ZIGUINCHOR E O SEU PASSADO                                (1645-1920)                                                     ...
No século XVI, o reino cassanga abrangia, além dos banhuns, os balantas, os felupes e osmandingas. Coelho e as tradições o...
Apesar da abolição do comércio de escravos em 1814, Ziguinchor continuou-o. 1860: a irmãdo comandante do presídio, Rosa Ca...
1865 pelo qual as tabancas banhuns a sul do rio, a leste de Ziguinchor, cederam à França odireito de soberania entre a bol...
Em Fevereiro de 1884 houve um incidente entre as autoridades francesas e portuguesas. Namanhã de 4 de fevereiro de, um caç...
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Em 6 de Setembro de 1885, Félix lembra a Bayol a sua carta de 22 de Janeiro de 1884. Noseu estilo fortemente sugestivo e a...
A CONVENÇÃO FRANCO-PORTUGUESA DE 12 DE MAIO DE 1886                             (Arquivos do Senegal – 2F.4)    O Presiden...
Artigo 7. - Uma comissão será encarregada de determinar os locais, a posição final dos limitesestabelecidos nos artigos 1 ...
Pouco a pouco, a vantagem da localização do porto, a importância da colheita da borracha e aforte resistência diolas obrig...
Boudodi, Gumbel estendem-se por fora do espaço da administração directa. Algumas cubatas deSantiaba caixas e a maior parte...
licença de convalescença. Fica com o encargo difícil da organização do recrutamento e a gestãodas consequências do impacto...
encarnada pelas potências do Centro da Europa. A participação dos africanos na guerra mundialem combate pela liberdade é s...
Ziguinchor antigo local da tribo dos isguichos está votada a um futuro promissor. Os banhuns,vítimas de um verdadeiro geno...
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Ziguinchor e o seu passado

  1. 1. ZIGUINCHOR E O SEU PASSADO (1645-1920) Christian Roche Quem é que não é seduzido pelo encanto que a capital da Casamansa tem hoje? Localizadana margem sul do rio Casamansa, entre a ilha de Carabane e a ex-capital Sejo, oferece ao turistao espectáculo de uma cidade que se estende por trás do seu porto. Cidade de amenas sombrascom ruas direitas e perpendiculares e os seus antigos bairros coloniais, é também agradável nospiturescos bairros indígenas cheios de gente e de vida estendidos no painel de verdura formadopelos arrozais rodeados de palmeiras. Ziguinchor é hoje uma cidade de 70.000 habitantes, a mais populosa daCasamansa. Fundada pelos portugueses no século XVII, é hoje do Senegal. AS ORIGENS DE ZIGUINCHOR Em 1456, o veneziano Alvise da Mosto [Cadamosto] chega ao rio situado a sul da Gâmbia eos seus intérpretes dizem-lhe que ele pertence a um negro, o Kasa-Mansa, que vive a cerca de30 milhas a montante (1). Meio século depois, um português, Valentim Fernandes, descreve o rioe confirma as declarações do veneziano acrescentando que, nesse reino, há uma mistura detodas as raças, mandingas, felupes, balantas ( 2). Em 1570, outro viajante português, AndréÁlvares dAlmada, é recebido pelo Kasa-Mansa que vive em Brukama (3) Em 1668, Francisco deLemos Coelho descreve a Guiné e narra as suas numerosas viagens entre os rios Gâmbia eCasamansa (4). Temos, então, graças aos viajantes portugueses, descrições muito interessantesdo reino do Kasa-Mansa. Em resultado dessas informações, podemos localizar as pessoas queformaram o núcleo do reino, isto é os Cassangas, assim chamados por Almada e Coelho, queconhecemos como Kasanke, ou habitantes do Kasa. No século XVI vivem em ambos os lados dorio, mas, principalmente, na margem sul, a montante dos banhuns de Zeguinchor. No século XVII,Coelho localiza-os na margem sul, em frente ao reino de Jase (Yasin). Emmanuel BertrandBocandé [ver aqui], em 1849, encontra-os na mesma região, e sabemos que os seusdescendentes ainda são numerosos. Os cassangas eram uma fracção dos banhuns. Almada disse que havia entendimento entreos dois povos. No século XIX, Bertrand Bocandé escreve, a propósito de Jagnou, que «éhabitada por banhuns, nação misturada com cassangas» (5) e, agora, o grande historiadorportuguês A. Teixeira da Mota acha que os dois povos falavam dialectos de uma mesma língua(6).
  2. 2. No século XVI, o reino cassanga abrangia, além dos banhuns, os balantas, os felupes e osmandingas. Coelho e as tradições orais dizem que os banhuns formavam quatro reinosintegrados em tempos na Casamansa. No século XVII, os banhuns rebelam-se contra aCasamansa, que teve dificuldade em impor sua autoridade Cerca de 1830, os cassangas foramderrotados pelos balantas, mais aguerridos, Brikama é destruída e a população Casa remete-se àparte sul do seu país, nas margens do Rio Cacheu, perto da enseada de São Domingos. Provavelmente com o acordo do Casamansa, o primeiro capitão da feitoria de Cacheu,Goinçalo Ayala Gamboa, funda em 1645, nas margens do Casamansa, um depósito de alimentosnum local chamado Ezeguichor pertencente ao clã banhum dos Kabo em Jibélor (Farim éfundadano mesmo ano). Uma lenda local diz que o nome Ziguinchor tem origem na expressão portugesa«Cheguei e choram». Seria uma alusão às caravelas portuguesas que enmtravam no seu portopara levar escravos. A alteração de “Chegyuei e choram” irai dar Chiguitior e, depois, Siguitior: Omais provável é a hipótese que sugere que o local atual de Ziguinchor pertencia à tribo banhumdos izquichos. Isguichos deu Ezequichor, com o sufixo “or” significando a terra, como Tobor,Inor. Jibélor, etc.... Posteriormente, os portugueses e os franceses teriam transformado o nomeem Siguitior e Ziguinchor. Em 1842 Ziguinchor é uma grande tabanca de cabanas de palha apertadas e cercadas poruma paliçada de madeira rectangular. É defendida por quatro montículos de terra colocados semordem. Uma igreja de madeira, construída em 1848, ardeu três anos mais tarde e com ela parteda tabanca. Os seus habitantes, chamados grumetes vivem em dois bairros distintos, o bairrooeste, ou "vila fria", e o bairro este, ou "tabanca". Parece que o primeiro é utilizado comoresidência para os libertos e o segundo para os ainda cativos. Muito religiosos, os ziguinchensespraticam um catolicismo muito misturado de paganismo. Analfabetos, vivem em locaisextremamente sujos por onde vagueiam porcos. e cabras. Na época das chuvas as ruastransformam-se em esgotos fedorentos. Fechada de todos os lados, a tabanca não temventilação, a higiene é inexistente. O porto consiste numa praia onde estão as pirogas feitas dostroncos maciços dos poilões. A presença portuguesa é assinalada pela bandeira nacional que flutua em cima de um postecolocado nas margens do rio. A autoridade é exercida por um mulato que ostenta o pomposotítulo de governador. Na verdade, ele é o comandante do presídio de Ziguinchor, subordinado aocapitão-mor da feitoria de Cacheu. É auxiliado na sua tarefa por um director das alfândegas, edois ou três soldados pretos encarregados de guardar a bandeira. Nenhum portuguêsmetropolitano vive em Ziguinchor e é rara a ida lá de algum. No entanto, as famílias principais têmnomes portugueses, às vezes nobres, como os Carvalho-Alvarenga, os Nunes, os Pereira, osTavares. A origem da mestiçagem remonta ao século XVII, e todos os nativos de Ziguinchor sãopretos. Em 1766, Carlos de Carvalho-Alvarenqa já exercia esta função [governador de Ziguinchor]e os seus descendentes presidiram muitas vezes aos destinos da cidade. Representando aautoridade colonial, o comandante do presídio deve contar com os réguloss banhuns, velhosdonos do território, especialmente com a família real do clã dos Kabo que reside em Jibélor, apoucos quilômetros a oeste de Ziguinchor.
