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Base aérea de fortaleza

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contos memoriais de albertina

  • Agradeço ao meu amigo Muito Precioso Gerdson Giló. É nas horas mais delicadas da nossa vida que a gente sabe com quem contar. Deus te faça muito feliz, Gerdson.
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  • Este foi o livro que escrevi entre 2000 e 2005. É uma publicação provisória gentilmente feita pelo meu grande amigo e colega de trabalho Gerdson Giló. Ainda está sem a capa, sem minha biografia e sem a ficha catalográfica, mas, pode baixar e imprimir à vontade, pois, este livro está devidamente registrado na Biblioteca Nacional e no Cartório de RTD de Aracati/Ceará. Espero que meus leitores possam desfrutar de um trabalho que foi tão árduo quanto prazeroso. Foi pra vocês, meus amores, que escrevi. Repassem esse link para seus amigos. Beijos, Solange Guimarães.
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Base aérea de fortaleza

  1. 1. BASE AÉREA DE FORTALEZA CONTOS MEMORIAIS DE ALBERTINA SOLANGE GUIMARÃES
  2. 2. AGRADECIMENTOS A Deus, meu Pai Celeste, Criador do Céu e da Terra, Soberano e Fiel. A Ele, o meulouvor e a minha eterna gratidão por tudo em minha vida. Aos meus pais Antônio Carlos e Consuêlo que sempre cuidaram para que nada, jamais,me faltasse. Reconheço que nunca poderei retribuir ao que fizeram (e fazem) por mim. Damesma forma agradeço aos meus irmãos Sandro, Solonilton e Sueli. Que Deus os recompenseem dobro. Todos, em toda a grande Força Aérea Brasileira, tiveram uma participação importantepara a concretização do Projeto Literário “OS CÉUS & OS SEUS” e este primeiro livro.Contudo, se não fosse por estas pessoas, eu não conseguiria sequer ter dado o primeiro passo.Pessoas que a todo instante fizeram-se sempre presentes, prontos a me atender gentilmente emqualquer momento de que eu precisasse: CORONEL VIEIRA CORONEL VOGET TENENTE-CORONEL JORDÃO TENENTE-CORONEL HEROS TENENTE-CORONEL NICOLAU MAJOR BARRETO MAJOR DE OLIVEIRA MAJOR DIÓGENES MAJOR LÍGIA MAJOR SÉRGIO MAJOR SPENGLER TENENTE ANDRÉ TENENTE JOÃO TENENTE LUÍS TENENTE NASCIMENTO TENENTE PEDRA TENENTE PESTANA TENENTE STEVAN TENENTE VENÂNCIO ASPIRANTE RAUNAIMER
  3. 3. ASPIRANTE TAVARES SARGENTO RÔMULO Agradeço, também, aos aviadores civis, pára-quedistas, representantes aeronáuticos e atodos que souberam compreender o verdadeiro sentido da palavra Amizade, que acreditaram emmim, ajudaram-me de alguma forma tirando minhas dúvidas, com entrevistas, ou, tão somente,consolando-me nos momentos difíceis desta luta. Pessoas que não mediram esforços, atenderam-me prontamente em qualquer instante, contribuindo para que esta obra continuasse no seu cursonormal e fizesse algum sentido. Entre os tais, posso citar: PREFEITURA MUNICIPAL DE ARACATI ASSOCIAÇÃO ARTÍSTICO CULTURAL LUA CHEIA GLEIDSON GUIMARÃES – DOMÍNIO DIGITAL (ARACATI) KÁTIA CORREIA – AERO CLUBE DO CEARÁ (FORTALEZA) WALDONYS JOSÉ TORRES DE MENEZES – MÚSICO, AVIADOR E AMIGO JOÃO JOSÉ MENESCAL – ORION AERONÁUTICA RICARDO – ADMINISTRADOR DO AEROPORTO DE ARACATI 04
  4. 4. Às pessoasque, no amplo sentido do verbo, tão somente nasceram para voar. 05
  5. 5. SIGLAS E POSTOS HIERÁRQUICOS DA FORÇA AÉREA BRASILEIRA Para sua melhor compreensão, querido (a) leitor (a), reuni algumas Siglas e os Postos deHierarquia da FAB (níveis de patente em ordem decrescente), constantes neste livro. Assim,quando você se deparar com esses detalhes, já estará informado (a) do que se trata. Não tenho aqui todas as Siglas utilizadas pela Aeronáutica, pois são inúmeras, por issoenfatizo apenas as que constam neste trabalho. Já, com relação aos postos, trago-os todos,constantes ou não no livro. Mas, por que não todas as Siglas e por que sim todos os Postos?Sabemos que as coisas para funcionarem bem, precisam de uma certa ordem, caso contrário,“vira bagunça”... No entanto, para se compreender como é realizado o trabalho da Base Aérea deFortaleza, não é preciso, necessariamente, interpretar todas as siglas da Força Aérea, uma vezque a questão aqui são os lugares da “BAFZ”, por onde a Albertina passou, ou, sobre os quais elasoube da existência: “EC”, “RP”, “5o/1oGCC”, “1o/4oGAv”, enfim, estão relacionadas as Siglasque marcaram a visita dela no local onde se passa a história. Com as patentes militares, a coisamuda de figura, pois, em se tratando de hierarquia é viável compreender que tanto em Fortaleza,quanto em São Paulo, e até aos confins do Brasil, as patentes são invariáveis. Na história, quando se diz que Albertina era amiga de um determinado Major, queescalou um tal Capitão para acompanhá-la por entre os hangares e hangaretes (lugares onderepousam os aviões), é necessário saber o porquê de o Major mandar e o Capitão obedecer, eque, num determinado momento, o Capitão escalou o Tenente para acompanhá-la, pois precisavair à uma reunião no Comando. O mesmo Tenente, se não pudesse ir com a garota, poderiaescalar um Suboficial, que poderia escalar um Sargento, que poderia escalar um Soldado. Estecaso aqui é o de quem manda em quem: o que é um Major e porque ele obedece ao Tenente-Coronel e porque precisam do aval do Coronel para fazerem tudo isso, inclusive a própriaAlbertina, que, mesmo não sendo militar e tendo influência de um militar de alta patente, nãoentraria jamais na Base Aérea de Fortaleza sem a permissão do Comandante. Você, leitor (a)amigo (a), deixaria algum estranho entrar em sua casa sem a sua permissão, ou de uma pessoaautorizada? O objetivo desta lista é facilitar sua leitura, para que a mesma ocorra sem interrupções,além de torná-lo (a) conhecedor (a) do significado das siglas e patentes. Portanto, conheça-as, e que sua leitura seja uma alegre e proveitosa viagem aos “ContosMemoriais de Albertina”, com passagens históricas sobre a Base Aérea de Fortaleza e suas 06
  6. 6. divisões, Esquadrões, Esquadrilhas, eventos como a “Semana da Asa”, e muita, muita paixãopela soberania dos céus brasileiros e dos seus aviadores, controladores de vôo, enfim, de todoaquele que, de alguma forma, conhece o privilégio de fazer parte das Alturas. 07
  7. 7. SIGLAS CONSTANTES EM: BASE AÉREA DE FORTALEZA CONTOS MEMORIAIS DE ALBERTINA1o/4o GAv.: Primeiro Esquadrão do Quarto Grupo de Aviação1o/5o GAv.: Primeiro Esquadrão do Quinto Grupo de Aviação1o/16o GAv.: Primeiro Esquadrão do Décimo Sexto Grupo de Aviação2o/5o GAv.: segundo Esquadrão do Quinto Grupo de Aviação5o/1o GCC: Quinto Esquadrão do Primeiro Grupo de Comunicações e ControleACC: Centro de Controle de ÁreaAPP: Centro de Controle de AproximaçãoATCR: Radar de Controle de Tráfego AéreoBAFZ: Base Aérea de FortalezaBANT: Base Aérea de NatalBIA: Banco de Informações AeronáuticasBINFA: Batalhão de InfantariaCICEA: Comissão de Implantação de Controle do Espaço AéreoCINDACTA: Centro Integrado de Defesa Aérea de Controle de Tráfego AéreoCOMGAP: Comando Geral de ApoioCOMDABRA: Comando da Defesa Aeroespacial BrasileiroDEPV: Diretoria de Eletrônica e Proteção ao VôoDPV: Destacamento de Proteção ao VôoDPV-DT: Destacamento de Proteção ao Vôo – Detecção e TelecomunicaçãoDPV-PV: Destacamento de Proteção ao Vôo de Porto VelhoDTCEA: Detecção e Telecomunicação do Espaço AéreoDTCEA-FZ: Detecção e Telecomunicação do Espaço Aéreo de FortalezaEC: Esquadrão de ComandoFAB: Força Aérea BrasileiraILS: Instrument Landing Sistem – Equipamento de Precisão por InstrumentoLP: Long Porter 08
  8. 8. NDB: Non Direction Beacon – Equipamento para Telecomunicações e Meteorologia, cujafinalidade é prover a segurança e o controle do vôoPAFZ: Prefeitura de Aeronáutica de fortalezaPAR: Radar de Precisão por AproximaçãoRAP: Reunião de Aviação de PatrulhaRAREC: Reunião de Aviação de ReconhecimentoRAT: Reunião de Aviação de TransporteRP: Relações PúblicasSIPAM: Sistema de Proteção da AmazôniaSISDACTA: Sistema de Defesa Aérea e Controle de Tráfego AéreoSIVAM: Sistema de Vigilância da AmazôniaTMA: Terminal de Pouso e Decolagem (área de responsabilidade de um APP).TWR: Torre de ControleVOR: Very Omnidirection Beacon – Equipamento de Auxílio às Aeronaves em Procedimentopor Instrumentos 09
  9. 9. POSTOS HIERÁRQUICOS DA FORÇA AÉREA BRASILEIRA OFICIAIS-GENERAISMARECHAL-DO-AR TENENTE-BRIGADEIRO-DO-ARMAJOR-BRIGADEIRO-DO-AR BRIGADEIRO-DO-AR OFICIAIS SUPERIORESCORONEL TENENTE-CORONELMAJOR OFICIAL INTERMEDIÁRIOCAPITÃO 10
  10. 10. OFICIAIS SUBALTERNOSPRIMEIRO TENENTE SEGUNDO TENENTEASPIRANTE GRADUADOSSUBOFICIAL PRIMEIRO SARGENTOSEGUNDO SARGENTO TERCEIRO SARGENTOCABO TAIFEIRO-MORSOLDADO PRIMEIRA CLASSE TAIFEIRO PRIMEIRA CLASSESOLDADO SEGUNDA CLASSE TAIFEIRO SEGUNDA CLASSE 11
  11. 11. “Vê mais longe a gaivota que voa mais alto.” Richard Bach 12
  12. 12. INÍCIO Seja lá como for, tudo que faz algo começar, é o início! Inicialmente, vou falar um pouco sobre Santos Dumont, o Pai da Aviação. Ele nasceu no ano de 1873 num lugar chamado “Sítio Cabangu”, em Palmira (hoje,Santos Dumont) Estado de Minas Gerais. Dotado de habilidades mecânicas e uma inteligênciaincomum, vivia inventando o que fazer. Em 1891, mudou-se para Paris com a família e dividiaseu tempo entre subir em balões e participar ou organizar corridas de automóveis. Após observar e pesquisar atentamente os balões, Alberto Santos Dumont encomendouum balão diferente a um engenheiro francês conhecido por Lachambre. Este balão possuía umformato esférico, com invólucro de seda japonesa envernizada. As pessoas não acreditavammuito, não... mas, o seu balão de nome “Brasil”, voou no céu parisiense em 4 de julho de 1898, oque fez dele conhecido em toda a cidade. Três anos mais tarde recebeu um prêmio de 100 000francos oferecidos a quem cometesse a proeza de circunavegar a torre Eiffel em um balãodirigível em menos de trinta minutos. Santos Dumont continuou aperfeiçoando seus modelos e, tendo recebido uma carta deJúlio Verne, ficou ainda mais motivado a tentar novas experiências, mas, dessa vez comaeroplanos. Daí que em 23 de outubro de 1906, voou com o seu 14-Bis, que lhe garantiu osprêmios Aeroclube e Archdeacon, além da paternidade da aviação e da glória de ter sido oprimeiro a voar com o “mais pesado que o ar”. Ele era uma pessoa sensível. Muito mais do que um cientista e um inventor, era umhomem, um ser humano que tinha um carinho todo especial por seu invento, o seu aeroplanofeito com rodas de bicicleta, asas de lona e motor de carro... e por isso, as guerras lhe trouxeramuma depressão profunda, que resultou em problemas de saúde e, por fim, o suicídio. A finalidade com a qual ele inventou o avião foi estreitar os relacionamentos entre asnações, diminuir distâncias, facilitar a vida das pessoas. 13
