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Da leveza:
uma civilização sem peso
Gilles Lipovetsky
Profa. Dra. Cíntia Dal Bello
www.cintiadalbello.blogspot.com.br
Gilles Lipovetsky tem promovido uma guinada dos temas tradicionais da filosofia e
da sociologia. E assim se firmou como um...
Lipovetsky analisa essa transição em diversos domínios. A escolha de materiais e
as propostas da arte, da arquitetura, do ...
Revolução digital e fluidez nômade
A convergência das nanotecnologias, das biotecnologias, da robótica, das
técnicas da in...
A hipermobilidade digital
Recentemente, os aplicativos de mensagens efêmeras acabam de oferecer um novo
exemplo de leveza ...
Promessa e servidões da vida digitalizada
O elo das tecnologias digitais com a leveza é duplo: além de permitirem o nomadi...
A fluidez e sua sombra
[...] mas as tecnologias do digital também têm sua parte na medida em que instauram
a ditadura das ...
Somos cool?
O projeto moderno de tornar a existência mais leve concretizou-se de maneira
espetacular na melhoria das condi...
Somos cool?
Pouco após o Maio de 1968, os casais, a filiação, a vida sexual e os códigos que regiam
as relações homens/mul...
Somos cool?
Esse modelo (o ideal de libertinagem do período Iluminista) não tem nada a ver com o
espírito cool. [...] O mu...
Casais do terceiro tipo
Cabe agora aos indivíduos escolher a maneira como querem viver juntos: casar-se,
divorciar-se, viv...
Sentimentalidade e descartabilidade
Será que cansamos de esperar que relações amorosas durem por muito tempo? Nada
disso. ...
O cool e seu outro
Se os pesos coletivos ficaram mais leves, as experiências vividas continuam duras,
ainda tão carregadas...
Infidelidade nova, fidelidade de sempre
Ficou para trás a época da contracultura que podia assimilar a fidelidade a uma no...
Pais cool, crianças frágeis
[...] passou-se de um modelo autoritário a um modelo maleável, compreensivo e cool.
A mudança ...
Da leveza: uma civilização sem peso (Gilles Lipovetsky)
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Da leveza: uma civilização sem peso (Gilles Lipovetsky)

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Alguns excertos da obra de Gilles Lipovetsky sobre a Leveza (Da leveza: uma civilização sem peso), para pensarmos sobre o contexto sociocultural e econômico de produção e consumo ciberespacial de imagens e a complexidade relação homem-máquina, mente-rede.

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Da leveza: uma civilização sem peso (Gilles Lipovetsky)

  1. 1. Da leveza: uma civilização sem peso Gilles Lipovetsky Profa. Dra. Cíntia Dal Bello www.cintiadalbello.blogspot.com.br
  2. 2. Gilles Lipovetsky tem promovido uma guinada dos temas tradicionais da filosofia e da sociologia. E assim se firmou como um dos mais originais pensadores do mundo contemporâneo. Essa guinada consiste em conferir centralidade a objetos de estudo considerados excêntricos ou marginais. Em demonstrar a relevância de aspectos aparentemente irrelevantes de nossa vida. Por isso, desde A Era do Vazio (1987) e o Império do Efêmero (1987) até A Estetização do Mundo (2015), o pensador francês tem desenvolvido uma teoria da modernidade que valoriza mais a alimentação, a moda, as dietas e o lazer do que as macroestruturas econômicas, políticas ou sociais. [...] A hipermodernidade seria uma radicalização dos processos de produção modernos que emergiram da industrialização do século 18. Entretanto, até o século 19, havia uma divisão clara entre produção e consumo, entre trabalho e lazer. A partir do processo de mecanização, começou a se produzir uma paradoxal indistinção entre produção e consumo. Em outras palavras: os trabalhadores deveriam ser incorporados à esfera do consumo para ampliar o circuito da economia e da produção. O século 20 representa um salto nesse percurso. As tecnologias digitais têm revolucionado nossa relação com o mundo. A maior fluidez entre consumo e produção fluidifica o poder, o trabalho, a sexualidade, a habitação. Ou seja: embaralha as relações entre peso e leveza. Nesse sentido, a hipermodernidade seria uma alteração do estatuto ontológico (relativo ao ser) dessas duas categorias.