  3. 3. Apesar da abolição do comércio de escravos em 1814, Ziguinchor continuou-o. 1860: a irmãdo comandante do presídio, Rosa Carvalho [Alvarenga], possuía 100 dos 500 autorizados peloGovernador da Guiné Portuguesa. O comércio é quase nulo. Em 1840, o volume é baixo e nãoexcede o montante anual de 3.200 escudos, enquanto as exportações mensais francesas no riofoi de 4.800 escudos. A maior parte da receita é conseguida pelos direitos alfandegários quepesam sobre os bens que passam através de Ziguinchor. Bem situado, o local do porto agradaaos comerciantes franceses que têm dificuldade em chegar a Sejo com os pequenos navios,devido aos bancos de areia. Os grumetes vendem arroz, e compram pólvora, panos, vinho e contas de vidro. Quando háescassez de arroz, conseguem-no trocando-o por bois com o grupo diola dos feluipes. Esquecida por Lisboa, a feitoria é miserável. Em 1808, o seu comandante Manuel Carvalhonão sabe quem é o seu superior e queixa-se às autoridades britânicas em Bathurst [Gâmbia] dosprejuízos causados pelos comerciantes de Cacheu. No entanto, em 1830, quando os francesesestão interessados na Casamansa, a fim de aí criar feitorias, as autoridades de Cacheumovimentam-se e procuram atrair a atenção do governo português sobre os perigos da presençade um rival, mas sem sucesso. O capitão-mor de Cacheu, Honório Pereira Barreto, preocupadocom os interesses comerciais da sua feitoria, tenta defendê-los dentro dos limites dos seusrecursos limitados. Honório Pereira Barreto é um mulato. Nascido a 4 de abril de 1813 em Cacheu, é o filho docomandante da feitoria. Sua mãe, conhecida como Rosa de Cacheu, tem uma personalidade fortee está relacionada com Carvalho-Alvarenga, de Ziguinchor. Quando adolescente estudou emLisboa, mas voltou para Cacheu em 1837 para exercer mais tarde as funções de Governador daGuiné Portuguesa. Vai lutar contra a presença francesa em Casamansa. A sua correspondênciacom as autoridades portuguesas das ilhas de Cabo Verde e de Lisboa é um longo razoado nadefesa de interesses portugueses em Casamansa e uma vigorosa campanha para opor-se aoestabelecimento do comércio francês na região. Mas os seus apelos não sãoouvidos. Desmoralizado, propõe a venda de Ziguinchor para salvar a dignidade portuguesa.. Em26 de agosto de 1857, escreveu ao Governador Geral de Cabo Verde: "Sem o apoio do meugoverno... Confesso francamente a Vossa Excelência que mil vezes desanimei nesta luta depessoa insignificante contra as autoridades francesas de Gorea e do Senegal apoiadas pelo seugoverno... "(1). Morreu em 1859, em Bissau, de malária. Após a sua morte, os seus sucessoresnão tentaram nada para evitar que os franceses se estabelecessem como donos daCasamansa. No entanto, em 1878, quando os imperialismos europeus se confrontam para ter omáximo de privilégios sobre os territórios de Àfrica, os franceses verificam que os seus vizinhosdo sul movem intrigas para lhes causar problemas na região de Ziguinchor. AS INTRIGAS PORTUGUESAS No início de Dezembro de 1878, o comandante do presídio de Ziguinchor, alferes AntonioJoaquim Pereira, recebe a visita do comandante do presídio de Cacheu, seu superiorhierárquico. A sua vinda coincide com o despertar político português em Casamansa. Alguns diasmais tarde, Pereira, acompanhado por dois soldados, visita várias tabancass do rio entre a pontaSain George e Soungrougrou. Entrega uma bandeira portuguesa a um mulato, Manuel Verda,que reside em Adeane, tabanca banhum. Seu pai, Fabrice Verda, comprou por 900 cabaças(usadas como moeda) o território que ocupa aos chefes da terra e colocou-o sob a proteção dePortugal. Pereira volta para Ziguinchor depois de deixar uma guarnição de três homens. O facto érelatado ao Governador Brière de L‟Isle que informa o ministro Pothuau: «O „presídio deZiguinchor é comandado por um preto mal vestido... Ele quer colocar militares em Diao à entradade Fogny e quer espalhar com fanfarronice esse facto desde Cacheu por toda a Casamansa».(1). O comandante de batalhão Bollève parte no aviso “Le Castor” para «examinar seriamente aquestão no local e fazer voltar as coisas ao seu estado normal nestas regiões sobre as quais,aliás, só a França tem poder de soberania para a instalação de estabelecimentosrespeitáveis»."(2). O Governador fundamenta os direitos da França no tratado de 18 de Março de
  4. 4. 1865 pelo qual as tabancas banhuns a sul do rio, a leste de Ziguinchor, cederam à França odireito de soberania entre a bolanha de Bermaka perto de Diaring, a este, e a bolanha deJinukuna, a oeste. "Le Castor” parte a 30 de Janeiro para o Casamance e ilhas Bijagós. Em Adeane, osfranceses detêm um mulato português, António Ricardo, vestindo um uniforme e dizendo sermédico. Questionado, disse que passeia no país por sua iniciativa, dado que tinha três dias delicença concedida pelo comandante do presídio de Ziguinchor. Mas o povo diz que ele está ali hámais de um mês e que circula na região para dar instruções em nome do comandante do presídiode Cacheu. Para saber a verdade, Boilève prende o mulato e leva-o até ao comandante dopresídio de Ziguinchor, Henrique José Ribeiro. Este vai a bordo do "Castor" e pede desculpaspela conduta de seu sompatriota. A conversa que ele tem em crioulo com Ricardo mostra queeste estava efectivamente em missão na Casamansa por ordem de Cacheu. Boilève vai para St.Louis em 14 de Fevereiro. Brière de lIsle considera que a presença do “Castor” na confluência doSoungrougrou teve como resultado prevenir os indígenas ligados por tratados à França contra asmanobras portuguesas, e que a atitude do comandante de batalhão pôde fazer com que osportugueses se tornassem mais cautelosos. Todavia, em Novembro de 1880, a guarnição deZiguinchor, que incluia um cabo e dois soldados inválidos com dois mosquetes, é substituída porum sargento-mor, dezoito soldados válidos bem armados e duas peças de artilharia. Brière deL‟Isle informa o Ministério, em 10 de Dezembro que vai enviar, com objectivo de inspeccionar,Jaquemart comandante do 2º distrito de Gorea. O ministro, Vice-Almirante Cloué, responde-lheque não vê nenhum inconveniente nesta missão, mas recomenda cautela. Primeiro asapreensões do governador são exageradas, depois é melhor que Portugal não se melindre, dadoque «é grande apoio da França para evitar a expansão dos negócios britânicos nestasparaqens».