O que é religião, agora?!                                                                                   Gilbraz Aragão...
ótica sobre o fato religioso, de uma leitura que enxergue a religiosidade entre e paraalém das religiões. Não se trata som...
partilho estas reminiscências. Eu era escoteiro e gostava tanto de acampar quanto derezar. Tanto que ia à igreja quase tod...
Mas custa, um tamanho exorcismo. No meu caso, o trauma do começo abruptofoi tal, que eu acabei especialista no assunto, po...
convicto de que “há mais poder no rosto belo de uma menina do que em todos osícones do universo”. Mas foi naquela noite qu...
é uma imaginativa e sentimental antecipação do real (ainda) inexistente. Religião podeser antídoto pra loucura de existir:...
como macho no céu (em consonância com a “descoberta” do papel masculino natransmissão da vida), ou então surgem hierogamia...
corpos dos mortos para um julgamento junto dos vivos (agora, eternamente) em vistade um Banquete Eterno em Jerusalém, uma ...
ficção. No entanto, esse apego ao real pode ser o começo de uma nova espiritualidade,que ainda estamos por circunscrever. ...
espiritualidade transreligiosa, conjugada com o debate científico transdisciplinar – ouentão de um confronto mundial sem p...
humanidade - com todos os seus “textos” sagrados! Quanto trabalho! Eu me sintoconvocado para esse mutirão de reflexão sobr...
LAMBERT, Y. O nascimento das religiões. São Paulo: Loyola, 2011.NICOLESCU, B. Nous, la particule et le monde. Monaco: Roch...
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O que e religiao, agora. texto de gilbraz pro congresso religiao e cultura da puc minas

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O que e religiao, agora. texto de gilbraz pro congresso religiao e cultura da puc minas

  1. 1. O que é religião, agora?! Gilbraz Aragão1 “Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar” (Clarice Lispector). 1. Iniciação a um outro olhar sobre a religião Uma das questões mais discutidas hoje em nossa área de estudos e pelasociedade brasileira em geral é sobre como fazer o Ensino Religioso escolar. Mas religiãonão se ensina na escola: ou você pega no ar que nem sarampo, ou você inicia-se em umano ambiente ritual da sua igreja. Na escola, devia-se ajudar a meninada a refletir sobreas religiões e a espiritualidade! Porém muitas aulas de religião têm sido oferecidas por aíafora muito mais como testemunho das crenças de quem ensina do que como olharreflexivo sobre uma experiência variada e multifacetada de conhecimento. Carecemosde uma legislação mais ajuizada sobre essa pedagogia, mas, sobretudo, de uma nova 1 Teólogo, coordenador do Mestrado em Ciências da Religião da Universidade Católicade Pernambuco. E-mail: gilbraz@unicap.br
  2. 2. ótica sobre o fato religioso, de uma leitura que enxergue a religiosidade entre e paraalém das religiões. Não se trata somente de fazer coro ao fenômeno crescente dos“sem-religião”: 6,7% no Brasil, segundo o recente Mapa das Religiões da FundaçãoGetúlio Vargas, sendo que esse índice sobe para 17,4% entre as pessoas pós-graduadas.Acredito que a temática pós-religional toca muito mais amplamente numa novasensibilidade cultural, que faz tempo está presente e agora é muito necessária tambémem terras afrolatíndias. Como, então, a gente pode ver reflexivamente a própria fé, entre outrastradições humanas? Como a gente pode perceber que os deuses são humanos e, ohumano, divino? Compartilho uma tragédia, para começar. Nasci numa pequena cidadede cafeicultores nas serras do Agreste pernambucano, chamada Taquaritinga – doNorte, para não ser confundida com a homônima de São Paulo, que também buscou notupi a nomeação do seu acidente geográfico principal: “ita-coara-eté-tinga”, buraco depedra grande e branco, ou caverna simplesmente. Todo ano, por ocasião da festa do padroeiro dessa minha cidade natal, umgrupo de meia centena de conterrâneos caminha do Recife até lá: o caminhante develevar apenas uma mochila com roupas, água, um cajado, uma bandeirola branca e muitafé para enfrentar 170 quilômetros, em seis dias de