DOSSIÊ    OSÍRISPéricles Prade
DOSSIÊ           OSÍRIS        LITERATURA   Péricles PradeMarco Vasques e Rubens da Cunha     (organização e seleção)     ...
Copyright       2011 Marco Vasques e Rubens da Cunha                                 REVISTA OSÍRIS                       ...
Bússola de NavegaçãoPrimeira dentição .......................................................................... 7Entrevis...
Primeira dentição da REVISTA OSÍRISOsíris, deus da vegetação, da vida no além, carnação da costura ecaleidoscópio de vozes...
Entrevista                                 a Marco Vasques e Rubens da Cunha1) Paulo Leminski no poema “Limites ao Léu” re...
do Éden, o masculino protagonista do monólogo Ébouche d’unSerpent. Pensar como serpente é pensar como sábio. Serpente, hás...
extração simbólica, precipitando a eclosão da obra subsequente(Nos Limites do Fogo).4) O poeta Lindolf Bell, quando escrev...
pela arquitetura (carpintaria, soaria melhor) à maneira da filosofiada composição de Edgar Allan Poe, iniciada, contudo, a...
Kircher (explicação geral das propriedades secretas dos números ede sua significação mística), e Aritmosofia por Sarane Al...
obstante discursivos, não têm, salvo estridente engano, essa formadita caudalosa. A propósito da expressão latina caput mo...
que fazia distinção entre representação (arte) poética e representação(consciência) prosaica (esta não teria, sob a óptica...
delírios (oníricos) das personagens, não fogem dos esquemaslógicos, resguardando o sentido sob o foco narrativo. Conquanto...
remontando à Segunda Sofística (século V a.C.), não corresponde,a meu juízo, ainda que represente a fusão da prosa e da po...
os poemas valem por si sós (imagino), independentemente dacompreensão imediata, em virtude da empatia da rede sonora daspa...
15) A infância, a memória e o mundo aquático presentes em suasprimeiras obras, conforme você mesmo apontou, retornam como ...
história de que a origem não existe. Ora, também para ele a fala(verdade, natureza) é a origem da língua, sendo a linguage...
lugares já no interesse de fazer um livro? Foram apenas algumasviagens que geraram poemas, ou todas?       Jamais viajei o...
representado pelo mar brilhante, visto da sacada do quarto deum navio gigante. A paisagem, rápida, conduziu-me ao passado,...
escritor, do poeta?       A infância está entranhada em minha poética. Talvez, porisso mesmo, escolhi a conhecida epígrafe...
renomado. Como isso aconteceu?        A palavra “peripécia” foi usada de forma correta, se,etimologicamente (peripetia), c...
nos poemas se expandem as aquáticas (algumas subliminares),sem prejuízo da incidência das hierofanias celestes e telúricas...
Quanto às atividades empresariais, não levo jeito, como ocorreucom Kafka (a mil léguas a comparação), na Fábrica de Amiant...
Morgenstern (escrita humorístico-fantástica na prosa), bem comoa leveza de Aloysius Bertrand na prosa poética.25) Já acont...
imagísticos, mediante o uso de jogos antitéticos,oximoros, paradoxos, inversões etc.), amparada nasteorias de Eugenio d´Or...
lado secreto das coisas, do aprofundamento da síntese dos sonhos/devaneios e da realidade sensorial, visando à libertação ...
de Souza, editores passageiros na época, para compor a sanfona(lembra sua forma prazerosa), nome escolhido para esse tipod...
30) Em entrevista para o livro Diálogos com a Literatura Brasileira –volume II, você afirma que “vivemos num mundo desmito...
à escritura automática (que, diga-se de passagem, antecedeao movimento de 1924, pois Breton e Soupault utilizaram ométodo ...
possibilidade, ou seja, a da revelação do humor, é encontrável namitologia primitiva, no grotesco das metamorfoses das div...
Vale do Itajaí. Poderia tê-lo dominado, se eu não sofresse o assédiosexual de uma professora (quando era jovem, em Florian...
direção são de Fábio Brüggemann. O título provisório do filme éPequeno Tratado das Perversões (subtítulo da obra). Lembrei...
dicção: “Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos anjos me ouviria?”Por que é a preferida?        Sempre me agradaram as...
aí à procura do Anticristo (ou dos anticristos menores), com terçonas mãos.37) Após nosso longo diálogo, percebemos que vo...
rito na escritura. O que falta, pelo visto, é o número bem maior deleitores.38) Se você tiver que escrever uma carta a um ...
das relações do poeta com a cidade, a universidade de poesia deseus sonhos, onde o aluno, a par da memorização de versos, ...
do estilo, o virtuosismo, a brutalidade e a inocência irmanadas, aconjuração de Satã querido (identificado com Verlaine), ...
relações com o seu genial filho escritor. E se porventura asatividades profissionais permitirem, desejo redigir, após conc...
compondo particularíssima biblioteca interior, guardada namemória. Sou cerebral por natureza. Se isso ocorresse, a angústi...
POEMAS
A PERSEGUIDA      A estrábica conduzidapela gôndola vorazé puro êxtase.      Faz complicados sinaiscom a cruz de chumbopen...
ALUSÕESA cruz na cabeçado Unicórnio resplandeceCorno do Cristo – Aura do Touro             a belezade ambos governa meu es...
A selva não se reduz à coroa de espinhosOh monge austero de mansa rebeldia,meu juiz, guardião, filho dileto, criaturaprenh...
EXPLICAÇÃOPorque na paisagema lâmina escondeas fezes do suicida.                       (Além dos Símbolos, Letras Contempo...
LEÃO CRESCENTEOs olhos de Rimbaud, pingentes azuissobre os sete abismos deste fardo.Temporada no Limbo, um passo à direita...
DRAGÃOZINHO DE TRÊS CABEÇASPeço perdão, oh Maria,por assim ter nascido.Uma cabeça bastariapara ser dragão querido.Também a...
Também a Lorca peço perdãopelo desenho tão engraçadoem que o rabo desarrumadoparece cauda de escorpião.                  G...
PERDIÇÃOPerco-me na selva doce   desses pelos. E se me perco,         levitoentre um gozo e outro.      Vê-la,         rev...
COM SEU ALFANJE ESCARLATENão digo teu nome, inimigade ossos moventes, hábil foice rubra, caçadoragigante de pés e mãos, es...
Vem, espelho de luto, diagramaabsoluto do eu, colmeia de opostos,negro sol mutante, relógiosem teu número sob o tapeteesco...
PORTASNa quinta portaos ossos lacrados pela pesteNa quartao odor do vooem desalinhoNa terceiraas vestes de escama falsaNa ...
ESTRELA MARINHADescer é mais simples.Mergulho no óleo, o corpo resignadodetesta a superfície.A ciranda na águalembra o bri...
COMÉDIAUma comédia, esta em que a facapenetra a seda e faz na terrauma colheita de segredos.Uma comédia, esta em que a sed...
DECLARAÇÃO    Sou a outra mancha    na imagem, o avesso     da fera, o espelho    partido, o princípio           e o fim. ...
PRIMEIRO PECADOO que mais detesto é germinar no campo antigoestas pupilas, hoje mortas de ver as espigasapenas como floraç...
TEORIA DO CRIMEO pássaro assassinoé. Mata a sangue frio              o próprio sonhoO anjose vingade outro anjo – a crianç...
SEI QUE ESTOU SÓ                    Sei que estou só, não há luas nem serenatas e osolhos da tarde estão secos.           ...
AVENTAL ANDALUZO corpo do pátioreduz as pálpebrasComo fruta ciganasobre o mármore sadioNão é simples a imagemdo que digo e...
PROSA
CÁRCERE MARINHO     Ninguém entendeu a razão do anúncio. Por que somentemarinheiros anões seriam contratados, se o navio e...
em dia os valores dos salários combinados.      Acrescentou, com empostada voz militar, que a alegria detodos era por ele ...
O TIGRE1      O tigre dança sobre enorme e quente chapa de ferro. Os gritosexplodem na floresta. Após, com as pernas queim...
NO HIPÓDROMO       Com o demônio nos olhos, a magra mulher lança-meum olhar guerreiro. Começo a percorrer as arquibancadas...
RIO D´ORO [1441]       Não foi Henrique, o navegador, príncipe de Portugal, quemme autorizou o tráfico de escravas. A verd...
EM FORMA DE GUITARRAE ANTES DO SALTO DO LOBO CULTO      Num lugarejo ainda inóspito, denominado Campeche, como arco-íris p...
Vendo tudo isso com certa melancolia, o futuro assassinadoretirou o arco-íris do pé, e tocou, sem parar, na elétrica madru...
CRÍTICA
Terno sobre o simbolismo               bauhaus de Péricles Prade                                                    Ronald...
Osiris dossie pericles
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  1. 1. DOSSIÊ OSÍRISPéricles Prade
  2. 2. DOSSIÊ OSÍRIS LITERATURA Péricles PradeMarco Vasques e Rubens da Cunha (organização e seleção) REDOMA EDITORA 2011
  3. 3. Copyright 2011 Marco Vasques e Rubens da Cunha REVISTA OSÍRIS Editores Marco Vasques e Rubens da Cuha Revisão Denize Gonzaga Diagramação Iur Gomez Fotografias Iur Gomez (entrevista) Priscila Prade (capa e páginas 72, 84, 106 e 137) Conselho Editorial Marco Vasques, Rubens da Cunha, Cristiano Moreira e Iur Gomez Iconografia Rodrigo de Haro Webdesign Pedro MC Endereço eletrônico www.revistaosiris.com.br Blogs revistaosiris.wordpress.com revistaosirisliteratura.wordpress.com revistaosirisartesvisuais.wordpress.comD724Dossiê Osíris - organização e seleção Marco Vasques e Rubens da Cunha.Florianópolis: Redoma; Navegantes: Papa-Terra, 2011. 160 p.ISBN1. Literatura crítica e interpretação, I. Osíris. CDD 869.0091Catalogação na FonteBibliotecária: Eliane Espíndola Vieira – CRB/14 – 401
  4. 4. Bússola de NavegaçãoPrimeira dentição .......................................................................... 7Entrevista ....................................................................................... 9Poemas ......................................................................................... 51Prosa ............................................................................................. 73Crítica ........................................................................................... 83Obras .......................................................................................... 145Fortuna Crítica .......................................................................... 147
  5. 5. Primeira dentição da REVISTA OSÍRISOsíris, deus da vegetação, da vida no além, carnação da costura ecaleidoscópio de vozes. Encarnação das forças da terra e das plantas.Orfeu e Sísifo. Osíris ou Ausar como dizem os egípcios. Ausar, ousar,saber que a literatura, o teatro, as artes visuais ainda são capazes deter um lugar, melhor, de abrir lugares. A Revista Osíris é a nossaescavação de novas trincheiras, é o nosso embate. O que pauta anossa escolha é a ousadia e a contundência poética. É a vísceraurdida e tatuada em nossa voz. Feito Ísis, que buscou as diversaspartes do corpo de seu amado Osíris, para remontá-lo, reconstruí-lo, retê-lo, nós agregamos neste espaço diversos pedaços do corpoda arte. Osíris: morada dos múltiplos. Este DOSSIÊ acompanha aprimeira dentição da REVISTA OSÍRIS (www.revistaosiris.com.br).A cada novo número da revista teremos um novo DOSSIÊ comum artista. O primeiro revela as várias faces do poeta, contista ecrítico Péricles Prade. Ele é uma das vozes mais contundentes dapoesia brasileira na atualidade, por isso oferecemos ao leitor partesdo universo pradeano. os Editores 7
  6. 6. Entrevista a Marco Vasques e Rubens da Cunha1) Paulo Leminski no poema “Limites ao Léu” reúne uma série dedefinições de poesia: “permanente hesitação entre som e sentido”(Paul Valéry), “fundação do ser mediante a palavra” (Heidegger), “areligião original da humanidade” (Novalis), “as melhores palavras namelhor ordem” (Coleridge), “emoção relembrada na tranquilidade”(Wordsworth), “ciência e paixão” (Alfred de Vigny). Qual a suadefinição de poesia? Para que serve a poesia? Parece-me, depois de Paul Valéry ter afirmado que “opoema é a hesitação entre o som e os sentidos” (reflexão expressano Cahiers, 1912), ser desnecessário reconceituar a poesia (arte dalinguagem), tanto mais se — conforme registrou o poeta obsessivo,geométrico e original, no livro Tel Quel (aforismos) — ela não ésenão a literatura reduzida ao essencial de seu princípio ativo.Rendo-me àquele conceito, pois também me acostumei, a exemplodo criador do famoso “Esboço...”, a pensar como Serpente. Paraque serve a poesia? Para ingressar no “reino infinito do espírito”(Hegel) e melhor entender os mistérios do pensamento do homeme o sentimento do mundo.2) E como é pensar como uma serpente? Pensamos na serpente comoum híbrido entre o exato e sinuoso, o belo e o mortal, o silencioso eo voraz. Quando respondi “pensar como Serpente”, lembrei-medo Penser en Serpent de Valéry, do satã-pensamento no Jardim 9
