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ENIGMAS
DA CIÊNCIA
N.º 215
Março 2016
Mensal l Portugal
€ 3,50 (Continente)
Saúde I Natureza I História I Sociedade I Ciên...
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Motor 	 8
Super Portugueses 	 10
Histórias do Tejo	 14
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Observatório
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oficial! Quando o LIGO voltou à ativi-
dade, depois de uma série de melho-
ramentos, em setembro de ...
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que o andamento dos astros no céu estava
ligado às migrações animais, primeiro, e, um
pouco depois, à época...
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e tudo correr como previsto, a ESA
enviará para marte, em meados de
março, a primeira das duas sonda...
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Opel está a desenvolver um sistema
que evita acidentes, tomando conta
da direção. Em situações em que o
carro que segue ...
Aindústria automóvel está subme-
tida a regulamentos, impostos
pelos vários países e instituições de
segurança rodoviária,...
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É tempo, mais que tempo, de fazer justiça
a este rei tão caluniado. Em boa parte,
a Restauração de 1640 foi obra s...
Interessante 11
D.JOÃO IV (1604–1656)
Umaúnicabatalha
Durante o reinado de D. João IV, a
única batalha importante con­tra
...
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JOÃO AGUIAR
Este artigo foi publicado originalmente
na SUPER 125. João Aguiar faleceu em 2010.
de Noro­nha, que f...
13Interessante
PROCURE NUMA BANCA PERTO DE SI
Se quiser recebê-la pelo correio, fale com a Sara Tomás:
assinaturas@motorpr...
SUPER14
No início do século XVII, a nau Nossa Senhora
dos Mártires, carregada com pimenta da Índia,
desfez‑se contra as ro...
Interessante 15
Naquele 27 de março de 1605, no entanto, a
imponente embarcação era apenas mais uma,
no meio da armada rea...
16 SUPER
por um jovem japonês, convertido ao cris‑
tianismo e rebatizado de Miguel. A tripular o
barco iam 60 marinheiros ...
17Interessante
menos quase toda a gente foi resgatada. A 15
de setembro, uma sexta‑feira, a Nossa Senhora
dos Mártires dep...
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ção de rituais pagãos ou religiosos,
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Júpiter já faz parte do céu observável ao
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deste ano e é muito frequente o...
SUPER20
Mapa do Céu
Vire-se para sul e coloque a revista sobre
a cabeça, de modo que a seta fique apon­ta­da
para norte. S...
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NORTE
SUPER22
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uando se fala de heróis (ou vilões,
conforme o ponto de vista) da era
da internet, os nomes que ime-
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micas. Ora, o que a teoria de redes nos diz é
que quanto mais extenso for o alcance de uma
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Animais
Cachorros
ESPERTOS
A inteligência canina
Múltiplos estudos e experiências confirmam
o que os seus donos já...
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Reconhecem
os donos
até no ecrã
da televisão
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que ele não pode ser ap...
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EMPATIA E EMOÇÕES
Como primatas, os seres humanos possuem
a capacidade de se colocarem na pele dos
outros,...
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INTERPRETAÇÃO DE SINAIS
Desde que nasce, antes mesmo de saber
falar, o Homo sapiens comunica com quem
o rodeia at...
29Interessante
2ª A 6ª FEIRA, 9H30-13H00 E 14H30-18H00
[Fax] 21 415 45 01
[E-mail] assinaturas@motorpress.pt
LINHA DIRETA ...
SUPER30
Imobilizados
na PEDRA
Paleontologia
Os fósseis mais impressionantes
Nem todos os organismos fossilizados estão
imó...
De garras de fora. Não deverá ter
sido muitro diferente desta ilustração
a cena que ficou gravada na pedra do
deserto de G...
SUPER32
fósseis muito bem preservados começavam a
estabelecer esse parentesco com crescente
força.Duasgotasacabaramporfaze...
Interessante 33
que sobreviveram nos mares e oceanos do
planeta durante quase 300 M.a. Por tudo isto,
as fotos fossilizada...
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Talvez os jovens dinossauros
ajudassem a criar os mais novos
não é fortuita e que se trata de etofósseis, isto
é, ...
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  1. 1. ENIGMAS DA CIÊNCIA N.º 215 Março 2016 Mensal l Portugal € 3,50 (Continente) Saúde I Natureza I História I Sociedade I Ciência ITecnologia I Ambiente I Comportamento 5601753002096 00215 www.superinteressante.pt facebook.com/RevistaSuperInteressante Os grandes De onde vieram • O universo • A matéria • A vida • A consciência Olimpíadas A estreia portuguesa Psicologia O que é o presente? Animais A inteligência canina Nordeste Por detrás das máscaras
  2. 2. 2 SUPER
  3. 3. 3Interessante
  4. 4. Observatório 4 Motor 8 Super Portugueses 10 Histórias do Tejo 14 Caçadores de Estrelas 18 Sociedade Digital 22 Flash 76 Marcas & Produtos 98 Há três edições, registávamos a passagem de um século sobre o momen- to em que Albert Einstein apresentou a sua teoria da relatividade ge- ral, incluindo nela a gravitação. Outro artigo apontava pequenas discrepân- cias entre as previsões da teoria e algumas medições: o puzzle einsteiniano não está a encaixar tão bem como devia. Nesta edição, regressamos ao tema por outra via: há ou não há matéria escura, e que consequências tem isso para a teoria (ver pág. 50)? Sabemos que há buracos negros e temos uma teoria que nos ajuda a compreender como se formaram. No entanto, surge um problema: no centro do buraco negro, há uma singularidade, que é a etiqueta que os físicos inventaram para caracterizar condições que escapam de todo às leis da física. A singularidade é um ponto onde espaço e tempo deixam de existir, onde a densidade da matéria e a temperatura se tornam infinitas... Ops! Infinito? Para muitos cientistas, se as equações de uma teo- ria dão resultados infinitos, é porque a teoria não é boa, tem de ser corrigida. Há muita gente a trabalhar nisso, assim como há muita gente a verificar e reverificar todas as previsões que se podem extrair da relatividade geral. Uma delas é que corpos extraordinariamente massivos (buracos negros, por exemplo) em aceleração geram ondas gravitacionais, umas ondulações ínfi- mas do espaço-tempo que esperávamos há anos poder detetar com instru- mentos ultrassensíveis. Já depois do fecho desta edição, foi anunciada a sua deteção pelo observatório LIGO. Ainda pudemos emendar esta página e as duas seguintes. Entretanto, o problema persiste: algo não bate certo... C.M. Parto triplo Ao longo de milhões de anos, tragédias súbitas fixaram momentos na vida dos animais que nos precederam na Terra. Pág. 30 Homens ao mar O drama dos refugiados não poderia estar ausente do festival Visa pour l’Image, que todos os anos transforma a cidade francesa de Perpignan na capital do fotojornalismo mundial. Pág. 92 ENIGMAS DA CIÊNCIA N.º 215 Março 2016 Mensal  Portugal € 3,50 (Continente) Saúde I Natureza I História I Sociedade I Ciência ITecnologia I Ambiente I Comportamento 5601753002096 00215 www.superinteressante.pt facebook.com/RevistaSuperInteressante Os grandes De onde vieram • O universo • A matéria • A vida • A consciência Olimpíadas A estreia portuguesa Psicologia O que é o presente? Animais A inteligência canina Nordeste Por detrás das máscaras Reconfirmação Março 2016215 SECÇÕES www.superinteressante.pt Estou a perceber, sim Estudos recentes demonstram que, efetivamente, aos nossos cães só falta falar: de resto, pensam e sentem muito mais do que se julgava. Pág. 24 DESPORTO A matemática dos golos 42 Cães, uns bichos espertos ANIMAIS 24 www.assinerevistas.com O mundo ao contrário Do solstício de dezembro até ao Carnaval, dezenas de festas do Nordeste recorrem às máscaras para inverter a ordem social e recomeçar de novo. Pág. 84 Assine com um clique! PSICOLOGIA Dez mitos conjugais 66 A ilusão do agora CIÊNCIA 36 PALEONTOLOGIA Imobilizados na pedra 30 TECNOLOGIA Pague com o telemóvel 46 DOCUMENTO Os maiores enigmas da ciência 50 HISTÓRIA Guerra fria: um mundo dividido 70 JORGENUNES ANTROPOLOGIA Por detrás da máscara 84 FOTOGRAFIA Rabanadas de realidade 92 DESPORTO Seis heróis do Olimpo 78 MANUELAHARTLING/REUTERS GIULIOPISCITELLI
  5. 5. SUPER4 Observatório É oficial! Quando o LIGO voltou à ativi- dade, depois de uma série de melho- ramentos, em setembro de 2015, os cientistas tinham expectativas de quepudesseestarmaispertodedetetaraquilo para que foi construído: ondas gravitacionais. Não esperavam é que o primeiro sinal inequí- voco surgisse quase imediatamente. Analisa- dos os dados, chegaram à conclusão de que se tratava da assinatura da fusão (ou colisão, é difícil escolher palavras para eventos desta dimensão) de dois buracos negros, ocorrida há 1337 milhões de anos, mais coisa menos coisa. O anúncio foi feito numa conferência de imprensa realizada a 11 de fevereiro (já esta edição da SUPER estava fechada), pelo que nos limitamos a dar aqui nota dela e abordar superficialmente o assunto, reservando para momento posterior um artigo mais desen- volvido sobre o tema, que aliás abordámos inúmeras vezes na revista. Pela mesma razão, algumas páginas desta mesma edição ficaram ligeiramente desatualizadas. É um problema recorrente do jornalismo impresso: só dá as notícias de ontem, na melhor das hipóteses. Regressemos ao assunto: o LIGO é um observatório composto por dois instrumentos situados nos Estados Unidos, um no estado de WashingtoneoutronaLouisiana,comumafas- tamento de 3002 km. A duplicação serve para garantir que os efeitos sentidos num deles não se devem a causas locais (microssismos, explo- sões em pedreiras, trânsito pesado, etc.). Se o sinal surgir nos dois, quase simultaneamente (as ondas gravitacionais propagam-se à velo- cidade da luz), então deverá tratar-se de algo vindo do espaço e poderá ser certificado como digno de nota. Esses dois instrumentos são construções em forma de L, em que cada braço tem quatro quilómetros de comprimento. No eixo do L (a junção dos braços), é disparado um feixe laser para cada lado. Os dois feixes percorrem os braços (em 13 milionésimos de segundo), são refletidos em espelhos e regressam à origem, onde são combinados, num processo conhe- cido como “interferometria”. Qual é o objetivo? As ondas gravitacionais resultam diretamente da teoria da relativi- dade geral, apresentada por Einstein em 1915: corpos em movimento acelerado provocam ondulações no espaço-tempo. Se os corpos forem suficientemente grandes (os físicos Finalmente, as ondas David Reitze, diretor-executivo do LIGO, descreveu de forma gráfica a colisão que terá provocado as ondas detetadas: “Imagine um corpo com um diâmetro de uns 150 quilómetros e a massa de 30 sóis, a deslocar-se a metade da velocidade da luz. Imagine outro corpo igual. Agora imagine que eles colidem...” O LIGO (Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatories) divulgou esta imagem para ilustrar a descoberta. preferem dizer “massivos”, porque o que inte- ressa é a massa, não o tamanho), então será (teoricamente) possível detetar essas ondas, na medida em que, ao comprimir o tecido do espaço-tempo numa direção e expandi-lo na perpendicular (a seguir, acontece o oposto), levariam instrumentos como o LIGO a assinalar uma pequena diferença no tempo que o feixe laser leva a percorrer cada um dos braços do L. Dizer “pequeno” é pouco. No caso do LIGO, a diferença no percurso de 4 km seria inferior ao tamanho do núcleo atómico... Foi o que aconteceu às 9h50 de 14 de setem- bro de 2015: pouco depois de reativarem o observatório,apósasobrasde melhoramento, os cientistas descobriram um padrão de inter- ferência no instrumento. Verificaram os dados e... bingo! Não só tinham a assinatura de algo nunca antes visto, como as medições se ajusta- vam perfeitamente às previsões que resultam da teoria de Einstein. Para todos os efeitos práticos, o Nobel está a caminho. É um grande triunfo para a ciência. Trata-se daúltimagrandeprevisãodecorrentedateoria de Einstein que ainda não tinha sido possível confirmar. É também um grande triunfo da engenharia (e do engenho humano, de uma forma mais geral): construir um instrumento destes envolve desafios quase insuperáveis. O LIGOfuncionouentre2002e2010semterdete- tado algo de significativo, e há outros instru- mentos semelhantes espalhados pelo mundo que também não conseguiram qualquer resultado. Só os melhoramentos introduzidos ao longo de cinco anos, até meados de setem- bro de 2015 (que custaram 620 milhões de dólares) permitiram o feito agora alcançado. Porém, o Nobel não vai premiar apenas o engenhodaequipaouaderradeiraconfirmação (enfim, há outros assuntos por resolver, ver pág. 50) da relatividade geral. O que está em causaémuitomaisprofundo.AequipadoLIGO demonstrou a operacionalidade de um novo instrumento para sondar o universo, que pode levar-nos (sejamos otimistas) ao próprio momento do Big Bang. De facto, há muito mais, e mais excitante. Quando pensamos em meios de compreender o universo, abrem-se duas vias: a teórica (Isaac Newton, Albert Einstein ou Stephen Hawking, para referir apenas nomes mediáticos) e a prá- tica. Esta envolve olhar para fora da Terra. A humanidade sempre o fez, e de forma especial a partir do momento em que compreendeu
  6. 6. Interessante 5 que o andamento dos astros no céu estava ligado às migrações animais, primeiro, e, um pouco depois, à época das sementeiras e das colheitas. Galileu foi o primeiro a servir-se de um teles- cópio rudimentar para observar os planetas. Edwin Hubble descobriu que grande parte das “estrelas” do céu eram, afinal, outras galáxias (e que se afastavam de nós a uma velocidade vertiginosa). A radiotelescopia permitiu exami- nar o céu em comprimentos de onda comple- mentares, mas a atmosfera terrestre bloqueia a maior parte das radiações provenientes do espaço. Surgiram os telescópios espaciais. A expansão do universo (aparentemente a ace- lerar, devido a uma misteriosa força a que, à falta de melhor, chamamos “energia escura”) faz desviar a luz enviada por corpos muito distantes (mais próximos da origem do uni- verso) para o vermelho e daí para zonas fora do espectro visível, como as micro-ondas. Colocámos em órbita telescópios capazes de receber essa radiação. Resultado: obtivemos uma fotografia de como seria o cosmos 380 mil anos depois do Big Bang. Seria legítimo pensar que, melhorando os instrumentos, poderíamos ir mais longe, mas não. Por uma razão simples: só nessa altura a “sopa primordial” se arranjou nos átomos (de hidrogénio e hélio) que conhecemos. Final- mente, os fotões (a luz) puderam começar a circular sem serem imediatamente absorvidos. Para trás deste momento na história do uni- verso, é como se não houvesse luz: havia, mas opercursodecadafotãoeramuitocurto.Nada poderemos ver por essa via, por melhores quesejamosnossostelescópiosequalquerque seja o comprimento de onda em que funcio- nem. Pura e simplesmente, a luz não se pro- pagava a grandes distâncias. Resultado: um nevoeiro cósmico impenetrável. Quer dizer que essa fase inicial da vida do universo nos escapará para sempre? Talvez não. As ondas gravitacionais, para além de não serem afetadas pela matéria, são independen- tes do que se passa com fotões e outras par- tículas elementares. O que a equipa do LIGO demonstrou é que temos ao nosso alcance meios para detetar essas ondas e começar a interpretar o que nos dizem. BomprelúdioparaamissãoeLISA,daAgência Espacial Europeia (ESA), que pretende colocar na órbita solar, por volta de 2030, uma versão alargada do LIGO: três naves num triângulo equilátero, separadas por um milhão de quiló- metros.Seráomaiorinstrumentocientífico(na realidade, a maior máquina) jamais construída pelo homem. Antes disso, foi despachada para o espaço, em dezembro passado, a sonda LISA Pathfinder, para testar e demonstrar a viabilidade do projeto. Vale a pena fazer um parêntesis para referir que tem a participação da empresa portuguesa LusoSpace, que con- cebeu o laser de alta potência e estabilidade que será enviado pela nave-mãe para ser refle- tido pelas naves-filhas. Portanto, e abreviadamente, o que o Nobel quecertamentecoroaráotrabalhodoLIGOvai distinguir é algo de radicalmente novo: além de validar mais uma vez a teoria da relativi- dade geral de Einstein e reforçar a ideia da existência de buracos negros, coloca ao nosso dispor uma nova forma de estudar o universo. Sem dúvida, são belas notícias para quem procura compreender o que são a matéria e a energiaescuras,omaiorenigmadafísicaatual. Encontrará mais informações sobre o assunto nesta edição, embora, agora, tenham ficado ligeiramentedesatualizadas.Defacto,omundo mudou com uma simples observação. C.M./P.A.
