Atualidades Concurso - Professor Buda

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Atualidades Concurso - Professor Buda

  1. 1. ATUALIDADES A ERA DA GLOBALIZAÇÃO São muitos os que defendem, desde uma posição supostamente "científica", ainevitabilidade de uma inserção passiva das economias nacionais no chamado processode globalização. Dois pressupostos estão implícitos nesta formulação: 1) a globalização conduzirá àhomogeneização das economias nacionais e à convergência para o modelo anglo-saxãode mercado; 2) esse processo ocorre de forma impessoal, acima da capacidade de reaçãodas políticas decididas no âmbito dos Estados Nacionais. Para não comprar material de "desmache" ideológico, seria conveniente relembrarque o processo de globalização, sobretudo em sua dimensão financeira - de longe a maisimportante, foi o resultado das políticas que buscaram enfrentar a desarticulação dobem-sucedido do arranjo capitalista do pós-guerra. As decisões políticas tomadas pelo governo americano, ante à decomposição dosistema de Bretton Woods, já no final dos anos 60, foram ampliando o espaçosupranacional de circulação do capital monetário. A política americana de reafirmar asupremacia do dólar acabou estimulando a expansão dos mercados financeirosinternacionais, primeiro por meio do crédito bancário - euromercados e "off-shores" - emais recentemente por meio do crescimento da finança direta. Paradoxalmente, as tentativas de assegurar a centralidade do dólar nas transaçõesinternacionais ensejaram o surgimento de um instável e problemático sistemaplurimonetário com paridades cambiais flutuantes. Essas grandes transformações nos mercados financeiros ocorridas nas últimas duasdécadas estão submetendo, de fato, as políticas macroeconomicas nacionais à tirania deexpectativas volúveis. Não foram poucos os ataques especulativos contra paridadescambiais, os episódios de deflação brusca de preços de ativos reais e financeiros, bemcomo as situações de periclitação dos sistemas bancários. Até agora, essas situações foram contornadas pela ação de última instância degovernos e bancos centrais da tríade (Estados Unidos, Alemanha e Japão). Apesar disso,não raro, até mesmo países sem tradição inflacionária foram submetidos a crisescambiais e financeiras, cuja saída exigiu sacrifícios em termos de bem-estar dapopulação e renúncia de soberania na condução de suas políticas econômicas. A inserção dos países nesse processo de globalização, longe de ter sido homogênea,foi, ao contrário, hierarquizada e assimétrica. Os Estados Unidos, usufruindo de seupoder militar e financeiro, pode se, dar ao luxo de impor a dominância de sua moeda, aomesmo tempo em que mantém um déficit elevado e persistente em conta corrente e umaposição devedora externa. Japão e Alemanha são superavitários e credores e, por isso, mais liberdade parapraticar expansiosmo fiscal e juros baixos, sem atrair a desconfiança dos especuladores.Alguns tigres asiáticos, pelas mesmas razões, também dispõem de certa margem demanobra para promover políticas expansionistas. O que é decisivo para a autonomia das políticas nacionais é a forma e o grau dedependência em relação aos mercados financeiros sujeitos à instabilidade dasexpectativas. Países com passado monetário turbulento precisam pagar elevadosprêmios de risco para refinanciar seus déficits em conta corrente. Isso representa um
  2. 2. sério constrangimento ao raio de manobra da política monetária, além de acuar apolítica fiscal pelo crescimento dos encargos financeiros nos orçamentos públicos. Além disso, do ponto de vista comercial, a "inserção internacional" dos paísescorresponde a padrões muitos distintos. Enquanto uns são protagonistas ativos naexpansão do comércio internacional, mantendo taxas de crescimento de suasexportações acima da média mundial, outros ajustam-se passivamente, perdendoparticipação nos mercados. Essa é a lição que nos oferece a decantada globalização: os países que buscarampreservar um espaço para as suas políticas macroeconômicas são capazes de sustentartaxas reais de juros baixas, administrar taxas de câmbio estimulantes e promover oavanço industrial e tecnológico, garantindo, assim, o robustecimento de seus gruposnacionais privados. A década de 80 assistiu, em velocidade eletrônica, transformações econômicas,ideológicas e estratégicas que redesenharam a distribuição internacional do trabalho edo poder, fizeram com que a humanidade sonhasse, por um momento, com o fim dasguerras, das ideologias, dos estados nacionais e da própria história. Vistas desde os anos90, entretanto, essas transformações e expectativas chocam-se com duas e paradoxaisconstatações discutidas neste artigo: primeiro, os grandes vencedores políticosideológicos da Guerra Fria foram principais derrotados na corrida econômica daglobalização, ganha pelos países que desrespeitaram algumas recomendações centraisda ideologia econômica vitoriosa, o Japão em particular; segundo, as transformaçõeseconômicas iniciadas pelos países anglo-saxões acabaram produzindo conseqüênciasque hoje estão repondo o Estado nacional numa posição extremamente difícil edecisiva: responder aos problemas sociais e econômicos que vêm sendo gerados pelaprópria globalização. Novas Idéias ou velhas utopias? O espaço aberto pela fragilização da utopia socialista, nos anos 80 deste final deséculo, foi rapidamente ocupado pelas duas outras matrizes ideológicas que ajudaram averbalizar, organizar e legitimar os conflitos sociais e nacionais que, desde asrevoluções políticas e econômicas do século XVIII e a Paz de Wesfália de 1648,marcaram a trilha do desenvolvimento capitalista. Apesar de seu conflito radical,coincidem ambas, neste momento, no questionamento à legitimidade dos Estadosnacionais e à eficácia de suas políticas públicas frente às transformações econômicas epolíticas vividas pelo mundo nos últimos 10 anos. Assim, por um lado, o nacionalismo, extremamente belicoso mas defensivo, de basesobretudo étnica ou religiosa, tem sido a linguagem com que inúmeras minorias eregiões, em várias latitudes do mundo e sem maiores pretensões econômicas, vêmquestionando "por dentro" a legitimidade política dos seus Estados. Sobretudo daquelesnascidos depois da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais (mais da metade dos cercade 180 existentes hoje), por obra, no primeiro caso, da crença wilsoniana naautodeterminação nacional, e no segundo, dos processos de descolonização forçadospelos movimentos de libertação ou pela pressão externa norte-americana. Para não falar,é óbvio, daqueles que ainda nem lograram consolidar-se depois do estilhaçamentorecente da União Soviética. Mas, neste final de milênio, tem sido o cosmopolitismo liberal, na forma de umprojeto político "benevolente" porém expansivo e de um ultraliberalismo econômico,que vem erodindo "por fora", e de maneira mais inapelável, as bases em que sesustentaram materialmente a legitimidade e a eficácia dos Estados nacionais. Nessepapel, o velho liberalismo ressurgiu no final dos anos 70, com a vitória das forçaspolíticas conservadoras nos países anglo-saxões, como a linguagem que se impôsprimeiro a todos os países capitalistas e, com o fim dos regimes socialistas, acabou setransformando num projeto "global" dos países industrializados do Ocidente para areorganização da economia mundial. Reorganizacão política de um mundo liderado
  3. 3. militar e ideologicamente por um só país, e de reorganização econômica de umcapitalismo que alcançou em definitivo as dimensões de um mercado mundial. Desilusões e Contraprovas Desde 1992, entretanto, o compreensível otimismo liberal que sucedeu 1989 vemsendo abalado por acontecimentos econômicos, políticos, culturais e militares queparecem estar desmentindo as previsões mais otimistas a respeito de uma nova ordemmundial econômica e política. Da impotência da "comunidade internacional" frente àsguerras regionais e ao desrespeito aos direitos humanos até a impotência da rodadaUruguai do Gatt; do desmantelamento do sistema monetário europeu às crises ético-políticas vividas pelos partidos que comandaram a vitória conservadora dos anos 80; doincontrolável aumento do desemprego estrutural, que já alcança a cifra de 35 milhões dedesocupados nos países desenvolvidos da OECD, ao fracasso da coordenaçãomacroeconômica dos G3, G5 e G7; da rápida desilusão com relação à ,revoluçãocapitalista no Leste Europeu às reações fascistas frente às imigrações provocadas pelasvitórias ocidentais contra o Iraque e contra o mundo socialista etc., acumulam-se fatos ecifras que apontam numa direção oposta à do fim da História, da universalização dacultura e dos direitos humanos, do fim das ideologias, do potencial de expansãoilimitada de uma economia desregulada e do desaparecimento dos Estados nacionais. O processo de globalização passou a ser - nos últimos anos - unia expressão correntena literatura e no noticiário cotidiano. Sua presença e sua influência são suficientementemarcantes para que não possam deixar de ser consideradas. No entanto, a identificaçãoprecisa do fenômeno é algo que continua a demandar esforço de conceituação. Como noexemplo das dificuldades relativas em identificar a floresta e cada uma das árvores quea compõem, são muitos os textos que tratam do tema, mas ainda poucos os que tentamcaracterizar os elementos que constituem a globalização. Essa caracterização pode ser feita sob diversas óticas, uma vez que o Processo deglobalização, por sua própria natureza, afeta diversos aspectos das relações sociais. Neste capítulo, o tema é abordado sob uma ótica estritamente econômica. Não existeaqui a pretensão de conceituar globalização, se é que isso é factível. O objetivo principalé mostrar que - mesmo de um ponto de vista econômico - o termo globalizaçãocompreende, de fato, uma variedade de fenômenos. Para alguns deles a vinculação éimediata, enquanto, para outros, é preciso especificar em um nível mais elaborado asrelações de causalidade. O texto está dividido em sete seções que contemplam, inicialmente, a controvérsiaconceitual associada à compreensão do processo de globalização e alguns dos principaisantecedentes e peculiaridades desse processo. Nas seções seguintes, o capítulo mostraIndicadores quantitativos que ilustram a existência do processo de globalização; discuteas conseqüências para as novas formas de competição entre empresas e sistemaseconômicos nacionais; mostram alguns paradoxos inerentes ao processo deglobalização; e discute algumas implicações para as políticas nacionais de economiasem desenvolvimento. Controvérsia Conceitual A primeira dificuldade em lidar com a idéia de globalização é a variedade designificados que têm sido atribuídos a um mesmo fenômeno. Essa variedade éexplicável, em parte, porque este é um processo cujo impacto se faz sentir em diversasáreas. De uma perspectiva estritamente financeira, a um maior grau de globalizaçãocorrespondem, de forma simultânea: (a) um aumento do volume de recursos; (b) um
