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Crônicas rubem alves reflexões

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Crônicas rubem alves reflexões

  1. 1. 1 Os revolucionários estão chegando Alguns psicólogos que se dizem especialistas em adolescência aconselham, comoremédio para as perturbações características desta fase, muito diálogo, muito amor, muitacompreensão. Os pais devem criar condições para que os filhos conversem com eles sobre osseus problemas e devem se esforçar por compreendê-los. Pelo amor e pelo diálogo, elesgarantem, pais e adolescentes continuarão amigos e a família voltará a ser feliz como sempretinha sido quando eles eram meninos. Discordo. Em primeiro lugar, nada me convence de que os adolescentes estejam tantoassim atrás do amor dos pais. Atrás de amor, é verdade. Mas, dos pais? Duvidoso. Emsegundo lugar, não existe coisa que os adolescentes menos queiram que ser compreendidospelos velhos. Em brigas entre marido e mulher há um momento em que um dos dois diz, comoargumento final: “Te compreendo muito bem...” afirmação que se faz sempre com umasreticências e um sorriso de escárnio. Isso quer dizer: “Pare de mentir. Tenho você aqui, dentroda minha cabeça, transparente. Já lhe fiz a tomografia da alma... Tudo o que você disser seráinútil. Te compreendo. Teu mistério, eu já o resolvi.” Quem compreende domina. E vocês acreditam mesmo que os adolescentes queiram ser compreendidos pelos seuspais, essas enormes bolas de ferro que eles têm de arrastar, acorrentadas às suas pernas, dequem ainda desgraçadamente dependem para dinheiro e automóvel, que os vigiam com umolho que parece o olho de Deus, e que lhes pedem explicações sobre onde andaram e sobre oque fizeram, seres de quem escapam somente à custa de muita mentira e trapaça? Que caçadeseja ser compreendida pelo caçador? Se o caçador a compreender, ele saberá onde colocara armadilha. O caçador há de compreender a caça por conta própria, sem depender da boa vontade dacaça para dialogar. E a compreensão começa quando se percebe que os adolescentes sãoiguais às crianças na cabeça; só são diferentes no tamanho do corpo. E é isso que faz toda adiferença. É fácil entender as crianças: basta ler as deliciosas tirinhas cômicas sobre o Calvin, queaparecem diariamente no Caderno C do Correio Popular, esse prestigioso jornal todo jornaltem de ser prestigioso quando a gente se refere a ele, do mesmo jeito como o Papa ésantidade, o presidente é excelência e o reitor é magnificência. A cabeça da criança é dominada pela fantasia, pelo maravilhoso: o Calvin é astronauta, amãe dele é trator, a bicicleta adquire idéias próprias e passa a persegui-lo, ele é um incrívelescultor moderno que faz esculturas caríssimas de neve, 6 + 5 = 6, por razões absolutamentelógicas, e a estúpida professora marca errado na prova. Na cabeça da criança tudo é possível. 1
  2. 2. 2“Compra, pai! Compra!” “Mas eu não tenho dinheiro!”, o pai responde, mentindo. Sabe que ofilho não entenderia suas razões. Mas o menino contra-ataca: “Paga com cheque.”Antigamente as fadas usavam varinhas de condão. Agora elas usam talões de cheques. As crianças pensam que os adultos são onipotentes. Quando estou num elevador lotado evejo alguma criança pequena no chão, espremida no meio dos adultos, fico a imaginar o que éque ela vê, ao olhar para cima: enormes torres. Acho que foi de situações semelhantes quesurgiram as fantasias dos gigantes que comiam crianças. Para as crianças, os adultos sãogigantes de força descomunal, que tudo podem. Se ele, Calvin, tivesse poder, se ele fosse grande e tivesse um talão de cheques, omundo seria totalmente diferente, só brinquedo e aventura. Infelizmente o seu pai e a sua mãe,classe dominante, detentores do monopólio dos meios de produção, o reduziram à miserávelcondição de escravo, e assim o obrigam a comer o que ele não quer comer, a fazer deveresidiotas da escola, sem sentido alienação maior poderá existir? , a ir para a cama quando aindahá muitas coisas divertidas a serem feitas. Os adultos são os culpados pela sua infelicidade.Mas o dia chegará em que se ouvirá o grito revolucionário: “Crianças de todo o mundo! Uni-vos!” As crianças tomarão o poder; os adultos dominadores não serão fuzilados, como bemmerecem, porque as crianças sabem perdoar. Mas serão internados em instituiçõesapropriadas para ser reeducados. Será a sociedade sem classes, a volta do Paraíso. Quandoeste momento chegar, Calvin será um extraordinário líder revolucionário. E então, repentinamente, o momento chega, anunciado gloriosamente pelos pêlos quecomeçam a surgir em lugares dantes lisos. Ah! Os pêlos! Finalmente... Quanta inveja e quantafantasia provocavam na cabeça das meninas e dos meninos, ao contemplar aqueles símbolosda condição adulta! A importância psicológica dos pêlos ainda não foi suficientemente analisada. Minhasinvestigações clínicas sobre o assunto levaram-me a uma curiosa descoberta: são eles osresponsáveis por uma síndrome característica da adolescência, ainda não descrita noscompêndios científicos. Eu a batizei com o nome de “síndrome de Sansão”. Como se sabe da mitologia bíblica, Sansão era um herói de força descomunal: elederrotou, sozinho, um exército inteiro, exército armado com espadas e lanças, tendo comoarma apenas uma queixada de burro. Perto de Sansão, o Rambo é um anêmico. Pois a forçade Sansão se encontrava precisamente nos cabelos. Foi só a Dalila cortar a cabeleira do heróipara que sua força murchasse como bexiga furada. A “síndrome de Sansão” é uma perturbação mental que leva os adolescentes a identificaro crescimento dos seus pêlos com o crescimento da força. E esta ilusão é confirmada, nacabeça deles, pelo desenvolvimento e crescimento dos órgãos adjacentes aos pêlos, novinhos 2