  13. 13. Mas, em agosto de 1914, quando as tropas alemãs invadiram a França, iniciando aPrimeira Guerra Mundial, alguns aviões eram usados para observação de tropas inimigasseguindo-se de combates aéreos. Esses combates iam desde simples trocas de tiros ao uso demetralhadoras e bombas com poder de destruição cada vez maior. Ele morava em Trouville enaquela época estava se dedicando à astronomia. Foi surpreendido por moradores do lugar quedesconheciam o real uso dos aparelhos de observação astronômica e entregaram-no àsautoridades, sob denúncias de ser um espião, um colaboracionista, com a tarefa de transmitir aosinimigos os movimentos dos navios de guerra franceses. Sob essa suspeita, foi preso pelasautoridades locais. O mal entendido foi logo desfeito e o Governo Francês formalizou seu pedido dedesculpas. Seu estado de saúde agravou-se e ele retornou ao Brasil buscando refúgio e repouso. Participou do 11º Congresso Científico Pan-Americano nos Estados Unidos no ano de1915, defendendo o do uso do avião como forma de facilitar as relações entre as Américas. Mas,a indústria militar somente crescia, de maneira assustadora. Os Estados Unidos chegavam aproduzir por dia, cerca de 16 aviões. Já de volta ao Brasil, Santos Dumont sentiu-se amargurado e deprimido, e procurou umlugar tranqüilo para se estabelecer. Refugiou-se em Petrópolis, no Estado do Rio de Janeiro, e láprojetou e construiu uma casa chamada "A Encantada", cheia de inovações e característicaspeculiares, onde permaneceu até 1922, e, incentivado pelos amigos, decidiu visitar a França. Em fevereiro de 1926, fez um apelo à Sociedade das Nações, organização precursora daONU, pedindo a interdição das máquinas aéreas como armas de guerra. Seu apelo certamentenão teve o resultado esperado. Sua tensão nervosa agravou-se, levando-o a recolher-se em um sanatório, na Suíça. Em1927, foi convidado por Charles Lindbergh, para presidir as comemorações pela travessia doAtlântico, mas seu estado de saúde não lhe permitiu atender ao convite. Em 1928, retornou ao Brasil e teve mais um choque: um hidroavião da empresa CondorSyndikat, batizado com o nome Santos Dumont, que iria recepcioná-lo no Rio de Janeiro,levando a bordo pessoas de projeção ligadas aos setores técnico e científico, sofreu um terrívelacidente ao sobrevoar o navio Cap. Arcona. Não houve sobreviventes. Fortemente abatido,Santos Dumont suspendeu o programa de festividades, voltando a Paris poucos dias depois. Em 23 de julho de1932, durante a Revolução, Santos Dumont não resistiu ao ver que seuinvento continuava sendo usado para a guerra. Como que por remorso, suicidou-se, após ver 14
  14. 14. passarem aviões brasileiros com a missão de destruir um navio de combate paulista ancorado emSantos. Este livro faz parte de um Projeto Literário chamado de OS CÉUS E OS SEUS que crieiem homenagem a este homem sensível e à sua linhagem. Esta obra é a primogênita do Projeto. Parece meio contraditório o fato de eu estar tratando de um tipo de aviação quedesagradou tanto a Santos Dumont, para homenageá-lo. Porém, há em toda a parte do Brasil de Santos Dumont, pessoas que tão somente sãoaviadores pelo prazer de voar, de transportar pessoas, de levar socorro aos necessitados, degarantir a soberania do Espaço Aéreo Brasileiro, de defender a Pátria. A História, ninguém pode mudar, e ela faz parte do projeto, para que vejam a evoluçãonão só da tecnologia que está por trás dos novos aviões, mas, até da mentalidade que se formouao longo dos anos. Ainda há aviões que cospem fogo, ainda há, pelo mundo, aviadores que usamesta máquina como uma arma de destruição... mas, os irmãos compatriotas de Alberto SantosDumont que estão ligados à aviação, têm o mesmo coração sensível que ele, e, no máximo, secuspirem fogo, será em defesa da Pátria e da memória deste Brasileiro, cuja glória da aviação éherança nossa. Uma herança compartilhada com outros povos, mas, historicamente, dos filhos doBrasil. Um grande abraço, e, sinceramente, espero que goste do que vai ler. A Autora ESTA É UMA OBRA DE FICÇÃO COM FUNDAMENTO HISTÓRICO. Portanto, se houver possíveis semelhanças com eventualidades e nomes aqui mencionados, terá sido apenas coincidência. 15
  15. 15. BAFZ “VOAR, COMBATER EVENCER! FORÇA AÉREA BRASIL.”
  16. 16. a 1 FASE: “A LA CHASSE!: BORDEL!”“SORBONNE!: DA CAÇA PACAU!”
  17. 17. CONTO I Avião F-80C. Foto: Solange Guimarães ...Meu pai possuía uma Perua verde, quatro portas, do ano! Dentro de alguns dias seriameu aniversário e aquela visão deslumbrante parecia ser o meu presente. Exclamei: – Olha! Um avião de verdade! Bem grande! Enorme!!... Todos no carro olharam imediatamente para o céu, inclusive meus três irmãos,perguntando, impacientes onde ele estava. Mas, por que olhavam para o céu, por quê? Porque coincidentemente ouviram o barulhode um deles a voar, porém, não o viram, por mais que se esforçassem. Repentinamente, por entre as nuvens, vimos aquele imponente pássaro metálicosobrevoando nossas cabeças. Estávamos voltando para casa, numa tarde de Domingo, depois dehavermos passado o dia na casa da titia, num bairro próximo dali. Papai não conseguia vê-lo,apenas ouvi-lo – teria que se espichar, pois estava dirigindo, e minha mãe suspeitou: – Ela viu um avião... deve ser aquele! – apontou. – Não, mãe – rebati – O avião que eu vi ainda está ali... lá atrás. Admiti minha decepção porque ao nos distanciarmos mais um pouco, e olharmos paratrás, num ângulo que permitia um resto de visualização, percebi que ele ainda estava lá,“pregado” em dois arcos que o sustentavam. Ela, para consolar-me numa gentil didática de mãe,explicou: – Aquele que você viu é uma estátua, não sai do chão. Mas, o outro que está no céu é parecido, olha para ele! Aquele sim, voa! Fiquei feliz, apesar de tudo, por ver um avião voando de verdade, aliás, resignada.Naquele instante, havia me deparado com a realidade de que não foi o poder da minhaimaginação, como num passe de mágica, como nas histórias infantis que eu ouvia os adultoscontarem e que eu via nos “programinhas” da TV em preto e branco daquela época distante. 18
  18. 18. O primeiro aeroplano de verdade “bem grande” que passou pelos meus olhos era umaestátua, um monumento em estrutura metálica, sobre um pedestal. Não poderia, jamais, voar. Deuma coisa eu sabia: eles não decolavam de suportes, nem pousavam neles, como pássaros empostes; a menos que minha imaginação criasse um naquele instante. Eu, criança, primeira vez vendo tudo aquilo: aquela fachada bonita com um avião deenfeite... pensei ser ali o aeroporto. Não era. Queria saber como era um aeroporto... soube, então,que Aeroporto e Base Aérea, diferem-se entre si. Todos os que eram mais experientes do que euvinham no caminho, até chegar em casa, falando o que sabiam sobre aviões. A partir daquele dia,desenvolvi em meu âmago uma imensa paixão por esses “bichos”. O primeiro que vi na vida, era de brinquedo e estava nas mãos do meu irmão mais novo,num desfile de sete de setembro. Foi na época da ditadura. Eu era tão novinha, mal entendia,mas, achava aquilo tudo muito belo. A túnica, a calça e o quepe, permaneceram ainda conosco,guardados por algum tempo. Os botões imitavam ouro e aquele detalhe aperfeiçoava a cópia defarda que meu irmão usou apenas uma vez. Depois, não sei que fim lhe deu sumiço. Nelatambém estavam sobrepostos adornos dourados nos punhos, nos ombros e no quepe. De vez emquando, olhava com admiração aquelas fotos e aquela roupa. Tentava visualizar a idéia de umamulher pilotar um avião. “Era trabalho para homens”. Protestava em tom inconformado com omachismo daquela década: “não sei por que só homem tem direito a isso e a aquilo”... Passaram-se alguns anos... Até que em dezembro de um ano feliz da década de noventa, o sol brilhava quente,tentando impedir que a chuva caísse. Céu parcialmente nublado, chuva amenizando o calor daterra queimada pelo sol. Era a natureza disputando o seu espaço, como tudo que é natural e quevive para cumprir sua função. Ao pisar na calçada de meu trabalho, avistei um cidadão moreno, de aspecto camarada,protegido por uma farda azul e pela sua postura, não parecia estar enfiado numa farda militarista;contudo... Pensei cá com meus botões: “xí! Militar! Se não for da Marinha (alguns marinheirosusam azul) é da Aeronáutica! Prefiro nem olhar, nem sequer dar bom dia”. Soube de coisas daditadura que não me agradaram muito, não! Eu havia passado inocente por ela, no entanto, podiasenti-la manifestar-se, naqueles rostos sofridos de depoimentos tristes, relatados sem a menorsutileza pelos meios de comunicação – depois de extinta a censura, lógico!. Passei por ele, que conversava com outro: um cidadão civil. Minha vista foi rápida comoo vento leste. Nem atentei para o seu interlocutor, apenas notei sua presença. Sufocava-me ver uniformes militares. Aliás, qualquer uniforme que fosse... usava o meuuniforme de trabalho, porque, enfim, apesar de não ser obrigatório o seu uso, era bom, deixava- 19
  19. 19. me financeiramente mais aliviada. Uma questão de economia para quem sempre soube o que émanter-se no Brasil com um salário mínimo. Aquela minha repulsa a militares se deu por conta de passagens da Ditadura, e, também,das guerras mundiais que eu ouvia falar, que lia nos livros e que assistia nos filmes. Julguei quetodos os militares eram “frias máquinas de guerra”. Lógico que pensaria assim, uma vez que,minha formação veio desenvolver-se nas primeiras manifestações pela democracia. Nascia eunuma fase de transição política, embalada por gritos de protestos contra o regime militar, que secamuflavam até nas artes. Enquanto dirigia-me ao setor de pessoal, pensava: é possível! O Aeroporto local está emprocesso de inauguração. – “Tomara que também não feche”. – Ousei sussurrar esta frase paramim mesma com um sorriso cínico que só Deus viu. Já não mais digo cínico, sim crítico. Bem...o que é crítico, às vezes é cínico! No dia seguinte, contava no calendário oito de dezembro. Ouvi barulhos de aviõesvoando pelo céu. Eu estudava para uma prova difícil, no momento em que os aviões deslizavam sobre otelhado do meu quarto, e parei por um instante. Voltei a lembrança àquele homem de farda azulna calçada da repartição. Seria esse o motivo de tantos vôos? Eu não sabia responder a estapergunta e desejei buscar a resposta, para não fantasiar em torno do que vi e pensei. Em um belo dia de sol, céu aberto... acordei ao som de um rasante ensurdecedor. Peloprazer de ouvir a voz grave dos motores cantando aos meus ouvidos, convenci-me de que nãodeveria ter tanto pavor assim de todo militar por causa de histórias que eu não vivi. Precisavaconhecê-los e tirar minhas próprias conclusões. Cada vez que eu os ouvia cruzando o céu,minh’alma entrava em sintonia com o silêncio dentro de mim, despertando novas idéias ecertezas, e assim, passei a aguardá-los dia após dia, a fim de meditar nas lições que iam surgindocá dentro, bastando, para isso, tão somente ouvir o barulho dos aviões. Era dia dez de dezembro, abri a janela do quarto e olhei para o céu mais azul do que euhavia visto até então. Nenhuma nuvem, nenhuma barreira para os pilotos ou para mim. Deixei abrisa e a luz solar apontar-me um novo dia e contemplei dois bólides voando alto, já não era maisum rasante. Queria imaginar... poderia ser um vôo de rotina, de treinamento... ou o Aeroportoestava prestes a ser inaugurado. Esperei que a resposta se apresentasse naturalmente, e numaSegunda-feira, dia treze, precisei fazer um trabalho extra na secretaria onde eu trabalhava,embora precisasse gozar minhas férias em paz. Ao sair do banco, passando defronte a uma loja,às quinze para as catorze horas, o meu olhar detectou, tal como um radar de humanos, a presençade alguém com farda camuflada, nas proximidades da Casa Lotérica. Tratava-se de um outro 20