  4. 4. aumento da velocidade de circulação dos recursos; (c) a interação dos efeitos de A e Bsobre as diversas economias. A análise das implicações dessa integração financeira em nível internacional é,contudo, controversa. Como lembram Devlin / Fírench Davis / Griffith-jones (1995), aapreciação desses movimentos permite uma interpretação positiva, se eles sãomovimento internacional de capitais pelas regulamentações nacionais. Entretanto, essesmesmos movimentos suscitam temores de que essa mobilidade crescente possaalimentar movimentos especulativos em grande escala, aumentando os riscos dediversos tipos para as diversas economias. De uma perspectiva comercial, o processo de globalização se traduz em umasemelhança crescente das estruturas de demanda, e na crescente homogeniedade daestrutura de oferta nos diversos países. Isso possibilita a apropriação de ganhos deescala, a uniformização de técnicas produtivas e administrativas e a redução do ciclo doproduto, ao mesmo tempo em que muda o eixo focal da competição - de concorrênciaem termos de produtos para competição em tecnologia de processos (Svetlicic,1993).Como conseqüência, a competitividade na fronteira tecnológica passa implicar custoscada vez mais elevados em termos tanto de pesquisa e desenvolvimento de produtos,quanto da necessidade de mecanismos de consulta freqüente aos clientes, para provisãode assistência técnica e adaptações da linha de produção. A competição passa a ocorrerem escala mundial, com as empresas freqüentemente reestruturando sua atividade emtermos geográficos, e sendo beneficiadas tanto pelas vantagens comparativas de cadapaís como pelo próprio nível de competitividade de cada empresa (Nakano, 1994). Do ponto de vista do setor produtivo, observa-se uma convergência dascaracterísticas do processo produtivo nas diversas economias (que se traduz nasemelhança do tipo de técnicas produtivas, de estratégias administrativas, de métodos deorganização do processo produtivo, etc.). Entretanto, não existe consenso quanto aos efeitos da globalização sobre a estruturaprodutiva. Ao mesmo tempo em que se argumenta que ela pode estimular àconsolidação de oligopólios em nível mundial a evidência disponível questiona essatendência à concentração por empresa. Por exemplo, em OCDE (1992) e UNCTAD (1994), a globalização é definida apartir do processo produtividade. Uma fração crescente do valor produzido decorre deestruturas de oferta interligadas em nível mundial, envolvendo um uso crescente deacordos cooperativos entre empresas, como um instrumento para facilitar a entrada emmercados específicos, ampliar o acesso a tecnologias, compartilhar riscos e custosfinanceiros. Em tal contexto, as empresas transnacionais - núcleos dessas estruturas deoferta - são aquelas com melhores condições para apropriar-se das vantagens dessascadeias de valor adicionado. Como corolário, o processo de globalização envolveria algum tipo de convergência,e no limite haveria a predominância de uma ou poucas empresas dominantes. A evidência disponível, entretanto, apesar de confirmar a existência de uma crescenteinteração do processo produtivo de diversos países, põe em dúvida a existência de umprocesso paralelo de concentração de poder em algumas empresas individuais. Comoargumenta The Economist (1993), tal convergência levaria a um número cada vezmenor de empresas transnacionais; o que se observa, contudo, é que não apenas onúmero dessas empresas aumentou nos últimos vinte anos, como elas tendem aconcentrar suas operações em termos regionais, sendo relativamente reduzidos osexemplos realmente universais. De uma perspectiva institucional, a globalização leva a semelhanças crescentes emtermos da configuração dos diversos sistemas nacionais, e a uma convergência dosrequisitos de regulação em diversas áreas, levando a maior homogeniedade entre países.Ao mesmo tempo, contudo, reduz-se a probabilidade de sobrevivência de esquemas
  5. 5. cooperativos entre países (ao menos da forma como se observou no passado), asmodalidades de relação jurídica entre as empresas e os Estados nacionais tendem a sercada vez mais uniformes, (Albavera,1994), e surge, no cenário internacional, umconjunto de atores como grande capacidade de influência, em comparação com o poderdas nações (Morss,1991). Por último, no que se refere à política econômica, a globalização implica perda dediversos atributos de soberania econômica e política por parte de um número crescentede países, aí incluídos tanto as economias em desenvolvimento, quanto os paísesmembros da OCDE. As magnitudes relativas envolvidas são de dimensões tais que, em diversos aspectos,os instrumentos convencionais de política econômica tornam-se inócuos. Haja vista, porexemplo, os efeitos do influxo de recursos externos sobre as políticas cambiais dospaíses da América Latina no período recente, Se os movimentos das paridades entre odólar e outras moedas fortes. Por outro lado, como conseqüência mesmo da globalização, a agenda de políticasnacionais passa a ser sobre determinada por condicionantes externos. Assim, porexemplo, a política salarial tem menores graus de liberdade, porque os requisitos decompetitividade externa requerem a preservação de um nível mínimo da relaçãocâmbio/salários, a política fiscal é condicionada pela necessidade de manutenção decertos estímulos à produção de bens comercializáveis, o tamanho do déficit fiscalpossível é limitado pelo nível das taxas de juros (uma vez que taxas acima dedeterminado patamar induzem movimentos desestabilizadores de arbitragem de capitaisprazos), entre outros aspectos. ORIGENS HISTÓRICAS Antecedentes e Peculiaridades Historicamente, o desenho das políticas econômicas foi afetado de distintasmaneiras, pela relação entre as economias nacionais e o resto do mundo. Num primeiromomento, a intensificação desse vinculo a partir das facilidades de transporte(sobretudo desde o século XVI) envolveu uma série de considerações relativas àampliação do acesso à ampliação do acesso a insumos mais baratos, mercadosampliados, e contato com novas tecnologias, entre outros efeitos. É a chamadainternacionalização das economias. Um conjunto complementar de novos aspectos com os quais a política econômicanacional foi levada a aprender a conviver surgiu com os processos de integraçãoregional, sobretudo da forma como os conhecemos a partir dos anos 60 deste século.Complementaridades na produção, redução dos graus de liberdade no desenho depolíticas nacionais devido a compromissos comuns, entre outros elementos, passaram aconstituir um novo desafio para aquelas economias que buscaram na integração uminstrumento de reforço para sua competitividade internacional. São os desafios deregionalização. Uma das peculiaridades que distinguem o processo de globalização de toda aexperiência anterior é que, como conseqüência de sua forma e intensidade, seus efeitossão mais intensos e se superpõem aos anteriores, além de que - a diferença, porexemplo, da regionalização, em que aspectos políticos ou de outra índole podem levarao fracasso de um processo - por sua própria natureza, sua tendência é de constanteampliação, afetando, embora de forma variada, a todos os países. Esse é um processo relativamente recente. Seus antecedentes estão associados àredução do dinamismo da economia norte-americana desde o final dos anos 60, emparalelo ao dinamismo das exportações asiáticas, e à redução do ritmo de aumento daprodutividade nas economias norte-americanas e européia (Oman, 1993.
  6. 6. Como é sabido, isso motivou a ascensão ao poder - tanto nos Estados Unidos comoem diversos países da Europa de equipes econômicas comprometidas com adesregularização e redução do grau de intervencionismo nos mercados. As medidas depolítica adotadas por essas economias para fazer face aos problemas de inflaçãocrescente com queda do ritmo de atividade - elevação das taxas de juros,desregulamentação dos mercados financeiros, de transportes e de comunicações -ocorreu em forma simultânea (e de fato estimulou) o avanço tecnológico em duas áreas-chave para a globalização: a de comunicações e da informação (processamento dedados). A percepção do fenômeno A base de partida para a globalização tem sua origem nas condições favoráveis aocrescimento do comércio internacional que sucederam a Segunda Guerra Mundial. Pelaprimeira vez, surge a noção de uma economia mundial em sentido estrito, com asuperação das barreiras entre as áreas sob influência econômica ti;, libra esterlina, dofranco, etc. (Griffin/Khan,l992). Além disso, as diversas rodadas de negociaçõesmultilaterais no âmbito do GATT resultaram na remoção de barreiras tarifárias e outras,o que possibilitou um aumento sem precedentes do volume de comércio, em ritmosuperior ao crescimento da produção: nas três décadas entre 1950 e 1980, a taxa médiade crescimento anual do comércio mundial superou sistematicamente o ritmo decrescimento da produção por entre 2 e 3 pontos de percentagem, elevando o grau deabertura da maior parte das economias (UNCTAD, 1994). A partir do final da década de 50, a maior parte das moedas européias tornou-seplenamente conversível, o que levou à internacionalização dos mercados financeiros,um processo que se intensificou na década de 70. Os empréstimos bancários, querepresentavam menos de 1% da produção em 1991, superando o valor do comérciomundial e- talvez mais importantes - passando a corresponder a um terço a mais que ovalor total dos investimentos em capital fixo: a massa de recursos financeiros emdisponibilidade passou a superar a capacidade de demanda por parte do setor produtivoreal. A globalização financeira transcende, contudo, a expansão do setor bancário, e estáintimamente associada à desregulamentação dos mercados financeiros. Algunsindicadores são suficientemente ilustrativos da intensidade do processo. Em 1950, os bancos e as seguradoras detinham três quartas partes dos ativosfinanceiros nos EUA. Em 1993, essa participação havia caído para pouco mais de 40%,enquanto a participação dos fundos de pensão, fundos mútuos e outros agentes não-bancários subiu de aproximadamente 10% para mais de 50% no mesmo período (Zini,1995). Outra conseqüência da desregulamentação foi o aumento dos recursos emcirculação em terceiros mercados (sobretudo paraísos fiscais), o que elevou adisponibilidade financeira em áreas fora do controle das autoridades monetárias e fiscais(Oman, 1993), fonte importante de financiamento para as fusões de empresas, tãofreqüentes na década de 80. Estima-se que hoje o mercado de derivativos gire perto deUS$ 15 trilhões ao ano. A isso devem ser agregados os grandes investidoresinstitucionais (fundos de pensão e fundos mútuos) norte-americanos, com adisponibilidade de recursos hoje estimada em cerca de US$ 8 trilhões, as seguradores efundos de pensão europeus, com ao menos outros US$ 6 trilhões, e outros componentes,como o mercado de câmbio, que movimenta aproximadamente US$ 1 trilhão por dia. É importante ressaltar que esse processo não ocorre como contraparte de umaretração dos investimentos. De fato, estima-se (UNCTAD, 1994; Agosin/Tussie, 1993)que a relação entre o estoque de investimento direto externo e a produção mundial teriadobrado, passando de 4,4% em 1960, para 8,5%, trinta anos depois: o investimentoexterno tornou-se mais dinâmico que a formação de capital nacional (como urna sériede implicações paralelas, a serem discutidas mais adiante), ao mesmo tempo em que a