  3. 3. 3em folha, que entram em funcionamento tão logo se belisque a partida, mesmo sob ascondições mais adversas, como madrugadas de inverno. O que contrasta com os Galaxiespaternos que, em condições semelhantes, exigem uma bateria nova, e só funcionam depois demuitas tentativas, sendo o seu funcionamento entremeado por tosses, afogamentos,apagamentos repentinos, para o embaraço de todos. Sim, as crianças não são mais crianças. Além do crescimento dos pêlos, há ocrescimento do corpo. Agora, nos elevadores, as crianças que olhavam para cima viraramadolescentes enormes que olham para baixo. Estão maiores que os pais. Não só maiores:melhores. Modelo último tipo. O modelo dos pais já era. “O velho...” Já fora de linha. Galaxies,trambolhos velhos, batidos, soltando fumaça pelo escapamento. Sair com eles é vergonhoso. O glorioso momento: a tomada do poder, a revolução. Chegou a adolescência. Para seentender os adolescentes é preciso entender a sociologia e a psicologia dos revolucionários. Classe subalterna não anda em companhia de classe dominante. Não frequenta osmesmos lugares. Não fala a mesma língua. Não quer diálogo. Operário não conversa compatrão. Operário exige os seus direitos. Se não é atendido, faz greve. Adolescente não querpapo com pai e mãe. Não vai mais ao sítio. Não passa réveillon em casa. Não escuta a mesmamúsica. Se é proibido, tem de ser transgredido. Com ele se inicia uma nova ordem. É ummilitante. A adolescência é um partido revolucionário anaquista. Se a situação política fosseoutra, o lugar do seu filho seriam os comícios e, possivelmente, a guerrilha. Mas hoje, do jeitocomo estão as coisas, ele não passa da Pachá. (ALVES,Rubem.Sobre o Tempo e a Eternidade.13ªed.,Campinas-SP:Ed. Papirus,1995. p.p. 29/32) A Turma Uma pitada de loucura aumenta o prazer da vida. Veja o caso do cinema. Você vai lá,assenta-se e fica vendo um jogo de luzes coloridas projetado numa tela. Você sabe que aquilotudo é de mentira. E, não obstante, você treme de medo, tem taquicardia, pressão arterial alta,sua de medo, ri, chora... É um surto de loucura. Você está tomando imagens como se fossemrealidade. Mas, se você não se entregasse por duas horas a essa loucura, o cinema seria tãoemocionante quanto ler uma lista telefônica. Passadas as duas horas as luzes se acendem,você sai da loucura e caminha solidamente de volta para a realidade.A diferença entre a sua loucura e a loucura do louco é que o louco não consegue sair docinema. A sessão não termina. As luzes não se acendem. Ele não desconfia de que aquilo queestá passando na sua cabeça seja só um filme. Pensa que é real. 3
  4. 4. 4 Quem não está louco é quem desconfia dos seus pensamentos. Sabe que a cabeça éenganosa: sessão de cinema. Nada garante que os pensamentos, aquilo que apareceprojetado na tela da consciência, sejam verdade. A razão é desconfiada. Quando uma pessoadiz: “Eu tenho certeza!” ela está confessando: “Eu não desconfio dos meus pensamentos!”Consequentemente, está em surto psicótico. A adolescência é a idade da certeza. Os adolescentes não desconfiam de suas idéias eopiniões. Acreditam piamente naquilo que seus pensamentos lhes dizem. Daí, a conclusãológica de que todos os que têm idéias diferentes das suas só podem estar errados. Explica-se,assim, a sua dificuldade em lidar com opiniões discordantes. “Sei muito bem o que estoufazendo”: essa é a resposta padrão que eles usam para se descartar de uma advertência sobreum curso problemático de ação. A certeza sobre o pensamento se faz sempre acompanhar por um sentimento deonipotência. Os deuses tudo sabem e são invulneráveis. Assim, eles não têm medo de fazer ascoisas mais perigosas rachas, roletas-russas, cavalos-de-pau pois nada pode lhes acontecer.Acidentes graves só acontecem com os outros. “Posso fumar maconha e cheirar cocaína semmedo. Sei o que estou fazendo. Eu nunca vou ficar viciado. Somente os fracos ficam viciados.Mas eu sou forte.” Por isso, os programas que buscam alertar os adolescentes sobre os perigos das drogasestão fadados ao fracasso. Eles são elaborados sobre o pressuposto de que, se osadolescentes conhecessem os perigos, eles fugiriam deles. Mas isso é o mesmo que tentardissuadir o alpinista do seu sonho de escalar o Himalaia por causa dos perigos das montanhas,ou tentar convencer o Amir Klynk a cancelar sua viagem ao pólo sul por causa dos perigos dosmares. Alpinistas e navegadores, empreendem suas aventuras exatamente para desafiar operigo. É o perigo que dá a emoção. Assim é o adolescente. Ele quer o risco. Mas, diferentemente do alpinista e do navegador,ele acha que nada pode lhe acontecer. Ele não entra pelo caminho das drogas por ignorar operigo. Ele entra no caminho das drogas para desafiar o perigo. Evidentemente, na certeza deque nada lhe acontecerá. Essa ilusão psicótica tem um agravante: o reforço da “turma”. A sociologia deu o nome de “outros relevantes” às pessoas que eu levo em consideraçãoao agir. Esses outros são a “platéia” diante da qual eu represento o meu número de teatro, ecujo aplauso eu busco e cuja vaia eu temo. Os pais são “outros significativos” mais importantesdas crianças. Elas estão, a todo momento, buscando a aprovação do seu olhar. A adolescênciaé o momento quando os pais são substituídos pela “turma”. 4