(1). O comandante do presídio justifica o aumento do número da guarnição pelo aumento docomércio de Ziguichor. Os franceses que são os mestres e os principais artesãos apreciam opretexto invocado pelo seu justo valor. O comércio está nas mãos de um comerciante francês,Francois CHAMBAZ que está estabelecido em Ziguinchor. Tem o maior volume de negócios,50.000 francos em 1874. O restante é assegurado por várias sucursais de casas comerciais deSejo. A cera e as peles saem de Sejo e o amendoim é armazenado em Ziguinchor, onde osbarcos de carga de Gorea o carregam, alegando que eles são de origem portuguesa. Para evitar,assim, o pagamento de direitos de exportação em Carabane. Ninguém se deixa enganar por estafraude, porque todos sabem que o enclave de Ziguinchor não fornece sementes oleaginosas. Ocomércio com Cacheu é medíocre porque são precisas 12 horas de caminhada e atravessar umabolanha para chegar lá. Para engordar as finanças de Ziguinchor, é imposto um mínimo de 300réis a todos os passageiros e barcos que viajam para Sejo. Em 30 de abril de 1882, o comandante do presídio, Antonio Fialho, renovou os direitos dePortugal sobre Adeane. Fez saber aos comerciantes que deviam solicitar uma permissão para seestabelecer lá. Dodds, que terminara uma campanha contra os Malinkés de Sunkari Kamara deMorikunda, recebe a bordo do “L‟Ecureuil” o régulo dos banhuns de Adeane que lhe anuncia queuma lancha a vapor portuguesa tinha vindo, em finais de Março, e que muitas bandeiras tinhamsido distribuídas nas tabancas vizinhas. O comandante do presídio terá dito, em seguida, queuma coluna militar francesa iria saquear o país e que os banhuns tinham interesse em colocar-sesob a protecção do governo português. Desta vez, uma abordagem formal do Ministério dosNegócios Estrangeiros é feita ao governo de Lisboa, que responde ao encarregado de negóciosfrancês, em 14 de Outubro de 1882, com uma história completamente diferente. O CASO LAGLAISE (1884)
  5. 5. Em Fevereiro de 1884 houve um incidente entre as autoridades francesas e portuguesas. Namanhã de 4 de fevereiro de, um caçador francês, Laglaise, fez o seu acampamento nas margensdo rio Casamansa, a uma curta distância da tabanca banhum de Sinedone. Hasteou umabandeira francesa num mastro rústico para dar a conhecer a sua nacionalidade. Algum tempodepois, Diul, o régulo da tabanca, vem dizer a Laglaise para arrear a sua bandeira e substitui-lapela bandeira portuguesa. A 8 de Fevereiro, às 22 horas, o comandante do presídio de Ziguinchorprende Laglaise e fá-lo encarcerar em Ziguinchor por insulto às cores portuguesas. Foi liberadocom a intervenção do comerciante CHAMBAZ, sob condição de nmão sair de Ziguinchor. Tendonotícia disso em Sejo, o vice-qovernador Bayol chega a Ziguinchor na manhã de 14 de Fevereiro.Lembra que Sinedone está sob proteção francesa desde o tratado de 18 março de 1865 e que aprisão de Laglaise é ilegal. O comandante do presídio nega o facto e alega que o território deSinedone é protectorado de Portugal., É propriedade da família do chefe da alfândega deZiguinchor, Ernesto José Afonso, que comprou o terreno ao régulo banhum Fati Dinali, signatáriodo tratado de 1865. A família Afonso está representada em Sinedone por uma mulher e sempredesejou que a sua propriedade estivesse sob a proteção de Portugal. Bayol argumentou que osdireitos de propriedade não podem sobrepor-se aos direitos de soberania da França, mas o seuinterlocotor diz-lhe que vai informar o seu superior imediato, o comandante do presídio deCacheu. Em 18 de Fevereiro, não havendo ainda nenhuma resposta, o aviso “Le Héron” coloca-se em frente a Sinedone ao início da tarde.Os seus habitantes, assustados, aceitam astear uma bandeira francesa, mas ficam com medodas represálias dos portugueses. Por isso, no dia seguinte hasteiam novamente a bandeiraportuguesa e recusam negociar com os franceses, abandonando a aldeia. O destacamento militarde "Héron" desembarca e, comandado pelo capitão Lenoir. incendeia as palhotas de Diul, osceleiros de arroz e chacina os rebanhos. Laglaise é libertado a 21 de Fevereiro e, a 22, Sinedone,apertada entre seus dois "protectores" pede paz. O vice--governador encontra em ZiguinchorJoaquim d‟Almeida, Secretário-geral da Guiné Portuguesa, chegado de Bissau, e que protestacontra a punição infligida a Sinedone. Os dois homens concordam em submeter a controvérsia aseus respectivos governos. Enquanto isso, o statu-quo é respeitado por ambas as partes. Em 8 de março de 1884, o governador Bourdiaux envia ao Ministro Félix Faure relatóriocompleto sobre o incidente de Sinedone feito por Bayol. Aprova a conduta do vice-governador eacrescentou: «Acho que podemos tomar por base em um acordo com os portugueses a venda deZiguinchor e dar em compensação o rio Cassimi, que não ocupamos mas