  7. 7. SUPER6 Observatório S e tudo correr como previsto, a ESA enviará para marte, em meados de março, a primeira das duas sondas que integram a missão ExoMars, desenvolvida em colaboração com a agên- cia espacial russa (FKA). Devido à posição relativa privilegiada que ocupam este ano a Terra e o planeta vermelho, a viagem durará apenas sete meses, pelo que a nave deverá alcançar o nosso vizinho planetário em outubro. Nesse momento, começarão a funcionarosdoisengenhosquecompõema missão: o orbitador Trace Gas Orbiter (TGO) e o módulo de aterragem Schiaparelli, assim batizado em honra do astrónomo italiano Giovanni Schiaparelli, grande observador marciano do século XIX. O TGO ficará insta- lado numa órbita a 400 quilómetros acima da superfície e realizará uma análise porme- norizada da atmosfera, em busca de gases que possam ter origem biológica, como o metano. O orbitador estudará também pos- síveis locais para fazer pousar o rover que a ESA lançará em 2018, e que será a segunda parte da missão ExoMars. Pelo seu lado, o móduloSchiaparelli(naimagem,aseparar-se do TGO) testará as tecnologias concebidas para que o veículo pouse sem problemas, como o radar de altimetria e o sistema de travagem aerodinâmica. Europa visita Marte Ocentro da nossa galáxia está ocupado por um gigantesco buraco negro, quatro milhões de vezes mais massivo do que o Sol, conhecido como Sagitário A*. Agora, uma equipa de investigadores coor- denada pelo astrofísico Tomoharu Oka, da Universidade de Keiō (Japão), assegura ter dado com o rasto de outro destes objetos, que, na sua opinião, seria, além disso, o se- gundo maior da Via Láctea. A confirmar-se a sua existência, este buraco negro teria uma massa equivalente à de cem mil sóis, isto é, encontrar-se-ia entre os supermassivos, co- mo o Sagitário A*, que ocupam o centro das galáxias, e os estelares, que se formam após o colapso de uma estrela de massa trinta ve- zes superior à solar. Para encontrar o objeto ainda sem nome, os cientistas utilizaram os radiotelescópios Nobeyama, no Japão, e ASTE, no Chile, e observaram a invulgar velocidade de dispersão de uma nuvem de gás próximo do centro da galáxia, que sugere que uma imensa força gravitacional, como a gerada por um buraco negro, estará a acelerar as suas moléculas. Outro monstro Uma nuvem de gás situada a 200 anos-luz do núcleo da galáxia poderá ocultar um novo tipo de buraco negro de massa intermédia, o segundo maior da Via Láctea. TOMOHARUOKA/KEIOUNIVERSITYESA
  8. 8. A Opel está a desenvolver um sistema que evita acidentes, tomando conta da direção. Em situações em que o carro que segue à frente se desvia subitamente, deixando à vista um outro carro parado ou a baixa velocidade, o sistema de tra- vagem automática pode não ter tempo para evitar a colisão. Nesse caso, entra em cena a direção autónoma, que desvia o carro para a faixa do lado, em dois golpes de volante, con- secutivos (direita e esquerda), a uma veloci- dadederotaçãoquenenhumserhumanoseria capaz de imitar. Para garantir que, para evitar um acidente, não se cria outro, as faixas de rodagemadjacentessãomonitorizadas,garan- tindo que não há carros em sentido contrário, ou no mesmo sentido. Dependendo da velo- cidade e da distância, o sistema pode ficar-se apenas pela travagem de emergência, fazer a manobra de fuga ou bater à menor velocidade possível no carro da frente. Este sistema utiliza um software específico, desenvolvido por um estudante chinês do projeto UR:BAN, um pro- grama de pesquisa de inteligência artificial aplicada à segurança rodoviária, parcialmente financiado pelo governo alemão e do qual a Técnicavs. ética Motor 8 SUPER Opel é uma das parceiras. O sistema usa uma câmara de vídeo frontal estéreo, mas a mono que equipa já hoje muitos modelos da marca também serve, tal como o radar. Depois, é só controlar os travões e a assistência elétrica da direção. O segredo está no algoritmo, que faz tudo acontecer em milésimos de segundo. O sistema está pronto e funciona, mas há ainda questões burocráticas, psicológicas e éticas a resolver. Enquanto a direção está a ser coman- dada pelo sistema, passamos a ter um carro autónomo, e isso ainda não é legal. Depois, há questões de outra ordem: o que deve o pro- grama decidir quando o embate é inevitável mas a faixa à esquerda está ocupada por outro carro? Bater na traseira do carro em frente ou arriscar uma saída para a berma? E se o cenário se passar com um peão na estrada e outros em redor? Qual ou quais vão ser atingidos se o atropelamento for inevitável? Ou, simples- mente, é lícito o carro mudar de faixa (porque os cálculos do sistema dizem que é possível) quando a manobra pode assustar outros con- dutores e provocar-lhes acidentes? Muitas vezes, a tecnologia não termina nos enge- nheiros. Raio X 1 2 Anova geração do Audi A4 chegou ao mercado nacional com um conjunto de novas tecnologias que o colocam no topo do segmento das berlinas compactas de prestígio. Vamos descobrir algumas delas. 1 – Carroçaria com a melhor aerodinâmica da classe: a Audi anuncia um Cx de 0,23. 2 – Motor Diesel 2.0 TDI de 150 cavalos. Em versão Ultra, emite apenas 99 gramas de dióxido de carbono por quilómetro e é o mais procurado em Portugal. 3 – Faróis com tecnologia de matriz LED, disponíveis como opção e com máximos automáticos, que iluminam sem encandear. 4 – A utilização de um misto de aço de alta resistência e de alumínio permitiu descer RenaultMégane1.6dCiGTLine Anova geração do Renault Mégane che- gou ao mercado nacional com muitas novidades, a começar por uma nova plata- forma, que partilha com outros modelos da aliança Renault/Nissan. O estilo mudou muito, alinhando-se com os mais recentes modelos da marca, tanto no que diz res- peito à imagem da frente, com assinatura luminosa LED em forma de “C”, como aos flancos mais pronunciados. No interior, a estrutura e a organização do tablier e do painel de instrumentos foram remodela- das, agora com a presença do monitor tátil R-Link 2 que permite aceder aos principais comandos de funções secundárias e confi- gurações. Também passou a estar disponí- vel um mostrador head-up display e a pos- sibilidade de alterar a cor da luz ambiente e do painel de instrumentos através da tecla Multi-Sense, que também altera a resposta do acelerador e a assistência da direção, de acordo com as preferências do condutor. Nem falta um modo Eco, para reduzir os consumos. Um dos bons avanços desta geração está na melhor posição de condu- ção, com a coluna de direção menos incli- nada e novos bancos com excelente apoio lateral e massagem, em opção. O aumento de 28 milímetros na distância entre eixos permitiu aumentar o espaço para passa- 3 CARRO DO MÊS AudiA4
  9. 9. Aindústria automóvel está subme- tida a regulamentos, impostos pelos vários países e instituições de segurança rodoviária, cuja extensão é difícil avaliar. Refiro apenas alguns, começando pela condução autónoma, um assunto que encanta os políticos e faz os engenheiros gastar horas de tra- balho. Resumidamente, trata-se de apli- car aos automóveis o piloto automático que os aviões têm há dezenas de anos. O problema é que, por enquanto, as leis que regem a circulação de veículos nas estradas, algumas delas com origem no início do século passado, dizem que um automóvel só pode circular se um condutor estiver ao seu comando. Portanto, o piloto automático é ilegal. Outro exemplo vem das seguradoras de alguns países. Para reduzir o preço das reparações nos toques em cidade, as seguradoras “obrigam” os construtores de automóveis a fazer prolongar os para-choques de plástico para cima, de forma a deixar o bordo anterior do capô metálico o mais recuado possível. Mas há mais, muito mais. Por exemplo, os espelhos retrovisores. A sua existência, numa altura em que grande parte dos carros estão equipados com todo o tipo de câmaras de vídeo, só continua por- que as leis da estrada assim o obrigam. Mais: a sua dimensão, tão prejudicial à aerodinâmica, segue dimensões míni- mas estabelecidas por leis que regem a largura e outras a altura. Mais um exemplo? Em alguns países, continua a ser obrigatório que as rodas possam ser equipadas com correntes de neve. Isto obriga a um determinado espaço entre o pneu e a cava da roda, condicionando o tamanho da roda, dos pneus e dos travões. Isto sem entrar nos testes de colisão, que muitos construtores usam no marketing, mas que, por si só, estão longe de garantir a efetiva segurança. À boca pequena, já ouvi especialistas de algumas marcas dizerem que hoje se fazem carros para passar nos testes de colisão, não necessariamente para ser mais seguros. A verdade é que há regulamentos para tudo, no que aos automóveis diz respeito, com coisas tão básicas como a obrigatoriedade de cada carro ter faróis nos dois extremos da frente, numa altura em que a tecnologia de iluminação permitiria a sua coloca- ção em posições bem mais eficazes. Opinião Regulamentos o peso da estrutura até um máximo de 120 quilos, dependendo do motor considerado. 5 – Estreado no Audi TT, o cockpit virtual substitui o painel de instrumentos convencio- nal por um monitor LCD de 12,3 polegadas, com gráficos de alta definição e totalmente configurável. 6 – Novo sistema de infotainment com ligação à internet via LTE, hotspot Wi-Fi a bordo e novo interface para sistemas iOS e Android, incluindo ainda prateleira de carga da bateria do telemóvel por indução. 7 – Direção com rácio variável e amorte- cimento regulável, dois dos parâmetros que podem ser ajustados pelo condutor no comando Audi Drive Select. 8 – A disponibilidade de assistentes à condução segura é muito alargada. Um dos mais curiosos antecipa situações da estrada e do trânsito, usando o sistema de nave- gação e câmaras, avisando o condutor da aproximação de rotundas e cruzamentos ou aconselhando a fazer desvios, em caso de trânsito congestionado. Além disso, inclui o auxílio à manutenção de faixa de rodagem, cruise control adaptativo com função Stop & Go, estacionamento automático, aviso de trânsito cruzado em saídas de parques sem visibilidade, travagem de emergência, iluminação de curva e sistema pre-sense, que prepara o carro para um embate, entre outros. Interessante 9 4 5 6 FRANCISCO MOTA Diretor técnico do Auto Hoje geiros nos lugares traseiros, e isso nota-se. Em termos dinâmicos, o novo Mégane ficou ainda mais eficaz, com uma suspensão capaz de suportar bem mais do que os 130 cavalos do 1.6 dCi que testámos. Este motor Diesel é já conhecido de outros modelos do grupo: permitindo acelerar dos 0 aos 100 quilómetros por hora em dez segundos e atingir os 198 km/h, tem uma boa resposta ao acelerador, mesmo a baixos regimes, e está bem iso- lado, em termos acústicos. Os consumos anunciados são de 4,7 litros aos 100 km, em cidade. De resto, esta nova geração tem disponível um completo conjunto de aju- das eletrónicas à condução segura, com destaque para a travagem ativa de emergência, alerta de saída de faixa, reconhecimento de sinais de trânsito, câmara de mar- cha-atrás e outros. O preço desta versão GT Line é de 29 850 euros, mas, com o motor 1.5 dCi de 90 cv e nível de equipamento Zen, o preço começa nos 23 200 euros. 8 7
