a humanidade era a sua<br />religião, o dever a sua moral, a monarquia o seu princípio, a<br />espada o seu amor, o povo o seu dilecto”(Oliveira Martins).<br />Visionário, queria criar em África um novo Brasil: viagens no<br />sertão, desenvolvimento da agricultura e extracção mineira,<br />abolição da escravatura, expansão da navegação. <br />João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Daun, Marechal Duque de Saldanha (1790-1876).<br />Valente, bem apessoado, profusamente decorado, fazia o tipo perfeito nas embaixadas estrangeiras.<br />Ascensão fulgurante no exército: capitão aos 15 anos, major aos 18, tenente-coronel aos 23 e general aos 27. Versátil, ora apoiava um partido ora apoiava outro, reflectindo assim o seu espírito aventureiro de “Cid português”, como lhe chamou Oliveira Martins. <br />Dizia poder ser um bom Chefe de Estado de um qualquer país.<br />
  8. 8. A Decadência Económica – Estatísticas do Comércio<br />Milhares de contos<br />anos<br />Abertura dos portos brasileiros<br />Tratado de 1810<br />Perda do Brasil<br />(Oliveira Martins)<br />
  9. 9. A Decadência Económica<br />A agricultura sofre um rude golpe com a extinção<br />das ordens religiosas masculinas e abolição dos <br />conventos, decreto defendido somente por Joaquim António<br />de Aguiar, contra a opinião geral do Conselho de Ministros,<br />e imposto por D. Pedro IV<br />Sucedia o que sucedera no tempo dos Godos: uma <br />expropriação dos vencidos pelos vencedores, salvo a <br />franqueza da confissão, outrora manifesta sem rebuço, <br />agora encoberta sob fórmulas e sofismas de legalidade <br />liberal (Oliveira Martins).<br />As tentativas industriais manufactureiras do Marquês de Pombal não<br />tinham vingado e o tratado de 1810, dando preferência às <br />mercadorias inglesas, com taxas alfandegárias de 15% em vez <br />dos normais 30%, faziam terrível concorrência aos produtos nacionais.<br />A perda do Brasil e do seu comércio lucrativo e a desordem que se tinha<br />instalado no País traduziam-se em uma situação económica muito difícil.<br />Mosteiro e igreja de Tibães<br />
  10. 10. A Decadência Económica<br />Os frades, espoliados das propriedades feitas por suas mãos, <br />mendigam miseráveis pelos caminhos.<br />Herculano, um dos liberais, mas verdadeiro sempre, <br />penitencia-se desse ultraje:<br />“Pão para a velhice desgraçada! Pão para metade dos nossos<br />sábios, dos nossos homens virtuosos, do nosso sacerdócio!<br />Pão para os que foram vítimas das crenças, minhas, vossas,<br />do século, e que morrem de fome e frio!”<br />Alexandre Herculano, Os egressos, 1842<br />A situação financeira, reflexo da económica, piora constantemente. Requerem-se<br />empréstimos para pagar empréstimos, e o pouco que vem efectivamente para o país<br />destina-se a assalariar tropas e fazer a guerra. Sucedem-se as bancarrotas do Tesouro.<br />[Se] compararmos o total (da dívida) com a dívida de 28, veremos que a Liberdade e os<br />seus ensaios custaram ao Tesouro 58 500 contos, afora os bens nacionais vendidos ou<br />queimados, sem com isso melhorar a situação económica do Reino…. E para quê? Para<br />ensaiar sistemas, matar gente com revoltas e pauperizar cada vez mais o Reino.<br />(Oliveira Martins)<br />
  11. 11. A Regeneração<br />30 de Agosto de 1852 – além dos ministérios<br />tradicionais, Presidência do Conselho, Reino, <br />Estrangeiros, Guerra, Marinha, Justiça e Fazenda<br />é criado um novo – o Ministério das Obras Públicas, <br />Comércio e Indústria, integrando uma Secretaria-Geral, <br />a Direcção das Minas e Obras Públicas, a da Agricultura, <br />Comércio e Manufacturas e a Repartição de <br />Contabilidade.<br />Vai iniciar-se a época do fomento e dos melhoramentos<br />que ficará conhecida como Fontismo, do nome do seu<br />primeiro titular, maior impulsionador, e futuro Presidente<br />do Conselho António Maria de Fontes Pereira de Melo, que irá suceder a<br />Rodrigo da Fonseca Magalhães na presidência do Partido Regenerador.<br />Fontes Pereira de Melo<br />1819-1887<br />
  12. 12. 1852 – Bancarrota do Tesouro. Fontes redefine a <br />natureza da dívida pública que passa de amortizável,<br />isto é, pagável, durante o período da sua vigência, a <br />fundada, ou seja, eterna.<br />A dívida não se paga, rende juros aos portadores de títulos da mesma.<br />(Falta, naturalmente, convencer os credores).<br />No seguimento daquilo que vem sendo feito nos países europeus, que iniciam agora a sua industrialização, França, Alemanha, o Governo considera prioritário o estabelecimento de uma rede ferroviária, ligações a Badajoz, linha do Norte Porto-Lisboa, a melhoria da rede<br />rodoviária e a construção dos portos artificiais de<br />Lisboa, Funchal e Leixões.<br />Inauguração da primeira linha <br />ferroviária, em<br />28 de Outubro de 1856, <br />por Roque Gameiro<br />Com esse fim, Fontes, em Londres e Paris, tenta persuadir <br />os banqueiros a conceder os almejados empréstimos.<br />
  13. 13. Os seus partidários, aparte as virtudes<br />cívicas e pessoais que ninguém lhe contesta,<br />atribuem-lhe todos os caminhos-de-ferro,<br />todas as estradas, todos os canais, todos<br />os majores, todas as represas, todas as pontes,<br />todos os tenentes, todos os viadutos e todos<br />os alferes de que hoje estão cortados o solo<br />e a sociedade portuguesa, não concedendo<br />sequer à iniciativa dos seus contrários nem<br />um palmo de estrada nem uma polegada de <br />sargento.<br />João Rialto (Guilherme de Azevedo) in Álbum das Glórias<br />(Desenho de Rafael Bordalo Pinheiro)<br />No entanto, enquanto na Alemanha, os caminhos-de-<br />ferro permitem ligar as jazidas hulhíferas do Sarre e da<br />Silésia aos centros siderúrgicos do Ruhr, e transportar para<br />os portos do Mar do Norte a produção agrícola e industrial do país,<br />em Portugal, sem minérios e carvão, as obras públicas, não obstante necessárias,<br />irão acarretar o agravamento da dívida pública e a sucessão interminável de orçamentos<br />deficitários. <br />
  14. 14. Dólares EU de 1960<br />A. Nunes<br />N. Valério<br />E. Mata<br />Evolução do PNB per capita, que, de 1850 a 1890, teve um crescimento acentuado.<br />A melhoria das condições sociais pode ser apreciada pelas opiniões de dois estrangeiros<br />que nos visitaram, em 1842, o Príncipe Felix Lichnowsky, e em 1866, o escritor Hans<br />Christian Andersen<br />“Por todas as descrições de Lisboa com que deparei, formara para mim próprio uma<br />imagem desta cidade mas a realidade foi bem outra, mais luminosa e bela. Fui obrigado<br />a exclamar: - onde estão as ruas sujas que vira descritas, as carcaças abandonadas, os<br />cães ferozes e as figuras de miseráveis das possessões africanas que, de barbas brancas e<br />pele tisnada, com nauseantes doenças, por aqui se deviam arrastar?”<br />H. Ch. Andersen, Uma visita em Portugal em 1866<br />
  15. 15. Alexandre Herculano a Oliveira Martins<br />A liberdade humana sei o que é: uma verdade da<br />consciência, como Deus. Sei que a esfera dos meus<br />actos livres só tem por limites naturais a esfera dos <br />actos livres dos outros e por limites factícios restrições<br />a que me convém submeter-me para a sociedade existir <br />e para eu achar nela a garantia do exercício das minhas<br />outras liberdades. Todas as instituições que não<br />respeitarem estas ideias serão pelo menos viciosas.<br />Absolutamente falando , o complexo das questões sociais e<br />políticas contém-se na questão da liberdade individual.<br />Mantenham-me esta, que pouco me incomoda que outrem se <br />assente num trono, numa poltrona ou numa tripeça. Que as <br />leis se afiram pelos princípios do bom e do justo, e não <br />perguntarei se estão acordes ou não com a vontade de maiorias <br />ignaras.<br />Alexandre Herculano<br />1810-1877<br />O Português de lei<br />
  16. 16. Crítica do Liberalismo ao Socialismo<br />O socialista vê no indivíduo a coisa da sociedade:<br />o liberal vê na sociedade a coisa do indivíduo. Fim<br />para o socialista, ela não é para o liberal senão um meio;<br />criação do indivíduo que a precedeu, que lhe estampou<br />o seu selo; porque faça ela o que fizer, nunca poderá<br />manifestar a sua existência e a sua acção senão por<br />actos individuais, unidos ou separados.<br />Carta de A. Herculano a Oliveira Martins, Fev. de 1877<br />Crítica do Socialismo ao Liberalismo<br />Ora enquanto a Nação prescindir de cérebro, isto é <br />de Estado, manter-se-á acéfala; enquanto o Estado não<br />tiver como pensamento a igualdade […]: a democracia<br />será uma quimera […]. À sombra de uma liberdade sempre<br />crescente, dia a dia, com o crescer da riqueza irá crescendo<br />a cisão dos pobres e dos ricos, em virtude dessa lei simples<br />que dá a vitória a quem mais pode (Oliveira Martins, Portugal<br />Contemporâneo, 1881)<br />
  17. 17. Teófilo Braga – natural dos Açores, como<br />Antero de Quental e Manuel de Arriaga.<br />Despoletou a Questão Coimbrã.<br />Trabalhador, esforçado, mas de espírito <br />estreito e sectário, e carácter dúbio.<br />De Feliciano de Castilho disse dever a sua fama<br />à infelicidade de ser cego.<br />José Bruno Carreiro demonstrou que a obra <br />A Mocidade de Teófilo, repositório de cartas<br />de Teófilo ao seu protector Francisco Mª Supico,<br />é “uma fraude sem precedentes na literatura portuguesa”.<br />Muitas das cartas foram forjadas sem conhecimento <br />do destinatário, entretanto falecido.<br />Quando da morte de Miguel Bombarda, Teófilo Braga, com aquela falta de senso político <br />que tanto irritava os seus pares no governo provisório, afirmava positivamente, sem <br />qualquer fundamento, em entrevista a Joaquim Leitão, que a morte do psiquiatra era obra <br />dos clericais, contribuindo assim , voluntariamente, para forjar uma mentira e fabricar um <br />mártir da República.<br />Teófilo Braga<br />1843-1924<br />
  18. 18. Defendeu a tese de que a História de Portugal<br />consistia na dominação de uma raça oprimida,<br />os moçárabes, por uma raça opressora, os invasores<br />visigodos. (Na República Fascista de Cromwell, como<br />lhe chamou Bertrand Russell, os dominados eram<br />os anglo-saxões e os opressores os normandos).<br />Mas Herculano já demonstrara que os moçárabes não<br />eram uma raça, mas sim a população cristã vivendo sob <br />domínio árabe.<br />Essa dialéctica de opressores-oprimidos convinha à campanha republicana,<br />que pretendia falar em nome do Povo, oprimido pela Corte e pelo Rei.<br />Para Teófilo a analogia era simples: Povo = Moçárabes, Governantes <br />(Monarquia) = Visigodos.<br />Foi o primeiro Presidente do Conselho do Governo saído do golpe do 5 de<br />Outubro.<br />As suas gaffes espectaculosas desacreditaram-no completamente.<br />
  19. 19. Antero, que entrou em colisão com ele, chamava-lhe<br />“o moçárabe bilioso”.<br />No dia 1 de Agosto de 1872, o jornal O Primeiro de<br />Janeiro, do Porto, publicava o seguinte anúncio de<br />Antero de Quental:<br />“Declaração – Constando-me que vários amigos do<br />Sr. Teófilo Braga correm essas ruas do Porto, dizendo<br />a quem os encontra que andam “à minha procura”,<br />tenho a anunciar-lhes, para que não se incomodem<br />muito, que me podem encontrar todas as tardes, das<br />5 às 7 horas, no café Águia d’ Ouro, aproveitando a <br />ocasião para lhes comunicar que já não estou<br />absolutamente nada doente.”<br />Desta manifestação de puro garbo há-de dizer Oliveira Martins:<br />“É um homem!”<br />O Café Águia d’Ouro, à Batalha,<br />Porto<br />
  20. 20. Na sequência das Conferências Democráticas<br />do Casino Lisbonense, da Comuna de Paris e de contactos com membros da Associação Internacional dos Trabalhadores, cria-se a 14 de Janeiro de 1872, em Lisboa, a Associação Fraternidade Operária, por iniciativa de José Fontana e Antero de Quental.<br />José (Giuseppe) Fontana<br />1840-1876<br />Antero de Quental<br />(1842-1891)<br />“Le petit Lassalle”, como<br />a si mesmo se definia<br />Antero dirige, ainda, o periódico “O<br />Pensamento Social”, onde colaboram <br />José Fontana, Nobre França, Jaime Batalha <br />Reis, Oliveira Martins e Azedo Gneco, <br />e redige o ensaio “O Que é a Internacional”<br />Jaime Batalha Reis<br />1847-1935<br />