que nos pertence emvirtude do tratado de 28 de Novembro de 1865, assinado por Pinet-Laprade». A sugestão pareceparticularmente apropriada, por ser inspirada em interesses comerciais e porque um novoincidente Iranco-português irá dar-lhe mais cabimento. INCIDENTE DE MBERING OU BRIN (1884) Em 28 de março, o vapor português “Cassini” passa por Carabane para exigir aos habitantesde M‟Béring a entrega de quinze pessoas que eles tinham seqüestrado perto de Ziguinchor.Aterrorizados com as histórias de razias feitas por Fodé Kaba a norte do rio, tinham dixado assuas tabancas para refugiar-se em Ziguinchor. Os régulos de MBéring recusaram entegá-los aocomandante do presídio, o qual os ameaçou de represálias. A 3 de abril, a canhoneira “Bengo”, tendo a bordo o governador da Guiné Portuguesa, PedroInácio de Gouveia, passa por Carabane em direcção a Ziguinchor, onde chegou na noite do dia 4,atrasando-se por um encalhamento sofrido. O sargento Tellier, chefe de posto de Carabane, vai ànoite a MBéring em visita as suas três tabancas, Jirel, Jiguero e Butemol. Os régulos dizem-lheque o governador tinha enviado um delegado, António Pereira de. Carvalho, pra reclamar aspessoas tinham sido sequestradas. Eles responderam-lhe que tinham sido os da tabanca vizinhade Jibonker os raptores e que tinham tentado que eles fossem devolvidos. Furioso, Carvalhoameaçou pegar fogo às tabancas. Eles responderam, então, que pertenciam aosfranceses. Tellier decidiu ficar em MBéring no dia 5 de Abril para tranquilizar a população eesperar pela eventual chegada dos portugueses. Voltou para Carabane no dia 6. E, é claro, osportugueses incendiaram e saquearam as três tabancas de MBéring. A canhoneira “Bengo”
  6. 6. torna a passar dia 8 em frente de Carabane. Tellier vai dia 9 a M‟Béring para ver os estragos. A10 visita os régulos de Jibonker que lhe mostram um papel com o carimbo da canhoneira"Bengo" e assinado por Pedro Inácio de Gouveia. Os portugueses tinham escrito que oshabitantes de Jibonker, a conselho dos de Jibelor, tinham pedido perdão ao governador pelasofensas feitas ao presídio. E prometido, como indemnização, vinte vacas e cem alqueires dearroz para ser distribuído pela população de Ziguinchor. Mas apressaram-se a dizer que esta“indemnização” era uma imposição e que não tinham intenção de a pagar. .Com mais sorte que M‟Béring, Jibonker escapou de ser incendiada. Mas não foi por acaso. Adecisão dos portugueses foi alterada por uma carta do vice-governador Bayol enviada por Tellier,e que chegou a Ziguinchor a 6 de Abril às 22h15. Entre outras coisas, continha uma cópia dotratado assinado a 30 de Março de 1828 entre o comandante do aviso “Le Serpent” e o régulo deM‟Béring e das regiões vizinhas. O governador da Guiné Portuguesa respondeu na manhã de 7de Abril. Declarou que esse tratado não era do conhecimento dos habitantes de Ziguinchor , nemdos de M‟Béring, os quais nunca tinham feito alusão a um protectorado francês. Em conclusão,manifestou o desejo de ser mantido o statu-quo até que os governos de Paris e de Lisboadecidam de maneira definitiva a questão das fronteiras entre o Senegal e a Guiné Portuguesa. Assim, com essas várias tentativas para impor a sua autoridade nas várias tabancas próximasde Ziguinchor, os portugueses procuram fazer valer os seus direitos sobre a Casamansa eadquirir algumas vantagens e conseguir garantias na perspectiva duma troca com os franceses. A AVIDEZ FRANCESA POR ZIGUINCHOR Vigorosamente defendidos por seu prefeito, Félix Cros, os comerciantes de Goreia reivindicamao vice-governador, em Fevereiro de 1883, que seja dada uma mora durante um ano aoscomerciantes franceses estabelecidos e com depósitos de mercadorias em Ziguinchor. Numacarta datada de 23 de Fevereiro Félix Cros escreveu: «Penso que, para simplificar as questões docomércio, é melhor negociar com Portugal a anexação pura e simples de Ziguinchor, dado o seufraco poder».(1). Em 22 de janeiro de 1884, renovou as mesmas reivindicações e tambémreivindicou isenção de taxa de porto para os barcos que vão Ziguinchor para aí armazenarproduls, reservando-se a aplicação desses impostos apenas aos navios ou barcos que lácarreguem esses mesmos produtos para exportação. É a afirmação do interesse dos comerciantes franceses por Ziguinchor, o que fará que ela setorne senegalesa mais tarde, a capital regional da Casamansa. No entanto, Ziguinchor por si sónão tem valor algum. O seu tamanho está reduzido a alguns hectares de natureza agreste, e asua defesa militar são algumas muralhas velhas e decrépitas, mal servida por dois ou trêscanhões meio enterrados no chão. Para o comércio vale zero. Três razões essenciais levam os comerciantes franceses a reivindicar o enclaveportuguês. Em primeiro lugar, a sua localização no rio entre Seejo e Carabane.. Bem colocada,acessível aos barcos, tem a vantagem de evitar transbordos impostos pela baixios de Piedras,ponto e evitar pelos barcos de grande tonelagem para chegar a Sejo. Apesar dos ataques deFodé Kaba e do seu rival Birahim NDraye que saqueiam o baixo Soungrougrou desde 1883, hápontos do rio com ligações mais fáceis com Ziguinchor do que com a capital do Bujé. O declíniona produção de amendoim nas regiões malinkés e o desenvolvimento dos recursos florestaisfomentam a procura e o controlo de novas terras a jusante. O progresso espetacular da borracha,o aumento da procura de sementes de palma e coco dá à Baixa Casamansa uma novaimportância. A zona diola cria ambições. O comércio vai sugerir novas conquistas. Pela suasituação, Ziguinchor torna-se o seu objectivo imediato.