  7. 7. do Éden, o masculino protagonista do monólogo Ébouche d’unSerpent. Pensar como serpente é pensar como sábio. Serpente, háséculos, simboliza a sabedoria. Aliás, Augusto de Campos, tradutorde Valéry, aduz que o nome serpente advém de Ophis, quase-anagrama de Sophia (sabedoria), e a si próprio pergunta se o poetafrancês teria consciência de que a palavra penser é palíndromode serpent. O pensamento, tanto quanto o(a) Serpente, é sinuoso,circular, movimenta-se, cria e recria no silêncio, mudando a peledas ideias nas fases propícias. Só os devotos ao seu culto podemafiançar o que digo aqui e agora. 3) Os poetas, quase sempre, têm o hábito de desconfiar de suaprimeira obra. Como você avalia os três primeiros livros?  Não se trata de desconfiança, ou mesmo insegurança, comreferência às obras inaugurais, mas de reconhecimento de umarealidade, pelo menos no meu caso. Os três primeiros livros deixama desejar, se comparados com os posteriores (o que é natural), enão só por terem sido escritos na adolescência. Afinal, nem todospoetas nascem Rimbaud. Por ordem, os títulos das três obras sãoos seguintes: Este Interior de Serpentes Alegres (1963, poesia), ALâmina (1963, prosa poética) e Sereia e Castiçal (1964, poesia).O primeiro, batizado sob os auspícios mitológicos de Ouroborose Medusa, é ligado à memorial natureza da infância, sensível àpoética das águas (sofri um quase-afogamento). Expressa-se emlinguagem linear, discursiva, confessional (disfarçada e suspensa),lembrando forma expandida de versos bíblicos, como constatouLuz e Silva. O segundo, alegórico, lírico, narrativo, panteísta,revelou inclinação ao universo esotérico, com ênfase na figura dafeiticeira. É também bestiário incipiente (outra vocação temática)e devaneio de um menino, em crise existencial, que pretende a suaredenção e a da humanidade. Nada tem de surreal, vislumbrando-se somente propensão ao fantástico. Quanto ao terceiro, de tomainda lírico, elegíaco, movediço, conflituoso diante dos mistériosdo amor, da vida e da morte, sem imagens generosas, conquantopleno de metáforas insinuantes, é texto bem comportado de 10
  8. 8. extração simbólica, precipitando a eclosão da obra subsequente(Nos Limites do Fogo).4) O poeta Lindolf Bell, quando escreveu sobre A Lâmina, disseque sua escritura, no conceito barthesiano, é uma violência. Claroque não estamos aqui falando da violência propriamente dita, masde uma violência cuja escritura provoca no leitor uma espécie deimpacto que permanece. Como você vê essa questão? Tenho a impressão de que Lindolf Bell, ao se referir àviolência da escritura, foi apenas intuitivo, à margem do conceito deRoland Barthes. Contudo, já que falamos do eminente semiólogo,sublinho a pretensão de os meus textos serem lidos com fruição(Jouissance, para usar palavra de sua predileção), colocando o leitorem desconfortável estado de perda (obra aberta, plural), e, não, noplano do simples prazer (cultural, de obra acabada). Observo, semreceio de errar, que a violência se entremostra mais presente naprosa, tanto em termos de impacto (linguagem), quanto em relaçãoà própria temática. Forneço como exemplo, além dos publicados,o livro inédito Espelhos Gêmeos, na linha fantástico-erótica (ouerótico-fantástica), em forma de pequeno tratado das perversões.5) Na “Filosofia da Composição”, Edgar Allan Poe explica, passo apasso, como chegou ao poema “O Corvo”. Ele, na época, já deu umaespinafrada na chamada inspiração. Alega que a composição poéticaé fruto de toda uma arquitetura. Na sua poesia encontramos indíciosde uma arquitetura ardilosa, tão ardilosa que nos confunde ondecomeça a lógica e o sentido. Este Interior de Serpentes Alegres, ALâmina e Sereia e Castiçal são livros em que o ludus e o logos semisturam. Por outro lado, há um silêncio poético de 12 anos, até achegada do livro Nos Limites do Fogo, no qual encontramos umaruptura de linguagem, pois o símbolo, o hermetismo, a alquimiacomeçam a protagonizar os poemas. Você pode falar um pouco sobreessa mudança de rota? Concordo que minha obra, mormente a poética, é pautada 11
  9. 9. pela arquitetura (carpintaria, soaria melhor) à maneira da filosofiada composição de Edgar Allan Poe, iniciada, contudo, após oadvento de Sereia e Castiçal, sob o critério da divisão dos poemas,tendo por parâmetro o número 5. Se há indícios de que a arquiteturaé ardilosa, não pretendo confundir os exegetas. Não é radical comoa do modus operandi propiciatório do nascimento de “O Corvo”,que despreza a intuição extática, a inspiração fruto de incidentecontemporâneo, o frenesi sutil e o acaso, considerando dogma aprodução do efeito até o desenlace do poema, exigente de precisãoe de lógica para solucioná-lo como se fosse problema matemático.Também coloco a “inspiração” à deriva. Todavia, valho-me daintuição, dela partindo para organizar o sistema adrede pensado.Em suma: concilio os extremos. Os poemas, arquitetonicamentefalando, têm concepção básica circular, ourobórica. Começaramcom Este Interior de Serpentes Alegres e terminarão com O Retornodas Serpentes (o estágio final em que a cauda da Serpente fechao círculo). Com esta última obra completarei o ciclo. Quanto ao Nos Limites do Fogo (1976, mais logos e menosludus), luciferino por excelência, continua a partição do livro emconjuntos de cinco a cinco poemas (explicarei a origem da escolhado número 5, se houver interesse), ressalvando-se Labirintos (2008),por compreender os vinte e dois arcanos maiores do Tarô. O fogoconvive com a água nessa liturgia-simbiose-gnóstica. Simbólico,hermético sem ser obscuro, inicia o percurso do ocultismo, quecaracteriza o corpus reitor da obra poética. A mudança de rota— ainda que tenha havido rompimento (relativo) da próprialinguagem — é mais espiritual e de origem herética. Tinha, então,trinta e quatro anos. Entretanto, já havia lido tratados de Mitologia,Cabala, Alquimia e Artes Divinatórias, cuja leitura, no âmbito daFilosofia Oculta (inclusive obras fundadoras de Magia e Religião),marcou e marca minha cultural visão do mundo.6) Você pode falar mais sobre a numerologia em sua obra e por queesta obsessão pelo número 5? A numerologia, denominada Aritmologia por Athanasius 12
  10. 10. Kircher (explicação geral das propriedades secretas dos números ede sua significação mística), e Aritmosofia por Sarane Alexandrian(versa a simbologia dos números, das funções metafísicas edas operações mágicas), é uma das disciplinas componentes daFilosofia Oculta. São consideradas suas fontes a Filosofia Grega, aGnose, a Cabala e o Cristianismo. Com base nela, podemos explicaro porquê da escolha do número cinco para dividir os poemas. Apartição quíntupla, em determinado momento, passou a interferirna estrutura dos poemas. Já o 7 (o mais sagrado e venerado pelospitagóricos no século VI a.C., porque embute o 3 e o 4, figurasdo perfeito equilíbrio) não tem caráter estrutural, mas é referido,por extenso, nas obras poética e ficcional, conservando o substratooculto. Anoto, quanto ao 5, que, além de modelo do métodoestrutural, o seu uso se justifica, simbolicamente, pois representaa cabeça comandante do corpo. É número pagão por excelência. Enão se esqueçam: os mistérios antigos eram divididos em 5 partes.7) Para nós, o corte radical de sua linguagem se dá no livro OsFaróis Invisíveis. Onde você sai de um texto torrencial, prosaico,para uma linguagem exata, concisa. A expressão caput mortuum,isto é, cabeça dos mortos, é “uma expressão de que se serviam osalquimistas para designar o resíduo não líquido de suas análises;eles comparavam esses resíduos a uma cabeça, da qual a operaçãoalquimista houvesse retirado o espírito. Resto que escapa à sucessãoou cadeia significante; borra.” Como a alquimia é um dos pilares desua obra, seja ela feita em prosa ou verso, gostaríamos de saber umpouco mais sobre o seu processo de escrita, no sentido de cortes, dosresíduos e da morada alquímica. Sem dúvida, o corte radical ocorreu em Os Faróis Invisíveis.Pela primeira vez alguns poemas mergulharam no poço dosurrealismo. Ainda assim, a obra não se conforta à pura escritaautomática, ínsita ao início do movimento bretoniano. Nesse livroaflorou também o erotismo. Discordo da afirmação de que saí deum texto poético anterior torrencial e prosaico. Nos Limites doFogo é contido, enxuto, compacto, e mesmo os precedentes, não 14
  11. 11. obstante discursivos, não têm, salvo estridente engano, essa formadita caudalosa. A propósito da expressão latina caput mortuum,apropriada por Lacan (o significante impossível, isto é, o resíduoimpossível do funcionamento da repetição), designativa da sobranão líquida das análises dos alquimistas, levo-a em conta no leitoliterário, agindo como poeta, sem tirar o espírito dessa “cabeça”,fazendo outro tipo de destilação... Não procuro a transformaçãodos metais, objetivando o ouro, ou a pedra filosofal, nos moldesdos antigos. Logo, se a Alquimia (Arte de Hermes) era explicaçãoracionalista das transformações da matéria (v. Berthelot),explorando o universo físico, a por mim utilizada é de naturezaverbal. Alquimia do verbo mediante a decantação de outra matéria(palavra), de outra Grande Obra (dependente de três fogos) e deoutra natureza de metamorfoses/transmutações. Serve, também,como tema condutor, com a exploração de seus elementos (ex.: omercúrio, feminino; o enxofre, masculino) e utensílios (Athanor,ovo filosófico, lamparina, cuba, pares de balanças etc.). A obramais vinculada à simbologia alquímica, escrita por mim, chama-seSobre o Livro Mudo, versão poética de quinze pranchas herméticas(imagens) de La Rochelle (1677), cognominado Mutus Liber,em linguagem hieroglífica, périplo onírico com a finalidade deexplicar todo o procedimento técnico (gramática oculta) do adeptoiniciante, rumo à conquista do ouro, da pedra filosofal, que, paraos mais sábios, é o conhecimento em seu mais alto nível espiritual.8) Quando nos referimos a uma poética mais caudalosa, estamoscolocando em perspectiva toda a sua obra. Claro que nos primeiroslivros conseguimos identificar a concisão, a busca pelo verso exato, otrabalho de ourivesaria do poeta Péricles Prade. Contudo, os textossão formalmente mais extensos. E, se compararmos Este Interiorde Serpentes Alegres com O Pequeno Tratado Poético das Asas,podemos, de algum modo, tratar as primeiras obras sob a perspectivado prosaico e do torrencial. Certo? Não estou convencido de que assim o seja. A propósito daperspectiva do “prosaico”, lembra-me muito a concepção hegeliana, 15
  12. 12. que fazia distinção entre representação (arte) poética e representação(consciência) prosaica (esta não teria, sob a óptica do filósofoalemão, a imagem por conteúdo, mas a mera significação). Sendoassim, se “prosaico” (o termo me desagrada) pode ser considerado otexto de A Lâmina, tal não ocorre com os dois outros livros iniciais.Além do mais, é inconfundível o texto discursivo dos poemasinaugurais com o do gênero prosa (posterior) propriamente dito.Arrematando, reacentuo que, mesmo comparado com o PequenoTratado Poético das Asas (exato, conciso, descarnado, absorvidopelo mito), não reconheço Este Interior de Serpentes Alegres, ALâmina e Sereia e Castiçal como expressão verbal torrencial, apesarda forma expandida. Quem sabe vocês tenham razão e, submersoem equívocos, não percebi.9) Diante dessa mudança, gostaríamos de saber como surge umpoema? Existe um método interno, e ele aparece pronto, ou o poemaé reescrito até que pareça ter sido escrito uma única vez, como queriaMario Quintana? Na resposta à quinta pergunta me referi ao método decomposição. Aqui, acrescento que o poema é pensado, elaboradomentalmente, e, depois, transferido inteiro para o papel, passandoa atrair incisões, cortes e/ou eventuais mudanças de palavras.Trata-se de pré-conceito poético pós-arrumado. O poema, até apublicação, é reescrito várias vezes. E casos há em que, já publicado,é polido com severidade, visando à futura edição. Todo poeta éespécie de ourives na busca da perfeição.10) Você encontrou na prosa uma maneira de liberar o poeta parafazer devaneios, ressignificar mitos e executar o surrealismo irônico,debochado? É de palmar reconhecimento, aos que leem minha ficção, aexistência de forte carga poética nos textos. Entretanto, é precisodeixar bem claro que a maior parte (quase absoluta) não se afinaao conceito de prosa poética. Mesmo os devaneios, frutos dos 16