  5. 5. 5 A “turma” é tirânica. Ela impõe e exige. O adolescente tem de obedecer. Eram 22h30. Amãe foi ao quarto da filha de 13 anos para o beijo carinhoso de boa-noite no rosto da meninainocente adormecida. O que ela encontrou sobre a cama vazia foi um bilhete: “Não possodecepcionar meus amigos. Fui para a Pachá”. A “turma” cria um delicioso sentimento de fraternidade. Todos se confirmam. Todos fazemas mesmas coisas juntos. Todos são “conspiradores”. Mas, ao fazer isso, ela retira dosindivíduo isolados o senso de identidade. Sem a “turma” o adolescente é um rosto semespelho. Na “turma”, indivíduos respeitáveis e tímidos isoladamente transformam-se em ferasimorais. São as “turmas” que lincham. Individualmente todos somos seres morais. A “turma”decide sobre roupas, tênis, boates, música, fumo, cheiro, transa. Ai daquele que não obedece. Em relação à sociedade adulta o adolescente é um revolucionário. Ele está pronto atransgredir tudo para criar uma nova ordem. Em relação à “turma” ele é um carneirinhoconservador, sem idéias próprias, submisso à autoridade do grupo. A adolescência é umperpétuo jogo de “boca-de-forno”. Turma: “Boca de forno!” Adolescentes: “Forno!” Turma: “Furtaram um bolo!” Adolescente: “Bolo!” Turma: “Fareis tudo o que vosso mestre mandar?” Adolescentes: “Faremos todos, faremos todos, faremostodos...” Lembrem-se de que eu disse em outra crônica que há dois tipos de adolescentes: osetários e o otários. Tudo o que tenho dito só se aplica ao segundo grupo. Não há nada que possa ser feito. Felizmente chegaram, de espaços siderais, anjos detodos os tipos. Sugiro que os pais encomendem anjos especializados na guarda deadolescentes para tomar conta dos seus filhos. E que, para seu benefício próprio, invoquem osanjos protetores do sono e dos sonhos. Se não há nada a ser feito, pelo menos que o sonoseja tranquilo e que os sonhos sejam suaves. (ALVES,Rubem.Sobre o Tempo e a Eternidade.13ªed.,Campinas-SP:Ed. Papirus,1995. p.p 33/35) 5
  6. 6. 6 Sobre as aves e os adolescente Se a Esfinge tivesse sido um pouco mais esperta e versada em mistérios que só seriamrevelados séculos depois, em vez de propor a Édipo o enigma bobo que propôs, teriasimplesmente perguntado: “O que é, o que é: mais misterioso que a Santíssima Trindade emais doloroso que a cruz de Cristo?” Claro que Édipo não conseguiria resolver enigma tãoterrível, a Esfinge ato contínuo o devoraria, o que nos teria poupado do complexo de Édipo esuas sequelas psicanalíticas. Fosse o pai ou a mãe de um adolescente, a resposta sairia deum pulo: “é o meu filho, é o meu filho...” Entretanto, mesmo sabendo que não é possível decifrar enigma tão obscuro, por puracompaixão dos pais desesperados, aceito o doloroso dever de revelar o que aprendi sobre oassunto. Em primeiro lugar, é preciso não confundir as coisas, e saber que há dois tipos deadolescência. O primeiro deles é uma doença benigna, parecida com sarampo: a “adolescência etária”.Trata-se de um período da vida que vai, grosso modo, dos 13 aos 19 anos. Esse tipo deadolescência existiu sempre, todos passamos por ela, é um fenômeno individual, normalmentese cura por si mesmo, e raramente deixa sequelas. Caracteriza-se por transformações físicas epsicológicas. A voz se altera, aparecem os pêlos nos devidos lugares, desenvolvem-se osórgãos sexuais, e os piões e as bonecas são trocados por brinquedos mais interessantes. Em segundo lugar há uma outra adolescência, que mais se parece com a varíola pelagravidade dos sintomas: é a “adolescência otária”, a única que me interessa. Trata-se de umfenômeno cultural moderno, de natureza essencialmente coletiva e caracterizado por umaperturbação nas faculdades do pensamento, perda do contato com a realidade, alucinaçõespsicóticas, que não raro assumem a forma de zombaria social, como é o caso das pichaçõesde muros e monumentos, até os rachas em alta velocidade que, frequentemente, terminam emvelórios. A psicologia behaviorista, iniciada por Pavlov e desenvolvida por Skinner, deu umainestimável contribuição ao estudo do comportamento humano, mostrando que é possívelentender o homem pelo estudo dos animais. Cães, cobaias e ratos foram e são amplamenteusados para tal fim. Ao que me consta, entretanto, nenhum animal foi encontrado que seprestasse ao estudo da adolescência, o que explica a pobreza dos nossos conhecimentosnesta área. 6