  7. 7. Em 6 de Setembro de 1885, Félix lembra a Bayol a sua carta de 22 de Janeiro de 1884. Noseu estilo fortemente sugestivo e até um pouco peremptório, escreveu: «Não está dentro dosmeus poderes indicar a compensação a ser oferecida em Portugal por causa da cessão deste loteminúsculo de terra, mas é preciso assegurar bem, tanto pela França como por Portugal, que lhecedemos o Cassini em troca com Ziguinchor, cuja posição geográfica no meio do nosso rioCasamansa é lamentável, pelo menos (1). A 12 de Maio de 1886, os comerciantes franceses em Casamansa ganham a sua causa.Ziguinchor torna-se francesa e parte do Senegal depois de uma convenção assinada entrePortugal e a França.
  8. 8. A CONVENÇÃO FRANCO-PORTUGUESA DE 12 DE MAIO DE 1886 (Arquivos do Senegal – 2F.4) O Presidente da República Francesa e Sua Magestade o Rei de Portugal e dos Algarves,animados pelo desejo de consolidar por relações de boa vizinhança e perfeita harmonia os laçosde amizade que existem entre os dois países resolveram celebrar com esse fim uma convençãoespecial para preparar a demarcação de suas posses respectivas na África Ocidental e nomeiamseus plenipotenciários, a saber: O Presidente da República Francesa (Jules Gréry), o Senhor Girard de Rialle, ministroplenipotenciário, hefe da divisão dos arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, cavaleiroda Ordem Nacional da Legião de Honra…etc, e o Senhor Capitão-de-mar-e-guerra, Neill,comendador da Ordem Nacional da Legião de Honra… Sua Magestade o Rei de Portugal e dos Algarves (Luís I), o Senhor João d‟Andrade Corvo,Conselheiro de Estado, Vive-Presidente da Câmara dos Pares, Grã Cruz da Ordem da Legião deHonra… etc, e seu ministro plenipotenciário junto do governo da República Francesa e o SenhorCarlos Roma de Boucage, deputado, capitão de Estado-Maior de engenharia, como seu oficial àsordens e adido militar da delegação junto de Sua Magestade o Imperador da Alemanha, rei daPrússia, cavaleiro da Ordem de Saint Jacques… etc. Os quais, após a verificação mútua da boa e devida forma dos seus plenos poderes,assentarão nos artigos seguintes: Artigo 1. – Na Guiné, a fronterira que separa as possessões francesas das possessõesportuguesas seguirá…: - A norte, uma linha que parte do Cabo Roxo e se estende tanto quanto possível, conforme ascondições do terreno, a igual distância dos rios Casamansa e S. Domingos de Cacheu até àintersecção do meridiano 17º 30‟ de longitude oeste de Paris até ao paralelo 12º 40‟ de latitudenorte; entre este ponto e o 16º oeste, depois do paralelo de 12º 40‟ de latitude norte até aoparalelo de 11º 40‟ de latitude norte. - A sul, a fronteira segue uma linha que parte da embocadura do rio Cajet, situada ente a ilhaCatack, que é de Portugal, e a ilha Tristão, que é da França, e tendo em conta, tanto quantopossível, as indicações do terreno, a igual distância do Rio Componi (Tobati) e da margem sul dorio Cassini (bolanha de Kakonda) primeiro e do Rio Grande depois, vindo terminar no ponto deintersecção do meridiasno 16º de longitude com o paralelo 11º 40‟ de latitude norte. Pertencem a Portugal todas as ilhas compreendidas entre o meridiano do Cabo Roxo, o lado eo limite sul formado por uma linha que segue o talvegue do rio Cajet até sudoeste para a zona depassagem dos pilotos até atingir os 10º 40‟ de latitude norte, juntando-se aí ao meridiano do CaboRoxo. Artigo 2. - Sua Majestade o Rei de Portugal e Algarve reconhece o protectorado da Françasobre os territórios do Fouta Djallon tal como foi estabelecido pelos tratados entre o Governo daRepública Francesa e os Almamys do Fouta Djallon. O Governo da República Francesa, por suavez, compromete-se a não exercer influência dentro dos limites atribuídos por este acordo àGuiné Portuuesa. O Artigo 3 diz respeito aos limites das possessões francesas e portuguesas na região doCongo. O Artigo 4 reconhece a Portugal o direito de exercer a sua influência nos territórios queseparam Angola de Moçambique, sem prejuízo dos direitos já adquiridos anteriormente por outraspotências. [Primeiro sacrifício da Guiné para salvar Angola e Moçambique. Marcelo Caetanotambém estava disposto a isso em 1972 – ver http://coisasdaguine.blogspot.com/2012/01/358-encontro-de-spinola-com-marcelo.html. Quando foi do “mapa cor de rosa” e do ultimato inglês os francesesestiveram-se borrifando para este acordo…] Artigo 5. - "Os cidadãos franceses nas possessões portuguesas na Costa Ocidental da Áfricae os portugueses nas possessões francesas da mesma Costa terão igual tratamento em matériade protecção de pessoas e bens, como indivíduos e cidadãos dos poderes contratantes. Cadauma das partes contratantes gozará nas referidas posses, para navegação e comércio, de umregime de nação mais favorecida”. Artigo 6. - As propriedades no domínio de Estado de cada uma das partes contratantes nosterritórios mutuamente cedidos são objecto das trocas e de compensações.