caminhada... Todos buscamespiritualidade, superação de si e transcendência nesse Caminho de Santo Amaro, mas amaioria do pessoal não vai por conta da crença ou devoção ao santo! Algo estámudando em nossa religiosidade e o que a gente conhece por religião também muda aolongo da vida – e da história humana. Contudo, folgo em poder voltar a essa “caverna”(onírica) da infância e juventude, quando quero avaliar os rumos que minha existênciatomou. É um movimento natural: vou subindo a serra e o peso quente de minharealidade vai-se confrontando com os ventos frios da montanha, com os desejos levesque me vêm da paisagem da aurora de minha vida. O que eu fiz com aquilo que fizeramde mim? No que se transformaram as minhas primeiras e mais marcantes experiênciasde gente? O que eu deixei fazerem dos meus sonhos? E de (o) meu Deus?! Uma lembrança leva-me a considerar que, ao menos em um aspecto, minha lidana vida desenvolveu-se em coerência com as descobertas que comecei a fazer emTaquaritinga – e que agora, neste ambiente acadêmico em que me encontro, vourecuperando das névoas do passado: para que possa talvez ajudar a quem porventuratenha medo de refletir sobre o sagrado. Compreendo quem teme buscar as razões dasua fé, mas acho que, mormente neste tempo em que os nomes dos deuses sãoinvocados para se justificarem até guerras, vale o esforço de ilustração. E por isso
  3. 3. partilho estas reminiscências. Eu era escoteiro e gostava tanto de acampar quanto derezar. Tanto que ia à igreja quase todas as noites, na minha meninice. Mas numa delas, era inverno, o retumbar dos trovões desafiava a ascese demenino e mesmo assim eu fui à missa, ajudar o padre Aragão – de saudosa memória. Aigreja destacava-se de tudo na cidade, pelo plano mais alto que o da praça e pelaimponência da construção (embora hoje, cosmopolita, Taquaritinga tenha mais de seistemplos protestantes a rivalizarem a cardinalidade do prédio católico e a função denomificar a vida das não mais de seis mil almas). Eu sabia que o meu avô haviaparticipado dos mutirões para construir aquilo, mas o latim das novenas e o seu incenso,a solenidade das liturgias que ali marcavam do nascimento à morte de todo mundo, oponto cultural de encontro que a igreja representava nos domingos e festas, faziam-meesquecer que aquela era uma “construção” humana. Entrar no silêncio acolhedor de uma igreja é deveras, inconscientemente, podervoltar ao útero social da nossa existência. Religião, dizia Kierkegaard, é “paixão infinita”,uma experiência simbólica (seja extraordinária, seja pedagogicamente) própria docoração humano, uma comoção com um poder-a-mais no qual se aposta para fazerfrente às mortes tantas que limitam a nossa humanidade. É uma fineza de espírito quenos dilata o imo e arrebata a mente e permite ver além das coisas sensíveis e ser capazde construir – apesar de – o bom e o belo; sentir-se confiantemente ligado a tudo e atodos. Até aquela noite! Pois foi nela que, sozinho antes da missa, enquanto arrumavaas alfaias junto do altar-mor, o aguaceiro prorrompeu igreja adentro por uma goteiragrande – e até tive medo de o teto inteiro vir abaixo. Num lapso de minutos,abandonou-me toda a segurança infantil nesse recinto sagrado e eu tive que começar aamadurecer na fé. Pois, como num relâmpago, descobri que o sacrário que estava ali hátempos (a paróquia é de 1801) podia agora enferrujar e as hóstias se estragariam, queaqueles símbolos da minha salvação eterna e comunhão mística precisavam então queeu os salvasse com providências tão comezinhas... E saí correndo em busca de ajuda. Não é fácil, com efeito, tornar-se conscienteda sua fé – e tentar ser conseqüente para com tal descoberta. Principalmente porqueisso implica assumir, para superar sempre de novo, o contraponto da fé: que não é bemo ateísmo – de vez que ninguém nunca é ateu de tudo – mas sim a idolatria. Todomundo se humaniza quando desvenda os ídolos (por mais “religiosos” que sejam) e oschama pelo nome – vislumbrando assim, mais adiante, o “inominável” (Deus, que,afinal, mesmo em Jesus, tem um sobrenome que o projeta para além do tempo-espaço).
