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Cooperativismo fortalece produtores e fomenta a modernização da cafeicultura no século 21

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Matéria de autoria de Flávio Bredariol e Marcos Fidêncio que aborda a relação do cooperativismo com a cafeicultura, trazendo o exemplo vitorioso do Cerrado e a falta de uma cooperativa cafeeira em Garça.

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Cooperativismo fortalece produtores e fomenta a modernização da cafeicultura no século 21

  1. 1. Garça (SP), Outubro/2017Página 04 Cooperativismo fortalece produtores e fomenta a modernização da cafeicultura no século 21 Não parece, mas há muita história por trás de uma simples e inocente xícara de café. Desde o cultivo da planta pelos árabes, na antiguidade, e sua posterior descoberta na região da Etiópia, por volta do século 9 por um pastor de cabras, até os dias de hoje, muita coisa ocorreu. Na Europa, o café foi introduzido no século 16 e, no Brasil, chegou no início do século 18, trazido pelo militar Mello Palheta, que roubou uma muda da esposa do governador da Guiana Francesa. Só esses fatos já seriam suficien- tes para encher a prateleira de uma biblioteca. Mas há um capítulo im- portante na história secular do café que merece registro. Esse capítulo diz respeito ao desen- volvimento da cultura, à sua renovação e à profissionaliza- ção da atividade cafeeira graças aos investimentos feitos pelas cooperativas. Por isso, antes de tratar das cooperativas de café, é fundamental saber um pouco mais sobre o cooperativismo, que se desenvolveu da simples ideia de comprar montantes maiores de alimentos para que se pudesse obter preços mais atrativos. Essa ação básica ocorreu há mais de 170 anos no interior da Inglaterra e envolveu quase três dezenas de trabalhadores, que sofriam para garantir o seu sustento ante os altos preços dos comércios locais. Essa ini- ciativa deu a largada para um sistema que ganharia corpo. A união dos trabalhadores ingle- ses, 12 anos depois da primeira compra, já envolvia uma teia de mais de 3 mil sócios. A experi- ência foi um sucesso e se espa- lhou pelo mundo. No Brasil — O cooperativis- mo chegou ao Brasil no final do século 19, com a primeira cooperativa conhecida sendo a de Ouro Preto, Minas Gerais, focada em produtos agrícolas. E é na agricultura que o coo- perativismo brasileiro, até hoje, vem apresentando muitos des- taques. Um dos segmentos que tem o cooperativismo como O CAFEICULTOR JORGE NAIMEG, DE COROMANDEL/MG: para ele, o “cooperativismo é um instrumento agregador, no qual os diversos produtores de uma região podem atuar de forma conjunta em busca de resultados”. parceiro inato é o cafeeiro. Nos idos dos anos 60 do século pas- sado, o IBC (Instituto Brasileiro do Café), o então órgão forte da economia cafeeira do país, esti- mulou a criação de cooperativas de café, vendo nelas um potencial para garantir maior força para os produtores e para as regiões que plantavam o grão. Pouco a pouco, do Paraná ao sul de Minas Gerais, passando pelo interior paulista, Cerrado, Rio de Janeiro, entre outras regi- ões, se observou o florescimento de várias cooperativas. Muitas de- las ganharam força, amealharam associados e tiveram papel chave na condução da cafeicultura na- cional, mesmo diante de desafios variados, como os problemas cli- máticos, as crises de preço, o sur- gimento de novos concorrentes internacionais, entre outros. Não seria exagero dizer que as cooperativas tiveram pa- pel chave no “renascimento” da cafeicultura brasileira. Várias de- las, atuando em apoio a entidades de pesquisa e desenvolvimento, abriram espaço para a criação de novas variedades resistentes a doenças e pragas como a broca, o bicho mineiro, a cigarrinha, o nematoide, entre outras. Atua- ram na busca de soluções para problemas como o da ferrugem e também trouxeram ao mercado novas ideias sobre plantio, espa- çamento, irrigação e outras ações, que fizeram com que o país tives- se uma das maiores produtivida- des da cafeicultura mundial. Cerrado Mineiro — São muitos os exemplos de sucesso da relação entre a