  20. 20. oficial da Aeronáutica, sentado em um batente, dizendo a seguinte frase para um jovem, parado,conversando com ele, assentado na garupa de sua bicicleta meio vermelha, meio enferrujada,descascada: – Você tem que se alistar! Estava escrito, de verde, o seu nome na camiseta em malha de algodão de sua farda:“TEN CLÁUDIO”. Passei direto, sem olhar muito... É que o incomum chama a atenção dosespectadores e aquele momento era inédito para mim. Este relance deu-se em milésimos desegundos e uma das coisas que mais chamou-me à atenção foi a camuflagem – uma diferençabem visível, que até então não havia visto. Diferente da farda do Exército. Deduzi por este breveolhar, que não é preciso fitar por vários segundos uma imagem para percebê-la. Se estiver atento,percebe-se a tudo o que alcança a vista, como se tivesse fitado por segundos. Percebi, inclusive,que o seu cabelo era claro e sua pele levemente bronzeada. Que o rapaz da bicicleta era moreno emagro, também, que as meninas, quando passavam, faziam o possível para atraí-los, e eles nemse davam conta disso, entre tantas coisas mais, que pessoas passavam para lá e para cá, roubandoa cena que meus olhos, entre brechas, captaram. Durante a trajetória, uma amiga abordou-me e ficamos conversando. Pouco depois, aonos despedirmos, avistei uma pick-up da FAB, indo em direção à BR e dentro dela estavam doisaeronautas. Achei curioso. Indaguei-me se eles ficariam aqui de vez para compensar a falta dosoutros órgãos que fecharam... Bem! Nem sempre pensamos o que convém, especialmente se porum motivo ou outro, não compreendemos o que se passa. No dia catorze, telefonei para o Aeroporto local à procura de informações que acabassemde vez com minhas incertezas. Eles estavam aqui em Missão, fazendo um “treinamento”. Apósdesligar o telefone, por volta de meio-dia, recebi uma surpresa, como que um novo presente: semao menos esperar, pela janela da sala, avistei dois Xavantes emparelhados, baixos, muito baixos;certinhos, rasantes, velozes tal qual o pensamento. As sombras deles no chão, pareciam quereralcançá-los. Foi um espetáculo jamais visto por meus olhos curiosos! Lembrei-me daquela visãode menina, do tenente, e daquele outro oficial moreno na calçada do meu trabalho. Aviõesrasgando o céu. Tão baixos, pareciam ter saído do meu quintal! As pestanas endurecidas não setocavam, meus olhos observavam cada movimento, cada diferença entre um e outro. Tudo aquiloera novo para mim. Era a criança do início do capítulo quem estava lá, não a mulher de vinte etantos... Até então, não sabia qual a emoção de ver de perto um avião “dos grandes”. Logo,nunca me foi possível ter nenhum contato visual tão próximo como naquele dia... só noAeroporto da capital, porém a emoção foi diferente... eu via aviõezões, através de uma parede devidro e outros menores, à minha direita, no fundo da direita, mas, não imaginava que eles 21
  21. 21. pudessem fazer tanto barulho! Que fossem fazer vibrar tanto os meus tímpanos e me arrepiassematé à alma! Era a mesma criança do século passado, que estava naquela janela e a mesma que serevestiu de uma adulta apaixonada por aviões que estava no aeroporto da capital, quando aquelesdois camuflados passaram baixinho. Naquele dia, tornou-se mais intenso meu desejo de conhecero aeroporto local, os aeronautas e os aviões. Não nego, tinha um outro propósito: voar. Ver o solde perto, as coisas, as pessoas e os problemas bem mais distantes de mim, bem pequenos, e eu,acima de tudo, maior, passando por cima, vendo tudo acontecer embaixo, na terra, livre pelo céu,vendo-o mais azul... quisera eu ver “o meu querido interior” lá de cima, num passeio panorâmicoentre as nuvens e o ar. Quarta-feira, 15 de dezembro, novamente telefonei para o aeroporto local. Desejava falarcom um amigo que é um dos responsáveis pela sua organização. – Ele está ocupado no momento com um pessoal da Aeronáutica, que veio fazer um treinamento. Quer deixar recado? Respondeu um jovem que atendeu-me ao telefone. Passei por um interrogatório e aconclusão foi esta: – Pode vir! Mas, como não é permitida a entrada de qualquer pessoa, a senhora se identifica, fala no portão tudo isso que disse a mim, e eu aviso aos guardas para lhe deixarem entrar. Apesar de aquela resposta ter sido bastante animadora, pensei no assuntocautelosamente... eu poderia pegar qualquer transporte: fosse um táxi... e... afinal, cadê odinheiro? Do meu salário mínimo, nada me restou. Paguei as contas e... bolsos lisos! Poderia irem carro da Organização... entretanto, por não conhecer ninguém ali, com exceção desse meuamigo, nem mesmo aquele que educadamente me atendeu ao telefone, talvez me sentisseestranha, perdida, deslocada... afinal, nem mesmo este meu amigo poderia me dar muita atenção. Tudo bem! Lancei esta ansiedade nas mãos de Deus, que conhece o tempo certo paratudo. Sem dúvidas, o novo causa temor... Reconheço, mesmo assim, que perigosos ou não, elespareciam muito sedutores por suas características fortes e independentes. Descansei nesse dia, pois, se quem não realiza seus sonhos, frustra-se, quem se precipita,frustra-se muito mais. Por isso, adormeci. Tive de me aquietar e esperar mais uma vez pelaminha boa vontade de ir até onde eu queria. Quinta-feira, dia dezesseis. Manhã do “tudo ou nada”. Dirigi-me à repartição, intentandotomar uma condução de carona ao aeroporto daqui. Uma tentativa frustrada, visto que não haviatransportes disponíveis. 22
  22. 22. Eram nove em ponto e esperei até as onze horas, alguma condução que fosse... As quechegavam, logo saíam, sempre com um destino contrário ao “meu destino”. Mesmo assim, nãodesisti...eu cria que além de aviões e aviadores eu iria ver muita coisa interessante... umaeroporto a nível de cidade pequena, singelo, porém, elegante. Mais que isso! Contava com apossibilidade das muitas amizades que faria por lá. Coincidentemente, encontrei-me com o meu amigo lá onde estava. Vinha em minhadireção e lhe chamei, estando já prestes a desistir. Aproveitei sua presença, para falar sobre oassunto e imediatamente concordou com minha visita. Dispensamos formalidades por sermosvelhos conhecidos, e ele, mal deixando-me terminar de falar, ofereceu-se para ir buscar-me emcasa e trazer-me de volta. Naquele instante, o moreno oficial que dantes conversava com alguémna calçada, aproximava-se de nós, acompanhado de um outro, mais alto, porte físico mais forte,cabelos grisalhos e cara de português. O moreno falou qualquer coisa para o meu amigo e entrounuma das salas da repartição com o grisalho. Pouco depois saíram os dois oficiais e o meu amigoos acompanhou. ... Os dois eram majores. Voltei para casa tranqüila, pensando, sobretudo, nas palavras daquele amigo lá no pátio:“Dia bom para você ter conhecido o aeroporto todo montado, com radar e todos osequipamentos, seria ontem! Por que você não foi ontem?”. Suas palavras abriram-me no peito uma imensa tristeza. Ecoava ainda: “a única coisa quevocê irá ver, será apenas um ou dois aviões, no máximo”. Estas palavras me cortavam comometais afiados... mas, um só que fosse, eu não poderia deixar de conhecer, ou eu deixaria aquelaoportunidade única escapar. “Está bem”, Concordei. À tarde, os aviões retornariam à Base Aéreacom tais equipamentos, os quais, inclusive o radar, já estavam nos caminhões aguardando apartida de volta ao Esquadrão. Uma boa parte do maquinário já retornava para a capital às quinzehoras. Seria um tempo muito curto para mim naquele dia para conhecer a tudo: Era o “último diada missão” deles aqui. Às catorze e trinta, o meu amigo do aeroporto veio buscar-me. Conversávamosanimadamente, e, quando dei por mim já estava lá sob o céu azul, pisando no solo onde os aviõesdeslizam, acariciando aquele chão com meus pés, fazendo todo aquele encantamento percorrer-me o corpo... Vendo aproximar-me daquele único avião que havia permanecido à espera deminha visita, e que já ao longe, o avistava. Enfim, estávamos nós dois, frente a frente, eu e umavião “de verdade”!... trocando olhares! – Pode chegar mais perto. Disse o meu amigo. 23
  23. 23. Estavam o Major moreno e outros oficiais de macacões azuis, entre eles, o maisdescontraído, grisalho, bonito e simpático... o mesmo que acompanhava o moreno na repartição. Quanto ao aeroporto, o que vi saciou toda minha expectativa. Os quatro: o oficial morenoe os outros três aeronautas, estavam do lado esquerdo do avião que ficava de frente para nós. Eraum C-95, carinhosamente chamado de Bandeirante. Enfim, o grande momento da apresentação. Meu amigo apresentou-me primeiro aomoreno carioca da repartição, que apresentou-me aos demais em seguida: – Eu me lembro de você! – Lembra? Estranhei – Sim. – respondeu – Você não estava naquela repartição hoje pela manhã? – Estava. Eu desejava encontrar um transporte para vir conhecer o aeroporto... a propósito, eu também me lembro do senhor! – Major! Ela quer voar. Incentivou o meu amigo. – Este aqui, está de partida – Apontou para o avião –. Vai daqui a meia-hora. Quer uma carona? Fiquei quieta, pensando. O major tentou convencer-me: – Você não quer voar? – Quero! – Não é um sonho seu voar? – É! – Tem medo? – Não! – Então?!... – Não, dessa vez, não. – Tudo bem, não vou insistir para você depois não dizer que eu sou um chato... mas, já entrou num avião, pelo menos? – Não, nunca! – Sério?!... nunca entrou num Bandeirante? – Não. E essa é a primeira vez que vejo um de perto. – Ah! Então entre, por favor, venha conhecer um Bandeirante. Você vai adorar! Subia aos degraus que levavam ao interior do Bandeirante, pisando devagarinho, comoquem pisa em cristal. Foi um momento “mágico” e inesquecível. Pouco a pouco o seu interiorrevelava-se aos meus olhos. Repentinamente, lá estava eu, como havia me prometido a mim 24