  21. 21. O pior que nos pode acontecer é sermos<br />amanhã República.<br />Antero de Quental, carta a Oliveira Martins,<br />2 de Julho de 1873<br />Creio que teremos a República em Portugal, mais ano menos ano:<br />mas, francamente, não a desejo, a não ser num ponto de vista todo <br />pessoal, como espectáculo e ensino. Então é que havemos de ver <br />atufar-se uma nação em lama e asneira.<br />Falam da Espanha com desdém – e há de quê – mas eles, os briosos <br />portugueses, estão destinados a dar ao mundo um espectáculo republicano ainda <br />mais curioso: Se a República Espanhola é de doidos, a nossa será de garotos.<br />Quando nós virmos o Peniche e o Valada, e o Teófilo, e o Bonança ministros duma <br />revolução, compreenderemos tudo isto…<br />Oliveira Martins<br />1845-1894<br />Antero de Quental, carta a João Lobo de Moura,<br />1873<br />
  22. 22. Azedo Gneco, José Fontana, Nobre França, José Caetano da Silva, Agostinho da Silva, José Tedeschi e António Joaquim de Oliveira fundam, a 10 de Janeiro de 1875, o Partido Operário Socialista. <br />A comissão encarregada de elaborar o seu programa era constituída por Antero de Quental, Nobre França, José Fontana, Silva Lisboa, Felizardo Lima, José Caetano da Silva e Azedo Gneco.<br />Eudóxio Azedo Gneco<br />1849-1911<br />O Protesto Operário, fusão dos periódicos O Protesto, Lisboa, e O Operário, Porto, <br />órgão do Partido Operário Socialista (1º número – 5 de Março de 1882)<br />
  23. 23. Em política tem-se dito que Ramalho Ortigão é republicano.<br />Nada menos exacto. Ramalho, creio, teme a República, tal<br />qual é tramada nos clubes amadores de Lisboa e Porto.<br />A República, em verdade, feita primeiro pelos partidos<br />constitucionais dissidentes, e refeita depois pelos partidos<br />jacobinos, que, tendo vivido fora do poder e do seu maquinismo,<br />a tomam como uma carreira, seria em Portugal uma balbúrdia <br />sanguinolenta.<br />Eça de Queirós , carta a Joaquim de Araújo,<br />25 de Fevereiro de 1878<br />Ramalho Ortigão<br />1836-1915<br />[…] molecularmente rebelde a todo o sectarismo, eu não posso ser senão muito<br />moderadamente e muito condicionalmente monárquico, e não sou nem nunca fui <br />republicano, apesar de frequentemente me acusarem de prófugo e de renegado os <br />jornais desse partido, ligando a tal invectiva um tão grande desdouro do meu carácter <br />como se fosse para mim um opróbrio ter acamarado com eles.<br />Ramalho Ortigão, A revolução de Outubro, Janeiro de 1911<br />
  24. 24. Antero de Quental a Alberto Sampaio<br />“Saberás que vim encontrar aqui a minha candidatura<br />pelo círculo de Alcântara, lançada por uns centros <br />republicanos que não sei bem o que são. Hoje vieram<br />uns oficiosos falar-me nisso: declarei recusar tal candidatura<br />e ameacei-os com uma recusa pública nos jornais se<br />insistissem. Espero que desistirão: aliás terei de me explicar pela<br />imprensa.”<br />(Carta de 10 de Outubro de 1878)<br />… e a Oliveira Martins<br />“Aqui pretendem uns centros republicanos soi-disant socialistas, apresentar a minha candidatura por Alcântara. Respondi que achava equívoca a expressão republicano-socialista, e como este equívoco me parece perigoso, só aceitaria a dita candidatura com o carácter exclusivamente socialista, com toda a reserva da questão política e em completa isenção do movimento republicano actual.<br />Antero de Quental<br />1842-1891<br />
  25. 25. Não sei o que pensarão e dirão os republicanos. Talvez seja <br />uma ocasião de me explicar sobre a delicada distinção entre<br />socialistas e republicanos e de sair uma vez por todas de um <br />equívoco que me pesa.”<br />“De notícias interessantes, dir-te-ei que o republicanismo <br />avulta de dia para dia.<br />Mas que republicanos! É um partido de lojistas, capitaneado <br />por bacharéis pífios ou tontos. É quanto basta para se lhe <br />tirar o horóscopo. Duma tal república só há-de sair a anarquia <br />e a fome.”<br />(Carta de 1 de Abril de 1880 a Alberto Sampaio)<br />Alberto Sampaio<br />1841-1908<br />Quando os republicanos forem maioria tratarei eu de me fazer anti-republicano,<br />porque sempre fui amigo de me achar em minoria.<br />(Carta a João Lobo de Moura, 18 de Março de 1875)<br />
  26. 26. Em 1879, Joaquim de Vasconcelos <br />apresentou na Sociedade de<br />Geografia de Lisboa a <br />proposta para a comemoração <br />do Tricentenário da morte <br />de Camões.<br />A celebração pretendeu-se<br />Nacional. Da Comissão<br />de Lisboa faziam parte:<br />Rodrigues da Costa, <br />Eduardo Coelho, Sebastião <br />de Magalhães Lima, <br />Teófilo Braga, Ramalho <br />Ortigão, Jaime Batalha <br />Reis, Luciano Cordeiro e<br />Rodrigo Afonso Pequito.<br />Embora tivesse sido bem vincado o seu carácter nacional, tal não impediu, porém, que<br />os frutos do seu sucesso tenham sido colhidos, essencialmente, pelo republicanismo. <br />Revista O Ocidente, 1880<br />
  27. 27. Famoso retrato dos cinco amigos tirado nos jardins do Palácio de Cristal do Porto.<br />Eça, Oliveira Martins, Antero, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro. Este, mais<br />tarde, com o episódio do ultimato, far-se-ia republicano.<br />
  28. 28. “A Velhice do Padre Eterno” foi um grande erro<br />e custou-me imenso ver que o Junqueiro persistiu<br />em o cometer. O Junqueiro é um admirável idílico<br />e além disso em certos assuntos um poderoso<br />satírico. Mas a Velhice é um sintoma de uma<br />deplorável mania de profeta, que ameaça perdê-lo<br />[…] Antero de Quental, Carta a C. Cirilo Machado,<br />Setembro de 1885<br />No poema Finis Patriae, publicado no ano do Ultimato, Junqueiro põe no quadro O Caçador Simão, os famosos versos:<br />“É alguém, é alguém que foi à caça. <br /> Do caçador Simão!... “<br />Simão era o último nome de D. Carlos<br />No fim da vida renegará A Velhice, amputará<br />o poema Pátria e confessará nunca ter sido <br />Republicano.<br />Guerra Junqueiro, desenho de Francisco Valença<br />
  29. 29. Celebra-se em 1886, com a<br />Alemanha, um convénio delimitando<br />um extenso território reivindicado por Portugal, figurado a rosa numa carta anexa.<br />O propósito é construir na África Meridional uma grande possessão ligando Angola à contracosta, que viesse substituir o Brasil – era o mapa cor-de-rosa.<br />A Inglaterra, que tem em vista, por sua vez, a criação de um império na costa oriental de África, do Cabo a Alexandria, no Mediterrâneo, opõe-se às pretensões portuguesas.<br />
  30. 30. O Ultimatum<br />No dia 11 de Janeiro de 1890 é entregue ao Governo Português um memorando<br />do Governo Inglês em que este faz um ultimato a Portugal.<br />“O ultimatum, curto e seco, exigia que dentro de onze horas o Governo Português<br />fizesse sair as suas tropas e as suas autoridades das regiões disputadas do Chire<br />e de Masona.<br />Se o Governo Português não acedesse, o representante da Inglaterra retiraria com<br />o seu pessoal para bordo do aviso Enchantress, deixando toda a ulterior acção às<br />esquadras inglesas reunidas em Lourenço Marques, Cabo Verde e Gibraltar.<br />Foi durante horas uma pavorosa crise. O Conselho de Estado reunido – decidiu que<br />se passasse sob a exigência de Lorde Salisbury, visto que a resistência importaria a<br />ocupação de Moçambique e de Lourenço Marques… Portugal, nessa noite, perdeu<br />dois consideráveis territórios de África. De manhã, o ministério caiu.”<br />Eça de Queirós, O Ultimatum, Revista de Portugal, Fevereiro de 1890<br />
  31. 31. O Ultimatum<br />Um frémito de indignação varre o País.<br />Os próprios particulares tomam atitudes<br />da mais pura galhardia, como a Condessa de<br />Resende, sogra de Eça de Queirós, que em<br />sinal de desafrontamento devolve as <br />condecorações concedidas ao marido pelo <br />Governo Inglês.<br />No Porto, forma-se, em fins de Janeiro,<br />a Liga Patriótica do Norte cuja presidência<br />é oferecida a Antero de Quental.<br />Os republicanos usam a comoção do<br />ultimato para atacar as instituições, e<br />culpar a Monarquia e o jovem D. Carlos<br />dos males do País.<br />Junqueiro publica o Finis Patriae onde<br />põe a ridículo a figura do Rei.<br />Proclamação patriótica, Porto, Janeiro de 1890<br />
  32. 32. O Ultimatum<br />Alfredo Keil compõe, nos moldes da <br />Marselhesa, e com letra de Henrique Lopes de Mendonça,um canto patriótico para um espectáculo teatral, na sequência do ultimato, que logo se populariza. <br />Escarrador e penico com a forma de John Bull,<br />caricatura da Inglaterra.<br />(Cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro)<br />
  33. 33. O Partido Republicano em Portugal nunca apresentou um programa, nem verdadeiramente tem um programa.<br />Mais ainda, nem o pode ter: porque todas as reformas que, como Partido Republicano, lhe cumpriria reclamar já foram realizadas pelo liberalismo monárquico.<br />Uma outra causa exterior que veio concorrer para o engrossamento do Partido Republicano foi a revolução do Brasil. A revolução do Brasil, tranquilizando os ordeiros, excitando os ambiciosos e dando confiança a todos pela esperança de apoio e recursos positivos – foi um golpe que das instituições brasileiras repercutiu indirectamente sobre as nossas instituições.<br />15 de Maio de 1887 – D. Pedro<br />II do Brasil abole a escravatura.<br />Os grandes fazendeiros, lesados,<br />patrocinam um golpe de Estado.<br />A 15 de Novembro de 1889, o<br />marechal Deodoro da Fonseca<br />derruba o Imperador e proclama<br />a República.<br />Eça de Queirós, Novos Factores da Política Portuguesa,<br />Revista de Portugal, Abril 1890<br />
  34. 34. Não menor acção estimuladora trouxe aos nossos republicanos a consolidação da <br />República em França… <br />A França, pelo simples facto de ser República e como tal prosperar, é hoje o mais poderoso instrumento de propaganda republicana entre os povos latinos. <br />Não se reflecte bastante que às qualidades da sua raça, não à forma das suas instituições, deve ela a sua prosperidade; e que a Exposição seria tão brilhante sob o reinado de Filipe V, como foi sob a presidência de Carnot.<br />Eça de Queirós, Novos Factores da Política Portuguesa,<br />Revista de Portugal, Abril 1890<br />Exposição Universal de Paris <br />de 1889, sob a Presidência<br />de Sadi Carnot, filho do<br />célebre físico.<br />Carnot seria assassinado<br />por um anarquista.<br />
  35. 35. Em geral desde que o regime constituído, para se<br />manter, necessita o apoio de uma força disciplinada<br />e quando, por outro lado, existe um partido de revolução<br />que não pode tirar dos seus próprios elementos populares<br />os meios precisos de acção e só poderia triunfar pelo<br />auxílio duma força indisciplinada – o exército torna-se<br />necessariamente o ponto para onde convergem todas as<br />esperanças e o elemento de êxito com que contam todos os <br />interesses políticos.<br />… como dizia ultimamente um oficial superior, “o exército<br />está sendo requestado como uma menina rica”.<br />Ora o facto incontestável (e que seria antipatriótico disfarçar)<br />é que o Partido Republicano procura atrair o exército, e que, <br />forçado a defender-se, o regime constituído apela por seu<br />turno para o concurso leal do exército, decerto inabalável na<br />sua lealdade.<br />Eça de Queirós<br />1845-1900<br />Eça de Queirós, Novos Factores da Política Portuguesa,<br />Revista de Portugal, Abril 1890<br />