  7. 7. movimentação financeira internacional passou a superar em grande escala os sistemasfinanceiros nacionais. Essas são, talvez, as características mais conhecidas do processo de globalização.Mas existem outros aspectos tão relevantes quanto esses que devem ser levados emconsideração. Um deles é o movimento de arbitragem entre moedas. O tipo de investidor maisimportante nesses mercados atualmente (sobretudo fundos mútuos e fundos de hedging)é essencialmente diferente dos bancos e agências de desenvolvimento multilaterais, queproviam a maior parte dos recursos até recentemente. Esses investidores institucionaisexigem liquidez do que nunca antes, podendo haver movimentação de bilhões dedólares em questão de segundos. Os paradoxos da globalização A percepção de que um maior grau de exposição aos mercados internacionais e amaior fluidez de recursos reduz os graus de liberdade dos governos locais não é nova. Jáhá décadas que autores como Servan-Schreiber (1967) e Poulantzas (1974)manifestavam sua preocupação com essa menor liberdade dos governos nacionais, emfunção das características do capital estrangeiro e da subordinação das prioridadesnacionais aos interesses multinacionais. Com a maior intensidade dessa exposição - inerente às facilidades de comunicação, àmaior disponibilidade de recursos financeiros, sua velocidade e sua capacidade decrescimento, à rapidez de transmissão dos choques, às novas formas em que se dá avinculação de produtores e consumidores com o mercado, e outras característicasdescritas anteriormente - chega-se a um conjunto de paradoxos, inerentes ao processomesmo de globalização. O primeiro desses paradoxos está associado à crescente importância que tem sidodada às políticas nacionais requeridas para adaptar os sistemas produtivos a um graumaior de interdependência com outras economias. É consensual o diagnóstico de que acompetitividade no mercado internacional requer estímulos localizados e ambientefavorável aos níveis macro e mesoecônomico, entendidos como tal estabilidade depreços, preços relativos alinhados, disponibilidade de instituições eficientes paracanalizar poupança para a área produtiva, para gerar e difundir tecnologia, etc.Entretanto, a operacionalidade dessas políticas é dificultada pelo fato de que as própriaspressões externas tornam menos trivial a identificação dos objetivos puramentenacionais Além disso, a expansão da burocracia estatal tem, freqüentemente, esbarradono enfraquecimento do seu poder, explicável, em parte, por essa própria dificuldade emjustificar a existência de diversas atividades públicas na ausência de um projetonacional. Um segundo paradoxo tem a ver com a simultaneidade do processo de globalização ea crescente regionalização. Como lembram Oman (1793) e UN (1992), a globalização éum movimento de deslocamento através das fronteiras de agentes econômicos. Trata-se,essencialmente, de um processo centrífugo, associado ao movimento de fatores deprodução e de empresas. O regionalismo, ao contrário, está relacionado com apreservação e estímulo a valores locais. A globalização tem seu impulso primário nomovimento de variáveis microeconômicas, e a partir das estratégias das empresas,enquanto a regionalização é largamente determinada por decisões políticas. Asfacilidades em transportes e comunicações levam a uma homogeneização dos mercados,enquanto a preservação dos valores regionais induz à fragmentação desses mercados. Essa aparente discrepância entre a globalização e a tendência regionalista pode, noentanto, convergir para um ponto comum (Griffin/Khan,1992). A valorização dosaspectos regionais induz a um tamanho menor do Estado, porque requer liberdade, nosentido da autodeterminação. A liberalização requerida pelas transações globais, e acriação de um mercado integrado global, por sua vez, tornam possível a pequenos
  8. 8. Estados explorar economias de escala na produção, de forma compatível com asiniciativas definidas no âmbito local. Um corolário desses dois movimentos simultâneos e aparentemente incompatíveis éreduzir algumas vantagens relativas das economias com mercado interno grande: osacordos comerciais entre Estados permitem superar as limitações impostas pelasdimensões reduzidas dos mercados nacionais. Um segundo corolário é que a opção porunidades administrativas menores homologa, de fato, uma tendência universal: dado ocrescimento demográfico, em países com grandes dimensões torna-se crescentementedifícil a administração de forma centralizada. O terceiro paradoxo implícito no processo de globalização tem a ver com o processonegociador das condições em que terão lugar as transações econômicas. De um lado, asnegociações continuam a ter lugar formalmente entre os Estados-nação, através defóruns estabelecidos. Ao mesmo tempo, contudo, observa-se um aumento gradual eexpressivo da importância relativa das empresas transnacionais como novos agentesdeterminantes do cenário internacional, sem que de parte desse conjunto de agentes sejapossível identificar um interlocutor autorizado (Morss, 1991I). Outro paradoxo decorre de a globalização ter sido acompanhada da emergênciagradual de um mercado de trabalho internacional, a ponto de a regulamentação da mão-de-obra qualificada migrante ter se tornado um tema importante nas agendasnegociadoras internacionais. Ao mesmo tempo, contudo, dado que a mobilidade demão-de-obra ainda é, em geral, bastante inferior à de outros fatores, a globalizaçãoaumentou as opções disponíveis para as empresas transnacionais lidarem com uma forçade trabalho dispersa (UNCTAD, 1994). A diversificação de linhas de produção e asubcontratação tornaram-se mais fáceis de ser adotadas, graças à dispersão dasestruturas negociadoras trabalhistas. A globalização induz à ênfase em educação e treinamento para evitar perda derecursos através da migração de capital humano, assim como a manutenção - viarepressão salarial ou outras formas - de custos reduzidos, como forma de manter acompetitividade no mercado internacional. As economias nacionais são crescentementesubstituíveis, do ponto de vista locacional: as decisões de investir passam a ser tomadasnão a partir das dotações de fatores, mas a partir das vantagens construídas. A infra-estrutura em transportes e comunicações assume uma importância sem precedentes,tanto por sua contribuição à qualificação dos trabalhadores (facilita o acesso ainformações), quanto porque é condição básica para o tipo de processo produtivointerligado. A globalização homogeniza padrões de demanda (através das facilidades decomunicação, uniformização de preferências, etc.), ao mesmo tempo em que leva àfragmentação produtiva e à diferenciação dos produtos. Além disso, a globalizaçãoestimula, simultaneamente, a competição entre empresas e a formação de aliançasempresariais, permitindo o rompimento de oligopólios estabelecidos (Oman, 1994). Umparadoxo adicional associado à globalização e, portanto, à individualização da produçãocomo contraparte da universalização do consumo. As Novas Formas de Competição A noção convencional de política econômica está associada ao conceito de Estado-nação. Boa parte das decisões que afetam objetivos, como o crescimento econômico, operfil distributivo da renda e outros, são consideradas tradicionalmente como resultantesda interação entre as políticas dos Estados e a ação dos agentes econômicos no espaçonacional. De acordo com essa lógica, a relação econômica entre unidades nacionais ocorreatravés dos mercados onde são transacionados seus produtos e eventualmente os fatoresde produção.
  9. 9. Num sistema globalizado - a diferença dessa concepção convencional - a relaçãoentre unidades nacionais passa a não ser mais limitada às transações nos mercados debens e fatores. O processo produtivo adquire uma racionalidade distinta, na medida emque diversas unidades nacionais passam a ser componentes da mesma estruturaintegrada de geração de valor, ao mesmo tempo em que aumenta a fluidez detransmissão de normas, valores e rotinas operativas, condição necessária para acrescente homogenização produtiva. Por outro lado, vista da perspectiva da empresa, a condição de globalização implica amaximização de benefícios a partir da busca da melhor localização de suas atividadesem nível mundial, associada à padronização dos produtos e ao desenvolvimento devantagens comparativas. As estratégias globais levam à procura da redução de custos, àespecialização das linhas de produção, estabilidade e controle de qualidade crescente naoferta, o que leva à crescente eficiência e maior grau de competitividade (Albavera,1994). Além disso, os vínculos entre empresas em economias distintas têm aumentado emritmo acelerado, e os tipos de formas de associação entre empresas são cada vez maisvariados, desde participações acionárias tradicionais a associações (joint ventures),exploração de franquias, e acordos de subcontratação, entre outros. A razão econômicapara isso é apresentada a seguir. Uma das peculiaridades da economia global é o aumento de importância dos fluxosde investimento direto externo. A contraparte desse fenômeno - decorrente da própriamagnitude desses novos agentes - é que boa parte das ações e decisões vinculadas aosprocessos de produção e distribuição tem lugar cada vez mais no interior das empresasglobais, e depende menos dos vínculos locais entre empresas nacionais. RELAÇÕES INTERNACIONAIS BLOCOS REGIONAIS E A EXPERIÊNCIA DO MERCOSUL BLOCOS ECONÔMICOS Com o final da Guerra Fria que separava o mundo em dois grandes blocos,comunista e capitalista, desencadeiam-se transformações políticas e econômicas nocenário internacional de maneira a acomodar as novas relações entre países. Agora,menos fundamentados na identidade de sistemas políticos, reestruturam-se e constroem-se novos vínculos cada vez mais apoiados em bases comerciais. A desintegração do bloco socialista produziu ainda conseqüências importantes nomeio capitalista, de certa forma comparáveis a efeitos colaterais. Ao mesmo tempo emque o socialismo deixava de ser a força de coesão de um dos blocos do sistema bipolar,acarretando o seu enfraquecimento e posterior dissolução, o outro perdia o sentido decontinuar existindo dentro da mesma configuração anterior. Portanto, resolvidas, aomenos em tese, as questões externas, a preocupação que ganha prioridade no seio docapitalismo aponta para questões internas que ameaçam não apenas a manutenção doconjunto, mas também a condição hegemônica que os EUA mantiveram até aquelemomento em que o mundo dividia-se em dois pólos. Enquanto diminui a importância dos confrontos militares e ideológicos, cresce aforça do mercado no equilíbrio internacional e as disputas migram para um novo sítio,onde comércio e economia são parâmetros cada vez mais importantes. Ao mesmotempo, o discurso do capitalismo atualiza-se e passa a promover a liberação multilateral