  4. 4. Mas custa, um tamanho exorcismo. No meu caso, o trauma do começo abruptofoi tal, que eu acabei especialista no assunto, por necessidade. E logo descobri que, se areligião, como a paixão, é em última instância uma entrega emocional inebriada; umapenúltima palavra, contudo, ao menos, precisa ser dada pela razão: para que o corpotodo não venha a padecer, os nossos amores – e/ou deuses(as) – e coisas associadas nãovenham a, como no meu caso, literalmente, “darem n’água”. E fiquei mesmo marcado por aquela goteira, a ponto de que o principal trabalhoda minha vida tem sido até hoje decorrência dela ou ao menos tem inspiração naqueleevento: buscar entender o núcleo dos nossos valores e sentidos, libertar o conjuntoético-mítico da nossa cultura nordestino-tupiniquim, para que a gente possa saber comose fez e assim, se for o caso, poder fazer de novo. Ser teólogo – o que eu tento – é cuidardisto: refazer a experiência mítica, litúrgica e moral do cristianismo entre nós, comimagens mais próximas do divino, com uma santidade mais humana de Nosso Senhor.Com santos, mais para Conselheiro do que pra Frei Damião, que não coloquem adependência de milagres “sobrenaturais” em nossas promessas desumanas, mas nosajudem a transformar a vida em um milagre “mais-que-natural”, pelo amor – que é(mais do que) humano. Pois foi isso, em germe, que aconteceu naquela noite fatídica. Passei horas a pensar de onde veio a bíblia – que ali na igreja, a despeito da suaaura de consagração, corria fragilmente agora perigo de uma outra calamidadequalquer. Era um livro, foi composto por gente (inspirada, evidentemente), que poderiater feito outro, diferente – como sói fazer alhures (com outras revelações). E quem teriainventado aquela arquitetura sacra que doravante me parecia tão despojada e“lavadamente” humana? E os sermões moralistas das beatas, por que eu osnecessitava? E por que íamos tão alegres, serelepes, para a missa e ela eraincongruentemente chamada de “sacrifício”? E por que o mundo, que eu vislumbrava alvissareiro na televisão, ainda preto-e-branco, que chegou lá em casa, era rezado aí como um “vale de lágrimas” a sertransposto com suspeição? E por que tinha de me ajoelhar quando se registrava apresença d’Aquele que tanto queria – “deixai vir a mim” – abraçar-me junto com asoutras crianças e nos dar cheiros bem gostosos?! Confesso que, daquela noite emdiante, até me ajoelho na hora do perdão, mas pela elevação nunca mais me ajoelheinuma igreja... Eu era um quase adolescente e havia acabado de ler nos livros dos meus primosque “há mais moral em um lago da montanha do que em todas as catedrais do mundo”– muito embora, com aquela idade, já estivesse, por mim mesmo, secretamente
  5. 5. convicto de que “há mais poder no rosto belo de uma menina do que em todos osícones do universo”. Mas foi naquela noite que a danada da goteira levou de enxurradaa ingenuidade da minha fé: o meu dossel de verdades universais e certezas seguras seesvaiu e isso me obrigou a estudar a religião e a contextualizar os seus mandamentos –mas também me emancipou para a busca de vivências religiosas mais amplas que as dosmeus pais, para o encontro de espaços religiosos mais requintados (e docemente maissimples) do que os da igreja de Taquaritinga. Esse caminho lá para onde os nossos deuses todos são forjados (e/ou paradescobrirmos como somos criados pelo divino) é perigoso e tortuoso, como a iniciaçãode todo moleque. Mas é o portal da maturidade, para reencontrarmos a fé de modomais humano e amoroso – ainda que precário, como é todo amor humano. Para nosdeixarmos levar pelo Sopro da Vida: ele permite perceber que, dentro de toda relaçãoamorosa, fala-nos processualmente uma palavra – Revelação! – interpeladora, que fazdiferença na vida (de forma que a Palavra de Deus não está presente só nos “livrossagrados”, nem somente na literatura cristã). Para reconstruirmos, enfim, os cristãos, omovimento de Jesus, desde as montanhas da nossa infância: agora com paredes decarne, pois é nessa matéria que o Espírito de Cristo gosta de ficar – mesmo com apossibilidade de mais “goteiras” ainda. 