cafeicultura e o cooperati- vismo. Um que salta aos olhos é verificado no Cerrado Mineiro. A região é reconhecida pelos cafés de alta qualidade e pela aposta na irrigação e vem, ano a ano, conse- guindo colocar em evidência sua cafeicultura por ações focadas em sustentabilidade, certificação e outros atributos que se mostram cada vez mais demandados por compradores internacionais. O trabalho das cooperativas nesse sentido já vem sendo estu- dado e estimulado há anos, mas, em 2015, um plano de desenvol- vimento, de cinco anos, foi divul- gado, reforçando a denominação de origem “Região do Cerrado Mineiro”, que tem como foco o reconhecimento da qualidade dos cafés locais e a diferenciação por meio da demarcação dessa área e sua devida certificação. Essa foi a primeira denominação de origem para café no Brasil. Para se conquistar esse status houve a união de várias cooperativas locais, como Ca- pal, Carpec, Coocacer, Expocac- cer, Coagril, Coopa e Montecce, além de algumas associações de produtores. Tal união permitiu aos produtores contarem com melhores condições para desen- volver a cultura cafeeira, realizar a comercialização do produto e também passarem a ter uma es- trutura sólida para investir em melhorias em suas propriedades, privilegiando, principalmente, as- pectos ambientais e, assim, tendo condições para obter certificações e outros reconhecimentos, que são referências junto aos com- pradores europeus, asiáticos ou norte-americanos. O cafeicultor Jorge Naimeg, da Fazenda Pântano, em Coro- mandel, vê no cooperativismo um instrumento agregador, no qual os diversos produtores de uma região podem atuar de forma conjunta em busca de resultados concretos. “O cooperativismo é isso: todo mundo junto. Ele consegue enga- jar as pessoas para que elas façam sua parte e, assim, seja possível implementar mudanças”, avaliou. O produtor vem desenvol- vendo diversas ações em busca de obter melhorias constantes, não apenas no grão colhido, mas tam- bém em aspectos ambientais e so- ciais. Para tanto, conta com o apoio técnico da Expocaccer. Seu pai foi um dos primeiros associados dessa cooperativa e hoje os filhos — to- dos cafeicultores — também são associados e participam ativamente das propostas elaboradas localmen- te para a consolidação da denomi- nação de origem “Região do Cer- rado Mineiro”. “A cafeicultura de hoje não pode produzir se não levar em conta aspectos como a questão ambiental. Pensamos o que cada produtor pode fazer nessa área para termos melhores resultados. Cada propriedade preserva suas APPs (Áreas de Preservação Per- manentes), recupera nascentes, planta árvores nativas, entre ou- tros procedimentos”, explicou. Preservar dá retorno financei- ro — A Fazenda Pântano segue diversos procedimentos, por meio de acompanhamento do corpo téc- nico da Expocaccer, o que a fez ob- ter várias certificações, como, por exemplo, a Rainforest Alliance, que “abre várias portas” para o café nos mercados internacionais. Tal cer- tificação atua como colaboradora do programa AAA da Nestlé, que busca a aquisição de grãos para a marca Nespresso, comercializada em grande parte do planeta. A preocupação com esses aspectos por parte das coope- rativas do Cerrado é tão efetiva que uma delas conta até mesmo com um Departamento de Sus- tentabilidade. É a Expocaccer, que criou essa unidade com o foco em levar aos cooperados os aspectos necessários para que suas fazendas possam ter as cer- tificações que o mercado exige. “Nosso foco é a susten- tabilidade e agregar valor. É difícil preservar se não houver retorno financeiro. Mas quem se volta para os aspectos sus- tentáveis tem um ganho, que é o de conseguir entrar em novos mercados e poder lucrar com isso. Posteriormente, o produtor começa a enxergar e vê aspectos gratificantes, como a preserva- ção de matas, como a satisfação dos funcionários”, explicou Pe- trônio Primo Naves Júnior, co- ordenador do Departamento. Essa unidade do Expocac- cer tem uma equipe de campo, que faz todo o levantamento das propriedades. Num segun- do momento, outra equipe ela- bora os projetos ambientais e sociais e dá todo o suporte para aspectos como a certificação, venda, controle fiscal, de arma- zenagem, entre outros. “Nós vemos que os pró- prios produtores estão muito mais conscientes, já nos trazem várias ideias. Eles estão apos- tando nos aspectos sustentáveis e vendo que contar com uma certificação, como a da Rain- forest, por exemplo, permite ganhos importantes”, comple- mentou Naves Júnior. EM 2015, as cooperativas mineiras, unidas, obtiveram a denominação de origem “Região do Cerrado Mineiro”. (Por Flávio Bredariol e Marcos Fidêncio) (CONTINUA NA PÁGINA 5)