  13. 13. delírios (oníricos) das personagens, não fogem dos esquemaslógicos, resguardando o sentido sob o foco narrativo. Conquantoo mito se apresente com maior vigor na poesia, também se imiscuina ficção, sempre subvertido, pervertido, ressignificado, reescritosob o pálio da imaginação fervente. Deixá-lo marginalizado, nasnarrativas, seria um insulto contra a sua natureza. Espero terencontrado a forma adequada para liberar o poeta incrustado nalinguagem, malgrado não veja — sem que essa afirmação contenhaviés polêmico — na ficção de linguagem afeiçoada ao fantástico, aexecução do surrealismo irônico, e, muito menos, debochado, masironia e humor de polpa distinta.11) Hilda Hilst e Roberto Piva já detectaram a ausência de umapoesia visceral. Após o concretismo, vigora um formalismo excessivo,predominando uma poesia fria, sem vísceras, que tenta se justificarapenas pela forma. Como conseguir o equilíbrio entre o formal e ovisceral? Roberto Piva (este sim, surrealista irônico e debochado) eHilda Hilst, cada qual a seu modo, lavraram poesia visceral e, porisso, estavam à vontade para detectar aquela propalada ausência.Ocorre, porém, que a ausência não é absoluta. Outros poetasviscerais há, e percebíveis, na atual geração. Diria que o dogmaformal é mais uma tendência, abraçando o esqueleto e despojandoa carne. Entendo ser necessário o equilíbrio. O miglior fabbro podeconquistá-lo. E o melhor o fará, afeito à formulação de Croce,segundo a qual o ato fundante da poesia é a aliança do sentimentoe da imagem. Sim, porque, como ensinava o filósofo italiano, sóhaverá selo de totalidade, o sopro cósmico, quando for dada formaartística ao conteúdo do sentimento. Deve-se, então, para atingira unitotalidade cósmica de que falava Bachelard, combinar aimaginação formal com a imaginação material.12) Qual o seu conceito de prosa poética? A prosa poética, assim já designada no século XVI (1540), 17
  14. 14. remontando à Segunda Sofística (século V a.C.), não corresponde,a meu juízo, ainda que represente a fusão da prosa e da poesia, àequivalência de ambas. Em que pese a confluência das respectivaslinguagens (denotativa e conotativa), justificando o nascimentoda autonomia do texto, às vezes predomina a denotação, e,dependendo do conteúdo da obra, a conotação. E se existe a fusão,está-se diante de uma forma híbrida. Não me atenho à típicaforma híbrida de que fala Luiz Costa Lima, quando determinadotexto perde sua fenomênica destinação original (ou inscriçãooriginária), deslocando a função primitiva, com a permanência daeficácia das marcas da espessura da primeira linguagem, contígua àpresença suplementar da segunda, como ocorre em certos ensaios,autobiografias e memórias, transmudados para o estatuto ficcional(dupla inscrição). Entendo que prosa poética é forma híbridaatípica — pois, nela, inexiste deslocamento de função, dada aespecificidade do gênero autônomo — em se tratando de inscriçãoliterária originária exclusiva, única, imutável. Digo isso, sabendo,com esteio em Todorov, que o problema da classificação tipológicadas obras literárias suscita dificuldades. A Lâmina (1963) se afeiçoaa esse conceito, bem como alguns poemas constantes dos livrosAlém dos Símbolos (2003) e Sob a Faca Giratória (2010), ou os“Novos Relatos de Luigi Pomeranos”, e outros, incluídos na obraCorrespondências – Narrativas Mínimas (2009).13) Por que escrever uma obra toda cifrada, hermética, que exigedo leitor, para sua total fruição, um conhecimento incomum mesmoentre poetas? Não me parece que “toda” obra seja cifrada, hermética. Boaparte dos poemas é facilmente legível, em especial os dos livrosanteriores ao Nos Limites do Fogo (1976), e os dos posteriores,voltados à infância, ao erotismo e às viagens. Negar não possoque o maior volume é constituído pela poesia de matriz ocultista,acoplada à tradição da Gnose, da Cabala, da Alquimia, da Magia, dasArtes Divinatórias e de outras vertentes do pensamento analógico.Mesmo constituindo, no fundo e no raso, poesia para iniciados, 18
  15. 15. os poemas valem por si sós (imagino), independentemente dacompreensão imediata, em virtude da empatia da rede sonora daspalavras, das metáforas ousadas e das imagens incandescentes,cujo não sentido, aparente, é insólito ou incompreensível apenasaos que não adentraram o complexo portal do imaginário, ou seencontram no vestíbulo, inertes, à espera da senha redentora.14) Sua fortuna crítica revela que é necessário, mesmo para osprimeiros livros, conhecimento específico para total fruição de suapoética. Pois sua literatura já começa sob o signo da serpente com EsteInterior de Serpentes Alegres. É claro que há o ludus, o encantamentoda linguagem que faz com que o leitor comum absorva a superfície.Contudo, temos a clareza que, para a total fruição da sua obra, faz-se necessário um conhecimento que ultrapassa “a empatia da redesonora das palavras”. Você poderia apontar caminhos para os que seencontram “no vestíbulo do portal do imaginário”? Qual é a senha? Já disse, alhures, que, para a fruição poética, basta a empatiada linguagem com seus significados ambíguos e polissêmicos,proporcionando múltiplas revelações. O que afeta determinadoleitor, não afeta aos demais. O encanto vale mais do que milexplicações teóricas. Se ao leitor, encantado ou não, é insuficienteo impacto da imagem, a beleza da metáfora e a impressão causadapelas palavras, preferindo esvurmar o conhecimento da origem dossímbolos, dos mitos, das vertentes da Filosofia Oculta subjacentee a complexidade das hierofanias, preocupado mais com os dadosinerentes à análise literária do texto do que com a leitura epifânica,a senha para ultrapassar os umbrais é simples: ler o que há demelhor do acervo bibliográfico (os autores canônicos) referente aodenominado ocultismo ou esoterismo (Cabala, Gnose, Alquimia,Magia, Artes Divinatórias), os mais autorizados tomos deMitologia, Simbologia e História das Religiões, os poetas gnósticos(antigos e modernos) e a literatura de expressão fantástica. E nãoesquecer, na seara das artes plásticas, Picasso, Dalí, Van Gogh e,com maior proeminência, Hieronymus Bosch, responsável-morpela “atmosfera” dos textos verbais.  20
  16. 16. 15) A infância, a memória e o mundo aquático presentes em suasprimeiras obras, conforme você mesmo apontou, retornam como livro Sob a Faca Giratória. É a serpente retornando ao ponto deorigem? Realmente, essas instâncias sempre retornam. É asobrevivência do mito do Eterno Retorno, dos arquétipos sagradose profanos, da repetição das cosmogonias, da regeneração contínuado tempo (in illo tempore), da transformação do Caos, tão bemretratados por Mircea Eliade quando trata do simbolismo da água edo fogo, das hierogamias e hierofanias, e, como não poderia deixarde fazê-lo, da Serpente (ouroboros: solve et coagula!) no combatecom o herói, tudo para chegar ao Centro, ao território esotérico dainiciação. A Serpente, pelo menos no meu caso, sempre retorna aoninho. É na origem que se consagra. Meu voo poético também écircular.16) Você diz que “a serpente sempre retorna ao ninho. É na origemque se consagra.” Como você encara as teorias pós-estruturalistas(Derrida, Nancy) que afirmam não existir centro, não existir origem? Como sou atraído pelos ensinamentos da Filosofia Ocultae da Mitologia (esta geralmente sob o ângulo invertido), poucome importam os ditames da Filosofia Crítica para o fazer poético.Assim, coloco à sombra, quando escrevo, o que pensam JacquesDerrida (tão influenciado por Nietzsche e Heidegger...) e seusseguidores Jean-Luc Nancy, Philippe Lacoue-Labarthe e HelèneCixous acerca da descentralização da consciência humana eda desconstrução da noção do sujeito (a partir do conceito dedifférance), ainda que reconheça, tanto no estruturalismo quantono pós-estruturalismo (ainda com ressonâncias de Saussure), apertinência da justificativa segundo a qual a língua é a chave doconhecimento. Daí a minha indiferença ao que Derrida sustenta(apesar de concordar com a ambiguidade de todo texto e darelatividade do significado), quando, na Gramatologia, esmiúçaa charada e a cumplicidade das origens, a inscrição da origem, ametáfora originária e o suplemento de origem. Improcede essa 21
  17. 17. história de que a origem não existe. Ora, também para ele a fala(verdade, natureza) é a origem da língua, sendo a linguagem escritauma imagem duplicada do privilegiado significante fônico. Todadesconstrução remonta à origem, aos pressupostos. No mínimo,há origem suposta, como admitiam os estruturalistas. Origem nãoé necessariamente centro. Não se confunde origem (eliminação desua necessidade, calcada na ideia de estrutura), com centralidade,levada ao logocentrismo. Tanto que se discute a centralidade doproblema da origem. Não quer dizer que há desprezo absoluto pelasteorias de Foucault, Deleuze, Barthes, Guattari, Lyotard, Derrida eLacan. Instigante é, v.g., o lacaniano argumento do “imaginário”(o simbólico, estruturando-o). Dito isso, vamos ao ponto em quevocês, para polemizar, contrapõem as teorias pós-estruturalistas àminha observação de que a Serpente se consagra na origem. Nãoexistiria esta, por inexistir o centro. Pois bem. Desconsideradasessas teorias, resultado da imantação “literária” da Filosofia Oculta,gostaria de assinalar que Mircea Eliade, há tempo, em seu livro OSagrado e o Profano — após justificar o axis mundi (a imagem é ade uma coluna cósmica, eixo-pilar, elo entre o Céu e a Terra, com abase cravada nos infernos, situada no centro/umbigo do Universo),articulado como sistema — lembra, invocando certa culturaindiana, ser o mundo sustentado pela Serpente (símbolo do Caos),com a cabeça fixada por uma estaca e sobre ela colocada a pedraangular. Portanto, a morada (imago mundi) da cobra imemorialsitua-se no Centro do Mundo. Se ela deve estar lá, sua sacralidadehierofânica também deve retornar, sempre, quando foge de seuhabitat natural, no altiplano da imaginação criadora, para que ouniverso não se destrua por falta de apoio. Aqui, simbolicamente,centro (ponto fixo) e origem são a mesma coisa. Por essa razãoas Serpentes alegres de meu primeiro livro, filhas diletas da serpeoriginária, voltam ao ninho sagrado, cumprindo o ritual.17) Alguns de seus livros de poemas (Tríplice Viagem ao Interiorda Bota, Ciranda Andaluz) são escritos a partir de uma viagem. Asobras surgem porque você viajou a esses lugares, ou viajou a esses 22