  24. 24. mesma, conhecendo aquele “bichinho” por dentro, ganhando intimidade com ele. Da porta, pelocorredor, avistei o painel e seus incontáveis botões que moviam aquele ser grandioso, emboranão tivesse uma estrutura gigantesca! – Vem aqui. – convidou-me o major a sentar nas poltronas da frente. Continuou: – Este é um avião de transporte. Não é um avião de guerra. Ele apenas transporta passageiros, sem falar que revolucionou a Força Aérea Brasileira. É de fabricação brasileira. De excelente qualidade! Muito confortável, fácil de pilotar. Indicado para viagens curtas, de duração até, mais ou menos uma hora e meia! Mas, em uma hora e meia num avião desses, você vai longe! Ah! E como você vê, transporta no máximo dezesseis passageiros. Eu apenas ouvia, ele explicava estampando prazer em seus olhos: – Na hora da decolagem é que você sente ele balançar um pouco. Aqui na frente, até que ele não balança muito, não... lá atrás é que você sente ele balançar mais. Explicou-me cada detalhe daquele avião. Meus ouvidos estavam atentos às palavras quesaíam de sua boca. Eu recebia as instruções atenciosamente. Seu dedo indicador exibiadidaticamente, como numa sala de aula, todas as funções de tudo que eu via. Durante asexplanações enfatizou a importância do piloto automático; o que era e como funcionava: – Para uma emergência, o piloto automático resolve tudo. Ele simplesmente é acionado pelos pilotos humanos, que podem ficar despreocupados, pois, este equipamento faz tudo sozinho... Olhe agora um pouco mais ao centro do painel – continuou ele – está vendo aquela telinha ali? – Estou! – Pois bem: Aqui você vê a quantos metros de distância está do solo, mostra em que ponto você está... enfim, sem isto aqui, os pilotos nem sairiam do chão. – Interessante! Exclamei. – Está vendo aquela lingüetinha colorida, logo abaixo da tela? – Sim, estou vendo! – Aquilo é um cartãozinho magnético, contendo todas as informações que um piloto precisa para a navegação, ou seja, ir de um ponto a outro, sem errar. Bem mais moderno que os americanos, cujo erro é em torno de três metros. O erro deste aqui, é de no máximo, um metro. Incluiu todo o Bandeirante na exposição. Mostrou-me até a maleta de primeiros socorros,como medida de prevenção para eventuais emergências. Parecia estar mostrando a sua casa nova,como os bons vizinhos geralmente fazem. Abriu os armários e apresentou tudo o que havia lá. 25
  25. 25. Depois de toda a explicação, nos vimos a conversar como velhos e eternos amigos, conhecidosde longas datas. Suas atitudes, seu comportamento, me fizeram refletir muito enquantoconversávamos com toda aquela intimidade, mal tendo acabado de nos conhecermos. Antes, no caminho, quando meu amigo do aeroporto referiu-se ao Major, imaginei umhomem com ar completamente autoritário e feições duras como rochas, depois percebi que umtítulo muitas vezes impõe um pensamento, induzindo-nos a olhar as pessoas pelos títulos queelas possuem. Idealizamos as pessoas por intermédio de rótulos, tirando, dessa forma, préviasconclusões delas, sem ao menos conhecê-las... às vezes, tais conclusões são boas, outras vezes,más, e muitas vezes, deparamo-nos depois com o oposto do esperado. Lá no interior do Bandeirante, fui envolvida por uma sensação de estar nas alturas,olhando toda aquela imensidão, observando até onde minha vista alcançava... liberdade, e nemsequer levantou vôo, mas, eu lançava a vista através das transparências das janelas, e buscandoos quatro cantos do mundo pude perceber que talvez seja este o tal fascínio: o céu é bem maiorque a visão restrita que temos dele, numa foto, num desenho, num quadro, entre as frestas dastelhas, ou num espaço qualquer, pequeno, entre a nossa casa e a do vizinho ... ou por trás doscoqueiros. O céu não termina quando começa o mar. É muito mais do que o reflexo que se tenhadele numa piscina, numa poça d’água de chuva molhando a rua... é bem maior do que isso quepodemos ver ao longe... é liberdade, não tem limites. É bem mais bonito, bem mais distante,mais azul e sedutoramente perigoso. Muito mais espaçoso e misterioso!... por isso tão atraente. O Major insistiu em oferecer-me carona para a capital vendo acentuar-se a cada minutoem minha face o desejo de voar. Continuei recusando porque não teria como retornar. Penseitambém nos meus pais que ficariam preocupados e a volta seria difícil. Pensei na faculdade e notrabalho, e em tudo que me frustrava à realização daquele querer que ficou só no querer. “Deixe-me pelo menos levá-la à sua casa, por favor” insistiu o mesmo, valorizando a nossa amizade queacabava de nascer. Não tive como lhe dizer “não” e ele veio comigo na pick-up camuflada,continuando a conversa que se iniciou ali e que parecia interminável: aviões. Pela criança de 1977, quase hesitei em não aceitar o convite para o meu primeiro vôo, noBandeirante. Mas, o adulto é obrigado a negar o doce à criança de vez em quando. Lembro-mede que, no momento da “decisão”, chegaram os outros pilotos de macacões azuis, mansamente,dizendo que me levariam. No entanto, era cedo ainda para realizar este sonho e eu sabia queesperar era o melhor a fazer, pois a espera pelo que se quer, em certos casos, reserva as maioresrecompensas. “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do Céu”.(Eclesiastes. 3,1) 26
  26. 26. CONTO II Avião F-80C. Foto: Solange Guimarães Lá estava ele. Parado, frio... a mesma estátua do ano de 1977 olhando fixamente para omesmo ponto, sobre o mesmo suporte. Era ele mesmo: aquele inesquecível monumento. Ainda hoje o admiro como naquela época. Trata-se de um “F-80 C”, contando suasdécadas de existência, posando para fotos, olhares, cartões postais, revistas, livros e outros meiosde conhecimento, em frente à Base Aérea. Em sua cauda está escrito um alerta: “CUIDADOJATO”. É bom sentir a emoção das lembranças que o F-80 C me traz. Toda a grande cidadecresceu em volta da Base Aérea de Fortaleza, daquela cidade forte, sendo dessa forma, umafortaleza, dentro de outra... Que a Base Aérea de Fortaleza é tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional, isso todossabemos. E que merece e sempre mereceu a visita dos bons olhos, dos admiradores do céu, dosaviões, da inteligência humana, dos heróis do ar, de ALBERTO SANTOS DUMONT, e deedificações militares do início e meados do século XX, também. Igualmente percebemos que suaestrutura é forte e sua arquitetura descreve uma época curiosa, digna de ser explorada, conhecida,sentida. Apalpada. Por isso, no dia 17 de fevereiro, estive pela primeira vez, visitando aquele local para“provocar-me” o privilégio de conhecê-lo por dentro, e rever o meu amigo, depois de muitos diasconversando com ele ao telefone, ouvindo-o comentar as maravilhas daquele ambiente, suahistória, sua arquitetura, suas vantagens... não demorou muito para que eu, persuadida,apontasse por lá. Finalmente, para minha felicidade, ali estava eu, recebendo um sorriso decontentamento, olhar brilhante; um forte aperto de mão e os informais beijinhos no rosto dequem sente admiração pelo outro. Não aqueles beijos de comadres, soltos pelo vento, aos quaisas comadres não se tocam para não contraírem a falsidade uma da outra... 27
  27. 27. Inicialmente, fiquei confusa ao chegar. Senti-me estrangeira, em um país de línguadiferente da minha. Não sabia a quem me dirigir, vendo tantos guardas camuflados e exprimindocuriosidade, olhavam para mim... Segurança rígida... Dois deles cercaram-me e antes quefalassem algo, dei um brilho de dentes para eles e disse que queria falar com o Major do Grupode Comunicações e Controle. Minha mãe, de longe, no carro buzinava e buzinava... o motoristame chamava... nem preciso dizer que aquilo foi uma mixórdia! Está bem! Eu conto: estacionaram na saída, em frente ao F-80, na calçada, e mandaram-me perguntar aos guardas se poderiam dar a volta, e eu, gesticulando a confirmar, a acenardizendo que sim... fazendo sinal, já que havia sido permitido... Não entenderam... estavam muito longe... Os guardas mandaram-me ir ao outro lado do portão, na recepção da entrada e pegar aidentificação. Outros, porém, chamando-me lá do outro lado, com os olhos a me fitarem... pareciamquerer perguntar: “Quem é esta maluca que está aqui?” de repente a minha mãe e o motoristasumiram... fiquei tonta! Eu podia notar uns soldados se virando para que eu não os visse rindodaquela confusão! Já não havia mais jeito! Suspirei e fui. Na cabina da recepção, enquanto o guarda pediaminha identidade, apareceram como que num passe de mágica, ela e ele. Pararam no portão, nãodesceram do carro... ela me falava algo que eu não entendia por causa da distância. Os soldadosorientaram-me a pedi-la que entrasse e assim, tentei fazer... não deu tempo. Ao descer osbatentes da cabina e avistar por trás da parede, ela vinha para me dizer o seguinte: – Tua saia está toda molhada atrás! – Deve ser suor, né, mãe, nesse calor! – Não precisa me engolir! Ela estava “com a razão” e fiquei calada. Aquele show todinho só para dizer que minhasaia estava molhada!... o que pretendia ela com aquilo? Me fazer sentir vergonha e entrar nocarro e desistir de ousar? Aliás, ousadia, era o que as mulheres da época da invenção do avião,não poderiam nem sonhar em fazer... era uma palavra tão proibida no vocabulário do mulherio,quanto a palavra “sexo”. Continuou: – Como é? Você vai ficar aí? – Vou. O Major já mandou o motorista me pegar. Está na recepção me esperando. – Então vai, que eu vou resolver as outras coisas. Se precisar, ligue para o meu celular. – Certo. 28
  28. 28. Peguei minha identificação e os meus apetrechos, e, fui ao “GCC”. Longe, muito longedo portão da Base. O Major que estava à minha espera, levou-me ao seu escritório. As persianas da grandejanela de vidro, mostravam através de suas frestas, uma linda paisagem difícil de definir, porémbem curiosa... Fiquei, em grande parte do tempo, tímida, pescoço rijo, ombros tensos. Para compensar e acalmar minha tensão, estive assentada em uma confortável poltrona,macia... coisa de sala de Major... a primeira das quatro que acompanhavam a sua mesa. Nasoutras três estavam, seqüencialmente, a minha pasta, a minha bolsa e a pasta dele. Contentei-mepor vê-lo de novo, apesar de tê-lo flagrado atendendo a muitos telefonemas. Contudo, emmomento algum, senti-me intrusa, ou frustrada. Nem desejei parecer-lhe íntima demais, apesarde sermos amigos. Pretendia ir à janela, mas, era difícil levantar-me e ficar demonstrandoinquietação. Logo, além de bem acomodada, saboreava uma refrescante e gelada água mineralque ele imediatamente providenciou ao ver-me reclamar de calor. Sua sala era grande e bonita, com um ótimo ar condicionado e um “cheiro agradável àsnarinas”. Um leve odor que percorria todo o ambiente e dava voltas nos movimentos deinspiração e expiração. Tentando descobrir de onde vinha aquele cheiro, descobri que era do meuperfume... que coincidência! Descobri naquela sala, o quanto meu perfume me agradava!... O trabalho dele mostrava-se árduo! Enquanto observava, me punha a pensar... asexpressões do seu rosto e o seu tom de voz cumpriam cada qual o seu papel com maestria. O tomde voz: áspero, vigoroso, comandante! Seu rosto: sereno. Seus muitos telefones tocavam quase todos ao mesmo tempo. Entretanto, o ambiente eracalmo; não o seu trabalho... para cada ligação recebida, cada recado, cada documento quechegava em sua mesa, um raciocínio rápido e diferenciado. Eu parecia ter nascido naquelemomento, nada daquilo ali me era familiar em lugar algum, por isso, minha admiração. Atenta,eu registrava a tudo, em meu silêncio, movimentando os olhos, acompanhando detalhe sobredetalhe... acreditava que ele não percebia minha curiosidade, pois não parava um só instante, ealém do mais, preocupava-se em dar-me atenção. Eu dizia: – Fique à vontade. Trabalhe, eu aguardo. Parece um tom autoritário meu, certo? Mas, não. Eu vi que muitas palavras saídas deminha boca ali, o atrasariam, portanto, tive que ser objetiva. Nas paredes havia muitos quadros: odo Papai Santos Dumont, entre duas figuras ilustres: o Patrono da Aeronáutica Eduardo Gomes,e o primeiro Ministro da Aeronáutica – um civil – Salgado Filho. Estes três à minha direita. Àminha esquerda, adivinha quem estava lá!... O Excelentíssimo Senhor Presidente da República,fitando-me...! Apenas uma faixa verde-amarela em seu peito, aliviou-me algum provável susto. 29