  36. 36. Dirão (e dizem) os optimistas que o exército<br />em Portugal nunca sairá da sua devida submissão<br />ao poder civil. Assim o supomos. Mas nunca se<br />deve basear um sistema de acção política no<br />optimismo, na hipotética perfeição dos homens<br />e das coisas e em frases.<br />O exército não é composto de entidades abstractas<br />e impessoais como princípios: é composto de <br />homens de carne e osso, susceptíveis de todas as <br />fraquezas e de todas as tentações humanas.<br />Querer sistematicamente afastar esta suposição,<br />declarando que “tal é impossível, que nunca se dará<br />na nossa terra, etc.”, é fazer acto de imprevidência<br />ou de ingenuidade, ambas culpadas. O homem de<br />Estado digno desse nome deve tudo prever, tudo<br />calcular – e ter sempre presente que os homens são<br />homens, e não anjos, abstracções ou princípios<br />encarnados.<br />D. Carlos passando revista às tropas,<br />Carlos Reis, 1904<br />Eça de Queirós, Novos Factores da Política Portuguesa,<br />Revista de Portugal, Abril 1890<br />
  37. 37. O Partido Republicano realiza o seu Congresso, no <br />Porto, entre 5 e 7 de Janeiro de 1891.<br />O programa é elaborado por Bernardino Pinheiro,<br />Azevedo e Silva, Francisco Homem Cristo, Jacinto <br />Nunes, Manuel de Arriaga e Teófilo Braga.<br />“E sem desejar ser descorteses para com personalidades<br />somos forçados a constatar que os actuais chefes<br />republicanos , como tais, como chefes, fazem sorrir<br />toda a parte séria da nação.<br />Mas ainda mesmo sem direcção, ou com uma<br />direcção impotente por incompetente, o Partido<br />Republicano existe, exibe-se, fala, escreve, vota […]<br />[…] a República não pode deixar de inquietar o espírito<br />de todos os patriotas. Ela seria a confusão, a anarquia,<br />a bancarrota.”<br />Francisco Homem Cristo<br />1860-1943<br />Eça de Queirós, Novos Factores da Política Portuguesa,<br />Revista de Portugal, Abril 1890<br />Manuel de Arriaga<br />1840-1917<br />
  38. 38. O Congresso do Porto do Partido Republicano é uma <br />convenção essencialmente anti-Elias Garcia, um dos <br />“republicanos do orçamento”, e a vitória da linha dura<br />do partido.<br />Mas Garcia vai retaliar animando uma conspiração na <br />mesma cidade, chefiada pela mação Alves da Veiga e <br />um jornalista de escândalos, Henrique Santos Cardoso.<br />“Os sargentos, […] esta tão poderosa e temível classe<br />na Espanha […]”<br />FelixLichnowsky, Portugal. Recordações do ano 1842<br />José Elias Garcia<br />1830-1891<br />Entre algum patriotismo jacobino , os sargentos sentiam-se sobretudo lesados pela <br />lei de 17 de Janeiro de 1891 que dificultava a sua promoção a oficiais. Não foi difícil, <br />pois, orientar este descontentamento.<br />(Os militares quando se prestam a reivindicações têm um argumento que falta aos<br />cantoneiros da câmara, aos assentadores de via, e em geral aos trabalhadores doutros <br />ofícios: têm espingardas e canhões, o que, num processo negocial, constitui argumento <br />de considerável peso).<br />
  39. 39. 31 de Janeiro de 1891, Sábado.<br />Cerca das 3 da manhã, os sargentos conjurados arrastam para o Campo de Sto. <br />Ovídio cerca de metade dos soldados da guarnição do Porto, à volta de 800 homens.<br />Aí se encontra Infantaria 18, onde esperam encontrar oficiais para os comandar. Não há. <br />Apenas podem contar com o capitão António do Amaral Leitão, o tenente Manuel Maria <br />Coelho e o alferes Augusto Rodolfo da Costa Malheiro.<br />Quando grassava a descrença no seio dos militares surgem estudantes dando vivas à <br />República. A procissão desce a rua do Almada, com charanga à frente, em direcção à praça de D. Pedro. A Câmara é invadida e Santos Cardoso arvora uma bandeira.<br />O actor Miguel Verdial, da varanda, apresenta o novo governo. Os “irmãos” da loja maçónica Grémio Independente tinham proclamado a República. São 7 da Manhã.<br />Os oficiais decidem então subir a rua de StºAntónio, aparentemente para ocupar o <br />posto de Correios e Telégrafo. No cimo, acantonada no adro da Igreja de Stº Ildefonso, está postada a Guarda Municipal.<br />400 municipais vão derrotar uma força de 800 militares do exército.<br />Os que se entrincheiram na Câmara são desalojados por artilheiros da Serra do Pilar.<br />Há 10 mortos, 5 militares e 5 civis.<br />Às 11 horas, tudo termina.<br />O Partido Republicano não interveio na conjura. Tudo foi feito à margem do Directório.<br />
  40. 40. Santos Cardoso arvora uma bandeira republicana nos Paços do Concelho do Porto <br />
  41. 41. O 31 de Janeiro<br />Na véspera, Alves da Veiga tinha vaticinado: “vai ser desastroso”, e João Chagas, que<br />se entregara à prisão uns dias antes, dirá humoristicamente, “não foi um erro político, <br />mas um erro de gramática”.<br />No Conselho de Guerra o capitão Leitão cobre-se de ridículo: pensava que a Guarda<br />Municipal estivesse segura, que o comandante de Artilharia 18 saísse para os comandar,<br />até o ataque tinha sido uma surpresa. Simplório, achava natural que os outros tivessem obrigação de os apoiar.<br />O grande Santos Cardoso negou tudo, denunciou toda a gente e jurou que se vira implicado “por não poder ser superior à minha curiosidade”. E é tudo.<br />Denunciou, em particular, Homem Cristo como sendo o fornecedor de armas à revolta.<br />O Século trazia a história do capitão Leitão, de joelhos, a pedir perdão aos filhinhos por<br />ter arruinado a carreira.<br />Alves da Veiga foi irradiado da Maçonaria e a imprensa considerou tudo aquilo obra de<br />desmiolados.<br />As mais destacadas figuras do republicanismo, incluindo o directório do partido, <br />condenaram o golpe como uma aventura mais ou menos irresponsável.<br />
  42. 42. O 31 de Janeiro<br />De Paris, Eça escreve:<br />Por aqui, a opinião geral é que esse é o começo da débâcle. O governo<br />ainda poderia afastar a hora má por algum tempo, se aproveitasse a ocasião<br />para desorganizar inteiramente, à maneira sumária do excelente Constans, o<br />partido republicano. Mas como naturalmente há-de tomar apenas umas<br />meias-medidas, inspiradas por uma meia-coragem, e executadas com uma<br />meia-prontidão, é natural que o caso do Porto seja um lever de rideau[…] e que<br />o partido republicano […] prepare para breve o drama sério.<br />Carta a Oliveira Martins, 5 de Fevereiro de 1891<br />Em Elias Garcia, que todos sabiam comprometido, não se tocou.<br />Quase todos os detidos rejeitaram responsabilidades, tendo as sentenças sido <br />encaradas como simples pretexto para futuros perdões e amnistias.<br />Em resposta a uma carta dirigida ao Rei pela Câmara do Porto, culpando os<br />acontecimentos pela “doçura dos nossos costumes”, D. Carlos pede desculpa aos<br />Portugueses pois “ainda não pude mostrar toda a minha dedicação pela nossa pátria<br />[…] devido ao pouco tempo da minha vida de rei”.<br />
  43. 43. Os acontecimentos dos anos 1890-91 vão resultar<br />na derrota e desmembramento do Partido Republicano,<br />relegado para aquilo que sempre tinha sido, e que era servir de<br />muleta aos partidos constitucionais nas guerras e <br />intrigas que entre si dirimiam, e, de quando em vez, para<br />pressionar uma decisão, tentar assustar o Rei esbracejando <br />o espantalho da República.<br />José Rodrigues de Freitas<br />1840-1896<br />Rodrigues de Freitas, um histórico republicano do Porto, chegou mesmo a dizer em público,<br />solenemente, que no dia em que o Partido Republicano tomasse o poder deixaria <br />Portugal (o que nos remete de imediato para a famosa anedota de Groucho Marx).<br />O comportamento dos emigrados do 31 de Janeiro era, por outro lado, do mais deplorável, <br />acusando-se todos uns aos outros de terem roubado o dinheiro da revolução.<br />Entre 1891 e 1905 “ o Partido Republicano foi um valor nulo, inteiramente nulo, na<br />política portuguesa. Inteiramente nulo. Ninguém fez caso dele”. Só em 1905<br />reaparecera “quando as dificuldades criadas pelos monárquicos, e não pelos<br />republicanos, tornaram possível a sua especulação”.<br />Francisco Homem Cristo, Povo de Aveiro, 7 de Fevereiro de 1909<br />
  44. 44. A revolução vinda de cima<br />A 5 de Junho de 1891, José Falcão escreve:<br />“O Partido Republicano supõe que só há um remédio, e<br />este remédio há-de vir da revolução. Ou a revolução feita pelo <br />Rei, ou a revolução feita pelo Povo… Quer o Sr. D. Carlos<br />colocar-se à frente do movimento? A empresa é de tentar; […]”<br />“[…] se a Monarquia nos pode salvar, faça-o.” (José Falcão)<br />José Falcão<br />1841-1893<br />Em Janeiro de 1894, João Chagas recrimina D. Carlos por<br />não seguir o exemplo de outros soberanos:<br />“Guilherme II [se] coloca(-se) à frente do movimento socialista alemão, Leopoldo II<br />faz justiça às reivindicações do operário belga, e Francisco José promove na Áustria<br />um movimento a favor do sufrágio universal, […]”<br />
  45. 45. A revolução vinda de cima<br />FundadordaAllgemeinerDeutscherArbeitervereinADAV<br />(Associação Geral Alemã dos Trabalhadores) que ao fundir-se<br />com o Partido Operário Social-Democrata irá dar lugar ao SPD,<br />SozialdemokratischeParteiDeutschlands, Partido Social-Democrata<br />da Alemanha.<br />“(Lassalle) fascinava os contemporâneos, dentro e fora do<br />seu país, por sua eloquência, tão comovida de sinceridade, tão<br />ardente de juvenil e puríssimo entusiasmo. Fora um cometa,<br />na altura, na pureza, no fulgor, na brevidade duma vida que teve<br />num duelo brusco o romântico remate.”<br />FerdinandLassalle<br />1825-1864<br />Hernâni Cidade, Antero de Quental, 2ª Ed., 1988<br />Lassale irá entabular uma correspondência secreta com o Chanceler Otto von Bismarck:<br />para Bismarck trata-se de obter um contraponto à influência do poderoso Fortschrittspartei,<br />o Partido do Progresso, e apoio dos trabalhadores às suas reformas sociais; para Lassalle é a <br />oportunidade do Socialismo ser construído dentro da e pela Monarquia, que permitisse a <br />realização daquilo que eram os seus mais elevados ideais: a edificação do Estado Ético.<br />
  46. 46. A revolução vinda de cima<br />Não é revolucionariamente, e duma hora para a outra, que<br />uma tão vasta transformação, que abrange todas as relações<br />dos homens na Sociedade, se pode efectuar, mas sim <br />evolutivamente, por meio de sucessivas transformações, por<br />uma lenta preparação que evoque os homens para uma nova<br />ordem de coisas e torne possível, sem se passar pelo caos, o<br />novo génesis social.<br />Antero de Quental, O que é a Internacional, 1872<br />Antero retratado pelo<br />visconde de Meneses<br />Antero, ao jornal do Porto “O Trabalhador”, 6 de Janeiro de 1889<br />Cousa alguma grande e duradoira se fundou ainda no mundo, senão pela moral. E o<br />se o Socialismo tem de ser uma esplêndida realidade, só a será como um passo mais<br />no caminho da evolução moral das sociedades. “Audácia, audácia e sempre audácia!” –<br />exclama Danton, no meio do tumulto dramático da Grande Revolução; nós, no meio<br />da confusão de um vasto movimento de classes, no qual o elemento dramático é pouca<br />coisa, mas enorme o peso das fatalidades económicas, diremos: moralidade, <br />moralidade e sempre moralidade!<br />
  47. 47. A revolução vinda de cima<br />O Cesarismo<br />Em “História da República Romana”, 1885, que A. José Saraiva<br />considera “uma das mais notáveis histórias romanas que se<br />produziram na Europa”, Oliveira Martins escreve: “O conjunto <br />das reformas de César é a substituição de um regime autocrático, <br />de uma administração solícita e de um socialismo de Estado – ao <br />regime liberal da república, regime de anarquia semelhante ao <br />nosso de hoje, em que à sombra da liberdade medra e floresce <br />o capitalismo constituído em sistema […]”<br />Caio Júlio César<br />100 – 44 a. C.<br />Por outro lado, uma “revolução feita de cima”, uma concentração de força na coroa<br />(que a muitos espíritos superiores e que vêem claro se apresenta como a nossa<br />salvação), […] não seria compreendida pela nação irremediavelmente impregnada de<br />liberalismo e que nessa concentração de força só veria uma restauração do<br />absolutismo e do poder pessoal.<br />Eça de Queirós, Novos Factores da Política Portuguesa, Revista de Portugal, Abril 1890<br />Antero acabará por aderir a esta concepção de Martins de Socialismo de Estado ou <br />de Cátedra, apoiando vivamente a participação do seu amigo num eventual governo.<br />