  10. 10. dos mercados como base para um novo ordenamento internacional, menos sujeito amovimentos políticos que possam criar restrições à circulação do capital e,conseqüentemente, à reprodução das suas formas de dominação. Ganha importância ochamado processo de globalização do mercado. Essas transformações, que promovem a condição comercial e colocam em segundoplano, ao menos aparentemente, a capacidade militar, possibilitam a emergência denovas potências no novo cenário de mercado globalizado. Surgem o Japão e aAlemanha unificada, que por sua vez catalisam em torno de si a tendência, nem tãorecente, de formação de blocos de nações com identidade de interesses políticos eeconômicos. Os EUA passam, assim, a dividir a condição de potência econômica no âmbitomundial com outros dois grupos: a Comunidade Econômica Européia, que tem aAlemanha como seu mais forte integrante, e o bloco asiático, construído em torno doJapão e dos chamados tigres asiáticos. Essa dinâmica dos centros de poder, antes de ser traduzida como um novoordenamento mundial, deve ser compreendida através dos aspectos de ordem política eeconômica, próprios de cada país e região, que se inter-relacionam com o sistema dedominação pelo capital e dividem o mundo em nações centrais e periféricas. Outrossim, antes de afirmar que existe um processo de regionalização contrapondo-se à globalização dos mercados, cumpre analisar os interesses e condições que podemestar orientando nações e respectivos governos num ou noutro sentido, além dequestionar se a formação de blocos regionais está limitada àqueles já conhecidos ou seesta não é uma situação intermediária que, no futuro, conduzirá a um mundointeiramente globalizado. Observa-se, ainda, que o assunto possibilita duas linhas de abordagem: uma queenfatiza os movimentos de ajuste na produção e nas trocas de bens e serviços, caminhoda globalização produtiva e que orienta o desenvolvimento deste trabalho, e outra queprivilegia as transformações decorrentes da circulação de ativos financeiros, caminho daglobalização financeira. Em vez de excluírem-se, as duas abordagens complementam-se, sendo esta última tradicionalmente mais adotada por economistas e tão relevantequanto a primeira na investigação dos fenômenos que se relacionam com aadministração pública. Aspectos relevantes Alguns aspectos relacionados com o reordenamento internacional que está seprocessando merecem ser observados com maior detalhe, de forma a permitir aidentificação de relações que, à primeira vista, poderiam passar despercebidas. Destamaneira além da utilização de conceitos claros, os parâmetros considerados nainvestigação são fundamentais para o aprofundamento da capacidade analítica. No que se refere às relações internacionais, dois parâmetros básicos são responsáveispor suas orientações: os interesses Nacionais, materializados pelos Estados-nações quetêm por atributos a defesa da soberania e a realização de seus interesses no espaçointernacional, e o poder, representado pela capacidade de impor ou viabilizar umavontade política (Martins, 1994:116). Portanto, entender os fenômenos que ocupam o ambiente internacional implicaanalisar os diversos interesses Nacionais que permeiam as relações entre países,principalmente as relações de poder, tanto coercitivo - imposto através dos aparatosmilitares - quanto hegemônico - aceito pela adoção de modelos políticos e ideológicosdisseminados pelas nações mais poderosas. Daí que a queda do comunismo, além de encerrar um cicio de poder bipolarizado, aoinvés de conduzir os EUA à condição de única potência econômica mundial, abre
  11. 11. espaço para a formação de um sistema multipolarizado - decorrente de uma alocação derecursos desequilibrada, em favor do aumento do poderio bélico e em detrimento dosinvestimentos em produção de riquezas que os EUA realizaram durante o período daGuerra Fria - e o crescimento de outras nações que se mantiveram à margem desseconflito. Assim, com a vitória do capitalismo, surgem outras nações poderosas que têm seuspróprios interesses. Ao mesmo tempo, transformam-se as relações de dominação entrenações, que passam a se exercer mais pela hegemonia do mercado, meio que permite acirculação do capital, do que via coerção, diminuindo aparentemente a importância dopoderio militar. O equilíbrio de forças no cenário internacional, por vem atribuído deforma simplista ao poder comercial das nações, passa a ser determinado pela capacidadedos que se encontram no mercado de viabilizarem seus próprios interesses Nacionais -econômicos, políticos e sociais. Esse aumento de complexidade do papel do comércio no equilíbrio mundial deforças vai determinar a necessidade de um processo que discipline o mercado em favorda continuidade do exercício da denominação do capital, apoiada na divisãointernacional do Trabalho, e que vença as resistências a essa dominação. Esse processodisciplinar se estabelece através de uma microfísica da economia, promovendo as açõesde agentes individuais - empresas, bancos, pessoas -, estimulando as ações de governono sentido da desregulamentação financeira, da redução das barreiras comerciais e denovos desenvolvimentos tecnológicos, buscando reduzir a distância econômica entrepaíses, regiões e agentes econômicos, e tendendo a reduzir a soberania econômica dosgovernos (Oman, 1992:162). Porém, mesmo rompida a estrutura de poder bipolarizado do período da Guerra Fria,ainda é necessária a "organização de uma contra-hegemonia, ou seja, de projetoscoletivos para um futuro alternativo" (Przeworski, 1994:82). A possibilidade detransformação não ocorre apenas a partir do rompimento do ordenamento anterior, mastambém devido à existência de alternativas que, por sua vez, irão propiciar aos agentesenvolvidos uma escolha política. Tomando emprestada a análise que o sociólogopolonês Przeworski faz do processo de liberalização em governos autoritários, em que aabertura política acaba criando graus de liberdade para a formação de organizaçõesindependentes que irão produzir alternativas à reformulação do sistema político, pode-sedesenvolver um modelo semelhante que explique o processo de regionalização. Nessecaso, é no grau de liberdade que surge a partir da progressiva liberação dos mercadosque as nações tem a possibilidade de se organizar como grupo em torno de seusinteresses comuns, o que, conseqüentemente, vai permitir a concepção de alternativaspolíticas que possam modificar a composição do quadro de forças e determinar umreordenamento internacional. Portanto, um sistema de mercado globalizado, que preconiza a inexistência derestrições comerciais, mesmo entre economias e sociedades desiguais, é apenas uma daspossibilidades para um novo ordenamento e, talvez, pouco provável numa situação emque várias nações dividem os centros de poder. Outra possibilidade é a regionalização,que se apresenta de forma mais ou menos explícita, dependendo das características dasnações que se associam e, principalmente, daquelas que centralizam e comandam oprocesso. Assim, a regionalização tem-se apresentado como uma forma integraçãopolítica e econômica que, além de permitir, de maneira privilegiada, o mútuo acesso dospaíses aos seus mercados, visa à concretização de interesses comuns. Retomando o exame do jogo de poder que agora se desenvolve, observa-se que, entreas suas regras e objetivos, destacam-se a liberação das restrições comerciais e, própria aqualquer situação de livre competição, a redução do número de concorrentes, quer pelaaquisição comercial, quer pelo dumping, quer ainda pela introdução de novastecnologias, sendo os dois primeiros proibidos por regras adicionais desse mesmo jogo -leis antitruste e antidumping - e o terceiro estimulado pelas legislações de proteção àpropriedade intelectual (Guimarães, 1993: 44).
  12. 12. A microfísica da economia, que como se viu atua no sentido de estabelecer regraspara eliminar barreiras comerciais e implantar um equilíbrio de mercado via livreconcorrência, em um movimento contrário legitima um processo de desequilíbrio ou decriação de vantagens comparativas, em favor dos produtores e detentores de novastecnologias. Por outro lado, como a capacidade dos agentes individuais de gerar novastecnoIogias depende da estrutura econômica da sociedade e de sua capacidade dearticular a produção de conhecimentos científicos e o parque industrial, a redução dasoberania econômica dos governos, decorrente do processo de liberação do comérciointernacional, acentua mais ainda esse desequilíbrio de mercado (Guimarães1993:44,49). Neste contexto, as potências comerciais que emergiram ao final do conflitoamericano-soviético, e Japão juntamente com os EUA, o vencedor da disputa,estabelecem um novo arranjo de forças, no qual o poder está apoiado em três pólos e osdiscursos coincidem com os princípios liberais de multilateralismo, não-intervencionismo e eliminação das barreiras comerciais entre países, porém as açõescaminham no sentido de criação de regiões de comércio privilegiado, manutenção deprotecionismos (principalmente no que concerne à propriedade intelectual e à difusão denovas tecnologias) e integração, em maior ou menor grau, de sistemas políticos eeconômicos regionais. Na retórica, globalismo e regionalismo são fenômenos queseguem uma mesma tendência para o ordenamento internacional; na prática apresentam-se como categorias irreconciliáveis. Características principais de algumas regiões Apesar de significativas diferenças com relação aos diferentes níveis de integração,tanto econômica como política, três blocos regionais destacam-se no cenáriointernacional: Comunidade Econômica Européia, bloco asiático e Nafta. Além destes,desenvolvem-se pelo mundo negociações em torno da criação de outros, regionais ousub-regionais, destacando-se entre eles o Mercosul. Cabe também ressaltar que, de acordo com a tendência de formação de blocosregionais a partir de interesses comuns - solução de problemas sociais e ambientais,identidades políticas, situação geopolítica, posição no cenário internacional -, existegrande possibilidade de que "mais cedo ou mais tarde um quarto bloco gravitará emtorno desse país imenso e rico, (...) a Rússia" (Neves, 1994:421). Em outras palavras,existe uma grande possibilidade de que o "Segundo Mundo", como se chamava o grupodas nações comunistas, realize sua reinserção no cenário internacional - que ora serelaciona segundo um novo ordenamento - pelo menos em parte como outro blocoregional, mas isso é apenas uma hipótese que não será aqui explorada. Comunidade Econômica Européia (CEE) Formada a partir da assinatura do Tratado de Roma, em 1957, visando criar umaassociação entre nações através da integração do comércio e da agricultura, a CEEprevia a livre movimentação de bens, serviços, capital e pessoas. Em 1986, devido à preocupação com a competitividade nipônica e americana,realiza-se uma emenda importante ao Tratado de Roma, o Tratado de Unificação daEuropa, que lança a "Europa 1992" e trata da eliminação de todas as barreiras àmobilidade no continente. Mais tarde, em 1991, na reunião de Maastricht, e de acordocom o objetivo de formação de uma economia social de mercado, são definidos oselementos da Europa social e implementos os seguintes pontos: formação daComunidade Ambiental Européia, consolidação de um roteiro e agenda para a UniãoMonetária Européia, e fortalecimento do papel da Comissão da CEE para estabelecer,via votação majoritária, as diretrizes e os regulamentos necessários à remoção debarreiras, bem como os meios para harmonizar os regulamentos internos, dos países-membros (Ostry, 1994:365-6).