  2. 2. Garça (SP), Outubro/2017 Página 05 Garça: sem cooperativa pro- dutores sofrem — Mas, e sem uma cooperativa é possível de- senvolver bem a atividade ca- feeira? Tome-se o exemplo de Garça, cidade do interior paulis- ta com 45 mil habitantes e que já esteve entre as maiores produ- toras do grão em todo o país. Em 1962, alguns produ- tores garcenses de café perce- beram a importância da união da classe em torno de objeti- vos comuns. Nesse momento, começava a nascer a Garcafé (Cooperativa dos Cafeicultores da Região de Garça). O deses- tímulo e a intranquilidade do cafeicultor eram grandes em 1962, consequência de uma crise que se arrastava desde a grande depressão mundial de 1929. Era preciso aumentar a produtividade das lavouras cafeeiras, melhorar os preços e conhecer o momento certo para a comercialização. Tendo em vista esses fatos, esse grupo de idealistas verificou a neces- sidade de se desenvolver uma luta conjunta. A partir daí, sur- giu a cooperativa, exatamente em 21 de abril de 1962. Quem se lembra bem dessa fundação é o cafeicultor e engenheiro agrônomo Carlos Ferrari, que hoje tem 86 anos de idade e foi um dos protago- nistas na criação da entidade. Na época, foi ele quem con- vocou uma reunião na Câmara Municipal para se discutir o as- sunto pela primeira vez, com a participação do Departamento de Cooperativismo da Secreta- ria da Agricultura de São Paulo. Segundo Carlos Ferrari, no final dos anos 50 e início dos 60, o parque cafeeiro local estava decadente. “Muitas lavouras antigas estavam sendo erradicadas. Mu- nicípios que tinham 40 milhões de pés de café ficaram sem nenhum. O governo pagava para que erra- dicássemos”, lembrou. “Eu, como agrônomo da Casa da Agricultura de Garça, na época, notei que era necessária uma renovação. Então nós lançamos uma campanha com novos métodos (de plantio e de tratos culturais).” Garça foi então o municí- pio que iniciou a renovação da cafeicultura nos anos 60 na região oeste paulista, com a campanha “Renovar para Salvar”. Essa se- mente foi disseminada pelo Brasil todo e a própria cafeicultura que hoje se verifica em Minas Gerais é herdeira desse movimento. Um detalhe fundamental no sucesso dessa empreitada é a participação decisiva da Garcafé, uma coope- rativa que já nascia grande, com força política e credibilidade. A primeira diretoria, pre- sidida por Jaime Nogueira Mi- randa, logo foi plenamente re- conhecida pelo IBC, que, num fato inédito ocorrido em 20 de janeiro de 1963, outorgou carta à cooperativa, elevando-a ao grau de exportadora. Esta autorização normalmente era concedida às empresas com mais de um ano de funcionamento comprovado. No final de 1963, a cooperativa já contava com o expressivo nú- mero de 118 associados. No ano seguinte, somaram-se a eles mais 107 cooperados. “Sem o apoio da coopera- tiva, não teríamos condições de promover essa campanha de re- novação da cafeicultura em Garça e região. O apoio foi total”, des- tacou Carlos Ferrari. A cooperativa investia em pesquisa de novas variedades de café no Campo Experimental “Dr. Alcides de Carvalho”. Por meio do corpo de agrônomos do seu departamento técnico, desenvol- via novos tratos culturais, fornecia insumos com loja própria e pres- tava total assistência aos produto- res, fossem eles grandes ou peque- nos. E ainda dava total apoio na comercialização da safra e na me- lhoria das propriedades, como na conservação de áreas de preserva- ção ou na proteção de nascentes. Ao longo dos seus mais de 40 anos de existência, a Garcafé também teve papel central e par- ticipação ativa junto ao governo na formulação da política cafeei- ra do