  18. 18. lugares já no interesse de fazer um livro? Foram apenas algumasviagens que geraram poemas, ou todas? Jamais viajei ou viajarei a qualquer lugar (sítio, país,continente) com o objetivo de escrever poesia ou ficção. Ocorre ocontrário: se estou fora do meu espaço natural, onde resido, viajono tempo e retorno à infância, embalado pela memória persistente.É um chamado, estranho chamado, a que não posso resistir.Quando esse estado de excitação criativa nasce, sou impactado/imantado pelas forças telúricas de onde me encontro. Aí, surgemas remissões às paisagens, às pessoas, aos animais e aos objetoscircundantes. Constituem mero leitmotiv, pretexto para a realizaçãoda obra porvindoura. Preponderam as emoções, as sensações,impulsionadas pelos sentidos que se fazem mais salientes. Tudo oque vejo e tateio tem cheiro, som e sabor. Ciranda Andaluz (2003) eTríplice Viagem ao Interior da Bota (2007) são livros que se remetemaos deslocamentos feitos à Espanha (Andaluzia) e à Itália (Roma,Florença, Veneza), respectivamente. Tratam só de viagens (semdeslumbramentos turísticos...) físicas, mentais, astrais e culturais(históricas, artísticas, filosóficas), como os ainda inéditos OlhoGótico (Sul da Alemanha, Áustria, Suíça) e Memória Grega e outrosPoemas Viajantes (Atenas, Alexandria, Paris, Praga, Viena), mashá poemas esparsos desse naipe, encartados em obras pretéritas(Jaula Amorosa, 1995; Além dos Símbolos, 2003). Não constituemnovidade, já que muitos ficcionistas e poetas viajaram pelo mundo,deixando aos presentes e aos pósteros memoráveis impressões. Aexpectativa, humilde, é que as minhas também permaneçam.18) Sua última viagem ao Caribe rendeu algum livro? No Caribe (penúltima viagem) escrevi alguns poemas,evocando famosos piratas e outras figuras/eventos eminentesque excitaram o imaginário da época com as suas extraordináriasaventuras. Refiro-me a uma das partes do livro Memória Grega eoutros Poemas Viajantes, intitulada “No Arquipélago do Caribe”.A epígrafe desse quíntuplo conjunto é de Luigi Pomeranos: “Senão fosse poeta, seria pirata”. Não me afetou o tempo presente, 24
  19. 19. representado pelo mar brilhante, visto da sacada do quarto deum navio gigante. A paisagem, rápida, conduziu-me ao passado,à captura de César, no retorno a Roma (após ter sido hóspede deNicomedes, Rei de Bitínia), às aventuras de William Kidd (jovemcapitão da Marinha Real Inglesa), aos disfarces de Mary Read eAnne Bonny (mulheres piratas criadas como meninos), à conversãode um ladrão de joias e ao espetáculo das esquadras flibusteirasde orgulho predador. Quando viajo é o tempo distante que, semlimites, governa meus sonhos e vigílias. Reencarno, convertido emmáquina criadora recompondo os séculos.19) Em Pantera em Movimento, você se afasta do caminho seguidoaté então e entra na seara explicitamente erótica, já presenteimplicitamente em outros livros. Os poemas são menos fechadosem símbolos, ocultismos, hermetismos. Como você avalia esta obra?Uma licença poética dentro da sua poética? O fervor erótico tem, há tempo, me acompanhado no curso/percurso poético, às vezes de forma implícita, às vezes de formaexplícita, esta notadamente em Os Faróis Invisíveis (v. a parte“Eros no Poço das Sedas”) e Pantera em Movimento (todo o livro).Também na prosa se evidencia, sendo exemplo marcante a obrainédita Espelhos Gêmeos. Não configura mera licença poética, masopção de natureza amorosa (numa fase de ostensiva felicidade),exigente de linguagem linear, de legibilidade nada crepuscular, emque o simbólico cifrado e as armaduras herméticas cedem espaçoàs metáforas de clara plumagem para provocar a relação libidinaldo leitor com o corpo dos poemas e o da amada. Avalio-a comoespécie de ponto de fuga, se comparada com as demais, anterioresou não, despojando-me dos elementos de estranhamento, dasenvolventes cinzas do Oculto, de tudo quanto se desvia do eleitofoco de atração.20) Pode falar um pouco sobre a infância, sobre o contexto familiar?Existe algum fato daquele período que determinou o surgimento do 25
  20. 20. escritor, do poeta? A infância está entranhada em minha poética. Talvez, porisso mesmo, escolhi a conhecida epígrafe de Baudelaire — “Lapoésie c’est l’enfance retrouvée” — para o primeiro livro, EsteInterior de Serpentes Alegres. Vários fatos daquele período e dapuberdade precipitaram o nascimento do poeta e do narrador: aleitura cativante de “gibis”; a visão do pai (Erwin) ao compulsarjornais na varanda da casa; o estímulo da mãe (Áurea), que contavahistórias de ingênuo humor; a irrupção do poema a ela dedicadoaos nove anos; a novela de rádio “Jerônimo, o herói do Sertão”.A emersão criadora ocorreu na adolescência, impulsionada pelocrescimento do germe quando frequentei o Ginásio Rui Barbosa,em Tïmbó, sob a influência do prof. Gelindo Buzzi, declamadorobsessivo dos românticos Castro Alves e Victor Hugo. Estouciente de que outros fatos, não literários, têm características defonte, entre os quais ressalto: o cortejo de diabinhos vermelhosque vi, em Rodeio/SC, saindo de um poço, atrás da casa; o quase-afogamento (salvei-me por pouco, após submergir três vezes);a fuga de casa com dois irmãos aventureiros (com arco e flechaatirei na empregada assustada que nos flagrou, prendendo-a pelablusa numa árvore); o confinamento a contragosto no SeminárioMarcelino Champagnat/PR (fui expulso, graças a Deus), porter pecado contra a castidade; a injusta punição, no Colégio dosIrmãos Maristas, por ter mijado no colchão, à noite, obrigando-meo padre-prefeito a atravessar o pátio com o troféu molhado nosombros; o furto de patos distraídos numa lagoa, e o de melanciasnas roças dos vizinhos tolerantes; a morte de pombos indefesos,com espingarda de pressão, nos telhados da casa do Sr. Draeger; apichação de poemas obscenos nas paredes da escola; a compra demantimentos, na mercearia de Horst Domning, com uma pedrasobre a cabeça, coroada com boné de pelúcia; a primeira relaçãosexual, com uma empregada rechonchuda, na cama de seus patrões(donos do Cine Mock), e por aí vai, que a memória não é de ferro.21) Depois das peripécias da adolescência, vai surgir o advogado 26
  21. 21. renomado. Como isso aconteceu? A palavra “peripécia” foi usada de forma correta, se,etimologicamente (peripetia), compreende a passagem repentinade um estado ao outro, segundo a lição de Massaud Moisés,ancorado em Aristóteles. Foi, confesso, após a adolescência, quepassei a me preocupar mais com a cidadania, os olhos dirigidosao próximo, aos interesses da comunidade em que vivo. Por isso,atraiu-me o Direito. Lecionei em várias universidades brasileiras,pertenço a inúmeras entidades, no país e no exterior, escrevi várioslivros jurídicos, exerci a Magistratura Federal e exerço a advocaciacom dedicação em Santa Catarina, São Paulo e Brasília. Assumi eassumo a responsabilidade de grandes questões, algumas de vultosaexpressão pecuniária, mas jamais deixei de atender aos menosfavorecidos. O mundo e o submundo desse segmento profissionalfornecem fartos subsídios para a fatura de obras literárias, mesmoquando o onírico não pede licença para se intrometer nos territóriosdo verso, anverso, reverso e/ou perverso.22) Nós já apontamos a possibilidade de se fazer uma leitura desua obra à luz das hierofanias (sobretudo as celestes e as terrenas)conceituadas por Mircea Eliade no livro Tratado da História dasReligiões. Como você avalia essa perspectiva na sua obra? Recordo-me muito bem que Marco Vasques, há mais de umano, impressionado com a leitura do excepcional tratado de MirceaEliade, disse ter encontrado, nele, elementos para estudar minhapoesia à luz das hierofanias. De imediato concordei com a análisenessa perspectiva, até porque, inclusive no livro O Sagrado e oProfano (introdução geral à História das Religiões), as hierofaniastambém são abordadas pelo mitólogo com verticalidade. É nessaobra que Eliade melhor conceituou e de modo mais simples ahierofania, considerando-a ato da manifestação do sagrado (obs.:quando algo de sagrado se nos mostra). Em verdade, tais hierofaniassão tríplices: cósmicas, biológicas e tópicas. Na poesia que escrevose entremostram mais as cósmicas, também tríplices: celestes,aquáticas e terrestres. Entre as cósmicas, salvo engano, diria que 27
  22. 22. nos poemas se expandem as aquáticas (algumas subliminares),sem prejuízo da incidência das hierofanias celestes e telúricas. Osimbolismo aquático é forte, devido às inamovíveis lembrançasda infância. Nas biológicas, vislumbro o erotismo contido, e, nastópicas, o fascínio pelas viagens. Tudo, nessa complexidade dialético-labiríntica das revelações, está vinculado ao campo morfológicodos mitos, ritos e símbolos, sobrelevando-se a Serpente, epifanialunar e síntese da multiplicidade das hierofanias.23) Como equilibrar as diferenças de ofício? De um lado, temos opoeta do oculto, o poeta do imaginário, hermético. De outro, oadvogado, o empresário, o político? Volta e meia fazem perguntas dessa natureza. Não háincompatibilidade alguma. São dois continentes que se completam.Goethe e Gabriel García Márquez, por exemplo, estudaram Direitoe o abandonaram, mas Franz Kafka, além de formar-se e terestagiado no escritório de advocacia do tio Richard Löwy (1906),atuou como advogado na filial da Assicurazioni Generali de Praga(1907-8), e na Arbeiter-Unfall-Versicherungs-Anssalt (Instituto deSeguros de Acidentes do Trabalhador), de 1908 a 1922, quandose aposentou para tratamento da tuberculose. A profissão jamaisatrapalhou sua literatura (a única e verdadeira paixão). Pelocontrário: o conhecimento das leis e dos meandros do Tribunalfez com que produzisse obras prodigiosas de cunho fantástico,iluminando futuras gerações de escritores. Quanto a mim, é adiferença dos ofícios que possibilita o necessário equilíbrio mental.Tenho dito, com certa dose de humor, que, se não fosse a advocacia,teria enlouquecido. A lógica cartesiana, exposta nas peças jurídicas,contrapõe-se ao ilógico, ao nonsense, ao onírico, ao imaginário solto,aos enigmas que povoam o clima fantástico dos textos literários.Afirmo o mesmo em relação à Política. Candidatei-me a prefeitode Florianópolis (perdi a eleição), fui, depois, eleito vice-prefeito,e tentei a Câmara Federal, alcançando a primeira suplência. Poisé: dessa água bebi e receio bebê-la. Extraio elementos/temas desseuniverso (paralelo?), ainda que muitas vezes de forma inconsciente. 28
  23. 23. Quanto às atividades empresariais, não levo jeito, como ocorreucom Kafka (a mil léguas a comparação), na Fábrica de Amiantode Praga, sociedade comanditária de posse (nominal) do genro deHermann Kafka (o autoritário pai), casado com sua filha Elli. Hoje,sou espécie de editor bissexto, colaborador intermitente do escritorFábio Brüggemann na sede da Letras Contemporâneas.24) Jayro Schmidt e Álvaro Cardoso Gomes estão trabalhando novasleituras sobre sua obra, a exemplo do que já o fez a ensaísta Miriande Carvalho. Como é o seu diálogo com a crítica? Como você vê essasleituras mais aprofundadas de sua obra? Ambos redigiram alentados ensaios, a serem publicadosainda neste ano (ou no próximo) por editoras paulistas. JayroSchmidt é o crítico literário que, pela primeira vez, enfrentouespecíficas questões de linguagem, examinando-as na poesia ena ficção. Álvaro Cardoso Gomes, que escreveu as abas do livroAlém dos Símbolos, acabou de redigir exegese de toda ficçãoaté o momento publicada. Destaco o enfoque por ele dado àécfrase (descrição/representação verbal da representação visual),conhecida, no passado, pela fórmula horaciana ut pictura poesis.Outro crítico que, com exemplar rigor, interpreta minha obra(poesia) é o poeta Dennis Radünz. Escreveu o posfácio de CirandaAndaluz. Olho Gótico (sul da Alemanha e Tirol austríaco-suiço)receberá o posfácio de Andrés Alberto Heller, que está redigindoensaio em torno dos componentes musicais, tanto na poesia quantona prosa. Intenso trabalho, há décadas, realiza o escritor e críticoBenedicto Luz e Silva, compreensivo de toda obra poética (obs.:publicou, em 1999, O Cão e o Alçapão, que versa a interpretaçãodas duas primeiras narrativas). Já redigiu os livros Mitopoéticade Péricles Prade, O Unicórnio Segundo Péricles Prade, e está nafase final da redação de O Erotismo na Poesia de Péricles Prade,todos ainda no aguardo de publicação. É estranho que, até hoje,nenhum crítico tenha focado a sombra gnóstica de Alfred Jarry napoesia (C. Ronald apenas a vislumbrou na prosa, e de igual modoJayro Schmidt, depois dele), a aura do lado esotérico de Christian 30