  13. 13. Entre os principais grupos regionais, a CEE ocupa posição de destaque, sendoresponsável por quase 40% do total das exportações mundiais, além de apresentar omaior volume interno de comércio - cerca de 60% do total exportado são comércios,entre os próprios países-membros - e a mais equilibrada relação entre exportação eimportação, representada por um déficit comercial relativamente baixo, equivalente amenos de S% do total exportado (United Nations, 1994). Mesmo assim, o seu nível de desemprego é bastante elevado, em torno de 9,3% dapopulação economicamente ativa, o que indica a probabilidade de um aprofundamentoainda maior da política regionalista, de maneira a privilegiar a produção interna emdetrimento das importações, objetivando ampliar a oferta de empregos. Outro aspectoque aponta para a mesma direção é a tendência de aumento do número de integrantes dobloco, que, a partir de 1995. passará de 12 para 15, em virtude das adesões da Áustria,da Finlândia e da Suécia (United Nations, 1994). Características da CEE - Tipo de integração: profunda, político-econômico-social. - Integrantes: 12 países (Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Grécia,Holanda, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Portugal, Reino Unido). - Futuras adesões: Áustria, Finlândia, Suécia. - PIB: US$ 6,673 trilhões. - População: 347,1 milhões. - População economicamente ativa: 155,O milhões. - Percentual desempregado: 9,3. - População desempregada: 14,4 milhões. América do Norte - Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA) O Nafta teve as suas bases estabelecidas em 1985, a partir do Acordo de LivreComércio Canadá/EUA (FTA), um acordo bilateral de comércio envolvendo dois paísesque, historicamente e devido a condições geopolíticas favoráveis, apresentam-se comoparceiros Comerciais naturais, apesar da grande diferença entre o tamanho daseconomias de cada país e a importância nas respectivas balanças comerciais. Para oCanadá, essa relação repre representa cerca de 70% do seu volume de exportações eimportações, além de serem oriundos dos EUA aproximadamente 80% dosinvestimentos estrangeiros, ao passo que, no outro sentido, o mercado canadenseresponde por cerca de 20% das exportações e importações americanas. Numa fase seguinte, a partir de 1991. iniciaram-se as negociações para o Acordo deLivre Comércio da América do Norte (Nafta), desta vez um acordo trilateral, incluindoo México no grupo que anteriormente firmara o FTA. Tal como o Canadá, o Méxicomantém com os EUA uma relação comercial que representa cerca de 70% das suasexportações e importações e de 64% dos investimentos estrangeiros. No entanto, asrelações de comércio e investimentos entre Canadá e México são tênues, estando abaixode 1,5% do total comercializado por cada país (United Nations, 1994), situação quereflete a dificuldade, no nível microeconômico, de se desenvolver uma estratégia norte-americana, bem como a manutenção de uma política de investimentos bilaterais naregião, sendo estes efetuados por empresas americanas e negociados independentementecom cada um dos outros dois países, conforme o caso. No que se refere àregionalização, o ponto fundamental para o futuro do Nafta é a política de investimentosentre os seus integrantes, mais importante, aliás, do que suas relações comerciais (Ostry,1994:369-71). Com um nível de desemprego próximo daquele da CEE, o Nafta, por outro lado,enfrenta um significativo desequilíbrio em sua balança comercial, ou seja, um déficitem torno de 24% das suas exportações, condições suficientes para recomendar medidasde restrição às importações e que privilegiem a produção interna, típicas dos acordos
  14. 14. regionais. Apesar disso, verifica-se que a falta de uma política de investimentosconsistente, como a que é adotada no bloco asiático, além de dificultar a reversão dessequadro, toma o Nafta um acordo tão frágil quanto a estabilidade econômica dos seusmembros menos desenvolvidos, mais especificamente o México (United Nations,1994). Na recente crise mexicana foi possível observar como o investimento externo fugiudo país ao menor sinal de instabilidade, agravando uma situação em que o governo,tendo reduzido suas possibilidades de intervenção devido à adoção de um modelopolítico liberal de economia desestatizada, obteve em troca de sua autonomia umaestabilidade econômica e um fluxo positivo de capital que, na realidade, não são tãoestáveis nem tão positivos. Características do Nafta - Tipo de integração: apenas uma área de comércio privilegiado. - Integrantes: três países (Canadá, EUA, México). - PIB: US$ 6,743 trilhões. - População: 367,8 milhões. - População economicamente ativa: 170 mima. - Percentual desempregado: 7,2. - População desempregada.- 12,2 milhões. Bloco asiático - ASEAN Estruturadas em torno do Japão, as relações de comércio e investimentos na Ásiaoriental praticamente dobraram na segunda metade da década de 80, igualando-se aovolume de comércio com a América do Norte, marca que foi ultrapassada já no iníciodos anos 90. A valorização da moeda japonesa a partir de 1985 acarretou a elevação docusto de exportação no Japão e desencadeou uma reorientação dos investimentosjaponeses em direção aos países da Ásia oriental, que cresceram cerca de seis vezesdurante a segunda metade da década de 80. Tal crescimento, embora um pouco menosacelerado, se mantém no decorrer dos anos 90. Analisando as transformações que estão ocorrendo no bloco asiático, observa-se quesua integração está mais calcada em uma política de investimentos do que noestabelecimento de uma zona de livre comércio, como no caso do Nafta. Maisimportante que a redução dos custos de produção, o desenvolvimento de um sistema deprodução integrado e flexível, voltado para os diferentes mercados que se apresentam,tem sido o principal fator responsável pelo crescimento comercial da região e pelacoesão de um bloco tão pouco institucionalizado (Ostry, 1994:373). Com relação àformalização de um acordo regional, a exemplo de outros grupos regionais, existemdois aspectos que, se não dificultam, ao menos não contribuem para tal formalização. Primeiramente, a grande diversidade de culturas, idiomas, religiões e formas degoverno não é tão grande se comparada com a de países de outros continentes,prevalecendo fatores geopolíticos que permitiram que a grande convergência deinteresses, desenvolvida a partir da estratégia de investimentos do Japão, tomassedesnecessário um acordo para garantir o que o fluxo de investimentos intra-regional játinha consolidado, ou seja, a política de investimentos e comércio surgiu antes dosacordos. Em segundo lugar, a importância dos EUA como mercado importador desaconselhaum posicionamento formal de bloco regional, como no caso europeu. Afinal, a situaçãode balança comercial favorável aos asiáticos nos últimos anos deve-se também à políticaglobalizante e de livre comércio difundida pelos próprios EUA (Fishlow, 1994:396) e
  15. 15. que, no entanto, está sendo mais bem utilizada pelos países da Ásia oriental, os quais semostram globalizantes no discurso e regionalistas na ação. Com relação ao seu desempenho comercial, o bloco asiático, ao contrário da CEE edo Nafta, apresenta um impressionante superávit comercial de mais de 10% das suasexportações, situação que tende a manter-se devido à importância que odesenvolvimento tecnológico tem na política de investimentos da região. Esse bloco tem também apresentado um ótimo desempenho e, apesar de concentraruma população bastante superior à da CEE e do Nafta juntos e de possuir um parqueindustrial bastante automatizado, seu nível de desemprego está em torno de 3,2% dapopulação economicamente ativa. Características do bloco asiático - Tipo de integrarão: processo que vai além de um acordo comercial, porém sem ograu de institucionalização da CEE. - Integrantes: 10 países (Japão, Coréia, Formosa, Hong Kong, Cingapura, Malaísia,Tailândia, Indonésia, Filipinas e China). - PIB: US$ 5,103 trilhões. - População: 1.684,1 milhões. - População economicamente ativa: 929 milhões. - Percentual desempregado: 3,2 (excluindo China). - População desempregada: 7,4 milhões (excluindo China). MERCOSUL Concebido como parte do processo de integração do Cone Sul, suas bases foramlançadas com a Declaração de Iguaçu, em 1985, a partir das iniciativas de Brasil eArgentina para criar um sistema de cooperação entre os dois países. No ano seguinte,buscando corrigir desequilíbrios de balança comercial e tomar o acordo vantajoso paraambas as partes, foram assinados diversos protocolos entre os dois países. Em 1991, através do Tratado de Assunção, é então criado o Mercosul, que incorporaao grupo outros dois países, Uruguai e Paraguai, passando, no início de 1995, estesquatro países a constituir um mercado comum (Campos, 1994:198). Comparado aos outros três grupos apresentados, o Mercosul é uma iniciativabastante modesta e não possui uma nação hegemônica consolidando as ligações entreseus membros, porém, representa um posicionamento estratégico importante, na medidaem que, ao regular as relações entre seus integrantes, minimiza a possibilidade dedesgastes entre países periféricos que, deixando de ser concorrentes, tomam-se parceirosna disputa de um melhor posicionamento num sistema de mercado que favorece aosmais desenvolvidos. Além da questão da parceria que permite ganhos de escala de forma a baratear aprodução e o desenvolvimento tecnológico, essa condição de menor destaque e maiorindependência do Mercosul em relação aos outros grupos regionais, liderados porpotências econômicas rivais nesse novo ordenamento que ainda está em formação,permite ao grupo do Cone Sul um relacionamento externo mais equilibrado, no qual aaproximação de uma ou de outra região se dá conforme as vantagens que se apresentam. Insistindo na tese de que a identidade de interesses Nacionais é que solidifica umacordo regional e que esses mesmos interesses dependem de uma política deinvestimentos que os viabilize, pode-se identificar um dos grandes desafios para oMercosul: o nível de desenvolvimento das economias envolvidas demanda
  16. 16. investimentos em infra-estrutura, tecnologia e equilíbrio social que os agentes privadostalvez não queiram ou não possam efetuar, exigindo-se então a participação dosgovernos. Assim, comparando-se o Mercosul - um acordo entre nações periféricas e sem apresença de uma potência hegemônica - com o Nafta - uma associação entre desiguais esem uma política de investimentos consolidada -, o que numa primeira análise sugereuma tendência de atraso tecnológico, desestimulo ao capital estrangeiro e menoscompetição e modernização, em um segundo momento indica que, numa situação deacirramento da concorrência mundial, as vantagens de um acordo entre iguais parecemsuperar as desvantagens de restringir os fluxos entre desiguais (Castañeda, 1994 262). No que se refere à balança comercial, a região tem mantido, unicamente devido aoBrasil, uma condição de superávit confortável de quase 20% do total exportado, além dedispor de um mercado diversificado para a colocação de seus produtos no qual oprincipal comprador, a CEE, é responsável por aproximadamente 30% das suasexportações (United Nations, 1994). Com relação ao desemprego, apesar do percentual relativamente baixo em relação aoutros grupos regionais - 5,7% da população economicamente ativa (United Nations,1994) -, o nível de miséria e subemprego é bem elevado, configurando uma situação dedesequilíbrio social típica não só do Mercosul mas de toda a América Latina. Características do Mercosul - Tipo de integração: inicialmente comercial, mas com perspectivas de compromissosmais profundos. - Integrantes: quatro países (Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai). - Futuras adesões: Bolívia, Chile. - PIB: US$ 607,1 bilhões. - População: 194,6 milhões. - População economicamente ativa: 72 milhões. - Percentual desempregado: 5,7. - População desempregada: 4 milhões. Fluxos comerciais Desde a década de 80 tem-se observado uma grande intensificação do comércioregional, no qual os privilégios e as facilidades criadas para os integrantes de cadagrupo geralmente contrastam com as limitações e as dificuldades impostas aos não-associados, determinando assim uma forma de relacionamento comercial excludente. Outra forma de se considerar os fluxos de comércio leva à constatação de suainfluência no nível de empregos e na estabilidade política dos governos, porquanto ummaior fluxo de importação acarreta uma retração do mercado de trabalho, a qual por suavez onera os programas sociais do Estado e, principalmente nas economiassubdesenvolvidas em que a política tributária está atrelada ao salário e ao número deempregados, afeta a arrecadação do governo, criando situações de déficit fiscal eorçamentário. Portanto, um crescimento do déficit comercial pode significar, além daredução da autonomia do governo em decorrência da adoção de políticas de comércioliberais, uma redução do nível de empregos, associada a uma sobrecarga nos programassociais; isso tende a comprometer os orçamentos estabelecidos a priori, favorecendoassim o surgimento de uma crise difícil de ser contornada e que atinge o Estado nosníveis da infra-estrutura e da superestrutura ocasionando inclusive rupturas e mudançasno quadro político.