país. A cooperativa sempre esteve envolvida nas tomadas de decisões e, mais que isso, teve representantes nos principais ór- gãos do setor. Crise e fim – Apesar da pujan- ça das décadas de 60, 70 e 80 do século passado, a cooperativa aca- bou entrando em declínio. No iní- cio do século 21, a Garcafé passou a apresentar dificuldades financei- ras, chegando ao ponto de não conseguir equacionar suas dívidas. Fechou as portas em 2005. O cafeicultor Carlos Ferra- ri, que chegou a contar com 50 hectares de café plantados, hoje tem apenas dez. Ele classifica o fechamento como uma “tragé- dia” para a atividade. Na área em que erradicou boa parte da sua lavoura cafeeira, atualmente ele cria búfalos. “O cafeicultor hoje está completamente desamparado. Ele está na mão de firmas comprado- ras de café que fazem o preço que bem entendem. É difícil com- prar insumos. O pequeno pro- dutor que compra insumos em pequena quantidade e não pode adquirir uma carreta de adubo, por exemplo, está desamparado e perdendo mercado. Os pequenos e médios estão desaparecendo. É claro que se a cooperativa existis- se nós teríamos outras condições. O nosso parque cafeeiro de Garça diminuiu muito”, lamentou. Liquidante — Uma Comissão Li- quidante foi instalada logo após o fechamento da Garcafé. Seu presi- dente é o cafeicultor José Wilson Lopes, para quem o insucesso da cooperativa começou a partir de 1990. Segundo ele, através da atuação e influência da Garcafé, os produtores tinham condições de obterem melhores preços para o produto. Portanto, o fechamen- to provocou certa desestrutura- ção da atividade na região. Lopes lembrou ainda que, além do apoio irrestrito aos coo- perados, a Garcafé também cum- pria um papel social, pois gerava muitos empregos e colaborava com diversas entidades assisten- ciais na cidade. “É bom destacar que, entre 1979 e 1989, a cooperativa foi a responsável pela instalação da he- modiálise na Santa Casa de Mise- ricórdia de Garça”, disse ele, que ainda tem esperanças de que será possível reativar a cooperativa. “Uma área como a nos- sa, com o tipo de café que pro- duzimos, não pode mais ficar sem uma cooperativa. O café de Garça é procurado em vá- rios lugares do mundo, mas os compradores europeus exigem um produto de boa qualidade”, apontou. Segundo José Wilson Lo- pes, a dívida da Garcafé é hoje de R$ 138 milhões. Mas ele trabalha junto ao governo para tentar convencer o governo a retirar multas e juros que repre- sentam boa parte desse valor. “Temos que negociar nossa dívida dentro do que podemos pagar. E parece que o governo federal começou a entender. Há um ano pagamos R$ 6 milhões de INSS e esta- mos prestes a liquidar uma dí- vida de R$ 63 milhões junto ao governo, dos quais teremos um desconto de R$ 40 milhões. Com isso, acredito que a coo- perativa poderá voltar a operar para que possamos pagar o res- tante do que devemos a forne- cedores e a alguns cooperados”, encerrou ele. Café e cooperativismo há muito andam juntos, com re- sultados muito expressivos. Da renovação da cultura nos anos 60 até a aposta em denomina- ção de origem e certificação dos dias atuais, se depreende que as cooperativas têm um papel diferenciado em permitir que a atividade cafeeira se desenvolva de maneira efetiva. Nas regiões onde essas empresas continuam fortes e ativas, verificam-se re- sultados que, de modo algum podem ser desprezados, sejam em aspectos econômicos, sus- tentáveis, ambientais ou sociais. PRIMEIRO EMBARQUE DE CAFÉ DA GARCAFÉ, no Porto de Santos, em de 1963: o IBC elevou a coope- rativa ao grau de exportadora em 20 de janeiro daquele mesmo ano, com menos de nove meses de operação. JAIME NOGUEIRA MIRANDA E ALCIDES DE CARVALHO no an- tigo campo experimental da Garcafé, que levava o nome do pesquisador. PARA CARLOS FERRARI, sem o apoio da cooperativa não haveria a renovação do parque cafeeiro nos anos 60. ACIMA, A GARCAFÉ DE PATROCÍNIO/MG e abaixo, a matriz da cooperativa em Garça: ambas estão em liquidação há 12 anos. JOSÉ WILSON LOPES acredita que será possível rea- tivar a Garcafé: “Garça não pode ficar sem cooperativa”.

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