  3. 3. Lipovetsky analisa essa transição em diversos domínios. A escolha de materiais e as propostas da arte, da arquitetura, do urbanismo e do design contemporâneos. As relações interpessoais, os casamentos abertos ou de curta duração. A mobilidade crescente e o nomadismo digital dos trabalhos a distância. A modelização do corpo, da alimentação, beleza, estética. E, por fim, a tentativa de eliminar a dor e o envelhecimento por meio da vitória sobre a morte do corpo biológico. Aqui entram as nanotecnologias, bem como todo tipo de tecnologia leve, capaz de suspender a fatalidade do mundo material e preservar a vida por meio de ambientes ou recursos artificiais. Essa nova civilização da leveza erradicaria todas as contradições, desigualdades e misérias humanas? O leitor se perguntaria. E a resposta é: não. Lipovetsky é um pensador fino. Não se deixaria seduzir por um elogio unilateral da leveza. Revela- nos também as consequências negativas da leveza tomada como fatalidade, sobretudo no que diz respeito à medicalização indiscriminada e às violências da normatização do corpo e dos padrões de beleza. Nesse caso, essa sombra da leveza se manifestaria como sintoma e como psicopatologia. Nasceria da incapacidade de convivermos com nossa triste e pesada finitude. Texto de Rodrigo Petrônio (21 jan. 2017) Fonte: http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,gilles-lipovetsky-mostra-leveza-da-sua-escrita-em- novo-livro,70001636146.
  4. 4. Revolução digital e fluidez nômade A convergência das nanotecnologias, das biotecnologias, da robótica, das técnicas da informação e das ciências cognitivas abriu caminho aos tecnoprofetas, às utopias pós-humanistas e transhumanistas que anunciam o advento do ciborgue, a fusão da humanidade e da máquina, o crescimento ilimitado de nossas capacidades físicas e mentais, a juventude eterna, a superação de nossa condição humana imperfeita e mortal. Trata-se, nada menos, nessa corrente de pensamento, de vencer a própria mortalidade biológica ao produzir uma ciber-humanidade imortal graças à transferência, em breve possível tecnologicamente, como nos garantem, do “conteúdo informacional do cérebro” para as redes informática. (LIPOVETSKY, p. 126).
  5. 5. A hipermobilidade digital Recentemente, os aplicativos de mensagens efêmeras acabam de oferecer um novo exemplo de leveza digital, ao permitir aos internautas trocar mensagens e fotos em seus celulares que se autodestroem automaticamente segundos depois de serem vistas. Uma foto aparece na tela e depois desaparece sem deixar traços: eis o tempo digital que, tornado leve como um sopro de ar, afirma-se sob o signo da evanescência pura. (LIPOVETSKY, p. 127). • Novo paradigma de leveza: possibilidade tecnológica de fluidez e simultaneidade • Mobilidade conectada, navegação veloz • Nomadismo de objetos e pessoas • Intervenção à distância • Acesso a uma infinidade de informações sem restrição de tempo e espaço • Objetos leves, sociabilidade leve
  6. 6. Promessa e servidões da vida digitalizada O elo das tecnologias digitais com a leveza é duplo: além de permitirem o nomadismo virtual, elas são capazes de reduzir o peso que certas organizações exercem sobre as vidas individuais: trabalho, ensino, transporte e vida social estão diretamente envolvidos. (LIPOVETSKY, p. 128). • Flexibilidade, liberdade • Reino imaterial da imediatez, do impalpável, do ultraleve • Home office, videoconferência, novas formas de ensino-e- aprendizagem, carona compartilhada, sites de encontro, e- commerce, transações financeiras digitais (moeda virtual)