  17. 17. Dessa maneira, compreende-se o desenvolvimento significativo dos fluxos decomércio intra-regionais e inter-regionais, que são de cerca de 40 e 20%,respectivamente, de todo o comércio mundial. Isso significa que 60% do comérciomundial envolvem apenas 25 países (CEE, Nafta e bloco asiático) e obedecem a algumtipo de acordo, distorção que deve acentuar-se com as novas adesões à CEE e atendência de crescimento apresentada nos últimos anos pelo comércio intra-regionaleuropeu e asiático (United Nations, 1994), indicando, entre outras coisas, uma políticade Fortalecimento de um tipo de Estado-nação constituído pela associação de EstadosNacionais cujos interesses comuns são protegidos e orientam a estratégia regional deinvestimentos. Conclusões Os dados apresentados confirmam o contraste entre as teorias que indicam aexistência de um processo globalizante inexorável envolvendo os mercados e umatendência de crescimento do comércio interno aos blocos regionais, graças a políticas deinvestimentos e desenvolvimento regionais e de concessão de privilégios visandoatender aos interesses de seus membros, em detrimento do chamado livre mercado. Poresse prisma, a regionalização contrapõe-se à globalização, buscando resgatar o conceitode Estado-nação e o poder dos governos para intervir nas relações de mercado ecompensar as desigualdades, principalmente no campo tecnológico. Porém, com relaçãoaos países não-participantes, os efeitos excludentes são os mesmos da globalização ouaté mais graves, na medida em que pode haver a associação de economias hegemônicas. Visto que as diferenças e particularidades de cada sociedade demandam políticasespecíficas, a definição dos interesses Nacionais exige um grau de soberania do governoque pode chocar-se com os princípios liberais da globalização. Porém, a interseção ouos pontos em comum dos interesses de um grupo de nações podem materializar umaestrutura em que algumas sociedades se associam visando, além de proteger-se,viabilizar seus interesses num ambiente de parceria. Um exemplo disso é a políticaagrícola adotada pela França, que permitiu fixar mais de 20% da sua população nocampo e favoreceu acordos regionais entre países com similaridades, ao mesmo tempoem que dificulta a conclusão da Rodada Uruguai do Gatt, que adota como parâmetro apolítica dos EUA, onde apenas 2% da população residem em áreas rurais (Neves,1993:21). Cabe considerar que esse tipo de situação, subjacente às relações dos blocos europeue asiático, sistemas nos quais existe uma política de investimentos mais consolidada emaior gama de interesses comuns, não reflete muito bem a realidade do Nafta, que, porcoincidência ou não, com a crise do México mostra-se uma associação bastante frágil,sem pontos comuns bem definidos e sem uma política de investimentos consistente quepermita solucionar a crise mexicana. Pelo contrário, o que se viu até o momento foi aadoção de um conjunto de políticas liberais pelo país mais pobre do grupo e. portanto,mais vulnerável às armadilhas da "livre concorrências, em troca do ingresso em ummercado ampliado e de fluxos de investimento externo que se volatizaram aos primeirossinais da crise. Mesmo com relação à ajuda financeira que o governo Clinton tenta mobilizar,permanecem as dúvidas se esta destina-se propriamente ao México ou ao socorro dosinvestidores americanos que em algum momento acreditaram no "milagre mexicano" ouaceitaram correr um risco que, no fim das contas, não em tão grande quanto parecia,pois eles contavam com a proteção de seu próprio governo, apenas teoricamente não-protecionista. Analisando as tendências do atual sistema de mercado polarizado, dividido emregiões, o qual reflete disputas de poder e uma relação de dominação entre nações oumesmo grupos de nações, através da coerção resultante da propriedade intelectual(novas tecnologias) e da hegemonia desenvolvida a partir do ideário "mercado livre",verifica-se que são limitadas as possibilidades de um sistema globalizado de cooperaçãomútua.
  18. 18. A Concorrência desequilibrada, por favorecer a atualização, em condições cada vezmais desiguais, da divisão internacional do trabalho e da relação de dominação entrenações centrais e periféricas, leva à ampliação do hiato entre essas nações até a totaldesintegração nacional, "aspecto de inviabilização global das industrializaçõesretardatárias" (Schwarz, 1994:9) Entretanto, o caráter evolutivo das relações internas e externas dos países, além depossibilitar o surgimento de novos grupos regionais, de novas coalizões entre países oumesmo a alteração e o aprofundamento das bases até então consideradas nos acordos, senão permite afirmar que o novo ordenamento internacional caminha para a globalização,também não garante que a regionalização seja um processo inexorável. Diante darapidez com que surgem instabilidades no cenário político e econômico mundial,conclui-se que estas são apenas duas possibilidades para uma nova ordem mundial queainda está em estruturação. ALCA 2005, INTEGRAÇÃO OU ENTREGAÇÃO? Ao apagar das luzes de 1994 , sob os auspícios do presidente Clinton, reuniram-seem Miami 34 chefes de Estado dos países do nosso hemisfério (a exceção foi Cuba nãoconvidada) para discutir as bases de uni acordo de livre comércio que teria conto data dereferência o mio de 2005. Fomos representados nesse encontro por dois presidentes: oque se despenha, ltamar Franco, e seu sucessor já eleito, Fernando Henrique Cardoso. A Alca (que passou assim a ser chamada pelos países do hemisfério: Área de LivreComércio das Américas) tinha um objetivo nobre e grandioso: eliminar as barreirasexistentes entre os países da região, criando assim uni mercado, comum, inicialmente debens que seriam comercializados sem a cobrança de tarifas aduaneiras. O "FTAA" firmado em Miami, apesar de nossa dupla representação, foi sancionadosem que a sociedade brasileira, por intermédio da classe política empresarial ou sindical,tivesse tido qualquer participação na decisão de subscrever aquele acordo. Na ocasião, parecia algo muito distante, remoto mesmo, e até, por que não dizer,pouco provável. Afinal de contas, a aprovação do Nafta tinha sido extremamente difícil;os resultados até então obtidos eram questionados e o Mercosul se viabilizava, masainda tinha um longo percurso pela frente para se consolidar. Inclusive, alguns analistasenxergavam a reunião de Miami mais como um ato político do presidente Clinton doque propriamente algo que dever-se-ia considerar seriamente. Teria sido um gesto deuni presidente democrata, mostrando que a eles, e não só aos republicanos o temaintegração importava (vale lembrar que a Iniciativa das Américas foi projeto de GeorgeBush). Logo em seguida, deliberou-se que os ministros de Comércio Exterior dos 34subscritores da Alca deveriam se reunir anualmente para definir um cronograma detrabalho que viabilizasse uma agenda de trabalho fictível para 2005. Diante da dimensãodo projeto, entendia-se que não havia o que esperar. Para a primeira reunião, marcada para houver em 95, decidiu-se que haveria umareunião paralela de empresários da região para que os mesmos tivessem, desde o iníciodo processo, uma atitude pró-ativa a favor da Alca. Lançou-se assim idéia do Fórum deEmpresários, que se materializou como maior clareza ria reunião seguinte, emCartagena, e que passaria a anteceder a reunião anual dos Ministros. A posição do governo brasileiro, refletindo talvez a própria apatia dos nossosempresários em torno do assunto, foi de um certo distanciamento. Não houve interesseinclusive em liderar nenhum dos grupos de trabalho que se formaram e passamos aquestionar a interpretação do que 2005 realmente implicava: a início da desoneraçãotarifária ou a Alca já em pleno funcionamento, como entendiam os Estados Unidos.
  19. 19. Vale lembrar que estávamos saindo de um processo de abertura da economia, e onosso governo. era criticado por muitos que argumentavam contra a velocidade comque essa abertura ocorreu e de muito pouco termos pedido em troca, optou por umapostura cautelosa. As empresas brasileiras passavam, ainda pelo traumático momento deajustes (abertura e queda da inflação) e para se tornar competitivas tinham que buscargrandes ganhos de eficácia e a produtividade numa circunstância em que o real havia sevalorizado acima de qualquer expectativa. Além do mais, apesar dos avanços do Mercosul, superando expectativas otimistas, oque tínhamos pela frente, principalmente na relação bilateral coma Argentina, não nosdava margem a hesitações! Tinhamos que consolidar o que já havíamos conseguido etambém atrair novos parceiros, Chile e Bolívia, que, geográfica e economicamente,mantém relação de grande importância com países do Mercosul. Portanto, não havia pressa, pois gostaríamos primeiro de ver o Mercosul consolidadoe fortalecido, para então sentarmos à mesa de negociações com uma posição melhorpara conversar com o Nafta. Havia também a preocupação, que temas de longa data,difundidos por segmentos do establishment norte-americano, pudessem serprematuramente colocados na mesa de negociação, tais como legislação social eambiental, entre outras, e que poderiam afetar as vantagens comparativas do Brasil. Assim, não é de estranhar que a representação qualitativa e quantitativa deempresários brasileiros, tanto na reunião de Denver quanto na de Cartagena, já em 96,tivesse sido muito modesta em contraste, por exemplo, com a numerosa delegaçãonorte-americana. Coincidência ou não, em meados de 96 começaram a aparecer as primeiras críticasnorte-americanas ao Mercosul e, apesar dos desmentidos, a origem parecia evidente:nossos parceiros do norte se mostravam insatisfeitos com o desenrolar do processo.Tinham pressa. Queriam avançar e sentiam que estávamos ganhando tempo! Não lhes agradava a idéia de negociação Nafta x Mercosul, e sim adesões individuaisao Nafta. Vale lembrar as diferenças: o Nafta é uma zona de livre comércio; o Mercosulé uma união aduaneira, porém não inclui serviços, propriedade intelectual einvestimentos. Para complicar ainda mais as cois as, os Estados Unidos, por intermédio da USTR,considerou solicitar à OMC (Organização Mundial do Comércio) um painel para sepronunciar sobre a legalidade do regime automotivo brasileiro. Também na primeira reunião da OMC, realizada em dezembro em Cingapura, oBrasil optou, apesar das pressões norte-americanas, por não se filiar ao ITA(Information Technological Agreement), que traria a zero as tarifas pata produtos nasáreas de comunicação e informática no ano 2000. A posição brasileira foi se prender aosacordos do Mercosul, que tem desoneração gradual a partir de 2005. Parece haver, mais recentemente, também algumas discordâncias sobre o grau deabertura que o governo brasileiro estaria disposto a proporcionar aos investidoresestrangeiros na área de telecomunicações. Curiosamente, nos Estados Unidos, após a bem-sucedida intervenção do presidenteClinton, que evitou uma crise no México que teria tomado dimensões imprevisíveis asdúvidas sobre o Nafta aumentaram, e o Poder Executivo norte-americano não conseguiudo Legislativo a autorização do "fast track" para negociar a entrada do Chile no Nafta (oque certamente deve ter facilitado a associação, mesmo que parcial, do Chile aoMercosul).