  29. 29. Um pouco mais adiante, mais perto da janela, ainda à minha esquerda e à direita do meuamigo que trabalhava, um belo calendário. Uma magnífica foto que enquadrava um grande aviãoda FAB, e aviadores em seu redor. Sobre a imensa mesa de madeira, havia um computador ao canto, fax, telefones... eraevidente que este ambiente ficaria sem graça se o meu amigo Major não fizesse parte dele. As paredes em tons pastéis davam claridade e tranqüilidade ao cenário, situado no andarde cima daquela edificação. À minha frente, via-se um outro calendário, triangular, do DPV-PV(Destacamento de Proteção ao Vôo de Porto Velho), enquanto ele resolvia suas coisas. Três e meia da tarde. Após uma hora tentando dar-me atenção e resolvendo suas atribuições saiu a mostrar-meo Grupo de Comunicação e Controle. Já era tarde para mim e não tinha mais tanto tempo...deveria, em instantes, seguir para o terminal rodoviário e tomar o ônibus de volta para casa, queficava numa cidade a aproximadamente, 160 Km de lá. Andamos por uma pista enorme; sinalizada, numa pick-up camuflada, a mesma em que oMajor levou-me para casa de carona, no dia em que nos conhecemos e nos tornamos amigos.Mas, desta vez, não era ele quem dirigia, era um determinado Cabo, alto, magro e muito calado.Características físicas que faziam jus ao seu título, tanto na hora de chegar ao portão da Basepara me buscar, quanto na hora de sair do GCC. Na saída, quando já estava quase na hora devoltar para casa, estávamos eu, ele e o Cabo na cabina da frente. Na parte de trás, vinha ummonte de soldados que desceram na Base. Ele, o Major, ainda levou-me para ver os aviões antesdisso, lá, na grande pista de pouso; neste momento, minha mãe ligou para mim. Estava noportão, esperando-me. Eu não sabia como ensinar-lhe o caminho para nos encontrarmos, pois, daBase para o outro lado, havia muitas entradas e eu não gostaria de que ela se perdesse. Mesmotendo passado pelo caminho, era apenas a primeira vez, e não conseguiria ensiná-la bem. OMajor distanciara-se um pouco de mim, para falar com um colega seu no instante em que elaligou. Apenas ele deixou o seu celular comigo, na previsão de que ela ligasse para mim, porquefoi um pedido meu – dei-lhe o número do telefone do Major, para o caso de querer saber notíciasminhas. O meu amigo conversava com seu colega e eu não quis interromper, portanto, perguntei-lhe, aproximando-me, onde estávamos. “Torre de Controle” – respondeu. Tranqüilizei a minhamãe superprotetora, contando todo o roteiro daquela tarde... que faltava vermos os aviõescomerciais e de lá iríamos tentar nos aproximar mais um pouco da pista de pouso. desligamos.Eu não desejava perder a oportunidade de conhecer os aviões... que não pousaram naqueleintervalo de tempo. Por qual motivo seria? Até que um surgiu do nada, desprevenido, e passoubaixinho por nós. Foi o único que pude ver... mas, não pousou. 30
  30. 30. – Fica, então, para a próxima... – disse o Major – venha outro dia, mais cedo, e eu lhe mostro os nossos aviões bem melhor e os aviões comerciais. Certo? É que, geralmente, neste horário, estão todos voando sem previsão de pouso agora. Você sempre os vê, mais cedo ou mais tarde... às vezes coincide de eles pousarem neste horário, mas, é muito difícil... nem os nossos estão aqui. Sinto muito, mas venha outro dia. Tive que concordar. Seu expediente estava encerrando e neste momento entra em cena atal pick-up camuflada, quando falo que estava de viagem para casa, dirigida pelo determinadocabo alto e magro. E quanto à minha mãe, disse que poderia voltar para casa despreocupada,porque ele me levaria à rodoviária, eu tomaria um ônibus e assim, “confiando”, voltou. A pick-up teve que percorrer um caminho asfaltado e cheio de curvas perigosas esinalizações, como em uma rodovia federal ou estadual... a única diferença eram os buracosestaduais e federais, nesta, inexistentes. Na volta para casa, vinha eu pensando, dentro do ônibus, em muitas coisas. Eu era umadas pessoas receosas de que as forças armadas, houvessem perdido o prestígio... o prestígio, osucesso e a organização. Não vou longe: em minha cidade, o que eu via bem de perto, era a“Marinha” e o “Exército”, recolhendo todos os seus acervos e levando-os para bem longe! Nãosei se isso tem algo a ver... mas, minha cidade fica no litoral!!! Pode não ser tão desenvolvidaassim, mas, eu cresci ouvindo que ela é uma cidade histórica! Porém esse assunto pertence aoutro departamento! Fecharam por algum motivo que não se sabe, ao certo, apenas ouvem-se comentários... Eeu passava a refletir na Segurança do Município, ao ver os caminhões indo embora, deixandotoda uma população entristecida, despedindo-se silenciosamente deles... vendo uma página dahistória sendo arrancada e lançada no mar do esquecimento. No mês seguinte, conforme o meu amigo Major me pediu, voltei à Base para conhecer osaviões. Liguei antes para o meu amigo a fim de lhe avisar para não surpreendê-lo e quematendeu foi o Comandante. Após conversarmos muito, por mais ou menos uma meia hora, entreperguntas e respostas, tive seu aval e a promessa de que haveria uma condução à minha espera. Chovia... fazia muito frio. Peguei um táxi e fui para a rodoviária... contra a vontade dosmeus pais que não gostaram da idéia de que eu viajasse para a capital sem eles, mesmo tendoprocurado lhes tranqüilizar de que lá eu não estaria sozinha. Chegaria com os passageiros doônibus que poderiam dar alguma informação, alguma ajuda qualquer. E, descendo do ônibus,certamente haveria alguém me esperando, bastaria ligar para o Comando, que o Coronelmandaria algum “camarada” me buscar de acordo com sua promessa; porém, para nossos pais,isso não é o suficiente. 31
  31. 31. Deveria tomar o transporte de cinco e meia, mas, aqui é Brasil, os atrasos não propositaisaqui são comuns, por isso, o ônibus de cinco e meia, chegou pontualmente... às sete horas. A viagem foi tranqüila e rendosa, pois conheci duas senhoras idosas, bastante joviais econversamos sobre qualquer coisa. Por um momento elas cochilaram e passei então a conversarsilenciosamente com as paisagens. Sob os meus pés, havia uma folha de jornal, pisada poralguém... página arrancada, quase rasgada. Trazia uma interessante notícia sobre o “aumento dosalário”... Solidarizando-me com este alguém desconhecido que desprezou aquela “boa notícia”,após lê-la, fiz a mesma coisa: atirei a folha ao chão do ônibus e pisei, esfregando o solado daminha bota direita na cara da foto do responsável por aquilo; ele dizia: “dá e ainda sobra vinte!” Finalmente, chegamos. Liguei para o Coronel, e, este, mandou apanhar-me no terminalrodoviário, conforme o prometido, provando ser um homem de palavra! Tensa, eu não dava nem um pio sequer, até o motorista me perguntar se eu já tinha ido àBAFZ alguma vez, tendo como resposta um tremido “não”. Ele, com ar de quem saiu daqui dedentro, podia revelar-me a mim mesma, pois sabia o que eu estava sentindo: um medo enorme deestar frente a frente com o Comandante. Tranqüilizou-me: – Você logo, logo, vai se sentir em casa. Eles são pessoas muito boas. Você vai gostar. Em alguns instantes, estaria cara a cara com um Tenente Coronel que até então era ummistério para mim. Eu nunca estive assim, antes, com um oficial militar, ainda mais para dizer-lhe que gostaria de conhecer aquele lugar palmo a palmo, o dia – a – dia, e, para quê eu iriaquerer?... A curiosidade e o tempo de espera aumentavam, pois havia uma reunião interminávelem sua sala. A porta estava entreaberta. O recepcionista estava com ele e não o esperei sair paraentrar... apenas pedi licença, e tendo-a concedida, entrei. Fui logo sentando, e percebendo aminha folga, num súbito, levantei como se na cadeira, furassem pontas de pregos. Disse, pois,sorrindo: – Pode sentar! Sentei. Agora, sim, a cadeira estava macia. O Tenente-Coronel fitou-me expressivamente e começou a fazer perguntas. Enquanto eleinvestigava o porquê de minha visita, eu aproveitava para admirar os muitos quadros de outrosaeronautas heróicos como os desta década. A parede de frente para mim, pelas suas costas,estava repleta de oficiais simpáticos já falecidos, creio eu; ou veteranos, reservistas, quem sabe...Permaneci em sua sala por uns trinta minutos, aproximadamente. 32
  32. 32. Este mesmo senhor, além de conversar comigo sobre diversos assuntos, numa lição sobreos pontos de vista das pessoas, apresentou-me os muitos ângulos da visão que se tem de umadeterminada coisa, usando, como exemplo, um grampeador: – Por exemplo, eu pego este grampeador e ponho de costas para você. Você tem, então, uma visão só do grampeador, porque ao invés de vê-lo completamente, vê apenas o fundo, enquanto que eu vejo uma boca que se abre e se fecha. A visão que você tem de algo, corresponde à maneira com que lhe mostram. Exemplificando mais uma vez – continuou ele – à medida que eu vou girando este grampeador, eu vou lhe dando mais condições de ter uma visão maior do que é este objeto. Você vai vendo, analisando, e vai aumentando o seu conceito sobre ele. Não significa que eu vou fazer você mudar de idéia, mas, apenas o verá de todos os ângulos possíveis. Ele me deu este exemplo após uma exposição de idéias sobre os limites dos civis emilitares, pelo que eu ouvia, pelo que eu presenciava e pela maneira só minha, restritamenteminha, de achar que vida de civil era menos rigorosa do que a de militar. Falei-lhe, inclusive que as punições civis, deixavam o civil cada vez menos civilizado.Hoje, continuo pensando a mesma coisa, porém, de lá para cá, aprendi muitas coisas e posso teruma visão maior sobre esta “mesma coisa”, porque tem se mostrado nos outros ângulos que eunão conhecia. Logo, naquela ocasião explicou-me algo relacionado às punições militares.Lembrou-me igualmente de coisas que eu já havia esquecido, talvez por negligência ou por faltade estímulo para recordar, pois, militar não sou, nem convivo diretamente com militares. Ouquem sabe ainda, por não aceitar as dificuldades que a vida nos impõe... Para quê tentar analisaro sistema de um, se o “meu” não funciona? – Vida de militar, minha filha – complementou meu interlocutor – não é melhor, nem pior que vida de civil ou vice-versa. Senti o peso da autoridade e da sabedoria que saía de seus olhos e daquele seu tom devoz, deixando-me sem a menor palavra. Concluiu: – Acontece, que cada organização tem suas normas. Se essas normas são violadas, vêm as devidas punições para quem as violou. Exemplificando: se um rapaz é office-boy numa empresa e ele grita com o seu superior, ele é chamado à atenção ou vai posto para fora, dependendo da política da empresa. Já, num órgão militar, se um soldado fizer a mesma coisa, ele vai preso. E, quanto à liberdade, ou não, dependendo do seu nível hierárquico é que lhe são dadas as suas chances de liberdade; seja civil ou militar. Veja por mim: eu, sendo militar, tenho muito mais liberdade do que muitos civis para muito mais coisas. 33