  7. 7. 7 Por muitos anos tive escrúpulos de tornar pública minha descoberta revolucionária.Lembrava-me de Darwim, que foi cruelmente perseguido e ridicularizado por haver reveladonosso parentesco com os símios. Temi sofrer retaliações se revelasse que o enigma dosadolescentes pode ser decifrado se estudarmos o comportamento social e psicológico dasmaritacas... Sim, as maritacas... Mesmo sob exame superficial, as semelhanças saltam aos olhos. Para começar, andam sempre em bandos, maritacas e adolescentes. Uma maritacasolitária e um adolescente solitário são aberrações da natureza. Daí o horror que osadolescentes têm da casa: na casa eles estão separados do bando. Havendo cortado o cordãoumbilical que os ligava aos pais, eles o substituíram por um outro cordão umbilical, o fio dotelefone, pelo qual eles se mantêm permanentemente ligados uns aos outros. Eles nãoconseguem ficar sozinhos, porque sentem muito frio Depois, são todas iguais, as maritacas. E também os adolescentes. Você já viu umaadolescente se vestir diferente das outras para a festa? Os tênis têm de ser da mesma marca.Os jeans, da mesma grife. A Pachá é um templo onde os adolescente celebram suasigualdades. Sabiás não padecem de crise de identidade. São aves solitárias e por isso cantam bonitode fazer chorar. Quanto eles cantam todo mundo se cala e escuta. As maritacas são o oposto.Gritam todas ao mesmo tempo. Deus o livre (não me livrou) de assentar-se próximo a umamesa de adolescentes, no Pizza Hut... Dizem sempre a mesma coisa, dizem sempre igual,dizem sem parar. Mas eles nem ligam. Porque ninguém escuta mesmo. E, finalmente, maritacas e adolescentes não se importam com a direção em que estãoindo. Importam-se, sim, com o “agito” enquanto vão. Mas não terminou. Em ocasião futura farei revelações ainda mais espantosas. Espero quevocê tenha percebido que a essência do que estou dizendo se resume nisto: em situaçõesquando chorar é inútil, só nos resta dar risada. Isso, é claro, até que haja cacos a seremcatados... (Alves,Rubem.Sobre o Tempo e a Eternidade.Campinas-SP:Ed. Papirus,1997. p.p 25/27) 7
  8. 8. 8 A amizade Lembrei-me dele e senti saudades... Tanto tempo que a gente não se vê! Dei-me conta,com uma intensidade incomum, da coisa rara que é a amizade. E, no entanto, é a coisa maisalegre que a vida nos dá. A beleza da poesia, da música, da natureza, as delícias da boacomida e da bebida perdem o gosto e ficam meio tristes quando não temos um amigo comquem compartilhá-las. Acho mesmo que tudo o que fazemos na vida pode se resumir nisto: abusca de um amigo, uma luta contra a solidão... Lembrei-me de um trecho de Jean-Christophe, que li quando era jovem, e do qual nuncame esqueci. Ramain Rolland descreve a primeira experiência com a amizade do seu heróiadolescente. Já conhecera muitas pessoas nos curtos anos de sua vida. Mas o queexperimentava naquele momento era diferente de tudo o que já sentira antes. O encontroacontecera de repente, mas era como se já tivessem sido amigos a vida inteira. A experiência da amizade parece ter suas raízes fora do tempo, na eternidade. Um amigoé alguém com quem estivemos desde sempre. Pela primeira vez, estando com alguém, nãosentia necessidade de falar. Bastava a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro. “Christophe voltou sozinho dentro da noite. Seu coração cantava ‘Tenho um amigo, tenhoum amigo!’ Nada via. Nada ouvia. Não pensava em mais nada. Estava morto de sono eadormeceu apenas deitou-se. Mas durante a noite foi acordado duas ou três vezes, como quepor uma idéia fixa. Repetia para si mesmo: ‘Tenho um amigo’, e tornava a adormecer.” Jean-Christophe compreendera a essência da amizade. Amiga é aquela pessoa em cujacompanhia não é preciso falar. Você tem aqui um teste para saber quantos amigos você tem.Se o silêncio entre vocês dois lhe causa ansiedade, se quando o assunto foge você se pões aprocurar palavras para encher o vazio e manter a conversa animada, então a pessoa comquem você está não é amiga. Porque um amigo é alguém cuja presença procuramos não porcausa daquilo que se vai fazer juntos, seja bater papo, comer, jogar ou transar. Até que tudoisso pode acontecer. Mas a diferença está em que, quando a pessoa não é amiga, terminado oalegre e animado programa, vêm o silêncio e o vazio ---- que são insuportáveis. Nessemomento o outro se transforma num incômodo que entulha o espaço e cuja despedida seespera com ansiedade. Com o amigo é diferente. Não é preciso falar. Basta a alegria de estarem juntos, um aolado do outro. Amigo é alguém cuja simples presença traz alegria independentemente do quese faça ou diga. Amizade anda por caminhos que não passam pelos programas. 8
  9. 9. 9 Uma estória oriental conta de uma árvore solitária que se via no alto da montanha. Nãotinha sido sempre assim. Em tempos passados a montanha estivera coberta de árvoresmaravilhosas, altas e esguias, que os lenhadores cortaram e venderam. Mas aquela árvore eratorta, não podia ser transformada em tábuas. Inútil para os seus propósitos, os lenhadores adeixaram lá. Depois vieram os caçadores de essências em busca de madeiras perfumadas.Mas a árvore torta, por não ter cheiro algum, foi desprezada e lá ficou. Por ser inútil,sobreviveu. Hoje ela está sozinha na montanha. Os viajantes se assentam sob a sua sombra edescansam. Um amigo é como aquela árvore. Vive de sua inutilidade. Pode até ser útil eventualmente,mas não é isso que o torna um amigo. Sua inútil e fiel presença silenciosa torna a nossasolidão uma experiência de comunhão. Diante do amigo sabemos que não estamos sós. Ealegria maior não pode existir. (ALVES,Rubem.O Retorno e Terno.13ªed.,Campinas,SP:Ed. Papirus,1998. p.p 11/13) As mil e uma noites Estou me entregando ao prazer ocioso de reler As mil e uma noites. O encantamentocomeça com o título que, nas palavras de Jorge Luís Borges, é um dos mais belos do mundo.Segundo ele, a sua beleza particular se deve ao fato de que a palavra mil é, para nós, quasesinônima de infinito. “Falar em mil noites é falar em infinitas