  20. 20. Assim sendo, a posição norte-americana apontava um paradoxo: um lado querendoacelerar o processo da Alca, mas internamente com dificuldades de vender a imagem deintegração hemisférica a um Congresso apático, num ano eleitoral. No entanto, é possível imaginar que as visitas programadas dos presidentes EduardoFrei aos Estados Unidos e Clinton à América Latina possam reverter esse quadro a curtoprazo. Do nosso lado, as coisas também não aconteciam da forma programa. A idéia derapidamente incorporar a Venezuela ao Mercosul, que seria bastante importante doponto de vista estratégico, principalmente para o Brasil, esbarrou nas dificuldades doPacto Andino. A Colômbia não liberou a Venezuela para uma discussão bilateral,exigindo a negociação como bloco, o que evidentemente dificultou essa negociação emtermos ainda não claramente visualizados. Mais recentemente, outro percalço no Mercosul com a Argentina, e novamente porcausa do regime automotivo: a concessão de incentivos e subsídios para a instalação deindústrias no Nordeste provocou a ira dos nossos vizinhos e protestos da OMC. Do lado empresarial, finalmente pequenos porém importantes avanços! O fato de aterceira reunião preparatória de ministros ter sido marcada para Belo Horizonte houve,em determinados momentos, a intenção de levá-la para a Costa Rica, mas o Itamaratylutou para realizá-la no Brasil) trouxe o assunto para dentro de nossas fronteiras ecomeçamos a enxergar que 2005 não é amanhã, irias também não é o dia de são Nunca! Graças principalmente ao trabalho da CNI, a quem ficou delegada a responsabilidadede organizar a agenda da reunião de maio, observa-se agora uma movimentação dasclasses empresariais até então ausentes. São artigos em jornais, entrevistas, matériaspublicadas pelos principais jornais e revistas e que, apropriadamente, colocam o assuntoem discussão. O fato de os Estados Unidos, por intermédio de representantes categorizado teremaumentado suas críticas à posição do Brasil e, pressionado para acelerar a agenda,tornou, o assunto mais presente na mídia nacional e internacional nas últimas semanas. Acresente-se que finalmente o presidente Clinton resolveu nos visitar em maio e, porcoincidência, a data da visita foi marcada para alguns dias antes da reunião de BeloHorizonte, onde desde já se sabe que a delegação americana terá grande peso! Emrecente pronunciamento na Universidade do Texas a secretária de Estado, MadeleineAlbright, não poderia Ter sido mais clara e enfática: "Política externa significaempregos". Creio que antes de concluir deveria também registrar que a posição brasileira deganhar tempo ou respeitar a agenda (se assim preferirmos) não parece ter grandesolidariedade hemisférica. A Alca, para a maioria dos países a América Latina, é atraente: os demais países têmmais a ganhar do que a perder. Como não são países de forte base industrial, ganhariammais do que sairiam podendo com uma desoneração tarifária. Mesmo a Argentina devez em quando, tentada com canto da sereia: integrar-se ao Nafta, independentementedo Mercosul. A dúvida que assalta a muitos é se a política que o ltamaraty vem adotando (queevidentemente não é sua, e sim do governo brasileiro) é a que melhor atende aos nossosinteresses. É evidente que â proposta da Alca é tentadora, mas como alguém ponderou,quando lhe oferecem o paraíso você fica em dúvida e prefere ficar alguns dias mais aquina Terra! Na realidade, não creio que tenhamos feito simulações claras do que aconteceriaquando , a Alca passasse a funcionar. Há claras e evidentes vantagens, que vão de
  21. 21. produtos de melhor qualidade a preços mais baixos e a acessarmos diretamente o maiormercado do inundo. No entanto, a dúvida é se estai-nos posicionados com um "productmix" que tenha mercado nos Estados Unidos na mesma medida medida que somoscompradores de produtos e serviços deles. Aparentemente, nosso déficit comercial comeles tenderia a se agravar, a menos que conseguíssemos êxito na desoneraçãoatualmente existente para produtos brasileiros que têm mercado lá.. Reconhecidamente, o problema brasileiro hoje é não ter aumentado a sua pauta deprodutos exportáveis para contrabalançar o aumento nas importações. mais, ouvimosque hoje não é mais exclusivamente na taxa de câmbio ou no "custo Brasil" que oproblema das exportações. É no conteúdo do que temos para exportar e o que o mundoestá querendo comprar! Portanto, com a Alca, a menos que tenhamos feito mudanças estruturais, correríamoso risco de imediatamente aumentarmos nosso déficit comercial, o que evidenciaria cadavez mais nossa maior de pendência de capitais externos para fechamento de nossascontas externas. Isso, sem falar ria falta de um inventário de que setores ou indústriassairiam prejudicados e que prazo precisariam para se ajustar competitivamente. Àsrepercussões sociais são inevitáveis, pois o problema do e virá à tona. Se de um lado são argumentos sensíveis, do outro não podemos cruzar os braços econtinuar tentando ganhar tempo! "Quem não faz poeira, come poeira", diz um ditadopopular. A um observador que não está na linha de frente, como eu, parece que a situação estáse complicando e precisamos estar melhor equipados nesse complexo jogo. O que estáem pauta não é exclusivamente mais um acordo comercial, e nossa sociedade precisaestar mobilizada. Sei que não é fácil, mas! a participação política é fundamental. Osempresários também precisam estar melhor articulados e posicionar-se junto ao governonum diálogo de parte a parte muito mais aberto. Os sindicatos, idem. Acima deinteresses corporativos ou regionalistas. Chamou-nos a atenção como os empresáriosnorte-americanos, canadenses e mexicanos atuaram coordenadamente comrepresentantes de seu governo nas negociações do Nafta. São painéis permanentes! A ofensiva tem sido norte-americana. Precisamos colocar, com veemência erepetidamente quais os nossos interesses. O que queremos preservar? O que estamos aceder? Como parceiro, mais forte e poder hegemônico, o que os Estados Unidos estãodispostos a conceder? O mercado caminha para que três blocos temiam a predominância mundial. Umliderado pelos Estados Unidos, outro pela Alemanha e o asiático pela China. Não creioque tenhamos muita escolha. Entramos nessa parada e agora não há espaço para recuos. Vamos discutir umaintegração efetiva, e não uma entregação! Neste momento, a Alca parece um projeto irreversível e não podemos deixar deassumir unia posição clara e transparente dos interesses que a sociedade brasileira querpreservar. SOCIEDADE E ECONOMIA TRANSFORMAÇÕES DO ESPAÇO PRODUTIVO E SEU IMPACTO NA POPULAÇÃO; ALTERAÇÕES NA POPULAÇÃO ECONOMICAMENTE ATIVA; OS ANTIGOS E NOVOS ESPAÇOS DE PRODUÇÃO E DE NEGÓCIOS
  22. 22. O ESPAÇO INDUSTRIAL: CONCENTRAÇÃO E DISPERSÃO ESPACIALDA INDUSTRIA Até por volta da. primeira metade do século XIX, as poucas e pequenas indústrias debens de consumo existentes no Brasil encontravam-se relativamente dispersas peloterritório. A maior parte se localizava junto as principais cidades da época: Recife,Salvador, Porto Alegre e, sobretudo, na cidade do Rio de Janeiro, capital do país eprincipal centro portuário e cafeeiro. Em 1907, o Estado do Rio de Janeiro respondia por 37,8% da produção industrial dopaís, mais que o dobro da produção do Estado de São Paulo (15,9%). As regiões Sul eNordeste participavam, respectivamente, com 19,9% e 10,8% do total nacional. A expansão cafeeira e o rápido desenvolvimento industrial ao Estado de São Paulotransformaram esse estado, desde 1920, no principal centro industrial do país. A partir da década de 30, e sob a liderança do Estado de São Paulo, a Região Sudesteaprofundou e diversificou * processo de industrialização, ampliando cada vez mais *distancia em relação às demais regiões. Em 1970, a Região Sudeste alcançava o maiselevado percentual de concentra ao industrial de todos os tempos: 80,7% da produçãoindustrial do país. Os 20% restantes estavam assim distribuídos pelas demais regiões:Sul, 12%; Nordeste, 5,7%., Norte, 1,0%, e Centro-Oeste, 0,6%. Foi somente a partir da década de 70, quando a concentração industrial e odesequilíbrio regional já eram excessivamente elevados, que o governo federal decidiuimplantar uma série de medidas voltadas para a desconcentração industrial. Porexemplo, o mecanismo dos incentivos fiscais (isenção de impostos, etc.) e os programasde industrialização das áreas periféricas (Norte, Nordeste, Sul e Centro-Oeste). São produtos da política de desconcentração industriai: os polos petroquímicos daBahia (Camaçari) e do Rio Grande do Sul (Canoas), os complexos portuário-industriaisde Suape (PE) e Itaqui (MA), e o Programa Grande Carajás (PA) entre outros. No censo industrial de 1985, embora a indústria continuasse altamente concentradano Sudeste, a participação dessa região no valor da transformação industrial do pais era10,2% menor que em 1970. O aumento percentual das regiões Sul (4,5%) e Nordeste (3,3%) no período1970-1985 foi conseqüência, sobretudo, do aumento nas categorias bensintermediários(química, etc.) e bens duráveis (automobilística, eletrodomésticos) e decapital (mecânico, etc.). A Região Norte, por sua vez, apresentou grande crescimentonos ramos eletroeletrônico (Zona Franca de Manaus) e de mineração. Distribuição regional da atividade industrial Região Sudeste Pólo industrial do Brasil, a Região Sudeste respondia, em 1985, por 49,8% dosestabelecimentos industriais, 64% do pessoal ocupado e 70,5% do valor da transforma-ção industrial do pais. Pela ordem de importância, destacam-se, em valor de produção,os seguintes ramos industriais: químico (13,7%), metalúrgico (13,3%) e mecâni-co(11,4%). Quanto à participação dos estados no valor da transformação industrial a região, oEstado de São Paulo concentrava, em 1985, mais de 70% da produção regional. São Paulo