  33. 33. Antes de o Major meu amigo chegar, o Ten.-Cel, abriu uma porta grande, que dava para olado de fora, para um alpendre com largas colunas azuis, com desenhos circulares, como ascolunas da Roma Antiga, onde se permite a visão do imenso campo cortado por uma pista onde oAeroclube realiza seus treinos. Toda aquela tensão com que cheguei, reverteu-se em relaxamento... tive a sensação deestar em casa, como houve previsto aquele motorista que me buscou no terminal rodoviário. Assim que o Major meu amigo chegou, o Tenente-Coronel pediu ao mesmo que meacompanhasse em tudo. Sugeriu-lhe que começasse a me mostrar “tudo”, aproveitando aquelesminutos que faltavam para o almoço, e, em seguida me levasse ao rancho. Depois, continuasseapresentando-me o restante até o final da tarde. Primeiramente, fomos ao GCC, onde a minhacuriosidade foi sendo pouco a pouco saciada. Às 16:30h, aproximadamente, estava eu na sala do Major, quando ele mesmo recebeu orecado do Ten. Cel, que queria me ver ... fez perguntas ao meu amigo, para saber se aproveiteibem a viagem... segundo ele, nada poderia se perder. Deixamos o GCC, e fomos à Base. Enquanto o Major foi ter com o seu superior, fiquei aguardando na recepção, e,repentinamente, à minha direita, notei a sutil presença de alguém, que, parado, me fitava. Era umhomem alto, esguio, de cabelos claros e levemente grisalhos, olhos azuis... um macacão azulmarinho – uniforme de vôo – e com um naipe de carta de baralho no braço esquerdo, exatamentecomo os pilotos do Bandeirante quando conheci aquele que por primeiro tornou-se meu amigo,abrindo-me as portas para uma visita. Simpático e elegante, como quem demonstrava já saber quem eu era, perguntou-me, nãocomo que perguntando, sim como que confirmando: – Você é aquela garota que veio do interior especialmente para conhecer a Base, não é? – Exatamente! – Desconfiei quem era, pelo tom de voz. – Sou eu, o Comandante. Apresentou-se com um delicado aperto de mão e um sorriso manso. – Muito prazer, Comandante. Eu estava ansiosa para conhecê-lo! Sim! Estava ansiosa para conhecê-lo... Logo, ao telefone, parecia humilde... não causavatemor, nem insegurança... algo naquele tom de voz me fazia acreditar em mim mesma. Aquelavoz era um incentivo para minh’alma. Foi uma bênção falar com ele... não poderia voltar paracasa sem conhecer aquele que comandava toda aquela beleza e hospitalidade: o Comandante. Era justamente em conhecê-lo que eu pensava, quando ele se pôs ao meu lado e me olhoudaquele jeito paterno. Parecia adivinhar o que eu pensava. Saiu de sua sala especialmente para 34
  34. 34. receber-me, estando eu onde estava, pensando eu no que eu pensava, sem interromper-me,deixando-se perceber. Meu ônibus voltaria para casa apenas às 18:30h. Enquanto isso, tomei a agradávelcompanhia do Comandante e, por mim, assim seria até a hora de partir, pela paz transmitidanaquele semblante... Contudo, jamais abusaria de tão boa vontade, por isso saí de sua presença,uma hora antes de “pegar estrada”. Vi que estava na hora de ir. Estava sendo inconveniente segurando o Comandante ali,tendo o expediente já sido encerrado. Ele, porém não sentia isso, nem pensava assim... tanto que,ao me dirigir à porta, fez ainda umas narrações precisas sobre alguns quadros nas paredes... haviadaqueles quadros em cada sala de comando. Eram as figuras do patrono da Aeronáutica EduardoGomes, o primeiro Ministro da Aeronáutica Salgado Filho – um civil – com a criação doMinistério da Aeronáutica, em 1941, nascida graças a junção aérea do Exército e da Marinha; e,finalmente, do Pai da Aviação: Alberto Santos Dumont – nome que deu origem ao meu. Sobre o Pai da Aviação, aprendi pouca coisa na escola, e em lugar algum do meuconvívio social se falava dele. Tudo ao que aprendi foi que ele inventou o avião e depois, outrosmais quiseram tomar a sua glória. E, quanto à sua morte, como foi? – Santos Dumont morreu enforcado! – comentou o Comandante. – Como Tiradentes? – Não, ele se matou. – Se matou, por quê? – Porque entrou em depressão, depois que viu o seu invento servir para a guerra. – É, de fato! – senti empatia – é compreensível. – Sim! “de fato”... mas, ele já estava debilitado... sua saúde já não era mais tão boa, foi traído por uns amigos também... ele já não agüentava mais ver tanta coisa dar errado em sua vida. Desesperou-se e foi fatal! Encontraram-no morto, enforcado, pendurado numa porta, com uma corda no pescoço... Bem, meditando um pouquinho mais na atitude de Santos Dumont, mesmo sabendo que éimpossível discordar de um morto, ou concordar, penso que, se ele estivesse vivo, veria quetambém facilitou a vida de muitos e que o seu “mais pesado que o ar”, serviu muito mais aindapara gerar sonhos e a realização deles; iluminando os caminhos de muitos, diminuindo asdistâncias, avançando nos céus, permitindo ao homem criar asas e voar. Só me resta, portanto,compreender o morto, enquanto estava, ainda, vivo. O Comandante – sempre um gentleman – acompanhou-me até o carro, abriu a porta paramim, pedindo para que eu voltasse mais vezes. Decerto que eu voltaria... 35
  35. 35. A felicidade era tanta, todos podiam perceber. O que eu podia expressar era pouco, quasenada, diante do que eu podia sentir. Comentou o motorista: – Viu só? Você chegou aqui tensa e está outra! – É, bem que você falou: “você vai se sentir em casa, vai ver como vai gostar. Vai sair daqui transformada.” – Rimos daquela imitação mal feita. Na saída, os guardas fizeram um aceno belíssimo com as armas, porque eu estava numcarro oficial... o motorista disse que não: – Olha aí, despedida com honras militares! – É porque eu estou no carro do Comandante! – Não! É porque você é especial!... 36
  36. 36. CONTO III 1a PARTE Radar ATCR-33 – Foto: Solange Guimarães – Ah! Será um prazer acompanhá-la, Coronel. Disse o Major ao atender o chamado do Sub-Comandante, que pediu ao mesmo para meacompanhar pelas unidades da Base Aérea. Quis hesitar, mas, não pude. O Sub-Comandante eraum sábio e suas palavras me prenderam como um laço. Tentou localizá-lo em toda a Base Aérea e suas divisões, e em todos os telefones deixavarecado para que comparecesse o quanto antes em sua sala. Eu olhava com relances perdidos naquele ambiente, em busca do meu próprio olhar quevagava não sei em que ponto dali. Eu estava calada, de braços cruzados, imóvel... envolta pelasdecisões sábias daquele homem. A todo instante eu me indagava, confusa: “como ele conseguedeixar alguém assim, indefesa como eu estou? Meu Deus, mostra-me onde meus pés estãopisando!...” Naquele momento em que eu apenas pensava e concordava com o homem sábio, chegouaquele a quem esperávamos. Sua presença ali trouxe de volta o meu olhar perdido. Finalmente!Senti-me segura ao seu lado e meditei na possibilidade de sair dali e contar logo para ele comofoi meu encontro com seu superior, que logo explicou-lhe o que seria necessário fazer: – Mostre à sua amiga o essencial. A parte administrativa, aqui pela frente... também o GCC, e tudo, enfim, que você considerar ser útil para ela. Aproveite o tempo agora, antes do almoço e saia a mostrar, começando por onde você quiser, depois, leve a jovem ao Rancho para almoçar conosco. Em seguida, mostre o restante. – Certo, meu Comandante! Pode deixar comigo! Deixamos o Comando e partimos para o Quinto Esquadrão do Primeiro Grupo deComunicações e Controle, 5o/1o GCC. Ao chegarmos lá, fomos direto para sua sala, 37
  37. 37. recapitulando seu ambiente de trabalho. Fez-me conhecer de perto, bem de perto, o dia-a-dia dosque ficam no setor de pessoal, a equipe de comunicação e controle aéreo. Mostrou-me umShelter em seu interior, e deu-me o privilégio de ver como o controle é feito pelos operadores,através das telas. Vi, também, que o interior de um Shelter de controle aéreo precisa ser escuro para melhordecodificação das mensagens luminosas recebidas pelas telas, interpretadas pela equiperesponsável em atividade. Este controle é feito por equipes de seis membros que trabalhamininterruptamente, sob revezamento, num espaço de seis em seis horas. Estas quatro telas punham-se alternadamente... não sei que termos técnicos elesutilizariam para explicar isto no meu lugar. O meu amigo não me contou detalhes além dos jádescritos, apenas mostrou-me o Shelter – uma pequena cabina, pressurizada e escura, o escopodo Radar ATCR-33 ( Air Traffic Control Radar – Radar de Controle de Tráfego Aéreo) e PAR(Precision Approach Radar – Radar de Precisão por Aproximação) em funcionamento... umradar portátil para controle de vôo militar em rota – sendo nossa visita muito rápida.Simplesmente entramos e vimos tudo funcionando. – Gente! Esta é minha amiga do peito! – Exclamou o Major. Neste instante, todos olharam surpresos, calados, com olhares técnicos e frios de: “nãoperturbe, estamos nos concentrando”. Confesso que entristeci-me ao perceber minha visível incapacidade de compreendertamanha complexidade. Visível também era minha capacidade de reconhecer o quanto estavasendo intrusa. Sorri para o meu amigo, um riso meio amarelo, convencida de que seria melhorsairmos. Compreendendo a mensagem do riso de tristeza, pegou-me pela mão e, guiando-me noescuro quase que total aos nossos pés, pela sua intimidade com o lugar, sem dificuldades, tirou-me dali. Finalmente... a luz do sol e o céu azul... Que alegria, pisar em solo conhecido e claro! Sim, esta competência eu tinha:compreender e descrever a luz do sol que iluminava meus caminhos e o céu azul! Estava mais segura do lado de fora do Shelter, pelo menos, sabia falar sobre! Além disso,os olhares de então não me repulsavam, ao contrário, saudavam-me e não tinham a mesmaresponsabilidade que os controladores do radar naquele instante. Do lado de fora eu não era umaintrusa, era uma convidada. O radar portátil ATCR, ficava no alto de um pequeno monte, sobreposto no que o Majormeu amigo chamava de “gaiolinha”. Quando o preparavam para transporte, colocavam-no nesta“gaiolinha” – uma caixa de aço, que por assemelhar-se a uma gaiola de pássaro, recebeu esse 38