noites. E dizer mil e uma noites éacrescentar uma além do infinito.” As mil e uma noites são a estória de um amor ---- um amor que não acaba nunca. Nãoexiste ali lugar para os versos imortais do Vinícius (Tão belos que o próprio Diabo citou em suapolêmica com o Criador): “Que não seja eterno, posto que é chama, mas que seja infinitoenquanto dure...”Estas são palavras de alguém que já sente o sopro do vento que dentro empouco apagará a vela: declaração de amor que anuncia uma despedida. Mas é isto que quem ama não aceita. Mesmo aqueles em quem a chama se apagousonham em ouvir de alguém, um dia, as palavras que Heine escreveu para uma mulher: “Eu teamarei eternamente e ainda depois.” É preciso que a chama não se apague nunca, mesmoque a vela vá se consumindo. A arte de amar é a arte de não deixar que a chama se apague.Não se deve deixar a luz dormir. É preciso se apressar em acordá-la (Bachelard).E, coisacuriosa: a mesma chama que o vento impetuoso apaga volta a se acender pala carícia dosopro suave... 9
  10. 10. 10 As mil e uma noites são uma estória da luta entre o vento impetuoso e o sopro suave.Ela revela o segredo do amor que não se apaga nunca. Um sultão, descobrindo-se traído pela esposa a quem amava perdidamente, toma umadecisão cruel. Não podia viver sem o amor de uma mulher. Mas também não podia suportar apossibilidade da traição. Resolve, então, que iria se casar com as moças mais belas dos seusdomínios, mas depois da primeira noite de amor, mandaria decapitá-las. Assim o amor serenovaria a cada dia em todo o seu vigor de fogo impetuoso, sem nenhum sopro de infidelidadeque pudesse apagá-lo. Espalham-se logo, pelo reino, as notícias das coisas terríveis queaconteciam no palácio real: as jovens desapareciam, logo depois da noite nupcial. Xerazade,filha do vizir, procura então o seu pai e lhe anuncia sua espantosa decisão: desejava tornar-seesposa do sultão. O pai, desesperado, lhe revela o triste destino que a aguardava, pois elemesmo era quem cuidava das execuções. Mas a jovem se mantém irredutível. A forma como o texto descreve a jovem Xerazade é reveladora. Quase nada diz sobresua beleza. Faz silêncio total sobre o seu virtuosismo erótico. Mas conta que ela lera livros detoda espécie, que havia memorizado grande quantidade de poemas e narrativas, que decoraraos provérbios populares e as sentenças dos filósofos. E Xerazade se casa com o sultão. Realizados os atos de amor físico que acontecem nasnoites de núpcias, quando o fogo do amor carnal já se esgotara no corpo do esposo, quandosó restava esperar o raiar do dia para que a jovem fosse sacrificada, ela começa a falar. Contaestórias. Suas palavras penetram os ouvidos vaginais do sultão. Suavemente, como música. Oouvido é feminino, vazio que espera e acolhe, que se permite ser penetrado. A fala émasculina, algo que cresce e penetra nos vazios da alma. Segundo antiquíssima tradição, foiassim que o deus humano foi concebido: pelo sopro poético do Verbo divino, penetrando osouvidos encantados e acolhedores de uma Virgem. O corpo é um lugar maravilhoso de delícias. Mas Xerazade sabia que todo amorconstruído sobre as delícias do corpo tem vida breve. A chama se apaga tão logo o corpo setenha esvaziado do seu fogo. O seu triste destino é ser decapitado pela madrugada: não éeterno, posto que é chama. E então, quando as chamas dos corpos já se haviam apagado,Xerazade sopra suavemente. Fala. Erotiza os vazios adormecidos do sultão. Acorda o mundomágico da fantasia. Cada estória contém uma outra, dentro de si, infinitamente. Não há umorgasmo que ponha fim ao desejo. E ela lhe parece bela, como nenhuma outra. Porque umapessoa é bela, não pela beleza dela, mas pela beleza nossa que se reflete nela... Conta a estória que o sultão, encantado pelas estórias de Xerazade, foi adiando aexecução, por mil e uma noites, eternamente e um dia mais. 10
  11. 11. 11 Não se trata de uma estória de amor, entre outras. É, ao contrário, a estória donascimento e da vida do amor. O amor vive neste sutil fio de conversação, balançando-se entrea boca e o ouvido. A Sônia Braga, ao final do documentário de celebração dos 60 anos do TomJobim, disse que o Tom era o homem que toda mulher gostaria de ter. E explicou: “Porque eleé masculino e feminino ao mesmo tempo...”O segredo do amor é a androgenia: somos todos,homens e mulheres, masculinos e femininos ao mesmo tempo. É preciso saber ouvir. Semexpulsá-lo por meio de argumentos e contra-razões. Nada mais fatal contra o amor que aresposta rápida. Alfange que decapita. Há pessoas muito velhas cujos ouvidos ainda sãovirginais: nunca foram penetrados. E é preciso saber falar. Há certas falas que são um estupro.Somente sabem falar os que sabem fazer silêncio e ouvir. E, sobretudo, os que se dedicam àdifícil arte de adivinhar: adivinhar os mundos adormecidos que habitam os vazios do outro. As mil e uma noites são a estória de cada um. Em cada um mora um sultão. Em cada ummora uma Xerazade. Aqueles que se dedicam à sutil e deliciosa arte de fazer amor com a bocae o ouvido (estes órgãos sexuais que nunca vi mencionados nos tratados de educaçãosexual...) podem Ter a esperança de que as madrugadas não terminarão com o vento queapaga a vela, mas com o sopor que a faz reacender-se. (ALVES,Rubem.O Retorno e Terno.13ªed.,Campinas, SP:Ed. Papirus,1998. p.p 23/26.) 11