  48. 48. Oliveira Martins, no Parlamento:<br />“O Socialismo é protector, sim, mas de todos os que<br />sofrem, de todos os que necessitam, sejam operários<br />ou sejam lavradores, sejam proletários ou pertençam<br />a essas classes de pequenos capitalistas e negociantes,<br />frequentemente mais necessitadas que muitos operários <br />fabris”.<br />Francisco de Assis de Oliveira Martins, O Socialismo na Monarquia, 1944<br />Antero, por sua vez, não acredita na “acção benéfica dos partidos” nem nas “mudanças<br />mágicas de cenário político, chamadas revoluções, feitas por muita cobiça em nome<br />de muita ilusão”. Admite, pelo contrário, a possibilidade da salvação pela “reforma das<br />instituições, e não só políticas como das sociais, coisa que pede sossego e não violência,<br />reflexão e não paixão, muito boa fé e algum estudo”.<br />O republicanismo sempre viu como panaceia dos nossos problemas a mudança de regime,<br />ignorando, grosseiramente, o factor essencial que era a questão social. Não se dava conta <br />de que havia, como refere Martins, tantas monarquias europeias onde, sem percalços <br />graves, e dentro das instituições, se tinha procedido a verdadeiras e assinaláveis reformas <br />da sociedade.<br />
  49. 49. Além de que, aspecto execrável, para os caracteres mais <br />sanguíneos do republicanismo, estaria sempre presente <br />o fascínio que a guilhotina e o Terror exerciam sobre a sua <br />imaginação. <br />No romance “A Capital”, Eça de Queirós evidencia essa <br />profunda divergência:<br />“ - Este Clube (Democrático) não tem exclusivismos…<br />- Mas tem divergências! […] Entre pessoas que aspiram apenas a substituir um rei<br />constitucional por um presidente jacobino, que se indignam porque há viscondes,<br />que fazem guerra à lista civil e outras pieguices – e entre nós, que queremos a<br />evolução democrático-social na sua larga acção – há divergências muito graves.<br />É conveniente evitar os equívocos.<br />[…]<br />- Não queremos ser confundidos com os jacobinos!”<br />“Um jacobino é um conservador incoerente com frases de demagogo”<br />Antero de Quental, Aos eleitores do Círculo 98, 1880<br />
  50. 50. Crise financeira<br /> A conjugação de uma série de acontecimentos<br /> vai provocar uma grave crise financeira no país:<br /><ul><li> O conflito entre Portugal e a Inglaterra prejudicava</li></ul> as relações comerciais entre os dois países; <br /><ul><li> O desastre sofrido pela casa Baring Brothers, que sustentava em Londres o crédito do </li></ul> governo português e das repúblicas sul-americanas, dificulta a obtenção de novos <br /> empréstimos;<br /><ul><li> A alta persistente do câmbio do Brasil reduz a quantidades modestas os recursos anuais </li></ul> enviados pela colónia portuguesa aí residente;<br /><ul><li> O deficit comercial, que vinha aumentando nos últimos anos, agrava as exigências dos </li></ul> pagamentos internacionais;<br /><ul><li> A corrida ao Montepio Geral, em Setembro de 1890 , ao alarmar a opinião pública,</li></ul> afectava notavelmente os negócios.<br />O decreto de 9 de Julho de 1891 estabelece a inconvertibilidade da nota. As notas do<br />Banco de Portugal deixam de poder ser resgatadas em ouro pago à vista do portador.<br />Entra-se no regime do curso forçado.<br />
  51. 51. Cotação média anual do câmbio de Lisboa sobre Londres (mil reis) <br />Paridade: mil reis = 53 1/3 dinheiros<br />O. Salazar,<br />O ágio do ouro<br />1916<br />1 libra = 12 xelins = 240 dinheiros<br />
  52. 52. Na mão de Deus<br />Na mão de Deus, na sua mão direita,<br />Descansou afinal meu coração.<br />Do palácio encantado da Ilusão<br />Desci a passo e passo a escada estreita.<br />Como as flores, com que se enfeita<br />A ignorância infantil, despojo vão,<br />Depus do Ideal e da Paixão<br />A forma transitória e imperfeita.<br />Como criança, em lôbrega jornada, <br />Que a mãe leva ao colo agasalhada,<br />E atravessa, sorrindo vagamente,<br />Selvas, mares, areias do deserto…<br />Dorme o teu sono, coração liberto,<br />Dorme na mão de Deus eternamente.<br />11 de Setembro de 1891<br />Antero soçobra às suas penas e dúvidas e suicida-se em Ponta Delgada com dois tiros de revólver<br />
  53. 53. Oliveira Martins tem uma fugaz passagem<br />pelo Governo, integrando um ministério presidido<br />por José Dias Ferreira. <br />Martins não será feliz nessa experiência governamental<br />como ministro da Fazenda (17 de Jan. – 27 de Maio de 1892).<br />Em carta a Eça de Queirós, desabafa:<br />“ José Maria do meu coração! Emergi da cloaca ministerial”<br />Dias Ferreira<br />1837-1909<br />Nos princípios de 1894, Martins tem febres quase permanentes.<br />Instala-se no antigo convento de Brancanes, à vista<br />de Setúbal. Piora e volta a Lisboa. A 24 de Agosto de 1894 morre<br />Joaquim Pedro de Oliveira Martins. Despede-se: “Morro triste e<br />não levo saudades do mundo”.<br />“Peçam aos meus amigos que se lembrem de mim com saudade.”<br />Na altura reunia elementos para o seu novo livro, O Príncipe Perfeito.<br />Oliveira Martins<br />1845-1894<br />
  54. 54. A Situação Económica<br />Crescimento do PIB per capita<br />D. Justino<br />1989<br />PIB per capita em<br />percentagem da média <br />europeia<br />R. Esteves<br />2000<br />
  55. 55. “Para mim é fora de dúvida que Portugal nunca<br />foi tão rico como está hoje, visto possuir uma<br />indústria fabril quase completa. Se chega a produzir<br />o pão necessário, terá desde logo equilibrado a<br />sua balança comercial. O grande desenvolvimento<br />industrial nestes últimos seis anos é testemunho<br />bastante da energia nacional. Se o Oliveira Martins <br />pudesse ver este rejuvenescimento da riqueza<br />nacional!”<br />Alberto Sampaio, carta a Luís de Magalhães, <br />Dezembro de 1898<br />Luís de Magalhães<br />1859-1935<br />Com efeito, atingida a cotação mais baixa do <br />mil-réis, exactamente em 1898, <br />a sua ascensão sustentada é sintoma de uma <br />melhoria económica geral que se <br />repercutirá em 1906 quando a moeda alcançar <br />a paridade com a libra inglesa.<br />
  56. 56. No verão de 1899 declara-se<br />um surto de peste na Porto.<br />O governo Progressista de José Luciano<br />de Castro isola a cidade. <br />Os portuenses, furiosos, com a <br />conivência do chefe dos Regeneradores, <br />que aconselha os seus apoiantes a <br />votarem nos candidatos<br />republicanos, elegem Afonso Costa,<br />Paulo Falcão e Xavier Esteves.<br />Jornal “A Paródia” de Rafael Bordalo Pinheiro<br />Em Maio de 1902, um grupo de oficiais dirige uma mensagem a D. Carlos exigindo<br />“um governo pessoal segundo o sistema prussiano”.<br />Entre os autores da mensagem estavam “quase todos ou todos os oficiais republicanos,<br />que sob a chefia de Carlos Cândido dos Reis, estavam conspirando contra o regime<br />monárquico” (Homem Cristo)<br />A recusa do Rei mereceu no Povo de Aveiro o comentário: “vossa majestade deu<br />um exemplo de liberdade que deve envergonhar muitos dos seus súbditos”.<br />
  57. 57. 16 de Agosto de 1900.<br />Morre em Paris<br />José Maria Eça de Queirós.<br />A febre intestinal de que <br />padecia talvez a tenha contraído<br />em Havana ou no Médio<br />Oriente quando aí se deslocou<br />para assistir à inauguração do<br />Canal do Suez.<br />Eça de Queirós<br />1845-1900<br />“Minha querida Emília<br />Continuo na mesma. Pouco bem.”<br />Carta da Suíça, de 4 de Agosto de 1900, quando fazia tenções de se deslocar a Heidelberga<br />para consultar um especialista que lhe tinha sido recomendado.<br />
  58. 58. Bernardino Machado, ex-ministro, ex-grão-mestre da<br />Maçonaria e futuro Presidente da República, sobre D. Carlos,<br />na revista Instituto, de Coimbra, 1901, dois anos antes de aderir<br />ao PRP<br />“Raras vezes tão preciosos dons pessoais esmaltaram a<br />coroa, como hoje em Portugal. O rei dá o exemplo de estudo,<br />de gosto pelos prazeres intelectuais, naturalista e pintor<br />apreciável, e até o exemplo do enrijamento físico que nos não <br />é menos necessário. Quase todos têm que aprender com ele<br />a amar por igual os exercícios do espírito e do corpo, e a preparar-se<br />assim cabalmente, por meio de uns e de outros, a bem servir a<br />Nação. Modesto no trato íntimo, a sua palavra tem vibração,<br />sonoridade e calor em meio das assembleias solenes. <br />Não fraquejando nunca nas situações difíceis, a sua coragem é simpática”.<br />Bernardino Machado<br />1851-1944<br />Quando aderiu ao PRP, os novos correligionários começaram de imediato a bajulá-lo. <br />Em 1904 tinha sido citado nos jornais 3674 vezes, sendo considerado: luminoso talento<br />1145 vezes, grande talento 2338 vezes, génio 147, grandíssima alma 2491, patriarca 188,<br />santo 299, carácter imaculado 3001, homem de probidade transcendente 138, inteligência<br />de lucidez etérea 97, sábio 1647, patriota 2425, chefe de família modelo 2314, ilustre<br />75, casto 2 e pudico 5.<br />
  59. 59. O primeiro governo de João Franco.<br />“O embaixador inglês notou o facto de <br />todos os ministros serem homens<br />abastados (havia mesmo dois banqueiros),<br />o que lhe pareceu bom sinal, porque teriam<br />menos razões para meter a mão no<br />orçamento de Estado” (Rui Ramos)<br />Entre os apoiantes de João Franco contam-se<br />Ramalho Ortigão, Fialho de Almeida, um<br />ex-republicano e, como há-de confessar mais<br />tarde a Raul Proença, António Sérgio.<br />Governo João Franco (Maio 1906 – Fevereiro 1908)<br />De João Franco João Chagas reconhecia-lhe quatro qualidades: era rico, o que dava uma <br />caução à sua rigorosa honestidade, tinha uma fé ilimitada em si mesmo – exalava força, era <br />eloquente, tinha um programa de reformas dos costumes políticos.<br />Homem Cristo em Junho de 1906: “Temo-nos fartado de pedir liberdades”, e agora que<br />“João Franco prometeu, precisamente, a maior parte daquilo que os republicanos têm<br />pedido”, “estamos com medo de João Franco nos tirar força e prestígio executando as suas<br />promessas”.<br />
  60. 60. Grande parte da legislatura é despendida pelo PRP a discutir<br />a nacionalidade de DrieselSchroeter, filho de austríacos e <br />casado com uma senhora portuguesa, Presidente da <br />Associação Comercial de Lisboa e ministro da Fazenda.<br />O partido de João Franco, Centro Regenerador-Liberal, tinha<br />um grupo parlamentar que não bastava à manutenção do <br />Governo. Franco necessitava do apoio dos Progressistas de José <br />Luciano de Castro. Quando pretendeu fazer uma remodelação, chamando ao executivo três <br />membros desse partido, indicados por si, recebeu uma recusa.<br />A D. Carlos restavam duas hipóteses: ou demitia João Franco ou dava-lhe a ditadura.<br />Ernesto (Ernst) DrieselSchroeter<br />1850-1942<br />A ditadura, como era entendida no Liberalismo, significava somente que o Governo<br />legislava por decreto, à margem do Parlamento, isto é, o Governo acumulava a função<br />executiva com a legislativa.<br />A ditadura já tinha sido pedida a D. Carlos quer pelo chefe regenerador Hintze Ribeiro,<br />quer pelo chefe progressista Luciano de Castro. A questão agora é que temiam que o <br />objectivo fosse criar um partido novo, angariando dissidências e vontades, que conduzisse <br />a nova correlação de forças no espectro político, e isso não estavam dispostos a tolerar.<br />