  38. 38. apelido – própria para este fim, facilitando o trabalho. Tanto ele, quanto os outros equipamentosque o acompanhavam, eram portáteis e foram os mesmos que estiveram em dezembro, naquelamissão, na qual conheci o Major. Ao lado do radar supracitado, havia um outro Shelter, ao qual o Major descreveu como“todo o coração” de tudo o que vi até o momento. O mais importante dos Shelters. Em seuinterior estava toda a fiação e todo o segredo tecnológico do Sistema de Controle e Comunicaçãoe do funcionamento de todos os equipamentos já citados, diretamente unido ao radar que, comofalou, jamais funcionaria sem ele. Depois disso, saímos do Esquadrão Zagal que quer dizer “pastor, pegureiro”, e meuamigo conduziu-me até o DPVDT-26 – Destacamento de Proteção ao Vôo, Detecção eTelecomunicações. Lá, porém não mostrou muita coisa. A fome apertava e além do mais, ele quis cumprirliteralmente o que orientava aquele homem sábio: “apenas o essencial”. Senti que deveria voltar lá outro dia. Minha curiosidade não se houve sido satisfeita. Delonge... logo na entrada de paralelepípedos, pude ver e encantar-me com aquela construçãoenorme, suportando um radazão, que destacava-se, além de seu tamanho, pela sua cor vermelha euma imensa cauda! Era o Radar LP-23. Nos aproximávamos do portão e eu o podia ver bem mais gigantesco e interessante. Seusmistérios queriam se revelar para mim e eu sentia que sim, certamente seriam revelados. Tarde,não creio. Cedo, quem sabia? Como no Shelter do radar ATCR, o trabalho era realizado no escuro. O piso da sala ondeestávamos observando os equipamentos, era “fofo” e tinha um som “oco”. Perguntei ao Major oporquê daquilo, e respondeu-me que, deveria ser daquele jeito, devido os inúmeros fios quepassavam por baixo dele. Pronto! A primeira parte de sua missão estava cumprida. Seguimos, então, conversandosobre o que vimos, para o tão sonhado almoço no “Rancho”. Hora da bóia! Eram quase doze e meia. Ao ser pronunciada a palavra “Rancho”, logo deduzi ser umlugar pequeno para refeições, como uma lanchonete, por exemplo... um bar... umrestaurantezinho. No caminho, o meu amigo estava todo feliz, dizendo: – Oba! Hora da bóia!... Agora vou levá-la ao Rancho, prà gente almoçar! Que maneiro! U-huuuu! Estou faminto! Doido pra comer um peixinho, e você? – É! – estava preocupada, isso sim – com fome, até pedra vira pão! 39
  39. 39. Ele gargalhou, pensando que eu estava usando meu incansável senso de humor. – Você vai adorar! Amiga, eu soube que hoje vai ter filé de peixe! Estou todo animado para comer esse filezinho! U-huuuu! – Você vai almoçar lá também? – perguntei, temerosa por ficar sozinha. – É claro que vou! Daqui eu só saio na hora de ir embora, para ver a minha amada esposa! – Ah! Então, já está acostumado a acompanhar visitas – comentei, aliviada, e sorri ironizando minha própria presença. – Super! Com toda aquela animação, imaginei que ele se referia a um restaurante comum e a coisafoi mudando de figura em minha mente e eu já podia sentir água na boca!... Bem! Nem tanto...ao nos aproximarmos, mais uma vez me surpreendi. Aquilo não era um rancho, coisa nenhuma,de acordo com o conhecimento que tenho da palavra. O que vi foi um impactante e um senhor deum restaurante! Ao pisar naquele chão, fiquei boba, tão boba... não sabia o que fizesse! O Major disse queeu podia me servir à vontade, e assim, fui me servindo, metendo o colherão em tudo, orientadapelo mesmo, que por fim, pegou apenas um filé de peixe. Oh! Tamanho entusiasmo por umpeixinho, apenas... Olhando para o meu prato imenso e o filezinho dele, apossei-me de umavergonha, e não a quis soltar. Senti-me glutona e não consegui levar o garfo à boca, nem parar deme preocupar com aquela diferença. Ele disse: – Não é para ter vergonha. Você não está roubando, nem matando, nem fazendo o que não deve em público! Você está fazendo o que todos também estão: almoçando, comendo! Eu que deveria estar com vergonha por causa deste filé de peixe... que está uma delícia por sinal... mas, é que hoje, estou jejuando – falou do jejum, em tom de brincadeira. Fiquei completamente perdida, sentindo-me como um peixe fora d’água, quando me visozinha entre oficiais da Aeronáutica naquele lugar, que na minha concepção foi feito só paraeles, então, falei para o meu amigo que, pondo suco em meu copo, exclamou! – Não, amiga, que besteira... veja ao seu redor: – colocou a jarra do suco sobre a mesa e discretamente apontou – civil... civil... civil... todo dia vem pelo menos um civil almoçar aqui. Já é costume nosso receber vários civis por dia. De fato, preocupava-me tanto comigo mesma, que não percebia os civis que estavam lá enem se importavam... Porém, a maioria era mulher. Pensava: “As mulheres podem ser as esposas 40
  40. 40. deles, filhas, mães, irmãs ou tias. Os homens podem ser pais, irmãos, filhos, e... eu o que sou?Uma pessoa sem qualquer ligação de parentesco com eles, que está aqui sem ao menos ter sidoconvidada. Mas, não vejo estranheza, nem a sinto em ninguém, embora sinta-me estranha”... – Está tão calada – percebeu ele – o que houve? – É que continuo envergonhada! – Deixa disso, mulher. Eu já lhe falei que não há motivos para isto. Olhei em direção à parede, por trás dele, às suas costas, e por um momento distraí-mecom aquelas espécies de quadros, emblemas que retratavam as três divisões da Base Aérea: aprimeira representava a parte administrativa da Base; a Segunda, o GCC, e logicamente, suasubdivisão – DPVDT (de onde acabávamos de chegar); e o terceiro, o GAv. – Bonito, não? – comentou ele. – É lindo! – Aquele do meio é o meu, onde eu comando. Acima dos emblemas havia também um grande, belo e caríssimo quadro: A Santa Ceia. Aqueles quadros chamaram-me a atenção logo ao entrar. No entanto, olhei-os de formadetalhada, durante o tempo em que eu estive ali e comi, após ter sido desperta pelo Major que mehavia notado muito calada, quase perguntando em que eu pensava. Eu deveria ficar mais àvontade em sua agradável companhia. Não era justo agir assim com ele. Por essa causa, olheipara as flâmulas, na certeza de que me deixariam um pouco mais descontraída. Quase jáconseguia relaxar em 1%, na hora em que meu companheiro de mesa apontou com a cabeça,num gesto tipicamente carioca, para “os fundos” do Rancho e me disse: – É ali que eu sento sempre. – Onde? – procurei. – Lá onde estão os Coronéis. Está vendo o Tenente-Coronel, cuja sabedoria você não parava de exaltar? – Sim, estou. – É ali que o pessoal vai servir a gente. Esta afirmação acompanhada de um sorriso cheio de farelo de filé de peixe foi umchoque. Imagine que eu quase me engasguei! Comecei a sentir-me como até então não mesentia: Uma ridícula, uma metida. Indaguei: – Por que você não me falou isso antes? – O quê? – limpava os dentes com a língua, despreocupado, inocente e tranqüilo. – Que você senta lá com eles! – tremi de constrangimento – me desculpe, por favor! Sentia um incômodo, não da parte dele para comigo, sim de minha parte para com ele – 41
  41. 41. Mil desculpas! Lá no seu lugar você é servido, e aqui você foi obrigado a se servir por minha causa... – Você não me obrigou a nada, calma! Nos calamos por um segundo e ele continuou: – Olhe, você não viu quando o rapaz veio à minha presença, perguntando se eu desejava mais alguma coisa, além do filé de peixe que eu comi e respondi que não, que estou de jejum? Não viu quando eu pedi o filé de frango para você e ele trouxe? – Sim! Eu vi... contudo, me desculpe por estar lhe incomodando tanto! Eu não sabia que você sentava em um lugar tão especial (quanto você) e nem tive a intenção de arrancar você de lá como fiz. – Oh! Minha querida amiga! Não está me incomodando... pare com isso... não me tirou de lugar nenhum. – interrompeu-me – eu mesmo não lhe pedi que escolhesse um lugar? Nós nos sentamos aqui e eu não estou arrependido, não! Para mim, tanto faz aqui ou ali. Além do mais, como você me arrancaria de um lugar onde eu não estava pregado? E, hoje é o seu dia. Eu estou acompanhando você, não você a mim. – Eu poderia ter ficado sozinha, não teria problemas. – Você acha mesmo que eu a deixaria sozinha? Não acredito nisso... é um prazer para mim!... me desculpe você. Eu não queria lhe ver assim. Quero que se sinta em casa. Não ligue para a presença dos oficiais, se o problema for este... somos pessoas iguais a quaisquer outras. E quanto ao lugar, não se preocupe, eu sou Major aqui com você, do mesmo jeito que sou Major ali com os Coronéis. – sorriu e disse – Hoje eu sou seu escravo. Quer mais frango? Peça o que quiser que eu arranjo para você. Ele sorriu soltando duas leves gargalhadas, e de mim, saiu unicamente um sorriso sério,meio desconfiado. Eu parecia começar a me vencer, a vencer também a timidez e o sentimentode culpa. Ora, já que foi escalado pelo Tenente-Coronel sábio para mostrar-me tudo o que eleconsiderasse essencial, não custaria nada mostrar também o lugar onde sentava... poderia, então,achar essencial para o meu conhecimento do ambiente, pois, amigos éramos... Muito justo de suaparte! Enfim, decidi comer, mas ainda estava na metade do prato, e quem estava lá esvaziava oprato e o local, repentinamente. Ficaram dez, depois seis, depois três ou quatro. Falei, pois: – Eu acho melhor sairmos também. – Ficarei com você até que termine. – Não! Já terminei, não quero mais. 42
  42. 42. Éramos os últimos, e vendo isso, levantei-me. Uma jovem aeronauta tirou a mesa; noslevantamos os dois e saímos. Esse almoço foi um tremendo sucesso! Sobrevivi ao meu primeiroalmoço junto aos oficiais da FAB. A história não seria a mesma sem ele. Passado o aperto, voltamos ao GCC, onde revelou-me não haver almoçado bem por nãoestar sentindo-se em condições, meio adoentado e fraco. Pediu-me desculpas, pois não esperavadeixar-me naquela situação. Ou seja, nos sentíamos responsáveis pelo suposto desconforto, umdo outro... competíamos, tentando provar quem era o maior culpado pelo “clima” da bóia.Coitado! Ele estava tão animado pelo seu peixe! Chegando lá no Esquadrão, mandou chamar um determinado Capitão que eu nãoconhecia, para levar-me até os aviões, continuando assim, o restante de “sua missão”: apenas oessencial. 43