  9. 9. Artigo 7. - Uma comissão será encarregada de determinar os locais, a posição final dos limitesestabelecidos nos artigos 1 e 3 do presente acordo e os seus membros são nomeados daseguinte forma: - O Presidente da República Francesa e Sua Majestade Muirto Fiel nomeiam cada um doiscomissários. Estes comissários reunir-se-ão em local a ser determinado posteriormente, em umnovo acordo, pelas partes contratantes e no menor tempo possível após a troca das ratificaçõesda presente convenção. Havendo desacordo, os ditos comissários darão disso notícia aosgovernos das partes contratantes (1). A CESSÃO DE ZIGUINCHOR (22 de Abril 1888) Foi preciso esperar dois anos para que o velho presídio se tornasse efectivamente umapossessão francesa. A delegação francesa na comissão franco-portuguesa responsável pelatomada de posse formal de Ziguinchor é liderada pelo Capitão Brosselard. Os Ziguinchenses encararam a convenção de 12 de Maio de 1886 com preocupação. Os seusreceios foram fomentados pelos notáveis locais, que não esconderam a sua consternação. Apresença francesa vai acabar com a autonomia relativa do enclave, que até então seautoadministrava, sob o controle de Cacheu. Os mulatos viam a chegada de um administradorfrancês que iria tudo controlar. Preparam aos franceses um acolhimento muito reservado e estãodeterminados a fazê-los sentir a sua hostilidade. Em 8 de Abril de 1888, o aviso português “Guadiana” chegou às águas do Casamansa. No dia12 à noite, embarcou em Ziguinchor o sargento, o chefe da alfândega e alguns soldados. A 13passou por Carabane, terminando formalmente 243 anos da presença portuguesa emCasamansa. A delegação francesa chega a 21 de Abril, à noite, no aviso "Le Goéland", seguido dacanhoneira "Myrmidon". A delegação foi acompanhada por Ly, administrador de Carabane, e porPicarda, Vigário Apostólico da Senegâmbia em viagem de inspeção. No dia seguinte, domingo 22de Abril,. uma corveta do " Goéland ", comandada por um tenente, desce a tripulação em terralogo de manhãzinha para erguer um mastro e um altar ao ar livre para a missa de domingo. Às7H45 está tudo pronto. Às 8H07 a bandeira francesa foi hasteada e saudada comuma salva de 21tiros de canhão. Às 8H45, a multidão reunida no cais recebe Monsenhor Picarda que celebra amissa. O ofício encerra a cerimónia oficial deste dia histórico. A presença no topo do mastro deum novo pavilhão indica à população de Ziguinchor o fecho de uma página do seu passado. Suacidade envereda por um futuro que não não sabem qual será. O primeiro administrador provisório de Ziguinchor é o explorador Gallbert, membro dadelegação francesa e especialista no estudo de costumes e língua do povo guineense. Um velhorégulo local recusa jurar lealdade à França e é logo afastado do cargo. Galibert decide sanear aaldeia e pede às pessoas para limparem as ruas, o espaço à frente das portas, a prender osporcos em cercas, sob pena de multa. A paliçada que rodeia a aldeia é cortada para permitir umamelhor ventilação. É criado um serviço de caça. O administrador é confrontado com sériasdificuldades quando pretende criar um registo civil e um cadastro, especialmente para saberquem são os proprietários dos campos de arroz ao redor da aldeia. Os notáveis opõem-se à suaautoridade e ele tem de mandar prender alguns para levar a cabo a sua tarefa. Em 1898 um incêndio destruiu toda a aldeia. Além das casas comerciais, apenas quatro oucinco casas são salvas do fogo. Ainda assim, a nova aldeia ainda está suja e os Padres doEspírito Santo escrevem no seu jornal da paróquia em 5 de Maio de 1895: «A aldeia mexe-se umpouco para cobrir as novas casas, mas a limpeza não é coisa conhecida em Ziguinchor. Reina amaior desordem nas supostas ruas de Zjguinchor» (1).
  10. 10. Pouco a pouco, a vantagem da localização do porto, a importância da colheita da borracha e aforte resistência diolas obrigou as autoridades coloniais a transferir a capital do Casamansa daSejo para Ziguinchor. Uma portaria do primeiro governador de Casamansa de 1 de Junho de1907 dividie a Casamansa em dois círculos administrativos: a Alta-Casamansa com Sejo comosede administrativa e a Baixa-Casamansa dirigida pelo administrador de Ziguinchor. Posição Umadminlsteateur superior em Ziguinchor dirige toda a Casamansa. Carabane, a primeira feitoria francesa na foz do rio, criada em 1836, perde irremediavelmentea direcção de toda a Baixa-Casamansa. Em 1908, o administrador superior instala-se emZiguinchor e assume a governação em 1909, o que ainda se mantém. ZIGUINCHOR DURANTE A GUERRA DE 1914 ~ 1918 Desde 1914, o administrador do círculo de Ziguinchor exerceu as funções de prefeito, que temo estatuto de comuna mista (1). É administrada por uma comissãocomposta pelo administrador colonial da circunscrição e por 5 a 9 habitantes notáveis, com direitoa voto deliberativo, nomeados pelo governador e podendo ser reconduzidos. O admintstrador-prefeito é Coppet, que, mais mais tarde, se tornou governador-geral. Homem íntegro, com fortepersonalidade e competente, é considerado pró-muçulmano e ant-clerical. Não vai deixar boaslembranças nos meios católicos de Ziguinchor. O seu adjunto europeu é Gontier, o adjuntoindígena é Lamine Turé, régulo do bairro de Santiaba. Os membros da comissão municipal são:Courvoisler. Benoit Viala, Madig Diop, Cëlestlno Mendy, Alexandre Pereira de Carvalho. A contabilidade municipal exige a existência de dois registos.O diário do prefeito onde anota as despesas do dia-a-dia e as receitas e o Grande Livro ondeficam escritos todos os registos já efectuados no diário do prefeito mas agora por artigo eparágrafo do orçamento. Dessa forma, o primeiro registro dá todas as operações financeiras, osegundo os seus detalhes. A cidade, actualmente com 20.000 habitantes, tem o nível que hoje se lhe conhece. O bairrochamado europeu é uma quadrícula regular e os subúrbios indígenas de Santiaba, Boucotte,