  61. 61. Em Março de 1907, a reprovação por unanimidade de<br />um candidato a doutor, José Eugénio Dias Ferreira, filho de<br />José Dias Ferreira, e que tinha aderido ao Partido Republicano<br />em Janeiro, vai despoletar uma crise académica em todo o <br />País, atiçada pelos republicanos.<br />No Parlamento, a táctica seguida pelos deputados do PRP é a de<br />criar a confusão, dando livre expressão à insolência, de modo a<br />serem expulsos, e com isso poderem apresentar-se como vítimas <br />da “violência inerente ao sistema”. <br />Mas nem todos estão dispostos a fazer-lhes a vontade. Em carta de D. Carlos a <br />João Franco, de 9 de Abril de 1907, diz o Rei:<br />“Soube, e não sei se disto também terias sido informado, que deputados republicanos,<br />salientando-se na discussão Alexandre Braga, combinaram o fazer-se expulsar outra<br />vez pela força armada, porque dizem eles que assim expulsos por causa dos rapazes,<br />os terão logo todos do seu lado. Não creio que os tivessem todos mas teriam bastantes,<br />e parece-me que se lhes deve evitar o gostinho.”<br />
  62. 62. Alexandre Braga – deputado republicano , natural do<br />Porto. Mação. Fez parte do célebre governo d’ “Os Miseráveis<br />de Vítor Hugo”, do nome do Presidente do Conselho<br />Vítor Hugo de Azevedo Coutinho. O governo era também <br />conhecido como a “Adega do Braga”, já que este cavalheiro <br />republicano tinha desenvolvido pela aguardente uma idolatria<br />de verdadeiro fanático.<br />Alexandre Braga<br />1871-1921<br />A questão da Lista Civil<br />A Lista Civil era a dotação que o Parlamento atribuía à Casa Real, e que saía do Erário<br />Público. O Partido Republicano chamava-lhe o “cancro das finanças”. D. Carlos auferia<br />uma verba que era a mesma do tempo da sua avó, D. Maria II, 50 anos atrás. E não era<br />por falta de recursos do país, mas sim por cobardia política, o que os levava a fazer<br />adiantamentos ao Rei em vez de proceder a uma actualização. A dotação era modesta,<br />comparada relativamente com outras monarquias, e de maneira alguma despropositada <br />à representação do País, como depois os republicanos vieram a saber por experiência <br />própria.<br />Apenas por curiosidade, aqui ao lado, na Espanha, a Monarquia custa a cada espanhol 19<br />centavos de euro, enquanto que a cada um de nós a República nos fica por 1,58 euros,<br />transferindo o Governo Espanhol para a Casa Real 9 milhões de euros, quando o nosso<br />transfere para a Presidência da República 16 milhões. <br />
  63. 63. Todos os argumentos, pois, militavam no espírito dos ideólogos em favor de uma república – mesmo a sua barateza, pela supressão da lista civil (argumento que impressiona as classes comerciais). <br />Com efeito, o presidente dos Estados Unidos pouco mais ganha do que um ministro no Rio de Janeiro: mas os brasileiros ignoravam (como nós, de resto, na<br />Europa, imperfeitamente sabíamos antes da publicação do livro do americano William Ivins, Machine Politics and Money in Election) que a eleição do Presidente dos Estados Unidos custa cada quatro anos mais de 90 mil contos, o que dividido pelos quatro anos que dura o presidente, dá vinte e dois mil e quinhentos contos por ano – soma amplamente suficiente para pagar todos os soberanos da Europa e o seu luxo, incluindo o sultão e o Papa.<br />Eça de Queirós – A revolução do Brasil<br />Ramalho há-de cravar mais uma farpa:<br />“Como o boi puro o povo não se desilude nunca, nunca se desengana da lide. Um dos <br />seus lidadores […] pôs-lhe mui hábil e graficamente diante dos olhos este argumento <br />aritmético demonstrativo da fome da nação originada do escândalo da lista civil no<br />orçamento geral do Estado. O orador somou, a parcela por parcela, o que recebiam o<br />rei e as demais pessoas da família real; dividiu o total em reis por 80, e demonstrou pelo<br />quociente que cerca de 400 000 famílias receberiam de graça dois pães de pataco desde<br />o dia imediato ao do advento da República, em que se distribuísse pelo povo o que <br />devorava a realeza”<br />Ramalho Ortigão, O Sebastianismo Nacional, Fevereiro de 1911<br />
  64. 64. “Outro retórico, em outro comício, explicou, por meio<br />de processo igualmente matemático, que o custeio de <br />cada cavalo de luxo nas reais cavalariças importava em<br />tanto como o sustento de quatro famílias.”<br />“Ora sucede que, abolida a Monarquia, e achando-nos nós <br />no mês 5 do ano I da República, nenhum pão de pataco dos<br />oitocentos mil que ingeria o rei, foi por enquanto distribuído ao povo, e que o mesmo povo, outra vez transferido de “Povo Soberano” a “Zé-Povinho”, com indício de estar mudado o Governo da Nação, não logrou ainda o regozijo gratuito de ver passar em dia de gala, dos paços do Governo para o paço da Ajuda, em vez do rei antigo, o presidente novo em coche real puxado a quatro por dezasseis relinchantes famílias aristocraticamente engatadas à Grand-Daumont”<br />Ramalho Ortigão, O Sebastianismo Nacional, Fevereiro de 1911<br />Entretanto, o jornal do Partido Republicano “O Mundo” mandava calar o autor de “As <br />Farpas”, às quais outro escritor republicano, Aquilino Ribeiro, chamou “as tábuas de <br />bronze de um povo”.<br />
  65. 65. … à hora a que escrevemos estas linhas Gomes Leal <br />acha-se preso. <br />Para princípio de vida está no lugar mais decentezinho com que os governos em Portugal podem ainda hoje apadrinhar um amigo. <br />Como perseguido ele pode chegar a tudo quanto apeteça no Estado, e se souber aproveitar o tempo aprendendo o ofício de vítima – de aqui até que o júri ponha cobro ao favoritismo que o prendeu, condenando-o à soltura -, creiam que o hão-de ver ministro para o ministério que vem.<br />João Ribaixo (Ramalho Ortigão) in Álbum das Glórias<br />(desenho de Rafael Bordalo Pinheiro)<br />Acerca do tratamento reservado aos revolucionários por João<br />Franco, escreve Homem Cristo :<br />“Na Rússia vai este para a Sibéria. Na Espanha vai para o fundo de<br />uma enxovia, onde leva chicotada, ou vai para … o garrote. Em<br />Portugal … vai tomar chá e cavaquear com os oficiais da Guarda<br />Municipal”<br />Povo de Aveiro, 11 de Abril de 1909<br />
  66. 66. Afonso Costa, na prisão, durante a medonha ditadura de João Franco,<br />após ter-se envolvido numa tentativa de golpe de Estado<br />A masmorra tinha máquina de café, louça cedida pela família <br />do comandante do estabelecimento e almoços encomendados <br />no Tavares<br />Menu do dia 30 de Janeiro de 1908<br />Linguado frito<br />Bife de vitela<br />Batatas em palha<br />Vinho de Colares<br />Queijo da Serra<br />Maçã, tangerina e banana<br />Afonso Costa<br />Irritava-o, no entanto, a sorte de António José de Almeida, que fora preso antes dele,<br />o que lhe tinha permitido apanhar o melhor aposento da enxovia.<br />
  67. 67. O Regicídio - Trajecto desde a estação fluvial até ao local do assassínio<br />Pelas 5 da tarde do dia 1 de Fevereiro de 1908, chegam ao Terreiro do Paço, vindos de Vila Viçosa, D. Carlos, a Rainha D. Amélia e D. Luís Filipe.<br />D.Manuel, que está em Lisboa, vai esperá-los.<br />Poucos minutos depois, D.Carlos e o Príncipe-Real são assassinados.<br />Local do atentado<br />
  68. 68. Os terroristas assassinos são republicanos convictos pertencentes<br />à Maçonaria, possivelmente membros de lojas irregulares. <br />Os principais suspeitos de terem sido os mandantes do crime<br />são José Maria de Alpoim, chefe da Dissidência Progressista, <br />o visconde da Ribeira Brava, filho de um comerciante madeirense <br />nobilitado por D. Luís, e Afonso Costa, membro do Partido <br />Republicano. <br />José de Alpoim<br />1858-1916<br />“Os elementos mais verosímeis […] (das várias versões dos <br />acontecimentos) dizem […] respeito à existência de um grupo <br />de revolucionários armados ao qual, no âmbito do 28 de Janeiro, <br />teria sido encomendada uma operação de assassinato, tendo <br />Franco ou o Rei como alvos, ou ambos. Esse grupo tinha como <br />interlocutores os chefes republicanos, e recebera armas dos <br />Dissidentes” <br />Rui Ramos, D. Carlos, 2007<br />Ribeira Brava<br />1852-1918<br />Afonso Costa<br />1871-1937<br />Já se sabia que os republicanos eram um grupo de doidos, agora sabe-se<br />que são um grupo de doidos maus. (Homem Cristo, Povo de Aveiro)<br />
  69. 69. “O Rei era um homem “liberal”, isto é, de esquerda<br />(inclusive livre-pensador). Durante anos tentou ser<br />um escrupuloso rei constitucional” (Rui Ramos)<br />“Pobre, pobre D. Carlos!, quando se pensa que afinal<br />era mais inteligente, e teve talvez virtudes superiores<br />às dos seus adversários – e porque não dizer? – às dos<br />seus cúmplices […] (Fialho de Almeida, 1909)<br />“Porque foi, por exemplo, morto D. Carlos? […] E no entanto<br /> já hoje se pode afirmar sem erro que D. Carlos não foi morto <br />pelos seus defeitos, mas pelas suas qualidades. <br />Respirou-se! respirou-se! – o que não impede que, a cada ano <br />que passa, esta figura cresça, a ponto de me parecer um dos maiores reis da sua dinastia. <br />Já redobra de proporções e não se tira do horizonte da nossa consciência.” (Raúl Brandão, <br />Novembro de 1918, in Memórias)<br />D. Carlos<br />(1863 – 1908)<br />Teixeira de Pascoaes, um republicano, escreve, em 1925, o drama em verso D. Carlos, uma <br />espécie de anti-Pátria de Junqueiro, um ano após a publicação do livro de João Franco, <br />“Cartas d’El-Rei D. Carlos I a João Franco Castelo-Branco seu Último Presidente do Conselho”<br />
  70. 70. O Conselho de Estado propõe a D. Manuel II, então com 18<br />anos, a formação de um governo de concentração partidária <br />sem Franquistas.<br />João Franco parte para o exílio não voltando a intervir na política<br />até à publicação em 1924 da correspondência tida com D. Carlos <br />durante o seu governo.<br />Eduardo VII de Inglaterra ao Marquês de Soveral: “Que país<br />é esse onde matam um rei e um príncipe e a primeira medida<br />que se toma é demitir o ministério? A revolução triunfou, não é verdade?”<br />D. Manuel II<br />1889-1932<br />O Partido Republicano, que em 1901 parecia condenado à decadência irreversível, <br />vai ter agora uma franca revitalização, dada a atmosfera favorável assim criada.<br />“O Partido Republicano recebia uma onda de adeptos sempre que a especulação ou a<br />ingenuidade pública julgava a república iminente. Depois a onda voltava ao mar e<br />conquanto se não desfizesse de todo, diminuía consideravelmente de volume e de<br />fragor”(Francisco Homem Cristo, Notas da Minha Vida e do Meu Tempo, 1936)<br />“Só depois de 1908 o Partido Republicano se expandiu verdadeiramente, quando passou<br />de 62 centros em todo o país para 172 em pouco mais de dois anos” (Rui Ramos)<br />
  71. 71. É feito um inquérito pro forma às circunstâncias do<br />assassínio de D. Carlos e do Príncipe-Real que nada<br />esclarece.<br />Todos os implicados na tentativa de golpe de Estado de<br />28 de Janeiro são amnistiados. Inclusive, até a José de <br />Alpoim, que todos consideram estar envolvido no regicídio,<br />pedem à Rainha para receber. É a acalmação e o baixar de<br />braços final do regime.<br />“Depois da sua queda (de Franco), instalara-se em Lisboa a verdadeira “ditadura”, a<br />ditadura da canalha lisboeta, ao serviço de Costa e Alpoim” (Rui Ramos)<br />“Quem manda, quem governa, mesmo na oposição, são os republicanos, que o Alpoim<br />leva pela mão até às questões importantes” (Raúl Brandão, Julho de 1910, in Memórias)<br />Em 1909 D. Manuel II vai contratar, a expensas suas, um estudo sobre o estado geral do <br />país, e medidas a tomar para o seu melhoramento, convidando o sociólogo francês<br />LéonPoinsard, auxiliado por Matos Braamcamp e Serras e Silva, que percorrerão o país, e <br />que irão apresentar no final um extenso relatório com as suas conclusões e sugestões de <br />medidas a tomar. <br />