  12. 12. 12 “...Até que a morte...” De vez em quando o diabo me aparece e temos longas conversas. E nada se parece como que dizem dele: rabo, chifres, patas de bode e cheiro de enxofre. Cavalheiro de voz mansa eracional, bem vestido, apreciador de desodorantes finos, me surpreende sempre pela lógicados seus argumentos. Nada de futilidades. Só fala sobre o essencial, estilo que aprendeu comDeus, nos anos em que foi seu discípulo. Percebi que era ele quando notei que trazia na suanão direita o martelo e, na esquerda, a bigorna. Pois esta é a sua missão: martelar as certezas,ferro contra ferro, para ver se sobrevivem ao teste. Já se preparava para dar a primeira martelada quando o interrompi: ---- Que é isso que você vai bater? Acho que vai se partir em mil pedaços. A coisa que estava sobre a bigorna me parecia feita de louça, um bibelô delicado e frágil,e lamentei que o diabo fosse esmigalhá-la. ---- Não tenho outra alternativa --- ele me respondeu. ---- É parte de uma aposta que fizcom Deus. Este bibelô delicado é o casamento. E você pode estar certo: não resistirá ao ferrodo meu martelo! Fiquei indignado que ele estivesse maquinando coisa tão perversa sobre coisa tãosublime, e passei ao ataque. ---- Não é à toa que os religiosos dizem que você é o anti-Deus. Deus junta. Você separa!A sua bigorna já destruiu muitos lares! Ele não tinha pressa. Descansou o seu martelo e me falou com voz imperturbada: ---- Já estou acostumado às calúnias. Mas não existe coisa alguma mais distante daverdade. Se há uma coisa que eu desejo é um casamento duradouro, até que a morte ossepare. Se ponho o casamento na bigorna é justamente para provar que a receita do Criadornão funciona. A minha é muito mais eficaz. O que digo pode parecer estranho, mas você medará razão se ouvir a minha história. Como o meu silêncio indicasse minha disposição em ouvi-lo, ele continuou a falar: ---- Todo mundo sabe que, no início, eu era a mão direita de Deus. Estávamos de acordoem tudo. Ele mandava, eu fazia. Foi por causa do casamento que nos separamos. Até entãotrabalhávamos juntos. Quando Deus disse que não era bom que o homem estivesse só, emelhor seria que ele tivesse uma mulher, eu concordei. Quando Deus disse que esta uniãoteria de ser sem fim, até a morte, eu aplaudi. Mas aí apareceu o pomo da discórdia. Para colaro homem na mulher, Deus foi buscar uma bisnaguinha de amor. Protestei. Argumentei: 12
  13. 13. 13 ---- Senhor! Amor é coisa muito fraca, de duração efêmera! Quem é colado com o amorlogo se separa! Citei o poeta: “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquantodure!” Amor é chama tênue, fogo de palha. Não pode ser imortal. No começo, aqueleentusiasmo. Mas logo se apaga. Chama de vela, fraquinha, que se vai com qualquer ventinho...Amor é bibelô de louça. Todos os amantes sabem disso, mesmo os mais apaixonados. E não épor isto que sentem ciúmes? Ciúmes é a consciência dolorosa de que o objeto amado não éposse: ele pode voar a qualquer momento. Por isto o amor é doloroso, está cheio deincertezas. Discreto tocar de dedos, suave encontro de olhares: coisa deliciosa, sem dúvida. Eé por isso mesmo, por ser tão discreto, por ser tão suave, que o amor se recusa a segurar.Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabem que,a qualquer momento, ele pode voar. Como construir uma união duradoura com cola tãofaquinha? Por isto os casais se separam, por causa do amor, pela ilusão de um outro amor.Qualquer tolo sabe que o pássaro só fica se estiver na gaiola. O amor é cola fraca paraproduzir um casamento duradouro porque no amor vive o maior inimigo da estabilidade: aliberdade. É preciso que o pássaro aprenda que é inútil ater as asas. Um casamento duradouroé aquele em que o homem e a mulher perderam as ilusões do amor. ----Foi aí que nos separamos --- ele continuou. ---- Não porque discordássemos que ocasamento deveria ser eterno. É isto que eu quero. Nos separamos porque não estávamos deacordo sobre o que é que junta um homem e uma mulher, eternamente. Deus é um romântico.Eu sou um realista. Perplexo, lhe perguntei então: ---- Qual foi então a sua proposta? Que cola deveria ser usada? Ele sorriu, confiante, e respondeu: ---- O ódio. Enganam-se aqueles que dizem que o ódio separa. A verdade é que o ódiojunta as pessoas. Como disse um jagunço do Guimarães Rosa, quem odeia o outro, leva ooutro para a cama. Diferente do fogo da vela, o fogo do ódio é como um vulcão. Não se apaganunca. Por fora pode parecer adormecido. No fundo, as chamas crepitam. A diferença entre osdois? O amor, por causa da liberdade, abre a mão e deixa o outro ir. No amor existe apermanente possibilidade de separação. Mas o ódio segura. Não tenha dúvidas. Oscasamentos mais sólidos são baseados no ódio. E sabe por que o ódio não deixa ir? Porqueele não suporta a fantasia do outro, voando livre, feliz. O ódio constrói gaiolas, e ali dentroficam os dois, moendo-se mutuamente numa máquina de moer carne que gira sem parar, cadaum se nutrindo da infelicidade que pode causar no outro. As pessoas ficam juntas para se 13
  14. 14. 14torturarem. Não menospreze o poder do sadismo. Ah! A suprema felicidade de fazer o outroinfeliz! Com estas palavras ele tomou do seu martelo e voltou ao seu trabalho: ---- Tenho de provar que eu, e não Deus, sou quem sabe a receita do casamento que só amorte pode separar. Eu me persignei três vezes e compreendi que o inferno está mais perto do que eupensava. (ALVES,Rubem.O Retorno e Terno.13ªed.,Campinas SP:Ed. Papirus, 1998. p.p 31/34) 14