  43. 43. CONTO III 2a PARTE Vista do 5o/1o GCC, 1o/4o GAv. e Radar LP-23 entre as duas unidades. Foto: Solange Guimarães Xavantes nos hangaretes. Foto: Solange Guimarães ... Toc, toc, toc... – Pode entrar! Naquele momento eu estava de costas para a porta da sala do Major. Havíamos acabadode chegar do Rancho, onde os oficiais se reúnem para fazer as refeições, conversando sobre oroteiro a ser obedecido naquela tarde de Quarta-feira, quinze de março, em que o sol brilhava ese apagava de vez em quando, entre uma nuvem e outra. Chegando ao GCC, o Major anunciava a quem via diante de si, pelos corredores eescadas: – Procure o Capitão. Diga-lhe que estou chamando à minha sala, pois tenho um trabalho para ele. A outro: – Você viu o Capitão? Não? Localize-o e diga que venha à minha sala, rápido! Quero que ele faça algo... Assim fizeram, pois era o Capitão quem batia à sua porta e que adentrava, com passosleves, como se ainda estivesse voando. Ou, a causa dos seus mansos passos, poderia ser seu portefísico, tão leve quanto suas pisadas. Recordo somente que apenas ouvia o som de suas botasmassacrando sutilmente o piso. Se estivesse chegando minutos antes, teria sido coincidência,pois estávamos justamente falando nele: – Amiga – disse o Major – agora você vai conhecer os aviões. – Até que enfim! Respondi com um suspiro de alívio. – Pedirei ao Capitão para lhe acompanhar. – Por quê? – Porque ele entende de aviões melhor do que eu. É o mais indicado para isso! – E vai me abandonar – brinquei – nas mãos de um estranho? 44
  44. 44. Percebi ser a única estranha ali; por isso, brinquei com a situação, para que eu e aquelemomento “mágico”, novo, precioso e extremamente difícil, pudéssemos nos familiarizar. – Você não vai estranhar nada. Ele sabe tudo sobre aviões. Você verá... quando chegar aqui, vai até me dar uma aula! – Eu ainda venho para cá? – Claro que vem. Pensou que ia para onde? – Para casa. – Não, senhora! – discordou ele – depois de ver os aviões, quero que me apresente todo o relatório... Nisso, chegou o Capitão com seus passos maneiros. Em pé, continência, e, numa postura formal, à minha esquerda, perguntou: – Mandou me chamar, Major? – Mandei, sim... – É que eu cheguei agora do vôo – justificou – e assim que recebi seu recado, vim correndo para cá! Sua respiração era profunda; seu rosto, um pouco suado. Porém sua face estava serena.Ele não demonstrava ansiedade alguma diante da urgência do chamado. – Capitão – iniciou o Major – esta é a minha melhor amiga e ela está aqui para conhecer os aviões. Então quero que leve esta jovem para conhecer os aviões, os modelos, a personalidade de cada um; quero que mostre tudo, o máximo que puder, a função... enfim, tudo que for possível para ela sair daqui bem instruída. Continuou ainda, voltando-se para mim: – Moça, não tenha medo – rimos – o Capitão é uma pessoa nota dez! você vai gostar de andar com ele, por ser o mais indicado para lhe mostrar o que você quer conhecer. Pronto, podem ir. – Sim, senhor! – respondeu o Capitão. – Ah! Leve- na para conhecer também o 1o/4o Grupo de Aviação, e, se tiver algum material disponível para ela enriquecer seus conhecimentos, por favor, eu quero que ela leve. Eu e o Capitão saímos da sala do Major em um breve silêncio. Enquanto descíamos asescadas, rumo à recepção do GCC. Conversávamos, tentando vencer a estranheza, que talvez,um representasse para o outro. Acabávamos de nos conhecer, e devido ao meu propósito e àincumbência que lhe foi confiada, suponho que a formalidade nos fazia pensar e agir comopessoas distantes, tipo: “que conversação deverei manter com um Piloto de Caça, que vai 45
  45. 45. mostrar-me aviões? Que palavras deverei ou não usar? Será que devo gravar na memória,escrever, ou apenas escutar e depois esquecer de tudo o que ele me falou?”... ou, da parte dele:“mas, o que eu devo dizer para uma pessoa que está aqui querendo sabe-se lá o quê ? O que elaquer afinal de contas? Mostro ‘tudo’ mesmo, como quer o Major, ou devo ser cauteloso?” Quero somente que se tenha uma idéia do silêncio que fizemos, antes de conversarmos,pois, quando alguém se cala, alguma coisa está pensando, e ao pensar, suas feições retratam quetipo de pensamento é. Se não as feições, as atitudes; o olhar para os lados, para cima, para baixo,olhar só em frente, ou olhar no olhar do outro e esboçar um magro sorriso, reforçando o assuntodo pensamento... sei que não se pode ler pensamentos, expressões, mas, com esforço podemosler as entrelinhas de uma conversa que surge de repente, entre duas pessoas que não seconhecem; no entanto, precisam se conhecer para caminharem de acordo com o motivo doencontro. Foi o Capitão quem iniciou a conversa: – O que achou do Carnaval? – Uma bagunça! – Você não gosta de Carnaval? – Não! Simplesmente, não suporto! (hora da palestra) É muita bagunça, muita sujeira, muito barulho, desrespeito às pessoas de bem, confusão... não! Carnaval não é bom. É um meio de pessoas se enganarem, procurando fugir da realidade. Mas, a realidade os persegue também no mundo das fantasias. E daí, vem um grande vazio que precisa ser “preenchido” de qualquer forma... às vezes com micaretas, ou até mesmo com loucos fins de semanas. O vazio que o homem sente, principalmente depois que passa a fantasia do Carnaval, nunca é preenchido, porque só Deus pode tornar essas pessoas felizes de verdade, e dar forças para enfrentar a realidade, com seus problemas, não para fugir deles. Caminhávamos em passos lentos. Se concordou ou não com meu ponto de vista, agiudiscretamente, apenas respeitando-o e conversando comigo sobre a realidade. Íamos em direçãoao 1o/4o GAv. Avistei, detalhadamente, o verde natural das plantas que contornavam o nosso caminho, elouvei ao Criador pela vida, por tudo que faz mover sobre a terra... aquele verde naturalharmonizava-se com o verde da fachada do prédio onde funcionava o GCC do meu amigo, quedurante a caminhada, ficava para trás. Lá, ao longe, uma construção branca, bem à direita,despertou-me curiosidade... o que seria? Mas, não falei nela ainda, pois acompanhava os seus 46
  46. 46. largos e vagarosos passos, que seguiam o ritmo das suas palavras, da sua maneira tranqüila deexpor suas idéias, que desde já, atuavam em minha compreensão. Não falávamos em aviões neste instante. O assunto “Carnaval”, despertou-nos para umareflexão sobre temas atuais do país, que desencadeavam vários outros temas. Até o “CorreioAéreo” entrou e sentou-se à sala dos assuntos. Como conseqüência dessa trama, algo que citeinum momento anterior, foi espontaneamente repetido por aquele que andava ao meu lado, agora,já não como estranho, sim, como um amigo que compartilhava seus pensamentos com umaamiga: – As Forças Armadas estão perdendo o prestígio que tinham antes... Coincidentemente, eu disse isso ao Tenente-Coronel, em sua sala, quando nos referíamosaos militares. Eu o falei, além de observar também a diferença de “privilégios” entre civis emilitares. Contei as coincidências ao Capitão, que arregalando os olhos, balançouafirmativamente a cabeça, e admirado exclamou: – É! Até os civis percebem isto! Revelei que nem todos percebiam. Os mais egoístas até pensavam ser o contrário. Em meio à conversa, estando já bem próximos dos aviões, apontei para aquela grandeconstrução branca, do outro lado daquele imenso espaço, lá, ao longe, e por fim perguntei-lhe oque era, se fazia parte da Base Aérea. Respondeu-me então: – É o antigo Aeroporto. Agora, só recebe cargas. Daqui a alguns dias, tudo isso aqui fará parte do Grande e Novo Aeroporto. Um breve silêncio se fez. Após alguns minutos retomei a conversação: – Por quê? – Porque toda esta parte aqui vai se mudar para um outro terreno que fica bem mais distante... – apontou para o outro lado da pista, completando – simetricamente oposto ao GCC – ele parecia insatisfeito com a mudança, porém, discordava da “mistura” entre a aviação civil e a militar, que havia no momento. Prosseguiu: – Vamos ver os nossos aviões agora. Daqui a pouco, você verá os aviões comerciais que vão pousar. Finalmente, após uma longa conversa (nada mau para quem não se sentia à vontade),chegamos ao GAv. Por fora, uma grande área coberta, um alpendre com mais ou menos... dezesseis colunas,acompanhando toda a fachada uniforme. Sabe-se que, por trás de tudo que faz sucesso há umsujeito oculto... Por isso, o setor de Relações Públicas mal se podia ver, pois ficava isolado, 47
  47. 47. dentro de um “estúdio” formado por arbustos e árvores. Era uma bela paisagem, um desenhoinusitado que se formava por trás dos 3 mastros das bandeiras. As paredes eram verdes, parecendo camuflar-se entre as plantas. Dentre as inúmeras divisões deste Esquadrão, destacava-se a grande sala dos pilotos. Isolada das outras salas, a grande sala dos pilotos possuía duas portas de madeira e vidrode aspecto leitoso e espessura considerável, entre duas janelas. A porta principal trazia umdesenho significativo: o símbolo do Esquadrão, que se encontrava nos aviões, nas fardas dospilotos, lado direito do peito... presente em tudo que pertencia àquele grupo. É um emblema quetraz ao centro, um “cão feroz”; este, segundo o Capitão, era um cachorro criado por um dosoficiais, há muito tempo, logo no início da criação deste Grupo. É assim que posso descrever tal emblema: Aparentemente é só um símbolo relacionado à Unidade, porém, vai além desta aparência.É impactante aos olhos. Sem muita cerimônia, desperta atenção em quem olha, indica cuidado.Demonstra permanente vigilância e irrepreensão: Pilotos cuidadosos, vigilantes e irrepreensíveis,homens preparados para qualquer ocasião. Olhando à luz do sentido do desenho e das suas cores,temos: Um fundo azul celeste, que representa o “céu da Pátria, habitado por suas máquinas e suagente”. Uma nuvem branca, aos pés do imenso e forte buldog, como base, representando a “suacapacidade operativa de manter a Unidade sempre em condições de cumprir sua missão aérea deforma estável e firme”. O cão ao centro, “uniformizado para o vôo, agressivo, armado de massa e coleira cravada(com pontas afiadas), forte, rígido, e de aspecto inamistoso”, indicando a união de “personalismoda aeronave de instrução e dos instrutores. A máquina dominadora, forte, e o instrutor resistenteà inexperiência do estagiário, pronto, porém, para cobrar tributo e sancionar, quando a falta dehabilidade, de arte ou de fibra se fizerem presentes”. Abaixo da nuvem branca, o grito de guerra: “TÔ LHE MANJANDO” – “concretiza oestado de permanente vigilância em que se postam os instrutores, atentos às imperfeições doaprendizado, prontos para corrigir, acrescentar, instruir e aprimorar.” Consegui essas informações numa folha impressa de computador que o Capitão,lembrando-se do que disse o Major, conseguiu para mim, lá no sujeito oculto – Setor deRelações Públicas. O emblema aqui descrito, é circular. Um círculo representa algo que não temcomeço e não tem fim. Independente do tamanho, é algo constante, que está sempre emcontinuidade. Não cessa, e devido ao seu formato, torna melhor, mais suave e mais rápido, o seumovimento. O círculo também representa um elo, uma aliança, uma união, igualdade. Entre 48

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