  7. 7. A fluidez e sua sombra [...] mas as tecnologias do digital também têm sua parte na medida em que instauram a ditadura das respostas imediatas, a impossibilidade de se distanciar, uma pressão temporal permanente, o sentimento de viver “enterrado no trabalho”. [...] Ela (a lógica da urgência) engendra muito mais um homem hipertenso, despossuído do sentido de sua atividade, do que um homem leve. [...] À medida que desmaterializam o trabalho, as novas tecnologias aumentam constantemente o peso da carga psicossocial suportada pelos assalariados. O imaterial digital é menos mensageiro de existência nômade do que de vida em fluxo tenso, em ‘zero de atraso’. (LIPOVETSKY, p. 130). • “Será que os assalariados que tratam da informação vivem muito melhor seu trabalho imaterial do que os operários do velho mundo industrial?” (p. 129) • Redução de prazos, fazer mais com menos • Novas formas de submissão e dependência • Sofrimento mediante a privação das teletecnologias • A questão da privacidade – a mecanização da vigilância
  8. 8. Somos cool? O projeto moderno de tornar a existência mais leve concretizou-se de maneira espetacular na melhoria das condições de vida material e na democratização do consumo. Mas ele vai muito além apenas do campo materialista: afeta igualmente a maneira de viver em sociedade, nossas relações com as tradições, as instituições e os contextos coletivos. Um imenso trabalho de emancipação em relação aos pesos sociais realizou-se ao longo da segunda metade do século XX, mensageiro de uma completa revolução do modo de estar junto, da relação consigo mesmo e com os outros, das formas de socialização e de individualização. Livrar-se do peso dos interditos e dos tabus, desfrutar da carne como bem nos parece, viver desprendido, desapegado, de maneira mais flexível: a leveza do ser tornou-se uma aspiração, um ethos democrático de massa.(LIPOVETSKY, p. 243). • Anos 1960 – efervescência da contracultura • Exaltação da liberdade (subjetiva, social, moral, sexual) – antimoralismo, anti-hierárquico • Vontade de emancipação à ordem burguesa • Apelo à satisfação dos sentidos
  9. 9. Somos cool? Pouco após o Maio de 1968, os casais, a filiação, a vida sexual e os códigos que regiam as relações homens/mulheres e pais/filhos, mas também a educação, o “saber viver” e as maneiras de se vestir conheceram a mesma descontração das regras, a mesma rejeição dos formalismos, das convenções e das imposições “burguesas”. Por toda parte, aciona-se um processo de flexibilização das restrições e das normas coletivas, uma volatização do peso dos códigos sociais. Ao culto do trabalho e do êxito social sucede a busca de novas formas de vida por meio do sexo “liberado”, da música, das viagens e das drogas: nada parece mais importante e mesmo “revolucionário” que “ter prazer”, “divertir-se”, “viajar”. Este é o momento cool das democracias, apoiado por um ideal de leveza individual absoluta na vida em sociedade.(LIPOVETSKY, p. 243- 244). • Viver “imediatamente”, “festa permanente sem tempo ocioso” (p. 243): direito ao prazer e a dispor de si mesmo (novo valor) • Após maio de 1968: descontração das regras em todos os âmbitos • Iluminismo: a figura do libertino “No universo libertino, o que conta é vencer obstáculos, pular de conquista em conquista, colecionar os troféus, subjugar as mulheres” (p.244)
  10. 10. Somos cool? Esse modelo (o ideal de libertinagem do período Iluminista) não tem nada a ver com o espírito cool. [...] O mundo aristocrático moribundo gerou a frivolidade libertina. O universo democrático-individualista tardio, a leveza cool.(LIPOVETSKY, p. 244). O cool foi o tom dominante de uma época. Mas será que ele ainda o é em uma época de reflexividade e de competitividade generalizada? Será ainda a verdade do mundo vivido? Será que a revolução doscostumes realmente permitiu viver de maneira mais aérea? O terror do tédio rondava por trás dos prazeres dos libertinos e das festas galantes. Hoje, outros medos são o avesso da ordem cool. Pobre Ícaro, que não cessa de queimar suas asas à medida que crescem as promessas de leveza.(LIPOVETSKY, p. 245).