2. Sobre o que há em comum na experiência religiosa e o que tem de diferentenas diversas formas de religião Afinal, o que é mesmo a religião, enquanto experiência, entre e para além dassuas múltiplas formas? A experiência religiosa é sempre uma busca humana, frente àmorte, às limitações e ao caos que nos rondam. É busca e projeção de transcendênciaque, quem alcança, interpreta como uma manifestação poderosa e mais-que-humanade sentido, de uma outra realidade, supra empírica e quase indizível, que se tentacomunicar por símbolos, narrativas mitológicas, rituais litúrgicos, com consequênciaséticas e interditos morais. É um protesto contra o sem-sentido ameaçador do real, doque está-aí, afirmando a existência de uma pátria da identidade, um reino defraternidade e paz, que contradiz a evidência de uma sociedade caótica, alienada, semirmãos e em guerra. A religião é paixão, é amor pelo ideal em confronto com a realidade, é forçaestruturante e significativa dos dados e fatos, construída pela matriz valorativa daconsciência. A experiência religiosa deve ser razoável, mas está para além da razão, éexercício do desejo humano frente à consciência de pouco poder pra gente ser na vida,
  6. 6. é uma imaginativa e sentimental antecipação do real (ainda) inexistente. Religião podeser antídoto pra loucura de existir: “O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo élouco. O senhor, eu, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente dereligião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara loucura... Muita religião, seumoço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas, bebo água de todo rio...Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue” (Guimarães Rosa, Grandes Sertões). O que é uma religião? É a encenação ritual de um conjunto de mensagenssimbólicas de importância medular para a conservação do estatuto humano do homem.Mas como toda experiência de conhecimento da gente, a mística também pode seperverter em misticismo; a religião, que liberta a visão apenas do que se vê, tambémpode degenerar em alienação e neurose. A questão é como interpretamos as coisas.Dizer que “Jesus Cristo é o Senhor”, então, pode relativizar e questionar os senhoresdeste mundo (o pai, o padre ou pastor, o político, o professor, o patrão, etc), como podetambém sacralizá-los como enviados ou legados de Deus. O símbolo, escrito ouesculpido, liberta ou submete a gente. Posso olhar pra Jesus, por exemplo, e encontrarforça para enfrentar as cruzes injustas, como a sua, ou então achar consolo ("Maissofreu Jesus") pra carregar como ele uma cruz tida como destino divino - porque eu ou ahumanidade ofendemos a deus e precisamos pagar com o nosso suor e sangue! Todareligião tem muito duas coisas: esperança e dinheiro. Não é possível separá-las, massomente escolher como combiná-las: ou se junta dinheiro vendendo falsas esperançasao povo, ou o povo reúne o seu dinheiro em mutirão para ir construindo a esperança! Quando começou a religiosidade? O que anima mesmo a vida da gente?!Começa aqui a busca por re-ligação espiritual, através de sacrifícios e do transe, com osespíritos da natureza. A religiosidade tribal ou “arcaica” geralmente acreditava eacredita que a alma da pessoa e de todos os seres vivos, o seu “sopro de vida”,sobrevive à morte numa espécie de sobrevida imaterial. Ela vai habitar lugares sagrados,”terras-sem-males”, e precisa ser agraciada com oferendas para trazer benefícios esaúde para a comunidade. Há casos até em que o indígena morto é queimado e ascinzas ingeridas pela família e todo ano a tribo faz festa para que os espíritos fiquemcontentes e protejam a aldeia, intervenham com benefícios mágicos, poder e saúde.Desenvolve-se assim, com diversas formas, uma crença na imortalidade da alma. Depois,as mais antigas esculturas conhecidas da pré-história revelam um culto principaldedicado ao espírito criador das origens, uma deusa-mãe, fonte de toda vida, rainha daterra, soberana de todo nascimento. Após a invenção da criação de animais e darevolução agrícola, essa deusa aos poucos é afastada pelo deus supremo, simbolizado