  23. 23. Em 1985, o Estado de São Paulo respondia por 71% do valor da transformaçãoindustrial na Região Sudeste e por 47,5% do total nacional. Também nesse estado se en-contrava, em 1985, quase a metade (47%) do operariado nacional. A estrutura industrial do Estado de São Paulo está assentada em cinco ramosindustriais: químico, mecânico, metalúrgico, material elétrico e de comunicações ematerial de transportes. Juntos, eles representavam quase 60% da produção industrial doestado. As principais áreas industriais e os respectivos municípios são os seguintes: • Grande São Paulo: municípios de São Paulo (capital) e da região do ABCD (Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema), além de Guarulhos, Mogi das Crazes, Osasco, Suzano, Poá e outros. Em 1985, a Grande São Paulo respondia por cerca de 53% da produção industrial do estado. • "Interior", isto é, área externa à Grande São Paulo: regiões de Campinas, São José dos Campos, Baixada Santista (SantosCubatão), Sorocaba, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, etc.). O vigoroso crescimento industrial do interior paulista nas ultimas décadastransformou-o na terceira maior área industrial do país. A aglomeração industrial deCampinas só perde, em importância, para as regiões metropolitanas de São Paulo e Riode Janeiro. No Estado de São Paulo existem quatro grandes eixos industriais distribuídos aolongo das principais rodovias que ligam o interior à Grande São Paulo são os seguintes: • Eixo da Via Dutra: corresponde à região do Vale do Paraíba e tem como capital regional a cidade de São José dos Campos, centro das indústrias bélica e ae- roespacial do país. Partindo de São Paulo, a seqüência das _principais cidades industriais do Vale do Paraíba são as seguintes: Jacareí, São José dos Campos, Caçapava, Taubaté, Pindamonhangaba e Guaratinguctá. • Eixo Anchieta/Imigrantes: liga a área metropolitana jo planalto (Grande São Paulo) ao complexo portuário e industrial da baixada litorânea (Santos-Cubatão). O complexo industrial de Cubatão, encravado no pé da Serra do Mar, gira em torno dos ramos petroquímico (Refinaria Presidente Bemardes químico (Alba, Union Carbide, etc.), fertilizantes (Utlrafértil) e siderúrgico (Cosipa). A eletricidade é fornecida pelo complexo hidroelétrico Heury Borden, que aproveita o potencial hidráulico da Serra do Mar. A elevada concentração de indústrias em uma área onde a presença de importanteobstáculo natural (a Serra do Mar) impede uma boa circulação do ar transformouCubatão na cidade de maior poluição atmosférica do Brasil. As recentes iniciativas (final da década de 80) do governo do Estado de São Paulopara resolver o problema da poluição em Cubatão vêm obtendo progressos signifi-cativos, mas ainda não alcançaram os resultados esperados. • Eixo Anhanqüera/Bandeirantes/Washington Luís: liga a Grande São Paulo a uma das mais dinâmicas regiões industriais do Estado de São Paulo na atualidade. Além de Campinas, principal pólo industrial desse eixo, aparecem cidades como, por exemplo, Jundiaí, Piracicaba, Limeira, Ribeirão Preto e Franca (Anhanqüeira/ Bandeirantes), além de Rio Claro, São Carlos, Araraquara e São José do Rio Preto (Washington Luís). entre outras • Eixo Castelo Branco/ Raposo Tavares: desse eixo fazem parte cidades como, por exemplo, São Roque, Sorocaba (principal cidade desse eixo), Itapetininga, Marília e Presidente Prudente. Rio de Janeiro
  24. 24. O Estado do Rio de Janeiro possui a segunda maior concentração industrial daRegião Sudeste e do país. Em 1985 respondia por 14,6% do valor da produçãoindustrial regional e por 9,8% do total nacional. A estrutura industrial desse estado está assentada em três ramos industriais que,juntos, respondem por quase 50% do valor da produção industrial do estado. São eles:químico, siderúrgico e extrativo mineral (petróleo). As principais áreas industriais e respectivos municípios são os seguintes: • Grande Rio: municípios de Duque de Caxias, Nilápolis, Niterói, Nova lguaçu, Petrópolis e outros. • No Vale do Paraíba: Volta Redonda, Barra Mansa, Barra do Piraí e Resende. • Na região serrana: Nova Friburgo e Teresópolis. • No litoral: Angra dos Reis, Cabo Frio e Macaé. • No norte do estado: Campos. Minas Gerais O Estado de Minas Gerais possui o terceiro maior parque industrial da RegiãoSudeste (12,4% da produção regional) e do país (8,2% do total nacional). Mais de 60%do valor de sua produção industrial provém de quatro ramos industriais: metalúrgico(29,9%), químico (12,9%), alimentício (9,4%) e extrativo mineral (9,1%). As principais áreas industriais e respectivos municípios são as seguintes: • Grande Belo Horizonte: municípios de Belo Horizonte (capital), Betim, Contagem, Nova Lima, Sabará e outros. • Zona da Mata mineira: Juiz de Fora, Muriaé e Cataguases. • Vale do Rio Doce: Governador Valadares, Coronel Fabriciano e Itabira. • Triângulo Mineiro: Araguari, Uberaba e Uberlandia. • Sul: Poços de Caldas, Pouso Alegre e Varginha. • Norte: Montes Claros. Espírito Santo Em 1985, o Estado do Espírito Santo respondia por 2,0% do valor da transformaçãoindustrial regional e por 1,3% do total nacional. O principal ramo industrial é o me-talúrgica (25% do valor da transformação industrial total do estado), seguido peloalimentício e pelo madeireiro. No período 1970-1985, a participação do Espírito Santo no valor da transformaçãoindustria regional e nacional passou, respectivamente, de 0,6% para 2,0% e de 0,5%para 1,2%. Quanto às principais áreas industriais destacam-se, além da capital (Vitória), osmunicípios de Cachoeiro de Itapernirim, Cariacica, Colatina e Vila Velha. Região Sul É a segunda região industrial do país. Em 1985, respondia por 21,2% dosestabelecimentos industriais, 20% do pessoal ocupado e 16,5% do valor datransformação industrial dopais. O Rio Grande do Sul é responsável por 47% do valor
  25. 25. da transforma industrial regional, seguido pelo Paraná (29%) e por Coita Catarina(24%). A indústria sulista estruturou-se, desde o início, com base nas chamadas indústriastradicionais (alimentícia, têxtil, etc.). Os ramos que mais se desenvolveram foram osque se voltaram para o aproveitamento das matérias-primas locais. São os casos, porexemplo, das indústrias alimentícias (matérias-prima pecuárias), têxtil (algodão), couroe calçados (pecuária, automóveis (pinho) e bebidas (uva, mate, etc.). No setor das indústrias dinâmicas, os três principais ramos, em valor detransformação, são os seguintes: química, mecânica e metalúrgica. As duas principais áreas industriais da Região Sul são as seguintes: o eixo que liga asaglomerações industriais da Grande Porto Alegre e de Caxias do Sul, e a aglomeraçãoindustrial da Região Metropolitana de Curitiba. Outra importante área industrial é o eixoJoinvile-Blumenau-Brusque, em Santa Catarina. Região Nordeste É a terceira região industrial do País. Em 1985, respondia por 19,8% dosestabelecimentos industriais, 11.% o pessoal ocupado e 9% do valor da transformaçãoindustrial do país. Três estados são responsáveis por quase 80% da produção industrialdo Nordeste: Bahia (44,5%), Pernambuco (22%) e Ceará (11,5%). As principais áreas industriais do Nordeste são as regiões metropolitanas deSalvador, Recife e Fortaleza. A criação da Sudene (1959) e a posterior implantação do Programa deIndustrialização do Nordeste (início da década de 70) foram os _grandes marcos damoderna industrialização dessa região. A maior parte do capital, injetado na região via incentivos fiscais, e a mão-de-obraqualificada foram fornecidas pelo Centro-Sul do país. A mão-de-obra não-qualificada, aeletricidade (hidroelétricas de Paulo Afonso, Boa Esperança ou Castelo Branco eSobradinho) e parte das matérias-primas (petróleo, cobre, calcário, sal etc.) foram for-necidas pelo próprio Nordeste. A atual estrutura industrial do Nordeste é marcada pelo predomínio das chamadasindústrias dinâmicas (química, petroquímica, mecânica, etc.) sobre as indústrias tra-dicional alimentícia, têxtil, etc.). Regiões Norte e Centro-Oeste A Região Norte, apesar de contribuir com apenas 2,5% do valor da transformaçãoindustrial total do país, foi a que apresentou não apenas o maior crescimento industrialno período 1970-1980, como também a mais profunda modificação na estruturaindustrial. Observe: • Em 1970, a Região Norte participava com apenas 1% do valor da transformação industrial do país e tinha sua estrutura industrial baseada na categoria bens de consumo não-duráveis (alimentícia, têxtil), seguida por bens intermediários (extração de madeiras e minérios) e bens duráveis e de capital (mecânica e ma- terial de transporte). • Em 1980, o valor da transformação industrial elevou-se para 2,5% e a estrutura industrial estava virada de ponta-cabeça: os bens duráveis e de capital assumiram a liderança e os bens de consumo não-duráveis ficaram atrás dos bens intermediários.
  26. 26. A razão fundamental do crescimento e da mudança na estrutura industrial da RegiãoNorte foi, sem dúvida, a transformação de Manaus em zona industrial de livre comercio(criação da Zona Franca de Manaus em 1967). O ramo eletroeletrônico (televisores, rádios e aparelhos de som) e o de material detransportes bicicletas e motocicletas) passaram a dominar a produção industrial daregião. No período 1970-1980, o crescimento do ramo eletroeletrônico ultrapassou oastronômico índice de 85.000%. Os ramos de papel e papelão e de material detransporte cresceram, respectivamente, 8.719% e 4.684%. A industrialização de Manaus foi acompanhada por um intenso processo deurbanização. De 1970 a 1991 a população de Manaus passou de 283.000 para1.082.000. A cidade de Manaus concentra quase a metade (48,5%) da população eresponde por mais de 70% da economia do Estado do Amazonas. Os estados do Amazonas (62%) e do Para (26,6%), juntos, respondem por quase90% da produção industrial da Região Norte. Rondônia (7,3%) ocupa o terceiro lugar. A Região Centro- Oeste é a menos industrializada do país e a única cuja estruturaindustrial permanecia apoiada, até 1980, na categoria bens de consumo não-duráveis.Em 1980, a indústria alimentícia respondia por 29,2% do valor da transformaçãoindustrial da região. Apesar disso, o maior crescimento no período 1970-1980 ocorreu no setor dasindústrias dinâmicas, principalmente a extrativa mineral e a de bens de consumoduráveis (material elétrico). Em 1980, a participação percentual das unidades políticas no valor da produçãoindustrial da região era a seguinte: Goiás, 55,5%-, Mato Grosso do Sul, 22,6%-, MatoGrosso, 11,3%-, e Distrito Federal, 10,6% A INTEGRAÇÃO ENTRE INDÚSTRIA E ESTRUTURA URBANA Já vimos que as indústrias modernas chegaram ao Brasil depois ida Segunda GuerraMundial, ou seja, depois de 1945. Essas industrias multinacionais vieram em busca demão-de-obra barata, já que os salários no Brasil eram, e ainda são, muito menores quenos Estados Unidos ou na Europa. Também vieram em busca do mercado consumidorque existia nas grandes cidades brasileiras. As novas fábricas que nasceram nessa época não se espalharam por todo o país. Aocontrário, concentraram-se na Região Sudeste, principalmente seja, depois de 1945.Essas industrias multinacionais vieram em busca de mão-de-obra barata, já que ossalários no Brasil eram, e ainda são, muito menores que nos Estados Unidos ou naEuropa. Também vieram em busca do mercado consumidor que existia nas grandescidades brasileiras. A cidade de São Paulo cresceu ainda mais do que já tinha crescido na época do café,pois a riqueza criada pela industrialização atraiu migrantes que deixavam as regiõespobres do pais, principalmente os estados do Nordeste A cidade do Rio de Janeirotambém cresceu muito, embora mais lentamente do que São Paulo. As duas cidadestransformaram-se em metrópoles, ou seja, em enormes aglomerações urbanas. Em volta de São Paulo e do Rio de Janeiro, pequenas cidades viraram grandescentros industriais. No caminho do Rio de Janeiro para São Paulo, o Vale do Paraíba vi-veu uma grande transformação. Apareceram importantes centros industriais nas cidades

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