  10. 10. SUPER10 É tempo, mais que tempo, de fazer justiça a este rei tão caluniado. Em boa parte, a Restauração de 1640 foi obra sua, por muito que isso pese aos românticos. SUPER Portugueses Um cérebro real S ão já muitos os historiadores e inves- tigadores que, lendo com atenção os documentos existentes, resgata- ram a memória de D. João IV, oitavo duque de Bra­gan­ça e primeiro rei da quarta di­nas­tia de Portugal. Porém, na ima­gi­na­ção romântica de alguns, e na ima­gem que pre- valece na (aliás mui­to confusa) memória his- tórica dos portugueses contemporâneos, ele continua a ser uma triste figura, empurrado por uma esposa va­ro­nil e corajosa, o cobarde que não queria arriscar-se a aceitar a co­roa a que tinha direito e a lutar pe­la independência. Em parte, esta imagem foi criada por incom- petência na consulta da documentação. Numa ou­tra parte, a imagem não é ino­cente: houve uminteresse ideo­lógicoe políticoemdenegrir, tan­to quanto possível, a Casa de Bra­gança, começando logo pelo pri­meiro rei da dinastia. Vamos aos factos, tanto quanto o espaço o permite. Que o rei Restaurador tinha defeitos e cometeu erros, isso é evidente: fala-se aqui de D. João IV e não de São João IV. Esses erros em nada se relacionam com o re­tra­to sombrio que dele se fez. Pa­ra tentarmos entender este mo­narca, será útil considerar um pe­queno episódio: em meados de novembro de 1640, quando a cons­piração estava em marcha, o du­que de Bragança chamou a Vila Viçosa, com grande urgência, o seu agente e administrador João Pin­to Ribeiro, que foi um dos princi­pais organizadores da Restaura­ção. Pinto Ribeiro foi encontrar o seu amo tão decidido a avançar com a revolta que estava disposto a mobilizar os povos do Alentejo ain­da que em Lisboa os conjurados não agissem. Entusiasmado, o administrador do duque ajoe­lhou-se, tratou-o de“majestade” e quisbeijar-lheamão;porém, D. João esquivou-se e disse-lhe: “Não compre- mos a couve primeiro que a carne”… Esta frase traduz bem a menta­li­dade do futuro rei. Tinha um enor­me bom senso e uma enorme pru­dência, e, ainda, uma cabe­ça per­ feitamente fria – tanto que po­de­rá não nos ser simpático. Foi essa frieza que salvou muitas si­tuações, antes e depois de ele su­bir ao trono. A relutância e a in­decisão que muitos leram na sua atitude perante os conjurados não eram mais do que cautela e frie­za. D. João sabia-se vigiado de mui­to perto pela corte de Madrid e sabia que qualquer deslize seria fa­tal, não somente para si como pa­ra a causa portu- guesa. Sabia ain­da que havia o risco perma­ nen­te de uma inconfidência ou de uma desis- tência por parte dos con­jurados. Estes receios não eram excessivos: três dias antes do ataque ao Pa­ço da Ribeira, a 28 de novembro, ainda houve conjurados que per­ deram o ânimo, por julgarem não haver meios suficientes para as­se­gurar o êxito, o que obri- gou João Pinto Ribeiro a enviar, a meio da noite, um mensageiro a Vi­la Viçosa, pedindo ao duquedeBra­gançaquenãotomasseini­cia­ti­vas. Segundo se lê na Res­tau­ração de Portugal Pro- digiosa, a resposta de D. João foi que “a sua vida, sendo necessário, havia de ser a primeira quesedessepelaliberdadedapátria”.Oduque estava bem decidido e percebera que era tarde para recuar. DISCRETO MAS ATIVO Umadistorcida“tradição”ro­mân­ticacolocou adecisãonapes­soaenavozdaduquesadeBra­ gan­ça, D. Luísa de Gusmão: “An­tes duas horas rainha que toda a vida duquesa”… Esta é uma das muitas variantes. Na realidade, o duque consultou a mulher, cu­ja opinião respeitava, e esta de­cla­rou o seu imediato apoio ao pro­jeto. Porém, é bem claro – por exem­plo, na História de Portu­gal Res­tau­ra­do, do conde da Ericeira, uma das principais fontes para a his­tó­ria da época –, que D. João con­sul­tou a duquesa depois de ter de­cla­ra­do aos representantes dos con­ju­rados que aceitava a coroa. Não foi por acaso, nem por pres­sões matri- moniais, que ele “ce­deu” à insistência dos conjura­dos naquele ano de 1640. Em Por­tu­gal, o descontentamento com o domínio filipino vinhacres­cen­dohaviajálargosanosema­ni­fes­ tara-se expressivamente nas cha­madas “alte- rações de Évora” (a “revolta do Manueli­nho”), mas o du­que de Bragança agira sem­pre como elemento apazigua­dor. Sim­plesmente, em 1640 a Catalu­nha revoltou-se; Espanha tinha já muitos efetivos empenhados na Guerra dos 30 anos; em Fran­ça, o cardeal de Richelieu, pri­ meiro-ministro de Luís XIII, dis­punha-se a auxi- liar todos os ini­migos do governo de Madrid. Ou seja: chegara, finalmente, uma ocasião propícia. JORNADA VITORIOSA Sabemos que a escolha era acer­tada. A jornada do 1.º de De­zem­bro foi uma vitória.
  11. 11. Interessante 11 D.JOÃO IV (1604–1656) Umaúnicabatalha Durante o reinado de D. João IV, a única batalha importante con­tra as forças espanholas foi a do Mon­ti­jo (re­presentada na imagem, num painel de azu­lejos). Isso não significa que não hou­vesse outras operações mi­li­ta­res. Aliás, o rei di­ri­giu pes­soal­mente a defesa da fron­teira no Alen­tejo. No entanto, é um facto que o maior recontro se deu na pro­vín­cia de Badajoz, a 26 de maio de 1644. O exér­cito português, coman­da­do por Ma­tias de Albuquerque, atra­vessou a fronteira e tomou a pra­ça do Monti­jo, após o que iniciou a mar­cha de re­gres­so, mas sempre à espera de um ataque espa­ nhol, que aconteceu, sob o comando do mar­quês de Tor­re­cu­sa. O desenlace foi favorável a Ma­tias de Albuquer­que e a vitória veio dar grande ânimo aos por­ tugueses, ao mesmo tem­po que causava sur­pre­sa nas ca­pi­tais europeias. A partir de 1644, o governo de Ma­drid preferiu esperar que a nova di­nastia caísse, quer pela morte do rei (para o que contratou um as­sas­si­no, cuja missão se malogrou), quer por eventuais querelas internas. Isto por­que a Espanha tinha as suas me­lho­ res tropas empenhadas na Guerra da Catalunha e na Guerra dos 30 Anos. Ora, D. João IV apressou-se a ti­rar partido dessa relativa “trégua”, que lhe permitiu reorganizar o exército e procurar apoios no es­tran­geiro. A Guerra da Restaura­ção só se rea­cen­deria depois da sua mor­te, em 1659 (batalha das Li­nhas de Elvas), mas o monarca por­tuguês teve ainda ou­tras guerras a gerir. Sobretudo, con­tra os holan­de­ses, que tiveram im­portantes ga­nhos no Oriente mas per­deram em Angola e no Brasil. O paço ducal de Vila Viçosa. Aqui nasceu D. João IV e aqui recebeu os conjurados. Porém, a Res­tauração não se fez somente no primeiro dia de dezembro; aliás, o mais impor- tante ficava ain­da por fazer. A situação era dra­mática: Portugal estava sem exér­cito e sem marinha, com as fi­nanças arruinadas e poucos alia­dos na Europa. É certo que Pa­ris apoiou a revolução portugue­sa, mas Richelieu morreu em 1642 e o seu sucessor, Mazarin, mostrou-se bem menos entusiasta: achava que os portu- gueses deviam tomar a ofensiva. D. João IV não tinha ilusões a esse respeito. A guerra com a Es­pa­nha, inevitável, tinha de ser essencialmente de­fen­si­va. Logo após a sua aclama­ção so­lene, o rei preocupou-se com as ques­tões prioritárias, que eram mui­tas: a defesa, em primeiro lu­gar. Logo a 11 de dezembro, D. João criou o Conselho de Guer­ra e depois interveio pessoalmente nas operações que se desenrola­ram no Alentejo. Também a di­plomacia era essencial, e a cam­ pa­nha que lançou, lo­go em 1641, prolongar-se- -ia du­ran­te todo o seu reinado. Isto ainda não bastava: havia toda uma ad­ministração a reedi­ficar. Por is­so, este reinado conheceu um in­ten­so trabalho legislativo; além do Con­selho de Guerra, D. João IV criou o Tribunal da Junta dosTrêsEstados,oTribunaldoCon­se­lhoUltra- marino e a Companhia da Junta do Comércio. ReformouaSecretariadeEstado,paraator­nar mais operacional. Reuniu cor­tes por cinco vezes, e note-se que se vivia já na Europa em ple­noabsolutismomonárquico.Porém,osobe- rano entendia bem a gravi­da­de da situação doreino,sabiaqueeramprecisosmuitossacrifí­ cios e que todos os portugueses, de todos osestados,deviamseren­volvidosnesseesforço e deviam, como tal, ser ouvidos. Porque não se fala mais deste rei e do seu governo? Talvez por­que D. João IV preferiu a eficiên­cia ao espetáculo, praticava uma es­trita economia e assumia um es­tilo discreto. Talvez porque o seu génio frio e reservado não fala à nossa imaginação. Um exem­plo des­sa frieza foi o modo im­placável co­mo fez punir a cons­ pi­ra­ção que, lo­go em 1641, se for­mou para o der­rubar e de­vol­ver o trono a Filipe IV. Dos cons­pi­ra­dores, só escapou à pena de mor­te o arcebispo de Braga, D. Se­bas­tião de Matos
  12. 12. 12 SUPER JOÃO AGUIAR Este artigo foi publicado originalmente na SUPER 125. João Aguiar faleceu em 2010. de Noro­nha, que foi enviado sob pri­são pa­ra a Tor­re de Belém e mor­reria pou­co de­pois em S. Julião da Bar­ra. Os res­tantes foram to­dos exe­ cu­ta­dos, incluindo o mar­quês de Vila Real e o seu filho, o du­que de Ca­mi­nha. Este último re­cu­sara-se a par­ti­cipar na conju­ra, somente se ca­laraparanãocom­prometeropai.Oreisabia-o, po­rém não lhe co­­mu­tou a pena. Era preciso dar um exemplo de se­ve­ri­dade e as­sim se fez. Mais inocente ainda estaria o se­cretário de Estado, Francisco de Lucena, que viria a ser vítima de intriguistas que o caluniaram, com êxito, acusando-o de conspirar contra o rei. A sua execução apon­ta um traço do caráter de D. João IV: uma desconfiança doen­tia. Diga-se, por outro la­do, que é um traço compreensí­vel. Desdemuitojovem,soubeoqueeraservigiado e espiado, já que, como foi dito, os Braganças eram uma permanente fonte de preo­cupações para Madrid. Antes da Restauração, e embora Filipe IV o nomeasse governador das ar­mas dePortugal,estavaproibidodere­sidiremLisboa emesmodeen­trarnacidade,oquemostrabem a delicadeza da sua posição pe­ran­te Madrid. Depois, enquanto rei, ele, que era tão econó- mico,nãopoupougastosparacomprares­piões na corte espanhola. Isto per­mitiu-lhe, muitas vezes, an­te­cipar as jogadas do governo es­pa­ nhol, mas também o terá levado a observar a facilidade com que mui­ta e muito boa gente se vendia. Essa tendência para a descon­fian­ça não pre- judicou, no entanto, uma prática que caracteri- zou a a­tuação do rei: ele era, por vezes, len­to a tomar decisões porque, além de as ponderar, costumava ou­vir a opinião dos seus conse­lhei­ ros, ou, mesmo, a opinião dos três estados, como demonstra a realização de cortes por cinco ve­zes. Depois, tomada a decisão, man­ tinha-a com firmeza. LARGA DÍVIDA Uma coisa é certa: tendo em con­ta a situa- çãocríticaemqueopaísseencontravaquando D. João IV foi aclamado, muito pou­cos seriam os homens capazes de fa­zer o que ele fez. Não colhe ar­gu­mentar que não o fez sozi- nho; ne­nhum governante, nem mesmo um ditador (que ele não foi), go­verna e sobrevive sem colabora­do­res. No entanto, ele assumiu direta­men­te a orientação política, di­plo­mática e militar. No final do seu reinado de quinze anos, fora pos­sível expulsar os holandeses do Brasil e de Angola, fazer frente aos espanhóis, encetar a recons­tru­ção da economia, conse- guir o re­co­nhecimento diplomático das prin- cipais potências. Isto foi obtido com poucos ras­gos heroicos (noBrasileemAn­go­la,sobretudo)ecommuita pa­ciên­cia, muita tenacidade, uma vi­são fria e realista, e também com grandes sacrifícios e alguns des­gos­tos, que não pouparam o rei: apesar dos seus esforços, não con­seguiu liber- tar o irmão, o in­fan­te D. Duarte, que, depois de pres­tar brilhantes serviços ao im­pe­ra­dor ale- mão, foi