  11. 11. Casais do terceiro tipo Cabe agora aos indivíduos escolher a maneira como querem viver juntos: casar-se, divorciar-se, viver em concubinato, ter filhos – tudo se tornou um assunto de liberdade pessoal. O casamento não é mais uma união forçada comandada pelos pais, e quando o é, desperta uma reprovação quase unânime. E os nascimentos não são mais uma fatalidade natural, mas uma escolha. Indo além do campo da vida material, o ideal moderno de deixar a existência mais leve investiu o universo da intimidade do casal, do vínculo de conjugalidade, da relação entre os sexos. Nas sociedades hiperindividualistas, a aspiração à felicidade transcorre no molde de uma vida própria livre do peso das imposições coletivas que se exercem sobre a vida privada.(LIPOVETSKY, p. 245). • Processo de individualização: reconhecimento da autoridade das pessoas versus “casal como dois que são apenas um” • Novas formas de vida em comum: casamento light, leveza conjugal • Relacionamentos sem compromisso, “casamentos testes” • Casais efêmeros, compromissos flexíveis
  12. 12. Sentimentalidade e descartabilidade Será que cansamos de esperar que relações amorosas durem por muito tempo? Nada disso. A verdade é que a desregulação cool não provocou a destruição dos discursos, da expectativa e dos sonhos de amor. Essa nossa cultura hiperindividualista é simultaneamente consumista e idealista, materialista e sentimental. As lágrimas, os gestos delicados, o romance, nada disso está morto ou fora de moda: nem sob uma aparência cool o “romantismo” deixou de fazer bater os corações e também de torturá-los. Quanto menos as instituições tradicionais pesam sobre nós, mais se afirma o peso do afetivo na esfera privada.(LIPOVETSKY, p. 247-248). • Escolher com quem viver, testar amores, poder romper, arejar a relação. • Fragilidade dos vínculos: insegurança, incerteza, descartabilidade, descompromisso, efemeridade • As delícias da renovação x o pesadelo de ser abandonado • Solidão como solução: medo de relacionar-se • “Vivemos menos a insuportável leveza do ser do que o peso da solidão do ser” (p. 248).
  13. 13. O cool e seu outro Se os pesos coletivos ficaram mais leves, as experiências vividas continuam duras, ainda tão carregadas de vontade de poder, de ódio, de ressentimento e de conflitos. A individualidade cool é muito mais um mito da revolução da leveza do que uma realidade vivida.(LIPOVETSKY, p. 249). Inegavelmente, a família não é mais vista como uma instituição alienante: como centro de afeição, ela é a única instituição pela qual a maioria se declara prestes a fazer sacrifícios. [...] Houve um alívio das pressões coletivas, não das relações interpessoais em casal. Leveza institucional, peso esmagador das violências domésticas.(LIPOVETSKY, p. 249).
  14. 14. Infidelidade nova, fidelidade de sempre Ficou para trás a época da contracultura que podia assimilar a fidelidade a uma norma burguesa e repressiva. Hoje, apenas uma minoria de pessoas considera a infidelidade como algo sem importância; a maioria estima a exclusividade amorosa como uma condição necessária para se ter uma vida doméstica bem-sucedida. É nosso dever observar que a cultura individualista e hedonista não conseguiu desvalorizar o ideal de fidelidade. Associada à mentira, à traição e ao jogo duplo e chocando-se com o princípio de autenticidade moderna, a aventura extraconjugal não conseguiu conquistar uma legitimidade moral e social.(LIPOVETSKY, p. 249-250). • Novas taxonomias para a inconstância amorosa e os amores paralelos: infidelidade sexual, emocional, online... • Desculpabilização da inconstância “em nome do direito à leveza, ao prazer, à autonomia pessoal” • Leveza como forma de “salvar o casamento” e “reconquistar o eu” • Direito democrático à infidelidade
  15. 15. Pais cool, crianças frágeis [...] passou-se de um modelo autoritário a um modelo maleável, compreensivo e cool. A mudança é tão considerável que diversos autores chegaram a evocar uma ruptura que anuncia uma revolução antropológica .(LIPOVETSKY, p. 251-252). • Primeira modernidade: boa educação = disciplina e obediência. • Modelo autoritário = poder rígido dos pais • Presença de castigos corporais • Ensinar a dureza da vida, preparar as adversidades, inculcar o sentido de dever e obediência (sistema centrado na frustração, restrição, sanção) • Início do século XX: crítica à educação severa • Como consequência dos anos 60: educação compreensiva, permissiva, dialógica. Promoção da autonomia, foco na felicidade imediata, respeito à individualidade/singularidade pessoal • Escuta dos desejos, espaço afetivo, de prazeres e compreensão • Jovens agitados, hiperativos, ansiosos e frágeis (ausência de regras, de figuras de autoridade e hierarquia, sem restrições /diretrizes para a construção e estruturação do eu)

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