  24. 24. Morgenstern (escrita humorístico-fantástica na prosa), bem comoa leveza de Aloysius Bertrand na prosa poética.25) Já aconteceu uma leitura de sua poética da qual você discordasse?Qual? Não há discordâncias flagrantes. Apenas me indisponho,sem sobressaltos, aos que insistem em me filiar à escola de vocaçãosurrealista. Lindolf Bell era um deles. Lauro Junkes é outro queassim pensava. Do mesmo estofo é o ponto de vista da críticaitaliana Maria Del Giudice, que introduziu Os Milagres do CãoJerônimo no escaninho do surrealismo paradossale. Entendo,salvo equívoco, que somente parte de Os Faróis Invisíveis, e algunspoemas constantes de outras obras, podem justificar essa pretensaclassificação. Jamais utilizei a radical escrita automática e nãoadiro a outros métodos adotados pelos surrealistas. Inclino-me aocubismo literário (quando encadeio fragmentos), ao simbolismoinsólito de subjacência mitológica (inversões criativas e novasmitologias), ao endobarroco e seus afluentes, conforme ensinou acontento Mirian de Carvalho.26) Mirian de Carvalho afirma que “A partir da obra Em Formade Chama: Variações sobre o Unicórnio, localiza-se na produçãopoética de Péricles Prade singularmente afeita às imagens e aologos poético em esquiva do signo e da cultura, uma perspectivado Endobarroco. Porém, não se trata de retomada do Barroco nemde um “eterno barroco” de expressão universal. Ao Endobarrocorelacionam-se contrastes implícitos às imagens, que, insurgindo-sena Literatura desde os alvores da Cultura Moderna, chegam aosnossos dias, traduzindo-se como desvio do princípio de identidade.”Como você encara a teoria do endobarroco e como a relaciona comsua obra? Partindo do conceito de “pambarroco”, formulado porIvan Cavalcanti Proença (ênfase na transgressão da ordem diretado discurso, nos traços formais, morfossintáticos, sonoros e 31
  25. 25. imagísticos, mediante o uso de jogos antitéticos,oximoros, paradoxos, inversões etc.), amparada nasteorias de Eugenio d´Ors (Eterno Barroco), HeinrichWölfflin (perspectiva cíclica), Helmut Hatzfeld(instâncias morfológicas e ideativas), com valimento,ainda, no critério de desconstrução de Jacques Derrida(em acepção diversa quanto ao processo criativo) e nosistema de Gaston Bachelard (desvio do signo e dacultura, salientadas as noções de imagem, imaginação,espaço/tempo e matérias, nestas com relevo nosarquétipos águas e fogo), Mirian de Carvalho justifica— sem retomar o Barroco tradicional pelo Neobarroco— a presença de características do endobarroco (cujadinâmica é impulsionada por um logos referendadorda base imagético-semântica), na obra Em Formade Chama - Variações sobre o Unicórnio, forte noenlace (jogo) do pensar (ideia) e do dizer (palavras).Sua exegese sustentou a existência heteróclita dessenotável animal mítico, versando o fusionismo(harmonia) dos sentimentos paradoxais (oposiçõese diferenças) em desvio/esquiva do princípio daidentidade (força movente e intrínseca à imagem),cifrando-se ao reinado do encantatório. É estudode alto nível, redigido por conceituada professorade Estética e Filosofia, que, além de explicar osfundamentos reitores da generosa análise, questionadois aspectos que considero relevantes: meus poemasapenas tangenciam o nonsense e não se coadunam comos postulados e as técnicas surrealistas (é ressabidonão ser a escrita automática a única regra, admitidamais tarde pelo próprio Breton como insuficiente),em regime radical, já que, neles, inexistem captações/registros de temas ou motivos opostos à razãocognoscitiva, bem como a recorrência frequenteao irracionalismo, muito embora esteja presente amesma atitude espiritual na procura e revelação do 32
  26. 26. lado secreto das coisas, do aprofundamento da síntese dos sonhos/devaneios e da realidade sensorial, visando à libertação de todosos dogmatismos (v. Enrique Molina). Há, reconheço, incursõesendobarrocas na linha apontada, mas a obra sob análise, aberta porexcelência, de substrato mitológico-simbólico-esotérico, oferecefértil terreno (estou certo?) para outras abordagens analíticas.27) Pode falar um pouco mais sobre o diálogo que você mantém comas novas gerações? Tocante aos poetas da geração 1960, na província de SantaCatarina (obs.: em São Paulo minha convivência literária era comCláudio Willer, Roberto Piva, Carlos Felipe Moisés e BenedictoLuz e Silva, entre outros), mantive ótimo relacionamento comos falecidos Lindolf Bell e Osmar Pisani, e continuo mantendocontatos frequentes com C. Ronald, Rodrigo de Haro e RicardoHoffmann. O diálogo maior e profícuo, sem desabono àquelageração, é o realizado com os poetas e ficcionistas das Gerações1980/90. Destaco Fábio Brüggemann, Marco Vasques, DennisRadünz, Fernando Karl e Rubens da Cunha, estes dois últimos emdatas recentes. Intercâmbio intelectual e afetivo. Troca de ideias,informações e leituras. Tenho aprendido muito com o grupo,atualizando-me, renovando-me, na real expectativa de melhorara qualidade do que escrevo, sempre à procura incessante dainatingível perfeição da escritura. Esse vínculo é gratificante nosâmbitos da criação e da amizade. Sei que perdurará, pelo menosaté o momento da passagem ao departamento de cima...28) A plaqueta Guardião dos Sete Sons, publicada em 1987, parece-nos ter sido pensada como conjunto. Ocorre que os poemas dessaobra começam a aparecer em outros livros. Há alguma justificativapara esse procedimento? Foi pensada como coletânea mirim, pois não corresponde auma separata musculosa ou a um livro de maior lombada. Reuni7 poemas, exigidos pelos escritores Flávio José Cardoso e Silveira 33
  27. 27. de Souza, editores passageiros na época, para compor a sanfona(lembra sua forma prazerosa), nome escolhido para esse tipode edição em papel dobrado. Tendo-os retirado de vários livrosinéditos (minha gaveta é extravagante horta literária), desfalcando-os, a fim de atender a essa convocação, entendi que, mais tarde,deveriam retornar à origem. E assim o fiz. Exemplificando: opoema “O que se vê” está em Sob a Faca Giratória (2010), e “O Sommais Simples”, “O Real também é belo às vezes”, entre outros, foramencartados no livro Além dos Símbolos (2003). Eu os relacioneidessa forma como obra autônoma, apesar de magra, justamentepor ser seleta mirrada que – mesmo contendo poemas inéditosextraídos de acervos posteriores – representa seleção de textos deinterna coerência (estrutura) nos planos simbólico e formal.29) Por que a crítica literária, sobretudo a exercida em Santa Catarina,é sempre dócil e não faz distinção entre poéticas abissalmentediferentes? Como também faço crítica literária e de artes plásticas, ficoà vontade para responder às indagações. Elucido que, quandoajo nessa condição, não perco tempo em desancar obras fracas,até para não possibilitar a instantânea saída delas do anonimato,preferindo deixá-las solitárias onde se encontram hibernadas.Destarte, ao exercer a crítica, é para arrolar as qualidades dotexto, sem prejuízo da indicação de eventuais defeitos, vícios ouequívocos. Poupo-me, poupando os leitores, sabendo também que,por razões indiossincráticas, posso me enganar. Inclusive quandofaço autocrítica favorável... Quanto à exercida em Santa Catarina(a prática é ocorrente também fora de nossas fronteiras), salvohonrosas exceções, não é incomum a louvação, o viés laudatório,transformando medíocres de plantão em gênios estelares. Equando isso sucede, quem perde é a literatura, de um lado, devido àredução do sumo qualitativo, e, de outro, os autores de significativalinguagem, sem falar nos leitores desavisados, que, na ausência depaladar literário (saber também é sabor), comem gato por lebre eacham tudo maravilhoso. 34
  28. 28. 30) Em entrevista para o livro Diálogos com a Literatura Brasileira –volume II, você afirma que “vivemos num mundo desmitologizado”.Sua obra é uma tentativa de enfrentar esse mundo desmitologizadoe ressignificá-lo?  A resposta está contida na pergunta. Não recuei o meu pontode vista a respeito dessa questão de fundo antropológico, refletindoa visão da humanidade noutro período da história. Ocorreu adesmitologização em contraponto à forma e ao modo como o mitoé considerado na atualidade, resultado — repito aqui a afirmaçãoproferida na mencionada entrevista — da gradativa e crescentemudança do pensamento, que passou de mágico (in illo tempore) atecnológico e artificial. Criadas foram novas mitologias, é verdade.Atente-se, porém, para o fato de prevalecer outros tipos de pensaro mundo (quanto ao homem, animais, objetos etc.), próprios damodernidade e pós-modernidade. Cabe ao escritor não deixar queo(s) mito(s) desapareça(m), sob pena de empobrecer a qualidadeda língua e das obras literárias. Procuro, com significância maiorna poesia, resgatá-los, ainda que a ressignificação parta de ângulosdistintos e alveje metamorfoses fundadas na inversão ou outrascategorias na esfera da criatividade. O resgate poderá, na poesia, serrealizado por força do pensamento metafórico, já que a metáfora,conceituada por Ernst Cassirer, é o vínculo intelectual entre alinguagem e o mito. E por quê? Porque o mundo, como asseguraRoberto Calasso, não tem nenhuma intenção de desencantar-se.31) Quando nos referimos ao surrealismo não o vemos apenas como“escrita automática” e seus “métodos radicais”. Na representaçãovisual de Relatos de um Corvo Sedutor encontramos alguns aspectossurreais.  Por que sua indisposição com as relações que fazem de suaobra com o surrealismo? Se olharmos sob a óptica da écfrase, isto é,“descrição/representação verbal da representação visual”, você nãoadmitiria uma aproximação? Sei, perfeitamente, que vocês não veem, como eu não vejo,o surrealismo apenas sob essa óptica. Minha inconformidadeé em relação aos que me nomeiam surrealista típico, adstrito 36
  29. 29. à escritura automática (que, diga-se de passagem, antecedeao movimento de 1924, pois Breton e Soupault utilizaram ométodo das correspondências aleatórias já em 1919, no livrocomum Les Champs Magnétiques), ao acaso objetivo e aos demaisprocedimentos conhecidos. O fato de aspirar mais realidadepara reencontrar a unidade perdida do ser, visando à resoluçãodas antinomias, ao adentrar a órbita do maravilhoso, pleno dedesejo e humor, projetado pelo inconsciente e pelo subconscientenos sonhos (freudianos ou não), não me torna surrealista decarteirinha, inclusive na obra anárquica Relatos de um CorvoSedutor. Aproximações, claro, existem, sendo simples dados/fontes(a exemplo de Jaula Amorosa) identificadores de certa eleiçãoespiritual. O que não gosto é do carimbo. Minha poética é maisvoltada aos predecessores do surrealismo, os poetas gnósticosBlake, Rimbaud e Lautréamont.32) O humor é um dos princípios de sua obra em prosa e tambémestá presente em seus poemas. Temos a curiosidade de saber como omisticismo, magia, alquimia, gnose, cabala e as artes divinatórias,áreas do ocultismo que perpassam sua obra, veem a questão dohumor? Esses ensinamentos não propõem e não se preocupam com aquestão do humor, per se, que sequer constitui gênero literário, mastipo de metábole, uma qualidade de expressão, sem equivalênciacom a intuição, como propõem Pirandello e Bakhtin. Pode ocorrersituação de humor, no âmago dessas categorias do Oculto, quandose pretende escrever algo, tomando-as como pontos de referênciapara criar, explicar ou ensinar. Gershon Scholem, por exemplo, aocomentar as inter-relações entre Cabala e Mito, conta a anedotaenvolvendo um jovem desejoso de manter contato com cabalistasde tradição esotérica, que, tendo encontrado o mestre disposto aensinar, o mesmo lhe disse poder atendê-lo se satisfizesse a suacondição de não fazer pergunta alguma. Ele glosa esse fenômenoestranho, pois os judeus são considerados os mais apaixonadosquestionadores do mundo... Diria que, se fosse em busca dessa 37