  7. 7. como macho no céu (em consonância com a “descoberta” do papel masculino natransmissão da vida), ou então surgem hierogamias e tríades mitológicas. Mas depois da percepção desse mundo espiritual, ficou a questão: por que osespíritos vêm aqui... E para onde vão, afinal? As mais antigas reflexões sobre essessímbolos e mitos, sobre a relação entre o humano e o divino, são derivadas dasmeditações dos monges brâmanes (certamente influenciados pela descoberta dos ciclosda natureza no Vale do Indo) e relacionadas ao hinduísmo e budismo (e ao espiritismoou “nova era” hoje em dia). Nesse meio, onde os mortos de preferência são cremados,desenvolveu-se a crença na reencarnação ou transmigração das almas entre as pessoase/ou seres vivos, devido a uma lei “natural” de causa e efeito ou “karma”. De modo quea nossa “ânima”, alma ou animação da vida, provém de um espírito universal e para eleretornará, após ter se aperfeiçoado por sucessivas encarnações neste mundo material. Amorte, assim, é apenas uma estação na roda dos renascimentos. No final da “samsara”,da peregrinação pelas existências, encontra-se a libertação, isto é, a união com oAbsoluto. Ou ainda, seguindo outra ênfase, matéria inerte e matéria viva são vistascomo ilusão e o destino espiritual do homem, fugindo do sofrimento terrestreinelutável, se completa com a libertação final do não ser, depois de várias(re)encarnações e através de muita meditação. Já a ressurreição é a crença numa vida além, do judaísmo, cristianismo eislamismo, que são as religiões mais novas e que se tornaram as maiores do mundo,desenvolvidas no Oriente Médio a partir do Êxodo do movimento de Moisés. Elasaprofundaram uma conotação ética da salvação, que já vinha fermentando nozoroastrismo e em outras crenças da Era Axial (de 800 a 200 aC, vários movimentosproféticos surgiram na Índia, China, Irã e Mediterrâneo Oriental). Trata-se de uma févinculada à luta histórica pela terra (com a sedentarização deflagrada pela agricultura) eà experiência de uma “Força dos Céus” que promete a “terra onde corre leite e mel” efaz aliança para justiçar o povo e a pessoa que cumpre a sua lei de amor: no dia de suaIra, Deus virá julgar os vivos e os mortos - que terão a sua “carne” pessoal ressuscitada(por isso o costume do sepultamento). A “outra vida” julgará então para sempre arelação com os outros na sociedade, o engajamento histórico desdobra-se naeternidade. Os judeus foram aos poucos acreditando na ressurreição, como maneira deentender que os seus mártires poderiam esperar, ainda para além desta vida, a justiçadivina: vale a pena arriscar-se na defesa do povo e da sua terra, porque no “fim dostempos”, depois do advento da Idade Messiânica, Deus ressuscitará espiritualmente os
  8. 8. corpos dos mortos para um julgamento junto dos vivos (agora, eternamente) em vistade um Banquete Eterno em Jerusalém, uma vida nova em um novo mundo - “novo céu enova terra” - ou, então, para a condenação a vagar no “monturo que arde fora dacidade”, a Geena - que traduzimos por inferno! Ainda hoje judeus ortodoxos sãoenterrados na direção do nascente, de onde surgirá o Messias esperado para os “últimostempos”. Os cristãos e muçulmanos também acreditam mais ou menos assim, com adiferença de que o islã discute se a ressurreição para o paraíso há de ser corporal ousomente espiritual e o cristianismo nasce pela fé de que Jesus, aquele judeu crucificadoem Jerusalém, já foi o Messias, o governante ungido por Deus para inaugurar o seureinado de justiça e misericórdia, e ele já foi o primeiro a ressuscitar dentre os mortos.Não se trata de um cadáver reanimado, nem da pura sobrevivência de uma alma, masda vida nova de uma pessoa que se relaciona e é reconhecida quando os discípulos,amando segundo os seus ensinamentos, repartem o pão e a vida, como no caminho deEmaús. Essas visões do "outro lado" (a ancestralidade, a reencarnação e o nada, aressurreição), avivadas nas festas religiosas por símbolos da fé no que cada grupohumano considera sagrado no "rio da morte", e por vezes recombinadas segundo acaleidoscópica sensibilidade espiritual contemporânea (veja-se o número de católicosreencarnacionistas!), procuram resolver, cada uma à sua maneira, os problemas dohumano diante dos limites da existência, do bem e do mal na vida. De onde viemos epara onde vamos? As formas religiosas, com suas variações em torno de mitos, ritos einterditos, são passageiras e relativas aos seus contextos culturais, dependem das suaspossibilidades e limites. Mas as questões