  72. 72. Em Junho de 1909, D. Manuel entra em contacto<br />com dirigentes do Partido Operário Socialista. O<br />objectivo era envolver os socialistas no projecto<br />de reformas que visava para Portugal, como já tinha <br />sido feito, aliás, em outros países, e desviar a massa <br />trabalhadora da influência republicano-jacobina.<br />Aquiles Monteverde, em carta ao Rei, declara: “Arrostei <br />com um elemento considerado o mais revolucionário<br />e intratável: o Arsenal da Marinha”.<br />Na empresa, D. Manuel era apoiado por Carneiro Pacheco, professor da Universidade de <br />Coimbra, e autor de um estudo sobre o movimento operário.<br />D. Manuel II de visita ao Porto<br />Em Julho de 1910, o Governo cria uma comissão encarregada de estudar o estabelecimento <br />do Instituto do Trabalho Nacional,tendo nomeado para ela três socialistas, incluindo os <br />históricos Azedo Gneco e Ladislau Batalha.<br />O Governo , presidido por Teixeira de Sousa, e último do regime liberal, para o qual se <br />aventou até a hipótese de ir o próprio Afonso Costa, era um ministério claramente de <br />esquerda com um programa avançado de reformas sociais e económicas.<br />
  73. 73. Carbonária – organização terrorista republicana <br />usada para golpes de mão. Utilizava como arma favorita<br />a bomba de dinamite a que chamava “artilharia<br />civil”. A sua base de recrutamento era a “canalha”, <br />gente de condição baixa e impressionável, com o <br />mesmo padrão sociológico daquilo que iria ser a <br />Formiga Branca, tropa de choque do Partido Democrático <br />de Afonso Costa, e da SA, a Sturmabteilungdo Partido <br />Nazi alemão.<br />O célebre motto dos carbonários “Beber o <br />sangue do último rei pelo crânio do último <br />padre” basta para aquilatar o tipo moral da organização.<br />A Alta Venda <br /> Antº Mª da Silva, Luz Afonso e Machado Santos<br />António Mª da Silva, engº de Minas pela Escola do Exército, e <br />o comissário naval graduado em 2º tenente Machado Santos, <br />tendo-se juntando a Luz Afonso, vieram dar significativo <br />poder organizativo à Carbonária. Os três formavam a Alta <br />Venda, a chefia mística da sociedade.<br />Aulas práticas – carbonários exemplificando o fabrico de bombas.<br />Ilustração Portuguesa, 1911.<br />
  74. 74. O exército<br />“O exército não é composto de entidades abstractas e impessoais como princípios: é composto de homens de carne e osso, susceptíveis de todas as fraquezas e de todas as tentações humanas.” (Eça de Queirós)<br />O exército português, em 1910, não constituía de modo algum aquela instituição marcial <br />plena de tradições, máquina bélica bem lubrificada, rolando sobre esferas, comandada por <br />aristocratas que apenas convivem entre si  casta impermeável ao mundo , e que, <br />tendo recebido dos pais, passam por sua vez aos filhos todas as altas lições de Pátria, <br />Honra e Dever, como era o caso do exército alemão, que tanta impressão fez em Aquilino.<br />“Uma bela manhã de Maio de 1912 […] acordei a caudaloso e compassado tropel.<br />Eram os hussardos daKronprinzessinque se dirigiam à parada. Corcéis de raça,<br />robustos e garbosos cavaleiros, uniformes tão limpos e escarolados que não seria<br />ingénuo perguntar se acabavam de tirá-los do casão. Marchavam a duas alas com<br />perfeita cadência e rigor geométrico. A certa altura da avenida, a charanga rompeu num <br />pasodoble. Acima do estrépito os metais vibraram com brusquidão alada; pareceu-me<br />que o céu abria como açucena; era soberbo, marcialmente soberbo.” (Aquilino Ribeiro,<br />É a Guerra, 1934)<br />
  75. 75. O exército<br />“O exército, de facto, não passava de uma dispersa massa de funcionários públicos<br />fardados e de guardas de feira, às ordens do Ministério da Guerra” (Rui Ramos)<br />“Qualquer oficial, desde que tivesse contactos políticos, podia borrifar-se para a <br />hierarquia” (Correio da Noite, 13 de Setembro de 1910)<br />“Quanto ao Exército, digamo-lo, era inútil, mas a Nação pagava-o como certas<br />velhas que têm um amante – vestido de vermelho e espada-arrasto, que lhes não <br />servem de nada e as arruinam. Fantasia ou vício. Somente lhe pagava muito mal.”<br />(Raul Brandão, Memórias)<br />Uma característica peculiar do exército era a dos oficiais que não aderindo a sedições<br />e intentonas também as não combatiam. Não se queriam comprometer. Tinham <br />empregos de alguma estabilidade e almejavam somente à reforma, ao sossego, a uma<br />boa cavaqueira e a um ou outro chá em casas burguesas respeitáveis. <br />
  76. 76. P Tavares de Almeida<br />Eleições de 28 de Agosto de 1910 para a Câmara de Deputados 155 lugares<br />Apoiantes de Teixeira de Sousa 90, Oposição Constitucional 51<br />Partido Republicano 14 deputados<br />Adelino Maltez<br />
  77. 77. 5 de Outubro – Cronologia do golpe<br />2 de Outubro – Os republicanos aprazam o golpe para a 1 hora do dia 4 de Outubro<br />3 de Outubro – Última reunião dos golpistas. Vários irão esquivar-se à sua participação, <br />outros mostrar-se-ão contra, outros ainda ficarão alheios às movimentações. O vice-almirante Cândido dos Reis, o mesmo que em 1902 tinha exigido a D. Carlos um governo pessoal de tipo prussiano, insiste em que se vá para a frente. Machado Santos, um funcionário da Marinha sem relevância, mas um dos chefes da Carbonária, já tinha, entretanto, passado à acção.<br />4 de Outubro (madrugada) – Em Infantaria 16, Machado recruta umas 50 a 60 praças após terem assassinado a tiro um comandante e um capitão. Em Artilharia 1, o capitão A. Palla e alguns sargentos, que haviam introduzido alguns civis no quartel, prendem os oficiais, e juntam-se à coluna de Machado. Palla e Machado Santos seguem para a Rotunda da Avenida, onde se entrincheiram. São 5 da manhã. Haverá aí 200 a 300 praças de Artilharia 1, 50 a 60 de Infantaria 16 e cerca de 200 populares. Entretanto, um tenente, Ladislau Parreira ,e alguns oficias e civis introduzem-se no Quartel do Corpo de Marinheiros de Alcântara, sublevam a guarnição e aprisionam os comandantes, ferindo um deles. No Tejo estão surtos três cruzadores: o Adamastor, o S. Rafael e o mais poderoso dos três o D. Carlos. <br />
  78. 78. 5 de Outubro – Cronologia do golpe<br />O tenente M. Cabeçadas toma o comando da tripulação do Adamastor enquanto a do "São Rafael" espera oficial para a comandar.<br />Não se vislumbram os principais dirigentes republicanos que tardam em aparecer. <br />Pelas 7 h é encontrado morto Cândido dos Reis que, julgando o golpe fracassado e apreciando os lances dramáticos, se tinha suicidado. Entretanto, na Rotunda, o aparente sossego da cidade, donde não desembocavam como torrentes as massas republicanas, desalentava de tal maneira os revoltosos que os oficiais acharam melhor desistir. Os militares sediciosos Sá Cardoso, Palla e os outros oficiais retiraram-se assim em boa ordem para o aconchego dos seus lares enquanto Machado Santos e os seus carbonários se mantiveram no seu posto. Desta decisão resultou o sucesso do golpe de Estado do 5 de Outubro. <br />Do lado governamental, os regimentos de Infantaria 1, Infantaria 2, Caçadores 2 e Cavalaria 2, mais a bateria de Queluz seguem para o Palácio das Necessidades para proteger o Rei, enquanto Infantaria 5 e Caçadores 5 marcharam para o Rossio com a missão de proteger o quartel-general.<br />
  79. 79. 5 de Outubro – Cronologia do golpe<br />O comando militar da cidade organizou um destacamento para atacar os revoltosos, sob o comando do coronel Alfredo Albuquerque, composta das unidades de Infantaria 2, Cavalaria 2 e a bateria móvel de Queluz. Desta última faz parte o herói das guerras africanas de pacificação o Major Henrique de Paiva Couceiro. Entre as 12h30 e as 16h00, Paiva Couceiro faz fogo sobre a Rotunda.<br />Uma coluna que se havia formado com o propósito de atacar os revoltosos aí entrincheirados foi mandada retirar, chegando ao Rossio ao fim da tarde sem ter combatido. Deu a ordem de retirada o general António Carvalhal, no dia seguinte nomeado chefe da Divisão Militar pelas novas autoridades, que, traindo o Governo que o empregava e aceitando um lugar dos que lhe competia combater, se cobriu duplamente de desonra. As unidades de Artilharia 3 e Caçadores 6, chamadas de Santarém, e a de Infantaria 15, de Tomar, com guias de marcha para se dirigirem a Lisboa, não chegam a entrar em combate. <br />Pelas duas da tarde os cruzadores Adamastor e São Rafael, que tinham fundeado em frente ao quartel dos marinheiros, começam a bombardear o Palácio das Necessidades. Às 4 a Marinha bombardeia o Terreiro do Paço. Pelas 9, o tenente Carlos da Maia com alguns marinheiros e civis, após algum tiroteio, que fere o comandante do navio e um tenente, apossam-se do cruzador D. Carlos. <br />
  80. 80. 5 de Outubro – Cronologia do golpe<br />5 de Outubro - Às três da manhã, Paiva Couceiro parte com a bateria móvel, escoltado por um esquadrão da guarda municipal, e instala-se no Jardim de Castro Guimarães aguardando a madrugada. Quando as forças da Rotunda começaram a disparar sobre o Rossio, Paiva Couceiro abre fogo provocando baixas e semeando a confusão entre os revoltosos. O bombardeamento prossegue com vantagem para os governamentais, mas às oito Couceiro recebe ordem para cessar-fogo, pois iria haver um armistício de uma hora.<br />O ministro plenipotenciário da Alemanha, chegado na antevéspera, instalara-se no Hotel Avenida Palace. A proximidade do edifício da zona dos combates não o poupou a estragos. Perante este perigo, o diplomata tomou a resolução de intervir. Dirigiu-se ao quartel-general e pediu ao general Gorjão Henriques um cessar-fogo que lhe permitisse evacuar os cidadãos estrangeiros. Sem comunicar ao governo, o general acede.<br />O diplomata alemão, acompanhado de um ordenança com a bandeira branca, dirige-se à Rotunda para acertar o armistício com os revoltosos. <br />Estes, vendo a bandeira branca, e julgando tratar-se da rendição das forças governamentais, saem das fileiras e juntam-se ao povo, que entretanto se tinha aglomerado na Rotunda. Desencadeia-se então uma situação confusa, com insubordinação de tropas no Rossio e, pouco depois, pelas 9 da manhã, José Relvas proclama a República na varanda do edifício da Câmara Municipal de Lisboa.<br />
  81. 81. 5 de Outubro – Cronologia do golpe<br />Aspecto das barricadas – Rotunda da Avenida<br />Revolucionários festejando a vitória. De<br />barbas e chapéu na mão está o visconde<br />da Ribeira Brava. Na manhã do dia 4, com<br />salvo-conduto do Quartel-General, estivera<br />na Rotunda tentando dissuadir os revoltosos<br />“Malva do Vale conta:<br />Éramos quatrocentos e cinquenta homens <br />no alto da Avenida antes de vencermos;<br />depois fomos milhares, todos armados, desde <br />o Ribeira Brava até aos ilustres desconhecidos.<br />Apareciam heróis às chusmas.” (Raul Brandão, Memórias)<br />Civis posam de armas na mão depois da vitória<br />Da revolta teriam resultado 60 a 70 vítimas mortais <br />
  82. 82. 5 de Outubro – Cronologia do golpe<br />Henrique de Paiva Couceiro – herói africanista, antigo Governador-<br />Geral de Angola, a lealdade com que defendeu o seu jovem Rei e seu <br />Comandante-em-Chefe granjeou-lhe um lugar perene entre o escol <br />dos Homens de Honra.<br />“Logo a seguir à famosa batalha<br />de 5 de Outubro na Rotunda, as<br />forças vencedoras marcharam<br />sobre o Terreiro do Paço, e aí se<br />procedeu à chamada geral a fim<br />de determinar qual o exacto <br />número de beligerantes ceifados<br />pela morte sobre o terreno da<br />luta. Dessa contagem resultou<br />averiguar-se que das 4 dúzias de<br />heróis que denodadamente haviam<br />derramado o seu sangue e dado a<br />sua vida pelas conquista das <br />liberdades pátrias, sobreviviam<br />apenas uns dez ou doze mil!”<br />(Ramalho Ortigão, Como nós éramos – como eles são, Março 1912)<br />Paiva Couceiro<br />1861-1944<br />Na Galiza em 1912<br />comandando as forças<br />restauracionistas<br />Em Angola com o Príncipe <br />D. Luís Filipe, 1907<br />