preso por es­te, pa­ra agradar à Espa- nha, e veio a mor­rer em cativeiro. Outro gol­pe mui­to rude foi a morte do prín­ci­pe her­deiro, D. Teodósio. Em momento algum o rei des­curou a defesa e os interesses do reino. Não hesitou, mesmo, em pon­derar soluções impopulares: a da­da altura, a situação era tão gra­ve que chegou a considerar a hi­pó­tese de se retirar para os Aço­res e aí reinar sobre o Brasil, en­quan­tonoreinoficariaoprínci­peD.Teodósio, que casaria com uma princesa francesa. Solu- ção que, naturalmente, desagradava ao orgu- lho nacional, mas D. João IV, já foi dito, era um pragmático e pen­sou que seria assim possível fa­zer frente com mais eficácia à amea­ça espa- nhola. No entanto, es­te pragmatismo não obs- tou a que ele sempre defendesse a dig­ni­dade da coroa. Se considerarmos, no seu todo, o reinado do fundador da quarta di­nastia, teremos de admitir que, his­toricamente, os portugueses de­vemmuitoaD.JoãoIV.Nãoha­verá,naquele período, grandes mo­ti­vos heroicos (se bem que ha­ja muito a dizer sobre a atua­ção militar portuguesa, tanto no rei­no como em África e no Brasil), mas nem por isso a dívida é me­nos larga. COMPOSITOR E BIBLIÓFILO Enfim, é também justo reco­nhe­cer os méri- tos culturais deste rei. Um dos seus mestres, o Dr. Je­ró­nimo Soares, deu-lhe uma ex­ce­lente instrução em teolo­gia e le­tras clássicas. Em música, estudou com o inglês Robert Tornar, mes­tre de capela em Vila Viçosa, e com o con- trapontista (e exce­len­te compositor) João Lourenço Re­belo, que, além de seu professor, foi também seu amigo. Sabe-se que D. João IV compôs música sa­cra, mas dela pouco ou nada so­bre­viveu, e há ainda dúvidas quanto aos dois motetes que lhe são atribuídos. Não só compôs mú­si­ca como escreveu sobre mú­si­ca, e formou uma magnífica bi­blio­teca a partir daquela que lhe dei­xara o avô. Infelizmente, estava instalada no Paço da Ribeira, em Lisboa, e desapareceu durante o terramoto de 1755. Não há, portanto, grandes ves­tí­gios da ativi- dade cultural de D. João IV. É pena, claro, mas, ten­do em conta o seu perfil e a épo­ca histórica em que viveu, não é es­sen­cial. A sua dedicação ao rei­no e a ação que desenvolveu em con­di­ ções extremamente des­fa­vo­rá­veis bastam para o con­sa­grar co­mo um superpor­tu­guês. Oscolaboradores Orei D. João IV teve, ao longo do seu reina­do, o apoio de um gru­po de personalidades notáveis. Se­rá justo que se mencione, em primei­ro lugar, a sua mulher, D. Luísa de Gus­­mão, espanhola, pertencente à gran­de ca­sa de Medina Sidónia, mas que se revelou uma excelente por­tu­guesa. O Dr. João Pinto Ri­bei­ro, administrador dos bens da Casa de Bra­gan­ça, teve uma ação deci­si­va para o êxi­to da conspiração de 1640 e serviu depois o rei com a mes­ma lealdade e a mesma inteli­gên­­cia. Quanto ao padre António Vieira, foi, co­mo se sabe, um homem da confiança de D. João IV, embora não tenha sido muito feliz nas suas mis­sões diplomáticas. Neste campo da diplomacia, des­ta­caram-se, en­tre outros, D. Vasco Luís da Gama, conde da Vidigueira, Fran­cisco de Sousa Cou­ tinho, António de Sousa de Macedo e D. Antão de Almada, um dos conjurados de 1640, em cujo palácio lisboeta (hoje cha­ mado da Independência) se efe­tuaram algumas das reuniões. Haveria muitos mais para citar, pois a guerra diplomática que Portugal travou no tempo de D. João IV e no reinado seguinte não foi menos im­portante nem menos renhida do que a guerra militar. Neste setor, desta­cou-se Matias de Albuquerque, o ven­cedor do Montijo, que o rei fez con­de de Alegrete. Note-se que a Guer­ra da Restauração levaria à ri­bal­ta outros grandes chefes mili­ta­res, como o primeiro marquês de Marial­va e D. Sancho Manuel, que se des­ta­cariam durante o reinado de D. Afonso VI. SUPER Portugueses João Pinto Ribeiro foi um dos organizadores do 1.º de Dezembro e um precioso auxiliar de D. João IV.
  13. 13. 13Interessante PROCURE NUMA BANCA PERTO DE SI Se quiser recebê-la pelo correio, fale com a Sara Tomás: assinaturas@motorpress.pt ou ligue para 214 154 550 | ANTIGO EGITO | AS NOVIDADES E O QUE FALTA DESCOBRIR HISTÓRIA
  14. 14. SUPER14 No início do século XVII, a nau Nossa Senhora dos Mártires, carregada com pimenta da Índia, desfez‑se contra as rochas na barra do Tejo. O povo foi a correr apanhar a pimenta que cobriu de negro a costa e as margens do rio, enquanto duzentas pessoas se afogavam. Histórias do Tejo T arde de 15 de setembro de 1606. Ao passar pela nau Salvação, encalhada há dois dias nas areias da baía de Cas‑ cais, os passageiros e a tripulação da Nossa Senhora dos Mártires lamentaram o seu final inglório. Horas depois, quando o navio descontrolado se aproximava das rochas assassinas do Forte de São Julião da Barra, rezavam a Deus para ter o mesmo destino misericordioso. Duzentas pessoas rezaram em vão. Ano e meio antes, a Nossa Senhora dos Már- tires acabara de sair dos estaleiros da Ribeira de Lisboa e preparava‑se para o batismo mais nobre que um navio do início do século XVII podia ter: uma viagem à Índia. A embarcação era o topo de gama do seu género. Com mais de 30 metros de comprimento, 13 de largura e dezenas de canhões, a nau era capaz de trans‑ portar cargas de 300 toneladas. A importância do tamanho do porão era proporcional ao da travessia: com mais de um ano a separar a par‑ tida do regresso, compensava usar grandes navios,paratrazeramaiorquantidadepossível deespeciariasdeumasóvez.Oqueseperdiaem velocidadeeagilidadeganhava‑seemmúsculo. A única viagem A Nossa Senhora dos Mártires pertencia ao topo de gama da construção naval do iníco do século XVII. O objetivo era ir à Índia e voltar com um carregamento de pimenta, o ouro negro.
  15. 15. Interessante 15 Naquele 27 de março de 1605, no entanto, a imponente embarcação era apenas mais uma, no meio da armada real fundeada no Tejo. MARINHEIROS DE ÁGUA DOCE Ao todo, cinco navios aprontavam‑se para largar as amarras, navegar para o outro lado do mundo e voltar para a capital carregados de valiosas especiarias (que valiam o seu peso em ouro pela Europa fora), porcelanas e outros tesouros asiáticos. Guiados pela nau Nossa Senhora de Betancor, do experiente Brás Telles de Menezes, líder da expedição, seguiam ainda a Nossa Senhora da Salvação, a Nossa Senhora da Conceição e a Nossa Senhora da Oliveira. Duas semanas antes, tinha partido outraarmada,quelevavaabordoMarimAfonso de Castro para substituir Aires de Saldanha como vice‑rei da Índia: Filipe II queria no posto um governante mais bélico, para enfrentar os holandeses nos mares de Malaca, na atual Malásia (com a união dos dois reinos da penín‑ sula Ibérica, Portugal herdara os inúmeros conflitos espanhóis). Aos lemes da Nossa Senhora dos Mártires, ia um comandante que ganhara o prestigiado lugar da forma mais comum na época: com uma cunha, por graça do seu sangue azulado. Manuel Barreto Rolim era filho de Jorge Bar‑ reto, comendador da Azambuja, e de D. Leo‑ nor de Moura Rolim, que não aceitaram o seu casamentocomD.CatarinadeEça.Deserdado, Manuel teve de fazer pela vida, e a Carreira das Índias era a solução mais lucrativa da altura. Pouco importava que os seus conhecimentos de navegação fossem mínimos. Era, aliás, bas‑ tante comum marinheiros de água doce como ele acabarem a capitanear imponentes navios. Com maus resultados, muitas vezes. Independentemente dos capitães, a saída para a Índia de uma armada pertencente ao reino era um momento especial na vida de Lisboa, com milhares de pessoas a encher as margens do Tejo para se despedirem dos marinheiros. Foi nesse ambiente entre a festa e a melancolia que os cinco navios zarparam de Belém. PARA LÁ DOS LIMITES A viagem correu sem mácula. A 28 de setembro, seis meses e um dia após a partida, as cinco naus atracaram no porto de Goa. Daí seguiram para Cochim, onde uma imensa carga de pimenta as esperava. Havia uma grande pressão para carregar cada navio até ao limite, ou para lá do limite. Assim se aumentavam os lucros e se fazia boa figura junto do rei. Porém, ambição em dema‑ sia, como se sabe, costuma dar mau resultado. Além de as embarcações regressarem a Lisboa quase sempre sobrecarregadas, o peso tam‑ bém era mal distribuído, desequilibrando as naus e dificultando a navegação. A Nossa Senhora dos Mártires largou de Cochim a 16 de janeiro de 1606, na compa‑ nhia da Nossa Senhora da Salvação. O resto da armadasaíra18diasantes,aindaemdezembro, comomandavamasregras.Partidastardiascos‑ tumavam resultar em viagens problemáticas, com correntes e ventos adversos. A razão do atraso destes dois navios perdeu‑se no tempo. A bordo, o navio de Manuel Rolim levava Aires de Saldanha, 17.º vice‑rei da Índia, que terminara a comissão de serviço. Outra figura de relevo era o padre jesuíta Francisco Rodri‑ gues, que regressava a Portugal após mais de 20 anos a espalhar a letra da Bíblia no Extremo Oriente. O missionário fazia‑se acompanhar
  16. 16. 16 SUPER por um jovem japonês, convertido ao cris‑ tianismo e rebatizado de Miguel. A tripular o barco iam 60 marinheiros e 70 grumetes, um sacerdote e outros homens especializados (como um barbeiro, que servia igualmente de cirurgião quando a ocasião exigia outra fina‑ lidade às suas lâminas). Embora o seu obje‑ tivo fosse o transporte de mercadorias, a nau deveria ainda levar algumas dezenas de pas‑ sageiros, entre legítimos e clandestinos, e 40 soldados, para o caso de se cruzar com piratas ou corsários. TEMPORAL IMPREVISTO Os meses seguintes foram relativamente tranquilos, descontando a saúde de Aires de Saldanha, a definhar ao longo da travessia. A 18 de junho, dias antes da atracagem na baía de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, o ex‑vice‑rei morreu. A nobreza que lhe corria nas veias e, sobretudo, o facto de os Açores estarem perto salvou‑o de ser lançado ao mar: nenhum navio se podia dar ao luxo de ter um corpo a apodrecer a bordo. Aires de Saldanha seria convenientemente sepultado na catedral da cidade. A sua fortuna continuaria o cami‑ nho sem ele. As duas naus irmãs aventuraram‑se pelo último percurso em julho. Durante as 850 milhas náuticas que separavam (e ainda sepa‑ ram) a Terceira da capital portuguesa, a Salva- ção adiantou‑se. Aproximou‑se de Cascais no dia 12 de setembro. Não foi um bom momento para chegar. O vento batia forte de sul, empurrando insis‑ tentemente o navio para a costa. Uma galera tentou rebocar o navio e falhou. Aos poucos, a Salvação perdia as forças e a batalha contra a natureza. Ainda assim, o comandante preferiu Resgatada Em 1994, os vestígios da Nossa Senhora dos Mártires foram encontrados no fundo das águas por uma equipa de arqueó‑ logos. Descobriu‑se o casco (um pedaço de madeira de 12 metros por sete), vários canhões, astrolábios, pratos chineses e ainda uma boa quantidade das especiarias que deram o nome à tragédia daquele dia 15 de setembro de 1606: o Naufrágio da Pimenta. Os arqueólogos subaquáticos, liderados por Francisco Alves (ex‑diretor do Centro Na‑ cional de Arqueologia Náutica e Subaquáti‑ ca), tiveram de usar uma máquina sugadora, com collants de senhora a servir de filtro, para recuperar os grãos de pimenta que ain‑ da se encontravam espalhados entre o lodo, praticamente 400 anos após o naufrágio. Histórias do Tejo não avançar pelo estuário do Tejo adentro, ondeencontrariaáguasmaiscalmas.D.Joãode Menezes sabia que passar a barra naquelas condiçõeserasuicídio.Asuaopçãofê‑loperder o navio. No dia seguinte, a embarcação fica‑ ria presa nas areias em frente à vila, mas pelo