que elas tentam responder se mantem vivas euniversais, especialmente a preocupação de celebrar e cuidar da vida! O homem religioso antigo organiza e realiza o cosmo a partir de um ponto fixo, ahierofania (o sagrado emerge em meio ao profano e aponta pro divino e permiteconexão com ele), que lhe dá o fecundo poder para fundar a realidade: ele cosmogonizao mundo a partir de pontos de ruptura através dos quais o “mais-que-natural” tenha semanifestado. O ser humano pós-moderno, que vive em um mundo globalizado no qualas correntes religiosas viajam e se entrecruzam, assumiu o relativismo da existência erejeita, quase tanto quanto a pretensão objetivista e tecnicista do conhecimentocientífico, a linguagem metafísica das subjetividades religiosas. Rejeita a princípio omovimento de transcendência, de um toque divino ou uma essência humana,apostando num existir sem pontos fixos. Basta-lhe um conjunto de mapas teóricos paravagar por aí, numa realidade fragmentada e construída, no máximo, com a ajuda da
  9. 9. ficção. No entanto, esse apego ao real pode ser o começo de uma nova espiritualidade,que ainda estamos por circunscrever. Na sociedade pós-moderna a dimensão religiosavem por meio de manifestações culturais que transparecem “algo mais” nesse mundoasséptico e cético. Nossa situação é caracterizada pela sensação do irreal e pela procurade um senso novo de realidade. Portanto, pela procura de uma nova religiosidade. 3. Sobre as novas tendências da espiritualidade Será que a globalização humana e o pluralismo cultural que começamos avivenciar hoje, resultantes dos modernos meios de locomoção, da evolução dascomunicações e das novas formas de energia e produção, estão nos levando a um novotempo axial? Emerge entre estudiosos da religião a hipótese de estarmos entrando emum processo de transformação da figura histórica tradicional das religiões. Ganhamosconsciência de que todos os povos e a terra inteira estamos ligados, de sorte que juntosé que devemos encarar nossa comum missão de salvar a vida. Sendo assim, não dariapara entender que um só povo ou religião ou igreja, um só sexo ou raça ou classe sejama luz do mundo. Os conceitos clássicos das teologias e mesmo de muitas das “ciências”que estudam a religião estão meio caducos. Entramos em um novo ciclo religioso, em que as religiões migram ou circulamrapidamente, são recriadas em miríades de dosséis personalizados e vão se adaptandoaos vitrais das catedrais geoculturais aonde chegam. Ao caírem fronteiras religiosasinstitucionais, uma revolução teocultural se fortalece. A mundialização informacionaldecreta a morte do ciclo mágico-agrícola subjetivista e relativiza a ordem objetivista datecnociência moderna. Esse processo cultural torna obsoleto o sistema dualista depensamento, antagônico e monológico, nascido com a pré-história, e permite osurgimento de um tempo de possível reconciliação, dialógica, da diversidade. Mas essarevolução teocultural agrupa expectativas as mais diferentes, às vezes contraditórias, etal pluralismo e diversidade pode transformar o mundo em um paraíso ou num inferno. A religiosidade que emerge é mais de baixo para cima ou, melhor ainda, nadireção do mistério que se esconde e manifesta “entre e além”. Cada pessoa é hoje maiscapaz de aprender e oferecer realimentação. A religião até então tinha a ver só comcredos e doutrinas, enquanto a religiosidade agora é uma espécie de wiki-teologia,pluralista. A mundialização possibilitada pela internet e pela informática provocamudanças na ordem existencial e cultural de todos nós: estamos às vésperas de uma erade grande pacifismo e cooperação, pela possibilidade do reconhecimento de uma