  15. 15. 15 Aos (Possíveis) Sabiás Alguém que não conheço, após ver as bolhas de sabão que soprei a propósito dosadolescentes, concluiu que eu devo ter alguma coisa contra eles: “O Rubem não gosta dosadolescentes.” Há uma pitada de verdade nisso. E os pais concordariam comigo: se eles ficam semdormir por causa dos seus filhos é porque há algo neles de que eles não gostam. Segostassem, dormiriam bem e não procurariam terapeutas em busca de auxílio. A vida é maiscomplexa do que gostar ou não gostar: that is not the question. A questão é gostar e nãogostar, ao mesmo tempo. É isso que faz sofrer. Imaginei que esta pessoa, se visse Michelangelo furiosamente atacando o mármore amartelo e cinzel, perguntaria também: “Afinal, que tem Michelangelo contra o mármore? Sim, ele tem muito contra o mármore. Porque dentro dele está guardada a Pietá. Épreciso não ter dó do mármore para que a Pietá saia do seu túmulo. O amor, por Pietá, nãotem pietá... Onde estaria a Pietá se Michelangelo tivesse sido complacente com o mármore? Educação é arte. E não existe nada mais contrário à arte que deixar a matéria-prima dojeito como está. Só fazem isto aqueles que não sonham. Mas, desgraçadamente, ossentimentos de culpa paternos e maternos transformam-se em complacência, e seus martelose cinzéis transformam-se em gelatina. A pedra continua pedra. É preciso que se saiba que oamor é duro. Veio-me à memória um parágrafo de Nietzsche: Minha vontade ardente de criar me empurra continuamente na direção do homem. É assim que o martelo é também empurrado na direção da pedra. Oh, homens! Na pedra dorme uma imagem, a imagem das minhas imagens. Sim, ela dorme dentro da pedra mais feia e mais dura... Agora o meu martelo furiosamente luta contra a sua prisão. Pedaços de rocha chovem da pedra... Ridendo dicere severum: rindo, dizer as coisas sérias. O riso é o meu martelo e o meucinzel. Não sei se vocês notaram que, em tudo que escrevi sobre os adolescentes, alguémficou de fora. Ficaram de dentro os pais e suas aflições: foi para eles que escrevi. Ficaram dedentro os adolescentes e suas turmas: escrevi na esperança de que os pais lhes mostrassem omeu espelho, e eles ali também se vissem como maritacas e como portadores da síndrome deSansão. Desejei que eles, assim se vendo através dos meus olhos, vissem como eles sãoengraçados e divertidos: não é possível contemplar a sua loucura sem uma boa risada. E que 15
  16. 16. 16isso os fizesse rir de si mesmos. No momento em que rimos de nós mesmos o feitiço sequebra. Quem ficou de fora? O adolescente solitário: aquele que não tem turma, cujo telefone ficaem silêncio, que sábado à noite fica em casa ouvindo música no seu quarto... Quando saio a andar de manhã cedo passam por mim bandos de adolescentes indo paraa escola. Já consigo identificar os grupos, que vão alegremente maritacando suas coisas, naleve felicidade de pertencer a uma turma. Falam sobre beijos, transas, festas. Esses não me comovem. Comovem-se aqueles que estão sempre sozinhos. Sãodiferentes. Na roupa, no corpo, no jeito, no olhar fixado no chão. Não têm estórias nem debeijos nem de festas para contar. Comovo-me com eles porque eu também já fui assim. Fui umsolitário na minha adolescência. Menino de cidade pequena no interior de Minas, minha famíliamudou-se para o Rio de Janeiro. E o meu pai cometeu um grande erro, movido pelo desejosincero de me dar o melhor: matriculou-me num dos colégios da elite carioca, o famoso ColégioAndrews. Albert Camus diz que ele sempre havia sido feliz até que entrou no liceu --- no liceu elecomeçou a fazer comparações. Eu poderia ter escrito a mesma coisa. Ali, eu me descobrimotivo do riso dos outros. Eu falava devagar e cantado, dizia “uai” e falava os “erres” de carnee mar como falam os caipiras, torcendo a língua. Também os meus jeitos de vestir eram jeitosde caipiras. E o dinheiro que levava comigo era dinheiro de pobre. E os clubes que elesfrequentavam não eram o meu --- eu não frequentava clube algum. Claro que jamais fuiconvidado para as festinhas e, se tivesse sido convidado, não teria ido. E também jamaisconvidei um colega para ir à minha casa. Tinha medo que minha casa fosse pobre demais. E é isso que eu gostaria de dizer hoje aos adolescentes solitários, sem turma, sem festas,sem estórias de beijos e amores para contar, as noites de sábado em casa, o telefone emsilêncio: vocês são meus companheiros. Eu andei pelos caminhos em que vocês andam. Mas sou agradecido à vida por ter sido assim. Porque foi em meio ao sofrimento dessaterrível solidão que tratei de produzir minhas pérolas. “Ostra feliz não faz pérola.” Comeceientão a andar sozinho pelos caminhos onde os outros adolescentes não iam: a música, amística, a arte, a literatura, a poesia, a filosofia. Todos eles mundos solitários, onde só se entrasozinho. Andando por esses caminhos descobri aqueles que se pareciam comigo. Zaratustra,por exemplo, que se via como uma árvore crescendo à beira do precipício, seus longos galhosse estendendo sobre o abismo. Eu quis ser assim também. E foi então que comecei a olhar para as maritacas com um certo sentimento desuperioridade. Claro que os psicanalistas, ávidos de interpretações, se apressarão em meinformar que aquilo não passou de uma compensação pelo meu sentimento de inferioridade. 16