  17. 17. 17Interessante menos quase toda a gente foi resgatada. A 15 de setembro, uma sexta‑feira, a Nossa Senhora dos Mártires deparou com o mesmo temporal. Manuel Rolim, vendo o destino da Salvação, tomou uma decisão mais audaz do que o seu colega. A audácia sair‑lhe‑ia cara. MANOBRA ARRISCADA O comandante optou por entrar no rio, mesmocomperigososventoslateraiseamaré a vazar. Com dois oceanos conquistados sem soluços, não passou pela cabeça de Manuel Rolim que a barra do Tejo fosse grande adver‑ sário.Asoberbaeapressaemfugirdatempes‑ tade, aliadas à sua ingenuidade naval, foram fatais: ao passar a praia de Carcavelos, a Nossa Senhora dos Mártires foi sendo empurrada, lenta mas inexoravelmente, em direção às rochas do Forte de São Julião da Barra. Soltou‑seopavorabordo.Nadahaviaafazer. Anauesmagou‑secontraaspedrasedesfez‑se em milhares de pedaços. Passageiros e tripu‑ lantes caíram à água, o que naquele tempo era morte quase certa: pouca gente sabia nadar, e entre os marinheiros, a maioria recrutada no interior do país, ainda menos. Na margem, milhares de pessoas que tinham vindo esperar os seus familiares assis‑ tiram, horrorizadas, à tragédia. Alguns pesca‑ dores apressaram‑se a recolher sobreviventes. No final, contaram‑se duzentas vidas perdidas às portas do Tejo. Durante os dias seguintes, dezenas de corpos deram a terra. Horas após o naufrágio, a linha de costa entre Lisboa e Cascais enegreceu. Trezentas toneladasdepimentainvadiramasmargensdo Tejo e as praias. A população ribeirinha, mise‑ rável e desesperada, depressa se esqueceu dos mortos e acorreu à costa para recolher o valioso ouro negro da época. A guarda real multiplicou os esforços e a violência para ten‑ tar evitar o saque, mas a maior parte das espe‑ ciarias acabou nas mãos do povo. Acabava assim em tragédia a viagem inau‑ gural da Nossa Senhora dos Mártires. No fundo das águas, junto ao forte, ficariam os restos da nau, porcelanas chinesas e outros tesouros que vinham a bordo, incluindo os pertences de Aires de Saldanha. O padre Francisco Rodrigues foi uma das vítimas do naufrágio. Miguel, o seu aprendiz japonês, sobreviveu‑lhe, pelo menos durante algum tempo. Perdido num país estranho, fez‑se ao mar na primeira oportunidade. Nunca voltaria a ver as ilhas nipónicas: morre‑ ria pouco antes de lá chegar, em Macau, qua‑ tro anos mais tarde. SOBREVIVENTES Quem se salvou para viver os anos dourados foi Cristóvão de Abreu, um modesto grumete, que havia feito a sua primeira viagem na Nossa Senhora dos Mártires. O marujo não ganhou medo ao mar. Continuou a fazer carreira na Rota das Índias, subiu na vida e chegou a mestre (o homem que tem a seu cargo as manobras do navio e a quem os marinheiros respondem diretamente). Morreria 41 anos mais tarde, com uma vida de trabalho honrosa quanto baste para que a viúva tivesse direito a uma pensão decente pelos seus serviços à causa real. Outro dos sobreviventes do desastre, con‑ tra todos os lirismos marítimos, foi o coman‑ dante. O responsável pelo naufrágio, no entanto, não se despenhou em desgraça. A 9 de fevereiro de 1609, voltaria a comandar um navio, empossado pelo próprio Filipe II. “Pela confiança que ponho em Manuel Barreto Rolim, nobre da minha casa, e pela experiência que tem em navegação, vejo por bem encar‑ regá‑lo da capitania da nau Nossa Senhora de Guadalupe, que é uma das que este ano viaja‑ rão até à Índia”, mandava o documento real. O regresso de Manuel Rolim ao mar não durou muito. Morreu ao largo do cabo da Boa Esperança, logo na viagem de ida, ironica‑ mente, de doença. A Nossa Senhora de Guada- lupe, entretanto, perdeu o leme e foi obrigada a aportar em Angola e a regressar a Portugal, como se uma maldição da Nossa Senhora dos Mártires perseguisse os sobreviventes do seu naufrágio, até depois de mortos. Quando encontraram os vestígios da Nossa Senhora dos Mártires, junto ao Forte de São Julião da Barra, os arqueólogos subaquáticos verificaram que ainda havia grãos de pimenta espalhados no lodo. Este artigo é uma adaptação de um dos capítulos do livro Histórias do Tejo, de Luís Ribeiro (A Esfera dos Livros, 2013) http://bit.ly/1hrY8Zc
  18. 18. SUPER18 É tidocomocertoqueaescolhadedatas próximas de Lua Cheia para a realiza- ção de rituais pagãos ou religiosos, ao longo dos tempos, terá resultado da necessidade de aproveitar o luar quer para as deslocações noturnas quer para manter alguma iluminação nos locais em que decor- riam os cultos. Tal tradição, por ocasião da pas- sagemdoinvernoparaaprimavera,teráfixado festividades, representando para uns simples festejos associados ao findar de um período frio e pouco produtivo a que se seguia o res- surgimento de condições naturais propícias ao crescimento de cereais e plantas que cons- tituiriam o indispensável sustento, e para outros o momento de agradecerem aos seus deuses a vida que lhes permitia contemplar a repetição de um ciclo da natureza e orar para que o ano seguinte lhes trouxesse felicidade e abundância. A “passagem” – que alguns investigadores associamàsucessãodoinvernopelaprimavera ou à libertação (Pessach) de Israel do regime escravodoEgito,ouainda,maisrecentemente, àmorteeressurreiçãodeCristo–estabeleceu-se também intimamente ligada à Lua Cheia. Em todososcasos,arelaçãocomoiníciodaprima- vera é evidente, ocasião em que o calendário hebreu fixou o seu primeiro mês (Nisan) e que foitambémoprimeiromêsdoano(março)para os romanos, até 713 a.C., data em que Numa Pompílio fez entrar em vigor um calendário de inspiração lunar. Nas igrejas cristãs, a celebração da Páscoa gerou, inicialmente, alguma controvérsia: enquanto uns preferiam uma data certa (mesmo que fosse dia de semana), outros optavam pelo domingo seguinte a essa data e outros ainda – com o objetivo de conformar a ocasião com hábitos anteriores, de judeus convertidos – faziam coincidir as celebrações com a data da Pessach. Depois de três séculos de conflitos, no ano de 325, na cidade de Niceia (atual Izniq, na Turquia) reuniu-se um concílio de bispos que, para além de outros assuntos da igreja cristã, tratou a questão da data da Páscoa, tendo estabelecido a regra de que a Páscoa é no domingoseguinteaodécimoquartodiadaLua que atinge esta idade a 21 de março ou imedia- tamente a seguir. Tal decisão, embora tivesse a intenção de conduziraumauniformizaçãoemtodaaigreja, em qualquer região geográfica do mundo, arrastaria consigo uma característica ainda hojebemconhecida–adatavariáveldaPáscoa e, com isso, outros momentos com ela relacio- nados, como o Carnaval – e a particularidade de a definição da data, embora muito ligada às fases da Lua, ficar sujeita a ocorrências de incompatibilidades entre o calendário eclesiás- tico e o astronómico, pois o décimo quarto dia após a Lua Nova pode não corresponder, exa- tamente, à fase de Lua Cheia, e o equinócio ocorre mais vezes a 20 do que a 21 de março. Assim, esta lei impõe uma data da Páscoa a vagabundearentre22demarçoe25deabril,ou seja, a poder coincidir com trinta e cinco datas Caçadores de Estrelas Equinócio, Lua e Páscoa MÁXIMO FERREIRA Diretor do Centro Ciência Viva de Constância diferentes, sendo certo que as extremas (22 de março e 25 de abril) são as menos prováveis. O assunto voltou a ser abordado, em 1997, no Conselho Mundial das Igrejas realizado em Alepo(Síria),tendoentãosidoadmitidoque“a data da Páscoa passaria a coincidir com o pri- meiro domingo após a Lua Cheia astronómica posterior ao equinócio de março”. A “Lua Cheia da Páscoa” deste ano de 2016 ocorrerá no dia 23 de março, pelo que o domingoseguinte(27demarço)será“domingo de Páscoa”, circunstância consideravelmente diferente do que acontecerá no próximo ano. A primeira Lua Cheia a seguir ao equinócio de março de 2017 verificar-se-á a 11 de abril e, con- sequentemente,aPáscoaserácomemoradano domingo seguinte, 16 de abril. Ícone da igrja ortodoxa representando o primeiro Concílio de Niceia, realizado no ano 325.
  19. 19. Océudemarço Júpiter já faz parte do céu observável ao princípio das noites do mês de março deste ano e é muito frequente ouvir-se dizer que “é mais bonito do que Saturno”, dado que este, excetuando a “novida- de” de se mostrar com uma espécie de “chapéu” (Galileu afirmou que, pelos seus telescópios, pareciam orelhas), não apresenta tantos pormenores e variações de aspeto como Júpiter. De facto, o maior dos planetas do Sistema Solar evidencia – mesmo através de um telescópio não mui- to grande – como que faixas irregulares mais visíveis na região equatorial e, talvez mais interessante do que isso, as suas qua- tro luas facilmente observáveis não param de alterar as posições relativas, simulando uma espécie de bailado cósmico. Por o seu deslocamento pela esfera celes- te ser extraordinariamente lento, todos os meses Júpiter é ultrapassado pela Lua, acontecimento que ocorrerá no dia 21, segundo dia de primavera. Antes disso, já o nosso satélite natural terá percorrido quase todo o céu, tendo surgido no dia 11 (com a idade de dois dias, ou seja, dois dias depois de Lua Nova), como um fino crescente projetado sobre estrelas da constelação dos Peixes. Depois, prosseguirá o seu atraso em relação às estrelas, surgindo em cada noite um pouco mais à esquerda, sempre nas proximidades da eclíptica, linha imaginária no céu que corresponde ao plano da órbita da Terra e que no mapa das páginas seguintes se representa a tracejado. No dia 13, a Lua passará a sul do enxame das Plêiades (M45) e o seu brilho é já suficiente para ofuscar aquele grupo de estrelas (popularmente designado por “sete estrelo”), embora ainda seja possível ver as mais brilhantes, apesar de ligeiramente “apagadas”. Dois dias depois (15 de março), será Quarto Crescente e a Lua projetar-se-á (ainda na constelação do Touro) praticamente na direção em que se encontra uma ne- bulosa que o astrónomo francês Charles Messier observou em 1758 e o motivou a elaborar o seu famoso catálogo de man- chas que via no céu e que, aos poucos, se foi confirmando englobarem nebulosas, enxames de estrelas e galáxias. À referida nebulosa, situada na constelação do Touro e onde Lord Ross, em 1844, viu filamentos que comparou com as “pernas de um caranguejo”, Messier atribuiu o número 1 do seu catálogo, razão por que é conhecida como M1. Na véspera do iní- cio da primavera, a Lua estará um pouco à esquerda de outro enxame, o M44, que, em ambientes de céu escuro, os olhos podem alcançar e corresponde ao objeto celeste já referido em registos anteriores ao início da nossa era, não se sabendo quem ali imaginou um Presépio ou uma Colmeia, designações que ainda hoje se lhe atribuem. Depois do aparecimento do telescópio, tornou-se possível perceber que a “pequena nuvem” (como lhe cha- mou Hiparco, em 130 a.C.) é constituída por centenas de estrelas, das quais Galileu terá contado 36. O céu visível a norte mostra a Ursa Maior bem alta, logo ao princípio das noites, ao passo que a Cassiopeia vai surgindo cada vez mais perto do horizonte, a noroeste. Agora como sempre, o céu é visto como rodando em torno de um ponto “fixo” – o polo – marcado pela Estrela Polar, que “não se move”. Interessante 19 A Nebulosa do Caranguejo (M1).