  30. 30. possibilidade, ou seja, a da revelação do humor, é encontrável namitologia primitiva, no grotesco das metamorfoses das divindades(v. Basch). Sim, porque o Mito (v. Lévi-Strauss) é, simultaneamente,produção estética e intelectual, cujo discurso, simbólico, por sertambém produção coletiva, representa sempre o social, no qual ohumor pode emergir pela eficácia (simbólica) do mito (v. Mauss).Diz-se o mesmo em relação à Magia (objeto de crenças), fundadana emoção, que, se tiver origem coletiva, desafia o exame críticoe a dúvida (v. Paula Monteiro, com decalque em Mauss). Tantoa crítica quanto a dúvida atraem o humor pelos mecanismos desuas características, entre as quais se distinguem a indiferença eo disfarce (v. Bergson), que não seguem as leis da razão. E, pormencionar Bergson, olvidar não se deve sua máxima: não hácomicidade fora daquilo que é propriamente humano. Nessecontexto, reporto-me ao Ocultismo, no qual o demônio tem o seulugar reservado. Bem por isso, Baudelaire, no terceiro capítulo deseu conhecido e aplaudido ensaio, anotou que o cômico é um dosmais claros signos satânicos do homem. Daí que, mesmo sem sefiliar a Bergson, confirma: o riso é satânico, logo é profundamentehumano. E assim o é, por ser o homem resultado da ideia de suaprópria superioridade contraditória. O humor (palavra intraduzível– v. Valéry) de minha simpatia, objetivo (v. Hegel) ou não, é onegro, que utilizo sem a desejada frequência. Entre os autoresque o expressam, prefiro Rimbaud, Lautréamont e Apollinaire, napoesia, e Jarry, Huysmans, Borges e Kafka, na prosa, devido a certasafinidades de concepção.33) Como é a sua relação com as outras línguas. Esse conhecimentoafeta de alguma maneira a sua obra? Você acompanha as traduçõesde sua obra? Leio, falo e escrevo francês, italiano e espanhol. Leio ecompreendo latim e inglês (sofrível). Estudei grego, um ano, semmaiores progressos. Achtung: arranho o alemão (ninguém conseguefalar mal de quem quer que seja na minha presença), por ter vividogrande parte da infância e da juventude em Timbó, na região do 38
  31. 31. Vale do Itajaí. Poderia tê-lo dominado, se eu não sofresse o assédiosexual de uma professora (quando era jovem, em Florianópolis),cujo cheiro desagradável fez correr o aluno atordoado. A leiturano original tem outra dimensão. No que tange à tradução, o livroOs Milagres do Cão Jerônimo foi traduzido para o italiano, francês,inglês e espanhol. Os tradutores foram, respectivamente, RenzoMazzone (I Miracoli del Cane Geronimo), sob o pseudônimo deSalvator d´Anna; Andriette Lenard (preferiu o título de um doscontos – “Le Heros qui Sauve la Ville dans une Chaussure”); JoeF. Randolph o traduziu com o título Devil Dog Doings, tendo JuanCarlos Rochieri traduzido também as narrativas de Trampa paraGigantes e os livros de poesia En los Limites del Fuego, Los FarolesInvisibles, Jaula Amorosa bem como os ensaios Galileo Galilei –Poder y Ciencia, Paracelso y Bruno, e Vesalius, Paré y Harvey). EAlexis Levitin (tradutor de Leonor Scliar-Cabral) traduziu parao inglês o conto “Miracles of the Dog Jeronimo”, publicado noMundus Artrium. Acompanhamento? Dei palpites às traduções deAndriette Lenard e Juan Rochieri. Anoto que, do francês, traduziApollinaire (antologia sob o título O Besouro que Dorme no Coraçãoda Rosa, extraído de um dos poemas), Aimé Césaire (Antologia,em coautoria com Edson Nelson Ubaldo), Saint-John Perse(Anábase e poemas esparsos) e Lautréamont (Poesias I e II, antes deCláudio Willer, mas que não as publiquei por ter ele se antecipado,sem saber dessa minha aventura). Do italiano, traduzi poemasde Montale, Quasimodo e Ungaretti. Do espanhol, narrativas deBorges e poemas de Antonio Machado e Lezama Lima.34) Já houve alguma adaptação de sua obra para cinema, teatro,música? Como você vê esse trânsito/diálogo entre as artes? Já pensouem criar outra arte que não a escrita? O conto “O Monge Astheros”, encartado em Os Milagresdo Cão Jerônimo, foi adaptado para o cinema (curta). Trata-se deAstheros, produzido por Isabela Hoffmann e dirigido por Ronaldodos Anjos, autor do roteiro, lançado em 2011. Para o cinema estásendo adaptado o livro Espelhos Gêmeos (narrativas). O roteiro e a 39
  32. 32. direção são de Fábio Brüggemann. O título provisório do filme éPequeno Tratado das Perversões (subtítulo da obra). Lembrei-me,agora, que, sob a supervisão de Dennis Radünz, a artista argentinaYannet Briggiler está ultimando os desenhos animados de“Mirsânia, a Estrategista”, conto incluído em Alçapão para Gigantes.No que se refere à música, o pianista Alberto Andrés Heller acompôs para um poema gravado. E o maestro Gustavo LangeFontes (da Orquestra Filarmonia de Santa Catarina) criou, em datarecente, composição para a narrativa poética “Preso na Garganta”,inserida em Ao Som do Realejo. Meu filho Alexandre (conhecidocomo Alê Prade), músico e artista plástico, está criando as trilhasmusicais da “Antologia de poemas gravados”, com a finalidade defutura publicação. Quanto ao teatro, escrevi, há muitos anos, OReino ou a Paralisia, anunciada (1963) em Este Interior de SerpentesAlegres. Perdi os originais. Nunca mais me atrevi a reescrevê-la,ou a escrever outra, muito embora uma ideia (já incrustada numconto inédito) venha perseguindo o dramaturgo e ator frustrado.Não sei se vocês sabem, mas fui um dos atores da peça Como elementiu ao marido dela, de Bernard Shaw, dirigida por AníbalNunes Pires. Contracenei com Aparecida Dutra e C. RonaldSchmidt. Percorremos o interior do estado de Santa Catarina coma mesma dignidade dos que acompanharam a trupe de WilliamShakespeare. Estou, no momento, orientando um grupo teatral deSão Paulo, que pretende apresentar peça em torno da vida e obra deHilda Hilst. Se sobrar tempo, pretendo redigir uma peça acerca doscontatos dessa escritora com os mortos, utilizando-se de gravadorese outros expedientes técnicos. Ah, ia esquecendo de responder: (a)o diálogo entre as artes é estimulante (toda arte é dialética), mas otrânsito entre elas não constitui irremovível exigência (valem porsi sós); (b) pensei em ser pintor (usando colagens), mas a inibição(reconhecimento introspectivo da falta de talento) é maior que apretensão; (c) tenho fotografado coisas abstratas (diminutas).35) A indagação poética contida na primeira das elegias de Duíno,que você faz referência numa entrevista para o DC Cultura, tem esta 40
  33. 33. dicção: “Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos anjos me ouviria?”Por que é a preferida? Sempre me agradaram as hierofanias poéticas. Entre elas,sobreleva essa, de raiz celeste, do aristocrata e místico Rainer MariaRilke, poeta que li com devoção no início de minhas atividadesliterárias. Não fiz a escolha desses versos misteriosos apenas porgostar de Elegias de Duíno, seu melhor livro ao lado de Sonetos aOrfeu, mas porque, ao contrário do suposto por muitos exegetasdistraídos, o Anjo, nele, como deduz com percuciência Otto MariaCarpeaux, não é um símbolo religioso (o conformado espiritualismorilkiano sempre foi questionado). É símbolo estético, perfeita Obrade Arte, encarnação da beleza, ideia inacessível que, ao mesmotempo, torna o homem consciente de sua imperfeição. Talvez assimdiscorra por reconhecer no espelho o homo aestheticus, impactadoao saber, lendo a “Segunda Elegia”, que todo Anjo é terrível. Issonão quer dizer que ponho à esquerda o Angelus Novus de Paul Klee,ou outro ser angelical, se o Anjo, como alertou Rouanet, lembradopor Merquior, prossegue o trabalho que Édipo deixou de concluir. 36) Na mesma entrevista, afirma que o livro mais lido por você é aBíblia, com ênfase no Apocalipse? Você vê o Apocalipse para além docunho mitológico e literário? Leio a Bíblia desde jovem. É o melhor livro dos prodígios,metáfora delirante do Juízo Final, a mais rica expressão universal daMitologia. Nela, encanta-me, até às lágrimas e ao riso (dependendodas passagens de humor nem sempre branco), o “Apocalipse deSão João”, o mais notável precursor da literatura fantástica. É afonte bíblica por excelência da novela Relatos de um Corvo Sedutor,catapulta de imagens, subvertida ao extremo (não obstante aestrutura linear com o encaixe rigoroso dos breves capítulos), tipode pletora de milagres sucessivos às avessas, armazém literárioaproximado ao do imaginário violento da escatologia católicaapostólica romana. São inúmeros os Apocalipses (vários apócrifos)e textos escatológicos análogos. Nada me interessam fora doseventos mitológicos e do substrato poético/ficcional. Não ando por 41
  34. 34. aí à procura do Anticristo (ou dos anticristos menores), com terçonas mãos.37) Após nosso longo diálogo, percebemos que você reconhece quehá em sua obra “fértil terreno” para abordagens analíticas. Como sesente tendo tanta consciência de seu labor? Faço tal afirmação porque, além de poeta e ficcionista, tenhopraticado crítica literária e de artes plásticas. Por essa razão, achofundamental a autocrítica. Conheço minhas limitações e eventuaisvirtudes literárias. Abstraio, quando leio o que escrevi e escrevo,supondo-me outro escritor. Nesses estágios de leitura, percebodeterminados aspectos, e imagino que algum intérprete possaanalisar pontos ainda não aflorados ou aprofundados. Exemplifico:nenhum crítico fez análise vertical e exclusiva de temas em tornodo humor (a poeta Maria José Giglio foi a primeira, en passant,a aflorá-lo num comentário); da écfrase (Álvaro Cardoso Gomesabordou-a em breve ensaio alusivo só à ficção); das hierofanias(Marco Vasques detectou-as, lendo texto canônico de MirceaEliade); do ocultismo (alguns analistas o exploraram, em artigos,mas sem notável aprofundamento); do cubismo literário (como o dalinhagem de Murilo Mendes); das viagens (por ora, Dennis Radünzredigiu posfácio ao livro Ciranda Andaluz e Abelardo Arantes Jr. oposfácio ao Tríplice Viagem ao Interior da Bota); da comparaçãocom os universos dos pintores Bosch e Brueghel, o Velho (sãomínimas as referências); das raízes filosóficas (Wittgenstein,Nietzsche, Hegel); fenomenológicas (Merleau-Ponty, Husserl) epsicanalíticas (Jung, Lacan); dos fetiches (enrustidos ou explícitos);dos aforismos (embutidos), e, de forma mais abrangente e enfática,da Gnose. Convém consignar que Álvaro Cardoso Gomes escreveurecente obra analisando toda ficção; Benedicto Luz e Silva fez, emlivros distintos, abordagem devotada à mitopoética (do primeiroaté Além dos Símbolos), ao misticismo, ao esoterismo e ao erotismo,compreendendo os textos poéticos posteriores; Jayro Schmidtdebruçou-se sobre a linguagem; Mirian de Carvalho mergulhounas vertentes do barroco e Franzina Ancona tratou do mito e do 42
  35. 35. rito na escritura. O que falta, pelo visto, é o número bem maior deleitores.38) Se você tiver que escrever uma carta a um jovem poeta à maneirade Rilke, o que você diria? Já respondi a essa pergunta, ao ser entrevistado, em 2007,encontrando-se a resposta no livro Diálogos com a LiteraturaBrasileira – II, de Marco Vasques. Reproduzo o seu inteiro teor.Resposta: depende. Se o destinatário for um poeta medíocrecomo Franz Xaver Kappus (a prova é o soneto de pé quebrado quesuponho ter sido escolhido por Rainer Maria Rilke por piedade),de nada adianta dizer algo prestável, inclusive a sugestão contida naprimeira das cartas a ele enviadas (a única com originalidade, pois asposteriores constituem orientação tautológica), quando, insistindona necessidade de voltar-se ao íntimo do ser, aconselhou-o, alémde aproximar-se da natureza, a confessar a si mesmo “se morreriacaso fosse proibido de escrever”. Contudo, se o jovem pretendente apoeta tiver talento e vocação, deve buscar a sua própria identidade(marca, para não dizer estilo), como o fez Flaubert até chegar àobra-prima Madame Bovary, submetendo os textos das criaçõesao teste da gritaria (gueulade) para encontrar o som/significadoda mot just. E ler, ler muito, à exaustão, os melhores do gênero,vivendo a poesia. Afinal, como disse Dufrenne, não me lembroem que livro o li, a virtude da poesia é um hábito. Tal leitura, éclaro, não deve ser dispersa. O ideal é fazer uma lista (dirijo-me aosiniciantes) como Pound o fez, escolhendo os canônicos. E lembradoseja que paideuma tem função pedagógica (vem do grego paidos,criança). Aliás, o termo não foi criado por Pound, ainda que, antesde seu advento, tenha se referido à organização do conhecimento,contemplando-se o passado, o presente e principalmente a geraçãofutura. Ele, na verdade, ressuscitou-o do antropólogo Frobeniuse com vantagem pragmática. Quanto ao ensinamento de W. H.Auden, ele também sugeria a procura da companhia dos poetas deexcelência, os bons, no mínimo, mas não muito além do próprionível do interessado. E propunha, recordo-me, num texto tratando 43