  17. 17. 17Que assim seja, sinistro Kleinianos! O fato é que, compensação ou não, a partir daí asalegrias que tive nas produções da minha solidão foram maiores que as tristezas da minhacondição de adolescente solitário. A solidão passou a ser, para mim, uma fonte de alegria. Eunão precisava gritar como maritaca para ser ouvido. As maritacas gritam, e todos as ouvem, mesmo sem querer. Mas o canto do sabiásolitário, ao final da tarde, em algum lugar da floresta, faz todo mundo se calar para poderouvir... Isso eu lhes digo, solitários: há muita beleza escondida na sua tristeza. Não tenham dóde si mesmos. Tratem de usar o martelo e o cinzel.... (ALVES,Rubem.Sobre o Tempo e a Eternidade.Campinas-SP:Ed.Papirus,1997. p.p 37/40) FRASES PARA REFLEXÃO “Não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço a partir do que fizeram de mim.” Jean-Paul Sartre “As ações não bastam quando os desejos ficam obsoletos e perdem o poder de seduzir.” Cristovam Buarque “...e o fim de vossa viagem será chegar ao lugar de onde partimos. E conhecê-lo então pela primeira vez.” T.S. Eliot O amor é a coisa mais alegre. O amor é a coisa mais triste. O amor é a coisa que eu mais quero. Adélia Prado “Porque, se não o sabem, disto é feita a vida, só de momentos. Não percam o agora.” Jorge Luis Borges 17
  18. 18. 18Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira-rio.Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamosQue a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.(Enlacemos as mãos).Amemo-nos tranquilamente...Colhamos flores. Pega tu nelas e deixa-asNo colo, e que o seu perfume suavize o momento... Ricardo Reis HISTÓRIA - Renzo Martins Belo Horizonte, Novembro de 1999. 18
  19. 19. 19 “Aprender é como comer” A informação deve ser degustável e adentrar na pessoa assim como a comida. Oprofessor é o cozinheiro, que vai preparar a informação de forma que o aluno possa consumi-ladurante a aula, o momento da refeição. Portanto, existe uma correlação entre a mãe cozinheirae o professor, a comida e a informação, o filho e o aluno, a sala de jantar e a sala de aula, ahora da refeição e a da aula. O aluno volta para casa com a informação dentro de si e aí começa a segunda etapa doprocesso: terá de digeri-la, isto é, pegar seus elementos importantes, transformá-los emconhecimento e relacionar este com os conhecimentos, a fim de ampliar sua sabedoria. A digestão da informação não depende do cozinheiro, da mãe ou do professor. Cabe exclusivamente ao aluno. Assim como a digestão de uma feijoada rouba o sangue das outras áreas, a digestão deuma informação densa requer atenção especial. Após uma feijoada, ninguém se submete auma atividade física intensa. Do mesmo modo, para estudar um conteúdo complexo, a pessoanão pode se distrair com outras coisas. Agora, se a informação for uma refeição leve comouma canja de galinha, que se serve aos inválidos ou a quem não pode interrromper suasatividades para comer, a digestão é fácil e rápida. A informação fácil também pode serincorporada sem muito esforço Um mesmo texto às vezes é bem fácil para alguns e terrivelmente pesado e difícil paraoutros. Depende das aptidões individuais. Assim como o organismo tem facilidade para digerircertas comidas e dificuldade para digerir outras, a absorção da informação também variaconforme o talento de cada um, isto é, conforme a facilidade para determinadas matérias e adificuldade para outras. Conhecimento fácil é o que se adapta às aptidões da pessoa. A importância de construir imagens O interesse é um ingrediente imprescindível em todos os casos. Equivale à fome. É eleque nos impele a absorver tudo. A sabedoria é igual à energia, utilizada automaticamente nocotidiano, nos seus relacionamentos, atitudes e pensamentos. Seu uso, porém, deve sercontrolado pela escola. 19
  20. 20. 20 Logo, não adianta apenas ter sabedoria e não saber expressá-la. É muito comum nosexames vestibulares um aluno saber muito, porém produzir pouco devido à sua dificuldade deexpressão. Isso também precisa ser exercitado, pois ver o produto facilita a produção. O grande ácido que digere essa comida é a imaginação. O conhecimento integra-se muito facilmente quando asssociado à imagem. É como se estivéssemos vendo o que foi dito. Registramos mais as situações vividas do que as simplesmente lidas. A não-digestão da informação faz com que produção seja exatamente igual à recebida.É como se o feijão consumidono almoço saísse do organismo inteirinho, como acontece nasfezes de cianças pequenas, sinal de que comeu se mastigar. Passou pelo organismo e não foiabsorvido. É um alimento descartável. Do mesmo modo, há informações descartáveis: uma vezdada a resposta ao professor ou terminada a prova, desaparecem. Como o conhecimento é abstrato, o processo fisico da digestão alimentar é muitodiferente do processo abstrato da digestão da informação. Eventualmente, a integração doconhecimento à sabedoria pode ocorrer na aula; no entanto, o mais comum é o aluno entendera matéria e confundir “eu já vi” com “eu já sei” e passar para o tópico seguinte sem saberdireito o anterior. A segunda etapa será realizada em casa.(TIBA,Içami.Disciplina:Limite na medida certa.23ªed.,Ed. Gente:São Paulo,1996.pág.:88/90) 20

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