  20. 20. SUPER20 Mapa do Céu Vire-se para sul e coloque a revista sobre a cabeça, de modo que a seta fique apon­ta­da para norte. Se se voltar em qual­quer das outras direções (norte, este, oeste), pode ro­dar a revista, de modo a facilitar a leitura, desde que mantenha a seta apontada para norte. Os planetas e a Lua estarão sempre perto da eclíptica. O céu representado no mapa (no que se refere às estrelas) corresponde às 20h do dia 5. A alteração que se verifica ao longo do mês, à mesma hora, não é muito importante. No entanto, com o decorrer da noite, as estrelas mais a oeste irão mergulhando no horizonte, enquanto do lado este vão surgindo outras, inicialmente não visíveis. Comousar As fases da Lua Quarto Minguante Dia 1 às 23h11 Lua Nova Dia 9 às 01h54 Quarto Crescente Dia 15 às 17h03 Lua Cheia Dia 23 às 12h01 Quarto Minguante Dia 31 às 15h17
  21. 21. Interessante 21 NORTE
  22. 22. SUPER22 Q uando se fala de heróis (ou vilões, conforme o ponto de vista) da era da internet, os nomes que ime- diatamente vêm à baila são os de Julian Assange ou Eduard Snowden. Ambos lutaram, à sua maneira, para proteger os cida- dãos do poder abusivo dos estados nesta era de abundância dos mecanismos de vigilância e controlo digital, mas nenhum deles deriva o seu “heroísmo” daquela que é a essência da revolução digital em curso: a liberdade de produção e distribuição de informação. Aaron Swartz é o primeiro mártir dessa revolução, e provavelmente o seu primeiro grande herói. Dois livros editados recentemente ajudam a explicarporquê.Umdeles–TheBoyWhoCould ChangetheWorld:TheWritingsofAaronSwartz – reúne as ideias expressas em vários locais e circunstâncias pelo próprio Swartz. O outro – The Idealist: Aaron Swartz and the Rise of Free Culture on the Internet – é uma biografia, assinadaporJustinPeters,quetemavantagem de explicar em pormenor e do ponto de vista teórico qual a essência e a razão de ser do ati- vismo de Aaron Swartz. O documentário The Internet’s Own Boy: The Story of Aaron Swartz, realizado por Brian Knappenberger em 2014 (e disponível no YouTube, naturalmente) ouve familiares, amigos e especialistas para obter o mesmo ponto de equilíbrio entre o lado pes- soal de Aaron Swartz e a sua militância política e social. Vale a pena ver! QUEM ERA AARON SWARTZ? Aaron Swartz era o protótipo do menino- -prodígio da era da internet. Programador e hacker, desde cedo revelou uma curiosidade insaciável pelos temas da tecnologia e da pro- gramação, andando sempre um ou dois pas- sos à frente dos outros jovens da sua idade em termos de percurso académico. Na verdade, quando olhamos para o percurso de vida do jovem Swartz, é impossível não notar o para- lelo com muitos outros jovens que hoje dão cartas nas novas empresas de Silicon Valley. A diferença, em Swartz, foi que em determi- nado momento as suas preocupações políticas e sociais sobrepuseram-se ao seu empreende- dorismo e ele tornou-se o ativista que hoje conhecemos. Esteve ligado à fundação do site Reddit, criou a primeira geração do RSS, desenvolveu as licenças Creative Commons e iniciou o movimento que levou à derrota dos projetos SOPA e PIPA, que pretendiam com- partimentar e regular a livre circulação da informação na internet. Uma das coisas que irritava particularmente Aaron Swartz era o facto de os trabalhos aca- démicos, cujo valor social e científico é obvia- mente inestimável, serem mantidos atrás de uma barreira de copyright que ele considerava antiquada e anquilosada. Foi esse sentimento de injustiça que o levou à cave do MIT para, usando as suas credenciais académicas, des- carregar milhares de trabalhos da base de dadosdoJStor.Parececlaroqueoseuobjetivo nãoeravenderessesdocumentosnemrealizar lucrocomeles,massomentecolocá-losaodispor do público em geral (o que aliás tinha sido muito antes expresso num manifesto). No entanto, foi isso que levou à acusação de obtenção ilegal de documentos, entre outras, com penas que, no conjunto, podiam ir até aos 35 anos de prisão e um milhão de dólares em multas. Ou seja, a justiça norte-americana queria fazer de Aaron Swartz um exemplo e foi a perspetiva de isso vir a acontecer que ele não aguentou. Sociedade Digital Aaron Sartz, herói digital Fez no passado dia 11 de janeiro três anos que Aaron Swartz, então com 26 anos, pôs fim à própria vida no seu apartamento de Brooklyn, Nova Iorque. Nesse dia, o programador, hacker, ativista e empreendedor brilhante converteu-se naquele que é provavelmente o primeiro herói da revolução digital. A LIBERDADE DE INFORMAÇÃO Por detrás da luta de Aaron Swartz estava obviamenteaconfrontaçãoentredoismundos muito diferentes: de um lado, as instituições que continuam a regular e controlar os fluxos de informação na sociedade (as editoras e os direitos de autor, por exemplo); do outro, os efeitos desreguladores que as tecnologias de informação e comunicação digitais têm sobre essas instituições. Para perceber a fundo a questão, precisamos olhar para as caracterís- ticas especiais da informação e para o efeito que as tecnologias digitais têm sobre elas. Emprimeirolugar,ainformaçãoé,aocontrá- rio dos outros, um produto “não rival”, o que significaqueautilizaçãodeumainformaçãopor parte de alguém não impede que outra pessoa ausetambém.Emsegundolugar,é“nãoexclu- siva”, o que significa que, uma vez que alguém tenha uma informação, é muito difícil evitar que outras pessoas não a tenham também. Por outro lado, a informação é aquilo de que são feitas as nossas relações sociais. É através detrocasdeinformaçãoquenóscoordenamos as nossas ações sociais, sejam elas pessoais ou profissionais, económicas ou não econó-
  23. 23. micas. Ora, o que a teoria de redes nos diz é que quanto mais extenso for o alcance de uma redemaioraquantidadeeaqualidadederecur- sos que cada indivíduo pode mobilizar nessa rede.Ditodeoutromodo,quantomaisextensa e ativa for a rede de contactos sociais de uma pessoa, de um grupo ou de uma comunidade, melhor para essa pessoa, esse grupo ou essa comunidade. Ou seja, uma informação não é desvalorizada quando é usada; pelo contrário, ela é mais valorizada cada vez que é usada. De umpontodevistaeconómico,istoapontapara a informação como um bem público e que por- tanto deve ser livre. REVOLUÇÃO DIGITAL Éaquiqueaconteceochoque:porumladoas novas tecnologias de informação e comunica- ção que Swartz dominava tão bem potenciam osefeitossocialmentebenéficosdainformação; por outro lado, enfrentam a resistência de um conjunto vastíssimo de hábitos, rotinas e ins- tituições sociais que vêm do passado mas que já não servem ao futuro, como o copyright. O conceito de copyright (ou “direito de autor”) foi concebido para uma época em que a infor- mação (analógica) viajava em suportes físicos (um papel, uma fita magnética, um vinil). O copyright era então, o direito literal de fazer uma cópia. A partir do momento em que uma informação (qualquer informação) se torna digital, o próprio conceito de cópia deixa de fazer sentido, uma vez que a informação não existe senão como “zeros” e “uns” virtual- mente idênticos em todos os computadores que os partilhem. Por isso é que Aaron Swartz esteve ligado à conceção inicial das licenças Creative Com- mons. Estas licenças foram (e são) uma tenta- tiva de enquadrar social e institucionalmente o problemadosdireitosdeautornonovoquadro de abundância e dispersão da informação. E, obviamente, são muito mais “abertas” do que o copyright original. Aquilo de que nós precisamos, como sociedade em transição de um paradigma de informação para outro, é precisamente de soluções criativas para estes problemas. Por isso é que Aaron Swartz fazia falta. Por isso é que fazer dele um “exemplo” foi, afinal, um péssimo “exemplo”! Nos estudos sobre informação na era digital, esta frase surge mui- tas vezes como um chavão libertário: “Information wants to be free”. Origi- nalmente, a frase foi proferida por Ste- wart Brand, fundador do Whole Earth Catalog, numa conferência realizada em 1984, e era ligeiramente mais lon- ga: “Por um lado, a informação quer ser cara, porque tem muito valor. A informação certa no momento certo pode mudar a nossa vida. Por outro lado, a informação quer ser livre, porque o custo de a obter está a ficar cada vez mais baixo. É por isso que temos estas duas ideias a lutarem uma com a outra.” A frase capta a essência do que está em causa. Por um lado, o “valor” da informação levou a que, historicamente, fossem desenvolvidas instituições e procedimentos sociais tendentes à captura desse valor, como o copyright, por exemplo. Porém, as tecnologias digitais reduzem dramati- camente os custos de obter, produzir e disseminar informação e põem em causa essas regras sociais (e económi- cas) de captura e incorporação do va- lor da informação. Ou seja, a desma- terialização da informação acaba por sublimar aquelas que são, em termos abstratos, as suas características dis- tintivas, nomeadamente o facto de ser não rival e não exclusiva e de o respe- tivo uso aumentar o seu valor em vez de o diminuir, entre outras. Foi isso que Aaron Swartz percebeu imediata- mente quando citou Jefferson, um dos “pais” dos Estados Unidos: “Ninguém discute seriamente que a propriedade é uma boa ideia, mas é bizarro sugerir que as ideias possam ser propriedade. A natureza quer claramente que as ideias sejam livres. Embora possamos guardar uma ideia para nós, assim que a partilhamos, qualquer pessoa pode tê-la. Quando isso acontece, as pes- soas já não podem desfazer-se dela, mesmo que queiram. Tal como o ar, as ideias não podem ser guardadas e armazenadas.” Se fosse vivo hoje, é possível que Jefferson estivesse a fazer o mesmo tipo de percurso que levou Swartz a um confronto tão dramático com as autoridades! Opinião A informação quer ser livre JOSÉ MORENO Mestre em Comunicação e Tecnologias de Informação jmoreno@motorpress.pt 23Interessante Aaron Swartz foi um lutador pela liberdade de informação, por uma internet livre e aberta. Perdeu a vida, mas ganhou a causa.
  24. 24. SUPER24 Animais Cachorros ESPERTOS A inteligência canina Múltiplos estudos e experiências confirmam o que os seus donos já suspeitavam: por vezes, só falta aos cães falar. A memória, a empatia e a capacidade para comunicar caninas estão muito acima da média no reino animal. E stiveram presentes nas grandes faça- nhas humanas da história: havia cães a bordo das caravelas de Cristóvão Colombo, na conquista do Polo Sul, na primeira viagem de um ser vivo em redor da órbita terrestre (lembra-se da Laika?), e até na operação de captura de Bin Laden. Apesar disso, estes animais não são simples ferra- mentas ou máquinas de trabalho com vida. De facto, pode ser que ainda não se tenha aper- cebido, mas, se tem um cão como animal de estimação, está a conviver com um Einstein em potência. Até há bem pouco tempo, não sabíamos muito sobre a inteligência dos Canis lupus familiaris, nem sobre como veem o mundo. Todavia, nos últimos anos, multiplicaram-se os estudos nesse campo e foi possível comprovar que as suas capacidades cognitivas são seme- lhantes às de uma criança. MEMÓRIA E APRENDIZAGEM Na Odisseia, Ulisses regressa à ilha de Ítaca vinte anos depois de ter partido para lutar na guerra de Troia: para que ninguém saiba quem é, disfarça-se de mendigo, mas Argos, o seu velho cão, reconhece-o de imediato. Para além dos mitos ou das criações literárias, o que averiguou a ciência sobre a memória canina? Desde o início do século XX que se sabe que os cãespossuemumacapacidadeprodigiosapara reter e recuperar informação. Por exemplo, um border collie sobredotado chamado Cha- ser, da Carolina do Sul, reconhece mais de mil Lição de latim. As capacidades cognitivas da espécie Canis lupus familiaris, domesticada na Europa há cerca de 18 mil anos, continuam a espantar os cientistas. objetos pelo nome. Além disso, recorda-se deles meses depois. Efetivamente, as experiências demonstram queelesassimilamvocabuláriodeumamaneira semelhante à das crianças. Alguns cães conseguemmesmorelacionarrótulosabstratos com objetos concretos. Se ensinar a palavra “bola” a um cão e esconder uma de futebol entre outras coisas, ele irá procurá-la quando disser o nome em voz alta. Porém, se depois a retirar e voltar a exclamar “bola!”, mas desta vez se tratar de uma bola de ténis, deduzirá que se está a referir à mesma categoria e esco- lhe a opção correta. O psicólogo Paul Bloom, da Universidade de Yale (Estados Unidos), colocou à prova, de forma empírica, essa faculdade de exclusão, misturando livros e brinquedos que os animais não tinham visto antes. Se ordenava “traz um brinquedo”, ele dirigia-se para qualquer dos objetos que servissem para brincar. Depois, quando lhe dizia “traz um não brinquedo”, tra- zia sempre um livro. Noutras experiências, em vez de lhes falar, mostrava-lhes a réplica de um objeto. Os animais voltavam a acertar em todas as ocasiões. Os cães também conseguem copiar-nos e imitar-nos,algoquemuitopoucosanimaisfazem e que é fundamental na aprendizagem social. Embora não o façam de maneira espontânea, comoosgrandessímios,possuemumaaptidão inata. Numa ocasião, os cientistas condiciona- ramumgrupodecãesaabrirumaporta,empur- rando-a. Metade iria receber um prémio por SHUTTERSTOCK
  25. 25. 25Interessante