  36. 36. das relações do poeta com a cidade, a universidade de poesia deseus sonhos, onde o aluno, a par da memorização de versos, estudode línguas, biblioteca sem livros de críticos, deveria cuidar deum animal doméstico e cultivar um pequeno jardim. Tudo bem,mas receio que o jovem, querendo ser poeta, acabe se tornandoveterinário, ou apenas jardineiro, sem, antes, como Wittgenstein,ter possuído o necessário conhecimento.39) Você disse,  ao jornalista Dorva Resende,  que Cantos de Maldororfoi o livro que mais o perturbou. Por quê? E por que você queria terescrito Uma Estação no Inferno de Rimbaud? Perturbou-me a violência literária (transgressora e selvagem)do texto em movimento, sua adesão à crueldade e ao domínio dasperversões de todo gênero, além da fenomenologia da agressãoconstatada por Bachelard. Atraíram-me, também, o corpo febrile atemporal das metamorfoses, a lógica dos avessos dialéticos, aatmosfera luciferina, a celebração do Caos ordenado, a construçãodelirante, o mundo-ponta-cabeça, a escritura das negaçõessuperpostas, o pensamento analógico, o pendor antropofágico,a naturalidade do absurdo, o versátil regime da ambivalência, osreflexos dos sentidos ocultos, os luminosos excessos da linguagem,a paródia abusada, a subversão da lógica tradicional, a afeição pelosparadoxos e contrastes, os reinos mesclados, o humor cáustico, ojogo labiríntico dos espelhos, os rosários de blasfêmias, a gnosedo mal, a alteridade consentida (homenagem ao duplo), enfim, ocomplexo processo de criação. Processo que implica aproximaçõescom o meu modo de ver, sentir e escrever, guardadas as devidasproporções. No que alude à obra Iluminações - Uma Cerveja noInferno (na tradução provocante de Mário Cesariny) ou Estaçãono Inferno (o título inicial era Livro Pagão ou Livro Negro, redigidonum paiol, em Roche, Charleville), de Rimbaud, a resposta ésimples. Não me impressionaram, apenas, o caráter confessional,a explosão criativa, a estridência vocabular, a nostalgia da infância(retorno à felicidade perdida), a obscuridade carregada de sentidos,a catarse purificadora, as expressões irônicas, o tom crepuscular 45
  37. 37. do estilo, o virtuosismo, a brutalidade e a inocência irmanadas, aconjuração de Satã querido (identificado com Verlaine), os mitosdo paganismo, o estranhamento das alusões, a adoção do conceitonietzschiano “mais além do bem e do mal”, os saltos temporais,o triunfo do espírito sobre a matéria, a capacidade profética e astentativas de vidência, as imagens insólitas e alucinadas (em quepese a precisão imagística), o crime como meio de autodestruição,as paródias sublevadas, a energia vulcânica, a reinvenção doamor, a preferência pelo Oriente, as incursões cabalísticas, arebelião contra o destino, mas, sobretudo, gostaria de tê-la escrito(destacando os trechos de Alquimia do Verbo – Delírios II) por terRimbaud criado nova estética, inovado a linguagem ao dissolvera versificação clássica e ao remagnetizar as palavras comuns, valedizer, ao inaugurar a prosa poética sem precedentes na câmara daimaginação.   40) O livro que mais o perturba é o de um jovem que morreu obscuroaos vinte e quatro anos. O livro que você gostaria de ter escrito é de umjovem que abandonou a literatura. Como você chega à maturidadecom tanta vitalidade literária? A paixão pela literatura é a responsável pela atribuídavitalidade. Sou leitor voraz, compulsivo. Acho que a leitura diáriacontribui de modo e forma intensos para estimular a memória.Aprende-se a escrever lendo, e lendo muito. E o tempo disponívelpara esse mister é vital. Sendo maior, e bem aproveitado, fermentaa criatividade literária.  41) Existe a possibilidade de Péricles Prade escrever um romance? Escrevo um romance, há dez anos, intitulado O AlquimistaSonolento. Está inacabado porque empaquei no 13.º capítulo. Brincocom os amigos, alegando ter estacionado porque a décima terceiracarta do Tarô (um dos arcanos maiores) é a da Morte. Precisoremover essa existencial resistência. Pretendo escrever outroromance, acerca da visão de Hermann Kafka sobre as conturbadas 46
  38. 38. relações com o seu genial filho escritor. E se porventura asatividades profissionais permitirem, desejo redigir, após concluiros contos projetados, duas novelas: uma atinente às desventurasdo poeta Fernando Pessoa, devido à chegada, em Lisboa, do magoAleister Crowley com sua amante predileta, e, outra, sobre umcirco fantástico (nem sempre o é), a partir das memórias de umvelho Leão Pensador.42) Seus filhos Priscila e Alexandre Prade estão envolvidos comatividades artísticas, mas não a escrita propriamente dita. Existiualguma vontade que eles continuassem o seu legado de escritor? Priscila é respeitada fotógrafa e produtora de teatro (juntocom Andrea Francez). Como fotógrafa faz, em seu estúdio, ensaioscom celebridades, além de fotografar filmes e peças teatrais, apedido de vários diretores. Alexandre é músico (integra a bandaacompanhante de Marisa Orth) e compositor de talento, além depremiado artista plástico e poeta. Ele tem intimidade com a escrita.Escreveu o livro Pólen de Timbres (poesia), publicou crítica musicalem revistas especializadas e concluiu a obra teórica Poética daEscuta. Tenho mais três filhas: Luana, produtora de moda; Camila(palestrante) e Giovanna (professora), psicólogas, ambas com obrasescritas sobre a especialidade. Todos, com devoção, cumpremo que o destino lhes reservou. Se não os pressionei para seremadvogado(as), agi e ajo do mesmo modo no que toca às respectivasopções profissionais. E se o caminho for o dos escritores, aplaudireide pé.43) Qual o significado da escritura para você? Conseguiria seimaginar sem escrever? Não chego ao exagero de dizer, na esteira de Rilke, quemorreria caso fosse proibido de escrever. Para mim, maiordo que o ato de escrever, é o prazer a priori da escritura, a faseembrionária do processo criativo, espécie aproximada da cosamentale leonardiana. Se proibido fosse, escreveria tudo na mente, 48
  39. 39. compondo particularíssima biblioteca interior, guardada namemória. Sou cerebral por natureza. Se isso ocorresse, a angústiapor certo seria inevitável. Tornar-me-ia doente sem cura. Ofato é que não me imagino nessa negativa condição existencial,problemática ao máximo. De toda sorte, a escritura tem profundo emarcante significado espiritual (construída na mente ou transpostaao exterior), a ponto de ser imprescindível para o exercício do laborliterário, tanto na poesia quanto na ficção. Pensar de outro modo éendossar a possibilidade dessa intolerável punição. A escritura é aprópria vida que se move, impulsionada pela irreprimível força daspalavras. 44) Por que e para que você escreve? Depois da resposta que William Faulkner deu em uma desuas entrevistas, entre as raras lembradas por Bella Josef, ele, aquie agora, com ou sem permissão, responderá por mim à costumeirapergunta: “A finalidade de todo artista é deter o movimento, que évida, por meios artificiais e mantê-lo fixo, de modo que, cem anosdepois, quando um estranho o contemple, volte a mover-se. Já queo homem é mortal, a única imortalidade que lhe é possível é deixaratrás de si algo que seja imortal (...). Essa é a maneira que tem oartista de escrever”. É preciso dizer mais? Claro que não. 45) Gostaria de abordar algum tema, falar sobre algo ou algumacoisa que não mencionamos sobre seu trabalho ou sobre sua vida? Se tudo fosse respondido haveria, neste instante capitoso,congelamento da obra e da vida. As lacunas, necessárias, sãoespécies latentes de lanternas mágicas que propiciam o nascimentode novas criações no espaço vital desse vazio. O relevante é quesempre terá alguém, no futuro próximo ou distante, disposto acolmatá-las. 49
  40. 40. POEMAS
  41. 41. A PERSEGUIDA A estrábica conduzidapela gôndola vorazé puro êxtase. Faz complicados sinaiscom a cruz de chumbopendurada no pescoço. Treme várias vezes na Piazza San Marcoquando o mendigoaponta o único dedomarcado por 7 pombas formosas. E assim vaientre canais,pedindo aos remos mais rapidezaté que seja ela mesmaparte da ancestral paisagem. (Tríplice Viagem ao Interior da Bota, Letras Contemporâneas, 2007) 53
  42. 42. ALUSÕESA cruz na cabeçado Unicórnio resplandeceCorno do Cristo – Aura do Touro a belezade ambos governa meu espírito nos abismosO sol é medalhaou glória quando selvagem é a alegoriano céu primitivo, pasto seminalda nação de estrelas escravasSou rinoceronte felizcirculando pelo campo. O phalos solitáriona testa reproduz a tarde angularse a força do Abençoado sobre as qualidadesrecai como pedra unigênita 54
  43. 43. A selva não se reduz à coroa de espinhosOh monge austero de mansa rebeldia,meu juiz, guardião, filho dileto, criaturaprenha pelo mistério (Em Forma de Chama – Variações sobre o Unicórnio, Quaisquer, 2005) 55
  44. 44. EXPLICAÇÃOPorque na paisagema lâmina escondeas fezes do suicida. (Além dos Símbolos, Letras Contemporâneas, 2003) 56
  45. 45. LEÃO CRESCENTEOs olhos de Rimbaud, pingentes azuissobre os sete abismos deste fardo.Temporada no Limbo, um passo à direita,outro à esquerda, quando o chicote escarlatedo algoz subtrai uma geração de lâminas.Frota de lanças brasantes, naviode espasmos, motor de músculosem direção de armada lâmpada.Crinas de talhos luzentes, asas trançadasde espumas, o Céu assim é mais ferozque o leão crescente, morcegodas estrelas, animal amado como o ventre. Paris, 4.7.82 (Jaula Amorosa, Letras Contemporâneas, 1995) 57
  46. 46. DRAGÃOZINHO DE TRÊS CABEÇASPeço perdão, oh Maria,por assim ter nascido.Uma cabeça bastariapara ser dragão querido.Também a José peço perdãopor essa grande desgraça.Ah! se pudesse ter a graçado anjo sobre um portão.Peço perdão a Picassoque desenha sob medidaqualquer cabeça perdidae faz o que eu não faço. 58
  47. 47. Também a Lorca peço perdãopelo desenho tão engraçadoem que o rabo desarrumadoparece cauda de escorpião. Granada, 7.1.98 (Ciranda Andaluz, Letras Contemporâneas, 2003) 59
  48. 48. PERDIÇÃOPerco-me na selva doce desses pelos. E se me perco, levitoentre um gozo e outro. Vê-la, revê-la, muda cavernaque às vezes canta. (Pantera em Movimento, Letras Contemporâneas, 2006) 60
  49. 49. COM SEU ALFANJE ESCARLATENão digo teu nome, inimigade ossos moventes, hábil foice rubra, caçadoragigante de pés e mãos, estas generosasplantas de cor dupla.E de quem é a coroana cabeça? É a de outroRei decepado, aqueleque não resistiu aorodopio do dervixe.Vejo o rosto sedutor, o olharoblíquo do esqueleto, o sorriso galopantedo Quarto Cavaleiro.Hoje sou Montezuma.De azeviche e turquesaé teu crânio adornadona véspera do grande sono. 61
  50. 50. Vem, espelho de luto, diagramaabsoluto do eu, colmeia de opostos,negro sol mutante, relógiosem teu número sob o tapeteescondido, Judas andróginoque não posso tocar.Escravo de armadilhasainda te quero, Budaarrependido de pele metálica.Vem, máscara do tempo, sábio riosem retornos, triunfode Petrarca, solitário dedoapontado, pêndulo gêmeo de Saturnoem Samarra, lua crescentena hora do encontroquando outro avarentoassobia no escuro. (Labirintos – Variações sobre os Arcanos Maiores do Tarô, Letras Contemporâneas, 2008) 62
  51. 51. PORTASNa quinta portaos ossos lacrados pela pesteNa quartao odor do vooem desalinhoNa terceiraas vestes de escama falsaNa segundao santo prósperoe seus crimesNa primeiraos olhos do guerreiro albino (Os Faróis Invisíveis, Massao Ohno, 1980) 63
  52. 52. ESTRELA MARINHADescer é mais simples.Mergulho no óleo, o corpo resignadodetesta a superfície.A ciranda na águalembra o brinquedo.As mãos no fundo são lâminas,reservado ritmo dos que convivemcom o outro lado do rio.A ciranda na águalembra o brinquedo.Subir não é simplesO corpo do geômetra é estrelaentre as folhas que optou. (Nos Limites do Fogo, Massao Ohno, 1979) 64