  11. 11. Boudodi, Gumbel estendem-se por fora do espaço da administração directa. Algumas cubatas deSantiaba caixas e a maior parte das de Boucotte estão na zona de protectorado. Coppet proibiu acriação de porcos na cidade e a situação sanitária ficou melhor depois de uma acção que reduziunela de forma considerável o número de mosquitos. No primeiro semestre de 1914, dois eventos marcaram a vida política de Ziguinchor. A visitado governador William Ponty em Março e as eleições legislativas em Abril. Várias vezes a Câmara de Comércio de. Ziguinchor tinha expressado interesse em receber ogovernador-geral para apresentação de projectos para a navegabilidade do rio. William Ponty chega a Carabane em 20 de Março onde foi recebido pelo administrador-superior Maclaud. Depois de uma curta visita à aldeia, embarcou para Ziguinchor no vapor"Général Archinard". Uma grande multidão esperava-o no porto com os administradores e Brunote Coppet. Vários cartazes dizem: "Viva Ponty", “Vive a Casamansa ", mas um deles chamaespecialmente a atenção dos oficiais. Tem apenas uma palavra: “Autonomia”. O seu autor é umcomerciante de Ziguinclior, membro do Conselho Municipal, que defende a autonomia Iinanceirada região de Casamansa. William Ponty parece não ficar preocupado e prefere ocupar-se com apropaganda contra o recrutamento de atiradores para Marrocos, liderada pelos missionários. A 21 de março, William Ponty visita o mercado e os bairros indígenas e recebe na Câmara deComércio os delegados da população senegalesa que lhe entregam uma petição na qualreclamam mais água potável e mais escolas. O Governador Geral promete, mas recusa malsescolas árabes. Às 15 horas recebe na sua residência os funcionários, depois os comerciantesque desejam criar uma escola profissional para evitar o êxodo de jovens para Dakar. WilliamPonty não lhes promete nada. Parte para Dakar no dia seguinte. Alguns dias mais tarde, as eleições legislativas suscitam grande interesse em toda apopulação. No entanto, a maioria não vota. Para se poder votar é necessário ser cidadãofrancês. O que interessa aos senegaleses é que, pela primeira vez, um dos seus é candidato naseleições. Nascido 13 de Outubro de 1872 em Gorea, o candidato Blaise Diagne é umdesconhecido. Graças à generosidade de um rico mestiço católico, Adolphe Crespin, conseguiuuma boa educação em França. Admitido, depois de um concurso difícil, na alfândega francesa,visitou as colónias francesas como funcionário público. Tentou, então, com muita coragem, a suasorte nas eleições legislativas de 1914 no seu país de origem. Os seus adversários, o deputadocessante, Francois carpot, e o advogado alsaciano Henri Heimburger apoiado pela poderosafamília Devès, prestam pouca atenção ao preto que teve a audácia de os defrontar. A eleiçãoserá realizada em duas voltas. Os resultados da primeira volta, em 26 de abril, são um choquetremendo. Diagne fica em primeiro lugar com 1910 votos, à frente do deputado cessante, que tem671, e de Heimburger, com 668. As abstenções e os votos em branco foram muitos. Como avitória de Blaise Diagne não era da maioria dos eleitores inscritos, uma segunda volta foi marcadapara 10 de Maio À calma da primeira volta, sucedeu a preocupação e a paixão entre os seusadversários. A família Devès conseguiu impor o seu protegido Heimburger. Carpot, chateado,recusa desistir. Em Casamansa, todos os eleitores europeus isolados no mato são convidadosa. vir votar em Ziguinchor. Há quem se proponha ir busca-los, se tiverem dificuldades dedeslocação. A campanha eleitoral é animada e Blaise Diagne foi eleito com 2.424 votos eHeimburger com 2.249. Dos 8.677 eleitores inscritos votaram 5.231. Grande contentamento entreos senegaleses e Carpot observa no seu relatório: "Em geral, a eleição de Blaise Diaqne foiconsiderada pela população de Santiaba e de Boucotte como um fracasso do governo local equase uma lição para a administração. Aos olhos dos indígenas, Blaise Diagne aparece comouma espécie de mahdi [enviado de Allá] político cuja missão é lutar contra a administração. Nãose deve exagerar a importância dessas tendências, mas é bom pensar nelas "(1) A declaração de guerra surpreendeu o casamansenses ocupados com os seus trabalhos decampo. Após a chegada da ordem de mobilização, os reservistas europeus, funcionários nocomércio, são mandados para Ziguinchor a partir de 4 de Agosto. As reservas indígenas aceitamsem dificuldade a mobilização. Não sabem, obviamente, a sorte que os espera. Em Casamansa,o vice-administrador Brunot fica como interino e Maclaud parte para a França em Junho de
  12. 12. licença de convalescença. Fica com o encargo difícil da organização do recrutamento e a gestãodas consequências do impacto político, económico e social da nova situação criada. Os 112homens da 17ª companhia de Bignona partem para Dakar com os seus oficiais em 7 de Agosto abordo “Misuren." Eles vão ser todos massacrados em Novembro de 1914 em Arras, na frente donorte. Os seus comandantes, o capitão Javelier e o tenente Lemoine, estão entre as vítimas. Este trágico acontecimento é dolorosamente sentido pelas populações que vão opor-seferozmente a qualquer novo recrutamento. A guerra traz alguns transtornos económicos e um mau estado de espírito em algunscomerciantes, que negam qualquer crédito para indígenas. Alguns, menos escrupulosos,aumentam todos os alimentos em 40 e 50% e baixam para metade os preços do que compram.Outros especulam sobre o arroz, com exceção da C.F.A.O. e a Nouvelle Société CommercialeAfricaine.. Para pôr fim a esses abusos, Coppet publica uma portaria a 12 de Agosto de 1914 quetaxa em 40 cêntimos o quilograma de arroz. Mas alguns comerciantes procuram fugas a esseimposto, ele infljge oito dias na prisão a um lojista de Adeane apanhado em pleno delito. Em 1915, o administrador-prefeito dá-se conta das dificuldades em colher o imposto porcausa da crise económica na região e em toda a Casamansa. Os contribuintes não têm pressasuprir atrasos. Irritado com a hostilidade da comunidade católica contra ele, opõe-se ao pároco deZiguinchor, o padre Esvan, que o repreende por seu anticlericalismo e as suas simpatias poucoequitativas, segundo ele, com os muçulmanos Em 5 de janeiro de 1915, uma epidemia de varíola estourou em Ziguinchor e seis meninas,alunas das freiras, apanham febre alta com erupção cutânea. Não houve nenhuma morte alamentar. Uma semana depois, o médico e o Comissário de Polícia vão inspecionar o colégio dasfreiras e o Comissário pergunta ao padre Esvan se ele estava ciente da situação.O padrerespondeu afirmativamente, mas acrescentou que a doença também estava noutro local, porexemplo em Jifangor. O Comissário, em seguida, repreende-o por não ter advertido aadministração.Na noite de 13 de Janeiro, o pároco de Ziguinchor é acusado