  26. 26. SUPER26 Reconhecem os donos até no ecrã da televisão lutiva na Universidade do Colorado, considera que ele não pode ser aplicado a espécies que apreendem o mundo através do olfato. Se pensarmos que um cão possui 220 milhões de recetores olfativos, e compararmos esse número com os cinco milhões presentes no nariz humano, a ideia não parece descabida. De facto, Bekoff concebeu um teste que promete abrir novos debates entre os especia- listas. Em primeiro lugar, o investigador obtém uma amostra de urina de um cão e esconde-a num bosque. Em seguida, passeia a criatura pela zona e examina as suas reações perante a própria micção, a fim de poder compará-las com as que manifesta quando fareja a urina de outros. Assim, o especialista norte-americano conseguiu comprovar que os exemplares não urinavam sobre as próprias marcas, o que parece constituir um indício de possuírem uma certa consciência de si próprios. teremuladoossereshumanos,enquantoosres- tantes foram incentivados para o conseguirem atravésdosseusprópriosmétodos.Resultado? O grupo de imitadores aprendeu muito mais depressa. Ou seja, os cães não abordam este tipo de problemas através de tentativa e erro: podem resolvê-lo de forma imediata se virem alguém fazê-lo primeiro. A conclusão é que a memória canina é mais parecida com a nossa do que se pensava. De facto, os cães também possuem a modalidade declarativa ou episódica, a capacidade de recu- perar conscientemente memórias associadas a factos ou conhecimentos. COMUNICAÇÃO Plásticaseflexíveis,ascordasvocaisdoscães permitem-lhes emitir sons com significados que tanto os seus congéneres como os seres humanos entendem, pois os latidos variam, consoante o contexto, em amplitude, duração etom.Assim,fazem-seouvirpararecrutaroutros em caso de perigo, e identificam os indivíduos pelos sons que captam, a fim de classificá-los como amigos ou inimigos. Parecemtambémsaberajustarasuaexpres- sividade à audiência. Isso significa que modi- ficam as vocalizações e os gestos consoante o que vê ou não vê (e ouve ou não ouve) quem os acompanha. Assim, os cães-guia que ajudamaspessoascegaslambemmaisosdonos para que possam receber a informação que possuem: as lambidelas são a sua resposta por viver com pessoas que não reagem a sinais visuais. Do mesmo modo, desobedecem às ordens se houver perigo para os donos. Numa determinada experiência, um cão deviaescolherentrepedircomidaaumapessoa comosolhostapadosouaoutraquepodiaver. O animal dirigia-se sempre à segunda: sabia quepodiacomunicarcomelasedistinguisseos seus olhos. Trata-se de algo que a maior parte dos animais não faz: identificar quem possui a informação desejada. A fim de averiguá-lo com maior precisão, o psicólogo József Topál, da Academia Húngara de Ciências, ocultou vários objetos em caixas, todas fechadas à chave. Depois de escondê-las na presença de um cão chamado Philip, surgia um ser humano que não sabia onde estavam. As reações de Philip foram muito semelhantes às que se obtêm de crianças nas mesmas cir- cunstâncias: apanhava as chaves e conduzia a pessoa até ao sítio onde o objeto estava guardado. Se o voluntário estivesse presente quando Topál fechava as caixas, o cão nada Traz-me o Pokémon! Estudado por cientistas do Instituto Max Planck (Alemanha), o border collie Rico era capaz de identificar 200 objetos pelo nome. Morreu em 2008. fazia para ajudá-lo. Isto é, tinha consciência do que tinha visto, ou não, no passado. Emboraoscãesnãopossuamumalinguagem tão complexa como a nossa, a sua inteligência em termos de comunicação é fascinante. AUTOCONSCIÊNCIA Otesteclássicoparadeterminarseumanimal possui perceção de si próprio consiste em con- frontá-lo com um espelho. Se pintarmos uma marca na cara de um chimpanzé ou de um elefante sem que ele se tenha apercebido, irá tocar no sinal, ou tentar retirá-lo, ao ver o seu reflexo, pois sabe que se trata da sua própria imagem. Oproblemadeutilizarestetipodetestescom cães é que eles não são tão visuais; por essa razão, nem todos os autores concordam com o mérito do teste. Por exemplo, Marc Bekoff, professor emérito de ecologia e biologia evo-
  27. 27. Interessante 27 EMPATIA E EMOÇÕES Como primatas, os seres humanos possuem a capacidade de se colocarem na pele dos outros,masnãosãoosúnicosanimaisafazê-lo. Oscãestambémsãoexcelentesaidentificar-se comamentealheia.Éfrequenteaproximarem- -se,deformanatural,decongéneresqueforam vítimas de uma agressão para os consolar, e não fazem caso dos vencedores da briga. Em dois terços das observações feitas pelos especialistas, a parte não envolvida no con- fronto aproximava-se, efetivamente, de quem se saíra pior. Seráquetambémsentemempatiapelaspes- soas? A fim de averiguá-lo, as psicólogas Debo- rah Custance e Jennifer Mayer, da Faculdade Goldsmiths, da Universidade de Londres, anali- saram o comportamento de dezoito exempla- res de raças e idades diferentes. O teste con- sistia em examinar a sua reação perante pes- soas que simulavam chorar, situadas junto de outras que simplesmente falavam ou canta- rolavam algo. Custance e Mayer observaram que os cães mostravam mais preocupação e se aproximavam com maior frequência dos voluntários que fingiam estar tristes. Outro indicador de empatia é o contágio do bocejo. Para se produzir, é necessário possuir uma certa estrutura cerebral e os neurónios- -espelho, responsáveis por rirmos, chorarmos ou abrirmos a boca quando vemos os outros fazê-lo. Os cães também obtêm resultados positivos: em experiências realizadas recente- mente, 67 por cento dos exemplares estuda- dos bocejavam ao mesmo tempo que os seres humanos. Além disso, não se trata de algo aprendido. O etólogo Brian Hare, da Universidade Duke (Estados Unidos), demonstrou que os cachor- ros de nove meses fazem-no tão bem como os exemplares adultos, o que significa que já nas- cem com esse dom. Porém, embora entendam os sinais tanto de conhecidos como de estra- nhos,issonãosignificaquelhessejaindiferente asuaproveniência.Oapegocaninopelosdonos édetalordemque,noutrasériedeexperiências, se demonstrou que os cães brincavam mais com pessoas desconhecidas na presença dos donos do que no caso de estes se ausentarem. Trata-sedeumaconfirmaçãodasegurançaque oslaçosentreasduasespéciesconferem,tanto a eles como a nós. A empatia canina foi sempre um tema con- troverso, mas chegou a altura de aceitar que acumulámoscadavezmaisprovascientíficasda sua existência: os nossos animais de estimação sãocriaturasmuitosensíveisesociáveis.Éarro- gância pensar que somos os únicos seres vivos do planeta que se emocionam ou se colocam no lugar dos outros. Omitodasraças Gostamos das listas e dos mitos urbanos sobre que raças caninas são mais inteligentes, mas não deve- mos dar-lhes grande importância: os testes desenvolvidos em laboratório chegam à conclusão de que não há grande diferença entre elas, digam o que disserem. Após realizar diversas experiências, Julie Hecht, psicóloga da Universidade de Nova Iorque, conclui que existem, na realidade, mais diver- gências cognitivas entre exemplares da mesma raça. Além disso, a seleção reprodutiva foi geralmente levada a cabo em função de características físi- cas ou de temperamento, sem tomar em consideração o quociente inte- lectual dos cães. Em 2003, quando se sequenciou o genoma do Canis lupus familiaris, confirmou-se que a espécie descende do lobo. Além disso, foram estabelecidos dois grupos principais com base nas cerca de duzentas raças conhecidas no mundo. Como indica o etólogo Brian Hare, a diferença reside no seu grau de cooperação com os se- res humanos, o qual depende da carga genética proveniente dos lobos. Os que possuem maiores laços de paren- tesco com esses animais selvagens (e que colaboram menos connosco) são o husky siberiano, o galgo afegão, o akita asiático, o malamute do Alasca, o chow chow chinês, o dingo austra- liano, o cão-cantor da Nova Guiné e o basenji africano, o mais lupino de todos. No segundo grupo, estariam as restantes raças modernas, mas isso não significa que sejam mais espertas; simplesmente, ligam-nos mais. MANUELAHARTLING/REUTERS
  28. 28. 28 SUPER INTERPRETAÇÃO DE SINAIS Desde que nasce, antes mesmo de saber falar, o Homo sapiens comunica com quem o rodeia através de expressões, olhares ou mesmo gestos com a mão ou os dedos. Inter- pretar tais sinais é fundamental para a nossa sobrevivência: quando se vive em grupo, é pre- ciso reconhecer e prever o que farão os nos- sos companheiros. Anteciparmo-nos ao com- portamento dos restantes pode ajudar-nos acoordenaranossacondutanacaçaounafuga, paradardoisexemplospráticos.Nãohádúvida de que a gesticulação constitui um tipo de informação social que o torna possível. Afimdetestaressacapacidadeemsímios,um grupo de investigadores dirigido pelo primató- logoescocêsJimAnderson,daUniversidadede Stirling (Reino Unido), escondeu comida numa caixa, de forma a não libertar odor, e colocou- -a entre outras idênticas. Depois, os investi- gadores indicaram com gestos aos animais ondeseencontravaarecompensa.Andersone os seus colegas fizeram primeiro a experiência commacacos-capuchinhos,masestesfalharam sucessivasvezes;foramnecessáriasmaisdecem tentativas para acertarem. Em seguida, fizeram o teste a chimpanzés, pensando que estes teriam rapidamente êxito, devido à sua intensa vida social e à sua proxi- midade evolutiva dos seres humanos. Fracas- saram igualmente, exceto no caso dos exem- plares que tinham sido criados por pessoas e aprendido, por conseguinte, a entendê-las. Os cientistas pensaram ter conseguido confirmar a existência de uma característica exclusiva da nossa espécie até terem repetido a experiênca com cães: eles, sim, encontravam a comida à primeira tentativa. Compreendem-nos perfei- tamente, de forma inata. A linguagem não-verbal também funciona com os seus congéneres. Num ensaio, os cien- tistas escondiam comida à vista de um cão e, depois, deixavam entrar outro exemplar. O recém-chegado utilizava o olhar do compa- nheiro para adivinhar onde estava a saborosa recompensa. É verdade que o melhor amigo do homem dependemuitodasmensagensolfativas,como já referimos, mas não deixa de apoiar-se nos sinais visuais e auditivos. De facto, comprovou- -se que consegue mesmo reconhecer o dono em ecrãs de televisão ou outros aparelhos ele- trónicos. Recentemente, descobriu-se que o tom de voz também é relevante para os cães. Victo- ria Ratcliffe e David Reby, da Universidade de Sussex (Inglaterra), comprovaram que o cérebro canino manifestava maior atividade em resposta às entoações positivas do que às negativas, como revela o estudo que publica- ram na revista CurrentBiology. Além disso, rea- gem, tal como nós, às emoções transmitidas pela voz do falante ou às características sono- ras que distinguem o sexo. Quando o estímulo lhes faz sentido e a pessoa atenua ou elimina diretamente as características de género ou entoação, utilizam o hemisfério esquerdo da massa cinzenta. Todavia, se lhes falarem num idioma que não conhecem ou se colocarem os fonemas numa ordem diferente, ativam o lado encefálico direito. “Os nossos resultados sugerem que o pro- cessamento dos componentes do discurso no cérebrocaninosedivideentreambososhemis- férios, de forma muito semelhante ao que acontece na mente humana”, explica Ratcliffe. A investigação apoia, por conseguinte, a ideia de que os cães não só dão atenção a quem somoseàformacomodizemosascoisascomo, também, ao que dizemos. Trata-se de uma boa notícia para quem ama estes animais, pois pas- samos muito tempo a falar-lhes. P.H. Docemente. Foi demonstrado que os cães são sensíveis ao tom de voz com que lhes falamos. Aproximam-se mais das pessoas que demonstram estar tristes AGE
  29. 29. 29Interessante 2ª A 6ª FEIRA, 9H30-13H00 E 14H30-18H00 [Fax] 21 415 45 01 [E-mail] assinaturas@motorpress.pt LINHA DIRETA ASSINANTES 21 415 45 50✆ AGORA MAIS FÁCIL www.assinerevistas.com PEÇA A SUA REFERÊNCIA ✁ SIE ASSINE AS EDIÇÕES ESPECIAIS * Valor por exemplar na assinatura por 12 edições. A assinatura inclui apenas especiais História e Saúde. MODO DE PAGAMENTO Cartão de Crédito nº válido até - CVV Cheque nº no valor de , €, do Banco à ordem de G+J Portugal Remessa Livre 501 - E.C. Algés - 1496-901 Algés NÃO ACEITAMOS CARTÕES VISA ELECTRON Indique aqui os 3 algarismos à direita da assinatura no verso do seu cartão SUPER INTERESSANTE HISTÓRIA +SUPER INTERESSANTE SAÚDE Sim, quero assinar as Edições Especiais (História e Saúde): 12 edições com 25% desconto por 35,55€ (ex. 2,96€) (oferta e preços válidos apenas para Portugal) Favor preencher com MAIÚSCULAS Nome Morada Localidade Código Postal - Telefone e-mail Profissão Data de Nascimento - - NIF (OBRIGATÓRIO) Valor das assinaturas para residentes fora de Portugal (inclui 20% desconto) 1 Ano 12 Edições - Europa 58,71€ - Resto do Mundo 71,79€ Ao aderir a esta promoção compromete-se a manter em vigor a assinatura até ao final da mesma. A assinatura não inclui as ofertas de capa ou produtos vendidos juntamente com a edição da revista. Os dados recolhidos são objeto de tratamento informatizado e destinam-se à gestão do seu pedido. Ao seu titular é garantido o direito de acesso, retificação, alteração ou eliminação sempre que para isso contacte por escrito o responsável pelo ficheiro da MPL. Caso não pretenda receber outras propostas comerciais assinale aqui Caso se oponha à cedência dos seus dados a entidades parceiras da Motorpress Lisboa, por favor assinale aqui