  53. 53. COMÉDIAUma comédia, esta em que a facapenetra a seda e faz na terrauma colheita de segredos.Uma comédia, esta em que a sedacobre de verde o ritmo das montanhase a umidade cansada das charnecas.Uma comédia, esta em que o campoé espaço onde crescem esperançase capins de qualquer estação.Uma comédia, esta em que os segredosficam pendurados no esqueleto do tempoà espera de novo conflito brotando.O que é drama senão a melodia da faca,a melodia da seda, a melodia das folhase todos os segredos com cheiro de antigas vassouras?- Sei, drama é desconhecer a profundidade do corte,não saber o ponto frágil e audacioso da seda,ter certeza de que na selva crescem armadilhase que a todo momento é mais forte o sal do mistérionesta comédia que é a vida em moldura de febre e dor. (Este Interior de Serpentes Alegres, Roteiro, 1963) 65
  54. 54. DECLARAÇÃO Sou a outra mancha na imagem, o avesso da fera, o espelho partido, o princípio e o fim. Sou o som da memória aquela que provoca os animais no paraíso sob a faca giratória.(Sob a Faca Giratória, Letras Contemporâneas, 2010) 66
  55. 55. PRIMEIRO PECADOO que mais detesto é germinar no campo antigoestas pupilas, hoje mortas de ver as espigasapenas como floração sem mistérios.Sou o pesado poeta urdido pela infância,este caminho de sal onde fui o afogadoe a criança de entusiasmados segredos.De todas as meninas, a que não conheceumoinhos de vento, nem pirâmides sagradas,deixou em mim um sabor de umidade nos rios.Não sei, mas os fantasmas são formas idôneasdaquilo que fui, colecionador de cigarros,colegial de repetidas piadas ou mesmoo conquistador de madrugadas impossíveis.Cresço em meu primeiro pecado,o mais autêntico, o mais puro,tão esquecido nestes diasde cansada salvação. (Sereia e Castiçal, Roteiro, 1964) 68
  56. 56. TEORIA DO CRIMEO pássaro assassinoé. Mata a sangue frio o próprio sonhoO anjose vingade outro anjo – a criança voadora – um pássaro cruel e protetor (Pequeno Tratado Poético das Asas, Letras Contemporâneas, 1999) 69
  57. 57. SEI QUE ESTOU SÓ Sei que estou só, não há luas nem serenatas e osolhos da tarde estão secos. Vejo somente meus dedos desenhando avesmalditas na água. Rasgo as folhas da árvore mística e sonolentae fabrico o navio infantil mais veloz do mundo. Sigo sua trajetóriarumo ao desconhecido. Também sou navio neste momento deespumas quentes. Gosto dele porque tem uma lagartixa tranquilacomo passageira sem segredos. Gosto porque é somente navio semilusões e esperanças, soberano à margem do sol que se aproxima damorte. Cresce o crepúsculo e não diviso mais a figuratragicômica de meu herói verde, eterno navio. Minha casa é longa e se assemelha a um quartocor de bronze. Moro com alguém que possui olhos de gatoe ama a noite. Seus cabelos de feiticeira percorrem o universoem chagas de seu corpo de subterrâneos e cansaços. Odeio seusmascotes: escorpião de porcelana e chocalho de zinco. Minha casa é longa e se assemelha a um quartocor de bronze. Preciso voltar e meus pés murchos procuram ocaminho. Conhecem todos os arbustos e todas as passagens. (A Lâmina, Literatura Contemporânea, 1963) 70
  58. 58. AVENTAL ANDALUZO corpo do pátioreduz as pálpebrasComo fruta ciganasobre o mármore sadioNão é simples a imagemdo que digo e agora:carne viva da memóriaA mão solteira é gozosaFlor do prazer sorventeNem tudo é segredo sob o avental andaluz (Guardião dos Sete Sons, Sanfona, 1987) 71
  59. 59. PROSA
  60. 60. CÁRCERE MARINHO Ninguém entendeu a razão do anúncio. Por que somentemarinheiros anões seriam contratados, se o navio era enorme? Mil e quinhentos se apresentarem no dia marcado, mas,como apenas trinta e cinco tinham comprovada experiência,foram eles os contemplados para, a partir de 18 de agosto de 1917,embarcar rumo a um país desconhecido. O comandante, corcunda, de traços mouros, tem cabelosfulvos. É gago e anda com dificuldade. Fuma cachimbo, usa sebosorabo de cavalo, e na testa franzida exibe, tatuada, a imagem deSanta Catarina de Alexandria. Come feito leões famintos, à noite,após colocar os anões, um por um, dentro do caixão de madeirafeito sob medida, com dois furos na parte de cima, e quatro noslados, para facilitar a respiração orquestrada. Os novos marinheiros, no começo da viagem, estranharamesse comportamento. Como ganhavam muito bem, fora dospadrões da época, não se importavam com a mania, se é que sepode considerar o fato de encaixotá-los com tanta perfeição,técnica e solenidade. Com o tempo (trinta anos fluíram), alguns anõesmanifestaram intranquilidade. Perceberam que, apesar de ricos,a vida célere passava, limitando-se a maioria a puxar cordas e aenfunar velas até parar de cansaço. Noves deles (os outros, convém registrar, haviam morrido)procuraram o capitão. Contrafeito, mostrou os contratos assinadose de prazo indeterminado. Com pose aristocrática, arremessou osrecibos sobre o banco, localizado no convés, prova de que pagava 75
  61. 61. em dia os valores dos salários combinados. Acrescentou, com empostada voz militar, que a alegria detodos era por ele também compartilhada. - Alegria?, disseram ao mesmo tempo, e com justificadaindignação. - Sim, a alegria de pertencerem a uma linhagem de animaismarinhos que optaram pela castidade, até o dia da morte, no fundodo mar. (Correspondências, Movimento, 2009) 76
  62. 62. O TIGRE1 O tigre dança sobre enorme e quente chapa de ferro. Os gritosexplodem na floresta. Após, com as pernas queimadas, o corpo doanimal tomba ao chão. Recolhido por monstros verdes é levadopara uma jaula luminosa, onde, prisioneiro, vê com surpresa setelâminas sagradas curtirem o belo couro de manchas selvagens.2 O tigre enfia o pescoço na boca da serpente de ouro. Ouve-se à distância o veneno escorrer pelas veias, mas o animal, afeito atorturas, resiste com resignação. As mordidas continuam, os finosdentes quase rompendo a jugular. Sem se preocupar, com tranquilidade sopra dentro daserpente que, aos poucos, converte-se em balão.3 O tigre salta ao fundo do poço, num mergulho que ultrapassaa cinco minutos, procurando em vão encontrar a arca de fogofurtada do altar do Rei Anthenor. Repete o mergulho diversasvezes, espetado, sempre, por uma afiada espada de prata que sai dabainha conduzida pelo escravo branco. Aberta a arca, ao acaso, a água corrompe o símbolo. (Alçapão para Gigantes, Letras Contemporâneas, 1999) 78
  63. 63. NO HIPÓDROMO Com o demônio nos olhos, a magra mulher lança-meum olhar guerreiro. Começo a percorrer as arquibancadas,impressionado, irritando-me com o vendedor de agulhas queinsistia na leitura de um poema imoral. Na corrida, imprimindoincrível velocidade, esbarro numa velha senhora que, perto do poçolocalizado à entrada do túnel, com fino chicote bate nas costas deum belo animal. O sangue colore os azulejos e eu me sinto feliz. Na décima quinta volta, o cavalo de crinas verdes levantavoo, planando alegre e descrevendo nos céus complicada lição dealquimia. Um senhor baixo, que se encontra sentado, retirou de umapasta negra vincado papiro, anotando apressadamente as fórmulas.Levanta-se e antes de se perder na multidão, diz com estranhasimplicidade: - Não autorizei a exibição. Hoje haverá no meu exército decavalos. (Os Milagres do Cão Jerônimo, Letras Contemporâneas, 1999) 79
  64. 64. RIO D´ORO [1441] Não foi Henrique, o navegador, príncipe de Portugal, quemme autorizou o tráfico de escravas. A verdade é que sempre tivefascínio pela escravidão. No período em que Rio D´Oro ainda era colônia espanhola,uma negra retinta, chamada Mãe Joana, foi engravidada por umespírito que não era santo. Um dia, surpreendendo até os mais íntimos, vomitou fiosde ouro numa bacia, enrolando-os, para, depois, formar novelo debrilhante consistência. Tomei conhecimento, mais tarde, de que o próprio Henrique,o navegador, príncipe de Portugal, manejava ágil maquininha noútero dela, como se fosse fiandeiro servil, para espantar vício típicoda terceira estação do ano. (Ao Som do Realejo – Narrativas Profanas, Nauemblu, 2008) 80
  65. 65. EM FORMA DE GUITARRAE ANTES DO SALTO DO LOBO CULTO Num lugarejo ainda inóspito, denominado Campeche, como arco-íris preso entre os dedos do pé enluvado, John Lennon,no trono em forma de guitarra, distribuía esmeraldas polidas eoutras pedras preciosas às gangues de adolescentes imantados peloesplendor do número 333, nascido no meio de relâmpagos doscéus do aviador Saint-Exupéry. Ele assim continuou, sem cerimônia, encostado ao marlembrando vidro estilhaçado, envolto pelas lâmpadas de fogobrando, encaixadas com perfeição nas nucas de seres indecisos quepasseavam, sem receio, nas franjas das sombras vadias emanadasdo pôr do sol. Um leão castrado aproximou-se do cadafalso, onde o músicose encontrava, e rugiu, com eficiência, diante do plenário de vozesexcitadas pelo formidável odor da fêmea de juba grisalha. Calado, noutra ponta do espaço a ele reservado, o graúdotouro manco se inclinou, pondo as patas traseiras sobre o labirintoconstruído com fios invisíveis por um odiado enxadrista de nobreestirpe helênica. Depois, aguardando o dono, fabricante de torresmoscrocantes na Dinamarca, um cão persa com cara de homemmalvado, pairando sobre a árvore secular, esboçou formidávellatido com dentes esmaltados à luz da manhã de maio. Atrás dele, uma águia revoltada furou os próprios olhos comdois ouriços caçados, recompondo-os à tarde sobre 8 bandejas deferro fundido. 81
  66. 66. Vendo tudo isso com certa melancolia, o futuro assassinadoretirou o arco-íris do pé, e tocou, sem parar, na elétrica madrugada,que, aos soluços, resistia à mudança do próximo dia. A guitarra ao longe ainda era ouvida, quando, dentro dolivro virgem, sentados sobre as ilustrações de Lewis Carroll, umlobo esquizofrênico de orelhas vazadas saltou, proclamando-sepequeno príncipe dos mundos, após rasgar, com as suas garrasatrofiadas, as páginas em branco e lacradas com uma cruz vermelhapor desconhecida entidade filatélica. Para desorientá-lo, um perfumado historiador de Jazz,servo paralítico em outra encarnação, sem sucesso ofereceu, comotestamento e prova de fidelidade, o pistom que um sábio haviaadquirido em Constantinopla, na verdade herança de divorciadosesposos afegãos. De nada adiantou a pretendida armadilha, pois o artista,jogando com força e para trás o instrumento musical, preferiu, emvez de tocar, ouvir o tropel que vinha em sua direção. (Relatos de um Corvo Sedutor, Letras Contemporâneas, 2008) 82
  67. 67. CRÍTICA
  68. 68. Terno sobre o simbolismo bauhaus de Péricles Prade Ronald AugustoIA divisa carrolliana segundo a qual, no que toca à poesia, “a questãoé fazer com que as palavras signifiquem tantas coisas diferentes”,preside a gestalt esotérica, ou o hermetismo compositivo de PériclesPrade. E em favor do que acabo de afirmar, servem de exemplotanto os livros anteriores (não importando, inclusive, o gênero)deste polígrafo de imaginário radical, como as obras que agoraserão objeto do breve comentário, a saber, Sob a Faca Giratória(poesia), Relatos de um Corvo Sedutor (prosa) e, finalmente, Casade Máscaras (poesia). Sem perder de vista a relação por isomorfia que a abordagemcrítica deve manter com a obra poética analisada — isto é, a flexãometalinguística se converte num espelhamento expandido do seuobjeto —, começo minha interpretação figural pelo compósitoem oximoro presente no título deste texto: o simbolismo bauhausde Prade. Proponho essa tensão antitética entre simbolismo(precipitações sugestivas, ambiguidades, incomunicabilidades etc.)e bauhaus (pelo que o movimento contém de apetite construtivo,rigor liminar, estilemas precursores etc.), porque no título mesmodo conjunto de poemas de Sob a Faca Giratória vislumbro essaconjunção-disjunção virtuosa e paradigmática que me permitedetectar nas poéticas vertiginosas e transversas de Péricles Pradeo enlace erotizado desse giro em abismo, o discurso criadorde mundos alternativos, com a faca que delimita as margens doconstructo verbal nas mãos de uma espécie de alucinado designerlingual. 85

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