  83. 83. No anexo à sua obra Le Portugal Inconnu, LéonPoinsard<br />reflecte: “Se se quer pôr a charrua à frente dos bois e reconstituir<br />a situação política antes de reconstituída a vida particular e<br />as instituições locais, se se quer lutar contra os abusos e<br />as baixezas da política por meio da mesma política, a falência é<br />inevitável. Nunca, em tal terreno, os homens probos e justos,<br />naturalmente ciosos da sua reputação, prevalecerão contra os <br />intrigantes e os ambiciosos que fazem da política uma profissão. <br />Os primeiros serão constantemente derrotados pelos segundos, <br />e todas as tentativas futuras encalharão como encalharam as<br />experiências do passado”<br />“Em todo o país centralizado basta, por meio de um audacioso movimento, deitar a<br />mão às administrações centrais para subjugar o país inteiro, qualquer que seja nele a<br />maioria da opinião”<br />“Os quadros políticos mudarão de tabuleta mas não de pessoal, o qual passará em massa<br />e instantaneamente para o lado do mais forte. Conservar-se-ão os mesmos apetites e os<br />mesmos processos, e o resultado será o mesmo. Com a única diferença de que os violentos<br />e os exaltados tomarão mais campo do que tinham, aumentando assim a desordem e o<br />perigo. Cruelmente se desenganarão em pouco tempo os que a este respeito possam <br />ainda manter uma ilusão.”<br />
  84. 84. O que movia os republicanos, esses lidadores do boi-povo,<br />à parte o ódio ao Rei e aos padres?<br />É muito provável que para um carácter lírico e romântico como<br />Manuel de Arriaga o movesse o desejo sincero de engrandecimento<br />de Portugal e de bem servir a Pátria, e que fosse a República, vá lá <br />saber-seporquê, o único regime que podia realizá-lo. É possível.<br />Mas para a maioria dos republicanos, dos que pugnavam pela aplicação<br />da guilhotina, da Smith & Wesson e da técnica da lobotomia <br />generalizada à cura da sociedade, movia-os tão-somente a <br />ânsia do poder. <br />Sendo dados um Estado apetecível passível de ser tomado, um grupo de ambiciosos<br />dispostos a tomá-lo, e umas massas ignaras para lidar, a fatalidade das coisas <br />determina de imediato a conclusão: tomaram-no!<br />“Na França, sob Luís XVI, muita gente pensava que todos os males procediam dos<br />reis e dos padres, pelo que cortaram a cabeça do rei e fizeram dos padres peças<br />de caça. Mas mesmo assim não conseguiram desfrutar de uma bênção celestial. De<br />maneira que, embora acreditassem que os reis eram maus, não havia perigo nenhum <br />em estender os braços a imperadores” (Bertrand Russell, TheImpactofScienceonSociety, 1952)<br />
  85. 85. Os homens-fortes do novo regime<br />Afonso Costa, o Jacobino Perfeito. Pertencia à geração <br />de 90, a geração do Ultimato. Ganhou fama<br />internacional ao pedir, em pleno Parlamento, a cabeça do Chefe <br />de Estado. Nutria pelos jesuítas o mesmo ódio intenso que os <br />nazis dispensavam aos judeus.<br />José Relvas conta como Costa insinuou a sua participação no<br />regicídio, dando a beijar a conspiradores, quando de uma reunião<br />antes do 5 de Outubro, um revólver que pretensamente teria <br />atirado sobre D. Carlos. Na altura do golpe andou desaparecido,<br />tendo surgido no dia 5, com o triunfo já consumado, para recolher<br />os louros da vitória. Tornou-se o chefe do Partido Democrático, facção radical do PRP <br />quando este se cindiu. Possuía uma tropa de choque para controlar a “rua”, a Formiga <br />Branca, gente respeitável de caçadeira capitaneada pelo João das Barbas, um genuíno <br />democrata que tanto espancava padres como a própria mãe. <br />A 3 de Julho de 1915, quando se dirigia para o Palácio do Governo, sofre traumatismo <br />craniano ao atirar-se de um eléctrico temendo que lhe arremessassem uma bomba. Por<br />tal motivo não pôde tomar posse.<br />Nos anos 30, no exílio, sem perceber o que se passava no mundo, insistia em que tudo não <br />era senão uma infame conspiração internacional dos jesuítas.<br />
  86. 86. Os homens-fortes do novo regime<br />António José de Almeida, a linguagem da delinquência. Também <br />ele da geração do Ultimato. Nos tempos de Coimbra, publicou<br />num jornal académico um artigo intitulado “Bragança, o último”,<br />em que numa linguagem elevada recomendava para “o último<br />animal de Bragança […] metê-lo numa das gaiolas centrais do<br />Jardim Zoológico, fazer-lhe ali uma cama de palha e deixá-lo<br />dormir muito tranquilo e descansado”. <br />Muito querido dos carbonários, a 3 de Junho de 1908, defende no <br />Parlamento que a bomba de dinamite em revolução, e em certos <br />casos, pode ser legítima. Em 1910, num comício republicano, <br />declara: “não há monárquicos bons nem maus, o que é preciso é <br />atirar-lhes a todos à cabeça”.<br />Paradoxalmente, com a apropriação do Poder pelo PRP, em 1910, amansou. Possivelmente, <br />por já ter abocanhado o osso. Chegou até a sugerir que poderia haver monárquicos bons, e, <br />pasme-se, mesmo sem estarem mortos! Chefiava o Partido Evolucionista, resultado da cisão <br />do PR. O tratamento que quisera ver aplicado aos monárquicos quase estivera a receber ele, <br />quando apoiantes de Afonso Costa o quiseram matar. Ainda assim, dizia que preferia viver <br />sob a tirania de Afonso Costa do que ser livre sob D. Manuel II. Chegou a haver uma Formiga <br />Preta, mas sem o poder de fogo da sua congénere branca. Foi Presidente da República.<br />António José de Almeida<br />1866-1929<br />Ar de quem se apresta para<br />ferrar em alguém<br />
  87. 87. Os homens-fortes do novo regime<br />Manuel Brito Camacho, o mais conservador dos três chefes<br />republicanos. Publicou o jornal A Luta, e, após a cisão do PRP, <br />funda o Partido União Republicana, Partido Unionista. Do grupo <br />de A Luta, constavam igualmente João Chagas e Teixeira Gomes. <br />Consideravam-se a si mesmos a nata da República. <br />Chagas iria ser o mais acérrimo defensor da intervenção<br />portuguesa na Grande Guerra, ao lado da Inglaterra, o que viria<br />a acontecer em 1916.<br />Brito Camacho<br />1862-1934<br />Aquilino Ribeiro, um correligionário político, <br />traçar-lhe-ia um perfil pouco abonatório: “ Nenhum <br />amigo seu ou pessoa com que tenha privado contestará que é <br />rancoroso e ingrato, impulsivo, versátil e escravo das paixões, <br />ostentador e megalómano, fútil e vaidoso, inalteravelmente <br />cheio de si, ‘eu, mais eu, e um tanto minha mulher que está de<br />joelhos diante de mim’”.<br />Aquilino Ribeiro, É a Guerra – Diário, <br />3 de Agosto de 1914<br />João Chagas<br />1863-1925<br />
  88. 88. Os símbolos<br />Como bons talibãs, os republicanos vencedores começaram <br />de imediato a gozar a sua nova condição de donos da Pátria,<br />tratando de escaqueirar os ídolos falsos do regime derrubado<br />e de apresentar ao povo, para adoração e reverência, os deuses <br />verdadeiros da nova religião.<br />Estabeleceu-se uma nova bandeira, em substituição da de<br />1830. Projecto da autoria de Columbano Bordalo Pinheiro.<br />A inspiração era a extinta bandeira do Liberalismo, partida, <br />bicolor, armas sobre o partido. As cores eram as republicanas <br />do Centro Democrático Federal. Recuperou-se o brasão do <br />Reino Unido, com excepção da coroa que foi retirada.<br />A esfera armilar representava agora não o Reino do Brasil <br />mas sim o Ultramar, ou, no dizer dos republicanos, criados <br />agradecidos e obrigados da França, as Colónias.<br />Desenho humorístico de O Zé<br />Columbano aplicaria a teoria psicológica das cores para considerá-las as mais adequadas a<br />estimular a acção e a bravura ao contrário das antigas que seriam frias e inibidoras.<br />A oposição de Junqueiro, que preferia as cores azul e branca, daria lugar à chamada questão <br />das bandeiras.<br />
  89. 89. A lei eleitoral<br />Uma das bandeiras republicanas era a do sufrágio universal,<br />que constava do programa do PRP aprovado em Janeiro <br />de 1891, no Porto, e que ainda se encontrava em<br />vigor. (O sufrágio universal era de facto restrito porque <br />apenas se aplicava ao universo masculino).<br />Mas quando se apropiaram do Poder, e legislaram sobre a<br />matéria, Decretos-Leis de 5 e 20 de Abril ,11 ,12 e 13 de Maio<br />de 1911, as condições para se ser eleitor eram: “cidadãos <br />maiores de 21 anos que saibam ler e escrever ou sejam <br />chefes de família.” Não era o sufrágio universal prometido. <br />As mulheres não estavam contempladas na lei, mas houve <br />quem visse uma ambiguidade na legislação. <br />Carolina Beatriz Ângelo, uma viúva, mostrou que<br />quando a lei referia “cidadãos” isso englobava <br />ambos os géneros, e ela era chefe de família.<br />Os republicanos tornaram-se mais cuidadosos, além de mais restritivos, e pela Lei de 3 de Julho de1913 as condições já eram: “cidadãos do sexo masculino, maiores de 21 anos que saibam ler e escrever”. O mundo rural não vota, as mulheres não votam. Na Monarquia, em 1910, os eleitores são 693 171 ou 11,8% da população, tendo sido 20 anos antes 18,8%; em 1915, na República são 471 557 ou 7,7% da população.<br />É boa! Não sei ler a lista para votar<br />mas sei ler o aviso da décima para pagar!<br />O Século Cómico (desenho de Magalhães)<br />
  90. 90. Uma feminista peculiar<br />Ana de Castro Osório, escritora, republicana e tida por feminista. <br />Enquanto em Inglaterra as sufragistas se manifestam publicamente pela extensão do direito de voto às mulheres, empreendendo mesmo acções violentas, a denodada feminista considera muito bem ajuizado que o seu amigo Afonso Costa não conceda o reconhecimento ao seu género quanto à capacidade e inteligência suficientes para ter ideias próprias.<br />Teve, no entanto, a expressiva honra de ter sido a sofrida paixão do excepcional poeta simbolista Camilo Pessanha.<br />Ana de Castro Osório<br />1872-1935<br />Sufragistas em campanha<br />
  91. 91. Tatuagens complicadas do meu peito:<br />Troféus, emblemas, dois leões alados…<br />Mais, entre corações engrinaldados,<br />Um enorme, soberbo, amor-perfeito…<br />E o meu brasão… Tem de oiro, num quartel <br />Vermelho, um lis; tem no outro uma donzela,<br />Em campo azul, de prata o corpo, aquela<br />Que é no meu braço como que um broquel.<br />Timbre: rompante, a megalomania<br />Divisa: um ai - que insiste noite e dia<br />Lembrando ruínas, sepulturas rasas…<br />Entre castelos serpes batalhantes,<br />E águias de negro, desfraldando as asas,<br />Que realça de oiro um colar de besantes!<br />Camilo Pessanha<br />1867-1926<br />
  92. 92. A lei da greve<br />A 2 de Novembro de 1910 foi legalizado o <br />direito à greve e ao lock-out. Mas com o <br />Decreto de 6 de Dezembro regulamentava-se<br />severamente esse direito. Instituía-se <br />a proibição dos piquetes e a exigência <br />de pré-aviso com uma semana de <br />antecedência. Nos meios operários <br />a directiva ficou conhecida como "Decreto-Burla“.<br />Mas os trabalhadores ainda hão-de mostrar-se mais<br />sensibilizados com tão grandes beneméritos quando mais<br />tarde, em sinal de reconhecimento, concederem a <br />Afonso Costa o título honorífico de Racha-Sindicalistas.<br />“Voluntários da República”<br />contra as greves<br />O interesse exclusivo que os republicanos demonstravam pela questão política, em<br />detrimento das questões económicas e morais, já tinha levado Antero de Quental a advertir<br />que os trabalhadores tanto podiam ser explorados na Monarquia como na República. Como<br />era evidente, não se tinha enganado. <br />Ocupação militar da estação do Rossio<br />durante a greve dos ferroviários, Janeiro<br />de 1911. A actuação da GNR sobre piquetes <br />e manifestantes era normalmente violenta.<br />