de não ter informadosobre a varíola e, dois dias depois, foi condenado a 100 francos de multa e um mês de prisão. Aseveridade desta condenação irrita os católicos que tomam a defesa de seu pastor. Por ordem deMonsenhor Jalabert, seu bispo, o padre Esvan apela, a 28 de Janeiro, para o tribunal de Dakar,que o absolve a 26 de Março. Isto não melhorou as relações entre o padre e o prefeito, quelamentou o efeito desastroso de uma visita do Bispo Jalabert a Ziguinchor, onde ele sugeriu aosindígenas que tinha sido enviado pelo Governador-geral (1). Em 1916, os europeus mostraram o seu descontentamento, como resultado da interrupção detodas as chamadas de telefone a partir de 24 Julho até 14 de Setembro. Os indígenas,indiferentes a esta falta de notícias, estão mais interessados em criar uma sociedade culturalchamada de "Aliança Senegalesa da Casamansa”. A administração, desconfiada, acompanha aevolução desta iniciativa com cautela e congratula-se com a relutância dos seus membros empagar as quotas. A 5 de Agosto de 1917, o novo governador, Van Vollenhoven, em visita de inspeção na BaixaCasamansa por causa da hostilidade profunda dos diolas ao recrutamento, vai aZiguinchor. Recebeu uma delegação da Aliança Senegalesa, que subsiste apesar das suasdificuldades financeiras. Em termos firmes mas com benevolência, Van Vollenhoven aconselha osdelegados a mudar as suas ideias em realção à e não sair dos objectivos para que a associaçãofoi criada. Apesar da questão do recrutamento, os espíritos acalmaram-se na cidade depois de umaretomada acentuada do comércio. Apesar da oposição de Van Vollenhoven a um novo recrutamento de soldados negros naAOF, o governo francês liderado por George Clemenceau decidiu uma nova leva no início do ano1918. Van Vollenhoven renunciou e pediu para ser colocado na frente, porque não concordou queo governo optasse por um Comissário da República para cuidar desta tarefa geralmente atribuídaao geuvernador-geral. Clemenceau designa Blaise Diagne para esta função e do delegado do Senegal aceitou-aporque acredita que a guerra é uma batalha global entre as forças da liberdade e as da opressão,
  13. 13. encarnada pelas potências do Centro da Europa. A participação dos africanos na guerra mundialem combate pela liberdade é significativa. Deve ser ser o prelúdio da luta dos povossubmetidos que aspiram reconquistar a independência perdida. Blaise Diagne espera que aFrança se mostre compreensiva e generosa com a ajuda eficaz que a África lhe deu na luta paradefender sua própria liberdade Diagne chega então à Casamansa em 5 de Março de 1918 à frente de uma importante missãoa bordo de "L‟Archinard". É acompanhado pelo Governador do Senegal, Levecque. Os habitantesde Carabane que primeiro o acolhem reconhecem no seu grupo dois oficiais senegaleses, otenente Henry GOMIS, dos tanques, de Carabane, e o alferes Galandou Diouf. Na praça domercado, todos os chefes de aldeias vizinhas vieram para ouvir o deputado senegalês, que lhesfala durante por duas horas. Houve uma recepção a seguir na escola das freiras e os alunoscantam em wolof em homenagem ao seu convidado ilustre. Pierre Marie Diatta, catequista,profere um pequeno discuso patriótico que agrada e Blaise Diagne responde-lhe. A cerimôniatermina com o hino “Glória à França”. Em Ziguinchor, a multidão espera durante horas a chegada do navio que aparece às 17horas. Os atiradores prestam honras. Recebido pelo comandante Benquey, administrador-supperior, Blaise Diagne explica num discurso o objectivo de sua missão. No dia seguinte visitou a Missão Católica e deixa claro que o novo recrutamento se fará deforma suave. O padre Esvan, céptico, pede o céu para que seja realmente assim. Antes de partirpara Kaolack via Bathurst, Diagne manda parar os trabalhos para a construção da estrada deKamobeul e repor a proibição da coleta de vinho de palma (1). A missão Diagne é um sucesso. Muitos jovens de Ziguinchor pedem para ser incorporados,mas nas mesmas condições daqueles das quatro comunas (Saint-Louis, Dakar, Gorea,Rufisque). O deputado do Senegal promete trabalhar para conseguir a sua pretensão. A AliançaSenegalesa também faz propaganda mas os seus dirigentes furtam-se a dar o exemplo. Oadministrador-prefeito de Ziguinchor, Lanzerac, faz notar que Oumane Guèye, Secretário daAssociação, e Malick Seck, auxiliare, que tinham feito a promessa solene numa sessão de seoferecerem logo ao primeiro apelo, abafaram suavemente os seus belos sentimentos patrióticos(1). Se a missão de Blaise Biagne tem um certo sucesso na AOF, devemos reconhecer que, emCasamansa, desperta pouco entusiasmo. O governador-geral Angoulvant sucessor de VanVollenhoven foi obrigado a reduzir o número de recrutas na Baixa Casamansa, por causa degrupos rebeldes, particularmente activos (2) Com o fim da guerra, muitos banhuns e manjacos, que se haviam refugiado na vizinha Guiné,regressaram para Ziguinchor. A situação política é satisfatória. A escolarização está a fazerprogressos e, em 1920, a escola primária pública dirigida por um director, dois professores e duasprofessoras, acolhe 344, sendo 42 raparigas. Cidade limpa, com exceção de um bairro,Ziguinchor gradualmente assume a aparência que conhecemos hoje. À pequena aldeia negro-portuquesa, suja e atravancada de palhotas apertadas, sucedeu uma pequena cidade de 25.000habitantes. Ao sul da cidade europeia, os arrozais e florestas de palmeiras de Boucotte eSantiaba deram lugar a bairros populosos e animados. As fontes de Boucotte e de Sindian,outrora longe do porto, estão agora cercadas por cubatas. As mulheres vêm em procissão para irbuscar a água e as querelas entre elas às vezes continuam apaixonadas. Ziguinchor tornou-se indiscutivelmente a capital da Casamansa.Carabane na entrada do rio está morrendo. A aldeia está vazia e prédios administrativos estão-sedesmoronando. Sejo ainda mantém alguma actividade graças ao comércio de amendoim, masnão pode competir com Ziguinchor. O seu forte testemunha o seu passado aventureiro.
  14. 14. Ziguinchor antigo local da tribo dos isguichos está votada a um futuro promissor. Os banhuns,vítimas de um verdadeiro genocídio desde o século XVII provocado pelos seus vizinhosbelicosos, podem ver no sucesso da sua cidade uma mão estranha do destino. Zigulnchor, 12 de Abril de 1973

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