  30. 30. SUPER30 Imobilizados na PEDRA Paleontologia Os fósseis mais impressionantes Nem todos os organismos fossilizados estão imóveis. O fóssil também inclui pegadas, sinais de luta ou indícios de ação, pois a morte surpreende muitas vezes os animais em plena atividade: a caçar, a acasalar, a parir... Pensemos num trilho de pegadas e como revela a forma como uma espécie caminha, corre ou salta. Por vezes, esses atos ficam gravados em pedra e oferecem à ciência uma informação preciosa. Estes são os instantâneos fósseis mais expressivos da paleontologia. Q ue um combate entre dinossauros possa ficar fossilizado parece exa- gerado. Todavia, o paleontólogo MarkNorell,doMuseuNorte-Ame- ricano de História Natural, e muitos outros especialistas argumentam que é possível. Um dos fósseis mais fascinantes (tesouro nacional da Mongólia) mostra dois esqueletos com 74 milhões de anos, lado a lado e envol- vidos de uma forma que não parece acidental. Um Velociraptor, deitado de costas, dirige as suas quatro perigosas patas em direção a um Protoceratops (dinossauro herbívoro), que está ligeiramente acima dele. A sua garra esquerda repousa na enorme cabeça da presa. A célebre garra da pata em forma de foice do Velociraptor está sobre o pescoço do vegeta- riano, como a querer furar-lhe a jugular ou a carótida. Porém, o Protoceratops, muito mais robusto e pesado, esmaga com o seu corpo a perna direita do predador enquanto lhe morde o braço direito. Aparentemente, partiu-lhe os ossos. Odesmoronamentodeumadunasepultou-os bruscamente,comoaconteceuamuitosoutros habitantes do deserto de Gobi. Os nossos dois protagonistas estariam já mortos? Ou talvez moribundos, fatalmente feridos pelos ata- ques recíprocos? Ou terá acontecido enquanto combatiam? Norell está convencido de que continuavam a lutar. Kenneth Carpenter, outro estudioso do fóssil, defende que o her- bívoro, ferido de morte pelos ataques do Velo- ciraptor, se defendeu e conseguiu imobilizá-lo. Quandoadunaosenterrou,ambososcorposjá estavam ressequidos. Isso explica a razão pela qual faltam três patas do Protoceratops (os animais necrófagos tiveram tempo de levá-las) e pela qual o Velociraptor tem o pescoço dobrado numa postura de morte típica das grandes aves quando ficam mumificadas. A GRANDE MÃE Senosdisseremqueumdinossaurochocava os seus ovos como se fosse uma galinha, há 80 milhões de anos, não ficaremos muito surpreendidos. Porém, em 1955, os cientistas ainda estavam a tentar habituar-se à ideia da íntima ligação entre as aves e os gigantes da pré-história. A verdade é que cada vez mais JOSÉANTONIOPEÑAS
  31. 31. De garras de fora. Não deverá ter sido muitro diferente desta ilustração a cena que ficou gravada na pedra do deserto de Gobi (Mongólia), descoberta em 1971: o enfrentamento mortal entre um Protoceratops e um jovem Velociraptor. 31Interessante
  32. 32. SUPER32 fósseis muito bem preservados começavam a estabelecer esse parentesco com crescente força.Duasgotasacabaramporfazertrasbordar ocopo:asimpressõesdepenaseosins­tan­tâ­neos de comportamentos típicos das aves. O fóssil batizado com o nome de Big Mama causousensação.Trata-sedeumamamãdinos- sauro, encontrada na Mongólia, que morreu ipso facto, sepultada por uma duna, enquanto estava sentada num ninho sobre mais de vinte ovos. Dotada de um bico e de uma crista, tra- tava-sedeumaversãomaior(cercade3metros de comprimento) do conhecido Oviraptor. O seu nome científico é Citipati osmolskae. De acordo com uma lenda, os citipatis foram dois monges tibetanos decapitados por um ladrão enquantose encontravam em pleno transe da meditação. A Big Mama não tem a cabeça e parte do esqueleto, mas o que resta é inconfundível: grandes patas com três garras curvas estendem-se dos dois lados do corpo para proteger os ovos. Sabemos, hoje, que esses braços estavam, muito provavelmente, revestidos de penas, como acontece com as asas dos seus parentes próximos, as aves. PEGADAS INQUIETANTES As pegadas fósseis têm grande interesse científico, nomeadamente se forem desco- bertas misturadas as de carnívoros com as de herbívoros. Em 1938, Roland Bird, do Museu Norte-Americano de História Natural, desco- briu perto do rio Paluxy, no Texas, o que pare- cia ser uma cena de caça: pegadas de uma manadadesaurópodes(herbívorosdepescoço comprido), presumivelmente perseguidos por um Acrocanthosaurus, terópode predador que parece correr junto de uma das presas e, a certa altura, saltar para abatê-la. Recente- mente, porém, James Farlow, paleontólogo da Universidade Purdue (Estados Unidos), voltou aanalisarocasoecrêqueaspegadasmostram que os dinossauros estavam em movimento, mas não se pode afirmar que corriam nem que o caçador tivesse lançado um ataque. É pos- sível que perseguisse os herbívoros, mas não podemos sabê-lo, segundo Farlow. Outro tipo de pegadas que intrigam os paleontólogos são as que refletem os saltos da evolução. Descendemos do macaco mas também (e muito antes) do peixe. A trans- A mãe dinossauro Big Mama morreu a proteger o seu ninho formação de barbatanas em patas produziu- -se através das fascinantes transformações sofridas por alguns peixes carnívoros. Os especialistas estudam o processo com recurso a fósseis de transição, como o Panderichthys, que viveu há 380 milhões de anos, e o Tiktaalik (375 M.a.). Esses seres tinham barbatanas. Porém, em 2010, foi descoberto um fóssil revo- lucionário: antiquíssimos vestígios com 295 M.a. encontrados numa pedreira do sueste da Polónia. Trata-se das pegadas de vários animais com cerca de dois metros de compri- mento. Não há barbatanas a arrastar-se, mas marcas de patas em que até se consegue dis- tinguir os dedos. Provam que os primeiros vertebrados quadrúpedes (tetrápodes) come- çaram a caminhar fora de água quase 20 M.a. antes do que se pensava e que o fizeram, talvez, saindo do mar e aproveitando a maré baixa para se aventurar na praia e devorar ani- mais moribundos ou cadáveres. ORGIA DE TRILOBITES Astrilobitesfiguramentreosgrandeslíderes do registo fóssil e da história da evolução. Já foramdescritasmaisde20milespécieseextraí- dos milhões de exemplares de numerosas jazidas nos cinco continentes (Portugal é par- ticularmente rico). A classe Trilobita abrange o grupo mais diversificado de animais extintos, Mãe extremosa. O fóssil Big Mama, encontrado em Ukhaa Tolgod (Mongólia) é de uma fêmea de dinossauro que morreu a chocar os ovos.
  33. 33. Interessante 33 que sobreviveram nos mares e oceanos do planeta durante quase 300 M.a. Por tudo isto, as fotos fossilizadas com diferentes formas e comportamentos abundam neste grupo de artrópodes ou invertebrados marinhos. Foram encontradas, por exemplo, muitas provas da morte em massa de trilobites devido a catás- trofes súbitas produzidas por furacões. Rochas cheias de indivíduos da mesma espécie e tamanho revelam que esses antigos seres podiam ser gregários. Alguns fósseis contêm centenas de exoesqueletos de mudas recentes. Tal como alguns caranguejos moder- nos, as trilobites juntavam-se em grandes aglo- meraçõesparalançaroperaçõesdelicadasede risco,masnecessáriasparaasuasobrevivência: emconcreto,mudaracarapaçae,aproveitando a nudez, acasalar em autênticas orgias. Na costa norte de Portugal, junto do Porto, foram encontrados restos fossilizados que mostramlongascadeiasdepequenastrilobites em comboio. Trata-se de filas migratórias, um comportamento social que observamos hoje nos gafanhotos e que tem, aparentemente, mais de 400 milhões de anos de antiguidade. ACASALAMENTO FATAL Os paleontólogos descobriram muitos exemplos fossilizados de cópulas entre insetos e ácaros, mas não havia um de animais verte- brados. Por fim, em 2012, foram encontrados nove pares de tartarugas do Eoceno, com 47 M.a., na jazida alemã de Messel, a sul de Frank- furt. Em tempos, foi um lago tropical formado numa cratera profunda, cujo fundo, sem oxi- génio e talvez saturado de substâncias tóxicas, conservou de forma espetacular os corpos de muitos animais. Podemos afirmar que as tartarugas, nove machos e fêmeas da espécie Allaeochelys cras- sesculpta, estavam a copular? Os machos são 17 por cento mais pequenos e possuem uma caudamaiscomprida,enquantoasfêmeastêm nacarapaçaumapartemóvelcomumaespécie dedobradiça,útilparapôrosovos.Emdoisdos fósseis, as caudas estão em posição de acasa- lamento. Porque terão morrido no ato? As tar- tarugas aquáticas acasalam na água. Quando a fecundação ocorre, o casal em êxtase afunda-se por alguns momentos. Nesse caso, à medidaquedesciamatéàscamadasmaisbaixas do lago, aumentava a concentração de gases tóxicos,osquaisinvadiamacorrentesanguínea dos amantes, matando-os em segundos. A SERPENTE QUE ROUBAVA OVOS Osamantesdosdocumentáriossobreanatu- reza recordam certamente aquela serpente africana que consegue engolir um ovo inteiro, maior do que a sua cabeça. Mandíbulas de bor- racha e grandes goelas são também caracterís- ticas de boas, pitões, cobras, víboras... Porém, as serpentes antigas não dispunham das mes- mas capacidades de muitas das suas descen- dentes modernas. Assim, a Sanajeh indicus, do Cretácico tardio, não tinha um crânio apto para engolir um grande ovo, nem dentes capazes de perfurar uma casca grossa. Talvez pudesse partir os ovos esmagando-os com o corpo, como faz atualmente a Loxocemusbico- lor americana, mas precisaria de muita força. Teria sido mais fácil rondar os ninhos alheios, detetar pelo ruído os que tinham ovos prestes a eclodir e esperar tranquilamente pelo nasci- mento da cria para a devorar. É a estratégia que se pode deduzir de um fóssil encontrado na Índia, em 1984. Contém um ninho de ovos de titanossauro, um grande dinossauro saurópode de pescoço comprido que não protegia os seus ovos. A nidificação contém os restos de uma cria recém-nascida com meio metro de comprimento. Dezassete anos depois, após um novo exame feito ao fóssil, descobriu-se a serpente. Estava enro- lada junto do bebé dinossauro, em redor de vestígios do que fora o seu ovo. Tinha cerca de 3,5 m de comprimento. Antes de ter podido devorar o pobre recém-nascido, um monte de sedimentos caiu-lhes em cima e sepultou-os para sempre. Os paleontólogos descobriram restos de Sanajehindicusnoutrosninhosdetitanossauro. Interpretam,porconseguinte,queaassociação SPL Em grupo. Trilobites da espécie Ellipsocephalus hoffi. Estes extintos artrópodes tinham um comportamento gregário.
  34. 34. SUPER34 Talvez os jovens dinossauros ajudassem a criar os mais novos não é fortuita e que se trata de etofósseis, isto é, de momentos fossilizados que captam real- mente o comportamento dos animais. BERÇÁRIO COMUNITÁRIO AprovínciachinesadeLiaoningjáproporcio- nouimpressionantesfósseisquemudaram,em poucos anos, a paleontologia, nomeadamente inúmeros restos de dinossauros em diferentes fases evolutivas (desde simples pelinhos a plu- magens complexas). Contudo, proporcionou também exemplos fossilizados de compor- tamentos. Em 2004, foi anunciada a desco- berta de um ninho com vinte e quatro crias de dinossauro Psittacosaurus lujiatunensis. A quantidade de miniesqueletos sugere que havianolocalfilhosdeváriasmães:umexemplo de um berçário comunitário. As crias já tinham saído dos ovos, mas per- maneciam ali juntas até que uma avalancha de detritos vulcânicos as sepultou. Entre elas, havia um esqueleto maior: teria pertencido a uma mãe ou um pai? Em 2014, um novo estudo determinou que esse indivíduo também não chegara à idade adulta. Tratava-se, nesse caso, deumirmãomaisvelho?Nestaespéciededinos- sauros, os jovens nascidos em anos anteriores talvez ajudassem a cuidar das novas crias. QUEM CAÇA QUEM? As rochas calcárias de Solnhofen, no sul da Alemanha, preservaram detalhes extraordiná- rios de fósseis do Jurássico, tão emblemáticos como os da ave primitiva Archaeopteryx. Ani- mais de todos os géneros, desde alforrecas a crocodilos, morriam e os seus corpos afunda- vam-se no fundo de lagoas de água salgada. Algumas presas ficaram literalmente presas nasgoelasdopredadorparatodaaeternidade, preservadas no lodo sem oxigénio. O pte- rossauro Rhamphorhynchus é um dos mais abundantes na zona. Cinco exemplares desse pequeno réptil voador com cauda em forma de losango surgem junto de um inesperado companheiro, um peixe de mais de meio metro denominado Aspidorhynchus. Porque se teriam transformado em fósseis juntos, com a boca do peixe em contacto com as asas do pterossauro? Segundo os paleontólogos Frey e H. Tisch­ linger, os dentes finos e muito juntos do pri- meiro ficaram presos na densa rede de fibras da asa do dinossauro, formadas por um tecido muito complexo. Num exemplar de “peixe- -morde-um-pterossauro” ainda mais espeta- cular, o Rhamphorhynchus exibe um peixinho intacto no gasganete e restos de peixe meio digeridos no estômago. Os especialistas suge- rem que esses répteis voadores planavam muito perto da superfície da água para pescar, como algumas aves modernas. Nessa altura, eram atacados por baixo pelos Aspidorhyn- REX Creche. Restos de um ninho de Psittacosaurus lujiatunensis, um tipo de dinossauro-papagaio.

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