  10. 10. espiritualidade transreligiosa, conjugada com o debate científico transdisciplinar – ouentão de um confronto mundial sem proporções. A coexistência equitativa em um mesmo espaço geográfico e temporal de umadiversidade de culturas, de tradições e de religiões, é uma verdadeira revolução,enriquecedora, humanizante e única na história humana. Mas pode ser que nem tanto:há indícios de movimentos profundos de busca transreligiosa de espiritualidade, mas,por vezes, o sagrado que aparece mais é de novo selvagem, buscado por adesãoseletiva, com um conteúdo autossistematizado para atender aos interesses emocionaisdo momento ou ainda à busca mágica de prosperidade. Devido à ambiguidade dessavirada axial na história das culturas é que precisamos ousar fazer ciências da religião emesmo teologias, em bases mais adequadas. Pois só com a admissão de novas lógicas eepistemologias o diálogo intercultural e inter-religioso poderá avançar. Em verdade, nem é somente sobre religião que se deve tratar no diálogo inter-religioso – e nem mesmo diretamente sobre Deus –, mas sobre o projeto divino em vistade fazer deste mundo um paraíso amoroso. Somente mudando o “nível da realidade”,passando do teórico-doutrinal para o da práxis ética e/ou do silêncio espiritual, é que odiálogo entre religiões é possível. Somente ultrapassando a própria experiência de Deuse buscando a ética que se esconde no humano – e nos reúne a todos de maneirasagrada – é que uma religião pode dialogar com outra e colaborar com o encontro deculturas. A relatividade que advém dos (des)encontros desse percurso não pode seracusada imediatamente de relativista. Aliás, não parece ser mais possível aceitar-se areligião em sua forma tradicional, que é a da heteronomia, inadmissível desde que amodernidade fundou a liberdade da razão. Mas convém meditá-la novamente em seuconteúdo, enquanto mensagem de amor. Se recorrermos a um pouco mais de observação fenomenológica e deinterpretação hermenêutica, logo perceberemos que uma nova comunidade de alcancemundial está em processo de formação, o que suscita o cultivo do diálogo intercultural einter-religioso em meio à busca por uma vida sustentável para todos; e uma éticamundial, quem sabe, e uma espiritualidade universal – cultivada particularmentesegundo cada tradição de fé ou filosofia. Mais até: a mudança do conceito religioso demissão: ao invés de converter o mundo e implantar a minha Igreja, ajudar nadisponibilização das mensagens de todas as tradições espirituais, para quem delasnecessite em seu processo de formação (e transcendência) humana e humanizante. Háinclusive quem já proponha, sem mais ou menos, como base para a teologia (ou“apologética da experiência universal de transcendência”), toda a história religiosa da
  11. 11. humanidade - com todos os seus “textos” sagrados! Quanto trabalho! Eu me sintoconvocado para esse mutirão de reflexão sobre a religiosidade e as religiões: espero quevocês também! “Num meio-dia de Primavera Tive um sonho como uma fotografia. Vi Jesus Cristo descer à terra. Veio pela encosta de um monte Tornado outra vez menino, A correr e a rolar-se pela erva E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se longe Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. Ele é humano que é natural. Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda a certeza Que ele é o Menino Jesus verdadeiro” (Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro). 4. Referências AEBISCHER-CRETTOL, M. Vers un oecuménisme interreligieux. Paris: Cerf, 2001. ARAGÃO, G. Transdisciplinaridade e diálogo. Revista Religião e Cultura, São Paulo, v. V, n. 10 (jul./dez. 2006), p. 75-110. ARMSTRONG, K. A grande transformação. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. BANON, P. La révolution théoculturelle. Paris: Presses de la Renaissance, 2008. BOWKER, J. (org.). O livro de ouro das religiões. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. BOWKER, J. Para entender as religiões. São Paulo: Ática, 1997. CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999. CORBI, M. Para uma espiritualidade leiga. São Paulo: Paulus, 2010. DUFOUR, D. Os mistérios da trindade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. GAARDER, J. O livro das religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. HERVIEU-LÉGER, D. Catholicisme, la fin dun monde. Paris: Bayard, 2003. HICK, J. Teologia cristã e pluralismo religioso. São Paulo: Attar, 2005. HINNELLS, J. (Edited). The Routledge Companion to the Study of Religion. New York: Routledge, 2010. Second edition. HITCHCOCK, S. História das religiões. São Paulo: Editora Abril, 2005. JASPERS, K. Origen y meta de la historia. Madri: Alianza, 1980. KUNG, H. Religiões do mundo, em busca dos pontos comuns. Campinas: Verus, 2004.
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