  93. 93. O ensino primário<br />Pelo decreto de 29 de Março de 1911 <br />reorganizava-se o ensino primário, criando-se o <br />ensino oficial infantil, novo nível de ensino que de<br />facto não é posto em prática.<br />Desde 1835, no entanto, que em Portugal o ensino <br />primário do Estado era gratuito, universal e obrigatório. <br />De facto, com a proibição do ensino religioso nas escolas, o que <br />se fazia era atentar à liberdade de ensino, e, com isso, coarctar a livre busca de <br />conhecimentos e a satisfação da curiosidade intelectual. <br />Mas o alcance era ainda maior. Pretendia moldar as crianças. A ideia era de que se se lhes <br />não falasse de religião elas, mais tarde, quando adultas, não iriam experimentar interesses <br />ou sentir inclinações religiosas. Nas palavras do Governo o intuito do ensino devia ser criar <br />o “homem novo”, o bom republicano.<br />Na célebre entrevista à BBC de Londres, Russell mostra de que maneira um governo <br />totalitário pode alcançar a aquiescência da sociedade: “Em primeiro lugar podiam, a partir <br />das escolas infantis e por aí fora, alcançar um poder enorme sobre as opiniões e a maneira <br />de pensar do povo em geral, de maneira que cada indivíduo pense, espere e tema o que<br />fosse determinado pelas autoridades educativas. Terá as esperanças e temores que essas<br />autoridades desejarem, e fará parte obrigatória do panorama de ensino o pensarem bem<br />do respectivo Governo, o que nem sempre é aceitável” (Bertrand Russell, Bertrand Russell <br />speakshis mind,1959)<br />
  94. 94. A questão religiosa<br />As medidas de carácter religioso tiveram um impacto assinalável no <br />pós-5 de Outubro, sobretudo a lei da separação entre o Estado e a <br />Igreja. De facto, neste particular, tratou-se mais de integração da <br />Igreja no Estado do que uma separação. <br />As igrejas passam a pertencer ao Estado, o culto no seu interior <br />admitido, mas manifestações exteriores apenas são permitidas<br />mediante prévia autorização e nos locais onde fossem “um costume <br />inveterado da generalidade dos cidadãos”. A proibição do ensino religioso, <br />das congregações e os abusos, perseguições, expulsões e assassínios de religiosos, que no <br />séc. XIX observadores estrangeiros tinham considerado serem os mais liberais da Europa, <br />criaram um clima de grande violência, gratuita em parte, mas também como consequência <br />necessária dos princípios ideológicos que enformavam esses republicanos. As leis da família<br />que se seguiram, divórcio, etc. praticamente apenas contemplaram os que já se encontravam nessa situação. Mesmo assim houve entre os republicanos quem tivesse achado excessivo o<br />anticlericalismo que atingia tão fundamente a estrutura basilar da sociedade portuguesa. <br />Há no republicanismo desse tempo uma deficiência filosófica fundamental na maneira<br />de pensar e ver o mundo – a Weltanschauung, que lhes advém da sua natureza de políticos <br />interessados na acção, no imediato, e não na reflexão, na compreensão do universo, mas também da ideologia dominante nas suas hostes, a filosofia positivista, da qual, ou dos seus traços gerais, retiraram o estritamente necessário para formar as suas ideias e opiniões.<br />
  95. 95. A questão religiosa<br />Antero escreve: “O positivismo, como quase todas as coisas banais, e particularmente<br />as banalidades francesas, parece claro, simples e capaz de explicar tudo; não pede além<br />disso esforço algum à inteligência para ser compreendido: é finalmente cómodo, como<br />todos os dogmatismos: estes defeitos são a causa do momentâneo favor que encontra<br />em espíritos por um lado frouxos e sem a menor preparação filosófica, por outro lado<br />impacientes de quebrarem o jugo de doutrinas puramente convencionais”. (Carta a<br />Domingos Tarroso, 3 de Junho de 1881)<br />A atitude filosófica perante o fenómeno religioso é muito bem <br />colocada pelo republicano Anatole France: <br />“É faltar ao sentimento de harmonia tratar sem piedade aquilo <br />que é piedoso. Eu dedico às coisas santas um respeito sincero. <br />Sei que não há certezas fora da ciência. Mas considero pensamento <br />pouco científico o de supor que a ciência possa jamais substituir <br />a religião. Enquanto o homem se amamentar do leite da mulher ele <br />terá de ser consagrado num templo e iniciado num divino mistério”.<br />Anatole France<br />1844-1924<br />
  96. 96. A questão religiosa<br />Em artigo publicado na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, <br />Eça comenta a ordem de expulsão dos jesuítas do ensino emitida <br />pelo ministro da instrução do governo francês Jules Ferry:<br />“É pueril; os republicanos que hoje governam (a França), riam<br />quando o Império imaginava extinguir o socialismo dispersando<br />a Internacional; e recaem no mesmo erro pensando aniquilar o<br />clericalismo fechando três conventos de jesuítas! […] <br />E depois, para quem ama realmente a liberdade, é repugnante estar lendo todos os dias <br />nos jornais que já os jesuítas e as outras congregações ameaçadas começam a encaixotar <br />os seus livros, a enfardelar tristemente os seus trapos, a despregar um ou outro painel da<br />sua cela, porque se aproxima o dia 29, em que dois gendarmes de espadão à cinta virão<br />arrancá-los aos conventos que são seus, edificados pela sua diligência, pagos com o seu<br />metal e tantos anos habitados pela sua devoção.<br />Há nisto um sabor desagradável à revogação do Edicto de Nantes, à expulsão dos judeus,<br />a missionários apupados pela população chinesa.”(Eça de Queirós, 1880)<br />
  97. 97. A questão espanhola<br />“Além disso (é de urgente patriotismo falar com franqueza),<br />a república entre nós não é uma questão de política interna,<br />mas de política externa. Um movimento insurreccional em<br />Lisboa, triunfante ou semitriunfante, teria no dia seguinte<br />um exército de intervenção marchando sobre nós da fronteira<br />monárquica da Espanha. E se a Espanha […] se convertesse<br />numa república conservadora – um movimento paralelo em <br />Portugal, apoiado por ela e coroado de êxito, seria o fim da <br />nossa autonomia, da nossa civilização própria, da nossa <br />nacionalidade, da nossa história, da nossa língua, de tudo aquilo <br />que nos é tão caro como a própria vida, e por que temos, durante <br />séculos, derramado sangue e tesouros”.<br />Eça de Queirós, Novos Factores da Política Portuguesa, Revista de Portugal, Abril 1890<br />No Outono de 1911, Afonso XIII de Espanha desloca-se a Londres para conferenciar<br />com o governo inglês. “Veio pedir ao Governo Inglês que não se opusesse à sua entrada<br />em Portugal, porque não lhe convinha a vizinhança de uma República anárquica”. <br />(Confidência de D. Manuel ao seu secretário particular)<br />“O meu grande medo é que a Inglaterra farta de tão belo aliado se entenda com a Espanha:<br />todo o meu trabalho agora é impedir tal entendimento” (D. Manuel, 1915)<br />
  98. 98. As finanças<br />Em 1913, Afonso Costa, mediante cortes na<br />administração e a protelação da aquisição de<br />navios, prometidos à Marinha de Guerra, consegue um <br />orçamento excedentário, o que constituía uma novidade <br />governativa. Mas a situação de grande instabilidade <br />política e social criada no país anularia os impactos positivos <br />que esse resultado pudesse ter.<br />“Mas a política interna vai então exercer alguma influência e, senão causar, actuar<br />ao menos na baixa posterior do nosso câmbio. Esta é já importante em 1912,<br />agrava-se ainda em 1913 […] e assim até às vésperas da guerra, a nova e grande<br />causa da profunda depressão hoje encontrada. Podem considerar-se de agitação<br />política permanente os anos referidos. Revoluções fracassadas e violentas repressões,<br />aliadas a campanhas apaixonadas, contraditórias, no interior e no exterior, tiveram<br />efeitos desastrosos que se reflectiam nos câmbios. […] factos adversos, por entre os<br />quais se perdeu, insensível e ineficaz, o equilíbrio orçamental apresentado em 1913”.<br />(Oliveira Salazar, O Ágio do Ouro, Dissertação de concurso para assistente da Faculdade<br />de Direito da Universidade de Coimbra (II grupo – Ciências Económicas), 1916)<br />
  99. 99. A 27 de Setembro de 1915, morre <br />em Lisboa, vítima de doença,<br />José Duarte Ramalho Ortigão.<br />Duas grandes amizades se forjaram<br />no seio desse grupo ímpar de homens<br />superiores que constituiu a Geração<br />de 70:<br />Ramalho Ortigão e Eça de Queirós, <br />Antero de Quental e Oliveira Martins.<br />“carvões que mutuamente<br />se aquecem e que produziram uma luz<br />que alumiou o final do século”(A. J. Saraiva, <br />A Tertúlia Ocidental, 1996)<br />Ramalho Ortigão<br />1836-1915<br />“Pesa sobre vós uma responsabilidade tremenda. No estado em que se acha a sociedade portuguesa, a família é um duplo refúgio – do coração e do espírito. A família é dos pouquíssimos meios pelos quais ainda é lícito em Portugal a um homem honrado influir para o bem no destino do seu século. Querido leitor! O modo mais eficaz de seres útil à tua pátria é educares o teu filho. Consagra-te a ele” (Ramalho Ortigão, As Farpas, 1871).<br />
  100. 100. Nazismo avant la lettre<br />Alemanha – anos 30<br />Portugal – c. 1910<br />
  101. 101. Nazismo avant la lettre<br />Alemanha – anos 30<br />Portugal – c. 1910<br />
  102. 102. Nazismo avant la lettre<br />Alemanha – anos 30<br />Portugal – c. 1910<br />
  103. 103. Nazismo avant la lettre<br />Alemanha - 1940<br />Portugal – c. 1910<br />O Governo Nazi propõe à França o<br />envio dos judeus da Polónia e do<br />Reich para a ilha africana de Madagáscar.<br />É a solução final para o problema judeu, <br />antes de se decidirem a exterminá-los.<br />Miguel Bombarda, director do<br />manicómio de Rilhafoles, propõe<br />o envio dos jesuítas para uma <br />ilha deserta ou o seu internamento<br />em hospitais psiquiátricos.<br />
  104. 104. Uma nação atufada em lama e asneira (Antero de Quental)<br />“O povo parece desvairar. É o povo português que insulta <br />os presos políticos?<br />«Vejam-se os chascos, os escarros, os pontapés e as chuçadas<br />que têm chovido sobre os presos políticos, que nem a turbamulta <br />nem os depositários dos poderes da Nação sabem se são <br />criminosos ou inocentes!» (d'O Porto, 19 de Out.). <br />Ou são os bandos que correm de noite as ruas de Lisboa dando <br />vivas e morras: – Abaixo o bloco! – Viva o dr. Afonso Costa! Viva a anarquia! Morra o António José de Almeida!<br />Já o quiseram matar. Ontem (20 de Out.), a multidão assaltou-o no Rossio, aos gritos de mata! mata! Um homem de face patibular dizia a meu lado: – Dá-se-lhe um tiro na cabeça. – E o dr. Augusto Barreto exclamava: – E para isto trabalhei eu vinte anos! – No meio dum grupo de amigos, a fazer parede, ele só dizia: – Que ingratidão! que ingratidão!...” (Raúl Brandão, Outubro de 1911, in Memórias)<br />Raúl Brandão<br />(1867-1930)<br />
  105. 105. Uma nação atufada em lama e asneira (Antero de Quental)<br />COIMBRA, 18. – É do teor seguinte o papelucho afixado ontem de noite nas esquinas e portas de conhecidos talassas, que a polícia apreendeu, como o Mundo noticiou:<br />Prevenção<br />Agora que a Pátria está sendo invadida por inimigos, previnem-se todos os indivíduos que por conta própria ou por conta de outrem tramem contra a vida de cidadãos republicanos, que, averiguada que seja a culpabilidade, ainda que somente por provas morais, serão justiçados onde quer que se encontrem. – Coimbra, 16 de Outubro de 1911.<br />Os diferentes grupos de republicanos parecem a ponto de vir às mãos. Anteontem <br />(27 de Out.), os amigos do António José (de Almeida) reuniram-se, <br />à noite, na Redacção do República, todos armados <br />de brownings e smiths, na iminência dum ataque. <br />São os fanáticos? É o povo? O País não é. <br />(Raúl Brandão, Outubro de 1911, in Memórias)<br />António José de Almeida defende-se de revólver<br />em punho às invectivas de morra! morra! que lhe<br />dirigem partidários de Afonso Costa. Ilustração<br />Portuguesa, 1911<br />
  106. 106. Uma nação atufada em lama e asneira (Antero de Quental)<br />“Estamos chegados ao “fim do fim”! A última esperança foi-se <br />e só vejo diante de nós um p�

×